teologia para leigos

14 de julho de 2012

BANCA DESREGULADA E CRISE

Confiar no sistema financeiro?

A banca desenvolveu sem freios o investimento especulativo, enquanto os economistas de pensamento único garantiam que este liberalismo era essencial





O Banco de Portugal (BdP) lançou esta semana um portal na internet destinado a promover a educação financeira dos cidadãos. Segundo relata o “Jornal de Negócios” (10 Julho), o governador afirmou que o portal pretende também “reforçar a confiança pública no sistema financeiro”. Este “é sempre visto como uma entidade algo diabólica e isso é o pior que pode acontecer”. O governador tem boas razões para estar preocupado, mas não me parece que esta iniciativa vá mudar alguma coisa na forma como hoje os cidadãos vêem o sistema financeiro.

De facto, os operadores financeiros são actores centrais da crise em que estamos mergulhados.

À escala mundial, canalizaram os excedentes comerciais da China e de mais alguns países, entre os quais a Alemanha, para o sistema financeiro dos EUA, de forma a sustentar o seu enorme défice externo.

(1) Através da inovação financeira, os bancos norte-americanos exportaram para os bancos europeus “activos tóxicos” que em grande parte permanecem nos balanços com o valor nominal.
(2) Também sabemos como o colapso deste casino acabou por revelar a insustentabilidade económica e institucional da zona euro e a captura dos seus estados pela vertente especulativa do sistema financeiro.
(3) Os paraísos fiscais, as burlas através de esquemas em pirâmide, os casos Northern Rock, Dexia, bancos regionais alemães e espanhóis, as bolhas do imobiliário em vários países, ou a mais recente manipulação da Libor na praça de Londres, são apenas os efeitos mais visíveis de uma política iniciada nos anos 80 do século passado.

A ascensão da ideologia neoliberal no Reino Unido com Thatcher e nos EUA com Reagan, seguida da abolição por Clinton do Glass-Steagall Act de 1933, legitimaram uma regulamentação leve da actividade bancária.

A partir daí, a banca desenvolveu sem freios o investimento especulativo, enquanto os economistas do pensamento único garantiam que esta liberalização era essencial para o crescimento económico.

Os estudos mostram que, a partir da liberalização da actividade financeira, a taxa de lucro do sector se tornou superior à taxa de lucro do sector não financeiro. Por isso, entre 1980 e 2007, o rácio dos activos financeiros relativamente ao produto mundial subiu de 1,2 para 4,4, tendo sido em 2007, no Reino Unido, de 700%. (J.G. Palma, The revenge of the market on the rentiers, Cambridge Journal of Economics, 2009, 33).

 Foi esta embriaguez do dinheiro fácil, desligado da economia real, que levou ao colapso da Islândia, do Dubai e da Letónia, países que pretendiam enriquecer como plataformas giratórias de um sistema financeiro globalizado.

Sabendo tudo isto, ainda assim as autoridades europeias não foram até hoje capazes de criar um novo quadro regulamentar que impeça a repetição da crise financeira iniciada em 2007 e que ainda não terminou. Agora, no estilo fuga em frente, acenam com uma futura regulação europeia, supranacional, inibidora dos abusos mas respeitadora da lógica do sistema.

O governador do BdP bem pode insistir na importância do sector financeiro para o desenvolvimento das economias. Porém, enquanto não reconhecer que o sistema deve ser reformado de alto a baixo, as suas afirmações não têm crédito.

Precisamos de o ouvir dizer:

·        temos de regular a participação financeira no capital das maiores empresas para que estas ponham à frente da distribuição dos dividendos o financiamento do investimento estratégico;

·        é necessário voltar a separar a banca comercial da banca de especulação;

·        deve ser proibida a venda de títulos que ainda não se possui;

·        tem de ser reduzida a velocidade dos movimentos de capital de curto prazo e, se necessário, pelo menos parcialmente suspensa para que os países possam gerir a política monetária e cambial em favor do desenvolvimento.


Então talvez o governador comece a ganhar a credibilidade que, hoje, o cidadão comum não lhe concede. Em particular, também porque nunca demonstrou a existência de um elevado risco sistémico na falência do BPN, um caso em que o BdP surgiu aos olhos dos portugueses como um supervisor falhado, ou cúmplice por omissão.

Jorge Bateira, economista
JORNAL i, publicado em 12 Julho 2012