teologia para leigos
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5 de maio de 2018

A COMUNIDADE CRISTÃ E OS SEUS DIRIGENTES [PAUL HOFFMANN]




Cap. V - DA IGREJA DOS SACERDOTES À IGREJA DO POVO

"Nós somos o povo"
(divisa usada na manifestação de segunda-feira em Leipzig, em 1989)


Nas considerações que vêm a seguir, a minha preocupação principal será verificar como, dentro da perspectiva do Novo Testamento, se poderiam conceber futuramente as comunidades cristãs e, correspondentemente a isso, como se poderiam conceber os dirigentes das comunidades cristãs. Como ensina a experiência histórica, é aqui, na base da Igreja, e não nos escalões superiores da burocracia eclesiástica (ainda que ali se encontrem os centros da administração do poder eclesiástico), que se verificará se a comunidade cristã ainda tem condições de viver na sociedade moderna. Portanto, não se trata de desacreditar o sacerdote como dirigente da comunidade, já que, ele próprio, é o elo mais fraco e, do ponto de vista do direito, na cadeia hierárquica é o mais desprotegido. Trata-se, pelo contrário, de buscar uma forma de serviço sacerdotal que corresponda melhor ao paradigma neotestamentário da comunidade de irmãs e irmãos de Jesus e lhe permita exercer um serviço mais eficiente na comunidade. Isso implica, não só para os sacerdotes envolvidos, mas também para as comunidades, o difícil processo da compreensão mútua e da aprendizagem comum.
O exegeta, pela sua recordação dos dados da tradição neotestamentária, só pode dar contribuição modesta nesta questão. Com maior ou menor habilidade poderá mostrar as perspectivas do Novo Testamento. Todavia, a forma concreta da comunidade futura não será determinada apenas pela sua herança cristã ou pseudo-cristã, mas sim também pelas condições socioculturais da sociedade moderna. A comunidade cristã não constitui uma ilha de bem-aventurança no meio de um ambiente que se prefere apostrofar a si mesmo como ateu. Ela faz parte deste mundo e, quer queira quer não, está de múltiplas maneiras entrelaçada com as oportunidades e as calamidades do mundo. "Não há vida verdadeira no falso". Este aforismo de T. W. Adorno, na sua obra Minima Moralia, vale também para a Igreja cristã.
Consequentemente, o presente esboço, à medida que tenta desenvolver os dados do Novo Testamento com vistas a uma possível configuração futura da Igreja, representa apenas um dos lados de um processo bipolar. Do outro lado, exige-se a consciencialização da situação actual e das suas condições sociais, bem como da conciliação crítica criativa dos dois aspectos. Todavia, a experimentação da Igreja do amanhã só terá sucesso se as comunidades e seus dirigentes se empenharem neste processo de mediação: comprometidos com a inalienável herança de Jesus e solidários consigo mesmos e com o seu mundo actual.

Igreja como povo de Deus a caminho
Ainda que para a passagem do movimento carismático de Jesus à Igreja oficial tenhamos que pressupor leis sociológicas − pois um movimento carismático necessita de institucionalização se quiser sobreviver ao tempo, e, em última instância, necessita da "Igreja-grande-formato" para não se tornar seita e sucumbir ao perigo de se transformar em gueto −, com base na experiência histórica, não se pode esquecer que as formas institucionais originadas dependem das respectivas premissas socioculturais e da constelação histórica. Do ponto de vista puramente sociológico, as formas monárquica e democrática de poder são resultados igualmente possíveis do processo de institucionalização. A história das Igrejas cristãs permite constatar a existência de um vasto leque de alternativas.
Este fato também é passível de interpretação teológica. A pluralidade de formas institucionais está essencialmente relacionada com a historicidade da revelação. A experiência de Deus transmitida por Jesus não visava apenas uma nova relação com Deus, mas também uma nova maneira de convivência humana e, por isso, implicava necessariamente a formação de comunidades. A forma concreta que estas comunidades assumiram foi, sob múltiplos aspectos, consequência do livre jogo das forças históricas, mas ao mesmo tempo também dependeu do impulso original de Jesus que deu, mais ou menos às comunidades cristãs, a sua configuração característica.
Neste sentido as formas originadas têm a sua razão histórica e a sua legitimidade teológica. O cristão crente sempre descobrirá, na caminhada da Igreja através da história, os traços do Espírito que lhe foi prometido. Todavia, esta visão de fé não deverá levar a fechar os olhos às deficiências dependentes justamente do processo histórico. A forma histórica originada pode ser deficiente, quer em relação à herança de Jesus (que deve ser desenvolvida e aprofundada no processo da transmissão), quer em relação ao desafio da situação histórica (por causa de uma acomodação barata a essa situação), quer por cega recusa, que degrada a tradição ao nível de uma letra morta que sufoca a força vital e inovadora do Espírito.
Para a nossa visão cristã isso significa que também hoje devemos ver-nos como "povo de Deus a caminho", numa peregrinação através da história. O êxodo é tema permanente da Igreja. Isso exige de nós a coragem de constante mudança. As palavras de Jesus — "Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, aquele que a perder, salvá-la-á." (Mc 8,35) — descrevem a lei da nossa vida pessoal mas também a lei da vida da Igreja.

          Comunidade de irmãs e de irmãos de Jesus
No centro da acção de Jesus está a experiência da bondade incondicional com que Deus se dedica a todo homem e assim torna presente o seu Reino no meio deste mundo mau. Prometendo a justiça de Deus aos pobres e injustiçados, curando os doentes e mantendo a comunhão com os pecadores e difamados, torna experienciável, no concreto, a acção da graça de Deus aos homens e abre-lhes novas possibilidades de vida. Então, só poderemos entender os ensinamentos de Jesus como uma tentativa de motivar os homens para agirem de acordo com essa bondade e assim — nas condições ainda reinantes deste eon — experimentarem a oportunidade de uma nova maneira de convivência. Não obstante a descontinuidade histórica que existe entre a pregação do Reino de Jesus e a Igreja posterior que lhe seguiu, temos aqui o dado primordial da Igreja, como aquela esfera em que poderá ser concretamente experimentada a graça de Deus entre os homens e através dos homens.
Jesus mostra surpreendente sensibilidade para aqueles pontos nevrálgicos das relações inter-humanas nos quais o homem corre o perigo de usar o seu próximo como objecto dos seus interesses ou de tornar-se ele próprio objecto de tal abuso. Assim, não surpreende que a questão do exercício do poder e da dominação sobre os outros seja tema da sua mensagem. Com base na tradição judaico-apocalíptica, Jesus sabe que as condições reinantes à sua época não eram as relações verdadeiras, as mais coerentes: então, para Jesus, Deus transformará os últimos em primeiros e os primeiros em últimos (Mc 10,31 entre outras passagens; cf. também Lc 1,51-53). Mas também aqui Jesus não se deixa ficar pela visão apocalíptica do futuro. Sob o signo do Reino de Deus que desponta, Jesus adverte os primeiros e os grandes, ou aqueles que pretendam sê-lo, a tornarem-se os últimos, escravos (Mc 9,35; 10,42-45; Mt 18,4; 20,25-28; 23,11; Lc 9,48; 22,24-27). Isso significa no mínimo a superação das estruturas de dominação que determinam o mundo, a favor de uma configuração isenta de dominação das relações inter-humanas, pela qual um se torna irmão e irmã do outro. Aqui está o fundamento da ideia mestra da comunidade cristã.
À luz disso, a comunidade cristã/igreja não pode ser concebida senão como comunhão de irmãs e irmãos de Jesus (Mc 3, 34ss). Mateus dá a esta realidade uma expressão inequívoca e válida, quando em 23, 8 enfatiza contra toda a forma de pretensão unilateral de dominação: ''Todos vós sois irmãos". Esta ideia de fraternidade e de renúncia à dominação marca toda a parenese das comunidades cristãs primitivas na admoestação para o amor e para a submissão mútua.[1] Assim, não admira que a Igreja antiga na sua autoconcepção e na sua prática fosse dominada por esta ideia do "amor mútuo" até ao fim da Antiguidade tardia, devendo precisamente a este fato o seu magnetismo para com os de fora. A muita citada frase "Vede como eles se amam" pode parecer banalizante e sentimental. Na verdade ela indica a característica constitutiva da comunidade cristã como de uma comunidade que deve a sua origem ao amor de Deus e que constantemente pode experimentar e deve praticar este amor na força do Espírito - "o vínculo do amor".
O processo de institucionalização, historicamente necessário, sobretudo a formação das estruturas burocrático-autoritárias que hoje caracterizam a Igreja romana, está em contradição com esta experiência eclesial primitiva. Instituição burocrática e fraternidade pela sua própria natureza excluem-se mutuamente, conforme constatou M. Weber com o olhar insubornável do sociólogo. Isso pode explicar o facto de o discurso sobre a fraternidade cristã, medida pela realidade vivida, parecer a muitos apenas uma farsa e olham, "a Igreja", como um frio aparelho de poder, que só pela ideologia é que ainda se distingue de outros sistemas autoritários. A isso se opõe hoje a consciência que, em muitos está novamente despertando, de que pela sua essência a Igreja deveria ser diferente. Mc 10, 43; Mt 20, 26; Lc 22, 26: a expressão "Não seja assim entre vós" assinala esse permanente desafio a que a Igreja não pode fugir. Assim, tudo depende da seguinte questão: conseguirá a Igreja, na sua vida, e inclusivamente nas suas estruturas, dar forma adequada e confiável a esta experiência eclesial original? Para muitos isso poderá parecer a quadratura do círculo. Para a fé significa o despontar do novo mundo de Deus, e neste sentido é um postulado inabdicável da sua esperança.
A realização da ideia da "comunidade fraterna cristã", conforme novamente vem mostrando a história da Igreja, não é isenta de perigos. A comunidade fraterna como "comunhão pessoal-emocional" pode tornar-se um círculo elitista ou uma seita, que, voltando-se sobre si mesma, perde o contacto com a realidade e, como minoria, se retrai num gueto eclesial. Este é um perigo que hoje se pode observar em movimentos carismáticos ou ainda em certas comunidades de vanguarda, mas também é relevante (em matéria de Igreja universal) quando se tenta compensar a silenciosa fuga das massas da Igreja com o discurso sobre o "pequeno rebanho" e, de tal redução, se esperar secretamente a conservação do status quo. Por isso o discurso sobre a comunidade fraterna cristã necessita do corretivo da "grande Igreja", da ecclesia de Deus que inclui todos os homens, do povo de Deus composto por todos os povos. Ou seja, uma visão de Igreja tal como sob muitos aspectos é atestada pelo Novo Testamento: do pragmatismo de Paulo que procura unir as comunidades heleno-cristãs locais entre si mas também uni-las ao cristianismo palestinense, até à visão do Apocalipse de João da tal "multidão incontável de todas as nações, tribos, povos e línguas" (7,9). A existência eclesial, comunitária, não possui finalidade em si mesma, mas está ao serviço daquela acção libertadora universal de Deus, que Jesus de Nazaré anunciou na sua mensagem do reino de Deus e que, pela sua própria actividade, começou a realizar. Portanto, nem a Igreja universal nem a comunidade local podem ser concebidas como sistemas "fechados", mas como sistemas "abertos", que constantemente ultrapassam as suas próprias fronteiras em direcção ao mundo, no qual se quer realizar o reino de Deus como reino de bondade e de paz, de justiça e de liberdade, ainda que neste mundo isso só seja possível como primícia e de modo fragmentado.
Por isso a Igreja não pode evitar os desafios sociais e políticos, da mesma forma como permanece sempre comprometida com a sua origem em Jesus, que deu a sua vida por muitos.

           A comunidade não precisa de muitos mediadores
A exegese mostra: o Novo Testamento não conhece o "sacerdote do culto" no sentido de oferente e mediador entre Deus e os homens, como autoridade da comunidade. O único mediador é o homem Jesus Cristo. Na sua morte — sacerdote e vítima ao mesmo tempo — Jesus, sobretudo conforme ensina a carta aos Hebreus, realizou de uma vez para sempre expiação e conciliação, e abriu para todos o livre acesso a Deus. Esta constatação contém em si uma reserva crítica em relação a qualquer tentativa de entender o presbítero cristão como "sacerdote" no sentido da história das religiões em geral ou no sentido da sociologia eclesial. Esta reserva põe em causa, em primeiro lugar, uma certa ideia de sacerdote muito difundida na piedade popular católica, e que continua a ser cultivada em sermões de «primeira missa» e livros sobre sacerdotes, e que muito influencia as consciências. Com mais razão ainda proíbe ver potenciada esta mediação no bispo ou no Papa. A reserva dirige-se também contra modernas tentativas de, numa espécie de concepção secularizada do sacerdote, atribuir ao presbítero o papel de terapeuta, médico, exorcista ou guru.
Mas a constatação exegética de que falamos também questiona a autoconcepção das comunidades cristãs. Por que carga de água, especialmente os cristãos católicos, projectam tais expectativas de função nos membros do clero? Não indicará, isso, uma grande deficiência da autoconcepção do cristão individual? Não se trata de encontrar culpados. Diante da actual distribuição de papéis nas comunidades, a responsabilidade maior pelas deficiências da fé cabe aos "pastores", não ao "rebanho", ainda que aqueles muitas vezes sejam apenas vítimas da sua socialização. Hoje temos de responder pelas consequências de uma funesta história da "pastoral", que foi determinada pelo medo e pela descrença, e não pela confiança na assistência do Espírito, que é prometido à Igreja como um todo e a todos na Igreja.
Na visão do Novo Testamento cada membro da comunidade deveria ser determinado pela experiência cristã original do livre acesso a Deus: não recebemos o espírito da escravidão, mas o espírito da filiação pelo qual chamamos a Deus pela palavra «Pai»: somos filhas e filhos de Deus, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rm 8,15-17). Quando o Apocalipse atribui a todos, na comunidade, a dignidade de sumos-sacerdotes e senhores, põe todos os baptizados naquele contacto directo com Deus e naquela soberania senhorial indicada por estas imagens antigas: o homem real e o sumo-sacerdote como a essência do homem redimido, que se tornou independente de intermediários humanos e dominadores terrenos. Ou seja, a comunidade como lugar do contacto directo com Deus e como lugar da liberdade face à dominação.
É somente sobre esta base que se pode buscar uma relação comunitária cristã. A imagem do "pastor e do rebanho", que originalmente se referia a Cristo e aos seus, considerada sob o aspecto da relação entre o sacerdote e a comunidade, aparece não só como inadequada, como também contrária à fé cristã, porque degrada os membros da comunidade a objectos da pastoral. Estes devem ser levados a sério mas como "sujeitos de fé", por mais deficiente que seja a sua autoconcepção cristã. Se muitas vezes parecem ser apenas "subordinados", só o são porque foram postos sob tutela.[2]
Por isso na actual situação de transição, a tarefa principal de todos os responsáveis na comunidade, especialmente do dirigente da comunidade, é o serviço na fé: deve estimular suas irmãs e seus irmãos cristãos para a maturidade (quando esta ainda é pobre ou até esteja em falta) e aceitá-la quando esses irmãos já estruturaram sua vida pessoal e comunitária a partir desta consciência. Deverá entender-se a si mesmo como parceiro numa história de fé comum, na qual antes de mais nada também ele (o que foi ordenado presbítero ou bispo) está inserido com a sua fé e a sua descrença, frequentemente ouvindo e aprendendo, recebendo estímulo e nem sempre ensinando ou encorajando.
Daqui também decorrem algumas consequências para a configuração do culto divino cristão, especialmente para a celebração da eucaristia. Em correspondência com uma falsa ideia de sacerdote, para muitos a Eucaristia é vista demasiado unilateralmente a partir da ideia de «sacrifício». Sem dúvida faz parte desta celebração a memória da morte de Jesus a qual, correctamente entendida, significa a "actualização" da morte de Jesus na cruz, pela qual não cessamos de ser envolvidos na origem da nossa redenção e liberdade. Ora, no centro do culto cristão não está o altar, no qual um "sacerdote" dotado de poder sacral realiza um sublimado ritual sacrificial, mas a mesa ao redor da qual o Kyrios reúne a sua comunidade. Ao participarem todos do mesmo pão e do mesmo cálice tornam-se seu corpo, constituem-se em comunidade de irmãs e irmãos, em nova aliança, na qual lhes é tirado o coração de pedra e lhes é implantado um coração de carne (Ez 36,26; Jr 31,31). Assim, antecipam a visão da refeição do fim dos tempos que Deus quer preparar para todos os povos (Is 25,6), como refeição dos libertados, que aqui se recordam da sua origem na acção libertadora de Jesus e incessantemente se reanimam e se comprometem a empenhar-se, no mundo, contra a situação de injustiça e violência dominante, em favor daquela visão de uma nova humanidade libertada, redimida. Assim, o dia-a-dia do mundo é o lugar do verdadeiro culto divino, onde cada qual deve realizar o serviço da reconciliação entre o homem e Deus e de os homens entre si.
 Com isto não se nega a função de um dirigente responsável pela celebração da eucaristia. Ela apenas necessita de uma integração mais consciente no todo da celebração da ceia do Senhor, cuja base, de acordo com a tradição eclesial, é a Igreja universal, e não o sacerdote individual. Se ele, aqui no contexto de uma acção simbólica religiosa, age "in persona Christi", representa aquele anfitrião que se tornou servidor de todos. Assim a celebração deve ser expressão daquela radical pró-existência de Jesus, que até viveu para os outros a sua própria morte na cruz. O símbolo sacramental está comprometido com este typos primordial. Isso significa que na configuração concreta da acção simbólica deve ser evitado todo gesto que converta a sua intenção original no seu oposto e — consciente ou inconscientemente — reproduza opressão em vez de libertação. Se considerarmos os nossos espaços de culto, a contradição é mais que evidente. Com poucas excepções, arquitectonicamente os espaços de culto não dão uma forma adequada à ideia comunitária da refeição cristã. A sua disposição é muito mais frequentemente expressão das estruturas repressivas que dominam as comunidades cristãs.

       Autoridade é serviço
   Se de acordo com o Novo Testamento o livre encontro entre Deus e a sua comunidade é constitutivo da auto-compreensão cristã, com isso também está mencionada a condição sob a qual se pode falar de direcção e de "autoridade" de direcção na Igreja. (…)


Paul Hoffmann
«Da Igreja dos sacerdotes à Igreja do povo», cap. V (pp. 99-137) de "A herança de Jesus e o poder na Igreja", Paulus, São Paulo/Brasil 1998 (excerto).








[1] Cf. Juan Antonio Estrada, «Igreja, fraternidade laical», blog  A SALA DE CIMA, 13-11-2014:

29 de agosto de 2017

ÉTICA CIVIL E VIRTUDES REPUBLICANAS - C.P.S.




ÉTICA CIVIL e VIRTUDES REPUBLICANAS

[…] Na hora de assinalar as possíveis causas desta manifesta degradação ética que atravessa a sociedade espanhola, eu mencionaria particularmente duas. Em primeiro lugar, a invasão de um capitalismo selvagem que arrasou a consciência moral e conferiu verdade ao veredicto de Kenneth Galbraith: «A corrupção é inerente ao sistema capitalista, porque as pessoas confundem a ética de mercado com a ética propriamente dita, e porque o afã do enriquecimento anda de mão dada com o capitalismo».[1] Segunda causa: Espanha, ao contrário de outros países da Europa, não conheceu uma autêntica revolução cultural relacionada com a Modernidade Ilustrada. Concretamente, não se espalharam sistemas morais de tipo laico ou místicas de serviço à colectividade ao nível da função pública. As referências éticas ficaram ligadas, como habitualmente, aos princípios e imperativos morais da fé católica. Tentativas secularizadoras de cariz moral não calaram fundo nas massas, em grande parte por obra da reacção nacional-católica. A mais recente dessas tentativas, unida à «Segunda República», sucumbiu às mãos do chamado "Movimento nacional", de Julho de 1936. Quando a cultura nacional católica se afunda e surge o estado laico, a anomia e o vazio ético tomaram conta das consciências.

É extremamente urgente um forte movimento de remoralização da nossa cidadania afectada por tão grave doença. Por todos os lados se ouvem vozes de alarme, começando pela dos bispos espanhóis com o seu documento «La verdade os hará libres» e seguindo pelas dos intelectuais e jornalistas responsáveis, preocupados com o problema, entre eles Aranguren, Haro Tegglen, Sampedro, Rosa Montero, Vázquez Montalbán, etc. Urge atalhar este decrescimento moral, criar ou recriar uma ética civil ou cidadã, infundir virtudes republicanas, caso não queiramos cair numa barbárie de instintos à solta, num darwinismo de hominídeos. Não podemos esquecer a afirmação de Freud de que «a civilização está estreitamente ligada ao controlo permanente dos nossos instintos».

Parece-me que não é totalmente descabido lembrar, aqui, alguns enunciados relacionados com a chamada fundamentação da moral no ser humano. Várias são as dimensões que constituem a essência e a existência humanas. O ser humano — diz-se na antropologia — é um buscador de verdade e de clarificação. É um ser possuidor de uma dinâmica de convivência e de comunicação espelhadas na linguagem. É um ser temporal e histórico. A sua interioridade (o seu íntimo) impulsiona-o para o absoluto e para o incondicionado. Por fim, é um ente moral, estructuralmente moral: é-o estructuralmente e não apenas sociologicamente. O ético pertence à sua constituição. «Que o homem seja uma realidade moral não é uma questão de regras ou de normas, mas tem a ver com a sua própria estrutura formal como essência constitutivamente aberta. O homem … tem de se encarregar da realidade. O homem não pode esquivar-se a definir um sistema de possibilidades de realização … a moralidade é uma estrutura radical e física do homem» — afirmações de Xavier Zubiri.[2] A antropologia cultural ensina-nos que não existe cultura alguma que não reserve um lugar para os valores e códigos éticos. Não há povo que careça das denominações de «bom» e de «mau» referenciados a signos morais. A literatura do mito, que nos faz recuar à mais antiga humanidade civilizada, informa-nos que a consciência moral e o sentimento de culpabilidade sempre acompanharam o ser humano.

Não quero entrar numa discussão filosófica sobre o nada fácil tema dos valores. À margem da controvérsia, parece que a noção de valor contém em si algo pelo qual se opta (independentemente da argumentação) em virtude de uma dinâmica interna que faz com que sintamos algo (o valioso) como importante, como interessante, como gratificante, como preferível. Max Scheler, entre outras, propôs uma divisão ou classificação e uma hierarquia de valores. No plano mais baixo (inferior) estão os valores do agradável e desagradável; no plano mais alto (superior) por ordem ascendente, os valores vitais, os espirituais (o belo e o feio, ou seja, os valores estéticos; o justo e o injusto, ou seja, os valores éticos; o verdadeiro e o falso, ou seja, os valores do conhecimento) e os valores religiosos (o sagrado e o profano). Diante do imperativo moral exacto e normativo, os valores éticos seriam como estrelas que, na noite escura, orientam a conduta do ser humano forçado a optar.

Quando na pessoa já existe uma dinâmica capaz de vencer obstáculos na prossecução e realização de um determinado valor moral (verbi gratia, a justiça) podemos falar de virtude. Virtude, na sua raiz etimológica, quer dizer força. Na linguagem de S. Tomás de Aquino é o habitus operativus bonus. É a sensibilidade e a opção pelos valores éticos convertidos em algo consanguíneo, algo integrado na personalidade.

Os valores e as virtudes que agora nos interessam têm carácter público, ou seja, cívico (civitas = cidade), político (polis = cidade), republicano (respublica = coisa pública). Têm como referente a vida em colectividade organizada, necessária ao livre desenvolvimento do ser humano. Os valores e as virtudes situam-se para lá de uma referência centrada simplesmente no próprio sujeito (no indivíduo), e vão mais além da chamada esfera privada (Cf. Alberto de Mingo Kaminouchi[3]).

É evidente que esta linguagem pressupõe algo fundamental: ela é o negativo da ideia de que a realidade pública é algo estranho ao ético. De facto, a ética (sinónimo de Moral[4]) já não prescinde da inserção e referência pública, nem o público pode ser considerado e vivido à margem do ético. Nem ética sem política, nem política sem ética. Tornou-se um lugar-comum a crítica ao abandono da linguagem ética — tão da tradição do socialismo espanhol — pelo actual partido no poder e a sua substituição, nos seus políticos mais ilustres, pela ética da responsabilidade (uma alusão a Max Weber).[5] Creio que na maior parte das vezes, esta é a linguagem do sofisma e da mentira. Por trás dela esconde-se o mais tosco pragmatismo político. A tentativa de relegar a moral para a esfera do privado é algo tipicamente burguês. Não é sem razão que Maquiavel é o pai do político convertido no agente político autónomo, absoluto, à margem de qualquer referência, para lá do bem e do mal. Os nossos políticos são descendentes mais ou menos encapuzados do autor de «O Príncipe».

Há que - alto e bom som - dizer não a esse maquiavelismo disfarçado de éticas da responsabilidade. Os cidadãos têm o direito a julgar a índole moral ou imoral das metas a que se propõem aqueles que ocupam hoje em dia o poder, os cidadãos têm o direito a pronunciarem-se sobre a eticidade das políticas que os políticos põem em marcha. Os políticos têm o sagrado dever de dar carne cívica aos valores humanos que fazem da colectividade uma sociedade de seres racionais e livres, lugar da realização dos direitos e liberdades cidadãs. «A verdadeira política — ensinou-nos Kant — não pode dar um passo sem ter rendido previamente a devida fidelidade à Moral».[6]

Tudo isto é verdade e deve ser defendido como tal. Contudo, isso não impede que existam realidades que não podemos deixar de constatar; trata-se de limitações e de resistências, sobretudo morais, que a conjuntura concreta manifesta na hora de pôr em prática metas e métodos. Pensamos em problemas sociopolíticos, tais como o terrorismo, o desemprego, a droga, a imigração, etc. É verdade que a política é apresentada, por vezes, como a arte do possível. Confessá-lo, por parte dos políticos, não é nenhuma desonra. Mas o que nunca se pode fazer é erigir o mais vulgar pragmatismo, o esvaziamento humanístico de um governo e uma certa organização política numa ética da responsabilidade, no interesse pelo bem comum e pelo amor à pátria.

O ideal e a utopia de uma sociedade moral, de uma sociedade «da vinculação dos seres humanos às leis da virtude» (Kant), pressupõe uma aposta numa não separação entre o jurídico e o ético. É claro que o legislador não é um director espiritual e portanto terá de tolerar certas doses de mal moral a fim de não sufocar em excesso os âmbitos da liberdade cidadã. Mas a razão jurídica deve ser fundamentalmente uma razão ética. Qualquer ordenação jurídica pressupõe uma determinada antropologia, queira-o ou não. O importante é que essa antropologia seja uma concepção do homem «à altura do nosso tempo», como diria Zubiri. Qualquer ordem jurídica deve ter como meta garantir e tornar reais os direitos e as liberdades da pessoa humana. Qualquer constituição política deverá ter como referência primeira a inalienável dignidade da pessoa humana. Acertadamente, são os direitos e liberdades das pessoas os que abrem os conteúdos jurídicos da Constituição Espanhola.[7]

Passo, agora, a abordar o último destes postulados de ética fundamental. Diz respeito à tensão entre o privado e o público já anteriormente insinuado, entre o bem particular e o bem comum, entre o cidadão e o estado. Toda a gente sabe como Hegel viu, no Estado, a conciliação real desta esquizofrenia cívica originada entre duas leis: a lei que dimana do poder e a lei que tem a sua origem na consciência do indivíduo. O exemplo clássico é Antígona. A oposição entre juridicidade e moralidade é superada na eticidade, que Ortega traduz acertadamente por civilidade. O carácter específico da civilidade é a confiança através do Estado e através da devoção ao Estado, pai de todos nós, «passagem de Deus pela terra».

Ninguém poderá estar de acordo com esta mistificação e mitificação que Hegel faz do Estado, e do Estado em concreto. O século XX é testemunha do caos humano a que levou semelhante concepção do poder. Acertadamente, a «Declaração dos Direitos Humanos» de 1948 vê no Estado o grande negador da pessoa humana, dos seus direitos e liberdades. Ela previne contra o absolutismo do poder. «Nada é imutável — diria Jefferson — a não ser os inalienáveis direitos do Homem». Jefferson seria o anti-Hegel. Mas também não é correcto converter o Estado no mal absoluto. Sempre pensei que, se o Estado pode ser um mal, será, em todo o caso, um mal menor que o mal «da guerra de todos contra todos», em que seguramente aos mais débeis caberá a pior das partes. Ao Estado, às suas leis racionais, justas e equitativas, em consciência, devem os cidadãos obediência e respeito, a fim de contribuírem para o bem comum. Digamos não ao estatismo hegeliano, mas também não ao individualismo egoísta do vale-tudo do burguês ou do pequeno-burguês entrincheirado e refugiado no privado, do género, como se costuma dizer, «minha casa, minha missa e minha Maria Luísa». Com razão, o próprio Hegel também criticava a burguesia alemã cristã desprovida de sentido cívico e social.[8] No entanto, há-de haver situações na vida pública em que teremos de optar por Antígona. Refiro-me à objecção de consciência frente àquilo que se considere uma desmesura do poder (diante de leis como a do serviço militar obrigatório, lei sobre o aborto, etc.), desmesura que é enfrentada com uma consciência ética bem informada, honesta e disposta ao diálogo.

Tratei, até aqui, de estabelecer uma série de postulados fundamentadores de uma sensibilidade ética, e que convém recordar num momento de crise que atravessa a nossa cultura. Resumamos esses postulados fundamentadores, desta forma: consistiram esses princípios na condição moral estructural do ser humano; na noção daquilo que são valores e virtudes morais; no carácter irrenunciavelmente ético do agir político; na aposta por uma sociedade moral; num não ao divórcio entre o jurídico e o ético; e, por fim, no justo meio-termo que preserve a tensão entre o privado e o público.

Vou, agora, passar a algo especial quanto à sua relação com o título da comunicação. Consiste em estabelecer uma ética de conteúdos concretos, de valores com carácter cívico determinados, em estabelecer quais seriam as virtudes republicanas ou democráticas. (Excerto)


Alfredo Tamayo Ayestarán, «Ética civil y virtudes republicanas», in "Fé y Democracia», Jornadas C.P.S. – Cristianos por el Socialismo" Madrid 14-15 de Novembro de 1992, Editorial Popular 1993 (eds. Julio Lois Fernández, José Ramón López de la Osa, Alfredo Tamayo Ayestarán), N. 187, pp. 29-42. ISSN: 0210-3559.

[10 pp.]


Indice completo de «Fé y Democracia» - N. 187

1 – Apresentación (José María García-Mauriño, secretario-general de los CPS)

2 – Perspectiva social del cambio de valores en España en la década de los 80 (José Ramón López de la Osa)

3 - Ética civil y virtudes republicanas (Alfredo Tamayo Ayestarán)

4 – Aportación cristiana a la democracia (Julio Lois Fernández)

5 – Crisis de la participación democrática (Santiago Sánchez Torrado)

6 – Bases no éticas de las actuales falsas democracias (Alberto Giraldez Dávila)

7 – Ética, democracia y evangelio (Gregorio Galdós)

8 – La auto-eutanasia: «La anomia» (José Martín Adeba Hernaiz)

9 – Sugerencias Didácticas (Martín Valmaseda)








[1] «El País», 23 de Março de 1992.
[2] X. Zubiri, «Sobre el hombre», M 1986, p. 420s.
[3] [NdT] Alberto de Mingo Kaminouchi, «O surpreendente regresso da ética de Aristóteles»: "Grande parte da filosofia política da Modernidade assumiu como missão sustentar a legitimidade das regras do jogo, as quais protegem a liberdade e a igualdade de oportunidades para todos, só que, agora, constatamos que há que levar o diálogo ético para lá dum simples acordo acerca de regras e procedimentos." (…) "O individualismo da nossa cultura tem causas estruturais e tem de ser analisado também do ponto de vista político."; in «Introdución a la ética cristiana», Sígueme 2015.
[4] Cf. Marciano Vidal, «Moral de actitudes I - Moral fundamental», Vol. I, Madrid 1990, 18. [NdT]
[5] M. Weber, «El político y el científico», M 1967, p. 160ss.
[6] I. Kant, «La paz perpetua», M 1979, p. 149.
[7] Constitución española, Título I «De los derechos y deberes fundamentales».
[8] G. W. F. Hegel, «Theologisch Jugendschriften», p. 223; veja-se G. Lukacs, «El joven Hegel y los problemas de la sociedad capitalista», Barcelona / México 1972.


22 de julho de 2017

ATEÍSMO LIBERTINO [Anselmo Borges]

 

O ateísmo libertino

Mas, afinal, será que Deus morreu? Não, Deus não morreu, fez-se Dinheiro, diz, com razão, o filósofo G. Agamben
1. Marion Gräfin Dönhoff, uma prestigiada jornalista e intelectual alemã do pós-guerra, co-editora do semanário Die Zeit, escreveu, pouco tempo antes de morrer: "O fixar-se exclusivamente no aquém, que corta o Homem das suas fontes metafísicas, e o positivismo total, que se ocupa apenas com a superfície das coisas, não podem dar às pessoas um sentido duradouro e estável, e, por isso, levam à frustração." 

2. Paradoxalmente, Nietzsche, o profeta do ateísmo, é testemunha disso. Aquele que, filho de um pastor protestante, fora uma criança piedosa e estudara Teologia, havia de proclamar publicamente, em 1882, através de um louco, em «A Gaia Ciência», a morte de Deus: "Deus morreu! Deus está morto! E fomos nós que o matámos!" E continua: "Conta-se ainda que o louco entrou nesse mesmo dia em várias igrejas e aí cantou o seu requiem aeternam deo. Expulso dos templos e interrogado, ripostou sempre apenas isto: "Que são agora ainda estas igrejas senão os túmulos e os monumentos funerários de Deus?"
Mas, ao mesmo tempo, Nietzsche apercebe-se do afundamento que se segue. De facto, o júbilo perante o "acto mais grandioso da história", que foi a morte de Deus, é atravessado por estas perguntas terríveis: "Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?"
Nietzsche anunciou a morte de Deus, mas fê-lo "sem triunfalismo nem euforia", como observa agudamente o filósofo Manuel Fraijó. De facto, percebeu que, sem Deus, soava "a hora do deserto, do vazio total, no niilismo completo". Serviu-se para isso de três metáforas: o mar esvazia-se, significando com isso que já não temos possibilidade de matar a nossa sede de transcendência e infinito; apaga-se o horizonte, e, portanto, ficamos sem o referente último de sentido; o sol separa-se da terra, isto é, o frio e a noite invadem tudo. E não é aí que estamos?
Nietzsche viverá atenazado entre o Deus que tem de morrer para ser possível o super-homem e a permanente nostalgia do Deus desconhecido. Foi ao Deus desconhecido que o jovem Nietzsche dirigiu esta oração: "Antes de prosseguir no meu caminho e lançar o meu olhar para a frente uma vez mais, elevo, só, as minhas mãos para ti na direcção de quem eu fujo. A ti, das profundezas do meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, a tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: "Ao Deus desconhecido." Teu sou eu, embora até ao presente me tenha associado aos sacrílegos. Teu sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servir-te. Eu quero conhecer-te, Desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero conhecer-te, só a ti quero servir."
O mesmo Nietzsche havia de confessar a Ida, a mulher do seu grande amigo F. Overbeck: "Nunca abandones a ideia de Deus. Eu abandonei-a; quero criar algo de novo, e não posso nem quero voltar atrás. Acabarei por sucumbir a esta paixão que me esfalfa constantemente. Vou-me desmoronando."

3. O pior do nosso tempo é o desinteresse. Já não se ergue a pergunta de abismo. E é como se Deus não existisse. Unamuno não se conformava: "Na ordem da cultura espero muito pouco daqueles que vivem desinteressados do problema religioso no seu aspecto metafísico."
Claro que o homem também vai morrendo, como escreveu Karl Rahner, o maior teólogo católico do século XX: "O homem só existe propriamente como homem quando diz "Deus", pelo menos como pergunta. A morte absoluta da palavra "Deus", uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o homem morreu."
Mas, afinal, será que Deus morreu? Não, Deus não morreu, fez-se Dinheiro, diz, com razão, o filósofo G. Agamben. E metamorfoseou-se de tal modo que agora o que há é o "ateísmo libertino", na expressão do filósofo uruguaio A. Methol Ferré, que, numa conferência em Lima em 1992 - cito a partir da reflexão de N. Tenaillon, em «Dans la Tête du Papa François» -, perguntava se tínhamos entrado num "interregno global" marcado por uma profundíssima crise dos valores, e respondia que a queda de um dos pólos da diarquia mundial, a União Soviética, e a sua difusão do ateísmo messiânico, tiveram como consequência "fazer ganhar o outro pólo, esse empenhado num empreendimento devastador, o da chegada de uma sociedade niilista". O novo ateísmo "mudou radicalmente de aspecto. Não é messiânico, mas libertino. Não é revolucionário no sentido social, mas cúmplice do statu quo. Não se interessa com a justiça, mas com tudo o que permite cultivar um hedonismo radical. Não é aristocrático, transformou-se num fenómeno de massa". Ao recusar toda a metafísica e, num gesto antiplatónico, ao cair num esteticismo desligado do Verdadeiro e do Bem, favorece um individualismo narcisista sem moral, em que o outro não conta como "pessoa", comenta Tenaillon.
As consequências deste ateísmo libertino na vida pessoal, moral, económico-financeira, procriadora, social, eclesial, militar, política, podem ser devastadoras. Como está à vista de quem quiser ver.
Anselmo Borges, Padre e professor de Filosofia
Diário de Notícias, 21-07-2017
http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-ateismo-libertino-8652919.html

28 de março de 2017

A RESSURREIÇÃO DA CARNE E A VIDA ETERNA [PETER L. BERGER]


  
«… a ressurreição da carne e a vida eterna»


A pergunta mais séria que os seres humanos podem fazer a si mesmos é se a morte é a última palavra, quer para a vida do indivíduo, quer para a colectividade humana. Sabemos de forma absoluta que todos nós e todos aqueles com quem nos preocupamos morreremos. A partir daquilo que a ciência nos diz, podemos estar razoavelmente seguros que até a própria terra morrerá em algum momento do futuro, sob a forma de gelo ou fogo. A ciência sugere ainda que o universo inteiro está submetido à lei da entropia, o que quer dizer que até ele de alguma forma se encaminha para algum tipo de morte cósmica. Para já, fiquemo-nos por uns instantes com o conhecimento mais certo que temos acerca da morte: a certeza de que todos os seres humanos terão de morrer.

Nalgumas páginas atrás, afirmei que a morte é inaceitável. Rejeitemos firmemente a ideia de que esta afirmação seja egoísta. É claro que eu não desejo morrer, mas exercitando-me na ginástica estóica, eu até poderei assumir a perspectiva da minha própria morte com uma certa dose de equanimidade. Mas aquilo que eu me recuso a aceitar é a morte do filho do meu vizinho, e isso não tem nada de «egoísta». A morte não é «natural», a não ser naquele mais que banal sentido de ela estar inserida na nossa constituição biológica. A morte é um ultraje. E é um ultraje que a fé desta criança na bondade do mundo seja traída, que o sorriso desta criança, que por vezes ilumina o céu, acabe em sofrimento e chegue a desaparecer da face da realidade. Nego-me a aceitar, recuso-me em consentir neste ultraje. Mais: a minha recusa é para mim o mais ácido critério para julgar qualquer mensagem religiosa: a minha postura negativa pode ou não ser aprovada? Possuo alguma palavra de consolo para este meu vizinho completamente esmagado?

Nas linhas de abertura deste livro declarei que a fé religiosa, em última instância, diz que a realidade, segundo os parâmetros humanos, tem um sentido. E acrescentei que, esteja ou não esteja certa essa afirmação, que se tratava, contudo, de uma afirmação «interessante». Desfiarei, de seguida, quatro enunciados sobre religião que, contudo, não são «interessantes». Ou, por outras palavras, se estes quatro enunciados descrevem com rigor o que é a religião, então esqueçamos a religião.

§ Supõe-se que a religião, bem como a ética atribuída a Jesus são necessárias como base da moralidade. Mas a religião não é necessária para a moralidade e os ensinamentos éticos de Jesus (na medida em que seja possível distingui-los daquilo que o judaísmo do seu tempo já ensinava) não podem servir de guia prático, quer para a vida individual, quer para a vida social. Não, obrigado.

§ A religião proporciona poderosos símbolos exigidos pela existência humana. Sim, isso é verdade, mas também existem outras fontes para esses símbolos. Não, obrigado.

§ A religião exige submissão à vontade de Deus, independentemente do significado que possa ter a morte do filho do meu vizinho. Sim, a religião implica submissão à vontade de Deus, mas apenas com a condição de que não se entenda esse Deus nem como autor nem como um passivo supervisor da morte dessa criança. Dito de outro modo: eu submeto-me a um Deus que não queira a morte desta criança. Qualquer outro tipo de submissão religiosa nega implicitamente a bondade de Deus e a bondade da criação. Não, obrigado.

§ A religião poderá tentar consolar-nos dizendo que seremos todos nós, incluindo esta criança, absorvidos por uma espécie de oceano cósmico da divindade. Não me interessam consolos. A única coisa que me interessa é esta criança — única, insubstituível, infinitamente preciosa. Absorvê-la numa realidade última na qual se perca toda a individualidade não é senão uma outra versão da morte. Não, obrigado.

Diante de todas as propostas religiosas totalmente «carentes de interesse», a fé cristã afirma o valor único e o destino eterno desta criança, de todas as crianças e da humanidade inteira. Esta afirmação está contida, com a mais sólida densidade e concisão alguma vez imaginável, na exclamação: «Cristo ressuscitou!» Eis a razão que faz da ressurreição o fundamento, o início da fé cristã e faz com que ela se mantenha e continue a sê-lo assim, caso queiramos manter a possibilidade desta fé nos nossos dias. Com toda a razão pode Paulo afirmar: «Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé.» (1 Cor 15, 13-14). Se é vã, nesse caso, Paulo – melhor, Saulo – volta para Tarso, dedica-te tranquilamente ao teu ofício de fabricante de tendas e cultiva o teu jardim de rosas.

Kant sugeria que uma das questões básicas da filosofia consistia em «que podemos esperar?». Não sei se o é na filosofia, mas na religião esta é a pergunta basilar. Podemos glosá-la em duas perguntas.


Que esperança resta ao indivíduo após a morte? Que esperança há para o cosmos para lá da entropia?

No seu (muito interessante) livro «Life after Death?», Jay Robinson usa as expressões «escatologia individual» e «escatologia cósmica» para se referir, respectivamente, a estas duas questões. Abordá-las-emos de seguida, separadamente. [CONTINUA]



Peter L. Berger (Viena 1929-2017), sociólogo e teólogo de reconhecido prestígio, director do «Institut on Religion and World Affairs», Boston.
«Cuestiones sobre la fe – una afirmación escéptica del cristianismo», Herder Barcelona, 2006.