teologia para leigos
Mostrar mensagens com a etiqueta África. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta África. Mostrar todas as mensagens

12 de julho de 2012

BOAT PEOPLE not WELCOME


Clandestinos
morrem de sede após 15 dias à deriva


Dos 55 emigrantes que largaram do porto de Tripoli na Líbia, num barco insuflável com destino à costa italiana, só um escapou com vida: um cidadão da Eritreia, recolhido ao largo de Tunes, e que ontem contou como a embarcação andou à deriva no mar Mediterrâneo durante duas semanas, com os passageiros a morrer, um a um, de desidratação – incluindo três familiares seus que também seguiam a bordo.

O náufrago, identificado como Abbes Settou, foi avistado na segunda-feira à noite, em alto-mar, por um barco de pescadores tunisinos, que alertaram a guarda costeira.

Estava agarrado a um bidão e à “carcaça” vazia da embarcação, onde 55 clandestinos, metade dos quais eritreus e outros somalis, se meteram para chegar a Itália, no final de Junho. Sem água potável a bordo, e ao fim de três dias à deriva, os passageiros começaram a morrer – de fome, de sede, de exaustão.







Settou, que está hospitalizado na Tunísia à guarda do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, disse que o barco alcançou a costa italiana logo no primeiro dia, mas o vento voltou a empurrá-los para alto-mar. Durante os 15 dias seguintes, permaneceu à deriva, incapaz de comunicar porque o telefone satélite que levava a bordo não funcionava. (…)

Ontem, uma barca de 23 argelinos a bordo foi resgatada pela Guarda Civil de Almeria ao largo daquele porto espanhol.

O “trânsito” de emigrantes que arriscam cruzar o Mediterrâneo a partir da Líbia para vir trabalhar ilegalmente na Europa já trouxe mais de 1300 pessoas à costa italiana desde Janeiro. Em 2011, 1500 pessoas perderam a vida na travessia, e este ano já se registaram 170 mortes.

Rita Siza
Jornal PÚBLICO, 12 Julho 2012, p. 21






17 de fevereiro de 2012

Rio+20 - «VERDE QUE TE QUERO VERDE»... E NÃO AMARELO

Rio+20: os equívocos da economia verde e das tecnologias.

“Está claro para a maioria das pessoas que chamar algo de ‘verde’ não significa que ele de fato o seja”, declara a pesquisadora do Grupo ETC. A economia verde e “seu eixo central”, a tecnologia, estarão no centro das discussões ambientais a serem debatidas na Rio+20, em Junho deste ano, no Rio de Janeiro. Entretanto, Kathy Jo Wetter, pesquisadora do Grupo ETC, alerta para a falta de clareza em torno do conceito, e para as apostas nas soluções tecnológicas. [Entrevista especial com Kathy Jo Wetter]






“A ausência de uma definição consensual de ‘economia verde’ no processo da Rio+20 é estratégico na medida em que assegura que ela pode significar qualquer coisa – ou nada!

(...) Na ausência de fortes políticas sociais e de novas estruturas de governança, as mesmas companhias gigantes e transnacionais que controlam a nossa economia atual irão permanecer no controle de qualquer economia que possa haver no nosso futuro  – seja qual for a sua cor. O pior cenário é que a economia verde simplesmente forneça camuflagem para a perpetuação da atual economia gananciosa”, esclarece em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

As tecnologias, segundo ela, estão sendo apontadas pelos governos como uma alternativa para sanar os problemas climáticos e resolver, consequentemente, as questões sociais, especialmente em relação à fome e à distribuição de alimentos.

“Meio século depois do nascimento do movimento ambiental moderno, todos os problemas sociais parecem exigir não políticas, mas sim soluções tecnológicas. De acordo com a sabedoria predominante, o antídoto para a doença é a medicina personalizada (via genômica); a fome pode ser saciada com a biotecnologia – a resposta ao Pico do Petróleo é a biologia sintética (isto é, a transformação da biomassa); a cura para Kyoto é a geoengenharia; a resposta ao “déficit de democracia” é a internet; e o fim da pobreza há de vir quando os governos adotarem a economia verde”, ironiza. Entre as tecnologias testadas pelos países que fazem parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, Kathy destaca os investimentos na geoengenharia, uma tecnologia que garante a “intervenção intencional e de larga escala em sistemas planetários com a intenção de afetar o clima”, explica.

 Crítica dessa política, a pesquisadora argumenta que a “geoengenharia permite que os governos que desejam fazer pouco ou nada com relação às mudanças climáticas finjam que uma ‘solução’ tecnológica significa que eles podem agir unilateralmente para resfriar o planeta, mantendo estilos de vida exorbitantes”. E reitera: “A geoengenharia não pode fazer parte de um desenvolvimento e/ou economia socialmente justos e ecologicamente sustentáveis. A geoengenharia deveria ser banida completamente pelas Nações Unidas na Rio+20”.

Kathy Jo Wetter é pesquisadora do Grupo ETC, uma organização da sociedade civil internacional com sede em Ottawa, Canadá. Kathy dedica-se ao estudo das nanotecnologias, tecnologias convergentes, biologia sintética e concentração empresarial.


Kathy Jo Wetter_Canadá [Ottawa]



IHU On-Line – O que significa economia verde? Qual é o princípio desta economia e quem a controla?

Kathy Jo Wetter – A “economia verde” pode significar, é claro, coisas muito diferentes, dependendo da sua perspectiva. A ausência de uma definição consensual de “economia verde” no processo da Rio+20 é estratégica na medida em que assegura que ela pode significar qualquer coisa – ou nada! Embora seja popular nestes dias afirmar que a "operação padrão" não é uma opção, a nossa pesquisa (ao preparar nosso recente relatório Who Will Control the Green Economy? (Quem vai controlar a Economia Verde?) levou-nos a concluir que, na ausência de fortes políticas sociais e de novas estruturas de governança, as mesmas companhias gigantes e transnacionais que controlam a nossa economia atual irão permanecer no controle de qualquer economia que possa haver no nosso futuro – seja qual for a sua cor.

O pior cenário é que a economia verde simplesmente forneça camuflagem para a perpetuação da atual economia gananciosa. No período que antecedeu a Rio+20, a noção de uma “grande transformação tecnológica verde” que possibilite a economia verde está sendo amplamente promovida como a chave para a sobrevivência do nosso planeta. A ideia é que iremos substituir a extração de petróleo pela exploração de biomassa (safras de alimentos e de fibras, pastos, resíduos florestais, óleos vegetais, algas etc.). Os propositores preveem um futuro pós-petróleo em que a produção industrial (de plásticos, de produtos químicos, de combustíveis, de medicamentos, de energia etc.) dependerá não de combustíveis fósseis, mas sim de matérias-primas biológicas transformadas através de plataformas de bioengenharia de alta tecnologia.

Muitas das maiores corporações e dos governos mais poderosos do mundo estão promovendo o uso de novas tecnologias para transformar a biomassa em produtos de alto valor. A biologia sintética está possibilitando a mudança de deslocar genes individuais de uma espécie para outra (plantações biotecnológicas ou geneticamente modificadas, por exemplo) para a construção de DNA artificial e a incorporação de DNA em células para criar algas e micróbios únicos, que são capazes de converter quase qualquer biomassa em quase qualquer bioproduto. Com bilhões de dólares de investimentos públicos e privados ao longo dos últimos anos (incluindo das maiores companhias de energia e produtos químicos do mundo), a biologia sintética vê a biodiversidade da natureza como biomassa, que pode ser convertida por micróbios sintéticos em combustíveis, produtos químicos, plásticos, fibras, produtos farmacêuticos ou até mesmo alimentos – dependendo da demanda do mercado na época da colheita. Os maiores celeiros de biomassa terrestre e aquática estão localizados no Sul global e estão protegidos principalmente por camponeses, cuidadores de animais, pescadores e moradores das florestas cujos meios de vida dependem deles. A “economia verde” biobaseada poderia estimular uma convergência do poder corporativo ainda maior e desencadear a posse de recursos mais massivos em mais de 500 anos.

IHU On-Line – Por que é que a economia verde está em destaque nos debates sobre sustentabilidade?

Kathy Jo Wetter – Porque a orientação da maioria dos governos, liderados pelos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE, deslocou-se fortemente em favor de mecanismos baseados no mercado como uma forma de provocar todo resultado desejado – por exemplo, reduções de gases do efeito estufa, proteção da biodiversidade e, agora, desenvolvimento sustentável – apesar dos óbvios fracassos desses mecanismos nestes e em outros contextos. O papel da tecnologia na economia verde é central aqui: meio século depois do nascimento do movimento ambiental moderno, todos os problemas sociais parecem exigir não políticas, mas sim soluções tecnológicas.

De acordo com a sabedoria predominante, o antídoto para a doença é a medicina personalizada (via genômica); a fome pode ser saciada com a biotecnologia – a resposta ao Pico do Petróleo é a biologia sintética (isto é, a transformação da biomassa); a cura para Kyoto é a geoengenharia; a resposta ao “déficit de democracia” é a internet; e o fim da pobreza há de vir quando os governos adotarem a economia verde.

Assim como na Cúpula da Terra no Rio em 1992, a tecnologia também será importante na Rio+20. Na luta pelo acesso, alguns governos não estão questionando se as tecnologias que eles querem são seguras, úteis, em última análise, ou trazem amarras consigo.

 IHU On-Line – A economia verde dialoga com as políticas sociais?

Kathy Jo Wetter – Não até agora. No ETC Group, costumamos dizer que, se a “operação padrão” não é uma opção, a “governança padrão” também não. Novos modelos de economia mais sociais e ecologicamente sustentáveis são necessários para salvaguardar a integridade dos sistemas planetários para a nossa e para as futuras gerações. Mecanismos antitruste de autoridade e inovadores (que atualmente não existem) devem ser criados para reter o poder corporativo. Legisladores internacionais devem superar a atual desconexão entre segurança alimentar, agricultura e política climática – especialmente apoiando a soberania alimentar como o marco global para abordar essas questões. Todas as negociações devem ser moldadas pela forte participação dos movimentos sociais e da sociedade civil.

IHU On-Line – Que características deveriam fazer parte de uma economia sustentável?

Kathy Jo Wetter – Além das políticas mencionadas na resposta anterior, os governos devem apoiar economias verdes diversificadas, centradas no local, sendo social, cultural e ecologicamente apropriadas, justas e que estejam baseadas no uso adequado da biodiversidade para ir ao encontro das necessidades humanas e salvaguardar os sistemas planetários.

IHU On-Line – A economia verde será um dos temas centrais das discussões da Rio+20 no próximo ano. Como vê esta discussão em uma conferência para o desenvolvimento sustentável?

Kathy Jo Wetter – A discussão não é surpreendente, dada a atual inclinação dos governos face aos mercados, o posicionamento das corporações transnacionais para permanecer no assento do motorista e a falta de precisão no próprio conceito de economia verde. No entanto, está claro para a maioria das pessoas que chamar algo de “verde” não significa que ele de fato o seja, e que devemos pressionar por resultados concretos na Rio+20, resultados que nos levem na direcção do desenvolvimento sustentável.

 IHU On-Line – Que avaliação você faz da COP-17, que aconteceu em Durban? O que os acordos políticos desta conferência demonstram sobre a preocupação mundial com as mudanças climáticas?

Kathy Jo Wetter – Tanto o processo confuso como o instrumento legal sem força escolhido para substituir o Protocolo de Kyoto em 2020 não são necessariamente sinais de que os governos mundiais não estão preocupados com as mudanças climáticas. Em nossa opinião, eles poderiam sinalizar algo ainda mais preocupante: ao não fazer nada de construtivo em relação às mudanças climáticas, os governos estão, com efeito, lançando as bases para uma “emergência climática” que providenciaria a sua justificação para a implantação de tecnologias de geoengenharia. A geoengenharia é a intervenção intencional e de larga escala em sistemas planetários com a intenção de afetar o clima, e diversos governos da OCDE estão explorando as opções da geoengenharia.

A geoengenharia permite que os governos que desejam fazer pouco ou nada com relação às mudanças climáticas finjam que uma “solução” tecnológica significa que eles podem agir unilateralmente (sem um acordo multilateral) para resfriar o planeta, mantendo estilos de vida exorbitantes. A geoengenharia, para esses governos, poderia ser politicamente popular dentro de casa e permitir-lhes economizar dinheiro no exterior. A geoengenharia está sendo proposta agora como uma solução rápida para as nossas outras crises ecológicas, como a acidificação dos oceanos, o nitrogênio e os desequilíbrios no ciclo da água.

A geoengenharia não pode fazer parte de um desenvolvimento e/ou economia socialmente justos e ecologicamente sustentáveis.

A geoengenharia deveria ser banida completamente pelas Nações Unidas na Rio+20.

IHU On-Line – Qual sua expectativa para a Rio+20, dez anos depois da Eco-92? Que temas são urgentes neste encontro?

Kathy Jo Wetter – A nossa expectativa não é alta, e a divulgação nesta semana do primeiro esboço “zero” do documento final da Rio+20 fizeram pouco para aumentar a nossa expectativa. No entanto, nenhum de nós pode se dar o luxo de descartar a Rio+20 como uma causa perdida neste momento. Em nossa opinião, a questão candente é a tecnologia – incluindo a sua propriedade e o seu controle –, porque a ela é amplamente vista como o eixo central da economia verde. A Rio+20 deve rever os compromissos assumidos na primeira Cúpula do Rio, incluindo os capítulos 34 e 35 da Agenda 21, que convocam os governos a adotar iniciativas de análise de tecnologia globais e nacionais. Nesses anos, desde a Rio-92, a capacidade dos governos e da comunidade internacional de realizar a análise e a avaliação de tecnologia diminuiu.

 Imediatamente depois da Rio-92, a capacidade da Comissão de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento das Nações Unidas – UNCSTD foi drasticamente reduzida, e a Comissão de Empresas Transnacionais das Nações Unidas – UNCTC, que monitorava as principais indústrias que desenvolvem novas tecnologias, foi eliminada totalmente. O colapso na capacidade dos governos de analisar novas tecnologias – incluindo seus impactos socioeconômicos – ocorreu exatamente enquanto o mundo experimentava a mais rápida – e mais ampla – expansão de novas tecnologias da história. A preocupação pública pela segurança das novas tecnologias e a falta de confiança na capacidade dos governos de proteger seus interesses aumentaram com a descoberta, primeiro, da doença da “vaca louca”, depois, pela febre aftosa (principalmente nos países industrializados) e, mais tarde, pela rápida expansão de plantações geneticamente modificadas. O sistema multilateral das Nações Unidas não tem capacidade confiável para avaliar as tecnologias ou para aconselhar os governos.

Diversos países experimentam condições de saúde, ambientais e socioeconômicas extraordinariamente diferentes dentro das quais as tecnologias operam. Tendo em conta isso, há uma necessidade urgente de um monitoramento e de uma capacidade de compartilhar informações nacionais e globais que incluam a sociedade civil – especialmente aquelas comunidades indígenas e locais que possam ser direta ou indiretamente afetadas pela utilização de tecnologias. A importância da agricultura e, dentro disso, a importância dos pequenos produtores – e a melhor forma de apoiá-los – também são uma questão candente para a Rio+20. De acordo com um relatório da Unep (intitulado «Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza»), há 525 milhões de pequenos agricultores, dos quais 404 milhões têm menos de dois hectares. Os pequenos agricultores não apenas são responsáveis por pelo menos 70% da produção agrícola global, mas suas ações coletivas também representam a nossa maior esperança para adaptar e mitigar a crise climática.

Os legisladores internacionais devem superar a atual desconexão entre segurança alimentar, agricultura e políticas climáticas, especialmente apoiando a Soberania Alimentar como o marco global para abordar essas questões. Em contraste ao atual sistema agroindustrial, que permite que regimes de comércio e forças de mercado internacionais ditem as políticas alimentares e agrícolas, a soberania alimentar implica os direitos das nações e dos povos de determinar democraticamente as suas próprias políticas alimentares e agrícolas.


IHU – ENTREVISTA a Kathy Jo Wetter

16 JANEIRO 2012
[Por Patricia Fachin. Tradução de Moisés Sbardelotto.]






14 de novembro de 2011

OS BENS ESSENCIAIS (ÁGUA, SOLO, ETC.) SÃO COMERCIÁVEIS?

Há realidades sagradas: o ar, a água, a luz, «o pão de cada dia» para todos, um tecto, a instrução, um ambiente harmonioso, a informação, a dignidade, a liberdade democrática, a fruição, a liberdade religiosa, a sexualidade, a solidariedade, a responsabilidade, a posse universal do solo – são realidades «cavalgadas» por Deus, são de Deus, são bens universais tal como Deus é universal. Há que enxotar, delas, Mamon para longe… «Não é possível montar os dois cavalos ao mesmo tempo» [Mt 6:24; Lc 16:13]

Os Mercados Financeiros têm de ser sujeitados, pela força, a políticas justas, e não o contrário... «À força», porque entre ambos «há um grande abismo» [Lc 16:26], entre ambos existem fetiches insuspeitadamente fortes – ex.: «o mercado requer uma boa medida de violência exterior ao seu âmbito para que estabeleça e mantenha as condições do seu funcionamento».

Mas Jesus disse: ‘O Sábado foi feito para o Homem’ e não o contrário… [Mc 2:27]. «O Sábado» - Jesus tinha uma noção sistémica muito clara (e nunca somente psicologizante, cordial ou egotista) do Reino.



trigo nos EUA



O «capital» é o Real das nossas vidas
A irracionalidade global do capitalismo



milho em África
 

Eis o que devemos responder aos que rejeitam qualquer tentativa de pôr em questão os fundamentos da ordem democrático-liberal capitalista considerando que essas tentativas são perigosamente utópicas: é com as consequências dessa mesma ordem que nos confrontamos na crise actual. Embora o liberalismo se apresente como o anti-utopismo encarnado, e o triunfo do neoliberalismo como sinal de que deixámos para trás os projectos utópicos responsáveis pelos horrores totalitários do século XX, torna-se hoje claro que a verdadeira época utópica foi a feliz época clintoniana de 90, com a sua crença em que atingiríamos o «fim da História» e em que a humanidade descobriria, enfim, a fórmula óptima da ordem económica e social.

Mas a experiência mostra-nos que o mercado não é um mecanismo benigno que funciona melhor quando o abandonamos aos seus próprios automatismos: o mercado requer uma boa medida de violência exterior ao seu âmbito para que estabeleça e mantenha as condições do seu funcionamento.

A derrocada financeira em curso demonstra como é difícil desbravar o espesso emaranhado das premissas utópicas que determinam os nossos actos. Como Alain Badiou sucintamente afirma:

«O cidadão comum terá de «compreender» que é completamente impossível «tapar o buraco» da segurança social, mas que é preciso colmatar sem olhar a despesas o «buraco» financeiro de biliões que ameaça os bancos? Teremos de aprovar ‘com um ar grave e sério’ que ninguém pense na possibilidade de nacionalizar uma fábrica que a concorrência pôs em dificuldades e na qual trabalham milhares de operários, mas que a nacionalização se impõe como uma evidência no caso de um banco que a especulação levou à bancarrota? De quel réel cette crise est-elle le spectacle?», Le Monde, 18 Outubro 2008]


Podemos, a partir daqui, generalizar a ideia: embora reconhecêssemos sempre a urgência dos problemas enquanto combatíamos a SIDA, a fome, a escassez da água, o aquecimento global, etc., parecia haver sempre um tempo para reflectir, para adiar decisões (recorde-se como a principal conclusão da última cimeira de dirigentes mundiais em Bali, apregoada como uma vitória, foi que, dentro de dois anos, voltariam a encontrar-se para continuar as conversações…). Mas, com a derrocada financeira, a urgência de agir foi incondicional e foram efectivamente disponibilizados de um momento para o outro montantes de proporções inconcebíveis. Salvar as espécies ameaçadas, salvar o planeta do aquecimento global, salvar os doentes da SIDA e as pessoas que morrem por falta de meios que lhes dêem acesso a tratamentos dispendiosos, salvar crianças famintas… enfim, tudo isso pode esperar um momento mais. O apelo «Temos de salvar os bancos!», em contrapartida, impõe-se como um imperativo incondicional à acção imediata.

O pânico (nos EUA) foi tão absoluto que se estabeleceu instantaneamente uma unidade transnacional e não-partidária, e todos os desentendimentos entre os dirigentes mundiais foram postos de parte por um momento a fim de se evitar a catástrofe. Mas o que esta cooperação «supra-partidária» dos dois partidos americanos significava era que os próprios procedimentos democráticos tinham, de facto, sido suspensos: não havia tempo para um debate como devia ser, e os que se opuseram ao plano do Congresso foram rapidamente obrigados a ceder perante a maioria. Bush, McCain e Obama reuniram de urgência, explicando logo a seguir a uma assembleia estupefacta que pura e simplesmente não havia tempo para discussões: estávamos numa situação de emergência e as coisas tinham de ser feitas o mais depressa possível… Por fim, não esqueçamos que os fundos mobilizados, e que eram de uma envergadura sublime, não serviram para a resolução deste ou daquele problema «real» ou concreto, mas essencialmente para restabelecer a confiança nos mercados − ou seja, serviram somente para agir sobre as crenças das pessoas!

Será necessária alguma prova mais de que o Capital é o Real das nossas vidas, um Real cujos imperativos são muito mais absolutos do que as exigências mais urgentes da nossa realidade social e natural? Foi Joseph Brodsky quem elucidou com perspicácia a solução adequada no que se refere à busca desse misterioso «quinto elemento», o ingrediente mais essencial da nossa realidade: «Ao lado do ar, da terra, da água e do fogo, o dinheiro é a quinta força natural que um ser humano as mais das vezes tem de ter em conta» [Joseph Brodsky, Less Than One: Selected Essays, Nova Iorque, Farrar Strauss and Giroux, 1986, p. 157] Se tivéssemos alguma dúvida a este respeito, um rápido relance sobre a recente crise financeira seria mais do que suficiente para a dissipar.

Em finais de 2008, uma equipa de investigadores, que estudava as tendências epidémicas da tuberculose na Europa de Leste ao longo das décadas mais recentes, tornou públicos os seus principais resultados. Depois de terem analisado dados relativos a mais de 20 Estados, os investigadores de Cambridge e Yale estabeleceram uma correlação clara entre os empréstimos concedidos a esses Estados pelo FMI e o aumento de casos de tuberculose: após o termo dos empréstimos, a epidemia de tuberculose começa a regredir. A explicação dessa correlação aparentemente extravagante é simples: a condição dos empréstimos concedidos é a introdução, pelos Estados que os obtêm, duma «disciplina financeira» − ou seja, a redução da despesa pública − e a primeira vítima das medidas destinadas ao restabelecimento da «saúde financeira» é a própria saúde, a despesa pública com os serviços de saúde. Abre-se, então, o campo que permite aos ocidentais humanitários denunciarem o estado catastrófico dos serviços médicos nos países em causa, oferecendo-lhes o seu auxílio sob a forma de beneficência.

A derrocada financeira tornou impossível que continuasse a ser ignorada a irracionalidade global do capitalismo. Comparem-se os 700 biliões de dólares dispendidos pelos EUA para a estabilização do sistema bancário com o facto de, dos 22 biliões de dólares prometidos pelas nações mais ricas a título de auxílio a prestar às mais pobres, só 2,2 biliões terem sido até ao momento disponibilizados. A culpa da crise alimentar não pode ser imputada aos suspeitos do costume − ou seja, à corrupção, à ineficácia e ao intervencionismo dos Estados do Terceiro Mundo − pelo contrário, está directamente ligada à globalização agrícola, como o próprio Bill Clinton em pessoa deixou claro, nos seus comentários sobre a crise, numa reunião das Nações Unidas, celebrada para assinalar o Dia Mundial da Alimentação, objecto de uma comunicação significativamente noticiada sob o título: «Falseámos o Problema da Alimentação Global». [Associated Press, 23 Outubro 2008] O fulcro do discurso de Clinton foi o reconhecimento de que a presente crise mostra como «falseámos os dados do problema, e eu próprio o fiz durante a minha presidência», encarando as culturas como mercadorias e não como um recurso manifestamente vital para as populações pobres.




poço em Natwarghad (Índia)_2003_a água é um bem universal... raro!


Clinton foi extremamente preciso em atribuir as culpas, não a Estados ou governos isolados, mas às políticas ocidentais de longo prazo impostas pelos EUA e pela União Europeia, e aplicadas durante décadas pelo Banco Mundial, pelo FMI e outras instituições internacionais. As políticas em causa pressionaram os países africanos e asiáticos a conceder subsídios governamentais para fertilizantes, sementes mais produtivas e outros meios agrícolas, favorecendo assim a exploração das melhores terras em vista da exportação e aniquilando, ao mesmo tempo, a capacidade de auto-suficiência, em matéria de produção alimentar, dos países implicados. O resultado destes «ajustamentos estruturais» foi a integração da agricultura local na economia global: à medida que cresciam as exportações das suas colheitas, os países que as exportavam viam-se obrigados a recorrer cada vez mais à importação de bens alimentares, enquanto os camponeses, expulsos das suas terras, eram forçados a instalar-se em bairros miseráveis e a trabalhar nas oficinas, como sub-contratados, os únicos locais que lhes oferecia um posto de trabalho. Deste modo, muitas regiões são mantidas num estado de dependência pós-colonial, tornando-se cada vez mais vulneráveis às flutuações do mercado: nos últimos anos a subida espectacular dos preços dos cereais (causada igualmente pela sua utilização como biocombustíveis, em vez de como ‘bens alimentares’) tem sido causa de cenários de fome em vários países, do Haiti à Etiópia (veja-se o caso de Moçambique).

No período recente, as estratégias deste tipo tornaram-se mais sistemáticas e diversificadas: grandes empresas internacionais, em parceria com os governos, procuram hoje compensar a penúria de terras aráveis dos países onde estão sediadas através da implantação de enormes unidades de agricultura industrial no exterior. [Vivienne Walt, «The breadbasket of South Korea: Madagascar», Time, 23 Novembro de 2008] Por exemplo, em Novembro de 2008, a Daewoo Logistics, na Coreia do Sul, anunciava que concluíra com Madagáscar um arrendamento por noventa e nove anos de cerca de trezentos mil hectares de savana, equivalendo a quase metade das terras aráveis da ilha. A Daewoo planeia dedicar mais de três quartas partes das terras arrendadas ao cultivo do milho, usando a restante área para a produção de óleo de palma, um produto da maior importância no mercado global dos biocombustíveis. Mas esta parte é apenas a porção emersa do iceberg: várias firmas europeias, nos últimos dois anos, adquiriram também direitos que lhes permitem usar vastas áreas de terra para produções agro-alimentares e de biocombustíveis − tal é, entre outros, o caso da companhia britânica Sun Biofuels, que explora, com os referidos propósitos, plantações na Etiópia, em Moçambique e na Tanzânia. O solo fértil de África atrai, do mesmo modo, certos países do Golfo Pérsico (ricos em petróleo), que, contando com grandes extensões desérticas, se vêem obrigados a importar a maior parte dos seus géneros alimentares. A verdade é que, embora Estados tão ricos possam pagar sem problemas as importações de bens agrícolas de consumo, os sobressaltos dos mercados globais dos produtos alimentares têm vindo a intensificar as suas preocupações quanto a garantirem fontes de provisões seguras.

Mas, qual é, então, o incentivo que move a outra parte, constituída por países africanos assediados pela fome, cujos agricultores não dispõem das ferramentas necessárias, nem de infra-estruturas − fertilizantes, combustíveis e transportes − que lhes permitiria uma produção eficaz e a colocação das suas colheitas no mercado? Os porta-vozes da Daewoo afirmam que o acordo celebrado beneficiará também Madagáscar, não só porque as terras arrendadas não estavam a ser utilizadas, mas também porque:


«…embora a Daewoo tencione exportar o rendimento da terra, … tenciona investir cerca de 6 biliões de dólares ao longo dos próximos 20 anos na construção das instalações portuárias, estradas, centrais produtoras de energia, sistemas de irrigação, cujo conjunto é necessário ao desenvolvimento da sua actividade na ilha, criando assim milhares de postos de trabalho que acolherão muitos desempregados do país. Os empregos criados ajudarão a população de Madagáscar a poder dispor do dinheiro de que precisa para comprar géneros alimentares, ainda que estes tenham de ser importados[ibidem]


O círculo da subordinação pós-colonial volta a fechar-se, e a dependência alimentar só pode tender para se exacerbar.

Não estaremos assim a aproximarmo-nos de um estado global em que a potencial escassez de três recursos materiais de importância fundamental (petróleo, água e bens alimentares) se tornará o factor determinante da política internacional? Não será a escassez alimentar − que se torna visível em crises (por enquanto) esporádicas que têm lugar aqui e ali − um dos sinais dum apocalipse a caminho? Embora as manifestações da escassez sejam sobre-determinadas por múltiplos factores (a procura crescente em Estados que se desenvolvem rapidamente como a Índia e a China; as colheitas afectadas por alterações de ordem ecológica; a utilização de grandes fracções das terras aráveis de países do Terceiro Mundo para produções destinadas à exportação; a utilização determinada pelo mercado de cereais para fins não alimentares como a produção de combustível), parece evidente que estamos, aqui, não perante um problema que diz respeito ao curto prazo e que pode ser resolvido por meio duma regulação adequada do mercado, mas antes na presença de sinais que indicam um problema a longo prazo impossível de se solucionar através dos meios ao alcance de uma economia de mercado. Alguns apologistas da nova ordem mundial assinalam que a escassez alimentar é por si só um indicador de progresso material − ou seja, indicador do facto de que as populações dos países do Terceiro Mundo (que conhecem um rápido processo de desenvolvimento) ganham melhor e por isso se permitem alimentar-se melhor. Todavia, o problema é que esta nova procura alimentar atira milhões de seres humanos para situações de fome nos países que não conhecem um crescimento económico semelhante.

Não poderemos dizer o mesmo acerca da crise energética que se anuncia e das dificuldades de provisão de água das populações?

Se quisermos enfrentar adequadamente estes problemas, será necessário inventarmos novas formas de acção colectiva a uma escala alargada − nem as formas estabelecidas de intervenção do Estado, nem as muito gabadas formas de auto-organização local poderão encarregar-se de levar a cabo a tarefa. Se os mesmos problemas não forem resolvidos de uma maneira ou de outra, o cenário mais provável será uma nova era de apartheid, fazendo com que certas áreas protegidas do mundo gozem de abundância de água, alimentação e energia, isoladas face a um «exterior» caótico caracterizado pelo caos generalizado, pela fome e pelas guerras permanentes. Que deveriam fazer as populações do Haiti e de outras regiões vítimas de condições extremas de privação? Não terão todo o direito de recorrer à revolta por meios violentos? O comunismo está, uma vez mais, às portas da cidade.
Clinton tem razão quando diz que «a produção alimentar não é uma mercadoria como as outras. Devemos regressar a uma política visando um máximo de auto-suficiência alimentar. É uma loucura pensar que podemos desenvolver esta ou aquela região do mundo sem aumentarmos a sua capacidade de se alimentar pelos seus próprios meios Mas é necessário acrescentar, a este propósito, pelo menos dois pontos.

Primeiro, como já antes observamos a propósito do Mali, embora impondo a globalização da agricultura aos países do Terceiro Mundo, os países ocidentais desenvolvidos cuidam ao máximo de manter a sua própria auto-suficiência alimentar mediante os apoios que concedem aos seus agricultores, etc. (Lembremo-nos que os apoios financeiros concedidos aos agricultores representam mais de metade do total do orçamento da União Europeia, o que mostra bem como o Ocidente nunca abandonou a «política da máxima auto-suficiência alimentar»).

Segundo ponto, deveríamos fazer ver que a lista dos produtos e serviços que, como a alimentação, não são «mercadorias como as outras» é muito mais vasta, incluindo não só a defesa (aspecto do qual todos os «patriotas» têm consciência), mas também, e sobretudo, a água, a energia, o meio ambiente enquanto tal, a cultura, a educação e a saúde

Neste domínio, quem decidirá das prioridades e como o fará, se tais decisões forem abandonadas ao mercado?

É aqui que temos de levantar, uma vez mais, a questão do comunismo.


Slavoj Zizec

in «DA TRAGÉDIA À FARSA» (parte do capítulo ‘De novo o comunismo’), Relógio d’Água editores, Out. 2010, pp.94-101. ISBN 978-989-641-196-1.