teologia para leigos
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26 de julho de 2015

«MERCADORIZAÇÃO» E DESTRUIÇÃO DO ENSINO PÚBLICO

O catolicismo europeu do século XIX deixou-se enredar numa falsa questão e acabou vítima desse seu "erro modernista": os filhos dos «pensadores de 1789» tinham como meta «o desterro de Deus para fora da existência humana», o que fazia antever uma civilização que, segundo Candide de Voltaire, separava Deus do Homem. De facto, no Jardim de Candide não se encontra nenhum templo ou capela, na medida em que a questão já não é a relação do Homem com Deus, mas do Homem com o Mundo: a indústria passa a ocupar o lugar da oração e Deus, sem ser propriamente suprimido, é afastado. (Josep Hereu i Bohigas, «Ilustración, Revolución, Romanticismo y Cristianismo»). Perante essa nascente "comunidade de valores" que apela ao secularismo, à humanidade, ao cosmopolitismo e à liberdade, a Igreja católica tranca-se a sete chaves por trás dos conceitos de autoridade e hierarquia. A Igreja confunde a mensagem central de Jesus (As Bem-aventuranças) com uma questão filosófica, agora ameaçada: "Deus como conceito filosófico estruturante" e não como Projecto de Vida Plena, como insurreição ética questionadora de toda a injustiça. A Igreja aceita alinhar, assim, na torrente do século XIX, que, segundo D’Alembert, é o século da filosofia. Este é o grande erro da Igreja católica: confundir Deus com um conceito, esquecendo a referência à mediação histórica da mensagem por parte de Jesus de Nazaré («Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. Se ficastes a conhecer-me, conhecereis também o meu Pai.», Jo 14,6-7).

Hoje em dia, século XXI, – em plena «austeridade destrutiva» do PS-PSD-CDS – a Igreja continua a portar-se como instituição que tenta, a todo o custo, reconquistar a sua influência institucional dando-se com Deus e com o Diabo. É o que também acontece com a sua actividade no âmbito do "ensino" em Portugal: colégios, escolas, institutos e vários pólos universitários católicos. Indiferente às questões gravíssimas que lhe subjazem, a Igreja católica prossegue a sua acção missionária concorrendo com o ensino público. Impressiona-me que não se auto-questione se é essa a missão que Jesus Cristo lhe inspira no século XXI. São públicos os ganhos de imagem social que a Igreja recolhe por via dos famigerados rankings, bem como a competição desprovida de qualquer sentido evangélico pelo número de alunos que se consegue meter em medicina…

A abrir o ano lectivo de 2011-2012, perante uma numerosa assembleia de encarregados de educação (onde eu, por direito próprio, também estava), o padre Taveira, director do antigo Colégio dos Órfãos[1], anunciava (entre outras advertências, p. ex.: proibição absoluta de uso de leggings, do uso de calções-curtos para as meninas, etc.) que, no ano anterior, tinha conseguido «meter em medicina um aluno» e que esperava incrementar essa pretensão! E aproveitava para nos apresentar o padre-ecónomo, que viera visitar o Colégio, para dotá-lo de infra-estruturas «que fariam dele a melhor escola da cidade do Porto»[2]!

O espírito de competitividade, a selecção da população inscrita a partir do seu poder de compra, a cultura da imagem do «melhor de todos», alguns epifenómenos de eficácia moral duvidosa estão – como diz a carta de apresentação desta instituição - apoiados «inquestionavelmente nos valores do Evangelho de Jesus»? E que têm a dizer este e todos os outros Colégios católicos que passaram a viver de ajudas do Estado provenientes de verbas públicas retiradas aos mais carenciados (e transferidas para estas instituições privadas)?

ANOTEM BEM: «Entre 2011 e 2014, as transferências para Colégios e Escolas Privadas – apenas na modalidade relativa aos contratos de associação, [foram] da ordem dos 660 milhões de euros – representam mais do dobro dos "cortes" efetuados nos cursos CEF, PIEF e no ensino profissional público (que perderam receitas orçamentais acumuladas de cerca de 140 milhões de euros); nas atividades de enriquecimento curricular (menos 46 milhões); no ensino especial (cortes acumulados de 30 milhões de euros), na educação e formação de adultos (menos 20 milhões); e na Ação Social Escolar (que, nas rubricas relativas ao apoio socioeconómico aos alunos e alimentação e nutrição, perde cumulativamente cerca de 13 milhões de euros) PECADO MORTAL! (cf. Reportagem TVI, jornalista Ana Leal, em baixo)

Não se discute que possa haver ensino privado ou cooperativo (laico ou religioso) em Portugal, mas, quanto ao religioso, há questões de natureza ética que colidem antagonicamente com o Evangelho de Jesus.

Em suma, a haver Escolas Católicas, elas deveriam seguir o ensinamento de Jesus:

serem financeiramente autónomas face ao Estado («Dai a César o que é de César»);

optarem preferencialmente pelos estratos sociais mais excluídosa actual «Roda dos Expostos» − oferecendo, a partir dessa opção, modelos de inclusão e socialização anti-dualistas («Não é verdade que, então, fazeis distinções entre vós mesmos e julgais com critérios perversos? Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os "pobres segundo o mundo" para serem herdeiros do Reino», Tg 2,4-5);

− destinarem-se, antes de tudo, a formar cidadãos esclarecidos e dispostos a afrontar todo o tipo de império iníquo, maléfico, opressor, pecaminoso e tirano denunciando a "mercadorização do saber" subjacente à destruição do ensino público universal e gratuito, o utilitarismo das pedagogias armazenistas de crescimento juvenil (excesso de horas de estudo) e o monolitismo ideológico da escola («…Jesus de Nazaré, que andou de lugar em lugar, fazendo o bem e libertando todos os que eram oprimidos», Act 10, 38).

pb\








EDUCAÇÃO:
OS AVANÇOS NUM CAMINHO AINDA A PERCORRER


A escola pública e a escolarização da população portuguesa

Em menos de cinco décadas, a sociedade portuguesa registou progressos impressionantes em matéria de educação. Em 1960, cerca de quatro em cada dez portugueses eram analfabetos e a frequência escolar, além de reduzida, concentrava-se nos primeiros anos de ensino. A taxa real de escolarização pré-escolar limitava-se a cerca de 1%, situando-se em torno de 80% no 1º ciclo do ensino básico, 8% no 2º ciclo, 6% no 3º ciclo e em apenas 1% no ensino secundário (GEPE/INE, 2009). As habilitações escolares da população portuguesa eram pois, em termos internacionais, extremamente baixas, com a taxa de participação no sistema de ensino a refletir e a reproduzir, expressivamente, essa mesma realidade.

Quando se comparam os principais indicadores disponíveis para a atualidade com esta fotografia rápida de há pouco mais de 40 anos, os avanços na recomposição qualificacional da população portuguesa tornam-se de facto muito nítidos (Gráfico 1). Isto apesar de, tal como no passado, o perfil escolar do país se encontrar ainda distante do que se observa na maioria dos países da União Europeia e da OCDE.

De facto, a taxa real de escolarização no ensino pré-escolar situava-se, em 2011, em cerca de 86%, enquanto no 1º ciclo do básico rondava os 99% (tendo atingido os 100% no período de 1981-2010). A taxa real de escolarização no 2º ciclo do básico era de cerca de 92% em 2011 e rondava os 73% no ciclo do básico e no ensino secundário. No seu conjunto, estes dados evidenciam a tendência para a crescente universalização do acesso à educação num curto espaço de tempo, potenciada pelo sucessivo aumento do número de anos de escolaridade obrigatória. (…)

O sistema de ensino público em Portugal tem, assim, contribuído não só para impulsionar o desempenho dos alunos, mas para mitigar, em parte, o efeito das desigualdades sociais na distribuição desse desempenho – tal como é sugerido pelos indicadores de «resiliência» dos alunos portugueses provenientes de famílias mais desfavorecidas apresentados no estudo PISA. (…)

A análise dos dados disponíveis permite concluir que, embora concedendo oportunidades desiguais aos jovens de diferentes classes sociais, o sistema educativo português gerou nas últimas décadas um processo efetivo de democratização das oportunidades educativas e de mobilidade social. Se, na geração de trabalhadores nascidos antes de 1970, a probabilidade de um filho de profissionais técnicos e de enquadramento (professores, engenheiros, jornalistas, etc.) obter uma licenciatura era 20 vezes superior à de um descendente de trabalhadores desqualificados (agrícolas, empregadas domésticas, serventes da construção civil, vendedores ambulantes, etc.), esta proporção reduziu-se para sete vezes, para aqueles que nasceram entre 1970 e 1985, isto é, para aqueles que frequentaram o sistema educativo já nas décadas de 1980 e 1990. Contudo, a educação portuguesa continua a ser mais reprodutiva de desigualdades do que outras sociedades europeias, o que parcialmente se pode explicar pelo facto de os desníveis materiais e simbólicos serem ainda muito vincados. Na média europeia, essa mesma probabilidade reduziu-se quatro vezes, na geração mais velha, para três vezes, na geração mais jovem (Abrantes, 2012).

O acesso generalizado à educação potenciou, portanto, uma alteração significativa da estrutura socioprofissional da sociedade portuguesa e contribuiu fortemente para os processos de mobilidade social, apesar da existência, paralela, do fenómeno da reprodução das desigualdades sociais no interior da escola. É, no entanto, inquestionável que o acesso à educação e aos seus níveis mais avançados de escolaridade teve impactos significativos nas oportunidades e percursos dos cidadãos no mercado de trabalho.

Um dos aspetos mais interessantes do recente relatório da OCDE, «Education al a Glance 2013», ["Educação num Relance 2013"], prende-se justamente com os benefícios que a qualificação escolar comporta para o próprio Estado. (…)

Os resultados alcançados pela escola pública e pelo investimento realizado no ensino superior e ciência, ao longo das últimas décadas, traduzem não só uma capacidade notável para recuperar – num curto espaço de tempo – uma parte muito significativa dos atrasos estruturais de Portugal nestes domínios, mas também o esforço de inserção progressiva de Portugal nas modernas economias das sociedades ocidentais, baseadas no conhecimento, na qualificação e na inovação. As políticas educativas levadas a cabo na presente legislatura comprometem, contudo, a consolidação e o aprofundamento do caminho já trilhado.


O programa de ajustamento e a regressão em educação

Tal como sucede noutros domínios do Estado Social, designadamente na saúde e segurança social, a educação tem sido um dos alvos preferencial da política do atual governo PSD/CDS. Nos dois últimos anos, os cortes orçamentais no Ministério da Educação e Ciência foram-se tornando cada vez mais relevantes: face a 2010, estamos a falar de perdas acumuladas na ordem dos 1700 milhões de euros (ou seja, menos 18% do que no OE desse ano), sendo sobretudo ao nível das despesas com pessoal que incidem os principais cortes. De facto, entre 2010 e 2014, a diminuição cumulativa destes encargos ronda os 25%, refletindo-se os mesmos de modo muito particular no ensino básico e secundário (e afetando essencialmente docentes e auxiliares de educação).

Esta voragem orçamental não estava, contudo, inscrita na configuração inicial do Programa de Assistência Económica e Financeira, de maio de 2011. As medidas então previstas, para os cerca de três anos de vigência do Memorando, diziam essencialmente respeito à contração da despesa através da «racionalização da rede escolar, criando agrupamentos escolares», da diminuição da «necessidade de contratação de recursos humanos», da centralização dos «aprovisionamentos» e da redução e racionalização das «transferências para as escolas privadas com contratos de associação». Globalmente, estimava-se que estas medidas apontassem para um corte de 370 milhões de euros em 2012 e 2013, podendo a Lei de Orçamento de Estado de 2014 reforçar, eventualmente, medidas introduzidas nesses anos em diferentes setores, tendo como objetivo «exercer moderação na despesa primária, com vista a obter um rácio descendente de despesa pública em percentagem do PIB»[3].

Sendo certo que o governo PSD/CDS, eleito em Junho de 2011, tratou também, aqui, de ir bastante «além da troika» em termos de cortes e despesa, a verdade é que o Programa de Ajustamento serviu, sobretudo, para proteger e sustentar uma agenda de profunda transformação e de desmantelamento gradual do sistema público de ensino. Uma mudança que, assentando em fundamento de natureza essencialmente ideológica, transcende de forma muito clara a ideia do simples contributo financeiro do setor da educação para o «equilíbrio das contas públicas», e que, de outro modo, dificilmente colheria o necessário apoio eleitoral para a sua implementação.

De fato, a coberto do Memorando de Entendimento, o ministro Nuno Crato encetou um amplo processo de contração, degradação e dualização da escola pública, que não só promove a sua descaracterização (ao perverter muitos dos princípios essenciais em que a mesma assenta), mas também lhe retira capacidade de resposta, afirmação e qualidade, em benefício das escolas do ensino particular e cooperativo, que adquirem deste modo condições mais favoráveis para se posicionarem no desejado «mercado da educação». (…)

A destruição gradual do sistema público de ensino, seja através das sucessivas constrições em termos orçamentais, seja pelas medidas qualitativas que adulteram o seu papel e os princípios que o enformam, deixa antever o duplo objetivo que move o atual Ministério da Educação. Trata-se, por um lado, de degradar, dualizar e encolher a oferta pública de educação, favorecendo assim, como já referido, as escolas privadas, que começam de resto a poder beneficiar de um processo experimental de introdução do «cheque-ensino», que permitirá sustentar financeiramente – com dinheiros públicos – a procura de muitos dos alunos que, entretanto, deixaram de as poder pagar. E, trata-se, por outro lado, de sincronizar a educação de massas com o modelo económico medíocre e subdesenvolvido em que o governo está a apostar, assente na desqualificação dos recursos humanos, no empobrecimento generalizado e na mercadorização de todas as esferas da vida social.[4]
[…]

Frederico Cantante, Nuno Serra, Pedro Abrantes e Renato Miguel do Carmo
in «ESTADO SOCIAL - DE TODOS PARA TODOS», Lisboa, TINTA-da-CHINA, ISBN 978-989-671210-5



«DINHEIROS PÚBLICOS, VÍCIOS PRIVADOS»
Reportagem TVI – jornalista Ana Leal





[2] «Foi na cidade do Porto que existiu a primeira Roda dos Expostos»:

[3] Cf. «Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de Política Económica» (pp. 2 a 6), de 17 de Maio de 2011:

[4] Prof. Manuel Couret Branco [Univ. de Évora], «The Case Against the Commodification of Social Protection», UNRISD website; cf.:


23 de maio de 2015

PRECÁRIOS EM PORTUGAL 8 [de como PS-PSD-CDS produziram e eliminaram os pobres]

Precariedade, desemprego e protecção social
– caminhos para a desigualdade?




Introdução

Pretende-se neste texto[1] promover um olhar sobre a evolução das dinâmicas de emprego nos países da União Europeia num passado recente, com especial atenção para as tendências registadas em Portugal desde o período anterior ao deflagrar da crise económica e financeira até ao final de 2013[2]. Através da articulação entre um nível europeu e nacional de análise debater-se-ão os processos de precarização do emprego, de aumento do desemprego e do desemprego desprotegido e dos efeitos que algumas destas dinâmicas poderão estar a exercer na estrutura de distribuição do rendimento.

Na primeira parte deste texto iremos abordar, por intermédio de dados em média anual, a evolução das dinâmicas de emprego e desemprego, bem como da incidência da precariedade laboral, em Portugal e na UE-27. Seguidamente, analisaremos a evolução do desemprego estimado e registado em Portugal nos últimos anos, do fenómeno da inactividade desencorajada e da desprotecção dos desempregados. Na terceira parte, esboçamos uma análise exploratória em torno da correlação existente entre a desigualdade de rendimento e indicadores de precariedade laboral e desemprego.


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Emprego, desemprego e precariedade

A figura 6.1 apresenta informação para a taxa anual de emprego e desemprego nos anos de 2000, 2008 e 2013, em Portugal e na EU-27. Em relação à taxa de emprego, o valor deste indicador para Portugal, nos anos de 2000 e 2008, é de 68%, significativamente acima do apurado para a média dos países da EU-27. Nesse período, o valor médio para os países da EU aumenta mais três pontos percentuais. Desde 2008, ano que marca o início da crise financeira e económica nos Estados Unidos, a taxa de emprego em Portugal diminuiu mais de sete pontos percentuais – situando-se em 2013 em 60,6%. Ou seja, a população empregada do país, com idade entre os 15-64 anos, passou de 4785,7 mil em 2008 para 4158,0 mil em 2013, menos 627,7 mil empregados, uma queda de cerca de 15%. Como é óbvio, boa parte da explicação desta destruição de emprego está relacionada com o aumento significativo da taxa de desemprego em Portugal para valores verdadeiramente excepcionais. Veja-se que em 2000 a taxa de desemprego em Portugal era relativamente negligenciável e situava-se bastante abaixo da média da União. Entre 2000 e 2008 o valor deste indicador em Portugal duplicou, ultrapassando o da EU-27. Contudo, é entre 2008 e 2013 que se dá o salto mais expressivo da taxa de desemprego: um aumento de nove pontos percentuais, para os 17%.[3]

O aumento brutal da taxa de desemprego verificado nos últimos anos em Portugal foi mais acentuado em certas categorias sociais e implicou que os tempos de desemprego se dilatassem. Entre as várias categorias sociais que revelaram maior exposição ao aumento do desemprego, o grupo etário dos jovens é porventura aquele em que a incidência dessa realidade foi mais intensa. Entre 2000 e 2008 a taxa de desemprego jovem em Portugal duplicou, passando de 8,2% para 16,7%. Em 2000, o valor desse indicador em Portugal era muito inferior ao verificado no conjunto de países da EU-27, mas, em 2008, essa relação já se tinha invertido. Embora a taxa de desemprego jovem tenha conhecido um aumento expressivo na EU entre 2008 e 2013, em Portugal essa tendência foi muito mais acentuada: nesse período, o valor deste indicador cresceu mais de 20 pontos percentuais, atingindo em 2013 os 38,1%.

O aumento da taxa de desemprego em Portugal foi acompanhado pelo crescimento da proporção da população desempregada que se encontrava nessa situação há um ano ou mais. Novamente, o valor deste indicador para Portugal era em 2000 inferior em relação ao apurado para o conjunto de países da EU-27, em 2008 existia já uma inversão dessa realidade e daí até 2013 o país regista um aumento muito acentuado da grandeza do indicador em causa. Em 2013, 56% da população desempregada encontrava-se nessa situação há um ano ou mais (nove pontos percentuais acima do valor apurado para a EU-27).


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[…]

Conclusão

Apesar do cariz exploratório da abordagem realizada na secção anterior, importará não negligenciar os efeitos que o desemprego e a precariedade laboral podem exercer sobre a estrutura de distribuição interna dos rendimentos. Carlos Farinha Rodrigues, Rita Figueiras e Vítor Junqueira (2012[4]) demonstraram que o mercado de trabalho em Portugal tem funcionado como um catalisador do aumento das desigualdades nas últimas décadas. O hiato entre os mais bem remunerados e os trabalhadores que ocupam a base da distribuição acentuou-se até 2009. Tal decorreu, em grande medida, do aumento acentuado da parte do rendimento dos trabalhadores que se posicionam na parte superior da hierarquia dos salários. Mas até que ponto a crise económica e a crise de emprego dos últimos anos poderá estar a assumir-se como um novo pólo de agravamento das desigualdades económicas? Em Portugal, o aumento do desemprego, nomeadamente do desemprego desprotegido, mas também de situações mais ou menos próximas do sub-emprego, parece estar a assumir-se como um canal gerador de desigualdades de rendimento pela exclusão da participação (plena) no mercado de trabalho. No caso português, essa exclusão laboral tem vindo a acumular-se com a exclusão do sistema de protecção social de uma parte crescente da população desempregada, o que implica uma pauperização aguda das suas condições materiais e subjectivas de existência.

Os dados da mais recente vaga do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento apontam para um aumento da desigualdade existente entre a parte superior e a parte inferior da distribuição do rendimento, entre 2011 e 2012, tendência já verificada em 2010 (INE, 2014c). Tal deve-se, em grande medida, à perda de rendimentos dos grupos que formam a base da distribuição dos recursos económicos. A incidência da pobreza aumentou e o limiar da pobreza pauperizou-se. Cerca de 40% da população desempregada estava, em 2012, numa situação de risco de pobreza relativa (mais 1,9 p.p. face a 2011). A análise dos efeitos das políticas de austeridade sobre a distribuição do rendimento disponível não pode alhear-se das consequências que as mesmas exercem sobre o mercado de trabalho. Ao estimar que Portugal foi um dos países em que as políticas de austeridade foram mais progressivas, o estudo do FMI, «Fiscal policy and income inequality» (FMI, 2014), ignora este mesmo facto. E parece ignorar também que o aumento das despesas sociais foi insuficiente em relação à dimensão das necessidades de protecção social decorrentes da crise económica e do aumento brutal do desemprego. Enquanto o desemprego aumentou duas vezes mais em Portugal do que na média dos países da OCDE, os recursos adicionais alocados às despesas sociais representaram apenas 1/3 da média registada nos países dessa organização (OCDE, 2014b[5]).

Renato Miguel do Carmo e Frederico Cantante
Respectivamente, Sociólogo e Investigador Auxiliar do CIES-IUL e do Observatório das Desigualdades; Sociólogo, licenciado em Direito, Assistente de Investigação do CIES-IUL e membro da equipa permanente do Observatório das Desigualdades.


[pp. 15]



Um em cada três utentes de instituições de solidariedade ainda diz passar fome

Jornal «Público» (26 Maio 2015)


VÍDEO - Publicado por Vítor Fernandes – 29 de Maio 2015


O Presidente da República garante a unidade do Estado.

«A unidade do Estado implica uma atenção ao todo nacional, um combate à desertificação e ao despovoamento do interior. Não há coesão territorial sem um poder local forte, capaz de se agregar regionalmente em torno de causas comuns. A experiência das autonomias dos Açores e da Madeira merecerá sempre um acompanhamento e uma atenção especial por parte do Presidente da República.

«Não há unidade do Estado sem integração nacional, o que requer mais coesão social e o reforço do Estado Social. Não me resignarei perante o número cada vez maior de pessoas, em particular de crianças e idosos, que vivem no limiar da pobreza. Não serei insensível perante o sofrimento das pessoas que estão a ser privadas de direitos e liberdades fundamentais. Não aceitarei, como se fosse uma fatalidade, que haja cada vez maiores desigualdades no nosso país.

«A minha magistratura será de solidariedade nacional, com uma atenção especial a todos aqueles que foram marginalizados ou excluídos e que devem ser respeitados na sua dignidade. Não posso deixar de dirigir uma palavra de solidariedade às pessoas mais idosas, aos reformados e pensionistas, que, nos últimos anos, viram os seus direitos e planos de vida fortemente postos em causa pelas políticas de austeridade. […]

«As portuguesas e os portugueses devem saber que defenderei o Estado Social, um elemento essencial para que todos tenham as condições básicas para uma vida digna, com sobriedade. Ao Estado cabem responsabilidades primárias, que não são passíveis de transferência ou de delegação.» […]

in "CARTA DE PRINCÍPIOS" – Candidatura a Presidente da República de António Sampaio da Nóvoa, Teatro Rivoli, Porto, 25 de Maio de 2015.




[1] Texto base apresentado no colóquio «Conversas sobre as Oficinas de Segurança Social no âmbito do Observatório sobre Crises e Alternativas / CES», realizadas a 25 de Março de 2014, na Fundação Calouste Gulbenkian.
[2] Uma primeira versão deste texto foi publicada online no "Observatório das Desigualdades", 19-06-2014:
[3] A taxa de desemprego mede o peso da população desempregada sobre o total da população activa; a taxa de emprego permite definir a relação entre a população empregada e a população com 15 e mais anos de idade (neste caso analisou-se apenas a população empregada e desempregada com idade entre os 15-64 anos).
[4] Carlos Farinha Rodrigues (Coord.), Rita Figueiras e Vítor Junqueira, «Desigualdade Económica em Portugal», Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), 2012.
[5] OCDE (2014b), «Society at a Glance  2014 - Highlights: Portugal - The Crisis and the aftermath», disponível em: