teologia para leigos
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5 de maio de 2018

A COMUNIDADE CRISTÃ E OS SEUS DIRIGENTES [PAUL HOFFMANN]




Cap. V - DA IGREJA DOS SACERDOTES À IGREJA DO POVO

"Nós somos o povo"
(divisa usada na manifestação de segunda-feira em Leipzig, em 1989)


Nas considerações que vêm a seguir, a minha preocupação principal será verificar como, dentro da perspectiva do Novo Testamento, se poderiam conceber futuramente as comunidades cristãs e, correspondentemente a isso, como se poderiam conceber os dirigentes das comunidades cristãs. Como ensina a experiência histórica, é aqui, na base da Igreja, e não nos escalões superiores da burocracia eclesiástica (ainda que ali se encontrem os centros da administração do poder eclesiástico), que se verificará se a comunidade cristã ainda tem condições de viver na sociedade moderna. Portanto, não se trata de desacreditar o sacerdote como dirigente da comunidade, já que, ele próprio, é o elo mais fraco e, do ponto de vista do direito, na cadeia hierárquica é o mais desprotegido. Trata-se, pelo contrário, de buscar uma forma de serviço sacerdotal que corresponda melhor ao paradigma neotestamentário da comunidade de irmãs e irmãos de Jesus e lhe permita exercer um serviço mais eficiente na comunidade. Isso implica, não só para os sacerdotes envolvidos, mas também para as comunidades, o difícil processo da compreensão mútua e da aprendizagem comum.
O exegeta, pela sua recordação dos dados da tradição neotestamentária, só pode dar contribuição modesta nesta questão. Com maior ou menor habilidade poderá mostrar as perspectivas do Novo Testamento. Todavia, a forma concreta da comunidade futura não será determinada apenas pela sua herança cristã ou pseudo-cristã, mas sim também pelas condições socioculturais da sociedade moderna. A comunidade cristã não constitui uma ilha de bem-aventurança no meio de um ambiente que se prefere apostrofar a si mesmo como ateu. Ela faz parte deste mundo e, quer queira quer não, está de múltiplas maneiras entrelaçada com as oportunidades e as calamidades do mundo. "Não há vida verdadeira no falso". Este aforismo de T. W. Adorno, na sua obra Minima Moralia, vale também para a Igreja cristã.
Consequentemente, o presente esboço, à medida que tenta desenvolver os dados do Novo Testamento com vistas a uma possível configuração futura da Igreja, representa apenas um dos lados de um processo bipolar. Do outro lado, exige-se a consciencialização da situação actual e das suas condições sociais, bem como da conciliação crítica criativa dos dois aspectos. Todavia, a experimentação da Igreja do amanhã só terá sucesso se as comunidades e seus dirigentes se empenharem neste processo de mediação: comprometidos com a inalienável herança de Jesus e solidários consigo mesmos e com o seu mundo actual.

Igreja como povo de Deus a caminho
Ainda que para a passagem do movimento carismático de Jesus à Igreja oficial tenhamos que pressupor leis sociológicas − pois um movimento carismático necessita de institucionalização se quiser sobreviver ao tempo, e, em última instância, necessita da "Igreja-grande-formato" para não se tornar seita e sucumbir ao perigo de se transformar em gueto −, com base na experiência histórica, não se pode esquecer que as formas institucionais originadas dependem das respectivas premissas socioculturais e da constelação histórica. Do ponto de vista puramente sociológico, as formas monárquica e democrática de poder são resultados igualmente possíveis do processo de institucionalização. A história das Igrejas cristãs permite constatar a existência de um vasto leque de alternativas.
Este fato também é passível de interpretação teológica. A pluralidade de formas institucionais está essencialmente relacionada com a historicidade da revelação. A experiência de Deus transmitida por Jesus não visava apenas uma nova relação com Deus, mas também uma nova maneira de convivência humana e, por isso, implicava necessariamente a formação de comunidades. A forma concreta que estas comunidades assumiram foi, sob múltiplos aspectos, consequência do livre jogo das forças históricas, mas ao mesmo tempo também dependeu do impulso original de Jesus que deu, mais ou menos às comunidades cristãs, a sua configuração característica.
Neste sentido as formas originadas têm a sua razão histórica e a sua legitimidade teológica. O cristão crente sempre descobrirá, na caminhada da Igreja através da história, os traços do Espírito que lhe foi prometido. Todavia, esta visão de fé não deverá levar a fechar os olhos às deficiências dependentes justamente do processo histórico. A forma histórica originada pode ser deficiente, quer em relação à herança de Jesus (que deve ser desenvolvida e aprofundada no processo da transmissão), quer em relação ao desafio da situação histórica (por causa de uma acomodação barata a essa situação), quer por cega recusa, que degrada a tradição ao nível de uma letra morta que sufoca a força vital e inovadora do Espírito.
Para a nossa visão cristã isso significa que também hoje devemos ver-nos como "povo de Deus a caminho", numa peregrinação através da história. O êxodo é tema permanente da Igreja. Isso exige de nós a coragem de constante mudança. As palavras de Jesus — "Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, aquele que a perder, salvá-la-á." (Mc 8,35) — descrevem a lei da nossa vida pessoal mas também a lei da vida da Igreja.

          Comunidade de irmãs e de irmãos de Jesus
No centro da acção de Jesus está a experiência da bondade incondicional com que Deus se dedica a todo homem e assim torna presente o seu Reino no meio deste mundo mau. Prometendo a justiça de Deus aos pobres e injustiçados, curando os doentes e mantendo a comunhão com os pecadores e difamados, torna experienciável, no concreto, a acção da graça de Deus aos homens e abre-lhes novas possibilidades de vida. Então, só poderemos entender os ensinamentos de Jesus como uma tentativa de motivar os homens para agirem de acordo com essa bondade e assim — nas condições ainda reinantes deste eon — experimentarem a oportunidade de uma nova maneira de convivência. Não obstante a descontinuidade histórica que existe entre a pregação do Reino de Jesus e a Igreja posterior que lhe seguiu, temos aqui o dado primordial da Igreja, como aquela esfera em que poderá ser concretamente experimentada a graça de Deus entre os homens e através dos homens.
Jesus mostra surpreendente sensibilidade para aqueles pontos nevrálgicos das relações inter-humanas nos quais o homem corre o perigo de usar o seu próximo como objecto dos seus interesses ou de tornar-se ele próprio objecto de tal abuso. Assim, não surpreende que a questão do exercício do poder e da dominação sobre os outros seja tema da sua mensagem. Com base na tradição judaico-apocalíptica, Jesus sabe que as condições reinantes à sua época não eram as relações verdadeiras, as mais coerentes: então, para Jesus, Deus transformará os últimos em primeiros e os primeiros em últimos (Mc 10,31 entre outras passagens; cf. também Lc 1,51-53). Mas também aqui Jesus não se deixa ficar pela visão apocalíptica do futuro. Sob o signo do Reino de Deus que desponta, Jesus adverte os primeiros e os grandes, ou aqueles que pretendam sê-lo, a tornarem-se os últimos, escravos (Mc 9,35; 10,42-45; Mt 18,4; 20,25-28; 23,11; Lc 9,48; 22,24-27). Isso significa no mínimo a superação das estruturas de dominação que determinam o mundo, a favor de uma configuração isenta de dominação das relações inter-humanas, pela qual um se torna irmão e irmã do outro. Aqui está o fundamento da ideia mestra da comunidade cristã.
À luz disso, a comunidade cristã/igreja não pode ser concebida senão como comunhão de irmãs e irmãos de Jesus (Mc 3, 34ss). Mateus dá a esta realidade uma expressão inequívoca e válida, quando em 23, 8 enfatiza contra toda a forma de pretensão unilateral de dominação: ''Todos vós sois irmãos". Esta ideia de fraternidade e de renúncia à dominação marca toda a parenese das comunidades cristãs primitivas na admoestação para o amor e para a submissão mútua.[1] Assim, não admira que a Igreja antiga na sua autoconcepção e na sua prática fosse dominada por esta ideia do "amor mútuo" até ao fim da Antiguidade tardia, devendo precisamente a este fato o seu magnetismo para com os de fora. A muita citada frase "Vede como eles se amam" pode parecer banalizante e sentimental. Na verdade ela indica a característica constitutiva da comunidade cristã como de uma comunidade que deve a sua origem ao amor de Deus e que constantemente pode experimentar e deve praticar este amor na força do Espírito - "o vínculo do amor".
O processo de institucionalização, historicamente necessário, sobretudo a formação das estruturas burocrático-autoritárias que hoje caracterizam a Igreja romana, está em contradição com esta experiência eclesial primitiva. Instituição burocrática e fraternidade pela sua própria natureza excluem-se mutuamente, conforme constatou M. Weber com o olhar insubornável do sociólogo. Isso pode explicar o facto de o discurso sobre a fraternidade cristã, medida pela realidade vivida, parecer a muitos apenas uma farsa e olham, "a Igreja", como um frio aparelho de poder, que só pela ideologia é que ainda se distingue de outros sistemas autoritários. A isso se opõe hoje a consciência que, em muitos está novamente despertando, de que pela sua essência a Igreja deveria ser diferente. Mc 10, 43; Mt 20, 26; Lc 22, 26: a expressão "Não seja assim entre vós" assinala esse permanente desafio a que a Igreja não pode fugir. Assim, tudo depende da seguinte questão: conseguirá a Igreja, na sua vida, e inclusivamente nas suas estruturas, dar forma adequada e confiável a esta experiência eclesial original? Para muitos isso poderá parecer a quadratura do círculo. Para a fé significa o despontar do novo mundo de Deus, e neste sentido é um postulado inabdicável da sua esperança.
A realização da ideia da "comunidade fraterna cristã", conforme novamente vem mostrando a história da Igreja, não é isenta de perigos. A comunidade fraterna como "comunhão pessoal-emocional" pode tornar-se um círculo elitista ou uma seita, que, voltando-se sobre si mesma, perde o contacto com a realidade e, como minoria, se retrai num gueto eclesial. Este é um perigo que hoje se pode observar em movimentos carismáticos ou ainda em certas comunidades de vanguarda, mas também é relevante (em matéria de Igreja universal) quando se tenta compensar a silenciosa fuga das massas da Igreja com o discurso sobre o "pequeno rebanho" e, de tal redução, se esperar secretamente a conservação do status quo. Por isso o discurso sobre a comunidade fraterna cristã necessita do corretivo da "grande Igreja", da ecclesia de Deus que inclui todos os homens, do povo de Deus composto por todos os povos. Ou seja, uma visão de Igreja tal como sob muitos aspectos é atestada pelo Novo Testamento: do pragmatismo de Paulo que procura unir as comunidades heleno-cristãs locais entre si mas também uni-las ao cristianismo palestinense, até à visão do Apocalipse de João da tal "multidão incontável de todas as nações, tribos, povos e línguas" (7,9). A existência eclesial, comunitária, não possui finalidade em si mesma, mas está ao serviço daquela acção libertadora universal de Deus, que Jesus de Nazaré anunciou na sua mensagem do reino de Deus e que, pela sua própria actividade, começou a realizar. Portanto, nem a Igreja universal nem a comunidade local podem ser concebidas como sistemas "fechados", mas como sistemas "abertos", que constantemente ultrapassam as suas próprias fronteiras em direcção ao mundo, no qual se quer realizar o reino de Deus como reino de bondade e de paz, de justiça e de liberdade, ainda que neste mundo isso só seja possível como primícia e de modo fragmentado.
Por isso a Igreja não pode evitar os desafios sociais e políticos, da mesma forma como permanece sempre comprometida com a sua origem em Jesus, que deu a sua vida por muitos.

           A comunidade não precisa de muitos mediadores
A exegese mostra: o Novo Testamento não conhece o "sacerdote do culto" no sentido de oferente e mediador entre Deus e os homens, como autoridade da comunidade. O único mediador é o homem Jesus Cristo. Na sua morte — sacerdote e vítima ao mesmo tempo — Jesus, sobretudo conforme ensina a carta aos Hebreus, realizou de uma vez para sempre expiação e conciliação, e abriu para todos o livre acesso a Deus. Esta constatação contém em si uma reserva crítica em relação a qualquer tentativa de entender o presbítero cristão como "sacerdote" no sentido da história das religiões em geral ou no sentido da sociologia eclesial. Esta reserva põe em causa, em primeiro lugar, uma certa ideia de sacerdote muito difundida na piedade popular católica, e que continua a ser cultivada em sermões de «primeira missa» e livros sobre sacerdotes, e que muito influencia as consciências. Com mais razão ainda proíbe ver potenciada esta mediação no bispo ou no Papa. A reserva dirige-se também contra modernas tentativas de, numa espécie de concepção secularizada do sacerdote, atribuir ao presbítero o papel de terapeuta, médico, exorcista ou guru.
Mas a constatação exegética de que falamos também questiona a autoconcepção das comunidades cristãs. Por que carga de água, especialmente os cristãos católicos, projectam tais expectativas de função nos membros do clero? Não indicará, isso, uma grande deficiência da autoconcepção do cristão individual? Não se trata de encontrar culpados. Diante da actual distribuição de papéis nas comunidades, a responsabilidade maior pelas deficiências da fé cabe aos "pastores", não ao "rebanho", ainda que aqueles muitas vezes sejam apenas vítimas da sua socialização. Hoje temos de responder pelas consequências de uma funesta história da "pastoral", que foi determinada pelo medo e pela descrença, e não pela confiança na assistência do Espírito, que é prometido à Igreja como um todo e a todos na Igreja.
Na visão do Novo Testamento cada membro da comunidade deveria ser determinado pela experiência cristã original do livre acesso a Deus: não recebemos o espírito da escravidão, mas o espírito da filiação pelo qual chamamos a Deus pela palavra «Pai»: somos filhas e filhos de Deus, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rm 8,15-17). Quando o Apocalipse atribui a todos, na comunidade, a dignidade de sumos-sacerdotes e senhores, põe todos os baptizados naquele contacto directo com Deus e naquela soberania senhorial indicada por estas imagens antigas: o homem real e o sumo-sacerdote como a essência do homem redimido, que se tornou independente de intermediários humanos e dominadores terrenos. Ou seja, a comunidade como lugar do contacto directo com Deus e como lugar da liberdade face à dominação.
É somente sobre esta base que se pode buscar uma relação comunitária cristã. A imagem do "pastor e do rebanho", que originalmente se referia a Cristo e aos seus, considerada sob o aspecto da relação entre o sacerdote e a comunidade, aparece não só como inadequada, como também contrária à fé cristã, porque degrada os membros da comunidade a objectos da pastoral. Estes devem ser levados a sério mas como "sujeitos de fé", por mais deficiente que seja a sua autoconcepção cristã. Se muitas vezes parecem ser apenas "subordinados", só o são porque foram postos sob tutela.[2]
Por isso na actual situação de transição, a tarefa principal de todos os responsáveis na comunidade, especialmente do dirigente da comunidade, é o serviço na fé: deve estimular suas irmãs e seus irmãos cristãos para a maturidade (quando esta ainda é pobre ou até esteja em falta) e aceitá-la quando esses irmãos já estruturaram sua vida pessoal e comunitária a partir desta consciência. Deverá entender-se a si mesmo como parceiro numa história de fé comum, na qual antes de mais nada também ele (o que foi ordenado presbítero ou bispo) está inserido com a sua fé e a sua descrença, frequentemente ouvindo e aprendendo, recebendo estímulo e nem sempre ensinando ou encorajando.
Daqui também decorrem algumas consequências para a configuração do culto divino cristão, especialmente para a celebração da eucaristia. Em correspondência com uma falsa ideia de sacerdote, para muitos a Eucaristia é vista demasiado unilateralmente a partir da ideia de «sacrifício». Sem dúvida faz parte desta celebração a memória da morte de Jesus a qual, correctamente entendida, significa a "actualização" da morte de Jesus na cruz, pela qual não cessamos de ser envolvidos na origem da nossa redenção e liberdade. Ora, no centro do culto cristão não está o altar, no qual um "sacerdote" dotado de poder sacral realiza um sublimado ritual sacrificial, mas a mesa ao redor da qual o Kyrios reúne a sua comunidade. Ao participarem todos do mesmo pão e do mesmo cálice tornam-se seu corpo, constituem-se em comunidade de irmãs e irmãos, em nova aliança, na qual lhes é tirado o coração de pedra e lhes é implantado um coração de carne (Ez 36,26; Jr 31,31). Assim, antecipam a visão da refeição do fim dos tempos que Deus quer preparar para todos os povos (Is 25,6), como refeição dos libertados, que aqui se recordam da sua origem na acção libertadora de Jesus e incessantemente se reanimam e se comprometem a empenhar-se, no mundo, contra a situação de injustiça e violência dominante, em favor daquela visão de uma nova humanidade libertada, redimida. Assim, o dia-a-dia do mundo é o lugar do verdadeiro culto divino, onde cada qual deve realizar o serviço da reconciliação entre o homem e Deus e de os homens entre si.
 Com isto não se nega a função de um dirigente responsável pela celebração da eucaristia. Ela apenas necessita de uma integração mais consciente no todo da celebração da ceia do Senhor, cuja base, de acordo com a tradição eclesial, é a Igreja universal, e não o sacerdote individual. Se ele, aqui no contexto de uma acção simbólica religiosa, age "in persona Christi", representa aquele anfitrião que se tornou servidor de todos. Assim a celebração deve ser expressão daquela radical pró-existência de Jesus, que até viveu para os outros a sua própria morte na cruz. O símbolo sacramental está comprometido com este typos primordial. Isso significa que na configuração concreta da acção simbólica deve ser evitado todo gesto que converta a sua intenção original no seu oposto e — consciente ou inconscientemente — reproduza opressão em vez de libertação. Se considerarmos os nossos espaços de culto, a contradição é mais que evidente. Com poucas excepções, arquitectonicamente os espaços de culto não dão uma forma adequada à ideia comunitária da refeição cristã. A sua disposição é muito mais frequentemente expressão das estruturas repressivas que dominam as comunidades cristãs.

       Autoridade é serviço
   Se de acordo com o Novo Testamento o livre encontro entre Deus e a sua comunidade é constitutivo da auto-compreensão cristã, com isso também está mencionada a condição sob a qual se pode falar de direcção e de "autoridade" de direcção na Igreja. (…)


Paul Hoffmann
«Da Igreja dos sacerdotes à Igreja do povo», cap. V (pp. 99-137) de "A herança de Jesus e o poder na Igreja", Paulus, São Paulo/Brasil 1998 (excerto).








[1] Cf. Juan Antonio Estrada, «Igreja, fraternidade laical», blog  A SALA DE CIMA, 13-11-2014:

8 de abril de 2018

ECLESIOGÉNESE [L. BOFF]

«ECLESIOGÉNESE»
— As comunidades eclesiais de base reinventam a Igreja
Leonardo Boff, ofm

Datado de 1977, este histórico livrinho, de apenas 113 páginas, ainda é uma excelente porta de entrada (e de saída) para as múltiplas questões com que os católicos leigos (ainda) se confrontam no século XXI. Por exemplo:

«Quis, o Jesus histórico, uma única forma institucional de Igreja?»

«Jesus, com a sua morte e ressurreição, veio para salvar os homens. Aquando da sua vida terrestre, Jesus fundou a Igreja para que ela continuasse a Sua obra até à consumação dos tempos. A Igreja está de tal forma unida ao seu Fundador que pode ser chamada Corpo de Cristo.»

«Porém, para os evangelistas, há uma ruptura entre Jesus e a Igreja. Entre ambos está o "fracasso" de Jesus crucificado. Está também a infidelidade dos apóstolos e a dissolução da comunidade dos seguidores de Jesus. Só após a ressurreição é que se voltaram a reunir.»

«O modernista Alfred Loysi (1857-1940) situou bem o problema quando, com certo desconcerto, escreveu: "Cristo pregou o Reino de Deus e em seu lugar apareceu a Igreja" ("L’Evangile et l’Église", Paris 1902, 111).»

«Se não há identidade perfeita entre Reino de Deus e a Igreja, que relação vigora entre ambos? Como se chegou da pregação de Cristo sobre o Reino à constituição da Igreja? É ela uma consequência imediata desta pregação ou constitui um substitutivo precário do Reino de Deus que não veio? A Igreja é fruto de uma "decepção" ou de uma realização?»

«O que pregou Jesus: o Reino de Deus ou a Igreja?»

«Sem sacramento da Ordem, a pessoa é sacramentalmente incapaz [para presidir à Eucaristia]. A Igreja entendeu excluir o leigo da presidência eucarística. Ainda recentemente a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 15 de Fevereiro de 1975, censurou a opinião de Hans Küng nestes termos: "Também a opinião já insinuada pelo Prof. Küng no livro «Die Kirche» e segundo a qual a Eucaristia, pelo menos em caso de necessidade, pode ser consagrada validamente por pessoas baptizadas carentes da ordem sacerdotal, não pode estar de acordo com a doutrina dos Concílios Lateranense IV e Vaticano II"».

«O povo pergunta: porque é que nós não podemos celebrar a Eucaristia?» (Carlos Mesters, «O futuro do nosso passado», em "Uma Igreja que nasce do povo – Encontro de Vitória, ES", Vozes, Petrópolis, 1975, p. 137).

Inúmeras outras questões são, de vez em quando, pomos polémicos com ecos vibratórios muito violentos na comunicação social. Uma delas tem a ver com afirmações políticas consideradas fora ou para lá da missão da Igreja de Cristo (cf. certas críticas contundentes do bispo das forças armadas D. Januário Torgal Ferreira a certos ministros do Governo de Passos Coelho-Paulo Portas [2012], que tiveram, como resposta, as seguintes palavras do Ministro da Defesa Dr. José Pedro Aguiar-Branco: "O Sr. Bispo vai ter de escolher entre ser bispo e ser comentador político…". Outro exemplo, o do capelão militar, padre Mário de Oliveira, que após a Homilia do Dia Mundial da Paz de 1968, na Guiné Bissau, foi interpelado pelo comandante do Batalhão de Caçadores 1912 dizendo que o evangelho anunciado naquela homilia ia contra a Constituição que jurara defender. Resposta do capelão: «Pois então, meu comandante, mudem a Constituição, porque eu não posso mudar o Evangelho de Jesus. Estas palavras "assinariam" a sua Guia de Marcha para o Continente… - in "Evangelho no Pretório", p.65ss).

Outras questões (algumas relacionadas com esta tensão Igreja-mundo) dizem respeito às opções de fundo que a Comunidade cristã toma ou não toma. Há comunidades que optam por uma postura teológica pacifista, neutral, consensualmente pluralista, recusando «habitar» o polémico espaço público como seria de esperar em coerência com o Concílio Vaticano II.

«A Igreja deve entender-se e creditar-se como testemunho público e como transmissora de uma perigosa memória libertadora entre os «sistemas» da nossa sociedade emancipadora. Esta tese alicerça-se na memória como forma fundamental de expressão da fé cristã e na importância central e privilegiada da liberdade dentro dessa mesma fé. Na fé, os cristãos realizam a memoria passionis, mortis et resurrectionis Jesu Christi; no acto de acreditar recordam o testemunho do seu amor, em cujo amor se manifestou o reinado de Deus entre os homens pelo próprio facto de o domínio do homem pelo homem começar aí a desmoronar-se; memória de que Jesus se colocou do lado dos insignificantes, do lado dos marginalizados e oprimidos, proclamando assim o advento do reino de Deus como força libertadora de um amor sem reservas. Esta memoria Jesu Christi não é apenas uma recordação que dispense enganadoramente de correr riscos futuros. Não é uma espécie de reverso burguês da esperança. Pelo contrário, implica uma determinada antecipação do futuro, como futuro dos que não têm esperança, dos fracassados e acossados(J. B. Metz, «La fe, en la historia y la sociedad», Cristiandad, 1979, pp. 101-102)

Portanto, importa perguntar: qual é o «lugar teológico» que funciona como opção preferencial da Comunidade local? A resposta a esta pergunta é a garantia da sanidade (ou da doença) mental de uma comunidade local. Quando uma comunidade local não é capaz de responder como Jesus respondeu, então, começam o enquistamento e as tensões.

Como muito bem diz L. Boff, «na hora de escolher uma teoria explicativa da sociedade, entram em jogo uma série de critérios que não procedem exclusivamente da objectividade e da racionalidade, mas da 'opção de fundo' e do 'lugar social' de quem analisa.» De facto, «toda a reflexão sobre a realidade humana está orientada por um projecto de fundo, ou seja, por uma utopia construída por um grupo na qual esse colectivo humano projecta o seu futuro». Sendo assim, em termos gerais, «podemos identificar dois tipos de projectos ou utopias cada um com o seu tipo de aderente: o projecto das classes dominantes e o projecto das classes dominadas da sociedade. A utopia dos grupos dominantes propugna um progresso linear, sem mudança alguma dos esquemas que estruturam a sociedade; ela manifesta uma fé imensa na ciência e na técnica e pressupõe uma concepção elitista da sociedade, cujos fins e benefícios − acredita − irão progressivamente estender-se às massas. A utopia dos grupos dominados procura uma sociedade utilitária: o fosso entre as elites e as massas constitui o principal obstáculo ao desenvolvimento e, enquanto ele persistir, não haverá verdadeiro progresso e justiça social. Esta última utopia afirma uma fé inquebrantável no potencial transformador dos oprimidos capaz de gerar uma sociedade com o menor número de opressores injustos». ("La fe en la periferia del mundo. El caminar de la Iglesia con los oprimidos", Santander, 1981, 26-27 cit. por Julio Lois, «Identidad cristiana y compromiso socio-político», Ediciones HOAC, 110-111).

Como diz a Comunidade Cristã da Serra do Pilar (VN Gaia, 08-04-2018) pela boca de José Antonio Pagola, «a Igreja do futuro não poderá continuar a apoiar-se nos presbíteros», pois «o maior potencial para a renovação da Igreja está nos crentes leigos e leigas». Só os leigos — para lá dos ambíguos "sim, mas" que enxameiam os textos do Concílio Vaticano II, em matéria de identidade & especificidade laical … — serão capazes de viver sem esquizofrenias o serviço diaconal e ao mesmo tempo o compromisso político público como Jesus de Nazaré nos mandou viver.




(Leonardo Boff, ofm)






9 de janeiro de 2018

A ÉPOCA PROBLEMÁTICA DO SEGUNDO «PÓS-CONCÍLIO» [J. PEREA]



A ÉPOCA PROBLEMÁTICA DO SEGUNDO «PÓS-CONCÍLIO»
— o que o Papa Francisco tem pela frente


Três lustros (15 anos) após o encerramento do Vaticano II, o optimismo – para não dizer a esperança suscitada por ele – esboroava-se. Inúmeras orientações emanadas da hierarquia durante a época pós-conciliar não estavam de acordo com o ideal proposto pelo Concílio. Vozes nem por isso alarmistas, como as de J. B. Metz em 1969 ou de K. Rahner três anos após, falavam de uma marcha atrás rumo ao gueto[1]. Generalizou-se o desencanto e, apesar de muitos – sobretudo pertencentes à hierarquia e às correntes católicas neoconservadoras – nunca o quererem designar assim, a verdade é que se produziu uma vasta e profunda crise no povo cristão. Os sintomas foram numerosos e bem evidentes. Agrupamo-los em três palavras-chave de modo a sermos melhor entendidos: (1) paralisação do processo de renovação; (2) silenciamento da teologia do "Povo de Deus"; (3) falhanço da reforma das instituições.

Concomitantemente produziu-se um fenómeno de resistência tenaz, silencioso, em boa parte reprimido, que, apesar do mau ambiente reinante, subsistiu, e que procurava tão só manter a chama conciliar acesa, à espera de tempos melhores. A segunda parte do capítulo 4 deste livro apresenta o ideário, quiçá não explícito, daqueles que mantiveram a todo o custo a vontade de reforma, o ideário daqueles que pensavam – cheios de razão – que nos documentos conciliares estavam formuladas as linhas de fundo duma fé para a nossa época, fé fiel à autêntica tradição, porém sem qualquer tipo de rotura, fé actualizada por via duma interpretação que consideravam adequada ao nosso tempo[2].


I – A CRISE PÓS-CONCILIAR

1.      Paralisação do processo de renovação

Os historiadores da Igreja sabem bem que os períodos de recepção dos Concílios são sempre longos e que, frequentemente, o pós-concílio é sempre um tempo de movimentações e estratégias claramente contrárias às deliberações conciliares. Ora, acontece que hoje em dia, 50 anos após o encerramento conciliar, estamos a viver uma situação bastante diferente dessa inicial e movimentada fase. O dinamismo emanado do Concílio Vaticano II foi dificultado durante anos e anos por círculos conservadores que têm grande influência – inclusivamente, influência económica – na condução da Igreja. Mais ou menos silenciosamente, vive-se uma polarização subliminar entre duas frentes. Sobre muitos refluiu a nostalgia da cristandade, com a sua respectiva arrogância confessional. A comunhão, na Igreja, tornou-se meramente verbal, e a coresponsabilidade aos mais diversos níveis foi asfixiada pelo Direito. O diálogo autêntico tornou-se – e continua a ser – difícil com os bispos. Muitos com responsabilidades eclesiais deixaram-se levar pela perda da confiança na renovação eclesial. Bastantes foram catalogados de suspeitos por parte dos seus superiores na Igreja.

Como consequência de isto tudo, um contingente significativo de católicos perdeu qualquer interesse no acontecimento Vaticano II e deixaram de se inspirar nele. Círculos cada vez mais amplos foram apanhados pela desilusão, e neles ocorreu uma certa emigração «interna» ou externa. Muitos católicos, mergulhados neste desaguisado, caíram na tentação de viver a sua fé – parafraseando Hugo Grocioetsi Ecclesia non daretur, como se a igreja não existisse. Parece que o Concílio ficou perdido nas brumas duma memória, sobrevivendo como princípios de minorias sensíveis, resistentes à evolução dum mundo donde retiram alguns argumentos para fundamentar a reclamação de mudanças ou respostas aos desafios da sociedade actual, petições a que ninguém há muito liga nenhuma.

Apesar da nova era que se iniciou com o Papa Francisco, há quem ainda tente travar o processo de recepção do Concílio.[3]

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[3] Cf. Robert Dodaro, osa (Edit.), «Permanecer en la verdad de Cristo – Matrimonio y comunión en la Iglesia católica», Ed. Cristiandad 2014, ISBN 978-84-7057-601-0. Andrew Brown, The Guardian, 24 de Dezembro de 2017, «A guerra contra o Papa Francisco»: Exclusivo «The Guardian» / PÚBLICO. Tradução de António Domingos. Este artigo encontra-se publicado no P2, caderno de domingo do PÚBLICO. [NdT]



Na verdade, a «recepção do Concílio» começou a ser travada cerca de cinco anos após a sua clausura e as figuras de proa do aparelho curial nunca deixaram de trabalhar sobre os seus documentos-axiais (nomeadamente, Lumen gentium e Gaudium et spes) no sentido de «regressar aos textos autênticos do autêntico Vaticano II» a fim de «defender a verdadeira Tradição da Igreja» (palavras do cardeal J. Ratzinger, no livro de Vittorio Messori, «Informe sobre la fe», BAC Popular N.66, 22005, p. 37). [NdT]

Cf. igualmente Pedro Rodríguez (Dir.), «Eclesiología – 30 años después de "Lumen Gentium"», Ediciones Rialp S.A., Madrid 1994, ISBN 84-321-3066-4. Na página 22, a seguinte definição parece datar de tempos ante-conciliares: «a Igreja é a reunião dos homens que se encontram unidos pela comunhão do Credo e dos sacramentos, conduzidos pelos pastores legítimossobretudo pelo Papa. Por isso, a Igreja é uma formação social que é tão tangível e visível como um Estado» - Cardeal Gerhard Ludwig Müller citando Belarmino, "Controv. Gen. 4 III/2; 3 II". Que contraste com a abordagem libertadora de H. Kung: «Todos os crentes são Povo de Deus, portanto fica excluída qualquer clericalização da Igreja»; «todos [os povos] são povos de Deus pelo chamamento divino, portanto fica excluída qualquer exclusividade da Igreja»; «o povo de Deus formado por todos os crentes é um povo histórico e isso exclui a idealização da Igreja», etc. (in Hans Küng, «La Iglesia», Herder 1969, pp. 152-158). Revelando um evidente mal-estar pelo ambiente de irrupção de inúmeras novidades e de uma buliçosa efervescência de ideias teológicas e pastorais na sequência dos debates conciliares, o cardeal J. Ratzinger (referindo-se aos anos 70-80 do século XX; anos de "autodestruição", segundo o seu ponto de vista) diz: «É inquestionável que os últimos vinte anos foram decididamente desfavoráveis para a Igreja católica». (ibidem, «Informe sobre la fe», p. 35) [NdT]

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Não se trata de contestatários explícitos dos textos promulgados, mas de críticos do «acontecimento» conciliar (tal como atrás o definimos), pessoas que temem que se renove tudo o que aquele acontecimento significou para a época. No seu subconsciente, persiste a desvalorização do Concílio, que classificam de um concílio «pastoral», ignorando ou menosprezando o sentido profundo deste termo.

As gerações jovens, incluindo os presbíteros novos, não sabem em que consistiu o Concílio: para eles o Concílio não lhes diz nada[4]. Sentem-se mais tocados pelo catolicismo que o precedeu, sobretudo, pelas suas seguranças/certezas e por um certo autoritarismo clerical que os protege dos problemas que a comunidade cristã sempre suscita.

Após o Sínodo de 1985, a estratégia clerical foi a de regressar aos comportamentos anteriores ao Concílio plasmando-os no «novo» Código do Direito Canónico (CJC) de 1983, o qual trancou definitivamente as portas à abertura inspirada no Vaticano II. Assim, se tornou histórica e definitivamente inoperante o Concílio Vaticano II. Muitas disposições deste CJC significam um regresso ao passado ante-conciliar, na medida em que partem de uma interpretação restrictiva do Vaticano II, interpretação essa que pura e simplesmente elimina as novidades mais radicais do Concílio dos anos sessenta. Não houve o mínimo esforço em compreender a viragem que aconteceu no Concílio e, por isso, fez-se tudo o que se pôde por passar ao largo de tão profunda reforma.

A autoridade curial empenhou-se na maior uniformidade possível. Bloquearam-se, firmemente, todo o tipo de iniciativas que partissem das Igrejas locais, e isso com mão de ferro a partir do centro do poder. Em concreto, descafeinou-se completamente a colegialidade episcopal. Na verdade, o sínodo dos bispos tornou-se, não um Colégio com actuação e autoridade decisória verdadeira, mas apenas um organismo que «aconselha» o Papa, o qual é livre de aceitar ou ignorar as propostas da assembleia episcopal.

Em suma, a instituição eclesial no seu todo não reconheceu a evidência de que nos encontramos numa situação de paralisia que afecta toda a Igreja e que exige profundas reformas a vários níveis para que o organismo funcione: reformas na presidência da comunidade, na celebração dos sacramentos, no funcionamento dos órgãos da coresponsabilidade, na liberdade da investigação teológica, na participação das mulheres, etc. O reconhecimento de tal situação de paralisia está a custar, à Igreja, os olhos da cara. Apesar da insistência resiliente do Papa Francisco, existem muitos crentes que se interrogam se a hierarquia será capaz de realizar de per si a reforma eclesial que muitos consideram imprescindível para que se possa anunciar o Evangelho de Jesus como deve ser, no mundo actual.

Ou seja, durante quase trinta anos, assistimos ao contrário daquilo que o Papa João XXIII procurava com o Concílio, e que expressou na imagética de «abrir as janelas da Igreja de par em par». Na prática, não só se fecharam todas as janelas como também as portas, de modo a cortar a comunicação com o mundo exterior e a reforçar a disciplina a fim de evitar fugas.

2.      Silenciamento da teologia do "Povo de Deus"

Este aspecto merece uma consideração pormenorizada, por causa da importância única e decisiva que a categoria «Povo de Deus»[5]ideia axial – mereceu do Concílio. Já se escreveu, à saciedade, que o conteúdo do capítulo II da Constituição sobre a Igreja (Lumen Gentium – LG, "Sobre a Igreja") ocupou, neste texto conciliar, o lugar que antes estava reservado aos capítulos referentes ao ministério, ao laicado e à vida religiosa. Isto quer dizer que, após o Vaticano II, todas estas dimensões da vida eclesial (ministérios, laicado e vida religiosa) passam a estar subordinadas à categoria básica de Povo de Deus[6], sujeito eclesial que abraça todos os demais sujeitos diferenciados; a não ser assim, aquela ordenação no corpo do texto (em 1º lugar o Povo, depois os Ministros, …) torna-se inconsequente.

Lamentavelmente, desde o Sínodo dos bispos de 1985, esse termo chave desapareceu do ensino magisterial prático[7]: o Povo de Deus continua a ser objecto eclesial (da acção pastoral) subordinado ao ministério eclesiástico. A eclesiologia bíblico-teológica e patrística do Povo de Deus, tão rica de conteúdo espiritual, deixou de ter interesse, quiçá porque afirma, com toda a clareza, a dignidade fundamental de todo o Povo de Deus. Os antigos privilégios dos clérigos travaram o passo a qualquer caminhada rumo a uma comunidade futura renovada. A categoria paulina básica de «carisma», a que o Apóstolo conferiu carácter estruturante da Igreja e que foi repescada na Lumen gentium (cf. N. 4; 7; 12, etc.) e noutros textos do Vaticano II, foi completamente moldada através de estratégias hierárquicas de modo a que essa categoria paulina fosse colocada em espaços ocos ou em nichos deixados livres pelos ministérios previamente estabelecidos. Estes ministérios estabelecidos mantiveram-se, assim, imunes a qualquer tipo de nova configuração eclesial que pudesse vir a ser proposta. A única coisa que aconteceu foi uma certa integração dos ministros na comunidade cristã, mas sem partilharem do estatuto de sujeito em pé de igualdade com os membros não ministeriais da Igreja. Os ministros pré-estabelecidos não assumem o facto de eles também procederem do amplo Povo de Deus, ou de eles se deverem posicionar lado-a-lado de outros sujeitos com quem devem partilhar a solidariedade como membros de um único povo sacerdotal. Continua a falar-se dos membros do Povo de Deus como os que são «guiados», «ensinados», «cuidados» (a famosa cura pastoralis) pelos sujeitos do ministério. Na prática, continua a desconhecer-se que todo o Povo de Deus participa no ministério sacerdotal de Cristo, na experiência, na configuração e no testemunho da fé, na celebração divina, na coresponsabilidade e no envio ao mundo.

Consequentemente, ignora-se outra importante insistência do Concílio acerca do «sentido sobrenatural da fé de todo o Povo» de Deus (LG 12,1). Assim se paralisa a criatividade da base cristã, constitutiva da concepção viva da tradição, bem como não se valorizam os múltiplos discernimentos, nomeadamente éticos, com os quais a Igreja se comprometeu nestes últimos tempos. Enquanto os bispos e os presbíteros continuarem a pensar as actividades pastorais como território da sua única exclusividade, as afirmações acerca do Povo de Deus enquanto sujeito – aspecto basilar do Concílio – permanecerão ineficazes, ao mesmo tempo que os monopólios presbiterais e magisteriais instalados permanecerão intocáveis.

A doutrina conciliar teve de fazer frente às estruturas do poder espiritual antigas e ao duro monopólio do clero. O Concílio perdeu essa batalha.[8] Nunca conseguiu saltar de uma linguagem teórica e de belas imagens bíblicas de carácter simbólico rumo a concretizações que transformassem as estruturas e o direito eclesiástico. Fazer derivar todos os ministérios da acção do Espírito fazendo dele o coordenador funcional da missão salvífica da Igreja teria emprestado conteúdo eclesiológico aos novos "colaboradores", aos "assistentes pastorais", aos "ministérios laicais", aos "leigos-livres" (seja lá como quer que lhe chamemos) recentemente criados por razões pragmáticas. O que é certo é que a condição eclesial destes nunca chega aos calcanhares dos privilégios e das prerrogativas, nem à prioridade do lugar e do poder dos ministros estabelecidos desde antanho, os quais apelam, a seu favor, ao «direito divino» da tríada da ordenação. Todas estas formulações maciçamente doutrinárias foram mantidas como estabilização e sanção não apenas teológica, mas também ideológica daquelas posições de superioridade. Não há maneira de fazer saltar ou abrir a tampa do cartel do poder, tal como dolorosamente podem constatar os colaboradores pastorais não ordenados.[9] Falta-lhes não apenas a ordenação, mas também a plena incorporação num novo espectro de serviços e ministérios eclesiais.

Em suma: estamos para ver quando se dará a inclusão estrutural (não apenas conjuntural) de todos os sujeitos do Povo de Deus nas realizações vitais da Igreja. As tarefas de direcção devem ser coordenadas e vinculadas na linha da igual dignidade de todo o Povo de Deus: só assim a sua valorização ao nível dos princípios será consequente no plano estrutural. Quando todos os membros e todas as funções nascerem desta base, nunca se produzirá a separação que hoje existe: a Igreja «docente» nunca dispensará a função de escuta e até a sua doutrina deve radicar na experiência e na articulação comunitária da fé; a Igreja «discente» estará sempre autorizada a pronunciar a sua própria palavra e participará activamente no testemunho docente da fé.

3.      O falhanço da reforma das instituições

É desta situação que provém o fracasso da pretensa reforma das instituições. A causa que travou o início dum processo vigoroso de rejuvenescimento da Igreja, e que ameaça impedir uma recepção construtiva dos impulsos que se geraram no Concílio é a falta de articulação entre as orientações teológicas, pastorais e espirituais plasmadas na sua eclesiologia e uma renovação institucional coerente com elas. A importante elaboração eclesiológica e as indicações pastorais do Concílio tiveram, no pós-Concílio, uma influência raquítica, demasiado insuficiente ao nível das estruturas. Nem sequer se chegou a fazer uma revisão profunda das instituições eclesiais que as tornasse mais transparentes, flexíveis, ligeiras e coerentes com as exigências evangélicas.

A razão é muito simples. A superação do clericalismo, impulsionada pelo Concílio, implicava o abandono da referência que as instituições eclesiásticas e a sua autoridade – enquanto centro e medida da fé cristã e da Igreja – desempenhavam. Aquele impulso conciliar obrigava a redescobrir outras dimensões constructoras de Igreja: a , a comunhão, a disponibilidade para o serviço. São estes os valores com os quais se deve medir, quer a possibilidade, quer as instituições eclesiásticas em matéria de adequação ao Evangelho.

Pois bem, reconhecer o critério eclesial da referência ao Evangelho – como valor supremo acima da lógica interna das instituições – constituía uma mudança de mentalidade demasiado profunda a realizar. Lamentavelmente, as instituições haviam-se consolidado de tal maneira que acabaram por se atrasar quanto à missão que lhes incumbia no mundo. Na sua lógica interna, guiavam-se demasiado pelo uso do poder (mesmo que este poder se mascare com o adjectivo de sagrado ou espiritual) em vez do uso do serviço, convertendo-se, assim, em guardiãs da «ordem estabelecida», encobridoras dos conflitos latentes reais.

Um dos axiomas da sociologia das organizações diz, com certo cinismo, que toda a organização tem como principal objectivo sobreviver, ampliar a sua área de influência e incrementar o seu poder. Com a mira focada apenas no crescimento e no aumento dos recursos, muitas organizações são capazes de sacrificar os objectivos para os quais foram fundadas. Outras, no seu afã de se protegerem do exterior, acabam por incorrer em práticas autodestrutivas que as condenam à irrelevância, ao ostracismo e ao desaparecimento. Nunca devemos menosprezar as advertências dos sociólogos. Essas advertências devem ser repensadas na linha dum diálogo mais proveitoso e eficaz com outros credos religiosos e outras sabedorias espalhadas por esse mundo fora.

Ali onde confluem hierarquia e opacidade, será aí que preferencialmente se darão todo o tipo de abusos. Quanto maior assimetria de poder entre hierarquia e fregueses [=per-ecclesiæ, leigos], entre administradores e administrados maior é a probabilidade de a organização se anquilosar. A história da Igreja mostra que, também dentro dela, as autoridades eclesiásticas são propensas à tentação do poder, com a agravante de a cultura moderna oferecer novas formas mais subtis e muito eficazes de acumulação do dito poder. A Igreja assume mais riscos que qualquer outra instituição, por causa da sua configuração institucional, na medida em que concentra, em muito poucas mãos, uma enorme autoridade, autoridade frequentemente nada transparente. Máxime quando, por deferência para com a autoridade, são os próprios fregueses que de antemão renunciam ao controlo dessas instituições e confiam que os responsáveis, na sua sabedoria, saberão melhor do que ninguém autolimitarem-se e autocorrigirem-se.

Quanto a isto, a questão candente é o eclesiocentrismo: acima de tudo, a Igreja e os seus interesses! Acontece que o eclesiocentrismo é irmão gémeo de uma exigência amplificada de institucionalização. O risco de que a Igreja-instituição ofusque a Igreja-mistério torna-se, então, enorme. E quando isso sucede, solta-se a tampa de todas as ambições pessoais, o carreirismo, a aparência baseada numa imagem vaidosa, as lutas intestinas, as divisões no seio do corpo eclesial, inclusivamente a necessidade de pôr de lado a justiça a fim de defender o «bom nome da Igreja».

São muitos os que pretendem que a presente realidade da Igreja se mantenha absolutamente homogénea, e, quanto àqueles que não concordam, que "vão à vida" sem fazer ruído, sem importunar demais. A dificuldade para que tal situação mude está em nos encontrarmos diante de uma mentalidade e uma realidade profundamente enraizada, quer estrutural, quer cultural, quer pré-organizativamente. Enfrentamos uma estrutura institucional montada assim desde há muitos séculos e que choca de frente com as tendências sociais actuais absolutamente irreprimíveis que avançam numa via de aumento da diversidade dos grupos e de autonomia das pessoas.

Como consequência destes últimos trinta anos, forjou-se, de facto, uma cultura eclesial hegemónica que impõe um certo modelo de edificação de Igreja, ao mesmo tempo que, a outros modelos legítimos mas não hegemónicos, não se lhes deixa margem de manobra nem direito de cidadania, nem muito menos a possibilidade de interagir suficientemente com o anterior.

As estruturas existentes antes do Vaticano II sempre estiveram em vantagem. As novas posturas, que deveriam ter transformado o sistema, enfrentaram-se com uma doutrina jurídica forjada em tempos remotos e com uma situação de conditio possidentis por parte do governo e da política eclesiástica.

É por isso que a reforma e a adequação da estrutura e das instituições eclesiásticas só serão possíveis se elas se cotejarem e se medirem forças com o critério eclesial supremo: a fidelidade a Cristo e ao Evangelho, a consciência da fé, os valores da comunhão e da disponibilidade para o serviço.

Deviam ter sido tiradas as devidas consequências, para a praxis eclesial, das posições de princípio definidas pelo Concílio. Depois de ter falado do Povo de Deus, os capítulos subsequentes sobre a hierarquia, sobre o ministério papal e episcopal, o laicado, etc. tinham de ter chegado a conclusões concretas e não se terem deixado ficar apenas pelo terreno dos princípios. Devia ter-se lutado firmemente para que o primado fosse inserido necessariamente na responsabilidade colegial dos bispos, de modo a que as igrejas locais fizessem frente ao centralismo romano. Deveria ter-se trabalhado com um horizonte de futuro de modo a integrar novos ministérios eclesiais no mesmo grau de ordem existente nos ministérios até agora privilegiados. Nunca se deveria ter acreditado ingenuamente que viesse a ocorrer a traslação automática da eclesiologia do Povo de Deus para um ordenamento jurídico concreto, para uma estrutura institucional e para uma política eclesial: deveriam ter sido dados previamente esses passos e, depois, deveria controlar-se criticamente essa passagem, supervisionando o traslado para a praxis eclesial e pastoral, etc. Nada disso foi feito.

O pior é que a questão da reforma das instituições nunca é meramente pragmática: ela tem repercussões muito sérias na concepção de Igreja que se pretende. Basta uma olhadela retrospectiva para que nos apercebamos, claramente, do contexto em que muitas das medidas foram tomadas, e concluir que, através dos trabalhos secretos à volta da Lex Ecclesiæ Fundamentalis (imediatamente compilados e reunidos no Código de 1983), se modificou de modo determinante a constituição da Igreja católica. Com efeito, o poder jurisdicional ocupa a cadeira principal no pensamento oficial das instituições. Falar apenas de paralisação ou de centralização, já seria muito grave. Mas, muito mais perigoso para o futuro da Igreja é a sua juridicização. A questão teológica de fundo é a seguinte: a estrutura interna da Igreja de Jesus Cristo é desde os seus começos apostólica e, posteriormente e no concreto, episcopal. Essa estrutura própria da Igreja apoia-se no ordo, ou seja, na consagração, pelo que, o poder da ordem ocupa uma posição prioritária sobre o poder de jurisdição, e nunca o contrário; a jurisdição depende da ordem. Assim o ensinou claríssima e rotundamente o Concílio Vaticano II (cf. LG 21)[10]. Hoje em dia, é mais que evidente a supremacia do poder jurisdicional na organização eclesial e a secundarização do poder da ordem. Esta fundamentação opera, subliminarmente, alterações de mentalidade na hierarquia e nos membros do Povo de Deus. Tais alterações favorecem novas medidas que rebaixam a Igreja católica ao nível de uma mera hierarquia organizacional.» (Cont.)

Joaquín Perea, teólogo

EXCERTOS DE:
«Del Vaticano II a la Iglesia del Papa Francisco», PPC.
«Otra Iglesia es posible – eclesiología práctica para cristianos laicos», Ediciones HOAC.





[1] Veja-se Joaquín Perea, José I. González Faus, Andrés Torres Queiruga y Javier Vitoria (eds.), «Clamor contra el gueto – textos sobre la crisis de la Iglesia», Madrid, Trotta, 2012, pp. 278 (inclui a colaboração de perto de 40 teólogos…). ISBN 978-84-9879-256-0 [NdT].
[2] Esta curta introdução refere-se a um vasto período histórico que Andrés Torres Queiruga contextualiza com brilhantismo em Concilium (RIT) N.364, Fevereiro 2016, pp. 28-29 (Editorial Verbo Divino). [NdT]
[4] Há, a este respeito, duas obras que devem ser adquiridas:
Daniel Moulinet, «El Vaticano II contado a los que no lo vivieron» e Gustave Martelet, «No olvidemos el Vaticano II». [NdT]
[6] «A SALA DE CIMA» - 17 OUTUBRO 2012, "O debate decisivo", JM Castillo [NdT]:
«A SALA DE CIMA» - 18 OUTUBRO 2012, "Quem tem o poder na Igreja?", JM Castillo [NdT]:
[7] Dez anos após o encerramento dos trabalhos conciliares, o Papa Paulo VI promulgou o documento Evangelii Nuntiandi (08-12-1975). Nele se reflectem ainda os ecos mais primaveris e mais fecundos vindos da sala conciliar; vejam-se, a título de exemplo, os pontos 8 e 9. Até à chegada do Papa Francisco, nunca mais a Igreja Oficial pós-conciliar foi tão contundente assim. Citemos apenas um fragmento: «Como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser "o resto", que é "dado por acréscimo". (Cf. Mt 6,33) Só o reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele[NdT] FONTE:
[8] Cf. José Mª González-Ruiz, «Modelos de Iglesia en el Nuevo Testamento», in VV.AA., “Por la senda de Medellin y Puebla”, Diakonia, CICA Manágua-Nicarágua, Marzo 1984, N. 29, p. 106-107; a propósito de GS N.40, "…a Igreja avança conjuntamente com toda a humanidade, experimenta a sorte terrena do mundo", J.M.G. Ruiz diz: «… o triunfo profético da Igreja como povo de Deus exigia dos cristãos o desmantelamento da "Igreja-cristandade" ou "sociedade-perfeita". Este último modelo pretende conferir à Igreja a autoridade de resposta a todas as perguntas humanas: religiosas, sociais, políticas, económicas e até científicas. Assim se explica a condenação de Galileu e a excomunhão daqueles que não se submeteram ao seu poder temporal. Logicamente que esta desmontagem não se pode fazer em pouco tempo. Entretanto, o Vaticano II não completara ainda as suas bodas de prata e já víamos como sobreviviam profundas resistências ao abandono do modelo-cristandade. Logicamente que esta resistência é maior ali onde a Igreja está mais perto de qualquer tipo de poder, incluindo o poder eclesiástico que, entretanto, não se convertera em puro serviço evangélico.» [NdT]
[9] Cf.: «Que modelo de comunidade?», por Marco Politi, in blog «A Sala de Cima» (31-10-2014):
«Enquanto o primeiro ano de pontificado de Francisco era assinalado por este debate [«As mulheres estão totalmente ausentes das funções directivas da Igreja católica»], a Igreja anglicana da Inglaterra estabelecia no sínodo de 20 de Novembro de 2013 o princípio do acesso das mulheres ao episcopado, praticamente por unanimidade: 378 votos a favor, 8 contra e 25 abstenções. Vinte e um anos antes abrira às mulheres o acesso ao sacerdócio.» [NdT]
[10] Veja-se o extenso comentário do redactor principal da Constituição: G. Philips, «La Iglesia y su mistério en el Concilio Vaticano II». Barcelona, Herder, 1968-1969, pp. 307-335.