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13 de fevereiro de 2017

O FOSSO ENTRE O CLERO E O LAICADO



O FOSSO ENTRE O CLERO E O LAICADO


É mais que conhecida a actual crise do sacerdócio na Igreja católica e a total ineficácia dos esforços levados a cabo, ao nível oficial, para a superar. Os problemas relativos à escassez de sacerdotes, a comunidades sem eucaristia, ao celibato, à ordenação das mulheres, etc., ainda que de modo não exclusivo, condicionam em grande medida a grave situação a que nos referimos. (É em termos sobreponíveis que Edward Schillebeeckx nos introduz no seu livro «Plaidoyer pour le peuple de Dieu», Cerf 1987, p. 9; «A situação actual [acerca dos Ministérios na Igreja] é sentida por muitos – simples fiéis ou membros do clero – como deplorável, quanto a muitos pontos de vista» - NdT). Com progressiva frequência vemos 'seculares' assumir o papel de guias ou de líderes paroquiais, os quais, por não estarem «ordenados», não podem celebrar a eucaristia com os seus paroquianos como seria a sua obrigação.

Tal realidade não levantava problema de espécie alguma na Igreja primitiva, onde a celebração eucarística dependia apenas da comunidade. Os encarregados da presidência da eucaristia – de acordo com a comunidade – não eram sacerdotes «ordenados», mas paroquianos absolutamente normais. Hoje em dia chamar-lhe-íamos 'seculares', ou seja, homens e inclusivamente mulheres, na sua maioria casados, ainda que também os houvesse solteiros. O importante era a sua nomeação pela comunidade. Pergunta-se: por que é que aquilo que outrora era possível não pode sê-lo igualmente possível hoje?

Se Jesus, como se afirma, fundou o sacerdócio da Nova Aliança, porque é que disso não restou a mais pequena menção durante os primeiros quatrocentos anos da vida da Igreja?

Diz-se também que Jesus fundou os sete sacramentos que são administrados pela Igreja católica. Acontece que é difícil prová-lo em mais do que um de entre estes sete casos, mas, pelo menos, naquilo que diz respeito ao sacramento da ordem é totalmente impossível prová-lo. Bem pelo contrário, Jesus mostrou, por palavras e por obras, que não queria sacerdotes. Nem ele era sacerdote, nem nenhum dos «Doze» o foi, nem tão-pouco Paulo.

Do mesmo modo é impossível atribuir a Jesus a criação da ordem episcopal. Nada nos permite demonstrar que os Apóstolos, para garantir a permanência da sua função, constituíram os seus sucessores em bispos. O ofício de bispo é, aliás como todos os demais ofícios na Igreja, criação da própria Igreja, sendo bem conhecida a evolução histórica deles. É evidente que a Igreja sempre pôde, e continua a poder, dispor livremente de ambas as funções – episcopal e sacerdotal – podendo, portanto, mantê-las, modificá-las ou suprimi-las.

A crise da Igreja perdurará enquanto esta não se decidir a oferecer a si própria uma nova constituição, que acabe de vez e para sempre com os dois estatutos actuais: sacerdotes e seculares, ordenados e não-ordenados. Tudo deverá restringir-se a um único «ofício», que inclui guiar a comunidade e celebrar a eucaristia com a comunidade, função que poderá ser desempenhada por homens e mulheres, casadas ou solteiros. Acabaríamos assim, de uma penada, com o problema da ordenação das mulheres e com a questão do celibato.

Quanto à pretensão de se acabar com «as duas classes» existentes na Igreja, sempre se contrapôs que as evoluções estruturais ocorridas sempre o foram fundamentadas – ainda que indirectamente − no Novo Testamento. O exemplo mais frequentemente mencionado é o do baptismo das crianças, que não aparece expressamente no Novo Testamento, mas que nem por isso o Novo Testamento o contradiz. Acontece que tais «evoluções estruturais» só podem ser consideradas válidas caso estejam conformes aos enunciados básicos do Evangelho. Caso se oponham a estes enunciados essenciais, devem ser consideradas ilegítimas, insustentáveis e nocivas.

Tal raciocínio aplica-se, sem qualquer dúvida, igualmente à Igreja «sacerdotal» ou clerical. Inquirindo os testemunhos dos tempos bíblicos e do cristianismo primitivo chegamos à conclusão clara e convincente de que o episcopado e o sacerdócio se desenvolveram à margem da Escritura e foram posteriormente justificados como parte ou elemento do dogma. Tudo parece indicar que, para a Igreja, é chegada a hora de regressar ao seu ser próprio e original. (…)

Dedico o presente livro especialmente aos fiéis das dioceses em que eu exerci directamente o meu ministério: Coira, Basileia e Rottenburg-Stuttgart.


Herbert Haag, Lucerna, Ano Novo de 1997.







31 de outubro de 2014

QUE MODELO DE COMUNIDADE? [MARCO POLITI]

«VENDE-SE IGREJA»



Enquanto o primeiro ano de pontificado de Francisco era assinalado por este debate As mulheres estão totalmente ausentes das funções directivas da Igreja católica»], a Igreja anglicana de Inglaterra estabelecia no sínodo de 20 de Novembro de 2013 o princípio do acesso das mulheres ao episcopado, praticamente por unanimidade: 378 votos a favor, 8 contra e 25 abstenções. Vinte e um anos antes abrira às mulheres o acesso ao sacerdócio.

Em Effretikon, que fica a 8 horas de comboio do Vaticano, [pertence ao cantão de Zurique; 15.000 habitantes, duas igrejas: uma protestante e outra católica], Monika Schmit [1957- Estudou pedagogia religiosa e teologia em Lucerna e Salzburgo; presentemente, faz um Curso de teologia espiritual inter-religiosa sobre pontos de contacto com a mística hebraica e com o islão], a responsável pela pequena paróquia suíça, [em alemão, Gemeindeleiterin=«Guia da paróquia»; termo que incomoda o Vaticano; este sugere o uso de "encarregada de paróquia"] disse-me que, se num domingo se perguntasse aos fiéis se queriam uma mulher sacerdote, três quartos responderiam sim. Os jovens, em especial, não compreendem a exclusão. Se pudesse falar com Francisco, perguntar-lhe ia: «Ouça as mulheres e faça tábua rasa dessa fábula insustentável, segundo a qual motivos teológicos impedem o sacerdócio feminino». O sonho dela é que, quando se aposentar, o Vaticano autorize pelo menos o diaconato feminino. Quando Francisco foi eleito, Monika sentiu um grande contentamento, «mas o fosso entre as pessoas e a instituição é grande. Gostaria de obter uma audiência, mesmo que não fosse sozinha, para lhe dizer como vivemos na base.»



Monika Schmit, 2ª a contar da esquerda [H. Küng, à direita]



O ponto fulcral é a crise do clero. A paróquia foi a grande invenção do cristianismo. Um território, um povo de fiéis, um guia espiritual em contacto estreito com eles. Esta estrutura, que durante séculos sustentou o tecido do catolicismo, está a ser corroída pela dramática ausência de vocações. Nos Estados Unidos e na Europa setentrional vendem-se igrejas. Por todo o Primeiro Mundo desaparecem paróquias e perde-se o confronto quotidiano entre pároco e paroquianos. No Terceiro Mundo muitas paróquias são tão grandes e distantes entre si que não vêem um pároco durante meses. (…) Continuam a faltar os padres e começam a faltar os leigos dispostos a assumir o peso das responsabilidades pastorais. E isso sucede também no campo feminino. Na Suíça, as paróquias importam licenciados em teologia da Alemanha. «Se procurarmos hoje um assistente pastoral encontramos dificuldades – explica Monika Schmit – não há o mesmo campo de escolha de há trinta anos. Apresentam-se pessoas com formação medíocre. No meu tempo, na Universidade de Lugano, eu pertencia a um excelente grupo de mulheres apaixonadas pela teologia feminista… liam-se livros, discutiam-se textos, fazia-se pesquisa bíblica. Agora, só nos aparecem beatos.»

Um dado assente é a fuga das mulheres das ordens femininas, espinha dorsal da organização eclesiástica em todo o mundo. O número de freiras e consagradas cai de forma sensível. Em 2001 as professas eram 792.317; em 2011 o número desce para 713.206: uma sangria não compensada pelo aumento de vocações registado em África e na Ásia. Estamos a assistir a uma deslocação do peso do Ocidente para o Terceiro Mundo. Um terço das religiosas vem da África e da Ásia. O que leva muitas ordens religiosas a importar freiras do Terceiro Mundo para dar sangue novo às instituições na Europa. Um "tráfico de noviças", criticado pelo Papa Francisco. (…)

É um nó complicado de desatar. Enfrentar o papel das mulheres na Igreja constitui um passo fundamental no pontificado de Bergoglio. A estrutura eclesial centrada na predominância do clero masculino está lentamente a desagregar-se. A pergunta que se coloca à Igreja católica, que entrou no seu terceiro milénio, é a de saber qual será a fisionomia das comunidades de crentes no futuro. Serão ainda fortemente institucionalizadas? Virão a tornar-se mais fluidas? Ou será encontrada uma forma organizativa que conjugue os necessários vínculos de unidade com a flexibilidade das experiências?

Se num domingo o Papa Francisco atravessasse o Tibre, poderia chegar a um barracão situado na via Ostiense e acompanhar uma missa especial. O altar é uma mesa coberta com uma toalha branca, bordada. Tem rodas para poder ser deslocado. Um ramo de flores e uma pequena cruz de madeira estão colocados ao centro. Ao lado vê-se uma bandeirinha da paz com as cores do arco-íris. Dois cálices de vinho palhete e dois cestos de pão estão prontos para o rito. Das janelas, nas paredes ao fundo, entra a luz do dia.

Um jovem de barba afina a guitarra e entoa: «Cristo veio para estar junto de nós… Aleluia... Todo o medo será afastado». Chega ao altar uma mulher vestida com uma camisola e lê o acto de penitência. Chega outra com um casaco comprido e lê um trecho de Isaías. Chega outra ainda com um blusão de lã e lê a Carta de Paulo aos Coríntios. Finalmente, chega outra envergando um casaco e anuncia o Evangelho.

Via Ostiense 152, desde os anos setenta é a sede da comunidade de São Paulo formada depois que o abade-bispo do antigo mosteiro de San Paolo fuori le Mura [S. Paulo extra-muros], Giovanni Franzoni, foi destituído por ter denunciado as responsabilidades da hierarquia eclesiástica nas especulações imobiliárias em Roma.

As paredes do antigo armazém estão caiadas de branco, e somente um lado do grande cubo foi pintado a trompe d’oeil [técnica de perspectiva que produz ilusão óptica] como se fosse um velho palácio romano. Vê-se uma estátua de mulher com uma máscara na mão e o perfil de algumas colunas. Um pouco além está afixado um manifesto de monsenhor Juan José Gerardi, o bispo guatemalteco assassinado em 1998 por três militares por ter publicado um relatório sobre violações dos direitos humanos cometidos pelo exército do seu país. Mártir de verdad y paz, está escrito em espanhol.

Uma senhora de cabelos brancos, com cerca de cinquenta anos, pronuncia a homilia. O seu vestuário, tal como o das outras senhoras, lembra a absoluta normalidade do quotidiano. Uma camisola azul, um casaco de lã beije, óculos, brincos, um colar ao pescoço. A cada hora - recorda – morrem de fome no mundo duas mil pessoas. São dados da FAO, a organização das Nações Unidas que trata de alimentação e agricultura. A missa é um convívio, o Evangelho evoca a boda de Canãa. Mas ninguém deve ser excluído do banquete. «Enquanto alguém morrer, não seremos a alegria de Deus.»

Entra um rapaz, um pobre tonto, que caminha entre os fiéis dizendo em alta voz: «Onde está a mamã… eu tinha dito à mamã… viram a mamã?». Ninguém se perturba, todos o acompanham com olhares afectuosos, ouvem as reflexões sobre o Evangelho e as leituras do dia. São muitos os que se levantam para tomar a palavra. E há quem recorde que no Antigo Testamento e nas antigas comunidades cristãs o dom da profecia era partilhado entre homens e mulheres.

É o momento da consagração. Duas mulheres aproximam-se do altar, uma faz um sinal rápido para se ajoelharem, e juntas partem uma forma de pão e depois transformam-na em pequenos pedaços colocando-os nos cestos. Todos se dão as mãos formando uma cadeia e recitando o Pai-Nosso. Vão ao encontro uns dos outros para trocar o sinal da paz. É um ambiente de amizade. A comunhão é a refeição dos crentes em comum. Formam-se duas filas nos lados do altar e cada um toma o seu pedaço de pão que mergulha no cálice de vinho e come-o. «O teu primeiro milagre, Jesus – diz a oração – é um convite de amor».



Monika Schmit



Vem-me à mente um mosaico singular que vi na antiga catedral de Santa Sofia, em Kiev. O altar é uma mesa verdadeira e encontram-se ali dois Cristos, um que se volta para a direita oferecendo o pão eucarístico a Pedro, e outro que se vira para a esquerda para o dar a Paulo. O Filho do Homem abraça todas as dimensões da vida.

Marco Politi, «Francisco entre os lobos – o segredo de uma revolução», Texto&Grafia 2014, p. 107-128 (excertos). ISBN 978-989-8285-95-9. (ca. de 20 euros) Imprescindível!







"Ratzinger carece da liderança de que a Igreja necessita"




«Um pároco italiano enforca-se antes de conhecer a sua condenação por pederastia»

Notícia e Vídeo:

http://www.periodistadigital.com/religion/mundo/2014/10/29/un-cura-italiano-se-ahorca-antes-de-conocer-su-condena-por-pederastia-religion-iglesia-abusos-maks-suard.shtml

 

 

La Chiesa da Benedetto a Francesco - Marco Politi

Vídeo:







"Os lobos ameaçam a revolução pacífica de Francisco"




Marco Politi



«Os lobos de Francisco» - entrevista com Marco Politi [IHU - Brasil]








22 de maio de 2014

SEXUALIDADE, TEOLOGIA E ÉTICA [J.MASIÁ]

BIOÉTICA, SEXUALIDADE E CRENÇAS





(…) Num grupo de estudos sobre bioética e teologia discutíamos certos documentos acerca da dignidade humana, protecção da vida e tecnologias da reprodução: eram duas declarações da Congregação para a Doutrina da Fé, Donum vitæ (1987) e Dignitas personæ (2008). A tertúlia suscitou uma série apreciável de comentários e perguntas, que se podiam agrupar em dois blocos principais: umas, provenientes daqueles que assentiam com o conjunto de valores, princípios e critérios gerais propostos por tais documentos; outras, as que vinham daqueles que dissentiam sobre a maior parte dos julgamentos, soluções e respostas − respostas concretas e assertivas − para cada dilema ético.

Entre os participantes na tertúlia, um grupo de monitores de educação moral provenientes de colégios do ensino secundário, perguntavam: Quais os critérios para abordar a ética das relações, da sinceridade dos sentimentos e dos desejos? A pergunta menciona duas palavras-chave da ética: relação e sinceridade. As questões éticas relacionadas com a sexualidade enquadram-se no âmbito daquilo que poderíamos chamar uma ética das relações humanas. Como já disse, nunca me convenceram os títulos dos livros ou das disciplinas com nomes tais como «moral sexual» ou «ética da sexualidade». Nesta ética, há três perguntas fundamentais que cada pessoa que se relacione intimamente com outra deve colocar a si mesmo e responder por si: a) Sou sincero comigo mesmo, nesta relação? b) Sou sincero e leal para com a pessoa que constitui o outro pólo da relação? c) Sou responsável pelas consequências que podem advir do modo como esta relação se desenrola?

Respondendo de um modo assim muito geral, era previsível que alguém, não sem antes olhar de soslaio para o ideário das instituições confessionais, se perguntasse: Do ponto de vista do percurso educativo, será correcta a moralização dos rapazes e das raparigas?

Não sei se quem faz a pergunta utiliza a palavra «moralização» num sentido bom e positivo. Se pretende dizer que devem ser ajudados e acompanhados no seu caminho de crescimento de modo a que passem duma moral infantil à moral dos adultos, da moral aprendida na infância (heterónoma) a uma moral apropriada pessoalmente (autónoma), então a resposta é afirmativa. Mas, se por «moralização» se entende fazer doutrinação moralista (sem deixar pensar e sem deixar crescer), ou seja, «moralismo» no sentido pejorativo − meter, «a partir de fora» e «a partir de cima», uma moral de mandamentos e proibições − a resposta é que não devemos fazê-lo, porque isso equivaleria a impedir o seu crescimento racional e responsável. Há que evitar dois extremos: a «ética de apenas travão» e a «não-ética de só acelerador». Convém, pelo contrário, continuando com a comparação automobilística, que a pessoa educadora maneje o volante e as mudanças, limitando-se ao papel de acompanhante no lugar do co-piloto.

(…)

Os participantes em debates, que querem a todo o custo respostas específicas, sobretudo quando se trata de questões controversas no seio de instituições educativas confessionais, costumam descer ao terreno do concreto. Nada de espantar que alguém pergunte à queima-roupa: Porque é que a Igreja permite os métodos anticonceptivos naturais e não outros, tais como, por exemplo, o preservativo, quando a finalidade é a mesma?

Diante de perguntas deste tipo, há que ser muito directo. O papel das igrejas não é permitir ou proibir o uso de recursos profilácticos ou anticonceptivos. Quanto a este assunto, existem muitos mal-entendidos. Quer os chamados «métodos naturais» (usados, quiçá, com muito pouca «naturalidade»), como os chamados «métodos artificiais» podem ser usados responsável e irresponsavelmente.

É verdade que, habitualmente em muitas explicações, se deu a entender que a suposta posição da moral católica era de permitir os métodos impropriamente denominados «naturais» e de recusar os, inexactamente, qualificados de «artificiais». Sejamos mais precisos. Os métodos denominados, com ligeireza, «naturais» não são, frequentemente, tão naturais assim. Existe também muita confusão acerca do uso de expressões como «natural» ao referir-se aos métodos de regulação da concepção. De facto, os assim chamados «métodos naturais» podem ser utilizados de um modo muito antinatural. E, pelo contrário, os chamados «métodos artificiais» não se entende porque devem ser considerados antinaturais. O que é decisivo não é discutir se um determinado método é artificial ou não, mas perguntar se o seu uso é racional e responsável, no contexto duma boa relação de amor e respeito mútuo dentro do casal.

Também existem mal-entendidos a propósito dos procedimentos a empregar após uma violação, ou situações equivalentes, com a finalidade de prevenir a implantação de um óvulo fecundado. Esses procedimentos não devem ser considerados como abortíferos, mas como anti-traceptivos (mais correctamente, deveria falar-se de «intercepção»). O mesmo deve dizer-se do uso dos dispositivos intra-uterinos (DIU) ou da anticoncepção pos-coital de emergência, a chamada «pílula do dia seguinte».[1] Ao abordar estes assuntos no contexto duma sociedade secular e pluralista, a teologia moral católica deveria ter cuidado e não esquecer a sua situação minoritária dentro de uma sociedade plural, tanto no âmbito cultural como no religioso. É imperioso oferecer argumentos com capacidade persuasiva para aqueles que não comunguem do mesmo ponto de vista acerca da vida.

Seja como for, é importante separar o tema dos anticonceptivos do tema do aborto. Na verdade, os mal-entendidos provocados por colocar o problema do aborto ao mesmo nível que a anticoncepção causou bastante dano. Numa paróquia ao sul do Japão, aconteceu-me o seguinte. Uma mãe de família, de cerca de 30 anos, fora baptizada como católica pouco antes da sua boda com um católico "de nascença", educado à moda antiga. Ambos provinham de um ambiente muito tradicionalista. Na região donde eles provinham, haviam-lhes falado da anticoncepção e do aborto como se tratassem de realidades idênticas. Quando se mudaram para outra cidade começaram a frequentar uma paróquia de ambiente distinto. Procurando saber mais acerca do uso do preservativo, receberam como resposta: «É um mal menor, preferível ao aborto, já que é um pecado menor.» No final da minha conferência, esta mãe de família perguntou-me o que é que eu pensava desta resposta. Disse-lhe: «Porquê chamar mal menor ou pecado mais pequeno ao que nem é mal nem pecado?» Quer a mulher que me fez a pergunta, quer as restantes mulheres, mexeram-se nos seus lugares. «Será que se pode dizer tal?», comentavam entre si. E, a partir de então, começaram a fazer mais perguntas, tendo a reunião durado até às tantas. Por fim, uma das assistentes à conferência disse: «Obrigado por esta oportunidade. É que, se aquilo que aqui viemos ouvir nos fosse dito há doze anos atrás, não teria sofrido, inutilmente, durante tanto tempo no meu matrimónio». Precisamente por isso, para evitar este tipo de mal-entendidos, convém não colocar ao mesmo nível o aborto, a esterilização, a anticoncepção e a intercepção. Algumas formas de falar de alguns moralistas cristãos, as quais inclusivamente se espelharam na redacção de alguns documentos eclesiásticos e em certas exortações papais, contribuíram, lamentavelmente, para tais equívocos.

A quem pergunta o que dizer acerca do uso de anticonceptivos quando um dos esposos é portador do vírus da SIDA, dever-se-ia responder, sem sombra de dúvida, que não só é recomendável, como é necessário e, até, obrigatório. Dizia-o taxativamente o Cardeal Martini numa sua entrevista ao diário L’Expresso, em Abril de 2006. Acerca desta questão, seria obrigatório, inclusivamente, dissentir sempre que uma autoridade eclesiástica dissesse o contrário.

Perguntam os funcionários sanitários de uma instituição hospitalar confessional, que tiveram problemas com a hierarquia eclesiástica: «Até que ponto é moralmente correcto informar acerca dos métodos que podem provocar a interrupção duma vida, como por exemplo é o caso da pílula do dia seguinte

Devemos esclarecer que não só é correcto como recomendável a fim de evitar o aborto, ainda que esta recomendação deva ir acompanhada das informações médicas e psicológicas devidas e correctas. A pílula do dia seguinte, os dispositivos intra-uterinos e os procedimentos (lavagens vaginais, etc.) a que, por exemplo, se recorre após uma violação ou situação equivalente, não são abortivos, mas interceptivos. Interromper, responsavelmente (com razões justificadas), um processo que visa a constituição de uma vida humana individual e pessoal (mas que, entretanto, ainda não ocorreu) não é a mesma coisa que abortar essa vida já constituída.

As afirmações, levianas, produzidas em algum artigo pseudo-científico e pseudo-ético duma publicação eclesiástica qualquer, unidas a outras afirmações igualmente superficiais proferidas por parte dum porta-voz episcopal, alarmam o público (…).

Juan Masiá Clavel, sj

[42 pp.]







[1] A pílula pos-coital administrada antes da implantação não é abortiva, mas interceptiva. Uma vez produzida a implantação, deixa de ser efectiva e, portanto, deixa de ter sentido a sua administração; nesse caso, não seria abortífera. «Existem evidências suficientes para determinar que estes fármacos, com excepção da mifepristona (RU-486), não exercem nenhum efeito sobre a gravidez, uma vez produzida a implantação no endométrio. Por essa razão, não é necessário proceder à realização do teste de gravidez antes de prescrever um anti-conceptivo de emergência» (cf. «Guía para las decisiones clínicas de anticoncepción de emergencia en los centros de la Orden hospitalaria San Juan de Dios de la provincia de Castilla», 2005, p. 6).



6 de agosto de 2013

«E AS MULHERES, PAPA FRANCISCO?»

«É mais fácil fazer poemas à Virgem…»



‘A instituição dos Doze, por parte de Jesus, pretende ser um gesto simbólico […]. Deduzir daqui que só os homens podem ser sacerdotes […] revela um desconhecimento surpreendente do significado dos textos bíblicos […].’ (Xavier Alegre)

É como se Jesus, ao escolher apenas judeus-homens para Apóstolos, estivesse a querer dizer que só judeus-homens poderiam vir a aceder ao sacerdócio, estando, portanto, o sacerdócio proibido a não judeus (como por exemplo a Jorge Bergoglio) e a mulheres… claro!






[…] «Papa Francisco, por favor, informe-se no Google sobre alguns aspectos da teologia feminista, pelo menos no mundo católico. Talvez seu possível interesse possa abrir a outros caminhos para perceberem o pluralismo de género na produção teológica!

«Quanto a dizer, talvez em forma de consolo, que a Virgem Maria é maior do que os apóstolos é, mais uma vez, uma expressão da teologia masculina do consolo abstracto. Ama-se a Virgem distante e próxima da intimidade pessoal, mas não se escutam os clamores de mulheres de carne e osso. É mais fácil fazer poemas à Virgem e ajoelhar-se diante de sua imagem do que estar atentos ao que se passa com as mulheres nos muitos rincões de nosso mundo.

«Entretanto, se os homens querem afirmar a excelência da Virgem Maria terão que lutar para que os direitos das mulheres sejam respeitados através da extirpação das muitas formas de violência contra elas. Terão, inclusive, que estar atentos às instituições religiosas e aos conteúdos teológicos e morais veiculados que podem não apenas reforçar, mas gerar outras formas de violência contra as mulheres.

«Temo que muitos fiéis e pastoralistas necessitados da figura do bom papa, do pai espiritual, do papa que ama a todos se rendam à simpática e amorosa figura de Francisco e reforcem um novo clericalismo masculino e uma nova forma de adulação do papado. O papa Ratzinger nos levou a uma crítica do clericalismo e da instituição papado através de suas posturas rígidas. Mas, agora com Francisco, parece que voltam nossos fantasmas do passado, agora adocicados com a singela e forte figura de um papa capaz de renunciar ao luxo dos palácios e aos privilégios de sua condição. Um papa que parece introduzir um novo rosto público a essa instituição que fez história e nem sempre uma bela história no passado. O momento exige prudência e uma crítica alerta, não para desautorizar o papa, mas para ajudá-lo a ser cada vez mais connosco, Igreja, uma Igreja plural e respeitosa de seus muitos rostos.

«Meu segundo breve comentário é em relação à necessidade de identificar a maioria dos grupos de jovens presentes na Jornada e aclamando calorosamente o papa.

«Em que Evangelho e em que teologia estão sendo formados? De onde vêm eles? O que buscam?

«Não tenho respostas claras. Apenas suspeitas e intuições em relação à presença marcante de uma tendência mais carismática conservadora e mais celebrativa na linha Gospel. Manifestações de paixão pelo papa, de intenso e repentino amor que leva às lágrimas, a querer tocá-lo, a viver milagres repentinos, a dançar e agitar o corpo têm sido comuns também nos movimentos neopentecostais nas suas muitas manifestações. Sem querer fazer sociologia da religião, creio que sabemos que esses movimentos buscam uma estabilidade social para além das transformações políticas em vista do direito e da justiça para todos os cidadãos e cidadãs. Creio que correspondem, sem dúvida, ao momento actual que estamos vivendo e respondem a algumas necessidades imediatas do povo.






«Entretanto, há outro rosto do cristianismo que quase não pode se manifestar na Jornada. O cristianismo que ainda inspira a luta dos movimentos sociais por moradia, pela terra, pelos direitos LGBT, pelos direitos das mulheres, das crianças, dos idosos etc. O cristianismo das comunidades de base (CEBs), das iniciativas inspiradas pela Teologia da Libertação e pela teologia feminista da libertação. Estes, embora presentes, foram quase sufocados pela força daquilo que a imprensa queria fortalecer e, por conseguinte, era de seu interesse. Isso tudo nos convida ao pensamento.

«Não faz uma semana que o papa viajou e já os jornais e as redes de televisão pouco falam dele. E o que acontece nas comunidades católicas depois dessa apoteose? Como vamos continuar nossas jornadas quotidianas?

«Para além da visita do Papa e de uma possível nova forma do papado de Francisco, estamos sendo convidadas/os a pensar a vida, a pensar os rumos actuais de nossa história e a resgatar o que há de mais forte e precioso na tradição ética libertária dos Evangelhos. Não basta dizer que Jesus nos ama. É preciso que descubramos como nós nos amamos e o que estamos fazendo para crescer na construção de relações mais justas e solidárias.»


Ivone Gebara, teóloga





O MODELO DE IGREJA DE BENTO XVI E AS MULHERES


«Todas as religiões tinham as suas sacerdotisas, e o mais surpreendente foi o facto de não as haver na Igreja de Jesus Cristo, o que, por sua vez, está em continuidade com a fé de Israel.

«A formulação de João Paulo II é muito importante: a Igreja não tem “absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e […] esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”. Não é o mesmo que dizer que não gostamos; o que se diz é que não podemos. O Senhor deu à Igreja uma configuração com os Doze – e, na sua sucessão, com os bispos e os presbíteros e os padres. Essa configuração da Igreja não foi feita por nós, mas sim constituída por Ele. Segui-lo é um acto de obediência na situação actual. Mas é exactamente isso que é importante que a Igreja demonstre: nós não somos um regime despótico. Não podemos fazer o que queremos. Há uma vontade do Senhor em relação a nós à qual nos mantemos fiéis, mesmo quando isso se revela difícil e trabalhoso nesta cultura e nesta civilização.»


Bento XVI, ‘Luz do Mundo’, Lucerna, Nov. 12010, p. 146.


«O carácter teológico da narração - Mc 14:17-21 - não diz como aconteceram realmente as coisas, mas aponta para o contexto, no seu todo, do destino de Jesus. Portanto, a narração é histórica, mas num sentido mais profundo [Lohmeyer]. Para Marcos é importante que os Doze sejam chamados a constituir-se como testemunhas dos padecimentos de Jesus...»; «A presença dos Doze não se refere apenas à refeição, mas a tudo o que daí em diante irá acontecer, até à dissolução desse círculo (Mc 14:50)». «Os Doze representam a comunidade» [cf. J. Gnilka, «El Evangelio Según San Marcos-II», Sígueme 2005, 5ª Edç., p. 279.277 + Nota roda-pé nº 86, p. 277].


CONTRAPÕE HEINER GEISSLER

«As mulheres tinham uma posição muito específica dentro do sistema patriarcal judaico: a mulher era responsável pelo funcionamento da casa e pela comida, devendo obedecer incondicionalmente ao pai, o senhor da família. Além disso, também era obrigada a lavar a cara, as mãos e os pés ao seu marido, como se ele não fosse capaz de o fazer por si próprio: pelos vistos, os homens judeus eram todos pequenos reis-sóis, como Luís XIV, que nem sequer se podia vestir sozinho. Por conseguinte, só o chefe de família rezava a oração à refeição, como sabemos dos Evangelhos. Partia o pão e distribuía-o. Mas quem tinha cozido o pão era a mulher. […]

«Naquele tempo, a mulher não era considerada um ser humano pleno e a sua igualdade em relação aos homens não era aceite. Flávio Josefo escreveu: “A mulher é inferior ao homem em todos os aspectos”. […]

«Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram. Entre elas, estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.» (Mt 27:55-56) […] O comportamento das mulheres nesta fase [tenebrosa, desde a prisão à injusta crucifixão de Jesus] constitui a continuação directa e consequente da sua pertença ao círculo íntimo de Jesus. Por isso, não é fácil entender por que razão, ao longo da história da Igreja, foram tiradas às mulheres as posições que tiveram manifestamente durante a vida de Jesus, isto é, uma amizade e uma pertença ao seu círculo, em pé de igualdade.» […]

«As mulheres são brutalmente discriminadas em todo o mundo. (…) A situação no cristianismo não foi muito melhor do que no islão durante muitos séculos. (..) Alberto Magno (dominicano, séc. XIII, chegou a ser bispo de Ratisbona; é Doutor da Igreja desde 1931), que dá o nome ao comboio intercidades ICE 820 de Nuremberga para Colónia, chegou a afirmar que a mulher seria um homem falhado, possuindo uma natureza defeituosa e imperfeita em comparação com o homem. Aquilo que Agostinho escreveu sobre as mulheres é tão vergonhoso que lhe devia ser retirado o título de doutor da Igreja. (…) A história da mulher no cristianismo consiste num conglomerado de erros filosóficos e teológicos, de disparates, abusos de poder e estupidez dos homens, de absurdos e perversões, de exclusão e estigmatização, mas também de adoração e condenação, de mitos e superstições, de veneração, idealização e demonização.

«O facto de as religiões utilizarem Deus abusivamente para justificar esta discriminação é uma das maiores blasfémias da história das religiões. Jesus era um amigo e defensor das mulheres, como já vimos. Mas os moralistas falsificaram o seu ensinamento filantrópico transformando-o em algo grotesco, graças à sua teologia dominada pela obsessão pelo pecado. É óbvio que as igrejas ultrapassaram a fase da Inquisição e da queima das bruxas. Mas a Igreja Católica mantém até hoje que os padres não podem casar e que as mulheres não podem ser padres. O culto a Maria, desenvolvido na Igreja Católica, não constitui uma prova contrária, antes pelo contrário: ele é o álibi para a má consciência da teologia moral – um culto em que a sexualidade reprimida é sublimada através de uma veneração um tanto piedosa.»

Heiner Geissler, «O que diria Jesus hoje?», Casa das Letras 12005, 93.94.98.103-105.






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