teologia para leigos
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19 de julho de 2022

REINO, SIM



REINO, SIM
‒ a propósito da consulta Sinodal





Contexto

Começo por referir dois factos coincidentes no tempo. O primeiro facto tem a ver com dois Autores que tinha começado a ler, precisamente quando surgiu a proposta da Consulta Sinodal por parte do Papa da Igreja Católica; refiro-me ao jesuíta belga Roger Lenaers (falecido em 2021) e ao Prof. José Veiga Torres. O segundo facto tem a ver com a minha dificuldade em sintonizar com o modelo escolhido para a auscultação. O ‘molde’ da proposta de trabalho do Papa Francisco parece-me ‘clássico demais’ para o longo tempo que já leva esta ‘vida católica oficial’ tão imbuída ainda ‒ p. ex., no terreno das Paróquias ‒ do “espírito de cristandade” (50 anos após o Concílio; «Depois da cristandade»; ¿Para qué la Iglesia?). Com este muito particular «Documento Preparatório - Sínodo 2023», percebe-se que o centro das atenções da metodologia de Francisco é a própria instituição. Devo confessar abertamente que isso merece uma séria reflexão. Sobretudo porque, a ser assim, a consulta caminha de costas-voltadas ao descentrado Espírito de Jesus Cristo. João 14,15-26 ‒ Jesus diz: Eu não sou importante. Importante é o espírito que está em vós (v.17). Quem crê em mim também fará as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas… Se me tendes amor, seguireis os meus passos e fareis o meu Caminho. Irei ser assassinado, mas não vos deixarei órfãos … Eu não sou o que importa, pois o que mais importa é «Quem acolhe o meu testemunho e o põe em prática» (v.21).

Também fiquei a interrogar-me quando me pus a contemplar o doloroso espírito do Mundo actual e o lugar que lhe estava reservado neste modelo de consulta («A sociedade da transparência», , «Meios sem fim», «Paradoxos do individualismo», «Política, Ética e Religião»). Foi então que me interroguei: será que, de facto, Roma jamais será capaz de superar o «eclesiocentrismo», o crónico «apascentar-se a si própria», essa incubadora de mártires, génios e profetas, mas também de carreirismo e autopromoção local e universal?

O Concílio Vaticano II deixou-nos uma enorme lista de questões para resolver. Elas começaram por ser valentes dores de cabeça para a Cúria, mas, de imediato (meia dúzia de anos apenas), foram tratadas como «documentos» a dissecar para ‘consumo consoante’, ou seja, para «citar» consoante. O Vaticano ‒ garante da boa Tradição ‒ conservou, até hoje, os textos do Concílio … no frigorífico. Não lhe deu o seguimento práxico como lhe competia.

A consequência é que, após o Concílio Vaticano II, a debandada dos católicos continuou e até se acentuou («Humanae Vitae», Papa Paulo VI, 1968). Ao mesmo tempo, começaram a perceber melhor porque se sentiam mal (“enganados”): alguns teólogos afirmaram que a Igreja Católica já não era a concretização terrena do «Reino de Deus» anunciado por Jesus (ainda nos lembramos da expressão “extra Ecclesiam nulla salus” ‒ «fora da Igreja não há salvação» ‒ expressão de S. Cipriano de Cartago, que Joseph Ratzinger retoma subtilmente na “Dominus Iesus”). Por outro lado, leigos mais críticos e letrados deram-se conta que até seria teologicamente concebível a existência de cristãos anónimos … (cf. «Los cristianos anónimos», Cap. XII de “Escritos de Teología-VI”, K. Rahner, Ed. Cristiandad, Madrid 2007, p. 485-493).

Após o pregão de Alfred Loisy ‒ «Jésus annonçait le Royaume, et c’est l’Église qui est venue» ‒ esses mesmos leigos passaram a interrogar-se: merece a Igreja ser objecto da nossa fé? Na verdade, na versão latina do Credo, não está lá «creio na Igreja», mas “credo ecclesiam” («creio [que existe a] Igreja»)… Além disso, se esta Igreja é tudo menos uma “verdadeira assembleia de amor”… e apenas um ajuntamento dominical onde todos até condescendemos num muito artificioso ‘abraço da paz’…, merece crédito de fé, esta Igreja assim? Rapidamente, tudo se complicava.

Quando surge o slogan «Jesus sim, Igreja não!» não faltaram as reacções desestabilizadoras. O certo é que mais uma vez, mas agora com Francisco, esta Consulta Sinodal parece querer ir na mesma linha de preocupação manifestada por alguns diante do Concílio Vaticano II: tornar a Igreja apenas «mais apta» (Paulo VI). Reparemos. Em todos os 8 «objetivos de grande relevância para a qualidade da vida eclesial e para o cumprimento da missão de evangelização» com que o “Documento preparatório Sínodo 2023” abre (cf. Ponto 2. - «caminhar juntos»), o objectivo visado é sempre o incremento da qualidade do ‘ser Igreja’, o qual por larga maioria é ‘ad intra’. Com esta consulta, reforça-se assim, pois, a preocupação da Igreja católica consigo mesma, enquanto a crise de identidade e de pertença vai abalando de uma maneira violenta os alicerces da própria instituição: taxa de baptismos, ‘baixa’; taxa de casamentos, ‘baixa’; taxa de divorciados recasados, ‘brutalmente alta’; sacramento da penitência, ‘zero’; participação na eucaristia, ‘em queda continuada’; vida sacerdotal e ordenações sacerdotais, ‘crise profunda’; paróquias sem sacerdote, ‘em crescendo’. Face ao século XX, onde o Concílio Vaticano II pontificou como uma aragem promissora, nós, os do século XXI, com este ‘modelo’ de «abordagem virada para dentro» («Documento Preparatório – Sínodo 2023»), avançamos mesmo ou marcamos passo? Como o caraterizar? Estamos, de facto, perante uma estratégia eivada de «ousadia» do nível da insuperável capacidade de ruptura do «Bom Papa» Roncalli, logo após a sua investidura?

50 anos a marcar passo

É lei geral das instituições humanas acabarem por confundir os seus fins com os seus próprios interesses. Ora, todos sabemos que “o culto religioso” gira em torno de sacerdotes que ‘oficiam’ e ‘oferecem sacrifícios a Deus’ à volta de um altar. A expressão do Catecismo ‒ «Fonte e Cume» (n. 1324) ‒, aplicada, ‘a secas’, à eucaristia (passe o espanholismo) fez com que a Missa arrebatasse o melhor do quinhão da vida da Fé do crente e, a ela, o amarrasse: «Tudo a ela se ordena», diz o Catecismo. Na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa. Não há Igreja, salvação, acção pela qual Deus em Cristo santifica o mundo, nem vida de fé, sem eucaristia (Catecismo ns. 1324-1327).

A Igreja católica, no seu geral, não conseguiu intuir os “sinais conciliares”, nem perceber que após o Concílio urgia recentrar a sua missão, nomeadamente, passar de uma Religião à volta do Rito e do Culto a Deus (Antigo Testamento) para o anúncio do Reino de Deus proclamado por Jesus (Novo Testamento).

Recordemos o que, entretanto, foi acontecendo após o Concílio. Nos anos 60-70 (séc. XX) surge o movimento «Regresso a Jesus» (prioridade aos Evangelhos, regresso aos textos); mais tarde, anos 80-90, surge o slogan «Deus sim, Igreja não» (“dissociação”; crer, mas não pertencer - «believe without belong»). Mais tarde, «Religião sim, Deus não» (fragmentação da cultura pós-moderna; “alternativas religiosas”; ‘religião sim, mas o Deus dos cristãos não’; “religião à la carte”). Em suma, a religião cristã, que a Instituição apresenta no espaço público, começa a ser relativizada. A sua procura retrocede consideravelmente e o catolicismo (europeu, mas não só) decai.

Que tem Jesus a ver com isto?

Hoje sabemos (de modo fundamentado) que Jesus de Nazaré não pregou nem fundou uma Igreja, Jesus não ordenou nem “enviou” uma hierarquia de eclesiásticos, não formulou nem instituiu os sacramentos (Eucaristia, etc.), não definiu serviços ministeriais, não pregou uma nova Religião, etc. Sendo verdade que tudo foi construído apenas por mãos humanas, então, ao verificar-se a necessidade de reformas tudo poderia ser igualmente reformulado por seres humanos. Acontece que essa pretensão colide de frente com a dita “origem divina” da Instituição eclesial, com a dita “origem divina” da ordenação dos sacerdotes, com a dita “origem divina” da configuração dos sacramentos, etc., pelo que só os eclesiásticos ‒ intermediários entre Deus e os homens ‒ estão mandatados para o fazer. Como nestas matérias só ‘entram’ eclesiásticos auto-divinizados, de nada adianta a consulta sinodal aos leigos sobre esses assuntos, pois a sua opinião nunca poderá ser vinculativa enquanto não se anular a usurpação da ‘origem divina das ordens’ por parte dos eclesiásticos. Eu creio que essa anulação nunca irá acontecer, na medida em que isso significaria o fim da «Religião Católica», uma verdadeira hecatombe. Quanto a isto, Jesus está ilibado. Ele não tem nada a ver com este estado de coisas. É tudo da responsabilidade dos homens. Por isso mesmo, eu guardo sérias dúvidas sobre o real valor desta consulta sinodal. Como diz o ditado árabe, «Os cães ladram e a caravana passa.»

Aquando da presença de Francisco nas JMJ no Brasil (2013), o Professor Alfredo Valladão reparou no que estava a acontecer com os movimentos evangélicos e deu-lhe para os comparar com a maneira como a estrutura da Igreja Católica brasileira agia com o mesmo tipo de povo: “Francisco foi eleito para pôr a casa em ordem e reconquistar os corações perdidos dos fiéis. Mas não há reconquista que não passe pela América Latina. Basta olhar para um mapa-múndi religioso para constatar que a região contém mais de 40% dos que se declaram católicos no Universo e que o Brasil é a maior potencia católica do planeta com mais de 160 milhões de fiéis.” E acrescentou: «Um povo sem segurança e sem garantias. Famílias destruídas, instituições carentes. Do caos desta urbanização selvagem nasceu o “indivíduo”, solto, sem referências sociais, cuja sobrevivência depende da sua capacidade de iniciativa própria. Cada um por si e Deus por todos. Na última década, a nova Classe C mergulhou na sociedade de consumo e cada um quer participar da festa. Pela primeira vez o espírito do capitalismo e do sucesso individual chegou às populações mais pobres do país. Tudo isso é bênção de Deus para os movimentos evangélicos que trabalham numa relação direta com cada pessoa, exaltando as emoções. Para os crentes, o Paraíso é aqui e agora. O sucesso econômico é uma manifestação direta e individual da graça divina. Melhorar de vida, trabalhar duro e ganhar dinheiro são valores que devem ser cultivados. A responsabilidade individual é promovida como regra central de comportamento. Nas assembleias de crentes a confissão é pública e o pecador assume seus pecados perante os outros e perante a Deus, sem intermediários.

«A Igreja católica tem as maiores dificuldades em se adaptar a este novo mundo. O aparelho católico construiu sua força e seu poder como um “corpo intermediário” entre Deus e os homens. No seu relacionamento com o divino, o católico tem de passar necessariamente pela mediação do padre, das ordens religiosas, de toda a pesada estrutura eclesiástica. Apesar das inovações do Concílio Vaticano Segundo, a liturgia católica ainda está longe de ser “participativa”. A confissão segredada (‘cochichada’) a um sacerdote, que ostenta o poder de conceder a absolvição, retira a responsabilidade e a culpa individual do pecador para reintegrá-las no corpo coletivo da Igreja. Uma Igreja que detêm a chave do Paraíso. Que não é deste mundo.» (https://www.rfi.fr/br/)

Há então que fazer a seguinte pergunta: se Jesus não reformou a sua Igreja judaica nem anunciou uma Nova Religião, então o que é que Jesus veio anunciar que fosse verdadeiramente novo? A resposta a esta pergunta entrou num texto conciliar (p. ex., Lumen Gentium 5). Há que relevar que, dez anos após a abertura do Concílio, o Papa Paulo VI, fruto da presença impactante das Igrejas da América Latina nos trabalhos conciliares («Pacto das Catacumbas»), fez questão de referir essa imprescindível centralidade do Reino na sua «Evangelii Nuntiandi» (ponto n. 8), o que ficará para a história do pós-Concílio: «Como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser "o resto" que é "dado por acréscimo". Só o reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele.» (“Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.” – Mateus 6,33). Esta “pérola” teológica acabaria por ser vilipendiada pelo superintendente da «Doutrina verdadeira», card. Joseph Ratzinger», do que resultariam críticas e sanções muito graves a alguns teólogos não-europeus, mas também europeus. À época, era Papa o cardeal Karol Wojtyla.

Por aqui vemos que a menina-dos-olhos de Jesus reside, pois, na expressão que os evangelistas guardaram como um tesouro no seio de comunidades de vida fraterna: «Reino de Deus», «Reino dos Céus» ou «Reinado de Deus» (Marcos 1,14-15, Mateus 18,1). Quem quer que vire as costas à Igreja católica, quem aponte o dedo à Igreja católica, quem a pretenda reformar, quem a defenda obstinadamente contra-ventos-e-marés tal como está ou ache que ela deve ser apenas «mais apta», modernizando-a («Evangelii Nuntiandi» n. 2), terá, inevitavelmente, de responder à pergunta “o que é que Jesus de Nazaré queria dizer com aquilo que Ele anunciava como decisivo, o Reino de Deus?”. É aqui que está a questão que decidirá sempre o futuro da instituição católica, instituição que foi vivendo desde o séc. IV até … bem dentro do século XX … (o que é espantoso!) em «Regime de Cristandade», regime que há muito se esgotou.

A primeira questão que a “Consulta Sinodal” deveria, por conseguinte, colocar é: que significou, para Jesus de Nazaré, o «Reino de Deus?», que significou esse grande omnipresente na vida de Jesus? Se no decorrer da consulta sinodal os cristãos não derem, antes de mais, resposta a essa pergunta, o futuro da Mensagem de Jesus ficará uma vez mais adiada…

Cristologia

A condição crente é, antes de mais, a condição daqueles que colocam a sua Fé em Jesus Cristo e a partir d’Ele conformam a totalidade do seu projecto de vida. Mas, para isso, é preciso saber quem é Jesus Cristo. A resposta é, então, do foro da cristologia. Portanto, a questão central da Consulta Sinodal deverá ser do foro da Cristologia e não da Eclesiologia. A cristologia é o discurso sobre Jesus ‘sub specie regni’, ou seja, à luz do Reino. Nada do que se diga de Jesus pode ser dito se não estiver em sintonia com o Seu projecto de Reino de Deus. Uma cristologia sem Reino é mera formalidade. Jesus serviu para justificar ditaduras, massacres, perseguições e assassinatos (muitas vezes, à ordem da própria Igreja de Roma). Portanto, há que exigir sempre esta referência ao Reino, quando se impõe justificar acções e programas humanos ditos cristãos. A Pessoa de Jesus e o Mistério que o habita estão em muito íntima dependência do Seu projecto de Vida ‒ o Reino de Deus ‒, o qual Ele exerceu em estreita relação com a vontade do Pai (Getsémani; Mateus 26,36). Só podemos falar de Jesus (e justificar-nos) a partir da sua história e da sua práxis: que fez e que disse Jesus (gestos e palavras, sabendo de antemão que as Suas ‘palavras’ não eram parte de discussões ou falatório, antes desencadeavam ‘acções’). Aceder ao que Jesus disse e fez é uma realidade que não está ao nosso alcance sem o recurso, em primeira instância, à leitura dos evangelhos. Se excluirmos o livro dos Actos dos Apóstolos, a expressão “Reino de Deus” (ou Reino dos Céus) surge cento e quatorze vezes nos Sinópticos. Torna-se evidente que, entre Jesus Cristo e ‘Reino de Deus’, se constitui um círculo hermenêutico, que acaba por ser um princípio epistemológico para a Cristologia. A circularidade hermenêutica entre Jesus e o Reino é a condição fundamental que há que ter em conta para se conhecer Jesus Cristo. A pessoa e a missão de Jesus Cristo só podem ser conhecidas à luz do Reino. É o que quer dizer ‘circularidade’: se pretendo conhecer uma destas duas realidades ‒ Reino ou Jesus ‒ necessito iniludivelmente de me referir à outra. Marcos 8,33 é um bom exemplo prático desta circularidade: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens.». Em concreto: compreender quem era Deus para Jesus e em que consiste esse Reino de Deus para Jesus implica ter sempre presente como Jesus optou pelos pobres e pelos marginais (Lucas 17,11), implica ter sempre presente as Bem-aventuranças (Mateus 5), implica o poder como serviço e não como domínio (Mateus 20,28), implica fazer como Ele fez a práxis do “esvaziamento, da humilhação e da encarnação”, como denunciou profeticamente tudo aquilo e todo aquele que atenta contra a vontade de Deus-Pai, que quer que o ser humano viva e tenha vida em abundância (João, 10,10).

Compreender Jesus a partir do Reino de Deus faz com que nos coloquemos diante da concreção histórica da pessoa de Jesus e do modo como Ele se inscreve nas Promessas Históricas do Antigo Testamento ou como Jesus deita raízes bem fundas na Memória dos Hebreus, quanto à opção pela condição humilde, pelo desprendimento diante da tentação da acumulação egoísta, bem como quanto à solidariedade para com os escorraçados do sistema imperial (Lucas 4,16-30). É a partir da práxis de Jesus que acolheremos o Reino de Deus na História, evitando a vontade de poder e de domínio típica do ser humano (Idem, v. 28: «todos se encheram de furor»). Esta tentação, sempre patente, também se manifestou em Pedro, o qual diante do destino de rejeição, de conflito, de condenação e perante o vaticínio da morte do seu amigo, lhe puxa o braço para o lado a fim de o repreender. Convém relembrar que o motivo porque Jesus foi condenado à morte tem a ver com o seu projecto de instauração do Reino de Deus pelo qual deu a sua vida até ao fim (Marcos 15,43: «José de Arimateia também esperava o Reino de Deus»). Em suma, Jesus não é o mediador entre Deus e os homens. Jesus é o mediador entre o Reino de Deus-Pai-Misericordioso e a humanidade.

«(…) melhor se conhece a interioridade humana de Jesus a partir da exterioridade da sua relação com o reino. Essa exterioridade é a que melhor nos revela no concreto ‒ in actu ‒ o Jesus comprometido com a verdade, misericordioso e justo, denunciador e desmascarador, disponível e fiel. É essa exterioridade, exigida pela construção do Reino de Deus, que vai configurando a sua interioridade pessoal quanto à sua relação com o Pai.» (Jon Sobrino, «Cristología sistemática – Jesucristo, El mediador absoluto del Reino de Dios», in ‘Conceptos fundamentales de la Teología de la Liberación’, Vol I, UCA Editores y Trotta Madrid 1990, pp. 579-580).

Reino, sim

Numa época em que todo o Mundo já ultrapassou o slogan de que ‘a religião é ópio do povo’ e em que a dimensão “Mistério da Vida Humana” vai saindo à rua por diversos poros (férias e fins-de-semana frugais, poesia, literatura, contemplação, arte, modos de vida familiar alternativos, «solidariedade activa na história» [Mt 25,31-46], etc.), damo-nos conta de que “a vida humana não se esgota no mundo físico. Há uma série de «mundos» ou âmbitos que não são tão palpáveis nem são descritíveis e, no entanto, são reais, existem [e exigem-nos], e são importantíssimos para a vida humana – é o caso da interioridade: o mundo da vida psíquica, das vivências, dos sentimentos, dos desejos, das frustrações, dos traumas, [da vida em comum, o viver juntos].” (J. M. Mardones, «Matar a nuestros dioses», p. 200).

Ora, é então que faz sentido a expressão «Reino» como o universo do gratuito, do encontro e da verdade plena. A ser assim, outras tradições religiosas e culturais poderão enriquecê-la com valorações para lá das expressões cristãs “Igreja, Cristo, Jesus ou Deus”. Inclusivamente, os cristãos poderão preenchê-la com Graça e Verdade plena, Encontro fraterno, ‘agapê’. Se estivermos inspirados, poderemos realizar o «Encontro Humano» à volta da dimensão duma «Vida Abundante» que seja fruto da justiça, da fraternidade e da paz, permitindo confluir para aí seres humanos de distintas tradições culturais e religiosas que valorizem a centralidade da compaixão. Não vivenciaram outros, antes de nós, que a Graça de Deus chega sempre antes que o Evangelho seja proclamado? «É assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós» (cf. Romanos 5,5-10). E que são estas “migalhas de Reino” senão aquilo que os Padres da Igreja chamavam “semina Verbi”, consequência da encarnação do Verbo que assume todo o tipo de ser humano (Filipenses 2,1-11)?

Se quisermos abrir novas rotas à Igreja do século XXI, esta categoria elementar ‒ ‘Reino’ ‒ será capaz de franquear uma nova perspectiva de diálogo e de procura comum com muitos homens e mulheres que partilham, como horizonte, aquilo que Jesus também possuía (mesmo que não o identifiquem como «o Mestre» de Nazaré; seria preciso, agora, reler Karl Rahner in «Fundamentación sacramental del estado laical en la Iglesia», Escritos de Teología VII, Taurus Madrid 1969, p. 364, linhas 3-8). Esta perspectiva evangelizadora das ‘semina Regni’ convida-nos a ter um olhar da história e da realidade a partir daquilo que também era fundamental para Jesus: o Reino. Assim, confluindo nós para «O Reino» ‒ sem o complemento ‘de Deus’ ‒ podemos associar as nossas forças à de todos aqueles que queiram, não só curar os feridos que jazem na margem do caminho, mas também aos que queiram interrogar-se acerca das razões de por que é que o caminho continua a expulsar e a despejar vidas humanas, bem como, ao mesmo tempo, como é que nós poderemos refazer o caminho novo da liberdade, da justiça, da paz e da fraternidade, onde não haja verdugos nem vítimas, mas sim Reino, Reino, sim!

Seria muito triste que, depois de termos colocado no centro do nosso olhar precisamente aquilo que Jesus colocou no centro do seu olhar ‒ um Reino de paz e de justiça sem verdugos ou vítimas, mas apenas ‘agapê’ (C. Spicq) ‒ voltássemos, neste século XXI, a olhar apenas para o nosso umbigo… Perante isto, creio que é desnecessário referir que as questões insistentemente reclamadas nas respostas à Consulta Sinodal ‒ mais democratização dentro da Igreja católica, ordenação das mulheres, partilha do poder de decisão, ordenação de homens casados, repescagem de sacerdotes afastados, etc., etc., etc., curiosamente tudo «aquilo que nos seria dado por acréscimo» se nos lançássemos à construção do Reino de Deus e que, precisamente por isso, não nos deveria moer o juízo ‒ são secundárias apenas por uma razão: porque elas terão forçosamente de ser referidas à questão central da Vida de Jesus:

La centralidad del reino de Dios anunciado por Jesús .



Paulo Bateira

28 de Junho de 2022


13 de fevereiro de 2017

O FOSSO ENTRE O CLERO E O LAICADO



O FOSSO ENTRE O CLERO E O LAICADO


É mais que conhecida a actual crise do sacerdócio na Igreja católica e a total ineficácia dos esforços levados a cabo, ao nível oficial, para a superar. Os problemas relativos à escassez de sacerdotes, a comunidades sem eucaristia, ao celibato, à ordenação das mulheres, etc., ainda que de modo não exclusivo, condicionam em grande medida a grave situação a que nos referimos. (É em termos sobreponíveis que Edward Schillebeeckx nos introduz no seu livro «Plaidoyer pour le peuple de Dieu», Cerf 1987, p. 9; «A situação actual [acerca dos Ministérios na Igreja] é sentida por muitos – simples fiéis ou membros do clero – como deplorável, quanto a muitos pontos de vista» - NdT). Com progressiva frequência vemos 'seculares' assumir o papel de guias ou de líderes paroquiais, os quais, por não estarem «ordenados», não podem celebrar a eucaristia com os seus paroquianos como seria a sua obrigação.

Tal realidade não levantava problema de espécie alguma na Igreja primitiva, onde a celebração eucarística dependia apenas da comunidade. Os encarregados da presidência da eucaristia – de acordo com a comunidade – não eram sacerdotes «ordenados», mas paroquianos absolutamente normais. Hoje em dia chamar-lhe-íamos 'seculares', ou seja, homens e inclusivamente mulheres, na sua maioria casados, ainda que também os houvesse solteiros. O importante era a sua nomeação pela comunidade. Pergunta-se: por que é que aquilo que outrora era possível não pode sê-lo igualmente possível hoje?

Se Jesus, como se afirma, fundou o sacerdócio da Nova Aliança, porque é que disso não restou a mais pequena menção durante os primeiros quatrocentos anos da vida da Igreja?

Diz-se também que Jesus fundou os sete sacramentos que são administrados pela Igreja católica. Acontece que é difícil prová-lo em mais do que um de entre estes sete casos, mas, pelo menos, naquilo que diz respeito ao sacramento da ordem é totalmente impossível prová-lo. Bem pelo contrário, Jesus mostrou, por palavras e por obras, que não queria sacerdotes. Nem ele era sacerdote, nem nenhum dos «Doze» o foi, nem tão-pouco Paulo.

Do mesmo modo é impossível atribuir a Jesus a criação da ordem episcopal. Nada nos permite demonstrar que os Apóstolos, para garantir a permanência da sua função, constituíram os seus sucessores em bispos. O ofício de bispo é, aliás como todos os demais ofícios na Igreja, criação da própria Igreja, sendo bem conhecida a evolução histórica deles. É evidente que a Igreja sempre pôde, e continua a poder, dispor livremente de ambas as funções – episcopal e sacerdotal – podendo, portanto, mantê-las, modificá-las ou suprimi-las.

A crise da Igreja perdurará enquanto esta não se decidir a oferecer a si própria uma nova constituição, que acabe de vez e para sempre com os dois estatutos actuais: sacerdotes e seculares, ordenados e não-ordenados. Tudo deverá restringir-se a um único «ofício», que inclui guiar a comunidade e celebrar a eucaristia com a comunidade, função que poderá ser desempenhada por homens e mulheres, casadas ou solteiros. Acabaríamos assim, de uma penada, com o problema da ordenação das mulheres e com a questão do celibato.

Quanto à pretensão de se acabar com «as duas classes» existentes na Igreja, sempre se contrapôs que as evoluções estruturais ocorridas sempre o foram fundamentadas – ainda que indirectamente − no Novo Testamento. O exemplo mais frequentemente mencionado é o do baptismo das crianças, que não aparece expressamente no Novo Testamento, mas que nem por isso o Novo Testamento o contradiz. Acontece que tais «evoluções estruturais» só podem ser consideradas válidas caso estejam conformes aos enunciados básicos do Evangelho. Caso se oponham a estes enunciados essenciais, devem ser consideradas ilegítimas, insustentáveis e nocivas.

Tal raciocínio aplica-se, sem qualquer dúvida, igualmente à Igreja «sacerdotal» ou clerical. Inquirindo os testemunhos dos tempos bíblicos e do cristianismo primitivo chegamos à conclusão clara e convincente de que o episcopado e o sacerdócio se desenvolveram à margem da Escritura e foram posteriormente justificados como parte ou elemento do dogma. Tudo parece indicar que, para a Igreja, é chegada a hora de regressar ao seu ser próprio e original. (…)

Dedico o presente livro especialmente aos fiéis das dioceses em que eu exerci directamente o meu ministério: Coira, Basileia e Rottenburg-Stuttgart.


Herbert Haag, Lucerna, Ano Novo de 1997.







25 de novembro de 2014

«A IGREJA TEM QUE ESTAR JUNTO» [COMBLIN]

DESAFIOS AOS CRISTÃOS DO SÉCULO XXI






INTRODUÇÃO

O discurso da opção pelos pobres e pelos excluídos é rebatido, ainda hoje, com insistência e com certa veemência, mas isso não quer dizer que a Igreja se encontre, de facto, no mundo dos pobres e dos excluídos[1]. Enquanto a Igreja prega e elabora documentos[2] a favor dos pobres e dos excluídos, a classe dominante deita contas aos serviços que oferece em prol da sua inocência e da sua bondade ética, procurando a legitimidade do seu sistema. Portanto, se a Igreja quiser ter alguma eficácia e alguma seriedade na sua opção pelos excluídos terá que fazer muito mais do que apenas denunciar e condenar o sistema neoliberal em vigor, causador das situações reais de dependência, espoliação, pobreza, miséria e, consequentemente, de exclusão. Se o discurso da Igreja se tornou vazio e a opção pelos pobres uma retórica, é urgente que a igreja comece a oferecer, no concreto, alternativas às vítimas. Para isso, a Igreja deverá exigir que o seu clero – educado e formado no mundo dos incluídos – abandone a cultura arcaica e se inculture no mundo dos excluídos. Nada do que for implantado sobreviverá se não estiver bem integrado na cultura dos excluídos. Terá a Igreja visão, ânimo e despojamento para tal?

De facto, este é o grande desafio para a Igreja. Saberá ela e será ela capaz de se fazer presente, de maneira eficaz, no mundo dos excluídos? Não chega oferecer paliativos como até agora fez, palavras de consolo, fazer de conta - através do discurso - que está do lado do pobre. A Igreja tem que estar junto: agir junto, aprender junto, produzir junto, sofrer junto, conquistar junto, erguer-se junto, fazer caminho junto…


A IGREJA E O MUNDO DOS EXCLUÍDOS

O mundo dos excluídos veio para ficar. Ele é produzido pelo sistema económico actual, que vai gerando cada vez mais exclusão. Uma parte da população tem capacidade para entrar no mundo novo da economia, outra parte não. As exigências são cada vez maiores, de modo que a distância cultural aumenta entre os que têm e os que não têm condições de vida digna. Quem nasce no mundo dos excluídos já nasce excluído e nunca poderá recuperar a distância que o separa de quem nasceu numa família incluída. Somente uma ínfima minoria de excluídos[3], ajudada por muita sorte, consegue recuperar – facto que não tem repercussão, nem muda nada, no conjunto do sistema.

O actual sistema económico domina, de modo absoluto, o mundo todo. Reina, praticamente sem contestação, entre todos os que detêm o poder. Está a crescer sem parar, confiante em si mesmo, sem nenhuma dúvida. Os que conduzem o processo não têm dúvida nenhuma. Estão seguros de si mesmos e dispõem de quase todos os recursos que actualmente existem no mundo. Dispõem de praticamente todos os cérebros importantes na sociedade. Tudo e todos trabalham para consolidá-lo. Somente o contestam alguns intelectuais sem poder.

Este modelo de economia está tão firme que está feito para durar pelo menos um século. A famosa «Terceira Via», lançada por Tony Blair, tem vindo a ser aceite hoje por quase todas as esquerdas do mundo, o que significa que a esquerda considera facto irreversível a actual evolução da economia (Cf. Anthony Giddens, «The Third Way. The Renewal of Social Democracy», Polity Press, Cambridge, 1998).

No momento não há outra alternativa com força política. A oposição vai ter de cumprir o seu papel de oposição, mas está impedida de realizar o seu programa de governo. Estamos ainda na fase inicial da exclusão. O que vem por aí tende a ser ainda pior. Isso não depende de um governo, regime político ou constituição de Estado – pois nenhum Estado pode impedir o inevitável que é a pressão de um sistema compacto e dotado de todas as forças materiais e culturais.

Anunciar o fim da exclusão é irresponsabilidade, porque, com isso, deixa-se que as pessoas fiquem à espera, na ilusão, atrasando-se a tomada de decisões. É irresponsabilidade pensar que o problema está a ser resolvido e que algumas boas pregações podem mudar a evolução actual do mundo. Naturalmente, todos os governantes dizem, com as lágrimas nos olhos, que estão preocupados com a exclusão e a pobreza. Falam assim para se enganarem a si mesmos – pensando que têm bom coração – e ao povo. Na hora de agir acabam por reforçar o sistema, fortalecendo-o. Nada farão para mudar o actual sistema. Também não será um governo que há-de vir, no futuro, que irá mudar esse rumo. A intensidade do movimento poderá variar um pouco, mas o movimento em plena expansão não será mudado.

1.   Os excluídos vivem
Os excluídos não desaparecerão por serem excluídos. Conseguem sobreviver, encontrando brechas no sistema e nos meios de subsistência. Recolhem as migalhas que caem da mesa dos poderosos. Como os poderosos são muito ricos, as migalhas podem alimentar muita gente. Os excluídos vão formando um mundo próprio, separado, com a sua cultura própria e relações sociais próprias. Pouco a pouco, constituem um mundo inteiriço, coerente, completo – como na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Vivem de uma economia informal ou, às vezes, conseguem emprego aleatório em empresa de construção ou em serviço precário. Recolhem o que a sociedade lhes concede, sobretudo, a televisão, que abre para o resto do mundo, porém, sem criar comunicação com esse mundo. Criam uma cultura, um estilo de vida em casa, uma maneira de comer e beber, de festejar, de se relacionar com os vizinhos. Seu mundo é um mundo pequeno, mas que permite viver. Nesse mundo há tempos de alegria e de tristeza, tempos de medo e de ilusão.

A cultura do mundo dos excluídos não é muito conhecida, porque não consegue interessar aos sociólogos. Estes ainda estão muito dependentes das teorias do passado. Uns são marxistas e olham tudo em função da luta de classes, como nos tempos da sociedade industrial, sem ver que na actualidade somente uma minoria participa do mundo industrial – os operários das indústrias já pertencem ao mundo dos incluídos, embora numa posição modesta. Outros dependem da sociologia norte-americana, e enxergam tudo com base no sistema positivista da passagem da cultura pré-moderna para a cultura moderna – não descobriram que há duas culturas modernas: a dos incluídos e a dos excluídos.

A cultura dos excluídos está presente nas cidades. É feita de fragmentos da cultura rural desintegrada e de fragmentos da cultura dominante mais ou menos assimilados, porque o mundo dos excluídos não está totalmente isolado – vive ao lado do outro, ainda que com uma intercomunicação muito superficial. Os novos pobres reinterpretam, na sua cultura, a exibição da cultura dominante.

No primeiro mundo, os excluídos constituem 1/3 da população e no terceiro mundo 2/3. Claro que estes números são aproximados. Em cada país a situação é particular, podendo a fronteira entre excluídos e incluídos não estar tão clara, assim. Há uma parte da população que está entre os excluídos e os incluídos, participando parcialmente das duas categorias. No entanto, globalmente, existe uma separação radical entre os dois pólos e essas duas partes da população.

2.   A Igreja continua a repetir o discurso da opção pelos pobres e excluídos

Continua a fazer-se o discurso da opção pelos pobres e excluídos, mas, no entanto, esse discurso está cada vez mais longe da realidade. Caso nos demos ao trabalho de examinar o comportamento real, nota-se com toda a evidência que a Igreja está a fazer a opção pelos incluídos, perdendo o contacto com os excluídos. Elaborando sempre o mesmo discurso, a Igreja nem se apercebe que se está a distanciar cada vez mais dos excluídos. O discurso serve para esconder a realidade e tranquilizar a consciência.

Com efeito, hoje em dia [2011] a força da Igreja está concentrada à volta de dois pólos: os «movimentos» e as paróquias.

O primeiro pólo é constituído pelos «movimentos». Os «movimentos» estão a crescer cada vez mais, e constituem actualmente o sector mais vivo, mais dinâmico e florescente na Igreja. Tomando a dianteira, está o movimento Renovação Carismática[4], vindo depois o ECC[5], os Focolare[6], os Neocatecumenais[7], Schönstatt[8] e outros menos numerosos.

Os «movimentos» estão implantados no mundo dos incluídos. Todo o seu modo de ser revela a sua perfeita adaptação à cultura dos incluídos. Estão bem inculturados e, por isso, fazem sucesso e crescem sem cessar. Apesar de não estarem integrados nas estruturas oficiais da Igreja, a sua influência vai crescendo. Não têm o poder na Igreja, mas têm o conhecimento do mundo, a ciência das comunicações e tudo o que o clero não tem. Por isso, de facto, a sua influência é maior do que a dos sacerdotes na Igreja. Os sacerdotes são, cada vez mais, espectadores do que acontece na Igreja ou auxiliares dos «movimentos». A sua cultura arcaica não lhes permite competir, salvo raras excepções.

Por serem emanação da cultura dominante, os «movimentos» não têm comunicação com o mundo dos excluídos, ainda que no seu discurso multipliquem as profissões de boa vontade. Não há comunicação com esse mundo, nem a linguagem é a mesma. Não é uma questão de boa ou má vontade, mas simplesmente uma questão de necessidade sociológica.

Deixo, como tarefa para o século XXI, o surgimento de missionários nos «movimentos» para que desçam até ao mundo dos excluídos, afastando-se da sua cultura de origem para irem ao encontro da cultura dos excluídos. É mais difícil ser-se missionário no mundo dos excluídos do próprio país e da própria cidade do que ser missionário em África ou na Ásia, porque a resistência psicológica é maior. É mais fácil reconhecer a diferença da cultura indiana ou chinesa do que a diferença da cultura dos excluídos na própria cidade. O cidadão de uma classe superior pensa que sabe e pode tudo na sua própria cidade, mas, na realidade, nunca pôs o pé no mundo dos excluídos.

Como «movimentos» organizados e totalidades sociais, os «movimentos» nada podem fazer pelo mundo dos excluídos. Porém, do meio deles, pode e deve sair uma messe de vocações missionárias. Como sociedades organizadas têm mentalidade universal. Estão convencidos de que representam todas as classes sociais e de que são imagem da própria sociedade urbana ou nacional. Não percebem os limites da sua consciência. Somente os excluídos podem dizer-lhes que pertencem a um mundo limitado; somente os excluídos são capazes de os ajudar a comunicar com o seu mundo excludente. Somente o contacto presencial com os excluídos lhes pode fazer abrir os olhos e a mente.

O segundo pólo forte da Igreja católica, no qual se concentra a quase totalidade do clero, é a paróquia urbana. Aí se concentra 80% da população. No mundo urbano, as paróquias reúnem as pessoas do mundo dos incluídos. A cultura paroquial adapta-se melhor a eles. O próprio vigário foi educado na cultura do mundo dos incluídos, sentindo-se mais à vontade aí. Como as actividades paroquiais são numerosas, conseguem ocupar o tempo todo dos melhores vigários. Não sobra tempo para saltar os muros e ir ver o que está a acontecer no “outro país” que fica dentro do território paroquial. A própria estrutura paroquial favorece essa evolução. Ora, na cidade, a visibilidade das igrejas e capelas paroquiais não é muito grande. Uma família pode morar a 100 metros da capela e ignorar a sua presença, assim como os fiéis católicos ignoram as igrejas pentecostais que estão na mesma rua.

3.   E as CEBs, não são elas a presença da Igreja no mundo dos excluídos e do mundo dos excluídos na Igreja?

Em primeiro lugar, as CEBs [Comunidades Eclesiais de Base] já não têm, na Igreja, a importância que já tiveram. Basta lembrar que, no documento Ecclesiæ in America, nem sequer são mencionadas. Na dinâmica das dioceses, o seu espaço é muito limitado.

Em segundo lugar, uma grande parte das CEBs está situada nas comunidades rurais afastadas das igrejas matriciais. Este mundo rural tem cada vez menos peso no conjunto do país. Mesmo que tenham surgido os assentamentos[9], a presença da Igreja católica é mínima neles. No mundo urbano, as CEBs não se multiplicaram, apesar do imenso crescimento do mundo dos excluídos. São como ilhas num mar imenso. Além disso, muitas foram integradas no sistema paroquial, reproduzindo o sistema da paróquia e funcionando como órgão de transmissão da pastoral paroquial. Dedicam muito tempo à preparação dos sacramentos e às celebrações de estilo mais ou menos tradicional. Estamos fartos de conhecer essa realidade e do que se passou com as CEBs.

Em terceiro lugar, as próprias comunidades são agentes de promoção social. Quem participa tem mais hipóteses de ascensão social, porque vai adquirindo capacidades que habilitam para entrar no mundo dos incluídos.

A participação nas CEBs confere um desenvolvimento humano que prepara para saber actuar no mundo superior, ainda que em posições modestas. Acontece a mesma coisa com os sindicatos, os partidos políticos populares ou os movimentos populares. Os dirigentes saem do mundo dos excluídos porque já se capacitaram e entram em comunicação com o mundo dos incluídos[10].

Ainda há uma parte das CEBs que são a Igreja no mundo dos excluídos. Mas essa parte quase não conta na Igreja actual – não conta na vida das dioceses, das paróquias e «movimentos». Por outro lado, a existência delas não representa uma presença significativa da Igreja católica. Quantos sacerdotes e religiosas se dedicam a esse mundo? Qual é a parte dos recursos financeiros da Igreja dedicada à missão no mundo dos excluídos? Insignificante.

O desafio é a presença da Igreja no mundo dos excluídos. Não basta condenar o sistema neoliberal em vigor, e dizer que aumenta o número dos excluídos. É necessário condenar, mas não basta – porque nada vai mudar por mais que se condene. A influência da Igreja na sociedade é mínima – para não dizer inexistente. O que se espera da Igreja é que legitime o sistema e dê alguns remédios de consolo às vítimas. Se ela se dedicar a isso terá um lugar privilegiado. Se não fizer isso será marginalizada.

Também não basta anunciar a utopia de uma nova sociedade ou de uma civilização do amor. A utopia é necessária para manter a esperança e a espera de outro mundo. Porém, não basta, porque o anúncio do evangelho é anúncio do Reino de Deus no mundo presente. Trata-se da presença de Deus e da acção a partir do Reino neste mundo que existe no concreto: anunciar o futuro é muito cómodo e pouco exigente. Pode-se estar no mundo dos incluídos e esperar a mudança da sociedade: pelo menos, teremos que esperar um século. O consolo do futuro, não basta. As ideologias socialistas prometeram um mundo futuro que nunca chegou. O que nos preocupa – objecto da evangelização – é o mundo presente tal como ele está. Que dizer e que fazer face a este mundo de agora?

Em primeiro lugar, para poder agir, é preciso estar presente. Já dissemos que todo o grupo de Igreja tende a subir socialmente e, ao mesmo tempo, tende a se separar do mundo dos excluídos: acaba por se tornar num grupo que está em vias de se integrar. Assim aconteceu com os monges antigos. Assim foi com as primeiras comunidades cristãs e com todas as fundações religiosas, ao longo dos tempos. Começaram com uma presença no mundo dos pobres e, um século depois, passaram a fazer parte do mundo dos ricos.

Assim acontece com as CEBs. Começa-se pelos excluídos e, pouco a pouco, vão-se diferenciando e subindo socialmente. É preciso recomeçar. É improvável que uma comunidade que começou no meio dos pobres e se emancipou – tornando-se incluída – volte às origens – retornando aos excluídos.

Da evolução actual das CEBs alguns tiraram a conclusão que elas já tiveram o seu tempo, e estão a ser substituídas por outras formas de pastoral. Muitos acham que já não respondem às situações novas e que estão a desaparecer. Acontece que essa história evolutiva das CEBs não significa que elas estejam superadas. Quer dizer que, como todas as instituições da Igreja, elas devem passar pelo que tradicionalmente se chama reforma.

Na Igreja, o que quer dizer reforma?
[…]


José Comblin
Sacerdote e doutor em teologia pela Universidade de Lovaina.
Leccionou no Equador, no Chile e no Brasil.
Faleceu a 27 de Março de 2011.










[1] José Maria Vigil diz que se deve defender a opção pela justiça e não a «opção preferencial pelos pobres»: «Deus opta pela justiça, não preferencialmente, mas sim alternativa e excludentemente». «A Opção pelos Pobres é opção pelos “injustiçados”». «A opção de Deus pela justiça fundamenta-se no seu próprio ser: Deus não pode ser de outra maneira, não poderia não fazer essa opção sem contradizer-se e sem negar o seu próprio ser. Deus é, “por natureza”, opção pela justiça, e essa opção não é gratuita (mas, sim, axiologicamente inevitável), nem contingente (mas sim necessária), nem arbitrária (mas sim fundada per se no próprio ser de Deus), nem “preferencial” (mas sim alternativa, exclusiva e excludente». Cf. doc. em castelhano ou em português [NdE]:
[2] Vivemos num mundo em que «as palavras já estão gastas» (Eugénio de Andrade) e significam precisamente o seu contrário, um mundo de mentira operado pelo disfarce. Hitler possuía uma biblioteca pessoal de 16.000 volumes (T. W. Ryback); os seus discursos anti-semitas eram, à época, cientificamente fundados! Em última análise, qual é o critério último, definitivo para ajuizar e julgar da santidade da nossa existência? Produzir Conferências com muitas citações eruditas, Colóquios com muitos nomes sonantes? Creio que não serão as profissões de fé ou os discursos: será – para sempre – o «JUÍZO DEFINITIVO» de Mateus 25,31-46, onde, em cerca de 16 versículos, se podem contar cerca de 20 “acções” ou “omissões”… práxicas. [NdE]
[3] É o caso de alguns Joões Paulos, por aí… Uma imensa minoria, de facto.
[10] Cf o escândalo monstruoso do «caso Petrobras» (Brasil) e suas conexões com os membros do Partido dos Trabalhadores, Lula e Dilma, ou as facilidades dadas pelo presidente Lula para a instalação de gigantes hidroeléctricas (ex.: Belo Monte) com a consequente expulsão dos indígenas de suas terras (denunciado pela Irmã Ignez Wenzel e pelo bispo Erwin Kräutler ). [NdE]