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13 de fevereiro de 2017

O FOSSO ENTRE O CLERO E O LAICADO



O FOSSO ENTRE O CLERO E O LAICADO


É mais que conhecida a actual crise do sacerdócio na Igreja católica e a total ineficácia dos esforços levados a cabo, ao nível oficial, para a superar. Os problemas relativos à escassez de sacerdotes, a comunidades sem eucaristia, ao celibato, à ordenação das mulheres, etc., ainda que de modo não exclusivo, condicionam em grande medida a grave situação a que nos referimos. (É em termos sobreponíveis que Edward Schillebeeckx nos introduz no seu livro «Plaidoyer pour le peuple de Dieu», Cerf 1987, p. 9; «A situação actual [acerca dos Ministérios na Igreja] é sentida por muitos – simples fiéis ou membros do clero – como deplorável, quanto a muitos pontos de vista» - NdT). Com progressiva frequência vemos 'seculares' assumir o papel de guias ou de líderes paroquiais, os quais, por não estarem «ordenados», não podem celebrar a eucaristia com os seus paroquianos como seria a sua obrigação.

Tal realidade não levantava problema de espécie alguma na Igreja primitiva, onde a celebração eucarística dependia apenas da comunidade. Os encarregados da presidência da eucaristia – de acordo com a comunidade – não eram sacerdotes «ordenados», mas paroquianos absolutamente normais. Hoje em dia chamar-lhe-íamos 'seculares', ou seja, homens e inclusivamente mulheres, na sua maioria casados, ainda que também os houvesse solteiros. O importante era a sua nomeação pela comunidade. Pergunta-se: por que é que aquilo que outrora era possível não pode sê-lo igualmente possível hoje?

Se Jesus, como se afirma, fundou o sacerdócio da Nova Aliança, porque é que disso não restou a mais pequena menção durante os primeiros quatrocentos anos da vida da Igreja?

Diz-se também que Jesus fundou os sete sacramentos que são administrados pela Igreja católica. Acontece que é difícil prová-lo em mais do que um de entre estes sete casos, mas, pelo menos, naquilo que diz respeito ao sacramento da ordem é totalmente impossível prová-lo. Bem pelo contrário, Jesus mostrou, por palavras e por obras, que não queria sacerdotes. Nem ele era sacerdote, nem nenhum dos «Doze» o foi, nem tão-pouco Paulo.

Do mesmo modo é impossível atribuir a Jesus a criação da ordem episcopal. Nada nos permite demonstrar que os Apóstolos, para garantir a permanência da sua função, constituíram os seus sucessores em bispos. O ofício de bispo é, aliás como todos os demais ofícios na Igreja, criação da própria Igreja, sendo bem conhecida a evolução histórica deles. É evidente que a Igreja sempre pôde, e continua a poder, dispor livremente de ambas as funções – episcopal e sacerdotal – podendo, portanto, mantê-las, modificá-las ou suprimi-las.

A crise da Igreja perdurará enquanto esta não se decidir a oferecer a si própria uma nova constituição, que acabe de vez e para sempre com os dois estatutos actuais: sacerdotes e seculares, ordenados e não-ordenados. Tudo deverá restringir-se a um único «ofício», que inclui guiar a comunidade e celebrar a eucaristia com a comunidade, função que poderá ser desempenhada por homens e mulheres, casadas ou solteiros. Acabaríamos assim, de uma penada, com o problema da ordenação das mulheres e com a questão do celibato.

Quanto à pretensão de se acabar com «as duas classes» existentes na Igreja, sempre se contrapôs que as evoluções estruturais ocorridas sempre o foram fundamentadas – ainda que indirectamente − no Novo Testamento. O exemplo mais frequentemente mencionado é o do baptismo das crianças, que não aparece expressamente no Novo Testamento, mas que nem por isso o Novo Testamento o contradiz. Acontece que tais «evoluções estruturais» só podem ser consideradas válidas caso estejam conformes aos enunciados básicos do Evangelho. Caso se oponham a estes enunciados essenciais, devem ser consideradas ilegítimas, insustentáveis e nocivas.

Tal raciocínio aplica-se, sem qualquer dúvida, igualmente à Igreja «sacerdotal» ou clerical. Inquirindo os testemunhos dos tempos bíblicos e do cristianismo primitivo chegamos à conclusão clara e convincente de que o episcopado e o sacerdócio se desenvolveram à margem da Escritura e foram posteriormente justificados como parte ou elemento do dogma. Tudo parece indicar que, para a Igreja, é chegada a hora de regressar ao seu ser próprio e original. (…)

Dedico o presente livro especialmente aos fiéis das dioceses em que eu exerci directamente o meu ministério: Coira, Basileia e Rottenburg-Stuttgart.


Herbert Haag, Lucerna, Ano Novo de 1997.







25 de novembro de 2014

«A IGREJA TEM QUE ESTAR JUNTO» [COMBLIN]

DESAFIOS AOS CRISTÃOS DO SÉCULO XXI






INTRODUÇÃO

O discurso da opção pelos pobres e pelos excluídos é rebatido, ainda hoje, com insistência e com certa veemência, mas isso não quer dizer que a Igreja se encontre, de facto, no mundo dos pobres e dos excluídos[1]. Enquanto a Igreja prega e elabora documentos[2] a favor dos pobres e dos excluídos, a classe dominante deita contas aos serviços que oferece em prol da sua inocência e da sua bondade ética, procurando a legitimidade do seu sistema. Portanto, se a Igreja quiser ter alguma eficácia e alguma seriedade na sua opção pelos excluídos terá que fazer muito mais do que apenas denunciar e condenar o sistema neoliberal em vigor, causador das situações reais de dependência, espoliação, pobreza, miséria e, consequentemente, de exclusão. Se o discurso da Igreja se tornou vazio e a opção pelos pobres uma retórica, é urgente que a igreja comece a oferecer, no concreto, alternativas às vítimas. Para isso, a Igreja deverá exigir que o seu clero – educado e formado no mundo dos incluídos – abandone a cultura arcaica e se inculture no mundo dos excluídos. Nada do que for implantado sobreviverá se não estiver bem integrado na cultura dos excluídos. Terá a Igreja visão, ânimo e despojamento para tal?

De facto, este é o grande desafio para a Igreja. Saberá ela e será ela capaz de se fazer presente, de maneira eficaz, no mundo dos excluídos? Não chega oferecer paliativos como até agora fez, palavras de consolo, fazer de conta - através do discurso - que está do lado do pobre. A Igreja tem que estar junto: agir junto, aprender junto, produzir junto, sofrer junto, conquistar junto, erguer-se junto, fazer caminho junto…


A IGREJA E O MUNDO DOS EXCLUÍDOS

O mundo dos excluídos veio para ficar. Ele é produzido pelo sistema económico actual, que vai gerando cada vez mais exclusão. Uma parte da população tem capacidade para entrar no mundo novo da economia, outra parte não. As exigências são cada vez maiores, de modo que a distância cultural aumenta entre os que têm e os que não têm condições de vida digna. Quem nasce no mundo dos excluídos já nasce excluído e nunca poderá recuperar a distância que o separa de quem nasceu numa família incluída. Somente uma ínfima minoria de excluídos[3], ajudada por muita sorte, consegue recuperar – facto que não tem repercussão, nem muda nada, no conjunto do sistema.

O actual sistema económico domina, de modo absoluto, o mundo todo. Reina, praticamente sem contestação, entre todos os que detêm o poder. Está a crescer sem parar, confiante em si mesmo, sem nenhuma dúvida. Os que conduzem o processo não têm dúvida nenhuma. Estão seguros de si mesmos e dispõem de quase todos os recursos que actualmente existem no mundo. Dispõem de praticamente todos os cérebros importantes na sociedade. Tudo e todos trabalham para consolidá-lo. Somente o contestam alguns intelectuais sem poder.

Este modelo de economia está tão firme que está feito para durar pelo menos um século. A famosa «Terceira Via», lançada por Tony Blair, tem vindo a ser aceite hoje por quase todas as esquerdas do mundo, o que significa que a esquerda considera facto irreversível a actual evolução da economia (Cf. Anthony Giddens, «The Third Way. The Renewal of Social Democracy», Polity Press, Cambridge, 1998).

No momento não há outra alternativa com força política. A oposição vai ter de cumprir o seu papel de oposição, mas está impedida de realizar o seu programa de governo. Estamos ainda na fase inicial da exclusão. O que vem por aí tende a ser ainda pior. Isso não depende de um governo, regime político ou constituição de Estado – pois nenhum Estado pode impedir o inevitável que é a pressão de um sistema compacto e dotado de todas as forças materiais e culturais.

Anunciar o fim da exclusão é irresponsabilidade, porque, com isso, deixa-se que as pessoas fiquem à espera, na ilusão, atrasando-se a tomada de decisões. É irresponsabilidade pensar que o problema está a ser resolvido e que algumas boas pregações podem mudar a evolução actual do mundo. Naturalmente, todos os governantes dizem, com as lágrimas nos olhos, que estão preocupados com a exclusão e a pobreza. Falam assim para se enganarem a si mesmos – pensando que têm bom coração – e ao povo. Na hora de agir acabam por reforçar o sistema, fortalecendo-o. Nada farão para mudar o actual sistema. Também não será um governo que há-de vir, no futuro, que irá mudar esse rumo. A intensidade do movimento poderá variar um pouco, mas o movimento em plena expansão não será mudado.

1.   Os excluídos vivem
Os excluídos não desaparecerão por serem excluídos. Conseguem sobreviver, encontrando brechas no sistema e nos meios de subsistência. Recolhem as migalhas que caem da mesa dos poderosos. Como os poderosos são muito ricos, as migalhas podem alimentar muita gente. Os excluídos vão formando um mundo próprio, separado, com a sua cultura própria e relações sociais próprias. Pouco a pouco, constituem um mundo inteiriço, coerente, completo – como na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Vivem de uma economia informal ou, às vezes, conseguem emprego aleatório em empresa de construção ou em serviço precário. Recolhem o que a sociedade lhes concede, sobretudo, a televisão, que abre para o resto do mundo, porém, sem criar comunicação com esse mundo. Criam uma cultura, um estilo de vida em casa, uma maneira de comer e beber, de festejar, de se relacionar com os vizinhos. Seu mundo é um mundo pequeno, mas que permite viver. Nesse mundo há tempos de alegria e de tristeza, tempos de medo e de ilusão.

A cultura do mundo dos excluídos não é muito conhecida, porque não consegue interessar aos sociólogos. Estes ainda estão muito dependentes das teorias do passado. Uns são marxistas e olham tudo em função da luta de classes, como nos tempos da sociedade industrial, sem ver que na actualidade somente uma minoria participa do mundo industrial – os operários das indústrias já pertencem ao mundo dos incluídos, embora numa posição modesta. Outros dependem da sociologia norte-americana, e enxergam tudo com base no sistema positivista da passagem da cultura pré-moderna para a cultura moderna – não descobriram que há duas culturas modernas: a dos incluídos e a dos excluídos.

A cultura dos excluídos está presente nas cidades. É feita de fragmentos da cultura rural desintegrada e de fragmentos da cultura dominante mais ou menos assimilados, porque o mundo dos excluídos não está totalmente isolado – vive ao lado do outro, ainda que com uma intercomunicação muito superficial. Os novos pobres reinterpretam, na sua cultura, a exibição da cultura dominante.

No primeiro mundo, os excluídos constituem 1/3 da população e no terceiro mundo 2/3. Claro que estes números são aproximados. Em cada país a situação é particular, podendo a fronteira entre excluídos e incluídos não estar tão clara, assim. Há uma parte da população que está entre os excluídos e os incluídos, participando parcialmente das duas categorias. No entanto, globalmente, existe uma separação radical entre os dois pólos e essas duas partes da população.

2.   A Igreja continua a repetir o discurso da opção pelos pobres e excluídos

Continua a fazer-se o discurso da opção pelos pobres e excluídos, mas, no entanto, esse discurso está cada vez mais longe da realidade. Caso nos demos ao trabalho de examinar o comportamento real, nota-se com toda a evidência que a Igreja está a fazer a opção pelos incluídos, perdendo o contacto com os excluídos. Elaborando sempre o mesmo discurso, a Igreja nem se apercebe que se está a distanciar cada vez mais dos excluídos. O discurso serve para esconder a realidade e tranquilizar a consciência.

Com efeito, hoje em dia [2011] a força da Igreja está concentrada à volta de dois pólos: os «movimentos» e as paróquias.

O primeiro pólo é constituído pelos «movimentos». Os «movimentos» estão a crescer cada vez mais, e constituem actualmente o sector mais vivo, mais dinâmico e florescente na Igreja. Tomando a dianteira, está o movimento Renovação Carismática[4], vindo depois o ECC[5], os Focolare[6], os Neocatecumenais[7], Schönstatt[8] e outros menos numerosos.

Os «movimentos» estão implantados no mundo dos incluídos. Todo o seu modo de ser revela a sua perfeita adaptação à cultura dos incluídos. Estão bem inculturados e, por isso, fazem sucesso e crescem sem cessar. Apesar de não estarem integrados nas estruturas oficiais da Igreja, a sua influência vai crescendo. Não têm o poder na Igreja, mas têm o conhecimento do mundo, a ciência das comunicações e tudo o que o clero não tem. Por isso, de facto, a sua influência é maior do que a dos sacerdotes na Igreja. Os sacerdotes são, cada vez mais, espectadores do que acontece na Igreja ou auxiliares dos «movimentos». A sua cultura arcaica não lhes permite competir, salvo raras excepções.

Por serem emanação da cultura dominante, os «movimentos» não têm comunicação com o mundo dos excluídos, ainda que no seu discurso multipliquem as profissões de boa vontade. Não há comunicação com esse mundo, nem a linguagem é a mesma. Não é uma questão de boa ou má vontade, mas simplesmente uma questão de necessidade sociológica.

Deixo, como tarefa para o século XXI, o surgimento de missionários nos «movimentos» para que desçam até ao mundo dos excluídos, afastando-se da sua cultura de origem para irem ao encontro da cultura dos excluídos. É mais difícil ser-se missionário no mundo dos excluídos do próprio país e da própria cidade do que ser missionário em África ou na Ásia, porque a resistência psicológica é maior. É mais fácil reconhecer a diferença da cultura indiana ou chinesa do que a diferença da cultura dos excluídos na própria cidade. O cidadão de uma classe superior pensa que sabe e pode tudo na sua própria cidade, mas, na realidade, nunca pôs o pé no mundo dos excluídos.

Como «movimentos» organizados e totalidades sociais, os «movimentos» nada podem fazer pelo mundo dos excluídos. Porém, do meio deles, pode e deve sair uma messe de vocações missionárias. Como sociedades organizadas têm mentalidade universal. Estão convencidos de que representam todas as classes sociais e de que são imagem da própria sociedade urbana ou nacional. Não percebem os limites da sua consciência. Somente os excluídos podem dizer-lhes que pertencem a um mundo limitado; somente os excluídos são capazes de os ajudar a comunicar com o seu mundo excludente. Somente o contacto presencial com os excluídos lhes pode fazer abrir os olhos e a mente.

O segundo pólo forte da Igreja católica, no qual se concentra a quase totalidade do clero, é a paróquia urbana. Aí se concentra 80% da população. No mundo urbano, as paróquias reúnem as pessoas do mundo dos incluídos. A cultura paroquial adapta-se melhor a eles. O próprio vigário foi educado na cultura do mundo dos incluídos, sentindo-se mais à vontade aí. Como as actividades paroquiais são numerosas, conseguem ocupar o tempo todo dos melhores vigários. Não sobra tempo para saltar os muros e ir ver o que está a acontecer no “outro país” que fica dentro do território paroquial. A própria estrutura paroquial favorece essa evolução. Ora, na cidade, a visibilidade das igrejas e capelas paroquiais não é muito grande. Uma família pode morar a 100 metros da capela e ignorar a sua presença, assim como os fiéis católicos ignoram as igrejas pentecostais que estão na mesma rua.

3.   E as CEBs, não são elas a presença da Igreja no mundo dos excluídos e do mundo dos excluídos na Igreja?

Em primeiro lugar, as CEBs [Comunidades Eclesiais de Base] já não têm, na Igreja, a importância que já tiveram. Basta lembrar que, no documento Ecclesiæ in America, nem sequer são mencionadas. Na dinâmica das dioceses, o seu espaço é muito limitado.

Em segundo lugar, uma grande parte das CEBs está situada nas comunidades rurais afastadas das igrejas matriciais. Este mundo rural tem cada vez menos peso no conjunto do país. Mesmo que tenham surgido os assentamentos[9], a presença da Igreja católica é mínima neles. No mundo urbano, as CEBs não se multiplicaram, apesar do imenso crescimento do mundo dos excluídos. São como ilhas num mar imenso. Além disso, muitas foram integradas no sistema paroquial, reproduzindo o sistema da paróquia e funcionando como órgão de transmissão da pastoral paroquial. Dedicam muito tempo à preparação dos sacramentos e às celebrações de estilo mais ou menos tradicional. Estamos fartos de conhecer essa realidade e do que se passou com as CEBs.

Em terceiro lugar, as próprias comunidades são agentes de promoção social. Quem participa tem mais hipóteses de ascensão social, porque vai adquirindo capacidades que habilitam para entrar no mundo dos incluídos.

A participação nas CEBs confere um desenvolvimento humano que prepara para saber actuar no mundo superior, ainda que em posições modestas. Acontece a mesma coisa com os sindicatos, os partidos políticos populares ou os movimentos populares. Os dirigentes saem do mundo dos excluídos porque já se capacitaram e entram em comunicação com o mundo dos incluídos[10].

Ainda há uma parte das CEBs que são a Igreja no mundo dos excluídos. Mas essa parte quase não conta na Igreja actual – não conta na vida das dioceses, das paróquias e «movimentos». Por outro lado, a existência delas não representa uma presença significativa da Igreja católica. Quantos sacerdotes e religiosas se dedicam a esse mundo? Qual é a parte dos recursos financeiros da Igreja dedicada à missão no mundo dos excluídos? Insignificante.

O desafio é a presença da Igreja no mundo dos excluídos. Não basta condenar o sistema neoliberal em vigor, e dizer que aumenta o número dos excluídos. É necessário condenar, mas não basta – porque nada vai mudar por mais que se condene. A influência da Igreja na sociedade é mínima – para não dizer inexistente. O que se espera da Igreja é que legitime o sistema e dê alguns remédios de consolo às vítimas. Se ela se dedicar a isso terá um lugar privilegiado. Se não fizer isso será marginalizada.

Também não basta anunciar a utopia de uma nova sociedade ou de uma civilização do amor. A utopia é necessária para manter a esperança e a espera de outro mundo. Porém, não basta, porque o anúncio do evangelho é anúncio do Reino de Deus no mundo presente. Trata-se da presença de Deus e da acção a partir do Reino neste mundo que existe no concreto: anunciar o futuro é muito cómodo e pouco exigente. Pode-se estar no mundo dos incluídos e esperar a mudança da sociedade: pelo menos, teremos que esperar um século. O consolo do futuro, não basta. As ideologias socialistas prometeram um mundo futuro que nunca chegou. O que nos preocupa – objecto da evangelização – é o mundo presente tal como ele está. Que dizer e que fazer face a este mundo de agora?

Em primeiro lugar, para poder agir, é preciso estar presente. Já dissemos que todo o grupo de Igreja tende a subir socialmente e, ao mesmo tempo, tende a se separar do mundo dos excluídos: acaba por se tornar num grupo que está em vias de se integrar. Assim aconteceu com os monges antigos. Assim foi com as primeiras comunidades cristãs e com todas as fundações religiosas, ao longo dos tempos. Começaram com uma presença no mundo dos pobres e, um século depois, passaram a fazer parte do mundo dos ricos.

Assim acontece com as CEBs. Começa-se pelos excluídos e, pouco a pouco, vão-se diferenciando e subindo socialmente. É preciso recomeçar. É improvável que uma comunidade que começou no meio dos pobres e se emancipou – tornando-se incluída – volte às origens – retornando aos excluídos.

Da evolução actual das CEBs alguns tiraram a conclusão que elas já tiveram o seu tempo, e estão a ser substituídas por outras formas de pastoral. Muitos acham que já não respondem às situações novas e que estão a desaparecer. Acontece que essa história evolutiva das CEBs não significa que elas estejam superadas. Quer dizer que, como todas as instituições da Igreja, elas devem passar pelo que tradicionalmente se chama reforma.

Na Igreja, o que quer dizer reforma?
[…]


José Comblin
Sacerdote e doutor em teologia pela Universidade de Lovaina.
Leccionou no Equador, no Chile e no Brasil.
Faleceu a 27 de Março de 2011.










[1] José Maria Vigil diz que se deve defender a opção pela justiça e não a «opção preferencial pelos pobres»: «Deus opta pela justiça, não preferencialmente, mas sim alternativa e excludentemente». «A Opção pelos Pobres é opção pelos “injustiçados”». «A opção de Deus pela justiça fundamenta-se no seu próprio ser: Deus não pode ser de outra maneira, não poderia não fazer essa opção sem contradizer-se e sem negar o seu próprio ser. Deus é, “por natureza”, opção pela justiça, e essa opção não é gratuita (mas, sim, axiologicamente inevitável), nem contingente (mas sim necessária), nem arbitrária (mas sim fundada per se no próprio ser de Deus), nem “preferencial” (mas sim alternativa, exclusiva e excludente». Cf. doc. em castelhano ou em português [NdE]:
[2] Vivemos num mundo em que «as palavras já estão gastas» (Eugénio de Andrade) e significam precisamente o seu contrário, um mundo de mentira operado pelo disfarce. Hitler possuía uma biblioteca pessoal de 16.000 volumes (T. W. Ryback); os seus discursos anti-semitas eram, à época, cientificamente fundados! Em última análise, qual é o critério último, definitivo para ajuizar e julgar da santidade da nossa existência? Produzir Conferências com muitas citações eruditas, Colóquios com muitos nomes sonantes? Creio que não serão as profissões de fé ou os discursos: será – para sempre – o «JUÍZO DEFINITIVO» de Mateus 25,31-46, onde, em cerca de 16 versículos, se podem contar cerca de 20 “acções” ou “omissões”… práxicas. [NdE]
[3] É o caso de alguns Joões Paulos, por aí… Uma imensa minoria, de facto.
[10] Cf o escândalo monstruoso do «caso Petrobras» (Brasil) e suas conexões com os membros do Partido dos Trabalhadores, Lula e Dilma, ou as facilidades dadas pelo presidente Lula para a instalação de gigantes hidroeléctricas (ex.: Belo Monte) com a consequente expulsão dos indígenas de suas terras (denunciado pela Irmã Ignez Wenzel e pelo bispo Erwin Kräutler ). [NdE]




31 de outubro de 2014

QUE MODELO DE COMUNIDADE? [MARCO POLITI]

«VENDE-SE IGREJA»



Enquanto o primeiro ano de pontificado de Francisco era assinalado por este debate As mulheres estão totalmente ausentes das funções directivas da Igreja católica»], a Igreja anglicana de Inglaterra estabelecia no sínodo de 20 de Novembro de 2013 o princípio do acesso das mulheres ao episcopado, praticamente por unanimidade: 378 votos a favor, 8 contra e 25 abstenções. Vinte e um anos antes abrira às mulheres o acesso ao sacerdócio.

Em Effretikon, que fica a 8 horas de comboio do Vaticano, [pertence ao cantão de Zurique; 15.000 habitantes, duas igrejas: uma protestante e outra católica], Monika Schmit [1957- Estudou pedagogia religiosa e teologia em Lucerna e Salzburgo; presentemente, faz um Curso de teologia espiritual inter-religiosa sobre pontos de contacto com a mística hebraica e com o islão], a responsável pela pequena paróquia suíça, [em alemão, Gemeindeleiterin=«Guia da paróquia»; termo que incomoda o Vaticano; este sugere o uso de "encarregada de paróquia"] disse-me que, se num domingo se perguntasse aos fiéis se queriam uma mulher sacerdote, três quartos responderiam sim. Os jovens, em especial, não compreendem a exclusão. Se pudesse falar com Francisco, perguntar-lhe ia: «Ouça as mulheres e faça tábua rasa dessa fábula insustentável, segundo a qual motivos teológicos impedem o sacerdócio feminino». O sonho dela é que, quando se aposentar, o Vaticano autorize pelo menos o diaconato feminino. Quando Francisco foi eleito, Monika sentiu um grande contentamento, «mas o fosso entre as pessoas e a instituição é grande. Gostaria de obter uma audiência, mesmo que não fosse sozinha, para lhe dizer como vivemos na base.»



Monika Schmit, 2ª a contar da esquerda [H. Küng, à direita]



O ponto fulcral é a crise do clero. A paróquia foi a grande invenção do cristianismo. Um território, um povo de fiéis, um guia espiritual em contacto estreito com eles. Esta estrutura, que durante séculos sustentou o tecido do catolicismo, está a ser corroída pela dramática ausência de vocações. Nos Estados Unidos e na Europa setentrional vendem-se igrejas. Por todo o Primeiro Mundo desaparecem paróquias e perde-se o confronto quotidiano entre pároco e paroquianos. No Terceiro Mundo muitas paróquias são tão grandes e distantes entre si que não vêem um pároco durante meses. (…) Continuam a faltar os padres e começam a faltar os leigos dispostos a assumir o peso das responsabilidades pastorais. E isso sucede também no campo feminino. Na Suíça, as paróquias importam licenciados em teologia da Alemanha. «Se procurarmos hoje um assistente pastoral encontramos dificuldades – explica Monika Schmit – não há o mesmo campo de escolha de há trinta anos. Apresentam-se pessoas com formação medíocre. No meu tempo, na Universidade de Lugano, eu pertencia a um excelente grupo de mulheres apaixonadas pela teologia feminista… liam-se livros, discutiam-se textos, fazia-se pesquisa bíblica. Agora, só nos aparecem beatos.»

Um dado assente é a fuga das mulheres das ordens femininas, espinha dorsal da organização eclesiástica em todo o mundo. O número de freiras e consagradas cai de forma sensível. Em 2001 as professas eram 792.317; em 2011 o número desce para 713.206: uma sangria não compensada pelo aumento de vocações registado em África e na Ásia. Estamos a assistir a uma deslocação do peso do Ocidente para o Terceiro Mundo. Um terço das religiosas vem da África e da Ásia. O que leva muitas ordens religiosas a importar freiras do Terceiro Mundo para dar sangue novo às instituições na Europa. Um "tráfico de noviças", criticado pelo Papa Francisco. (…)

É um nó complicado de desatar. Enfrentar o papel das mulheres na Igreja constitui um passo fundamental no pontificado de Bergoglio. A estrutura eclesial centrada na predominância do clero masculino está lentamente a desagregar-se. A pergunta que se coloca à Igreja católica, que entrou no seu terceiro milénio, é a de saber qual será a fisionomia das comunidades de crentes no futuro. Serão ainda fortemente institucionalizadas? Virão a tornar-se mais fluidas? Ou será encontrada uma forma organizativa que conjugue os necessários vínculos de unidade com a flexibilidade das experiências?

Se num domingo o Papa Francisco atravessasse o Tibre, poderia chegar a um barracão situado na via Ostiense e acompanhar uma missa especial. O altar é uma mesa coberta com uma toalha branca, bordada. Tem rodas para poder ser deslocado. Um ramo de flores e uma pequena cruz de madeira estão colocados ao centro. Ao lado vê-se uma bandeirinha da paz com as cores do arco-íris. Dois cálices de vinho palhete e dois cestos de pão estão prontos para o rito. Das janelas, nas paredes ao fundo, entra a luz do dia.

Um jovem de barba afina a guitarra e entoa: «Cristo veio para estar junto de nós… Aleluia... Todo o medo será afastado». Chega ao altar uma mulher vestida com uma camisola e lê o acto de penitência. Chega outra com um casaco comprido e lê um trecho de Isaías. Chega outra ainda com um blusão de lã e lê a Carta de Paulo aos Coríntios. Finalmente, chega outra envergando um casaco e anuncia o Evangelho.

Via Ostiense 152, desde os anos setenta é a sede da comunidade de São Paulo formada depois que o abade-bispo do antigo mosteiro de San Paolo fuori le Mura [S. Paulo extra-muros], Giovanni Franzoni, foi destituído por ter denunciado as responsabilidades da hierarquia eclesiástica nas especulações imobiliárias em Roma.

As paredes do antigo armazém estão caiadas de branco, e somente um lado do grande cubo foi pintado a trompe d’oeil [técnica de perspectiva que produz ilusão óptica] como se fosse um velho palácio romano. Vê-se uma estátua de mulher com uma máscara na mão e o perfil de algumas colunas. Um pouco além está afixado um manifesto de monsenhor Juan José Gerardi, o bispo guatemalteco assassinado em 1998 por três militares por ter publicado um relatório sobre violações dos direitos humanos cometidos pelo exército do seu país. Mártir de verdad y paz, está escrito em espanhol.

Uma senhora de cabelos brancos, com cerca de cinquenta anos, pronuncia a homilia. O seu vestuário, tal como o das outras senhoras, lembra a absoluta normalidade do quotidiano. Uma camisola azul, um casaco de lã beije, óculos, brincos, um colar ao pescoço. A cada hora - recorda – morrem de fome no mundo duas mil pessoas. São dados da FAO, a organização das Nações Unidas que trata de alimentação e agricultura. A missa é um convívio, o Evangelho evoca a boda de Canãa. Mas ninguém deve ser excluído do banquete. «Enquanto alguém morrer, não seremos a alegria de Deus.»

Entra um rapaz, um pobre tonto, que caminha entre os fiéis dizendo em alta voz: «Onde está a mamã… eu tinha dito à mamã… viram a mamã?». Ninguém se perturba, todos o acompanham com olhares afectuosos, ouvem as reflexões sobre o Evangelho e as leituras do dia. São muitos os que se levantam para tomar a palavra. E há quem recorde que no Antigo Testamento e nas antigas comunidades cristãs o dom da profecia era partilhado entre homens e mulheres.

É o momento da consagração. Duas mulheres aproximam-se do altar, uma faz um sinal rápido para se ajoelharem, e juntas partem uma forma de pão e depois transformam-na em pequenos pedaços colocando-os nos cestos. Todos se dão as mãos formando uma cadeia e recitando o Pai-Nosso. Vão ao encontro uns dos outros para trocar o sinal da paz. É um ambiente de amizade. A comunhão é a refeição dos crentes em comum. Formam-se duas filas nos lados do altar e cada um toma o seu pedaço de pão que mergulha no cálice de vinho e come-o. «O teu primeiro milagre, Jesus – diz a oração – é um convite de amor».



Monika Schmit



Vem-me à mente um mosaico singular que vi na antiga catedral de Santa Sofia, em Kiev. O altar é uma mesa verdadeira e encontram-se ali dois Cristos, um que se volta para a direita oferecendo o pão eucarístico a Pedro, e outro que se vira para a esquerda para o dar a Paulo. O Filho do Homem abraça todas as dimensões da vida.

Marco Politi, «Francisco entre os lobos – o segredo de uma revolução», Texto&Grafia 2014, p. 107-128 (excertos). ISBN 978-989-8285-95-9. (ca. de 20 euros) Imprescindível!







"Ratzinger carece da liderança de que a Igreja necessita"




«Um pároco italiano enforca-se antes de conhecer a sua condenação por pederastia»

Notícia e Vídeo:

http://www.periodistadigital.com/religion/mundo/2014/10/29/un-cura-italiano-se-ahorca-antes-de-conocer-su-condena-por-pederastia-religion-iglesia-abusos-maks-suard.shtml

 

 

La Chiesa da Benedetto a Francesco - Marco Politi

Vídeo:







"Os lobos ameaçam a revolução pacífica de Francisco"




Marco Politi



«Os lobos de Francisco» - entrevista com Marco Politi [IHU - Brasil]