teologia para leigos

28 de março de 2017

A RESSURREIÇÃO DA CARNE E A VIDA ETERNA [PETER L. BERGER]


  
«… a ressurreição da carne e a vida eterna»


A pergunta mais séria que os seres humanos podem fazer a si mesmos é se a morte é a última palavra, quer para a vida do indivíduo, quer para a colectividade humana. Sabemos de forma absoluta que todos nós e todos aqueles com quem nos preocupamos morreremos. A partir daquilo que a ciência nos diz, podemos estar razoavelmente seguros que até a própria terra morrerá em algum momento do futuro, sob a forma de gelo ou fogo. A ciência sugere ainda que o universo inteiro está submetido à lei da entropia, o que quer dizer que até ele de alguma forma se encaminha para algum tipo de morte cósmica. Para já, fiquemo-nos por uns instantes com o conhecimento mais certo que temos acerca da morte: a certeza de que todos os seres humanos terão de morrer.

Nalgumas páginas atrás, afirmei que a morte é inaceitável. Rejeitemos firmemente a ideia de que esta afirmação seja egoísta. É claro que eu não desejo morrer, mas exercitando-me na ginástica estóica, eu até poderei assumir a perspectiva da minha própria morte com uma certa dose de equanimidade. Mas aquilo que eu me recuso a aceitar é a morte do filho do meu vizinho, e isso não tem nada de «egoísta». A morte não é «natural», a não ser naquele mais que banal sentido de ela estar inserida na nossa constituição biológica. A morte é um ultraje. E é um ultraje que a fé desta criança na bondade do mundo seja traída, que o sorriso desta criança, que por vezes ilumina o céu, acabe em sofrimento e chegue a desaparecer da face da realidade. Nego-me a aceitar, recuso-me em consentir neste ultraje. Mais: a minha recusa é para mim o mais ácido critério para julgar qualquer mensagem religiosa: a minha postura negativa pode ou não ser aprovada? Possuo alguma palavra de consolo para este meu vizinho completamente esmagado?

Nas linhas de abertura deste livro declarei que a fé religiosa, em última instância, diz que a realidade, segundo os parâmetros humanos, tem um sentido. E acrescentei que, esteja ou não esteja certa essa afirmação, que se tratava, contudo, de uma afirmação «interessante». Desfiarei, de seguida, quatro enunciados sobre religião que, contudo, não são «interessantes». Ou, por outras palavras, se estes quatro enunciados descrevem com rigor o que é a religião, então esqueçamos a religião.

§ Supõe-se que a religião, bem como a ética atribuída a Jesus são necessárias como base da moralidade. Mas a religião não é necessária para a moralidade e os ensinamentos éticos de Jesus (na medida em que seja possível distingui-los daquilo que o judaísmo do seu tempo já ensinava) não podem servir de guia prático, quer para a vida individual, quer para a vida social. Não, obrigado.

§ A religião proporciona poderosos símbolos exigidos pela existência humana. Sim, isso é verdade, mas também existem outras fontes para esses símbolos. Não, obrigado.

§ A religião exige submissão à vontade de Deus, independentemente do significado que possa ter a morte do filho do meu vizinho. Sim, a religião implica submissão à vontade de Deus, mas apenas com a condição de que não se entenda esse Deus nem como autor nem como um passivo supervisor da morte dessa criança. Dito de outro modo: eu submeto-me a um Deus que não queira a morte desta criança. Qualquer outro tipo de submissão religiosa nega implicitamente a bondade de Deus e a bondade da criação. Não, obrigado.

§ A religião poderá tentar consolar-nos dizendo que seremos todos nós, incluindo esta criança, absorvidos por uma espécie de oceano cósmico da divindade. Não me interessam consolos. A única coisa que me interessa é esta criança — única, insubstituível, infinitamente preciosa. Absorvê-la numa realidade última na qual se perca toda a individualidade não é senão uma outra versão da morte. Não, obrigado.

Diante de todas as propostas religiosas totalmente «carentes de interesse», a fé cristã afirma o valor único e o destino eterno desta criança, de todas as crianças e da humanidade inteira. Esta afirmação está contida, com a mais sólida densidade e concisão alguma vez imaginável, na exclamação: «Cristo ressuscitou!» Eis a razão que faz da ressurreição o fundamento, o início da fé cristã e faz com que ela se mantenha e continue a sê-lo assim, caso queiramos manter a possibilidade desta fé nos nossos dias. Com toda a razão pode Paulo afirmar: «Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé.» (1 Cor 15, 13-14). Se é vã, nesse caso, Paulo – melhor, Saulo – volta para Tarso, dedica-te tranquilamente ao teu ofício de fabricante de tendas e cultiva o teu jardim de rosas.

Kant sugeria que uma das questões básicas da filosofia consistia em «que podemos esperar?». Não sei se o é na filosofia, mas na religião esta é a pergunta basilar. Podemos glosá-la em duas perguntas.


Que esperança resta ao indivíduo após a morte? Que esperança há para o cosmos para lá da entropia?

No seu (muito interessante) livro «Life after Death?», Jay Robinson usa as expressões «escatologia individual» e «escatologia cósmica» para se referir, respectivamente, a estas duas questões. Abordá-las-emos de seguida, separadamente. [CONTINUA]



Peter L. Berger (Viena 1929), sociólogo e teólogo de reconhecido prestígio, director do «Institut on Religion and World Affairs», Boston.
«Cuestiones sobre la fe – una afirmación escéptica del cristianismo», Herder Barcelona, 2006.










17 de março de 2017

O JESUS QUE ANUNCIAMOS E SEGUIMOS [SERGIO MÉNDEZ ARCEO]




O JESUS QUE ANUNCIAMOS
E SEGUIMOS


Ao falar de Jesus − aquele que anunciamos – será preciso fazer primeiro uma breve reflexão sobre as imagens de Jesus que existem na sociedade mexicana. Descobriremos, então, que há imagens diferentes dependentes de pessoas diferentes, e que essas imagens não são independentes do lugar que essas pessoas ocupam na sociedade mexicana; bem pelo contrário, essas imagens estão em relação com inúmeros factores, tais como, o estilo de vida, o tipo de trabalho que têm, as relações pessoais e sociais que estabelecem e também o lugar que ocupam por exemplo, neste momento, na "Aliança para a Produção" propugnada pelo Presidente da República.

Em segundo lugar, assinalarei os caminhos que percorreram, que nós e muitos cristãos percorremos ao longo da nossa experiência em que procuramos redescobrir e reencontrar, aqui e agora, Jesus de Nazaré como Filho de Deus, como o Senhor da História, mas particularmente como o primeiro dos crentes, como o irmão mais velho que fez o seu caminho até chegar ao seu Pai, a Deus. Ao longo desse caminho veremos que todos nós fomos convidados a rasgar a nossa própria imagem de Jesus como via de acesso inevitável e necessária para encontrar o Jesus que os Evangelhos nos transmitem e que a Igreja foi redescobrindo dentro das situações históricas novas em que se vê envolta.

Como ponto fundamental desta experiência de Jesus gostaria de reflectir sobre aquilo que ainda temos de andar para conhecer mais autêntica e operativamente Jesus. Muitas vezes pensamos que já conhecemos Jesus, que já sabemos quem foi ele, o que fez, e que, por isso, é fácil explicá-lo com ideias, com frases muito bonitas, com reflexões profundas. Ora, acontece que muitos de vocês, muitos cristãos de hoje, quer na América Latina, quer noutras partes do mundo, acabaram por se encontrar com um outro Jesus, diferente daquele em que acreditavam, sempre que se meteram a fazer as mesmas obras que Jesus fez, sempre que se esforçaram por anunciar a Boa Nova numa sociedade que não a deseja, em que isso lhe dá dores de cabeça e que, só de ouvir essa palavra, fica cheia de medo, sociedade que nem sequer quer ver como essa palavra se transforma em vida e gera vida para os despojados de vida, ou seja, para as classes crucificadas desta nossa terra.

Por fim, quero ir um pouco mais longe. Quero falar-vos e levar-vos a conhecer, mais uma vez, o Jesus que anunciamos, o Jesus que durante anos procurei seguir e que estou seguro que, para vós e para o mundo em que vivemos, é capaz de despertar esperança e, sobretudo, desencadear uma nova história para os pobres e explorados desta terra. [Continua]


Dom Sergio Méndez Arceo, bispo de Cuernavaca, México