teologia para leigos

30 de junho de 2011

LEITURA POPULAR DA BÍBLIA EM CUBA

Encontro de biblistas
em Cuba


biblistas - Cuba


Entre 22 e 25 de Junho, aconteceu um seminário de avaliação da Leitura Popular da Bíblia promovido pelo Centro Memorial Martin Luther King (CMMLK) de Cuba e pelo CEBI.
Foi a primeira reunião de uma caminhada que se propõe a revisar nosso trabalho bíblico em termos de metodologias e teologias estruturantes, tendo em vista avançar em nossas concepções hermenêuticas e teológicas para superar os desafios atuais e assim manter sempre vivo e atual o caráter libertador e transformador da leitura popular da Bíblia junto às mais variadas comunidades com quem atuamos.
Contatamos que nossas práticas e afirmações metodológicas, hermenêuticas e teológicas estão sendo desafiadas pela nebulosidade no campo político, pela insensibilidade frente às injustiças e desigualdades sociais, pelo crescimento do fundamentalismo e da exacerbação das discriminações xenofóbicas, homofóbicas, sexistas, clericais, que muitas vezes negam o reconhecimento da dignidade e de direitos para o "outro" e a "outra", e que ainda marcam muito fortemente nossos contextos. E muitas destas posturas envolvem grupos cristãos que, muitas vezes, são fundamentadas em leituras e teologias bíblicas. A estes somam-se ainda os desafios advindos dos sempre mais frequentes contatos interculturais e inter-religiosos.
Para superar estas posições e fazer prevalecer culturas de solidariedade, de paz e de respeito à diversidade e aos direitos do meio ambiente, da terra e dos seres humanos, é necessário que em nossos grupos e movimentos comecemos a ensaiar uma compreensão descolonizada da Bíblia, das Teologias e das Religiões, isto é, resgatar o seu caráter promotor de vida e que parcialmente foi soterrado pelas influências das alianças com poderes monárquicos, sacerdotais e imperiais, e que marcam suas histórias.
 Para dar continuidade ao processo iniciado neste primeiro encontro, marcamos novo seminário para o próximo ano.

CEBI
29 de junho de 2011

VÍDEO: MANIFESTAÇÕES DE RUA E VIOLÊNCIA POLICIAL ENCAPUZADA


A Verdade acerca da Polícia
Donde vem a violência?
Quem é o violento?


Parlamento da Catalunha
BARCELONA, 15:VI:2011


VÍDEO: EXPLICAR A GÉNESE DA CRISE EM 2 MIN.

A Verdade acerca da Economia
por Robert B. Reich, em 2 min. 38 seg.
[legendagem de Maria Trigoso, «Convergência e Alternativa»]





1.       Crescimento económico desde 1980 duplicou
2.       Ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez …
3.       Só os ricos sabem como ganhar ainda mais e fugir ainda mais aos impostos
4.       Enormes défices orçamentais (públicos), piores serviços públicos
5.       «Casa onde não há pão, todos ralham e nenhum tem razão»
6.       Desemprego, colapso social, recuperação anémica, miséria de economia

 


27 de junho de 2011

VÍDEO: A CRISE NA ARGENTINA




«Overdose» - Financial Fiasco!







El mapa de la gran crisis sistémica que enfrentamos está compuesto por cuatro elementos principales, altamente interrelacionados entre sí: Economía, Energía, Presión Demográfica y Medio Ambiente.
En tiempos de crisis las sociedades buscan líderes fuertes y soluciones simples. Pero... ¿Qué pasaría si las soluciones económicas que se están planteando constituyen los mismos errores que provocaron el desastre?

Este documental describe y analiza la historia de la mayor crisis económica de nuestra época: la que aún está por venir.

Cuando estalló la burbuja financiera global, la solución fue bajar las tasas de interés e inyectar miles de millones de dólares sin respaldo a un sistema bancario enfermo. Justamente esa solución generó un problema mayor, y por eso la próxima crisis será peor aún. Los gobiernos ya se están quedando sin combustible para alimentar la economía. Puede ser que todavía estén en condiciones de salvar a los bancos, pero de ahora en adelante la pregunta más inquietante es quién salvará a los gobiernos...

Los subtítulos en español para este documental fueron realizados por la Red de la Transición de la Comarca Andina (Patagonia, Argentina), y hasta el momento es la única versión en nuestro idioma de esta película. Para ver la ficha técnica completa y mayor información del documental, ir a la siguiente página:
sites.google.com/site/sinpetroleo/cine/overdose

26 de junho de 2011

A MISSA DOMINICAL - CRISE DA MISSA OU CRISE DA COMUNIDADE?

E fizeram ninho nas igrejas…






Há muitos anos [décadas, já…] que a minha geração não sente apelo de espécie alguma quando acorda, aos domingos, pela manhã. E, no entanto, os domingos são o que há de mais cortante, no decurso da semana: não se vai ao trabalho, privilegia-se o «fazer outras coisas», os horários invertem-se com um prazer muito especial que criam uma nova ordem nas horas que passam. O hábito da Missa Dominical foi envenenado por variadíssimas razões (mil estudos os estudaram já…).

Diante do texto (abaixo) do padre e teólogo J A Pagola, surgiu-me a vontade de partilhar as duas razões (maiores) de eu próprio não me apetecer a Missa, aos domingos.

Primeira. A ausência de vida comunitária. Na verdade, nas paróquias, mesmo naquelas que se dizem ‘comunidades paroquiais’, as pessoas ‘juntam-se’ aos domingos para ouvir a Missa. Ao domingo ‘junta-se’ gente. Isso é mais que necessário hoje em dia (urgente, diria), caso aquela gente tivesse «vida comunitária»: vida de comunhão e partilha. Mas isso não acontece. Pior: isso não é exigido pela Igreja. A porta está aberta e ninguém acolhe ninguém, nem pergunta nada a ninguém. Entras e já estás… na igreja. É uma questão que tem a ver com a questão da «dimensão humana»: sem nos conhecermos pelo nome, sem sabermos o que fazemos, onde moramos, como vivemos e de que vivemos, que saúde trazemos, que comunhão de bens realizamos, etc., não haverá «dimensão humana» nesse ajuntamento dominical e não poderá haver ‘comunidade’. Sem sermos «família» (cristã), como nos sentirmos em Casa?

Segunda. A vida fica à porta da Missa. O Ritual supõe que entremos ‘em cortejo’ respondendo a uma voz que convoca, mas, depois lá dentro, a vida, com todas as suas vicissitudes religiosas, familiares, sociais, económicas, políticas, geracionais, etc., não ‘entram’ (não são recolhidas, não são enunciadas, não são recolectadas e reunidas, não são depositadas no centro da assembleia). A Vida, que é o centro do que, simbolicamente, ali se vai passar, fica à porta. Se entra é sob a forma de uma linguagem tão metafórica, tão metafórica, tão liturgizada e vestida, tão desactualizada no seu vocabulário que a faz «encolher-se» e definhar em toda a eventual agudeza de actualidade. A igreja tem medo da crueza da Vida da semana: por isso, a adoça de cânticos, linguagem analógica e nuances… logo à entrada. Palavra de ordinário não é palavra viva. Regra geral, as pessoas entram mudas e saem caladas… A Celebração (da palavra e não só) é a morte da Palavra! Há quem ‘bichane’ o papagueado todo da Missa de ponta a ponta… num autismo doentio repugnante.
Sem a actualidade da semana (a vida pessoal/testemunhal só pode ser hebdomadária para não se transformar em ‘discurso sobre’ a vida), sem a actualidade da semana, com que sangue encher o cálice de vinho? E com que suor e alegria encher o cesto do pão?

Ou seja, é naturalíssimo que as razões que levam gente a querer estar com gente, sejam: (1) terem algo afim, terem feito caminho juntas; (2) terem previamente construído laços de comunhão, confiarem; (3) terem algo para dizer uns aos outros, para partilhar; (4) sentirem, ou pressentirem, que vale a pena estar juntos; (5) saberem-se reunidos pelos mesmos critérios, p. ex., os evangélicos das bem-aventuranças (6) e, idealmente, buscarem algo novo e edificante.

A Igreja Católica deve ser a única instituição que nunca se preocupa, de quando em vez, em auto-avaliar-se. Parte-se do princípio de que, se nunca houve ‘queixas’, é porque tudo está bem… No entanto, eu tenho a certeza de que (apenas falando do domingo) ninguém fez NUNCA SEQUER uma catequese (credível, actualizada) sobre os Mistérios que se celebram durante a Missa. Pura e simplesmente, parte-se… do princípio!

Há muitos anos [décadas, já…] que a minha geração não sente apelo de espécie alguma quando acorda, aos domingos, pela manhã. É por razões tão ridículas quanto estas que, há muitas décadas, há cristãos em auto-gestão… aos domingos.

Salvo as andorinhas, que, fiel e regularmente, não param de fazer ninho nos beirais das ermidas.








Reavivar la memoria de Jesús
J A PAGOLA

La crisis de la misa es, probablemente, el símbolo más expresivo de la crisis que se está viviendo en el cristianismo actual. Cada vez aparece con más evidencia que el cumplimiento fiel del ritual de la eucaristía, tal como ha quedado configurado a lo largo de los siglos, es insuficiente para alimentar el contacto vital con Cristo que necesita hoy la Iglesia.

El alejamiento silencioso de tantos cristianos que abandonan la misa dominical, la ausencia generalizada de los jóvenes, incapaces de entender y gustar la celebración, las quejas y demandas de quienes siguen asistiendo con fidelidad ejemplar, nos están gritando a todos que la Iglesia necesita en el centro mismo de sus comunidades una experiencia sacramental mucho más viva y sentida.

Sin embargo, nadie parece sentirse responsable de lo que está ocurriendo. Somos víctimas de la inercia, la cobardía o la pereza. Un día, quizás no tan lejano, una Iglesia más frágil y pobre, pero con más capacidad de renovación, emprenderá la transformación del ritual de la eucaristía, y la jerarquía asumirá su responsabilidad apostólica para tomar decisiones que hoy no nos atrevemos ni a plantear.

Mientras tanto no podemos permanecer pasivos. Para que un día se produzca una renovación litúrgica de la Cena del Señor es necesario crear un nuevo clima en las comunidades cristianas. Hemos de sentir de manera mucho más viva la necesidad de recordar a Jesús y hacer de su memoria el principio de una transformación profunda de nuestra experiencia religiosa. La última Cena es el gesto privilegiado en el que Jesús, ante la proximidad de su muerte, recapitula lo que ha sido su vida y lo que va a ser su crucifixión. En esa Cena se concentra y revela de manera excepcional el contenido salvador de toda su existencia: su amor al Padre y su compasión hacia los humanos, llevado hasta el extremo.

Por eso es tan importante una celebración viva de la eucaristía.

En ella actualizamos la presencia de Jesús en medio de nosotros. Reproducir lo que él vivió al término de su vida, plena e intensamente fiel al proyecto de su Padre, es la experiencia privilegiada que necesitamos para alimentar nuestro seguimiento a Jesús y nuestro trabajo para abrir caminos al Reino. Hemos de escuchar con mas hondura el mandato de Jesús: "Haced esto en memoria mía".

En medio de dificultades, obstáculos y resistencias, hemos de luchar contra el olvido. Necesitamos hacer memoria de Jesús con más verdad y autenticidad. Necesitamos reavivar y renovar la celebración de la eucaristía.

José Antonio Pagola
No seu Blog: «Buenas Noticias»
26 de junio de 2011
El Cuerpo y la Sangre del Señor
Juan 6,51-58



MINHA ORAÇÃO EM TEMPOS DE CANÍCULA

rio Bestança



sob a ponte das Pias

A libelinha azul roça a água do ribeiro
e cintila.
Cintila todos os azuis que há.
Poisa no frágil verde ramo.
Inclina a cabeça e ora.
Imóvel, ora. Ora azul.

Os nossos pés, nas águas,
arrefecem o corpo
ao som forte das águas do ribeiro.

A luz cega-nos.
Bate nas águas
por baixo dos juncos
e cega-nos.

O guarda-rios risca o escondido
sob os baixos ramos dos amieiros.
Também ele é azul. Azul metálico.
Pára. Precipita-se.
Depois, regressa pesaroso.

Por todos os lados, a água
contorna os seixos
e arredonda-se sob o calor tórrido.
A felosa não pára de cantar
a melodia que mais agrada ao meu deus.

De pedra em pedra, a alvéola
persegue o rigor vaidoso do seu voo.
Nas árvores junto ao ribeiro
a felosa não pára de cantar.

Há quem estranhe já não ouvir o cuco…

Está calor, muito calor.
Sobrevivemos
com os pés dentro da água do ribeiro.

Lá está a libelinha.
A libelinha azul e os alfaiates,
minha oração em tempos de canícula.


'guarda-rios' em voo rasante

 
rio Bestança

'guarda-rios'


rio Bestança







22 de junho de 2011

«NÚMEROS», UM DOGMA RELIGIOSO E EMPRESARIAL

A ditadura do número e a crise




Nas sociedades capitalistas contemporâneas, a quantificação tornou-se quase um dogma religioso, de tão central que é nas escolhas que fazemos e nas políticas que implementamos. Os exemplos são múltiplos: avaliamos a qualidade de uma máquina fotográfica pela quantidade de megapixeis, avaliamos a qualidade de uma escola pela sua posição num ranking, planeamos as políticas ambientais de acordo com a quantidade de poluição desejada e chegamos mesmo ao ponto de reduzir o conceito de “boa vida” a um qualquer índice de qualidade de vida. Pelo caminho, tudo o que não é quantificável torna-se invisível.


A quantificação é fundamental para criar hierarquias e legitimar a autoridade de quem exerce o poder de forma discricionária pela aura de objectividade que atribui a decisões que, na realidade, são baseadas em concepções de ética e moral e influenciadas pela ideologia dominante. Assim, um governo pode usar os rankings para pôr professores/as a competir entre si, introduzindo na organização das escolas princípios mercantis, e argumentar que quem se opõe a esta política está contra a avaliação per se. Assim também são criados mercados ambientais para o carbono ou a biodiversidade, como se a natureza pudesse ser cortada em pedaços e comercializada como qualquer outra mercadoria. Todas estas operações são feitas de uma forma que aparece como sendo a-ideológica e a-moral, no âmbito de um esforço concertado para reduzir o alcance de potenciais críticas. Esta é a base da ditadura do número.


Mas a quantificação não é apenas um instrumento de dominação. Ao criar novas categorias e reconfigurar relações sociais, tem efeitos reais na forma como as nossas sociedades são organizadas. O melhor exemplo que podemos encontrar actualmente é o da crise iniciada em 2008, na medida em que encontramos na sua origem a criação de mercados financeiros baseados na quantificação da incerteza.


Uma das maiores lacunas do ensino da Economia hoje é a diferença entre risco e incerteza. Podemos falar de risco quando temos uma situação em que podemos atribuir uma probabilidade a qualquer acontecimento futuro possível. Quando temos incerteza, contudo, não conseguimos calcular as probabilidades de acontecimentos futuros, pelo que não temos qualquer forma de prever o que vai acontecer. Dando o exemplo de um óptimo artigo de Larry Lohmann1, a expressão “economia de casino” é inadequada para descrever os mercados financeiros, precisamente porque num casino sabemos sempre qual é a probabilidade de ganhar ou perder num jogo e é possível calcular os ganhos esperados de forma exacta – é por isso que nenhum casino corre o risco de falir.


Os especuladores dos mercados financeiros, assim como os economistas, consultores e quants que desenvolveram elaborados modelos para tentar prever o comportamento destes mercados, contudo, escolheram ignorar esta distinção. Como resultado, temos agências de rating a calcular o risco de cada fundo de investimento, como se fosse quantificável, e especuladores a decidir se compram ou vendem títulos baseados nestes ratings. Para um neo-liberal, tudo isto faz sentido: o mercado auto-regula-se, garante-se liquidez e o risco é alocado de forma eficiente. Quem vive no mundo real, contudo, já compreendeu que do que se trata é de desenvolver perigosos negócios de venda de ilusões.


Um exemplo particularmente ilustrativo desta loucura de quem acha que pode sacar da calculadora para determinar o risco de um activo pode ser encontrado com a história da equação de Black-Scholes. Em 1973, Fisher Black e Myron Scholes publicaram um artigo no qual desenvolviam um modelo que permitia prever a evolução de certos derivados num mercado financeiro. O modelo tornou-se extremamente popular, tendo estado inclusive na base da formação de novos instrumentos financeiros. Robert Merton desenvolveu este modelo posteriormente e veio a dividir com Scholes o chamado “Nobel da Economia”, em 1997 (Black não foi incluído porque já tinha falecido à data). Nesta altura, Merton e Scholes estavam no topo do mundo. Mas tinham cometido um erro fatal: aplicar o seu modelo à realidade.


Em 1994, Merton e Scholes criaram um fundo de investimento, tendo conseguido capitalizar a sua fama para obter mil milhões de dólares dos especuladores. O fundo foi muito bem sucedido nos primeiros anos, tendo registado um rendimento acima de 40%. Mas em 1998, com as crises asiática e russa, o fundo sofreu um pesado golpe tendo perdido 4.6 mil milhões de dólares em quatro meses. A falência do fundo mostrou de forma brutal as limitações de uma ideologia que insiste em ver os mercados financeiros como sendo domesticáveis pela força de modelos matemáticos.


Naturalmente que os especuladores não aprenderam as lições do desastre e em 2008 entramos numa crise financeira que levou à falência inúmeros fundos de investimento criados com base em complexos mecanismos de quantificação que falharam por completo no seu objectivo. Paradoxalmente, os instrumentos financeiros que permitiriam dominar a incerteza acabaram por criar novas fontes de incerteza. O capitalismo é assim, tem a sua forma de nos mostrar que não pode ser domado.

Ricardo Coelho, Economista especializado em Ambiente e Recursos Naturais.
[1] Disponível em: http://www.thecornerhouse.org.uk/sites/thecornerhouse.org.uk/files/New%20Political%20Economy.pdf

Artigo publicado em:

A FORÇA DA RAZÃO ESTÁ NA MARGEM - VÍDEOS

A Força da Razão: parábola do rico e do pobre Lázaro, hoje
«entre nós e vós há um grande abismo» [Lucas 16:26]


Deus compadece-se dos que foram empurrados para a outra margem do ‘sistema’ [Marcos 5]

http://www.youtube.com/watch?v=Rlf7n1mmOSw&feature=related


Deus sempre esteve do lado das vítimas,
a Igreja nem sempre... mas alguns cristãos, sim!


«Prá não dizer que não falei das flores»

Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais braços dados ou não,
Nas escolas, nas ruas, campos, construções,
Caminhando e cantado e seguindo a canção,

Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer,

Pelos campos a fome em grandes plantações,
Pelas ruas marchando indecisos cordões,
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão,
E acreditam nas flores vencendo o canhão,

Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer,

Há soldados armados, amados ou não,
Quase todos perdidos de armas na mão,
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição:
De morrer pela pátria e viver sem razão,

Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer,

Nas escolas, nas ruas, campos, construções,
Somos todos soldados, armados ou não,
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais, braços dados ou não,
Os amores na mente, as flores no chão,
A certeza na frente, a história na mão,
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Aprendendo e ensinando uma nova lição,

Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Geraldo Vandré
2º lugar do Festival Internacional da Canção, 1968
[depois, proibida pelo regime militar no Brasil]




CADEIAS, CRIMES, CRISE E REPRESSÃO PRISIONAL

 entre o Estado Penal
e o Estado Social




A escolha nunca inteiramente confessada do neoliberalismo é dirigir recursos para os mais ricos e repressão para os mais pobres A crise económica alimenta o espectro do aumento da criminalidade e reforça perigosas derivas securitárias no nosso país. Pode estar criado o caldo de cultura, feito da enésima reinvenção do tema das "classes perigosas", agora com uma dimensão espacial acentuada: "os bairros perigosos". Em sociedades desiguais como a portuguesa tudo se conjuga para transformar as fracturas socioeconómicas num problema de caridade, essa administração ineficiente de paliativos que fomenta todas as distorções, e sobretudo num problema de polícia.






A investigação empírica em economia política comparada confirma esta intuição e ajuda-nos a clarificar as escolhas sociais com que estamos confrontados. Sabemos que o incremento das desigualdades socioeconómicas e da exclusão social está associado à afectação de cada vez mais recursos públicos e privados às improdutivas áreas da segurança, vigilância e repressão.






Sabemos também que quanto maior é a desigualdade, maior é o peso da população prisional.

O reverso desta medalha também é claro: um Estado Social robusto e de acesso universal, e os correspondentes baixos níveis de desigualdade de rendimentos gerados, nutrem relações de confiança entre os cidadãos e são o melhor antídoto contra todas as formas de violência social - da criminalidade ao encarceramento.

Ao contrário do que pensam todos os que ainda se entretêm com romances de mercado, o debate público relevante nos países desenvolvidos não é sobre o peso do Estado, mas sim sobre aquilo que o Estado deve fazer. Simplificando um pouco, mas não demasiado, a escolha pode ser colocada nos termos descritos pelo sociólogo Loïc Wacquant: Estado Penal ou Estado Social. Os desiguais EUA com uma população prisional de 750 por cada cem mil habitantes, ou a igualitária Dinamarca com uma população prisional de 67 por cada cem mil habitantes?






A escolha nunca inteiramente confessada do neoliberalismo fica clara: estruturação política das instituições de forma a dirigir recursos para os mais ricos e repressão para os mais pobres.




Portugal, país semiperiférico, ainda hesita. No entanto, a fragilização deliberada do nosso Estado Social e das instituições que o suportam - caso dos sindicatos e da negociação colectiva - parece ter como contrapartida o aumento do número de polícias, já muito acima da média europeia, a prosperidade da indústria de segurança privada e a facilidade com que os problemas sociais são transformados em problemas de repressão. Seria bom que o debate eleitoral ajudasse a clarificar esta escolha implícita.

João Rodrigues
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas

PAULO MACEDO VEIO DA MÉDIS E DO B.C.P.

Os nomes das políticas



Falar dos novos ministros só é interessante na medida em que se fala das políticas e das estruturas que as condicionam.


«Ei, vizinho, dá para me arranjar umas pedrinhas de gelo?»


O ministro das finanças, Vítor Gaspar, é o administrador-delegado que a troika precisa para garantir que o seu programa inviável é adoptado com toda a convicção. Com carreira feita no BCE, monetarista e admirador de Milton Friedman, tem o perfil ideal para traduzir em políticas as obsessões de um moralismo das finanças públicas que é incapaz de compreender o que se tem passado na Zona Euro e que vê a crise como uma oportunidade e não como um imenso desperdício.

Álvaro Santos Pereira, por sua vez, poderá meter na gaveta as ideias sobre reestruturação da dívida, que ocorrerá quando der jeito aos credores, mas será incentivado a levar à prática o seu projecto de liberalização das relações laborais, ou seja, de aumento da discricionariedade empresarial e de redução do trabalho a um custo a economizar.

Os sectores mais reaccionários do patronato ficarão gratos.



O desemprego continuará a aumentar, claro, porque é a crise de procura que determina a sua evolução. As parcerias público-privadas permanecerão intactas e serão provavelmente alargadas, na saúde, por exemplo, apesar do cepticismo de um ministro sem peso político. Peso terá Paulo Macedo, ex-administrador da Médis e novo ministro da saúde, que vem do BCP, um dos grupos interessados em capturar este apetitoso sector, onde os lucros se fazem à custa do Estado e da vulnerabilidade dos cidadãos.




Austeridade, desemprego e fragilização da provisão pública. Com estes ou com outros nomes, estas são as políticas.

João Rodrigues
20 de Junho de 2011


20 de junho de 2011

ANTÓNIO MARUJO - 50 ANOS

Evangelho das bem-aventuranças
[Mateus 5]






Gostaria de saudar o contexto em que estamos aqui reunidos, na memória de Jesus, celebrando a alegria da nossa vida, o seu júbilo, o seu sentido, celebrando na vida do Tó as nossas próprias vidas, aquilo que na vida uns dos outros se faz pão, se faz alimento, se faz palavra. Ele é um artesão da palavra e muitas vezes nos alimentamos da palavra publicada, da palavra dita, dele. E isso também é aquela eucaristia comum, diária, a eucaristia do mundo, como dizia o padre [Teilhard de] Chardin. E que nos ajuda a vislumbrar o Reino de Deus.


Há uma ritualidade no quotidiano, no presente, que, não sendo explicitamente sacramental, é sacramento de Jesus. É muito belo, nos evangelhos, valorizarmos aquelas coisas que, em princípio, são apenas o traçar narrativo de um cenário. Mas depois, quando pensamos nelas, são coisas tão intensas, tão fundas…


Por exemplo: Jesus que sobe ao monte. Podia ser apenas uma deslocação ocasional. Mas nós sabemos que é muito mais que isso. Porque é que nós subimos aos montes? Subimos aos montes, mesmo sem o dizermos, à procura de outras visões, à procura de outros pontos de vista, de outras perspectivas sobre a realidade. E os nossos caminhos são sempre essa procura, a procura de uma outra evidência, de um outro observatório de nós próprios e da vida.


Jesus sobe ao monte e essa subida faz eco com tantas outras subidas humanas e religiosas. Nomeadamente com aquela de Moisés, que também sobe ao monte num momento paradigmático de construção da vida do povo de Deus. E, Moisés, sobe ao monte solitário. E essa subida ao monte exigia uma purificação, uma purgação da sua humanidade para, nesse lugar, ele ter a visão de Deus.


Os evangelhos como que secularizam as visões, tornam-nas quotidianas. Nos evangelhos há como que uma banalização do religioso. O religioso deixa de ser apenas um momento separado da existência e, pelo contrário, torna-se a respiração da vida. Jesus sobe ao monte e, ao contrário de Moisés, os discípulos aproximam-se. Jesus não está só. E essa comunhão, essa possibilidade que o próprio Jesus abre a uma vizinhança, a uma fraternidade com os homens, faz com que aquele momento que, em Moisés, era quase um legislador que estava a proclamar uma lei a um povo que a devia cumprir, aqui Jesus está sentado a fazer conversa.


Esta banalização que, no fundo, nos entreabre às categorias do presente, às categorias da vida como lugares de revelação de Deus. Deus já não se diz de uma forma unívoca. Deus já não é o legislador solitário, que nos manda uma mensagem por um mediador. Mas Deus palpita naquele rosto, naquela conversa, naquela vizinhança, naquela proximidade e também naquilo que no alto daquele monte se deu.


Jesus, aos discípulos, diz as Bem-Aventuranças. É interessante também comparar com os Dez Mandamentos, que eram sobretudo normas para cumprir e eram sobretudo prefiguradas na negativa: “Não farás isto, não farás aquilo…” Jesus não usa a lei como forma de expressão do Reino de Deus e da sua proposta. Jesus usa sim a capacidade de cantar o humano e o humano mais frágil, o humano mais incompleto, o humano a caminho, precisamente naqueles momentos de tensão, que diríamos até de ruptura, como as lágrimas, a dor, a sede de justiça, a perseguição…


Esses momentos, que humanamente são momentos de grande tensão, de imperfeição, Jesus é capaz de os cantar, é capaz de os redizer e de ligar o passado e o presente a um futuro. Esta nova visão que Jesus abre no discurso do monte é uma visão utópica, porque é capaz de ler o presente em chave de futuro, é capaz de descobrir dinamismos e dinamismos de bem-aventurança, dinamismos de jubilação.


Aquele termo tão extraordinário cunhado pelo irmão Roger, de Taizé, a peregrinação de confiança na terra, na humanidade, é isso que Jesus começa. E esta subida ao monte é uma peregrinação de confiança.


Certamente, com estas Bem-Aventuranças, Jesus não quer esgotar todos os caminhos de bem-aventurança. É um discurso incompleto. Os discursos de Jesus são incompletos. Jesus diz metade. E há uma outra metade. Os discípulos, gente activa que se esforçava, como nós nos esforçamos, para conseguir, para fazer, para dizer, para reunir,…


Jesus, aqui, faz o elogio de uma certa passividade: não é aquilo que nós conquistamos, é aquilo que nós somos. E, muitas vezes, somos no não-ser. Jesus começa pelos pobres, por aqueles que têm sede, pelos mansos, pelos puros de coração. Não é uma coisa acrescentada à nossa humanidade. É a nossa humanidade que, muitas vezes, segundo o olhar do mundo, está numa situação diminuída. Mesmo aí, nós podemos colher a bem-aventurança. No fundo, Jesus des-fataliza a vida, des-fataliza a história humana e abre-nos a essa pulsão de esperança.


Quando é que subimos ao monte? Tantas vezes, todos os dias. Subimos também em certos momentos da nossa vida. E há momentos redondos, momentos panorâmicos, especialmente panorâmicos daquilo que nós vivemos. Estes 50 anos, que o Tó quis assinalar de forma fraterna e solene com todos nós, é um desses momentos, é um momento para nos vermos, para nos olharmos, é a possibilidade de nos olharmos em chave de bem-aventurança, para nos dizermos uns aos outros: bem-aventurado, bem-aventurada. Para sentirmos que a nossa vida, que às vezes é penosa e às vezes nos dói, às vezes é demasiado abstracta, demasiado absurda ou incompleta ou insuficiente, podermos dizer “bem-aventurado” e sentirmos que o olhar uns dos outros e a presença uns dos outros nos confirma nessa bem-aventurança, que Deus, em Jesus, faz brilhar o coração de cada um de nós. Sintamo-nos, por isso, bem-aventurados, neste encontro de amizade e de amizades.


No seu trabalho, o Tó também faz isso. O trabalho do jornalista é um trabalho complexo. Aparentemente, o jornalista afunda as suas mãos e o seu esforço, o seu amor, em coisas com uma pequeníssima validade. Parece que as notícias só valem um dia. Outros que são professores ou engenheiros ou médicos, se calhar trabalham temas que se prolongam um pouco mais – uma semana, um semestre. Mas trabalhar cada dia, encontrar a matéria na ganga dos acontecimentos, encontrar a chave, o fio condutor, mas fazê-lo dia-a-dia, com a pressa, com a tensão de responder àquele presente… E fazer isto como o Tó faz, sem esquecer o fundamental, sem esquecer que a nossa vida fica por fazer, fica por dizer, fica por compreender se nós não a ligamos ao futuro utópico, se nós não usamos o verbo no futuro e só usamos o verbo no passado e no presente, como normalmente os jornais pedem…


O jornal não é um laboratório para visionários, é para gente que tenta tornar simplesmente legível ou relatar o presente. E, contudo, nesta auscultação da vida religiosa, na sua pluralidade e diversidade que o Tó faz, tantas vezes nós sentimos que ele é uma antena, que ele é um radar para esse futuro. E que ele, no quotidiano cinzento como é aquele em que tantas vezes nós comprámos o seu jornal, ele de repente nos levou ao monte e nos disse coisas que nos transportam mais além. E isso também nós agradecemos.




José Tolentino Mendonça
Homilia na Capela do Rato
10 de Junho de 2011

 [texto gentilmente cedido por António Marujo, a quem agradecemos enternecidamente]