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29 de agosto de 2017

ÉTICA CIVIL E VIRTUDES REPUBLICANAS - C.P.S.




ÉTICA CIVIL e VIRTUDES REPUBLICANAS

[…] Na hora de assinalar as possíveis causas desta manifesta degradação ética que atravessa a sociedade espanhola, eu mencionaria particularmente duas. Em primeiro lugar, a invasão de um capitalismo selvagem que arrasou a consciência moral e conferiu verdade ao veredicto de Kenneth Galbraith: «A corrupção é inerente ao sistema capitalista, porque as pessoas confundem a ética de mercado com a ética propriamente dita, e porque o afã do enriquecimento anda de mão dada com o capitalismo».[1] Segunda causa: Espanha, ao contrário de outros países da Europa, não conheceu uma autêntica revolução cultural relacionada com a Modernidade Ilustrada. Concretamente, não se espalharam sistemas morais de tipo laico ou místicas de serviço à colectividade ao nível da função pública. As referências éticas ficaram ligadas, como habitualmente, aos princípios e imperativos morais da fé católica. Tentativas secularizadoras de cariz moral não calaram fundo nas massas, em grande parte por obra da reacção nacional-católica. A mais recente dessas tentativas, unida à «Segunda República», sucumbiu às mãos do chamado "Movimento nacional", de Julho de 1936. Quando a cultura nacional católica se afunda e surge o estado laico, a anomia e o vazio ético tomaram conta das consciências.

É extremamente urgente um forte movimento de remoralização da nossa cidadania afectada por tão grave doença. Por todos os lados se ouvem vozes de alarme, começando pela dos bispos espanhóis com o seu documento «La verdade os hará libres» e seguindo pelas dos intelectuais e jornalistas responsáveis, preocupados com o problema, entre eles Aranguren, Haro Tegglen, Sampedro, Rosa Montero, Vázquez Montalbán, etc. Urge atalhar este decrescimento moral, criar ou recriar uma ética civil ou cidadã, infundir virtudes republicanas, caso não queiramos cair numa barbárie de instintos à solta, num darwinismo de hominídeos. Não podemos esquecer a afirmação de Freud de que «a civilização está estreitamente ligada ao controlo permanente dos nossos instintos».

Parece-me que não é totalmente descabido lembrar, aqui, alguns enunciados relacionados com a chamada fundamentação da moral no ser humano. Várias são as dimensões que constituem a essência e a existência humanas. O ser humano — diz-se na antropologia — é um buscador de verdade e de clarificação. É um ser possuidor de uma dinâmica de convivência e de comunicação espelhadas na linguagem. É um ser temporal e histórico. A sua interioridade (o seu íntimo) impulsiona-o para o absoluto e para o incondicionado. Por fim, é um ente moral, estructuralmente moral: é-o estructuralmente e não apenas sociologicamente. O ético pertence à sua constituição. «Que o homem seja uma realidade moral não é uma questão de regras ou de normas, mas tem a ver com a sua própria estrutura formal como essência constitutivamente aberta. O homem … tem de se encarregar da realidade. O homem não pode esquivar-se a definir um sistema de possibilidades de realização … a moralidade é uma estrutura radical e física do homem» — afirmações de Xavier Zubiri.[2] A antropologia cultural ensina-nos que não existe cultura alguma que não reserve um lugar para os valores e códigos éticos. Não há povo que careça das denominações de «bom» e de «mau» referenciados a signos morais. A literatura do mito, que nos faz recuar à mais antiga humanidade civilizada, informa-nos que a consciência moral e o sentimento de culpabilidade sempre acompanharam o ser humano.

Não quero entrar numa discussão filosófica sobre o nada fácil tema dos valores. À margem da controvérsia, parece que a noção de valor contém em si algo pelo qual se opta (independentemente da argumentação) em virtude de uma dinâmica interna que faz com que sintamos algo (o valioso) como importante, como interessante, como gratificante, como preferível. Max Scheler, entre outras, propôs uma divisão ou classificação e uma hierarquia de valores. No plano mais baixo (inferior) estão os valores do agradável e desagradável; no plano mais alto (superior) por ordem ascendente, os valores vitais, os espirituais (o belo e o feio, ou seja, os valores estéticos; o justo e o injusto, ou seja, os valores éticos; o verdadeiro e o falso, ou seja, os valores do conhecimento) e os valores religiosos (o sagrado e o profano). Diante do imperativo moral exacto e normativo, os valores éticos seriam como estrelas que, na noite escura, orientam a conduta do ser humano forçado a optar.

Quando na pessoa já existe uma dinâmica capaz de vencer obstáculos na prossecução e realização de um determinado valor moral (verbi gratia, a justiça) podemos falar de virtude. Virtude, na sua raiz etimológica, quer dizer força. Na linguagem de S. Tomás de Aquino é o habitus operativus bonus. É a sensibilidade e a opção pelos valores éticos convertidos em algo consanguíneo, algo integrado na personalidade.

Os valores e as virtudes que agora nos interessam têm carácter público, ou seja, cívico (civitas = cidade), político (polis = cidade), republicano (respublica = coisa pública). Têm como referente a vida em colectividade organizada, necessária ao livre desenvolvimento do ser humano. Os valores e as virtudes situam-se para lá de uma referência centrada simplesmente no próprio sujeito (no indivíduo), e vão mais além da chamada esfera privada (Cf. Alberto de Mingo Kaminouchi[3]).

É evidente que esta linguagem pressupõe algo fundamental: ela é o negativo da ideia de que a realidade pública é algo estranho ao ético. De facto, a ética (sinónimo de Moral[4]) já não prescinde da inserção e referência pública, nem o público pode ser considerado e vivido à margem do ético. Nem ética sem política, nem política sem ética. Tornou-se um lugar-comum a crítica ao abandono da linguagem ética — tão da tradição do socialismo espanhol — pelo actual partido no poder e a sua substituição, nos seus políticos mais ilustres, pela ética da responsabilidade (uma alusão a Max Weber).[5] Creio que na maior parte das vezes, esta é a linguagem do sofisma e da mentira. Por trás dela esconde-se o mais tosco pragmatismo político. A tentativa de relegar a moral para a esfera do privado é algo tipicamente burguês. Não é sem razão que Maquiavel é o pai do político convertido no agente político autónomo, absoluto, à margem de qualquer referência, para lá do bem e do mal. Os nossos políticos são descendentes mais ou menos encapuzados do autor de «O Príncipe».

Há que - alto e bom som - dizer não a esse maquiavelismo disfarçado de éticas da responsabilidade. Os cidadãos têm o direito a julgar a índole moral ou imoral das metas a que se propõem aqueles que ocupam hoje em dia o poder, os cidadãos têm o direito a pronunciarem-se sobre a eticidade das políticas que os políticos põem em marcha. Os políticos têm o sagrado dever de dar carne cívica aos valores humanos que fazem da colectividade uma sociedade de seres racionais e livres, lugar da realização dos direitos e liberdades cidadãs. «A verdadeira política — ensinou-nos Kant — não pode dar um passo sem ter rendido previamente a devida fidelidade à Moral».[6]

Tudo isto é verdade e deve ser defendido como tal. Contudo, isso não impede que existam realidades que não podemos deixar de constatar; trata-se de limitações e de resistências, sobretudo morais, que a conjuntura concreta manifesta na hora de pôr em prática metas e métodos. Pensamos em problemas sociopolíticos, tais como o terrorismo, o desemprego, a droga, a imigração, etc. É verdade que a política é apresentada, por vezes, como a arte do possível. Confessá-lo, por parte dos políticos, não é nenhuma desonra. Mas o que nunca se pode fazer é erigir o mais vulgar pragmatismo, o esvaziamento humanístico de um governo e uma certa organização política numa ética da responsabilidade, no interesse pelo bem comum e pelo amor à pátria.

O ideal e a utopia de uma sociedade moral, de uma sociedade «da vinculação dos seres humanos às leis da virtude» (Kant), pressupõe uma aposta numa não separação entre o jurídico e o ético. É claro que o legislador não é um director espiritual e portanto terá de tolerar certas doses de mal moral a fim de não sufocar em excesso os âmbitos da liberdade cidadã. Mas a razão jurídica deve ser fundamentalmente uma razão ética. Qualquer ordenação jurídica pressupõe uma determinada antropologia, queira-o ou não. O importante é que essa antropologia seja uma concepção do homem «à altura do nosso tempo», como diria Zubiri. Qualquer ordem jurídica deve ter como meta garantir e tornar reais os direitos e as liberdades da pessoa humana. Qualquer constituição política deverá ter como referência primeira a inalienável dignidade da pessoa humana. Acertadamente, são os direitos e liberdades das pessoas os que abrem os conteúdos jurídicos da Constituição Espanhola.[7]

Passo, agora, a abordar o último destes postulados de ética fundamental. Diz respeito à tensão entre o privado e o público já anteriormente insinuado, entre o bem particular e o bem comum, entre o cidadão e o estado. Toda a gente sabe como Hegel viu, no Estado, a conciliação real desta esquizofrenia cívica originada entre duas leis: a lei que dimana do poder e a lei que tem a sua origem na consciência do indivíduo. O exemplo clássico é Antígona. A oposição entre juridicidade e moralidade é superada na eticidade, que Ortega traduz acertadamente por civilidade. O carácter específico da civilidade é a confiança através do Estado e através da devoção ao Estado, pai de todos nós, «passagem de Deus pela terra».

Ninguém poderá estar de acordo com esta mistificação e mitificação que Hegel faz do Estado, e do Estado em concreto. O século XX é testemunha do caos humano a que levou semelhante concepção do poder. Acertadamente, a «Declaração dos Direitos Humanos» de 1948 vê no Estado o grande negador da pessoa humana, dos seus direitos e liberdades. Ela previne contra o absolutismo do poder. «Nada é imutável — diria Jefferson — a não ser os inalienáveis direitos do Homem». Jefferson seria o anti-Hegel. Mas também não é correcto converter o Estado no mal absoluto. Sempre pensei que, se o Estado pode ser um mal, será, em todo o caso, um mal menor que o mal «da guerra de todos contra todos», em que seguramente aos mais débeis caberá a pior das partes. Ao Estado, às suas leis racionais, justas e equitativas, em consciência, devem os cidadãos obediência e respeito, a fim de contribuírem para o bem comum. Digamos não ao estatismo hegeliano, mas também não ao individualismo egoísta do vale-tudo do burguês ou do pequeno-burguês entrincheirado e refugiado no privado, do género, como se costuma dizer, «minha casa, minha missa e minha Maria Luísa». Com razão, o próprio Hegel também criticava a burguesia alemã cristã desprovida de sentido cívico e social.[8] No entanto, há-de haver situações na vida pública em que teremos de optar por Antígona. Refiro-me à objecção de consciência frente àquilo que se considere uma desmesura do poder (diante de leis como a do serviço militar obrigatório, lei sobre o aborto, etc.), desmesura que é enfrentada com uma consciência ética bem informada, honesta e disposta ao diálogo.

Tratei, até aqui, de estabelecer uma série de postulados fundamentadores de uma sensibilidade ética, e que convém recordar num momento de crise que atravessa a nossa cultura. Resumamos esses postulados fundamentadores, desta forma: consistiram esses princípios na condição moral estructural do ser humano; na noção daquilo que são valores e virtudes morais; no carácter irrenunciavelmente ético do agir político; na aposta por uma sociedade moral; num não ao divórcio entre o jurídico e o ético; e, por fim, no justo meio-termo que preserve a tensão entre o privado e o público.

Vou, agora, passar a algo especial quanto à sua relação com o título da comunicação. Consiste em estabelecer uma ética de conteúdos concretos, de valores com carácter cívico determinados, em estabelecer quais seriam as virtudes republicanas ou democráticas. (Excerto)


Alfredo Tamayo Ayestarán, «Ética civil y virtudes republicanas», in "Fé y Democracia», Jornadas C.P.S. – Cristianos por el Socialismo" Madrid 14-15 de Novembro de 1992, Editorial Popular 1993 (eds. Julio Lois Fernández, José Ramón López de la Osa, Alfredo Tamayo Ayestarán), N. 187, pp. 29-42. ISSN: 0210-3559.

[10 pp.]


Indice completo de «Fé y Democracia» - N. 187

1 – Apresentación (José María García-Mauriño, secretario-general de los CPS)

2 – Perspectiva social del cambio de valores en España en la década de los 80 (José Ramón López de la Osa)

3 - Ética civil y virtudes republicanas (Alfredo Tamayo Ayestarán)

4 – Aportación cristiana a la democracia (Julio Lois Fernández)

5 – Crisis de la participación democrática (Santiago Sánchez Torrado)

6 – Bases no éticas de las actuales falsas democracias (Alberto Giraldez Dávila)

7 – Ética, democracia y evangelio (Gregorio Galdós)

8 – La auto-eutanasia: «La anomia» (José Martín Adeba Hernaiz)

9 – Sugerencias Didácticas (Martín Valmaseda)








[1] «El País», 23 de Março de 1992.
[2] X. Zubiri, «Sobre el hombre», M 1986, p. 420s.
[3] [NdT] Alberto de Mingo Kaminouchi, «O surpreendente regresso da ética de Aristóteles»: "Grande parte da filosofia política da Modernidade assumiu como missão sustentar a legitimidade das regras do jogo, as quais protegem a liberdade e a igualdade de oportunidades para todos, só que, agora, constatamos que há que levar o diálogo ético para lá dum simples acordo acerca de regras e procedimentos." (…) "O individualismo da nossa cultura tem causas estruturais e tem de ser analisado também do ponto de vista político."; in «Introdución a la ética cristiana», Sígueme 2015.
[4] Cf. Marciano Vidal, «Moral de actitudes I - Moral fundamental», Vol. I, Madrid 1990, 18. [NdT]
[5] M. Weber, «El político y el científico», M 1967, p. 160ss.
[6] I. Kant, «La paz perpetua», M 1979, p. 149.
[7] Constitución española, Título I «De los derechos y deberes fundamentales».
[8] G. W. F. Hegel, «Theologisch Jugendschriften», p. 223; veja-se G. Lukacs, «El joven Hegel y los problemas de la sociedad capitalista», Barcelona / México 1972.


25 de setembro de 2015

INDICADORES SOCIAIS, BEM-ESTAR E FELICIDADE - 3/3






COMO A DESIGUALDADE SE ENTRANHA NA PELE


«É bem certo que cada homem traz no olhar
a indicação exacta da posição que ocupa
na imensa escala dos homens.
E estamos sempre a aprender a ler esse olhar.»
(Ralph Waldo Emerson, «A Conduta da Vida»).


Como se explica que sejamos tão fortemente marcados pela desigualdade e pela nossa posição no seio da sociedade, como sugerem os dados apresentados no capítulo anterior [«Pobreza ou Desigualdade?»]? Antes de explorarmos — nos nove capítulos seguintes — as relações entre a desigualdade e uma ampla gama de problemas sociais, nomeadamente os problemas incluídos no nosso índice de problemas sociais e de saúde, tentaremos explicar por que razão os seres humanos são, provavelmente, tão sensíveis à desigualdade.

Como a desigualdade é um aspecto da estrutura ampla das sociedades, as explicações dos seus efeitos implicam mostrar como os indivíduos são afectados pela estrutura social. São as pessoas, e não as sociedades em si, que têm saúde deficiente, que são violentas e se tornam mães adolescentes. Embora as pessoas não usufruam de uma distribuição de rendimentos, dispõem, no entanto, de um rendimento relativo, de um estatuto social ou posição de classe na sociedade em geral. Por conseguinte, neste capítulo iremos mostrar como a nossa sensibilidade individual em relação à sociedade em geral explica por que razão as sociedades mais desiguais talvez tenham efeitos tão profundos.

Compreender a nossa vulnerabilidade à desigualdade implica discutir algumas das nossas características psicológicas comuns. Quando falamos ou escrevemos acerca destas questões, é muito frequente as pessoas interpretarem mal o nosso propósito. Não estamos a sugerir que o problema se reduz a uma questão de psicologia individual, nem que é realmente a própria sensibilidade das pessoas, e não a escala da desigualdade, que deveria ser mudada. A solução para os problemas causados pela desigualdade não radica numa psicoterapia em massa destinada a tornar todas as pessoas menos vulneráveis. A melhor forma de lidar com os danos causados por altos níveis de desigualdade seria reduzir a própria desigualdade. Em vez de se mandar dissolver medicamentos ansiolíticos no sistema público de abastecimento de água ou de recorrer a uma psicoterapia em massa, o elemento mais entusiasmante do quadro que apresentamos é que a redução da desigualdade aumentaria o bem-estar e a qualidade de vida de todos nós. Longe de ser inevitável e imparável, a sensação de deterioração do bem-estar social e da qualidade das relações sociais na sociedade é, de facto, reversível. Compreender os efeitos da desigualdade implica implementar medidas políticas imediatas para fomentar o bem-estar das sociedades como um todo.

Os poderosos mecanismos que tornam as pessoas sensíveis à desigualdade não são passíveis de ser compreendidos apenas em termos de estrutura social ou de psicologia individual. A psicologia individual e a desigualdade social relacionam-se uma com a outra como uma chave e uma fechadura. Uma das razões por que os efeitos da desigualdade não foram anteriormente compreendidos de forma adequada deve-se ao fracasso em compreender a relação entre ambos os factores.


O aumento da ansiedade

Tendo em conta o conforto material e a comodidade física sem precedentes das sociedades modernas, talvez seja sensato adoptar um certo cepticismo em relação à forma como todas as pessoas falam do stresse, como se a vida fosse dificilmente suportável. No entanto, Jean Twenge, uma psicóloga da Universidade Estadual de San Diego, compilou provas impressionantes de que somos hoje realmente muito mais ansiosos do que costumávamos ser. Ao analisar o vasto número de estudos sobre os níveis de ansiedade na população realizados em datas diferentes, foi capaz de documentar tendências muito claras. Descobriu 269 estudos amplamente comparáveis que mediam os níveis de ansiedade nos EUA em vários períodos entre 1952 e 1993[1]. O conjunto desses estudos abrangeu mais de 52 mil indivíduos e revelou uma contínua tendência ascendente ao longo desse período de quarenta anos. Os resultados de Jean Twenge para os homens e para as mulheres são apresentados na figura 3.1. Cada ponto no gráfico mostra o nível médio de ansiedade apurado num estudo posterior à data da sondagem efectuada. A tendência ascendente presente em tantos estudos é inequívoca. Twenge descobriu o mesmo padrão tanto em estudantes universitários como em crianças: o estudante universitário médio estava no final desse período mais ansioso do que 85% da população no início desse mesmo período; e, mais impressionante ainda, no final da década de 1980 a criança norte-americana média estava mais ansiosa do que as crianças que eram pacientes psiquiátricos na década de 1950.

Estas provas resultaram da aplicação de medidas padronizadas da ansiedade às amostras da população. E não podem ser facilmente explicadas dizendo que as pessoas se tornaram mais conscientes da ansiedade. Esta tendência de agravamento também se encaixa nos resultados relativos a condições médicas similares como a depressão. A depressão e a ansiedade estão intimamente relacionadas: as pessoas que sofrem de uma também sofrem amiúde da outra e os psiquiatras tratam por vezes as duas condições médicas de forma similar. Existe hoje um enorme conjunto de estudos que mostram aumentos substanciais nas taxas de depressão nos países desenvolvidos. Alguns estudos analisaram as mudanças ocorridas ao longo dos últimos cinquenta anos por via da comparação das experiências das diferentes gerações, mas tentando sempre evitar a armadilha de atribuir essa maior consciência da depressão ao número crescente de relatos relativos a estados de depressão[2]. Outros investigadores compararam as taxas incluídas em estudos que acompanharam amostras representativas da população nascida em anos diferentes. Na Inglaterra, por exemplo, a taxa da depressão entre pessoas com cerca de 25 anos era o dobro da taxa de depressão num estudo de cerca de 10 mil nascidas em 1970 em comparação com um estudo similar realizado anteriormente entre pessoas com cerca de 25 anos nascidas em 1958[3].

As análises das investigações concluíram que em muitos países desenvolvidos as pessoas experienciaram aumentos substanciais na ansiedade e na depressão. Entre os adolescentes, a ansiedade e a depressão vinham também acompanhadas de aumentos na frequência de problemas comportamentais – nomeadamente criminalidade, alcoolismo e toxicodependência[4],[5]. Estes problemas afectavam adolescentes do «sexo masculino e feminino de todas as classes sociais e de todos os tipos de famílias»[6].

É importante compreender o que significam estes aumentos na taxa de ansiedade antes de a sua relevância se tornar clara para a desigualdade. Não estamos a sugerir que tais aumentos foram desencadeados pelo aumento da desigualdade. Essa possibilidade pode ser descartada, porque os aumentos nas taxas de incidência da ansiedade e da depressão parecem ter começado muito antes dos aumentos na desigualdade que ocorreram em muitos países durante o último quarto do século XX. (É no entanto possível que as tendências de 1970 e 1990 possam ter sido agravadas pelo aumento da desigualdade.)


Auto-estima e insegurança social

Uma pista importante sobre os factores subjacentes às tendências na saúde mental provém de provas que referem que tais factores vieram acompanhados de um aumento surpreendente naquilo que de início se pensou ser a auto-estima. Quando comparadas ao longo do tempo (muito à semelhança da forma como as tendências na ansiedade são mostradas na figura 3.1), as medidas-padrão da auto-estima revelaram também uma clara tendência ascendente a longo prazo. Como se, apesar dos crescentes níveis de ansiedade, as pessoas também estivessem a encarar-se de forma mais positiva no decurso do tempo. Por exemplo, havia mais probabilidades de se afirmarem orgulhosas de si próprias; de concordarem com afirmações como «Sou uma pessoa com valor»; e pareciam ter posto de lado questões de insegurança pessoal e sentimentos de que eram pessoas «inúteis» ou «sem nenhum valor». Twenge refere que na década de 1950 apenas 12% dos adolescentes concordavam com a afirmação «Sou uma pessoa importante», mas que, no final da década de 1980, esta proporção tinha subido para 80%.






Sendo assim, o que teria acontecido durante esse período intermédio entre as décadas de 1950 e 1980? O facto de as pessoas (…)»

Richard Wilkinson & Kate Pickett, in «O Espírito da Igualdade – por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor», Editorial Presença 1ª Edição Lisboa, Abril 2010.

Richard Wilkinson – professor de História Económica e de Epidemiologia [Universidade de Nottingham/Medical School e na University College London]
Kate Pickett – antropóloga-bióloga, cientista em Nutrição e em Epidemiologia [professora na Universidade de York, investigadora no National Institute for Health Research]


[pp. 15]






[1]  J. M. Twenge, «The age of anxiety? Birth cohort change in anxiety and neuroticism, 1952-1993», Journal of Personality and Social Psychology (2007), 79 (6): 1007-21.
[2] M. Rutter e D. J. Smith, «Psychosocial Disorders in Young People: Time Trends and Their Causes», Chincester: Wiley, 1995.
[3] S. Collishaw, B. Maughan, R. Goodman e A. Pickles, «Time trends in adolescent mental health», Journal of Child Psychology and Psychiatry (2004), 45 (8): 1350-62.
[4] Ibidem, M. Rutter e D. J. Smith, «Psychosocial Disorders in Young People: (…)
[5] B. Maughan, A. C. Iervolino e S. Collishaw, «Time trends in adolescent mental disorders», Current Opinion in Psychiatry (2005), 18 (4): 381-5.
[6] Ibidem, S. Collishaw, B. Maughan, R. Goodman e A. Pickles, «Time trends in adolescent mental health», (…)

26 de agosto de 2015

OS MERCADOS NÃO GARANTEM DIREITOS HUMANOS

O AMOR DE DEUS É ECONOMIA POLÍTICA COM JUSTIÇA

«Esse é o caminho que, apesar de antiquíssimo e secular, o Novo Testamento qualifica de mandamento "novo": o velho "amai-vos uns aos outros". Este é o único ponto de referência comum que possuímos no meio da imensa pluralidade que é o nosso mundo. E convoco-o qualificando a sua proposta de «ecumenismo do humano». Esse ecumenismo do humano é o ponto a partir do qual podemos (devemos!) encontrar-nos todos: cristãos de todas as igrejas, religiões de toda a terra, ateus e crentes

«E a partir daqui podemos ir-nos abeirando de Jesus.

«Comecemos por dois textos de seguidores muito próximos de Jesus que transmitem algo que eles experienciaram e viveram com Ele.

«O documento que, precisamente, mais exalta o amor entre os seres humanos, concretiza o tipo de amor de Deus para com os homens a partir duma negação, com a seguinte frase: "Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?" (1 Jo 3,17) Para um seguidor de Jesus, o "ecumenismo do humano" passa, portanto, pela ajuda material, económica.

«E agora, mais radicalmente ainda, sentencia outro texto neotestamentário: «A raiz de todos os males é a paixão pelo dinheiro» (1 Tm 6,10): afasta da fé e causa grandes sofrimentos.

«É por aqui que devemos subir à fonte, a partir destas conclusões tiradas e transmitidas pelos discípulos mais próximos de Jesus.

«Agora, estamos, então, em condições de nos abeirarmos de Jesus.»

José Ignacio González Faus, sj, «El Amor en Tiempos de Cólera… Económica», KHAF & Religión Digital Libros, Madrid 2013, ISBN 978-84-939683-5-9.


«Ora bem, se é verdade que estamos convencidos de que a Eucaristia é o sinal eficaz que expressa e realiza a unidade entre os crentes, então, a conclusão inevitável é que toda e qualquer teologia eucarística que, na prática, legitime ou tolere uma celebração que é compatível com a injustiça é uma teologia insuficiente.

«Trata-se de uma teologia que não vai ao fundo, ou seja, uma teologia que se fica pela periferia e pelo acidental, ao passo que o essencial permanece intocado. Mais: deve dizer-se que tal teologia não só é insuficiente, como é falsa. (…)

«Da mesma maneira que não é possível celebrar a Eucaristia quando não temos pão e vinho, igualmente deveria ser impossível celebrar esse sacramento onde esteja gente que não dê garantias suficientes de que se empenha seriamente na procura de uma sociedade mais justa, e de relações mais fraternas

José Maria Castillo, «Fe y Justicia», 1981.






ECONOMIA POLÍTICA DOS DIREITOS HUMANOS

II PARTE


Pode o mercado garantir direitos humanos?

Uma das conclusões que se podem extrair dos argumentos apresentados nos pontos anteriores é que tanto a água como a segurança social não constituem bens públicos na verdadeira aceção da palavra. Assim sendo, poderiam tecnicamente ser providenciadas pelo mercado. A questão que se levanta, no entanto, é se, enquanto direitos humanos, devem sê-lo. O facto de na primeira declaração da ONU sobre a água enquanto direito humano se afirmar, a dado passo, que as populações devem ter meios para aceder à água, significa, desde logo, que é aceitável que ela possa ter um preço e, portanto, também, que ela possa ser fornecida por uma entidade privada (UN, 2002: 6). No entanto, esta possibilidade de ostentar um preço não faz da água, automaticamente, um bem privado como qualquer outro, daí ser admissível que receba um tratamento particular. Por outro lado, numa discussão que teve lugar em Genebra no seio do Comité sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais a propósito da segurança social, sublinhou-se que uma grande quantidade de países que vinham assegurando um certo nível de proteção social estava a transferir uma parte das suas responsabilidades nesta matéria para o setor privado (CESCR, 2006). Ao afirmá-lo estava-se a reconhecer, não só a primazia do fornecimento público da segurança social, como também a inquietação que tal transferência desperta junto de inúmeros especialistas em direitos humanos. A questão relativa a quem deve fornecer a água e a segurança social necessária ao gozo de um direito está, pois, no centro do debate sobre a garantia de direitos humanos.

A economia da corrente dominante poderá reclamar que a discussão sobre o fornecimento dos bens que configuram um direito humano, como a saúde ou a educação, por exemplo, ficou mais ou menos encerrada com a definição de uma nova categoria de bens que veio acrescentar-se às quatro a que fizemos referência anteriormente. Este novo grupo de bens tem o nome de Bens de Mérito e foi identificado por Richard Musgrave (1959). Estes bens satisfazem necessidades fundamentais, e, embora possam ser fornecidos pelo setor privado, entende-se que devem sê-lo pelo setor público para evitar que a população com baixos níveis de rendimento se veja excluída do seu consumo, ou ainda subsidiados pelo Estado para responder ao risco que, sendo fornecidos de acordo com as regras do mercado, se possa verificar um sub-consumo que afetaria não só o bem-estar dos próprios indivíduos mas também o da sociedade no seu conjunto.[1]

No entanto, apesar do problema da exclusão ser tido em conta na definição destes bens particulares, respondendo assim a uma das exigências da garantia de direitos humanos, o conceito de bens de mérito não as abraça todas, a começar pela exigência de igualdade que faz par com a de inclusão. De facto, o problema da desigualdade não parece poder ser resolvido através da simples preocupação de evitar que haja sub-consumo destes bens. A seguir analisaremos várias outras exigências que os direitos humanos colocam à água e à segurança social e que dificultam ou mesmo impossibilitam que o mercado os possa fornecer. São estas a universalidade, a responsabilidade e a eficiência às quais se deverá acrescentar o facto de que, no caso da água, não existe possibilidade de concorrência.


O mercado não exprime preferências sociais

Quando está em causa a promoção de direitos com caráter universal, é inevitável revelar uma preferência social, isto é, admitir que uma estrutura de cobertura da população é melhor do que outra. Por outras palavras, e nos casos particulares da água e da segurança social, por exemplo, uma situação na qual toda a população está coberta pela rede de distribuição de água, ou de protecção social, é preferível, a uma, outra em que tal não se verifica. Poder-se-ia, inclusive, afirmar que no caso dos direitos económicos e sociais a única situação aceitável é aquela em que efetivamente, ou no mínimo tendencialmente, é proporcionada a universalidade da cobertura, isto é, que o direito esteja garantido para todos. Qualquer outra situação que não a universalidade da cobertura deverá, pois, ser considerada inferior, senão mesmo inaceitável pois poderá configurar uma violação de um direito humano. A existência das cláusulas de progressividade e de disponibilidade de meios, a que já fizemos referência anteriormente, não alteram a essência da finalidade nos direitos económicos, sociais e culturais; quando muito, apenas o ritmo da sua execução.

Ora, deste ponto de vista, o mercado não está numa posição confortável para conduzir este processo pois, este, normalmente não exprime preferências sociais, neste caso, preferências de estrutura. Em função das informações que lhe são transmitidas pelos agentes económicos, o mercado exprime certamente preferências em relação às questões básicas da economia, como por exemplo, o que produzir, como e quando, mas não tem argumentos para afirmar que uma determinada estrutura de distribuição de recursos ou de prestações na perspetiva do beneficiário é melhor do que outra. O que importa, para o mercado, é que os agentes que participem nas trocas fiquem satisfeitos, isto é, que o vendedor tenha podido vender as quantidades desejadas ao preço que vigorou para determinada transação e que o comprador, para o mesmo preço, tenha podido adquirir a quantidade por ele também desejada. Tal desenlace, no entanto, não configura forçosamente uma situação satisfatória do ponto de vista da garantia de um direito. Em primeiro lugar, os agentes que ficaram de fora do mercado, porque a sua restrição orçamental era incompatível com a participação em qualquer transação, por exemplo, não contam para ela. A eventual insatisfação deste agente não é, pois, contabilizada na noção de ineficácia do ponto de vista do mercado. Ora, se tal não é grave quando estamos a falar de um bem ou serviço digamos corrente, ao tratar-se de um direito, qualquer exclusão configura, como já se disse, a possibilidade de uma privação fundamental.

É por essa razão que, mesmo admitindo a possibilidade de se pagar um preço pela água, a privatização total da distribuição de água, pode ser contraditória com a afirmação do direito à água. Inúmeros exemplos de privatização das redes de distribuição de água mostram como é difícil conciliar a promoção de um direito humano em simultâneo com o fornecimento de um bem económico privado. Em Manila, a Maynilad Water Services, uma empresa privada controlada pela multinacional Suez-Ondeo, que detém a concessão para a distribuição de água na zona oeste da capital das Filipinas, aumentou a tarifa da água em 400% entre 1997 e 2003. Na zona leste da mesma cidade, e no mesmo período, subiu, ela, os preços em 700% (Netto, 2005[2]). Tendo em consideração o nível médio de vida de um cidadão filipino, e o facto de a taxa de inflação para o mesmo período ter atingido apenas 36,9% no país (WDID, 2008[3]), não parece difícil concluir que esta manifestação da lógica mercantil aplicada à distribuição de água resultou sobretudo na privação de uma grande parte da população de Manila do pleno exercício do seu direito à água. Aliás, ao contrário de Manila Water e em consequência dos protestos populares desencadeados pelo não cumprimento dos objetivos acordados por parte do concessionário no que concerne ao alargamento da cobertura, à fixação de preços, e à qualidade do serviço, a Manylad regressou desde então ao controlo público através da gestão da Manila Metropolitan Water and Sewerage System (Montemayor, 2005[4]).

Em alguns dos bairros mais pobres de La Paz, na Bolívia, a mesma empresa multinacional, mas agora com outra designação, a Suez-Lyonnaise des Eaux, através da sua subsidiária local, Aguas del Illimani, também aumentou as tarifas da água em cerca de 600% em 2004, enquanto a inflação para esse ano havia atingido um valor de apenas 4,9% (WDID, 2008), tendo, por outro lado, o objetivo de ligar 15 000 fogos à rede de distribuição de água sido na prática reduzido a zero (Chavez, 2005: 11[5]). Em resultado da pressão exercida por mais de seiscentas associações de bairro, o governo viria a revogar o contrato de concessão à Aguas del Illimani (Chavez, 2005: 11), tal como havia acontecido, aliás, em Abril de 2000 com a multinacional americana Bechtel em Cochabamba, na sequência de um amplo movimento popular inspirado pelos fortíssimos aumentos das tarifas e pela expropriação de sistemas comunitários de distribuição de água (Gómez e Terhorst, 2005[6]).

A história comparada da distribuição de água também contribui para a formulação de uma tentativa de explicação deste falhanço do mercado em promover o direito à água nos países em vias de desenvolvimento. As empresas privadas de distribuição de água nos países desenvolvidos herdaram uma infra-estrutura pesada paga por investimentos públicos e que assegurava uma cobertura universal a um mercado caracterizado por um elevado rendimento médio. Nos países em vias de desenvolvimento, pelo contrário, infra-estruturas limitadas e frequentemente danificadas, baixos níveis de ligação e elevados níveis de pobreza, acentuaram as tensões entre a rentabilidade privada e o fornecimento a todos de água a um preço justo. Em Buenos Aires, na Argentina, por exemplo, o detentor da concessão de distribuição de água conseguiu expandir as ligações à rede mas a um ritmo inferior ao contratualizado, muito por causa da lentidão do processo verificada nos bairros mais pobres da cidade. Em Jacarta, na Indonésia, três quartos das novas ligações à rede beneficiaram sobretudo famílias com elevados rendimentos e instituições públicas e privadas (UNDP, 2006[7]). Aliás, de acordo com Pedro Arrojo (2006[8]) as multinacionais que obtiveram a maioria das concessões privatizadas no mundo inteiro, poderiam eventualmente estar interessadas na gestão da distribuição de água, mas não no investimento em infra-estruturas.

O debate em torno da distribuição pública ou privada da água não pode, no entanto, ser extremado. Em primeiro lugar porque nos países em desenvolvimento uma fatia considerável da população já acede à água através de redes operadas por entidades privadas ou de outros sistemas de distribuição, sejam elas fontes ou autotanques. Por outro lado, a existência de redes públicas, que distribuem cerca de 90% da água nestes países (UNDP, 2006: 10), não constitui uma condição suficiente para proporcionar a todos o acesso à água, nem em quantidade nem em qualidade. Em Dar-es-Salam, na Tanzânia, ou Ouagadougou, no Burkina-Faso, menos de 30% da população está ligada à rede de distribuição de água (UNDP, 2006: 9). Se a água da rede é mais barata, e, na maioria dos casos, de melhor qualidade do que a água obtida por outras vias, porque razão as famílias mais pobres não beneficiam dela? Acontece que a ligação à rede não está ao alcance de todos. Em primeiro lugar, porque esta é cara, podendo representar para as famílias mais pobres 3 meses de salário em Manila ou mesmo 6 meses em cidades do Quénia (UNDP, 2006: 10[9]). Em segundo lugar, porque a ligação à rede exige a apresentação de títulos de propriedade que os mais pobres são muitas vezes incapazes de apresentar para as suas precárias, e frequentemente ilegais, habitações (UNDP, 2006: 10). Não obstante, os factos parecem mostrar que as privatizações na distribuição de água das Filipinas à Bolívia, ou à Argentina não são muito encorajadoras no que respeita à capacidade de cumprir todos os desígnios do direito humano à água.

A provisão de segurança social como direito humano pelo mercado, por seu turno, parece tão limitada quanto a água. Não é fácil ilustrar a incapacidade social já que não existe nenhum país do mundo onde haja apenas "sistemas privados" de protecção social; na maioria dos países onde empresas privadas fornecem esquemas de protecção social, estes complementam, ou são complementados, por esquemas públicos. Os Estados Unidos da América talvez constituam, a este título, a melhor aproximação daquilo que poderia ser um sistema totalmente privado de segurança social, já que a proteção social pública apenas cobre uma parte da população norte-americana, essencialmente os mais velhos e os mais necessitados, beneficiando a outra parte de uma cobertura exclusivamente privada.

No seio da população que não pode beneficiar da proteção social pública a incapacidade para pagar o seguro saúde está frequentemente, como seria de esperar, na origem da privação de tratamento médico que afeta um número considerável de indivíduos, esse facto constituiu, aliás, uma das principais razões avançadas para reclamar uma profunda reforma do sistema de saúde americano em 2009 e 2010. Não apenas uma família de quatro pessoas tinha de pagar na altura um prémio mensal de cerca de 1200 dólares para estar segurada como os preços tinham vindo a subir de forma acentuada; 131% em média desde a viragem do século (Appaix, 2010: 7)[10]. O elevado preço dos seguros de saúde foi considerado responsável por, em 2007, 28% dos adultos norte-americanos, ou seja, uma população estimada em 50 milhões de pessoas, não estarem segurados ou terem experimentado, nos 12 meses anteriores, algum período sem cobertura (Collins e tal., 2008: 3[11]). A esta exclusão de uma parte importante da população do direito humano à segurança social devemos ainda acrescentar a desigualdade, uma vez que entre aqueles cidadãos que podiam pagar um seguro de saúde muitos estavam inadequadamente ou insuficientemente segurados (Collins e tal., 2008: 10).


O mercado não é responsável

Como já referimos no primeiro capítulo, na linguagem dos direitos humanos, aos direitos dos indivíduos correspondem deveres de outros indivíduos ou instituições. Assim, se os direitos dos indivíduos não estiverem garantidos, isso significa que esses outros indivíduos ou instituições falharam no cumprimento do seu dever. Por outro lado, também referimos no mesmo capítulo que a linguagem dos direitos humanos transformava problemas económicos como falta de emprego ou, no caso que mais nos interessa aqui, a fraca cobertura da população pela distribuição de água ou pela segurança social, numa violação de um direito humano, e, portanto, num delito. A responsabilidade, ou seja, a disponibilidade para prestar contas aos destinatários dos bens e serviços providenciados enquanto direitos humanos, é, portanto, um elemento crucial na altura de definir quem deve assegurar direitos humanos em geral, e água e segurança social em particular.

Quando o Estado, por exemplo, falha na sua tarefa de garantir um direito humano, o Estado é responsável juridicamente perante um tribunal ou politicamente perante os eleitores. Se um cidadão entender que o Estado não lhe garante um determinado direito, o Estado pode ser perseguido em justiça pelo dito cidadão. No caso de um direito económico, social e cultural […]


Prof. Manuel Couret Branco, in «ECONOMIA POLÍTICA DOS DIREITOS HUMANOS – os direitos humanos na era dos mercados», Edições SÍLABO, Rua Cidade de Manchester, 2, 1170-100 LISBOA. T.: 218130345. ISBN 978-972-618-661-8.

AUTOR: Economista licenciado por Paris-1 Panthéon-Sorbonne, que se doutorou em Economia na École des Hautes Études en Sciences Sociales, também em Paris. Leciona, no departamento de Economia da Escola de Ciências Sociais da Universidade de Évora, "História do Pensamento Económico", "Economia do Desenvolvimento", "Economia da Política Social" e "Economia dos Direitos Humanos". É autor, de entre outros livros e artigos científicos, dos livros «Economia com Compromisso» e «Economia da Saúde e da Produção Animal» e do artigo «Direitos Económicos: um desafio à Europa Social».




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[2] NETTO, A. (2005), «Private Sector Still Running After Water Rights», Asia Times on-line, March 26:
[3] «World development indicators database: Facts and Statistics», document disponível on-line em: 
[4] MONTEMAYOR, C. A. (2005) «Possibilities for Public Water in Manila», in «Reclaiming Public Water Achievements, Struggles and Visions from Around the World»; Edited by Belén Balanyá, Brid Brennman, Olivier Hoedeman, Satoko Kishimoto and Philip Terhorst, TNI/CEO Press Release.
[5] CHAVEZ, W. (2005) «Effervescence Populaire en Bolivie», Le Monde Diplomatique, Mars.
[6] GÓMEZ, L. S. e P. TERHORST (2005) «Cochabamba, Bolivia: Public-Colective Partnership After the Water War», in Balanyá, B. Brennan, B. Hoedeman, O. Kishimoto, S. e Terhorst, P. (eds) Reclaiming Public Water Achievements, Struggles and Visions from Around the World; TNI/CEO Press Release.
[7] UNDP (2006) «Human Development Report. Beyond Scarcity: Power, poverty and the global water crisis», documento disponível on-line: 
[8] ARROJO, P. (2006) «El Reto Ético da la Nueva Cultura del Água: Funciones, Valores y Derechos en Juego», Barcelona: Ediciones Paidós.
[9] Ibid., UNDP (2006) «Human Development Report. Beyond Scarcity: Power, poverty and the global water crisis»…
[10] Apppaix, O. (2010) «Quand les États-Unis se refont une santé», Le Monde Diplomatique, Mai, p. 7.
[11] COLLINS, S. R., KRISS, J. L., DOTY, M. M. e RUSTGI, S. D. (2008) «Losing Ground: How the Loss of Adequate Health Insurance Is Burdening Working Families: Findings from the Commonwealth Fund Biennial Health Insurance Surveys», 2001-2007, The Commonwealth Fund.