teologia para leigos
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5 de maio de 2018

A COMUNIDADE CRISTÃ E OS SEUS DIRIGENTES [PAUL HOFFMANN]




Cap. V - DA IGREJA DOS SACERDOTES À IGREJA DO POVO

"Nós somos o povo"
(divisa usada na manifestação de segunda-feira em Leipzig, em 1989)


Nas considerações que vêm a seguir, a minha preocupação principal será verificar como, dentro da perspectiva do Novo Testamento, se poderiam conceber futuramente as comunidades cristãs e, correspondentemente a isso, como se poderiam conceber os dirigentes das comunidades cristãs. Como ensina a experiência histórica, é aqui, na base da Igreja, e não nos escalões superiores da burocracia eclesiástica (ainda que ali se encontrem os centros da administração do poder eclesiástico), que se verificará se a comunidade cristã ainda tem condições de viver na sociedade moderna. Portanto, não se trata de desacreditar o sacerdote como dirigente da comunidade, já que, ele próprio, é o elo mais fraco e, do ponto de vista do direito, na cadeia hierárquica é o mais desprotegido. Trata-se, pelo contrário, de buscar uma forma de serviço sacerdotal que corresponda melhor ao paradigma neotestamentário da comunidade de irmãs e irmãos de Jesus e lhe permita exercer um serviço mais eficiente na comunidade. Isso implica, não só para os sacerdotes envolvidos, mas também para as comunidades, o difícil processo da compreensão mútua e da aprendizagem comum.
O exegeta, pela sua recordação dos dados da tradição neotestamentária, só pode dar contribuição modesta nesta questão. Com maior ou menor habilidade poderá mostrar as perspectivas do Novo Testamento. Todavia, a forma concreta da comunidade futura não será determinada apenas pela sua herança cristã ou pseudo-cristã, mas sim também pelas condições socioculturais da sociedade moderna. A comunidade cristã não constitui uma ilha de bem-aventurança no meio de um ambiente que se prefere apostrofar a si mesmo como ateu. Ela faz parte deste mundo e, quer queira quer não, está de múltiplas maneiras entrelaçada com as oportunidades e as calamidades do mundo. "Não há vida verdadeira no falso". Este aforismo de T. W. Adorno, na sua obra Minima Moralia, vale também para a Igreja cristã.
Consequentemente, o presente esboço, à medida que tenta desenvolver os dados do Novo Testamento com vistas a uma possível configuração futura da Igreja, representa apenas um dos lados de um processo bipolar. Do outro lado, exige-se a consciencialização da situação actual e das suas condições sociais, bem como da conciliação crítica criativa dos dois aspectos. Todavia, a experimentação da Igreja do amanhã só terá sucesso se as comunidades e seus dirigentes se empenharem neste processo de mediação: comprometidos com a inalienável herança de Jesus e solidários consigo mesmos e com o seu mundo actual.

Igreja como povo de Deus a caminho
Ainda que para a passagem do movimento carismático de Jesus à Igreja oficial tenhamos que pressupor leis sociológicas − pois um movimento carismático necessita de institucionalização se quiser sobreviver ao tempo, e, em última instância, necessita da "Igreja-grande-formato" para não se tornar seita e sucumbir ao perigo de se transformar em gueto −, com base na experiência histórica, não se pode esquecer que as formas institucionais originadas dependem das respectivas premissas socioculturais e da constelação histórica. Do ponto de vista puramente sociológico, as formas monárquica e democrática de poder são resultados igualmente possíveis do processo de institucionalização. A história das Igrejas cristãs permite constatar a existência de um vasto leque de alternativas.
Este fato também é passível de interpretação teológica. A pluralidade de formas institucionais está essencialmente relacionada com a historicidade da revelação. A experiência de Deus transmitida por Jesus não visava apenas uma nova relação com Deus, mas também uma nova maneira de convivência humana e, por isso, implicava necessariamente a formação de comunidades. A forma concreta que estas comunidades assumiram foi, sob múltiplos aspectos, consequência do livre jogo das forças históricas, mas ao mesmo tempo também dependeu do impulso original de Jesus que deu, mais ou menos às comunidades cristãs, a sua configuração característica.
Neste sentido as formas originadas têm a sua razão histórica e a sua legitimidade teológica. O cristão crente sempre descobrirá, na caminhada da Igreja através da história, os traços do Espírito que lhe foi prometido. Todavia, esta visão de fé não deverá levar a fechar os olhos às deficiências dependentes justamente do processo histórico. A forma histórica originada pode ser deficiente, quer em relação à herança de Jesus (que deve ser desenvolvida e aprofundada no processo da transmissão), quer em relação ao desafio da situação histórica (por causa de uma acomodação barata a essa situação), quer por cega recusa, que degrada a tradição ao nível de uma letra morta que sufoca a força vital e inovadora do Espírito.
Para a nossa visão cristã isso significa que também hoje devemos ver-nos como "povo de Deus a caminho", numa peregrinação através da história. O êxodo é tema permanente da Igreja. Isso exige de nós a coragem de constante mudança. As palavras de Jesus — "Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, aquele que a perder, salvá-la-á." (Mc 8,35) — descrevem a lei da nossa vida pessoal mas também a lei da vida da Igreja.

          Comunidade de irmãs e de irmãos de Jesus
No centro da acção de Jesus está a experiência da bondade incondicional com que Deus se dedica a todo homem e assim torna presente o seu Reino no meio deste mundo mau. Prometendo a justiça de Deus aos pobres e injustiçados, curando os doentes e mantendo a comunhão com os pecadores e difamados, torna experienciável, no concreto, a acção da graça de Deus aos homens e abre-lhes novas possibilidades de vida. Então, só poderemos entender os ensinamentos de Jesus como uma tentativa de motivar os homens para agirem de acordo com essa bondade e assim — nas condições ainda reinantes deste eon — experimentarem a oportunidade de uma nova maneira de convivência. Não obstante a descontinuidade histórica que existe entre a pregação do Reino de Jesus e a Igreja posterior que lhe seguiu, temos aqui o dado primordial da Igreja, como aquela esfera em que poderá ser concretamente experimentada a graça de Deus entre os homens e através dos homens.
Jesus mostra surpreendente sensibilidade para aqueles pontos nevrálgicos das relações inter-humanas nos quais o homem corre o perigo de usar o seu próximo como objecto dos seus interesses ou de tornar-se ele próprio objecto de tal abuso. Assim, não surpreende que a questão do exercício do poder e da dominação sobre os outros seja tema da sua mensagem. Com base na tradição judaico-apocalíptica, Jesus sabe que as condições reinantes à sua época não eram as relações verdadeiras, as mais coerentes: então, para Jesus, Deus transformará os últimos em primeiros e os primeiros em últimos (Mc 10,31 entre outras passagens; cf. também Lc 1,51-53). Mas também aqui Jesus não se deixa ficar pela visão apocalíptica do futuro. Sob o signo do Reino de Deus que desponta, Jesus adverte os primeiros e os grandes, ou aqueles que pretendam sê-lo, a tornarem-se os últimos, escravos (Mc 9,35; 10,42-45; Mt 18,4; 20,25-28; 23,11; Lc 9,48; 22,24-27). Isso significa no mínimo a superação das estruturas de dominação que determinam o mundo, a favor de uma configuração isenta de dominação das relações inter-humanas, pela qual um se torna irmão e irmã do outro. Aqui está o fundamento da ideia mestra da comunidade cristã.
À luz disso, a comunidade cristã/igreja não pode ser concebida senão como comunhão de irmãs e irmãos de Jesus (Mc 3, 34ss). Mateus dá a esta realidade uma expressão inequívoca e válida, quando em 23, 8 enfatiza contra toda a forma de pretensão unilateral de dominação: ''Todos vós sois irmãos". Esta ideia de fraternidade e de renúncia à dominação marca toda a parenese das comunidades cristãs primitivas na admoestação para o amor e para a submissão mútua.[1] Assim, não admira que a Igreja antiga na sua autoconcepção e na sua prática fosse dominada por esta ideia do "amor mútuo" até ao fim da Antiguidade tardia, devendo precisamente a este fato o seu magnetismo para com os de fora. A muita citada frase "Vede como eles se amam" pode parecer banalizante e sentimental. Na verdade ela indica a característica constitutiva da comunidade cristã como de uma comunidade que deve a sua origem ao amor de Deus e que constantemente pode experimentar e deve praticar este amor na força do Espírito - "o vínculo do amor".
O processo de institucionalização, historicamente necessário, sobretudo a formação das estruturas burocrático-autoritárias que hoje caracterizam a Igreja romana, está em contradição com esta experiência eclesial primitiva. Instituição burocrática e fraternidade pela sua própria natureza excluem-se mutuamente, conforme constatou M. Weber com o olhar insubornável do sociólogo. Isso pode explicar o facto de o discurso sobre a fraternidade cristã, medida pela realidade vivida, parecer a muitos apenas uma farsa e olham, "a Igreja", como um frio aparelho de poder, que só pela ideologia é que ainda se distingue de outros sistemas autoritários. A isso se opõe hoje a consciência que, em muitos está novamente despertando, de que pela sua essência a Igreja deveria ser diferente. Mc 10, 43; Mt 20, 26; Lc 22, 26: a expressão "Não seja assim entre vós" assinala esse permanente desafio a que a Igreja não pode fugir. Assim, tudo depende da seguinte questão: conseguirá a Igreja, na sua vida, e inclusivamente nas suas estruturas, dar forma adequada e confiável a esta experiência eclesial original? Para muitos isso poderá parecer a quadratura do círculo. Para a fé significa o despontar do novo mundo de Deus, e neste sentido é um postulado inabdicável da sua esperança.
A realização da ideia da "comunidade fraterna cristã", conforme novamente vem mostrando a história da Igreja, não é isenta de perigos. A comunidade fraterna como "comunhão pessoal-emocional" pode tornar-se um círculo elitista ou uma seita, que, voltando-se sobre si mesma, perde o contacto com a realidade e, como minoria, se retrai num gueto eclesial. Este é um perigo que hoje se pode observar em movimentos carismáticos ou ainda em certas comunidades de vanguarda, mas também é relevante (em matéria de Igreja universal) quando se tenta compensar a silenciosa fuga das massas da Igreja com o discurso sobre o "pequeno rebanho" e, de tal redução, se esperar secretamente a conservação do status quo. Por isso o discurso sobre a comunidade fraterna cristã necessita do corretivo da "grande Igreja", da ecclesia de Deus que inclui todos os homens, do povo de Deus composto por todos os povos. Ou seja, uma visão de Igreja tal como sob muitos aspectos é atestada pelo Novo Testamento: do pragmatismo de Paulo que procura unir as comunidades heleno-cristãs locais entre si mas também uni-las ao cristianismo palestinense, até à visão do Apocalipse de João da tal "multidão incontável de todas as nações, tribos, povos e línguas" (7,9). A existência eclesial, comunitária, não possui finalidade em si mesma, mas está ao serviço daquela acção libertadora universal de Deus, que Jesus de Nazaré anunciou na sua mensagem do reino de Deus e que, pela sua própria actividade, começou a realizar. Portanto, nem a Igreja universal nem a comunidade local podem ser concebidas como sistemas "fechados", mas como sistemas "abertos", que constantemente ultrapassam as suas próprias fronteiras em direcção ao mundo, no qual se quer realizar o reino de Deus como reino de bondade e de paz, de justiça e de liberdade, ainda que neste mundo isso só seja possível como primícia e de modo fragmentado.
Por isso a Igreja não pode evitar os desafios sociais e políticos, da mesma forma como permanece sempre comprometida com a sua origem em Jesus, que deu a sua vida por muitos.

           A comunidade não precisa de muitos mediadores
A exegese mostra: o Novo Testamento não conhece o "sacerdote do culto" no sentido de oferente e mediador entre Deus e os homens, como autoridade da comunidade. O único mediador é o homem Jesus Cristo. Na sua morte — sacerdote e vítima ao mesmo tempo — Jesus, sobretudo conforme ensina a carta aos Hebreus, realizou de uma vez para sempre expiação e conciliação, e abriu para todos o livre acesso a Deus. Esta constatação contém em si uma reserva crítica em relação a qualquer tentativa de entender o presbítero cristão como "sacerdote" no sentido da história das religiões em geral ou no sentido da sociologia eclesial. Esta reserva põe em causa, em primeiro lugar, uma certa ideia de sacerdote muito difundida na piedade popular católica, e que continua a ser cultivada em sermões de «primeira missa» e livros sobre sacerdotes, e que muito influencia as consciências. Com mais razão ainda proíbe ver potenciada esta mediação no bispo ou no Papa. A reserva dirige-se também contra modernas tentativas de, numa espécie de concepção secularizada do sacerdote, atribuir ao presbítero o papel de terapeuta, médico, exorcista ou guru.
Mas a constatação exegética de que falamos também questiona a autoconcepção das comunidades cristãs. Por que carga de água, especialmente os cristãos católicos, projectam tais expectativas de função nos membros do clero? Não indicará, isso, uma grande deficiência da autoconcepção do cristão individual? Não se trata de encontrar culpados. Diante da actual distribuição de papéis nas comunidades, a responsabilidade maior pelas deficiências da fé cabe aos "pastores", não ao "rebanho", ainda que aqueles muitas vezes sejam apenas vítimas da sua socialização. Hoje temos de responder pelas consequências de uma funesta história da "pastoral", que foi determinada pelo medo e pela descrença, e não pela confiança na assistência do Espírito, que é prometido à Igreja como um todo e a todos na Igreja.
Na visão do Novo Testamento cada membro da comunidade deveria ser determinado pela experiência cristã original do livre acesso a Deus: não recebemos o espírito da escravidão, mas o espírito da filiação pelo qual chamamos a Deus pela palavra «Pai»: somos filhas e filhos de Deus, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rm 8,15-17). Quando o Apocalipse atribui a todos, na comunidade, a dignidade de sumos-sacerdotes e senhores, põe todos os baptizados naquele contacto directo com Deus e naquela soberania senhorial indicada por estas imagens antigas: o homem real e o sumo-sacerdote como a essência do homem redimido, que se tornou independente de intermediários humanos e dominadores terrenos. Ou seja, a comunidade como lugar do contacto directo com Deus e como lugar da liberdade face à dominação.
É somente sobre esta base que se pode buscar uma relação comunitária cristã. A imagem do "pastor e do rebanho", que originalmente se referia a Cristo e aos seus, considerada sob o aspecto da relação entre o sacerdote e a comunidade, aparece não só como inadequada, como também contrária à fé cristã, porque degrada os membros da comunidade a objectos da pastoral. Estes devem ser levados a sério mas como "sujeitos de fé", por mais deficiente que seja a sua autoconcepção cristã. Se muitas vezes parecem ser apenas "subordinados", só o são porque foram postos sob tutela.[2]
Por isso na actual situação de transição, a tarefa principal de todos os responsáveis na comunidade, especialmente do dirigente da comunidade, é o serviço na fé: deve estimular suas irmãs e seus irmãos cristãos para a maturidade (quando esta ainda é pobre ou até esteja em falta) e aceitá-la quando esses irmãos já estruturaram sua vida pessoal e comunitária a partir desta consciência. Deverá entender-se a si mesmo como parceiro numa história de fé comum, na qual antes de mais nada também ele (o que foi ordenado presbítero ou bispo) está inserido com a sua fé e a sua descrença, frequentemente ouvindo e aprendendo, recebendo estímulo e nem sempre ensinando ou encorajando.
Daqui também decorrem algumas consequências para a configuração do culto divino cristão, especialmente para a celebração da eucaristia. Em correspondência com uma falsa ideia de sacerdote, para muitos a Eucaristia é vista demasiado unilateralmente a partir da ideia de «sacrifício». Sem dúvida faz parte desta celebração a memória da morte de Jesus a qual, correctamente entendida, significa a "actualização" da morte de Jesus na cruz, pela qual não cessamos de ser envolvidos na origem da nossa redenção e liberdade. Ora, no centro do culto cristão não está o altar, no qual um "sacerdote" dotado de poder sacral realiza um sublimado ritual sacrificial, mas a mesa ao redor da qual o Kyrios reúne a sua comunidade. Ao participarem todos do mesmo pão e do mesmo cálice tornam-se seu corpo, constituem-se em comunidade de irmãs e irmãos, em nova aliança, na qual lhes é tirado o coração de pedra e lhes é implantado um coração de carne (Ez 36,26; Jr 31,31). Assim, antecipam a visão da refeição do fim dos tempos que Deus quer preparar para todos os povos (Is 25,6), como refeição dos libertados, que aqui se recordam da sua origem na acção libertadora de Jesus e incessantemente se reanimam e se comprometem a empenhar-se, no mundo, contra a situação de injustiça e violência dominante, em favor daquela visão de uma nova humanidade libertada, redimida. Assim, o dia-a-dia do mundo é o lugar do verdadeiro culto divino, onde cada qual deve realizar o serviço da reconciliação entre o homem e Deus e de os homens entre si.
 Com isto não se nega a função de um dirigente responsável pela celebração da eucaristia. Ela apenas necessita de uma integração mais consciente no todo da celebração da ceia do Senhor, cuja base, de acordo com a tradição eclesial, é a Igreja universal, e não o sacerdote individual. Se ele, aqui no contexto de uma acção simbólica religiosa, age "in persona Christi", representa aquele anfitrião que se tornou servidor de todos. Assim a celebração deve ser expressão daquela radical pró-existência de Jesus, que até viveu para os outros a sua própria morte na cruz. O símbolo sacramental está comprometido com este typos primordial. Isso significa que na configuração concreta da acção simbólica deve ser evitado todo gesto que converta a sua intenção original no seu oposto e — consciente ou inconscientemente — reproduza opressão em vez de libertação. Se considerarmos os nossos espaços de culto, a contradição é mais que evidente. Com poucas excepções, arquitectonicamente os espaços de culto não dão uma forma adequada à ideia comunitária da refeição cristã. A sua disposição é muito mais frequentemente expressão das estruturas repressivas que dominam as comunidades cristãs.

       Autoridade é serviço
   Se de acordo com o Novo Testamento o livre encontro entre Deus e a sua comunidade é constitutivo da auto-compreensão cristã, com isso também está mencionada a condição sob a qual se pode falar de direcção e de "autoridade" de direcção na Igreja. (…)


Paul Hoffmann
«Da Igreja dos sacerdotes à Igreja do povo», cap. V (pp. 99-137) de "A herança de Jesus e o poder na Igreja", Paulus, São Paulo/Brasil 1998 (excerto).








[1] Cf. Juan Antonio Estrada, «Igreja, fraternidade laical», blog  A SALA DE CIMA, 13-11-2014:

20 de novembro de 2017

O CONFLITO DOS LEIGOS



O CONFLITO LAICAL
A responsabilidade evangelizadora dos leigos


Introdução

O «Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral» (diocese de Bilbao-Bizkaia) teve desde as suas origens uma preocupação especial em acompanhar, com uma reflexão teológica, os problemas suscitados nesta diocese em torno da presença — e da ausência — do laicado na acção pastoral evangelizadora da Igreja. Várias foram as actividades levadas a cabo. Uma delas é esta que agora damos à luz.

Nos finais de 1987, colocou-se, no seio do Instituto, a conveniência de dar início a um seminário de reflexão sobre a problemática de fundo do laicado na nossa diocese («Seminario sobre la teologia del laicado»). Uma equipa de doze pessoas, leigos e sacerdotes, lançou mãos à obra.

Não se pretendiam tiradas espectaculares ou grandes inovações ao nível teórico ou teológico, sobretudo nesta área em que a eclesiologia já está atascada. Tratava-se de realizar um debate e uma reflexão acerca da práxis diocesana actual, mediante a aplicação dos princípios eclesiológicos conhecidos às realidades da vida laical já existentes entre nós. Os membros do grupo julgaram, desde o princípio, que o objecto central do seminário deveria centrar-se, mais do que no aprofundamento de questões estrictamente teológicas — realidades que pertencem aos especialistas ou aos teólogos profissionais —, na reflexão crítica sobre algumas práxis que certos grupos e movimentos vêm levando a cabo na nossa diocese.

Parecia-nos ser este um assunto de capital interesse para esta Igreja local, igreja empenhada na recepção de uma Assembleia Diocesana, a iniciar um Plano Diocesano de Evangelização de carácter quinquenal e enfrentando uma grave problemática relacionada com a incorporação das responsabilidades evangelizadoras do laicado adulto.

Uma vintena de sessões – de debate – e duas outras mais – de síntese – constituíram o amplo período da nossa reflexão. Cada sessão contava com um palestrante previamente designado, palestrante que exporia de maneira concisa os pontos-chave do respectivo tema que lhe fora distribuído. Só em alguns casos foram convidados palestrantes estranhos ao grupo de trabalho. Um breve questionário, previamente conhecido, centrava a reflexão comum, enquadrava o debate e impunha limites às eventuais dispersões.

Um primeiro levantamento de ideias colocou diante de nós uma panóplia de questões, qual delas a mais cativante. Sendo impossível tratá-las a todas com mediana profundidade, tomou-se a decisão de se circunscrever o trabalho a um tema considerado nevrálgico à volta do qual parecia que se agrupava a maior parte dos problemas que hoje em dia se colocam ao laicado.

Descrevê-lo-íamos assim:

A condição secular como traço específico dos baptizados leigos – significado desta afirmação tendo em atenção as formas concretas sob as quais os leigos terão de viver a relação da Igreja com o mundo. Ou, dito de outra maneira: a presença eclesial no mundo e a autonomia do temporal – como salvaguardar a originalidade da missão salvífica da Igreja no mundo, bem como a peculiar especificidade que compete aos leigos dentro dessa missão.

O seminário estendeu os seus debates ao longo de dois anos e meio (desde os começos de 1988 até meados de 1990). Sem que fosse previsível, a marcha espontânea do debate levou-nos através de um processo que, no fim, desenhou três pilares que, agora, oferecemos ao leitor: (1) reflexão teórica sobre o sentido da secularidade própria dos crentes e sobre o conflito que nasce dessa secularidade; (2) análise do conflito resultante da dupla pertença do leigo cristão, a partir de várias experiências concretas; (3) alguns processos formativos para a inserção dos leigos nas realidades da vida secular.

Sintetizámos e reordenámos a matéria dos nossos diálogos à volta destes três pilares. Podámos os ramos colaterais que espontaneamente brotaram dos debates. É o que de seguida vos apresentamos, seguindo as três fases de reflexão, na esteira da sua lógica própria. Não uma lógica a priori, mas aquela que nasceu indutivamente do contacto e da interpretação de problemas reais existentes na diocese de Bilbao.

Ao dar à luz estas páginas, esperamos e desejamos prestar um serviço a muitos crentes que, individualmente ou agrupados, procuram testemunhas de Jesus Cristo e servidores do Reino de Deus na sociedade de Bizkaya.

Páscoa da Ressurreição de 1991.




PRIMEIRA FASE

À VOLTA DO TEMA CENTRAL


Enquadramento do tema central

Desde o começo das nossas sessões, o grupo percebeu que o debate tinha de se centrar na questão da secularidade.

O Concílio Vaticano II afirmou de modo muito claro que o elemento positivo e específico que caracteriza o leigo na Igreja é a sua condição secular (cf. LG 31; AA 2).

Incorporado em Cristo através do baptismo, partícipe da sua tríplice missão, membro activo do Povo de Deus, o leigo tem responsabilidades na missão salvadora, quer na Igreja, quer no mundo. A sua missão especificamente cristã consiste em promover o processo humanizador do mundo relativo à salvação em Cristo.

Porém, as afirmações conciliares não dissipam as dúvidas de índole prática, que, por variadas razões, se colocam hoje aos leigos.

Esta problemática poderia ser descrita usando os seguintes quatro vectores fundamentais:

1 – A mutação antropológica vivida nos últimos tempos transporta-nos de uma visão do mundo como o grande teatro do mundo onde o Homem representa o seu papel a uma concepção do mundo como configurador da realidade corpóreo-espiritual do Homem e como espaço propriamente histórico. Como consequência, a realidade temporal — o secular — é o lugar onde o leigo vive e constrói, dia-a-dia, a sua fidelidade ao Evangelho.

2 – A missão da Igreja entende-se como «consagração do mundo», missão que diz respeito ao Povo de Deus na sua totalidade (cf. LG 10).


Isso significa que a inserção no mundo não é um traço característico do leigo, mas faz parte da condição normal da Igreja toda. Isso muda a relação da Igreja com o mundo: a secularidade afecta a totalidade do ser eclesial. A Igreja não serve o mundo a partir de fora do mundo, mas está «in mundo huius temporis» (GS) como sacramento de salvação. A natureza da Igreja tem de se estruturar em coerência com a sua missão.

Um enfoque correcto dessa missão rejeita qualquer tentativa sacralizadora; deve respeitar a condição profana do temporal. O reconhecimento da autonomia do temporal dinamiza a procura, por parte da Igreja, de uma posição mais correcta do que a de antanho, não esquecendo que foi o próprio mundo moderno quem obrigou a Igreja a resituar-se, ele que, com as suas roturas radicais, colocou a Igreja no lugar que lhe compete.

Esta mudança obriga a definir novamente o sentido do secular face à evangelização e a esclarecer os termos «intraeclesial» e «extraeclesial», enquanto referidos à actuação dos leigos. O papel do laicado terá de ser entendido a partir de uma consciência clara da missão e da presença transformadora da Igreja no mundo.

3 – A eclesiologia de comunhão oferece a possibilidade de superação da bipolaridade hierarquia-laicado transformando-a numa outra visão em termos de comunidade, carismas e ministérios. Pois bem, esta nova visão eclesiológica, unida à reflexão anterior, permite aclarar os territórios de uns e de outros. O mundo é, sem dúvida, o espaço próprio de actuação do leigo, portanto é o espaço de actuação da Igreja toda. Mas, por outro lado, o leigo que trabalha em tarefas comunitárias, não deixa de ser leigo. Então, onde está o específico do ministério, onde está a sua presença qualificada dentro desta missão?

Uma Igreja concebida como comunhão exige plataformas de diálogo e de codecisão, bem como expressões de corresponsabilidade de todos os baptizados na acção evangelizadora.

4 – A questão agudiza-se quando o laicado, quer por influência do desenvolvimento da sociedade moderna, quer pela sua própria maturidade no seio da Igreja, levanta insistentemente a questão da sua condição de sujeito eclesial adulto e recusa ser ignorado pela hierarquia na hora das decisões ou orientações doutrinais, morais, etc. que lhe digam respeito.

A tentativa de viver a experiência laical como dialéctica entre fé (oração, celebração, compromisso, etc.) e mundo (dinheiro, competitividade, profissão, sexualidade, política, etc.) realiza-se, por vezes quase esquizofrenicamente, debaixo de fortes tensões, e, outras vezes, à custa de renúncias à primeira ou à segunda daquelas realidades. A este leigo, cidadão do mundo e membro da Igreja que inexoravelmente já está no mundo, coloca-se um problema: o de estar no mundo como se deve estar mas «como se não estivesse» no mundo (1 Cor 7, 30-31; «os que usam deste mundo, como se não o usufruíssem plenamente»).

As tensões agravam-se ao constatar a dicotomia por vezes existente entre as mensagens que a hierarquia dirige e o que os cristãos comuns vivem de facto.

Donde a pergunta: que mecanismos articular de modo a que o leigo possa encontrar luz e formar critérios pessoais de actuação? Que apoios poderão encontrar na comunidade eclesial para caminhar como crente num mundo também trabalhado pelo pecado?

Sente-se a necessidade de incorporar grupos eclesiais que ajudem a viver a fé dessa maneira comprometida. Surgem, então, novos problemas: incapacidade das paróquias para atender aos crentes que pretendam assumir a dita dialéctica anterior; crise dos movimentos especializados; dispersão e desconhecimento de grupos informais entre si, etc.

Eis, aqui, quatro grandes questões nas quais se inscreve um conjunto de problemas que afectam, hoje, os leigos comprometidos da nossa diocese (e supomos que, também, os leigos de outras dioceses).



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Ficando assim delimitado o nosso ponto de partida, achamos ser necessário realizar uma primeira reflexão mais profunda sobre a questão central anteriormente referida: teologicamente falando, donde nasce o conflito que lavra na própria carne do leigo, quando ele trata de ordenar, segundo Deus, as questões temporais? (LG 31)

Utilizando alguns materiais teológicos de qualidade reconhecida, usamos esses princípios a fim de iluminar a nossa situação e conseguirmos, assim, um diagnóstico global do conflito que se coloca ao leigo cristão em virtude da sua dupla pertença à Igreja e ao mundo.


O CONFLITO DA DUPLA PERTENÇA

A relação dialética entre o momento da fé e o momento da secularidade vivido no coração da vocação laical traduz-se num autêntico conflito que requer um esclarecimento cuidado e com tempo. Deverá ter em atenção os seguintes pontos.

Clarificação conceptual prévia: o que é isso de «o temporal»?

Ainda há pouco dissemos que o âmbito específico da actuação do leigo é a realidade temporal. Ora, «temporal» não se opõe a «espiritual», mas ao «escatológico». O temporal é da ordem da existência humana: diz respeito à vida na sua relação com a esperança. O «espiritual» refere-se à obra transformadora do Espírito que, desde a ressurreição de Cristo, age na História humana.

A oposição é, de algum modo, dialéctica, na medida em que o além, o futuro, desponta já no aquém, ou seja, no presente. Não há nada de escatológico que não seja temporal. Na realidade histórica há algo que supera a história, donde, todo o crente — leigo ou não leigo — deve viver submetido à máxima: «já, todavia ainda não».

Mesmo que as valorizações sejam diferentes — os leigos destacam o «já» ao passo que os monges dão mais importância ao «todavia ainda não» — o grande problema está em viver a tensão entre ambos os polos. A vocação dos leigos e a vocação dos religiosos são duas formas diferentes mas complementares de realizar a missão eclesial.

Este conceito de «temporal» assim encarado deveria levar-nos a recuperar a História da Salvação em que a realidade secular, movida pelas suas leis próprias, fosse concebida como «lugar teológico»: nos limites da história do mundo acontece a missão específica da Igreja, missão estreitamente relacionada com o Reino de Deus.

Portanto, a partir desta perspectiva devemos estudar a relação e a distinção ou o duplo momento «secularidade-eclesialidade», «fé e vida» no século que caracteriza a vocação laical.

De que conflicto específico se trata?

Há, porém, um conflito prévio a este que queremos tratar aqui. Fazemos referência a ele, porque achamos que ele está na base de um outro conflito mais específico.

Referimo-nos àquele que é — o leigo consciente dá-se conta dele — fruto da profunda contradição entre a lógica do Evangelho ou da fé e a lógica do Sistema, da razão tecnológica, em suma, da Secularidade.

Este é o conflito inerente à vida de todos os crentes que levam a sério a sua pertença ao mundo. Faz ninho no interior do cristão que sente no seu coração o cruzamento dos valores do mundo com os valores próprios do evangelho.

Tendo isto como pano de fundo — este conflito que sempre existirá e que bem que podemos denominar de «cruz» —,referimo-nos, agora, a um conflito mais específico do momento histórico que vivemos, momento em que o leigo cristão quer ser considerado adulto, tanto na Igreja como no mundo. Este conflito faz com que o leigo chegue a ter a impressão de que muitas vezes nem é sujeito na Igreja (porque não o deixam agir como adulto dentro dela) nem é autónomo no mundo (porque a pertença eclesial o impede de comprometer-se plenamente no mundo).

Dito de outra maneira: a hierarquia coloca o leigo numa situação quase contraditória, ou pelo menos paradoxal, curiosamente no terreno que lhe é específico: no secular. E porquê? Porque, por um lado, considera que cada crente é sujeito histórico individual em âmbitos que considera matéria para debate colectivo e eclesial (os problemas sociais, económicos, culturais, políticos); por outro lado, define de forma muita estrita e sem margens para discussão os comportamentos dos leigos no âmbito da moral individual.

Tal conflito pode expressar-se de muitas maneiras. Assinalemos de seguida alguns binómios, sob os quais se esconde essa mesma problemática: evangelho-cultura, Igreja-sociedade, pertença eclesial-cidadania do mundo, fé-práxis histórica.

(…)

Joaquín Perea e colaboradores.
«Fieles a la tierra y constructores del Reino – el conflicto de los laicos cristianos», Instituto Diocesano de Teología y Pastoral, Bilbao, Desclée De Brouwer S. A., pp. 9-26, ISBN 84-330-0914-1.





«Fe y Justicia»


27 de outubro de 2017

O VOLUNTARIADO EM JULGAMENTO [JOAQUÍN PEREA]

 

IGREJA E VOLUNTARIADO SOCIAL


O tratamento deste tema requer que se explique, desde logo, alguns conceitos à volta dos quais gira a compreensão, o correcto enquadramento e até uma boa parte das respostas a dar à questão que temos entre mãos. Portanto, nada de admirar que as definições ou descrições que se seguem não sejam mesmo nada assépticas; antes pelo contrário, tomam partido em relação a certos pontos bem concretos.


Voluntariado cristão

As características com que se procura definir o voluntariado cristão não são exclusivas dele: podem ser atribuídas a voluntariados não crentes ou não confessionais. No entanto, já que os voluntários cristãos apresentam certas debilidades ou falências com um voluntariado de «restauração ou privatização, expressivo ou instrumental» — seja lá como lhe queiram chamar — convém deixar claros certos elementos que se deduzem desta opção cristã, que, no fundo, deverá ser a opção pelo seguimento de Jesus.

1 – Nesta linha, falamos de e defendemos um voluntariado social da margem, da marginalidade. Este tipo de voluntariado encarna-se em realidades próprias da exclusão social; trabalha directamente com os excluídos nos espaços sociais onde o progresso e o bem-estar fracassaram rotundamente. É um voluntariado que vive no interior da sociedade civil, aí se instala e se mantém, assistindo e curando as feridas que descobrir nessa sociedade, mas não prescindindo de lutar contra a injustiça que as causa. Faz este acompanhamento, mas vai mais longe: trabalha a questão da «promoção», ou seja, não perde de vista o horizonte da emancipação, dispondo-se a intervir na História com afã mobilizador. Pretende pôr em marcha uma dinâmica de transformação das estruturas e de remoção das causas que produzem a marginalização e a exclusão social. Deste seu compromisso nasce uma denúncia social reivindicativa. Com as suas práticas de assistência e acompanhamento desenvolve conteúdos de transformação social[1] e, em última análise, de resistência política, já que está avisado de que todo o voluntariado que nasça ou viva numa postura antipolítica será estéril.

Portanto, deixamos de fora todo o voluntariado que só serve para lavar a má consciência ou para compensar frustrações pessoais e profissionais, que se transforma num tapa-buracos do sistema neocapitalista ou que pratica a assistência e o paternalismo ingénua e acriticamente.

2 – Por conseguinte, o voluntariado cristão de que falamos é um desafio dirigido ao núcleo duro da nossa sociedade: não apenas pretende atingir o sistema económico, mas sobretudo, e para lá das leis económicas, pretende atacar os pressupostos culturais hegemónicos. Assim, quer contribuir para a construção de uma cultura alternativa.

3 – Este tipo de voluntariado cristão que defendemos caracteriza-se por um sentido radical da gratuidade. Este voluntariado carece de interesse económico pessoal, não espera nem aceita nada em troca. Entra em choque e rompe com o utilitarismo individualista.

4 – Responde a uma escolha totalmente livre da vontade da pessoa, e, por isso, é chamado voluntariado, mas a sua opção é movida pela solidariedade para com o outro e pelo compromisso com uma sociedade mais justa.

5 – O voluntariado desenvolve-se num âmbito mais ou menos organizado, mas a sua estrutura organizativa é flexível e bastante horizontal. Pressupõe uma estratégia de autorregulação colectiva que pretende que a sociedade civil tenha uma cada vez maior capacidade de intervenção na coisa pública. (…)


Necessidade de processos formativos

As opções a tomar, por parte das organizações de voluntariado cristão, a favor dos marginalizados exigem que elas estabeleçam processos formativos adequados para o acompanhamento dos marginalizados, bem como o respectivo confronto dos seus próprios membros.

O voluntário, que frequentemente começa a sua actividade como uma decisão fruto da sua generosidade visando preencher os seus tempos-livres, acaba por ir amadurecendo o seu compromisso tornando-o mais estável, consequência da sua liberdade (ou seja, continua a ser um amadurecimento voluntário). Acontece que esse processo acaba por alterar a vida do voluntário e isso fá-lo tomar opções de vida mais comprometidas e mais radicais (ou seja, opções de vida que atingem a raiz da sua existência humana e cristã).

Se o processo formativo for adequado, as atitudes do voluntário cristão irão mudar e pode produzir-se, então, um processo de conversão interior que acabará por criar rasgões na sua condescendência pessoal para com a injustiça, o que o levará à luta pela transformação do sistema.

Na hora de seleccionar os membros para as organizações de voluntariado cristão — mesmo sabendo da variedade de vocações seculares existentes — devemos verificar a presença à partida, a nosso ver imprescindível, de uma opção fundamental no momento actual que as nossas igrejas locais atravessam, que é coerente com tudo o que dissemos até aqui: procurar agrupar, incentivar e atrair o laicado que esteja disposto a transformar a realidade antecipando, assim, significativamente o Reino de Deus, o que constitui uma parte essencial da sua actividade no voluntariado.

O laicado pelo qual optamos deverá saber estabelecer um incentivo mútuo com o ambiente social, o bairro ou a povoação onde acontece a marginalização. É preciso que se consiga uma interacção, uma circularidade ou retroalimentação entre os projectos da organização de voluntariado e as inquietações dos marginalizados.

Ora, para que o compromisso do laicado nasça dessas actividades e seja genuinamente cristão, é preciso cuidar do desenvolvimento da fé mediante um verdadeiro acompanhamento eclesial.

Diante das dificuldades em romper com as rotinas existentes e face ao peso da longa história do dualismo separador existente entre e compromisso, é preciso rever os processos formativos a partir dos princípios evangelizadores e a partir da transformação da realidade. A formação doutrinal é importante, mas revela-se insuficiente.

Portanto, para levar por diante a proposta anterior é oportuno criar uma espécie de zona eclesial intermédia nova, a partir donde se consiga um desenvolvimento da fé mais pleno e equilibrado. Seria como que uma plataforma ou mediação eclesial à qual seriam convocados estes leigos, a que nos estamos a referir, com a finalidade de depurar as motivações do seu compromisso de transformação da realidade, provocando a sua clarificação, ao mesmo tempo que se exerceria o seu acompanhamento eclesial mediante o encontro entre si mas também com outros membros de outras organizações de voluntariado cristão.

O processo formativo deveria ser de carácter indutivo. Ou seja, deve:

— partir da vida de pessoas concretas, de situações que estão a acontecer nos seus ambientes locais concretos, para depois regressar à vida das pessoas.

— fazer com que se tragam à luz os problemas existentes na realidade do ambiente, do bairro, da povoação, dos vizinhos, etc.

— identificar os desafios e os respetivos «toques de chamada ao serviço» dos mais pobres.

— saber ler os sinais dos tempos.

— deixar bem claro que a solidariedade activa com os pobres é um dado que afecta o conjunto destas dimensões.

— estruturar-se a partir de uma pedagogia de acção transformadora, isto é, não como mera pedagogia activa nem mera instrução, mas como compromisso com o ambiente onde vivem as pessoas pobres.

— incorporar o compromisso transformador durante o processo e não achar que ele só entra no final do processo de formação do marginalizado.

— caracterizar-se pela personalização, pela progressividade e pela comunitariedade, bem como terá de se basear numa pedagogia do testemunho e do acompanhamento por parte do «voluntário».


Para potenciar os poucos recursos existentes, entre outras coisas, seria oportuno partilhar todo o tipo de informação acerca de materiais e experiências realizadas que digam respeito precisamente à formação do voluntariado e à transformação da realidade.


Conclusões – Está em jogo o rosto do Deus cristão

O Concílio Vaticano II deu como adquirido que hoje em dia vivemos num regime de rotura entre o cristianismo eclesial e a sociedade laica. Acontece que o Concílio, diante de tal situação, não se quis manter naquela atitude de uma Igreja assustada e medrosa diante das ameaças de desintegração interna, mas operou um golpe de rins, uma viragem, com a qual se propôs renovar a credibilidade do cristianismo através dum diálogo acerca da procura moderna dum sentido – social e cultural – mostrando como a opção crente não só não nega como assume, corrige e eleva à sua plenitude a exigência de todo o ser humano em optar por um sentido para a sua vida e de configurar um projecto de humanidade conforme a dita opção.

A revelação de Deus em Jesus, quando vivida historicamente na «comunidade de seguimento», descobre uma inesgotável capacidade de oferta de sentido. Este potencial só se desenvolve na medida em que seja vivido pela comunidade cristã através de tudo aquilo que constitua a acção humanizadora das pessoas.[2]

Por isso, no nosso tempo, a operação de legitimação do cristianismo consiste em acompanhar a marcha histórica da humanidade a partir duma fé activa que se transforme em fé eficaz pelo amor prático ao «comum dos mortais». Hoje em dia isso comporta uma enorme dificuldade, e por uma razão muito simples: ainda não nos distanciamos da contaminação que existe, desde há imenso tempo, entre o chamamento evangélico a servir, despojados de todas as estruturas de poder, e o poder (social ou político) realmente exercido pelo cristianismo eclesial.

Nós, os crentes, realizamos o acompanhamento da marcha histórica da humanidade, apoiados numa Promessa. Promessa que só nos é revelada através da fé e que consiste na recapitulação e na unificação de toda a realidade em Deus. Promessa que, contudo, ainda está por realizar historicamente e que, por já se ter realizado em Jesus Cristo, nos obriga a viver historicamente no fio da navalha, tal como os outros, a partir da esperança nessa Promessa.

Donde se conclui que a nossa prática é hermenêutica, é interpretação dos símbolos cristãos fundamentais, é tradução (prática) daquilo que queremos dizer quando afirmamos, por exemplo, que «Deus é nosso Pai», que «vivemos como irmãos», que «esperamos como filhos».

Na medida em que, como cristãos, interpretamos os símbolos bíblicos básicos através da nossa práxis social, o cristianismo fundamenta a sua legitimidade postando-se diante da sociedade actual, mostrando «a sua verdade» ao longo da História.

A questão da luta em prol da solidariedade tem a ver directamente com a imagem de Deus que os seguidores de Jesus dão enquanto reunidos em Igreja. Nós afirmamos que o Deus revelado por Jesus é um Deus-comunhão. Ora acontece que a comunidade hermenêutica de tal afirmação é a Igreja.

A extrema injustiça social do sistema económico vigente coloca graves perguntas acerca do Deus cristão. A pobreza, a exclusão, a marginalização não são apenas a outra margem da suposta civilização cristã, mas sobretudo o problema número um que afronta a nossa confissão de fé. Até porque a fé bíblica fala da salvação para os pobres; até porque a salvação que oferecemos em nome de Jesus não é meramente escatológica, ou seja, projectada para lá do fim da história humana, altura em que, então, os pobres seriam salvos. Se tudo se devesse passar assim, então, estaríamos a dar razão ao marxismo. O nosso messianismo é histórico: ele afirma a sua realização nesta terra. Se há algo específico do cristianismo é a esperança da realização da salvação já aqui, ainda que a sua plenificação seja no tempo definitivo.

Sem escuta do clamor dos pobres não pode haver Igreja de Jesus. Sem luta pela mudança de um sistema injusto não pode haver Igreja de Jesus. No interior da cultura economicista e consumista, e da mercantilização da existência, compete à Igreja promover a cultura da solidariedade com vistas a realizar uma sociedade algo parecida ao projecto de Jesus. Isso acarreta uma mudança de mentalidade quanto à maneira de enfrentar a situação injusta.

Às organizações de voluntariado cristão cabe-lhe uma parte desta tarefa. Elas não podem transformar-se em funcionários do sistema, em legitimadoras do sistema.


O poder do «um mais um»

O oceano de miséria e de marginalidade seria muito mais amargo sem esta pequena gota de voluntariado. Se as organizações de voluntariado não existissem, havia que as inventar neste preciso momento em que escrevo. Têm muitos defeitos, mas são imprescindíveis. A missão de todos os crentes, particularmente a dos cristãos embarcados nesta aventura, é a de as melhorar com uma crítica a partir de dentro.

Mantenhamos a persuasão expressada pelas palavras de Antonio Tabucchi, tomadas a partir da afirmação de um cientista: «o bater de asas de uma borboleta em Nova Iorque pode provocar um tufão em Pequim». Em pleno deslace da sociedade de bem-estar, onde impera a lei e a moral dos mais fortes e onde os milhentos rostos de marginalizados que Deus recrimina e que constitui uma realidade cada vez mais transbordante que parece tudo esmagar, nós, os que conhecemos a alternativa-esperança, sabemos do poder de «um mais um». No meio desta noite convém recordar a frase do poeta, prémio Nobel, Eugenio Montale: «Me contentaría com transmitir la luz de una cerilla» [Contentar-me-ia em emitir a luz de um fósforo]. É isso: a luz de milhões de fósforos juntos pode iluminar a noite.

Estou a chegar ao fim deste escrito sobre voluntariado. Falámos de noite. Nesta crua noite eclesial que nos tocou atravessar e cuja duração ignoramos, ainda que provavelmente não seja breve, existem alguns na Igreja que não desejam de maneira alguma que o laicado, até agora silencioso, se converta num laicado ilustrado que levanta problemas sérios e graves de reforma eclesial, como é o que acontece quando se levam a sério as iniciativas provenientes do voluntariado cristão.

Outros eclesiásticos, ainda que desejem um laicado ilustrado, temem que, diante das dificuldades que se lhes possam surgir por diante, a instituição eclesial não seja capaz de dar uma resposta pronta e adequada a essas dificuldades mais que razoáveis, e isso produza uma debandada geral, quer em bicos de pés, quer batendo em cheio com a porta. Esses eclesiásticos temem uma nova crise do laicado e preferem que nem se cheguem a colocar essas candentes questões.

Outros, porém, queremos confiar no Espírito que acompanha sempre a Igreja. Aqueles que sustentamos esta confiança, desejamos um laicado plenamente ilustrado, um laicado capaz de responder ao lema da Ilustração que I. Kant cunhou com a sua frase: «Atreve-te a pensar». É certo que tal atrevimento traz consigo riscos, mas também acreditamos que vale a pena corrê-los, pois só assim estaremos a gerar a Igreja de Jesus, Igreja do futuro que está aí a chegar.

Joaquín Perea
«Iglesia y Voluntariado Social», Instituto Diocesano de Teologia y Pastoral de Bilbao, N.6, Desclée De Brouwer 2001.









[1] Considera-se muito útil a leitura das conclusões do debate interno que o Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral de Bilbao levou a cabo (1988-1990), nomeadamente naquilo que diz respeito ao processo de catequese de adultos e à promoção laical. Recomenda-se meditar, sobretudo nas páginas 66-69, sobre aquilo que tradicionalmente é considerado específico (ou até exclusivo) dos leigos: viver a fé ao nível do temporal. O que significa, por exemplo, ser militante no temporal? «Pode ser-se cristão sem se ser militante? Não constitui uma falha do processo — de todos os processos de formação catecumenal — não promover militantes«Se desde o início do processo de formação [dos leigos] não se utiliza uma metodologia que desague sempre na transformação da realidade, dificilmente se criará depois um tipo específico de acção laical no mundo» (p. 66) Cf. «Fieles a la tierra y constructores del Reino – el conflicto de los laicos cristianos», Desclée De Brouwer 1991; citado das pp. 66-67. [NdT]
[2] Cf. F. Manresa, «Asumir, corrigir, plenificar (II). Una proposta teológica», Cuadernos «Institut de Teologia fonamental», n. 1 18, Barcelona (Cristinisme i Justicia) 1991, 70-71.