teologia para leigos

19 de julho de 2022

REINO, SIM



REINO, SIM
‒ a propósito da consulta Sinodal





Contexto

Começo por referir dois factos coincidentes no tempo. O primeiro facto tem a ver com dois Autores que tinha começado a ler, precisamente quando surgiu a proposta da Consulta Sinodal por parte do Papa da Igreja Católica; refiro-me ao jesuíta belga Roger Lenaers (falecido em 2021) e ao Prof. José Veiga Torres. O segundo facto tem a ver com a minha dificuldade em sintonizar com o modelo escolhido para a auscultação. O ‘molde’ da proposta de trabalho do Papa Francisco parece-me ‘clássico demais’ para o longo tempo que já leva esta ‘vida católica oficial’ tão imbuída ainda ‒ p. ex., no terreno das Paróquias ‒ do “espírito de cristandade” (50 anos após o Concílio; «Depois da cristandade»; ¿Para qué la Iglesia?). Com este muito particular «Documento Preparatório - Sínodo 2023», percebe-se que o centro das atenções da metodologia de Francisco é a própria instituição. Devo confessar abertamente que isso merece uma séria reflexão. Sobretudo porque, a ser assim, a consulta caminha de costas-voltadas ao descentrado Espírito de Jesus Cristo. João 14,15-26 ‒ Jesus diz: Eu não sou importante. Importante é o espírito que está em vós (v.17). Quem crê em mim também fará as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas… Se me tendes amor, seguireis os meus passos e fareis o meu Caminho. Irei ser assassinado, mas não vos deixarei órfãos … Eu não sou o que importa, pois o que mais importa é «Quem acolhe o meu testemunho e o põe em prática» (v.21).

Também fiquei a interrogar-me quando me pus a contemplar o doloroso espírito do Mundo actual e o lugar que lhe estava reservado neste modelo de consulta («A sociedade da transparência», , «Meios sem fim», «Paradoxos do individualismo», «Política, Ética e Religião»). Foi então que me interroguei: será que, de facto, Roma jamais será capaz de superar o «eclesiocentrismo», o crónico «apascentar-se a si própria», essa incubadora de mártires, génios e profetas, mas também de carreirismo e autopromoção local e universal?

O Concílio Vaticano II deixou-nos uma enorme lista de questões para resolver. Elas começaram por ser valentes dores de cabeça para a Cúria, mas, de imediato (meia dúzia de anos apenas), foram tratadas como «documentos» a dissecar para ‘consumo consoante’, ou seja, para «citar» consoante. O Vaticano ‒ garante da boa Tradição ‒ conservou, até hoje, os textos do Concílio … no frigorífico. Não lhe deu o seguimento práxico como lhe competia.

A consequência é que, após o Concílio Vaticano II, a debandada dos católicos continuou e até se acentuou («Humanae Vitae», Papa Paulo VI, 1968). Ao mesmo tempo, começaram a perceber melhor porque se sentiam mal (“enganados”): alguns teólogos afirmaram que a Igreja Católica já não era a concretização terrena do «Reino de Deus» anunciado por Jesus (ainda nos lembramos da expressão “extra Ecclesiam nulla salus” ‒ «fora da Igreja não há salvação» ‒ expressão de S. Cipriano de Cartago, que Joseph Ratzinger retoma subtilmente na “Dominus Iesus”). Por outro lado, leigos mais críticos e letrados deram-se conta que até seria teologicamente concebível a existência de cristãos anónimos … (cf. «Los cristianos anónimos», Cap. XII de “Escritos de Teología-VI”, K. Rahner, Ed. Cristiandad, Madrid 2007, p. 485-493).

Após o pregão de Alfred Loisy ‒ «Jésus annonçait le Royaume, et c’est l’Église qui est venue» ‒ esses mesmos leigos passaram a interrogar-se: merece a Igreja ser objecto da nossa fé? Na verdade, na versão latina do Credo, não está lá «creio na Igreja», mas “credo ecclesiam” («creio [que existe a] Igreja»)… Além disso, se esta Igreja é tudo menos uma “verdadeira assembleia de amor”… e apenas um ajuntamento dominical onde todos até condescendemos num muito artificioso ‘abraço da paz’…, merece crédito de fé, esta Igreja assim? Rapidamente, tudo se complicava.

Quando surge o slogan «Jesus sim, Igreja não!» não faltaram as reacções desestabilizadoras. O certo é que mais uma vez, mas agora com Francisco, esta Consulta Sinodal parece querer ir na mesma linha de preocupação manifestada por alguns diante do Concílio Vaticano II: tornar a Igreja apenas «mais apta» (Paulo VI). Reparemos. Em todos os 8 «objetivos de grande relevância para a qualidade da vida eclesial e para o cumprimento da missão de evangelização» com que o “Documento preparatório Sínodo 2023” abre (cf. Ponto 2. - «caminhar juntos»), o objectivo visado é sempre o incremento da qualidade do ‘ser Igreja’, o qual por larga maioria é ‘ad intra’. Com esta consulta, reforça-se assim, pois, a preocupação da Igreja católica consigo mesma, enquanto a crise de identidade e de pertença vai abalando de uma maneira violenta os alicerces da própria instituição: taxa de baptismos, ‘baixa’; taxa de casamentos, ‘baixa’; taxa de divorciados recasados, ‘brutalmente alta’; sacramento da penitência, ‘zero’; participação na eucaristia, ‘em queda continuada’; vida sacerdotal e ordenações sacerdotais, ‘crise profunda’; paróquias sem sacerdote, ‘em crescendo’. Face ao século XX, onde o Concílio Vaticano II pontificou como uma aragem promissora, nós, os do século XXI, com este ‘modelo’ de «abordagem virada para dentro» («Documento Preparatório – Sínodo 2023»), avançamos mesmo ou marcamos passo? Como o caraterizar? Estamos, de facto, perante uma estratégia eivada de «ousadia» do nível da insuperável capacidade de ruptura do «Bom Papa» Roncalli, logo após a sua investidura?

50 anos a marcar passo

É lei geral das instituições humanas acabarem por confundir os seus fins com os seus próprios interesses. Ora, todos sabemos que “o culto religioso” gira em torno de sacerdotes que ‘oficiam’ e ‘oferecem sacrifícios a Deus’ à volta de um altar. A expressão do Catecismo ‒ «Fonte e Cume» (n. 1324) ‒, aplicada, ‘a secas’, à eucaristia (passe o espanholismo) fez com que a Missa arrebatasse o melhor do quinhão da vida da Fé do crente e, a ela, o amarrasse: «Tudo a ela se ordena», diz o Catecismo. Na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa. Não há Igreja, salvação, acção pela qual Deus em Cristo santifica o mundo, nem vida de fé, sem eucaristia (Catecismo ns. 1324-1327).

A Igreja católica, no seu geral, não conseguiu intuir os “sinais conciliares”, nem perceber que após o Concílio urgia recentrar a sua missão, nomeadamente, passar de uma Religião à volta do Rito e do Culto a Deus (Antigo Testamento) para o anúncio do Reino de Deus proclamado por Jesus (Novo Testamento).

Recordemos o que, entretanto, foi acontecendo após o Concílio. Nos anos 60-70 (séc. XX) surge o movimento «Regresso a Jesus» (prioridade aos Evangelhos, regresso aos textos); mais tarde, anos 80-90, surge o slogan «Deus sim, Igreja não» (“dissociação”; crer, mas não pertencer - «believe without belong»). Mais tarde, «Religião sim, Deus não» (fragmentação da cultura pós-moderna; “alternativas religiosas”; ‘religião sim, mas o Deus dos cristãos não’; “religião à la carte”). Em suma, a religião cristã, que a Instituição apresenta no espaço público, começa a ser relativizada. A sua procura retrocede consideravelmente e o catolicismo (europeu, mas não só) decai.

Que tem Jesus a ver com isto?

Hoje sabemos (de modo fundamentado) que Jesus de Nazaré não pregou nem fundou uma Igreja, Jesus não ordenou nem “enviou” uma hierarquia de eclesiásticos, não formulou nem instituiu os sacramentos (Eucaristia, etc.), não definiu serviços ministeriais, não pregou uma nova Religião, etc. Sendo verdade que tudo foi construído apenas por mãos humanas, então, ao verificar-se a necessidade de reformas tudo poderia ser igualmente reformulado por seres humanos. Acontece que essa pretensão colide de frente com a dita “origem divina” da Instituição eclesial, com a dita “origem divina” da ordenação dos sacerdotes, com a dita “origem divina” da configuração dos sacramentos, etc., pelo que só os eclesiásticos ‒ intermediários entre Deus e os homens ‒ estão mandatados para o fazer. Como nestas matérias só ‘entram’ eclesiásticos auto-divinizados, de nada adianta a consulta sinodal aos leigos sobre esses assuntos, pois a sua opinião nunca poderá ser vinculativa enquanto não se anular a usurpação da ‘origem divina das ordens’ por parte dos eclesiásticos. Eu creio que essa anulação nunca irá acontecer, na medida em que isso significaria o fim da «Religião Católica», uma verdadeira hecatombe. Quanto a isto, Jesus está ilibado. Ele não tem nada a ver com este estado de coisas. É tudo da responsabilidade dos homens. Por isso mesmo, eu guardo sérias dúvidas sobre o real valor desta consulta sinodal. Como diz o ditado árabe, «Os cães ladram e a caravana passa.»

Aquando da presença de Francisco nas JMJ no Brasil (2013), o Professor Alfredo Valladão reparou no que estava a acontecer com os movimentos evangélicos e deu-lhe para os comparar com a maneira como a estrutura da Igreja Católica brasileira agia com o mesmo tipo de povo: “Francisco foi eleito para pôr a casa em ordem e reconquistar os corações perdidos dos fiéis. Mas não há reconquista que não passe pela América Latina. Basta olhar para um mapa-múndi religioso para constatar que a região contém mais de 40% dos que se declaram católicos no Universo e que o Brasil é a maior potencia católica do planeta com mais de 160 milhões de fiéis.” E acrescentou: «Um povo sem segurança e sem garantias. Famílias destruídas, instituições carentes. Do caos desta urbanização selvagem nasceu o “indivíduo”, solto, sem referências sociais, cuja sobrevivência depende da sua capacidade de iniciativa própria. Cada um por si e Deus por todos. Na última década, a nova Classe C mergulhou na sociedade de consumo e cada um quer participar da festa. Pela primeira vez o espírito do capitalismo e do sucesso individual chegou às populações mais pobres do país. Tudo isso é bênção de Deus para os movimentos evangélicos que trabalham numa relação direta com cada pessoa, exaltando as emoções. Para os crentes, o Paraíso é aqui e agora. O sucesso econômico é uma manifestação direta e individual da graça divina. Melhorar de vida, trabalhar duro e ganhar dinheiro são valores que devem ser cultivados. A responsabilidade individual é promovida como regra central de comportamento. Nas assembleias de crentes a confissão é pública e o pecador assume seus pecados perante os outros e perante a Deus, sem intermediários.

«A Igreja católica tem as maiores dificuldades em se adaptar a este novo mundo. O aparelho católico construiu sua força e seu poder como um “corpo intermediário” entre Deus e os homens. No seu relacionamento com o divino, o católico tem de passar necessariamente pela mediação do padre, das ordens religiosas, de toda a pesada estrutura eclesiástica. Apesar das inovações do Concílio Vaticano Segundo, a liturgia católica ainda está longe de ser “participativa”. A confissão segredada (‘cochichada’) a um sacerdote, que ostenta o poder de conceder a absolvição, retira a responsabilidade e a culpa individual do pecador para reintegrá-las no corpo coletivo da Igreja. Uma Igreja que detêm a chave do Paraíso. Que não é deste mundo.» (https://www.rfi.fr/br/)

Há então que fazer a seguinte pergunta: se Jesus não reformou a sua Igreja judaica nem anunciou uma Nova Religião, então o que é que Jesus veio anunciar que fosse verdadeiramente novo? A resposta a esta pergunta entrou num texto conciliar (p. ex., Lumen Gentium 5). Há que relevar que, dez anos após a abertura do Concílio, o Papa Paulo VI, fruto da presença impactante das Igrejas da América Latina nos trabalhos conciliares («Pacto das Catacumbas»), fez questão de referir essa imprescindível centralidade do Reino na sua «Evangelii Nuntiandi» (ponto n. 8), o que ficará para a história do pós-Concílio: «Como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser "o resto" que é "dado por acréscimo". Só o reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele.» (“Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.” – Mateus 6,33). Esta “pérola” teológica acabaria por ser vilipendiada pelo superintendente da «Doutrina verdadeira», card. Joseph Ratzinger», do que resultariam críticas e sanções muito graves a alguns teólogos não-europeus, mas também europeus. À época, era Papa o cardeal Karol Wojtyla.

Por aqui vemos que a menina-dos-olhos de Jesus reside, pois, na expressão que os evangelistas guardaram como um tesouro no seio de comunidades de vida fraterna: «Reino de Deus», «Reino dos Céus» ou «Reinado de Deus» (Marcos 1,14-15, Mateus 18,1). Quem quer que vire as costas à Igreja católica, quem aponte o dedo à Igreja católica, quem a pretenda reformar, quem a defenda obstinadamente contra-ventos-e-marés tal como está ou ache que ela deve ser apenas «mais apta», modernizando-a («Evangelii Nuntiandi» n. 2), terá, inevitavelmente, de responder à pergunta “o que é que Jesus de Nazaré queria dizer com aquilo que Ele anunciava como decisivo, o Reino de Deus?”. É aqui que está a questão que decidirá sempre o futuro da instituição católica, instituição que foi vivendo desde o séc. IV até … bem dentro do século XX … (o que é espantoso!) em «Regime de Cristandade», regime que há muito se esgotou.

A primeira questão que a “Consulta Sinodal” deveria, por conseguinte, colocar é: que significou, para Jesus de Nazaré, o «Reino de Deus?», que significou esse grande omnipresente na vida de Jesus? Se no decorrer da consulta sinodal os cristãos não derem, antes de mais, resposta a essa pergunta, o futuro da Mensagem de Jesus ficará uma vez mais adiada…

Cristologia

A condição crente é, antes de mais, a condição daqueles que colocam a sua Fé em Jesus Cristo e a partir d’Ele conformam a totalidade do seu projecto de vida. Mas, para isso, é preciso saber quem é Jesus Cristo. A resposta é, então, do foro da cristologia. Portanto, a questão central da Consulta Sinodal deverá ser do foro da Cristologia e não da Eclesiologia. A cristologia é o discurso sobre Jesus ‘sub specie regni’, ou seja, à luz do Reino. Nada do que se diga de Jesus pode ser dito se não estiver em sintonia com o Seu projecto de Reino de Deus. Uma cristologia sem Reino é mera formalidade. Jesus serviu para justificar ditaduras, massacres, perseguições e assassinatos (muitas vezes, à ordem da própria Igreja de Roma). Portanto, há que exigir sempre esta referência ao Reino, quando se impõe justificar acções e programas humanos ditos cristãos. A Pessoa de Jesus e o Mistério que o habita estão em muito íntima dependência do Seu projecto de Vida ‒ o Reino de Deus ‒, o qual Ele exerceu em estreita relação com a vontade do Pai (Getsémani; Mateus 26,36). Só podemos falar de Jesus (e justificar-nos) a partir da sua história e da sua práxis: que fez e que disse Jesus (gestos e palavras, sabendo de antemão que as Suas ‘palavras’ não eram parte de discussões ou falatório, antes desencadeavam ‘acções’). Aceder ao que Jesus disse e fez é uma realidade que não está ao nosso alcance sem o recurso, em primeira instância, à leitura dos evangelhos. Se excluirmos o livro dos Actos dos Apóstolos, a expressão “Reino de Deus” (ou Reino dos Céus) surge cento e quatorze vezes nos Sinópticos. Torna-se evidente que, entre Jesus Cristo e ‘Reino de Deus’, se constitui um círculo hermenêutico, que acaba por ser um princípio epistemológico para a Cristologia. A circularidade hermenêutica entre Jesus e o Reino é a condição fundamental que há que ter em conta para se conhecer Jesus Cristo. A pessoa e a missão de Jesus Cristo só podem ser conhecidas à luz do Reino. É o que quer dizer ‘circularidade’: se pretendo conhecer uma destas duas realidades ‒ Reino ou Jesus ‒ necessito iniludivelmente de me referir à outra. Marcos 8,33 é um bom exemplo prático desta circularidade: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens.». Em concreto: compreender quem era Deus para Jesus e em que consiste esse Reino de Deus para Jesus implica ter sempre presente como Jesus optou pelos pobres e pelos marginais (Lucas 17,11), implica ter sempre presente as Bem-aventuranças (Mateus 5), implica o poder como serviço e não como domínio (Mateus 20,28), implica fazer como Ele fez a práxis do “esvaziamento, da humilhação e da encarnação”, como denunciou profeticamente tudo aquilo e todo aquele que atenta contra a vontade de Deus-Pai, que quer que o ser humano viva e tenha vida em abundância (João, 10,10).

Compreender Jesus a partir do Reino de Deus faz com que nos coloquemos diante da concreção histórica da pessoa de Jesus e do modo como Ele se inscreve nas Promessas Históricas do Antigo Testamento ou como Jesus deita raízes bem fundas na Memória dos Hebreus, quanto à opção pela condição humilde, pelo desprendimento diante da tentação da acumulação egoísta, bem como quanto à solidariedade para com os escorraçados do sistema imperial (Lucas 4,16-30). É a partir da práxis de Jesus que acolheremos o Reino de Deus na História, evitando a vontade de poder e de domínio típica do ser humano (Idem, v. 28: «todos se encheram de furor»). Esta tentação, sempre patente, também se manifestou em Pedro, o qual diante do destino de rejeição, de conflito, de condenação e perante o vaticínio da morte do seu amigo, lhe puxa o braço para o lado a fim de o repreender. Convém relembrar que o motivo porque Jesus foi condenado à morte tem a ver com o seu projecto de instauração do Reino de Deus pelo qual deu a sua vida até ao fim (Marcos 15,43: «José de Arimateia também esperava o Reino de Deus»). Em suma, Jesus não é o mediador entre Deus e os homens. Jesus é o mediador entre o Reino de Deus-Pai-Misericordioso e a humanidade.

«(…) melhor se conhece a interioridade humana de Jesus a partir da exterioridade da sua relação com o reino. Essa exterioridade é a que melhor nos revela no concreto ‒ in actu ‒ o Jesus comprometido com a verdade, misericordioso e justo, denunciador e desmascarador, disponível e fiel. É essa exterioridade, exigida pela construção do Reino de Deus, que vai configurando a sua interioridade pessoal quanto à sua relação com o Pai.» (Jon Sobrino, «Cristología sistemática – Jesucristo, El mediador absoluto del Reino de Dios», in ‘Conceptos fundamentales de la Teología de la Liberación’, Vol I, UCA Editores y Trotta Madrid 1990, pp. 579-580).

Reino, sim

Numa época em que todo o Mundo já ultrapassou o slogan de que ‘a religião é ópio do povo’ e em que a dimensão “Mistério da Vida Humana” vai saindo à rua por diversos poros (férias e fins-de-semana frugais, poesia, literatura, contemplação, arte, modos de vida familiar alternativos, «solidariedade activa na história» [Mt 25,31-46], etc.), damo-nos conta de que “a vida humana não se esgota no mundo físico. Há uma série de «mundos» ou âmbitos que não são tão palpáveis nem são descritíveis e, no entanto, são reais, existem [e exigem-nos], e são importantíssimos para a vida humana – é o caso da interioridade: o mundo da vida psíquica, das vivências, dos sentimentos, dos desejos, das frustrações, dos traumas, [da vida em comum, o viver juntos].” (J. M. Mardones, «Matar a nuestros dioses», p. 200).

Ora, é então que faz sentido a expressão «Reino» como o universo do gratuito, do encontro e da verdade plena. A ser assim, outras tradições religiosas e culturais poderão enriquecê-la com valorações para lá das expressões cristãs “Igreja, Cristo, Jesus ou Deus”. Inclusivamente, os cristãos poderão preenchê-la com Graça e Verdade plena, Encontro fraterno, ‘agapê’. Se estivermos inspirados, poderemos realizar o «Encontro Humano» à volta da dimensão duma «Vida Abundante» que seja fruto da justiça, da fraternidade e da paz, permitindo confluir para aí seres humanos de distintas tradições culturais e religiosas que valorizem a centralidade da compaixão. Não vivenciaram outros, antes de nós, que a Graça de Deus chega sempre antes que o Evangelho seja proclamado? «É assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós» (cf. Romanos 5,5-10). E que são estas “migalhas de Reino” senão aquilo que os Padres da Igreja chamavam “semina Verbi”, consequência da encarnação do Verbo que assume todo o tipo de ser humano (Filipenses 2,1-11)?

Se quisermos abrir novas rotas à Igreja do século XXI, esta categoria elementar ‒ ‘Reino’ ‒ será capaz de franquear uma nova perspectiva de diálogo e de procura comum com muitos homens e mulheres que partilham, como horizonte, aquilo que Jesus também possuía (mesmo que não o identifiquem como «o Mestre» de Nazaré; seria preciso, agora, reler Karl Rahner in «Fundamentación sacramental del estado laical en la Iglesia», Escritos de Teología VII, Taurus Madrid 1969, p. 364, linhas 3-8). Esta perspectiva evangelizadora das ‘semina Regni’ convida-nos a ter um olhar da história e da realidade a partir daquilo que também era fundamental para Jesus: o Reino. Assim, confluindo nós para «O Reino» ‒ sem o complemento ‘de Deus’ ‒ podemos associar as nossas forças à de todos aqueles que queiram, não só curar os feridos que jazem na margem do caminho, mas também aos que queiram interrogar-se acerca das razões de por que é que o caminho continua a expulsar e a despejar vidas humanas, bem como, ao mesmo tempo, como é que nós poderemos refazer o caminho novo da liberdade, da justiça, da paz e da fraternidade, onde não haja verdugos nem vítimas, mas sim Reino, Reino, sim!

Seria muito triste que, depois de termos colocado no centro do nosso olhar precisamente aquilo que Jesus colocou no centro do seu olhar ‒ um Reino de paz e de justiça sem verdugos ou vítimas, mas apenas ‘agapê’ (C. Spicq) ‒ voltássemos, neste século XXI, a olhar apenas para o nosso umbigo… Perante isto, creio que é desnecessário referir que as questões insistentemente reclamadas nas respostas à Consulta Sinodal ‒ mais democratização dentro da Igreja católica, ordenação das mulheres, partilha do poder de decisão, ordenação de homens casados, repescagem de sacerdotes afastados, etc., etc., etc., curiosamente tudo «aquilo que nos seria dado por acréscimo» se nos lançássemos à construção do Reino de Deus e que, precisamente por isso, não nos deveria moer o juízo ‒ são secundárias apenas por uma razão: porque elas terão forçosamente de ser referidas à questão central da Vida de Jesus:

La centralidad del reino de Dios anunciado por Jesús .



Paulo Bateira

28 de Junho de 2022