24 de Outubro de 2014

PARÓQUIA: QUE FUTURO? [W. KASPER]

FUTURO DA ESTRUTURA PAROQUIAL





1.   Paróquia e comunidade

Os problemas e as mudanças não acontecem apenas ao nível da Igreja universal ou das igrejas particulares: acontecem igualmente ao nível das comunidades locais. A este nível, esses problemas são perceptíveis de modo imediato já que, se a grande maioria dos fiéis se sente como que em casa na Igreja, isso acontece através da mediação da paróquia ou da sua comunidade local. Este sentir-se em casa tem vindo a dissolver-se de modo progressivo, acompanhando as actuais transformações em curso (quer na sociedade, quer na Igreja), pela simples razão de a paróquia, a comunidade política e o ambiente social já não constituírem, entre si, uma unidade homogénea[1]. É certo que esta realidade não é uniforme − varia de região para região −, mas esta tendência geral acaba por ser comum a todos países da Europa ocidental.

(…)

A partir do Concílio, a comunidade local vê-se confrontada, quer com a mudança geral da sociedade, quer com a mudança intra-eclesial. As mudanças sociais levaram à progressiva destruição da estrutura tradicional dos povos, ao aumento da componente urbana, a uma mobilidade da população como nunca havia acontecido e a um pluralismo social, cultural e religioso que trouxe como consequência o desaparecimento da forma tradicional de se ser igreja (igreja-povo), bem como do seu ambiente relativamente homogéneo, do ponto de vista confessional[2]. Voltamos, hoje em dia, a viver como os primeiros cristãos, cada vez mais como estrangeiros e em situação de diáspora. Esta situação, quer da sociedade, quer da igreja, faz com que em grande medida não se possa continuar a manter, na Europa ocidental, a estrutura paroquial e o seu modo de continuar a exercer a assistência espiritual aos fiéis que tradicionalmente se vem exercendo.

O finar ou o ir-se aos poucos finando essa igreja-povo muito integrada e demasiado encamisada pelo ambiente circundante é, para além de outros motivos, uma das razões para o decréscimo do número dos católicos praticantes. E isso, a que se somam outros motivos, é uma das causas para o retrocesso das vocações sacerdotais. Aquilo que se costuma designar por "escassez de padres" não se pode ajuizar tendo como referência o número de católicos praticantes, mas, sim, a estrutura paroquial herdada do passado, tal como ela se desenvolveu segundo o modelo de igreja-povo. A maior parte das dioceses procura resolver esta dificuldade criando federações de paróquias ou "unidades paroquiais e de pastoreio", mantendo a estrutura das paróquias tradicionais. Há casos bem sucedidos, mas a longo prazo este modelo tornar-se-á insatisfatório para as comunidades, bem como constituirá uma sobrecarga de trabalho para os sacerdotes. Não é possível continuar a jogar ao faz-de-conta por muito mais tempo com o modelo igreja-povo, ao mesmo tempo que essa igreja se vai dissolvendo pelas razões as mais diversas[3]. A resposta à pergunta acerca de qual é o caminho correcto para se alcançar uma nova forma vital e social de ser igreja é evidente que não se pode receitar assim, sem mais, a partir dum gabinete de trabalho. Muito menos se poderá consegui-lo apenas com medidas administrativas e organizativas impostas por decreto. Uma nova forma social terá que ir crescendo tendo como alicerce uma eclesiologia de Povo de Deus, e ao longo de um longo caminho.

(…)

2.   A paróquia do futuro: uma igreja que seja o centro de muitas comunidades

A forma concreta da futura igreja do povo não poderá ser desenhada a partir das suas carências. Em concreto: não poderá ser desenhada a partir da carência de sacerdotes nem da falta de comunidades. Uma metodologia que se resuma a dividir o mal pelas aldeias e reduza a presença da igreja ao mínimo e ao superficial − como que sem um centro – não está voltada para o futuro, mas para o passado, pelo que não terá futuro. Esta nova iniciativa terá que arrancar de uma forma positiva, interrogando-se como poderá, no (…)

Walter Kasper, [1933-], professor de teologia em Münster e Tübinger; bispo de Rottenburg-Stuttgart (1989); assessor da Santa Sé (a partir de 1999); Cardeal em 2001 [p/ P. João Paulo II].







[1] Diz o Código de Direito Canónico (CJC) de 1983, can. 518: «Paroecia regula generali sit territorialis…», ou seja, «como regra geral, a paróquia há-de ser territorial…». [NdT]
[2] F. X. Arnold-K- Rahner (eds.), «Handbuch der Pastoraltheologie», 5 vols. Freiburg i.Br. 1964-1972; K. Rahner, «Strukturwandel der Kirche als Aufgabe und Chance», Freiburg i.Br. 1972. Numa perspectiva pastoral-sociológica: K. Gabriel, «Christentum zwischen Tradition und Postmoderne», Freiburg i.Br. 1995; M. Ebertz, «Erosion der Gnadenanstalt? Zum Wandel der Sozialgestalt von Kirche», Frankfurt 1998; W. Huber, «Kirche in der Zeitenwende. Gesellschaftlicher Wandel und Erneuerung der Kirche», Göttingen 1998; P. M. Zulehner, «Kirche umbauen – nicht totsparen», Ostfildern 2009, etc.
[3] Não há maneira de não estar de acordo com as análises e as conclusões que tiram Medard Kehl, «Adónde vá la Iglesia? Un diagnóstico de nuestro tiempo», Presencia Teológica, Sal Terræ; e G. Greshake, «Ser sacerdote hoy», Sígueme, 274-296. 


22 de Outubro de 2014

IGREJA:OBSTÁCULO OU AUXÍLIO? [W.KASPER]

A ECLESIALIDADE DA FÉ


card. Walter Kasper


(…)
3. O encontro colectivo da verdade «a partir de baixo»

Segundo a Escritura, o Espírito foi dado a todos os baptizados[1], sem ficar reservado exclusivamente para um estado determinado, no interior da Igreja. Todos são espirituais! (Gl 6,1) A plena autoridade e a missão de testemunhar o «evento de Jesus» na história recaem fundamentalmente sobre toda a Igreja e sobre todos os seus membros. Todos formam, em conjunto, um povo real e um sacerdócio santo, encarregado de anunciar as maravilhas de Deus (1Pe 2,9; Ap 1,6; 5,10; 20,6). Por meio do baptismo, foram iluminados os corações de todos (Ef 1,18). Todos possuem o sentido de Cristo (1Cor 2,16) e um tacto apurado para poderem comprovar o que lhes é dado (Fl 1,9s). Não precisam, portanto, de ser ensinados por ninguém (1Jo 2,20.27).

Durante muito tempo, não se prestou atenção, na Igreja, à verdade fundamental do Cristianismo primitivo, segundo a qual o testemunho do Espírito é confiado a todos os cristãos. É revelador o léxico eclesial de Wetzer e Welte, do ano de 1884; ao tratar o vocábulo «Leigo», resolve a questão com esta nota lapidar: «Leigo, ver Clero». Os leigos são tidos na conta de simples grandeza negativa, descrevem-se como os não-clérigos. São leigos, no sentido profano de não-especializados, que nada percebem do assunto, não devendo, portanto, participar na discussão. Não causa surpresa, pois, se encontrarmos no mesmo dicionário, no artigo relativo a «Clero», esta afirmação breve e concisa: «Ninguém pode admitir seriamente o sacerdócio dos leigos». E referir-se à primeira epístola de Pedro, constitui «uma amostra de mau gosto e de erro exegético». Segundo o artigo aduzido, «só numa acepção imprópria e muito secundária é que se pode falar de sacerdócio dos crentes»[2].

Não admira que o futuro cardeal Newman tenha causado suspeitas e indignação ao publicar, em 1859, na atmosfera de semelhante teologia tão petrificada, o escrito «Sobre a consulta dos fiéis em questões de doutrina», onde prova «que o dogma de Niceia, durante a maior parte do século IV, se manteve, não através da firmeza inamovível da Sé de Roma, dos concílios ou dos bispos, mas através do «consensus fidelium»[3]. Na valorização do sensus e do consensus fidelium, Newman poderia estar a referir-se ao teólogo de Tübingen, J. A. Möhler. As suas ideias só no nosso século atingiram a sua plena explicitação. Na Constituição sobre a Igreja "Lumen Gentium", o concílio Vaticano II afirma: «A totalidade dos fiéis… não pode enganar-se na fé. Esta sua prerrogativa peculiar manifesta-a por meio do sentido sobrenatural da fé de todo o povo, quando "desde os bispos até aos últimos fiéis leigos" [Cfr. S. Agostinho, De Praed. Sanct. 14, 27: PL 44, 980] presta o seu consentimento universal em matérias de fé e costumes». (N. 12) Este enunciado tem de ver-se no vínculo com a afirmação da Constituição sobre a Revelação "Dei Verbum", segundo a qual a Igreja não transmite apenas a fé em fórmulas, mas «através de tudo o que ela é em si mesma e de tudo o que crê». (N. 8) A experiência e a práxis da fé dos fiéis participam igualmente no testemunho eclesial da fé.

No caso de ocorrerem discrepâncias entre a doutrina do magistério da Igreja e a experiência quotidiana da fé dos fiéis − tal como hoje acontece, em larga medida –, esses conflitos não se resolvem pela simples repetição e nova adesão, fora de toda a disputa, às formas de fé veiculadas pela tradição. A verdade do Evangelho só sobressai através do consenso de todos. A eclesialidade da fé não se exprime, primariamente, por meio da obediência ao ministério eclesial; não se revela também em dizer sim com a cabeça ou em engolir tudo, mas na audição e na consideração mútuas. Cada um deve transportar e incitar o outro na fé e, se for preciso, criticá-lo. Segundo a Escritura, cada um tem o seu carisma (1Cor 7,7; 1Pe 4,10). Todos devem ouvir-se reciprocamente e aprender uns dos outros: os doutores aos pastores, os pastores aos doutores e aos profetas; estes, por sua vez, devem assumir a norma naqueles que possuem o carisma do ministério concreto na Igreja. A obediência, na Igreja, nunca se limita a ser de sentido único: constitui um acontecimento recíproco.


4. Três critérios

Na Igreja actual [1972], ocorrem a este respeito várias dificuldades. No passado, (…)

Walter Kasper







[1] Ver, F. X. Arnold, «Kirche und Laientum», in: «Glaubensverkündigung und Glaubensgemeinschaft», Düsseldorf 1955; Y. Congar, «Der Laie. Entwurf einer Theologie des Laientums», Stuttgard 1957 [há edição em castelhano]; H. Küng, «Die Kirche», Freiburg-Basel-Wien 1967, 437-457 [há edição em castelhano].
[2] Art. Laien, in: «Kirchenlexikon» VII (p. 1891) 1323; Art. Clerus, Ibid III (p. 1894) 546.
[3] J. H. Newman, «Über das Zeugnis der Laien in Fragen der Glaubenslehre», in Ausgewählte Werke, hg. v. M. Laros und W. Becker, IV, Mainz 1959, 273.

30 de Setembro de 2014

POR UMA IGREJA TEAM-WORK [R.BLANK]

A Igreja que «sai à procura»

«La cultura del benessere, che ci porta a pensare a noi stessi [apenas em nós], ci rende insensibili alle grida [grito] degli altri, ci fa vivere in bolle di sapone, che sono belle, ma non sono nulla, sono l’illusion del futile, del provvisorio, che porta all’indifferenza verso gli altri, anzi porta alla globalizzazione dell’indiferenza. In questo mondo della globalizzazione siamo caduti nella globalizzazione dell’indifferenza! Ci siamo abituati alla sofferenza adell’altro, non ci riguarda [não nos diz respeito], non ci interessa, non è affare nostro!», Papa Francesco, Omelia del Santo Padre, Lampedusa, 8 luglio 2013.

«Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, estilos, horários, linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal propiciador mais da evangelização do mundo actual que da auto-preservação. [Sonho com] a reforma das estruturas (…) em atitude constante de "saída" (…) para não desfalecer vítima duma espécie de introversão eclesial. (…) [Este sonho] Deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados (…). Ficar surdo a este clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projecto (…).», Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n. 27.186.187.

«A Igreja «em saída» é a comunidade de discípulos missionários que "primeireiam", que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam – desculpai o neologismo –, que toma a iniciativa! A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, que a precedeu no amor (cf. 1Jo 4,10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, sabe ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. (…) Ousemos um pouco mais quanto a tomar a iniciativa!
«Como consequência, a Igreja sabe "envolver-se". Jesus lavou os pés aos seus discípulos. O Senhor envolve-se e envolve os seus, pondo-se de joelhos diante dos outros para os lavar, mas, logo a seguir, diz aos discípulos: «Sereis felizes se o puserdes em prática» (Jo 13,17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o «cheiro a ovelha», e estas escutam a sua voz.
«Em seguida, a comunidade evangelizadora dispõe-se a «acompanhar». Acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a fadiga apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações.
«Fiel ao dom do Senhor, sabe também «frutificar». A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio. O semeador, quando vê surgir o joio no meio do trigo, não tem reacções de lamentação ou de alarmismo. Encontra a maneira de fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova, apesar de os frutos serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O discípulo sabe oferecer a vida inteira e entregá-la até ao martírio como testemunho de Jesus Cristo, mas o seu sonho não é estar rodeado de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e manifeste a sua força libertadora e renovadora.» Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n. 24.





O ideal de uma Igreja que no seu seio superou toda e qualquer dicotomia


1.   A Igreja é capaz de se renovar, porque nos alicerces dela está o Espírito de Deus que é transformador

Esta Igreja é capaz de mudar. Também é capaz de ouvir propostas que questionam. Ela não só é capaz de as ouvir como também de as concretizar. Esta Igreja, que amo e pela qual estou entusiasmado, também é capaz de ser a grande alternativa para o futuro deste mundo, tal como tantas vezes aconteceu no passado.

Por causa disto não tenho medo de formular esta análise. Também não tenho medo de fazer propostas que sejam consequência da análise. Se as propostas são boas, o Espírito Santo nos incentivará à sua concretização. Se elas não prestarem, incentivará outros a formular propostas melhores.

«Um Deus que constantemente nos chama à conversão, chama também a Igreja para que ela mude, para que ela sempre de novo se converta, para que ela não se entrincheire dentro de generalidades piedosas, por trás de declarações diplomáticas e equilibradas e debaixo de tentativas legalistas para sustentar o seu próprio poder.

«Um Deus que chama à conversão, está constantemente a desafiar também a Igreja para que ela se lembre do seu Senhor Jesus Cristo. Se lembre daquele Senhor que, como todos nós sabemos, proclamou como dever primordial dos seus seguidores o servir e não o dominar.»[1]

Este Deus capacitará a Igreja para encontrar o caminho também nesta época pós-moderna, pós-industrial e até pós-cristã. E por causa disso, podemos começar a imaginar desde já uma maneira nova de que ela se revestirá no futuro. Podemos imaginar formas novas que manterão toda a sua riqueza que vem do passado, passado que, no entanto, não é fardo, empecilho, mas inspiração.

É nesta época, cheia de promessas, apesar de tantos sinais negativos, que esta Igreja chama de maneira especial os leigos e as leigas a serem protagonistas de uma nova evangelização. Evangelização que visa o mundo fora dela, mas que, ao mesmo tempo, implica a sua própria transformação, à qual a Igreja incentiva os seus integrantes leigos e leigas, chamando-os a participar de maneira activa e responsável.

Incentivado pela convicção de que as palavras que se seguem são mais do que palavras vazias, tentarei, em seguida, formular dez princípios para uma Igreja na qual se leve a sério aquilo que os documentos dizem; uma Igreja que leve a sério aquilo que se encontra nos textos básicos da nossa fé, uma Igreja em que haja verdadeira comunhão e participação de todos, conforme os seus carismas e motivada pelo desejo de servir.
2.   Princípios básicos para uma Igreja em que haja verdadeira comunhão e participação de todos

2.1                   Os ministros exercem as suas funções em comunhão e participação, conforme os seus respectivos carismas

Numa Igreja assim, atitudes de "poder" ou de "autoridade" acabam por ser superadas por atitudes de serviço profético e sacerdotal. No centro do pensamento há o respeito e a valorização dos carismas, de tal maneira que o seu organograma não acentue, à maneira de um sistema feudal, os caminhos autoritários e piramidais herdados por toda uma tradição de atitudes autoritárias. Atitudes, aliás, que em nada podem ser justificadas se recorrermos àquele que é o único parâmetro indiscutivelmente válido para todos: Jesus Cristo, raiz e fundamento de todo o pensamento cristão.

Recordando esse facto fundamental, será possível, na estrutura da Igreja, superar também os mecanismos de poder ainda existentes, porque neles reconhecemos restos de um passado superado, iniciado com Constantino no século IV e terminado com as interferências dos governos actuais. Todos esses mecanismos querem, muito mais, uma Igreja de poder hierárquico que manda a partir de uma "mentalidade jurídica"[2], do que uma "Igreja fraterna, que renuncia a qualquer pretensão de autoridade patriarcal dentro dela, tal como propõe o evangelista em Mt 23,3-11".[3]

Em vez de continuar também no futuro com estruturas, e muitos aspectos, ainda longe daquilo que era a intenção original de Jesus, devemos ter a coragem de, em nome dele, assumir reformas. Devemos assumir o risco de redescobrir a dinâmica da comunidade e as riquezas das decisões por consenso, e não por decreto.

A partir destes pressupostos, o organigrama de uma Igreja do século XXI poderia ter a seguinte estrutura:





Em vez de acentuar de maneira vertical a pirâmide de poderes, o modelo apresentado acentua a horizontalidade. A Igreja é, em primeiro lugar, uma comunidade de irmãos e irmãs unidos pela mesma fé em Jesus Cristo. Nesta comunidade é claro que há diversidade de tarefas e de actividades. É evidente que é preciso uma estrutura organizativa de apoio. Essa estrutura, porém, está essencialmente centrada no serviço aos carismas e aos destinatários das actividades desses carismas. Cada um dos seus membros é, antes de tudo, reconhecido como sujeito e membro do mesmo Povo de Deus. Como membro desse Povo é ungido por esse Deus. Como membro do Povo de Deus é chamado a agir a partir dos seus carismas específicos, mas com um objectivo comum aos demais: a transformação do mundo rumo à realização do projecto de Deus. Como centro integrador de toda esta acção estão os nossos irmãos bispos, que assim deixariam de ser os chefes de um aparelho administrativo para, de novo, recuperarem a dignidade da sua vocação original.

Contra o medo de todos que, a partir de tal organigrama, temem a perda da unidade[4] e a dispersão da verdade revelada, devemos lembrar com insistência aquilo que José Comblin, referindo-se ao Concílio Vaticano II, formula de maneira bem clara: «O primeiro depositário da revelação de Deus é o povo».[5] Deste Povo, a Constituição Dogmática Lumen Gentium declara de maneira explícita: «O conjunto de fiéis, ungidos que são pela unção do Santo (cf. 1Jo 2,20.27), não pode enganar-se no acto de fé» (LG, n. 12).

Mas o Concílio não dizia apenas isso. O texto da Lumen Gentium apresenta, de seguida, uma concepção de Igreja que fundamenta ponto por ponto o organigrama apresentado atrás:

«Não é apenas mediante os sacramentos e os ministérios que o Espírito Santo santifica e conduz o Povo de Deus e orna de virtudes, mas, repartindo os seus dons "a cada um como lhe apraz" (1Cor 12,11), distribui entre os fiéis de qualquer classe graças especiais. Por elas os torna aptos e prontos a tomar sobre si os vários trabalhos e ofícios, que contribuem para a renovação e maior incremento da Igreja, segundo estas palavras: "A cada um é dada a manifestação do Espírito para utilidade comum" (1Cor 12,7). (LG n. 33).»

Acreditando mais na profunda verdade aqui expressada, e levando a sério a nossa convicção de que o Espírito Santo guia a nossa Igreja, não há razão nenhuma para termos medo de uma reestruturação organizacional profunda. Bem pelo contrário. A partir de tal esquema, a hierarquia voltaria ao seu lugar de serva dos filhos de Deus e estes filhos de Deus recuperariam a dignidade e a responsabilidade de ser instrumentos escolhidos por Deus.

No entanto, acima de todos estará Deus que cuidará dos nossos caminhos e o seu Espírito será capaz de corrigir erros cometidos. Tais correcções poderiam ser realizadas de maneira fraternal, baseadas no respeito e no diálogo, sem punições, sem exclusões e sem ameaças[6].

É válida a palavra de Jesus: «Entre vós não seja assim»! (Mc 9,35; 10,42-45; Mt 20,25-28; 23,11; Lc 22,24-27)


2.2                   Os Conselhos Pastorais assumem o seu papel verdadeiro de serem lugares de discussão e de decisão em todas as questões

Deve-se levar a sério as recomendações da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Santo Domingo (1992). No documento final dessa Conferência, os bispos recomendam, no nº 98, as seguintes acções:

− «Fomentar a participação dos leigos nos conselhos pastorais, aos diversos níveis da estrutura eclesial».

− «Promover os conselhos de leigos, em plena comunhão com os pastores e em adequada autonomia…».

− «Estes conselhos de leigos… podem estabelecer-se em cada diocese, na Igreja de cada país e abarcar quer os movimentos de apostolado quer os leigos que, estando comprometidos com a evangelização, não estejam integrados em grupos apostólicos…».


Encontramos, mais uma vez, uma realidade na qual tropeçamos amiudadamente: os passos para as mudanças necessárias já foram estabelecidos nos textos. O que falta é a coragem de concretizar esses passos na vida das dioceses. O que muitas vezes falta é a vontade de ir para a frente a partir destes primeiros passos, e abrir espaço para dimensões novas que os textos não podiam prever.

Pelo contrário, em muitos lugares verificamos de novo o medo às vezes até irracional de realizar as recomendações dos documentos oficiais. Da coragem de dar passos inovadores rumo a um futuro diferente, nem vamos falar. No entanto, tais passos são possíveis, e até já foram dados. É através deles que as coisas mudam e por meio deles que o Espírito não é Espírito de medo para garantir situações estabelecidas. Ele é, muito mais, transformador incómodo para todos os guardiões das situações estabelecidas. O seu horizonte é o novo e o seu caminho é a transformação.

Há lugares onde se deram os primeiros passos rumo a tais estruturas novas. Há bispos corajosos e cristãos, ordenados ou não ordenados, visionários, que já começaram a preparar o novo ser da Igreja do futuro, baseada na comunhão e participação de todos. Mas, depois dos passos iniciais, muitas vezes falta a coragem de dar os passos seguintes. As iniciativas esgotam-se e o entusiasmo deixa-se estrangular por exigências legalistas e por censuras em nome da velha disciplina. Ora, acontece que, em nome desta disciplina, é possível sufocar o vento do Espírito e apagar o seu fogo.

De nada adianta termos conselhos de pastoral, quando esses conselhos são meros ouvintes daquilo que as autoridades transmitem e declaram. Em pouco tempo, os elementos críticos deles irão embora e, dentro da nova autonomia do cristão de hoje, vão à procura de outros campos de actividades. Campos nos quais poderão agir da mesma maneira, como eles e elas se acostumaram a agir na vida profissional: com competência e responsabilidade, tomando decisões e deliberando sobre assuntos discutidos.

É precisamente isso que em inúmeros grémios da nossa Igreja se teme. Os leigos e as leigas podem ter Conselhos, mas eles não têm possibilidade nenhuma de participar das decisões. Esta atitude não deixa transparecer um pingo de comunhão e participação, e, por causa disso, deve ser mudada. Os leigos e as leigas de hoje e do futuro já não são as ovelhas de ontem: exigem participação verdadeira. Caso esta participação não lhes seja dada, vão embora, e ficamos com as ovelhas que procuram segurança dentro dos muros de um gueto. À nossa volta, porém, aqueles que rejeitámos construirão um mundo novo, o mundo do futuro, um mundo ao qual a Igreja teria tanto a dizer, mas do qual ela própria se exclui, porque exclui aqueles que se acostumaram a ser aceites e respeitados como construtores responsáveis deste mundo. Eles queriam integrar a Igreja nele, mas como a Igreja os excluiu dos seus grémios deliberativos, (…).

Renold Blank
Teólogo, professor de "Escatologia, Teologia da Revelação e Antropologia" na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, no Instituto Teológico de São Paulo (ITESP) e na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP).









[1] Renold J. Blank, «Ein Gott der alle Fesseln sprengt», Mainz: Grünewald, 1995.
[2] Cf. Ernst Benz, «Descrição do cristianismo», Petrópolis, Vozes, 1995, p. 127.
[3] Paul Hoffmann, «A herança de Jesus e o poder na Igreja», São Paulo, Paulus, 1998, p. 81. (Cf. também At 20; 1Pe; Tg; Ef 4; 1Cor 12; Rm 12)
[4] Não foi o Bispo de Évreux, Jacques Gaillot, que foi acusado de «romper a unidade»? E por que tipo de motivos?
«Et l’Eglise dans tout cela? Prenons comme exemple ce qui s’est passé le 23 août 1996 quand presque mille CRS et autres policiers ont forcé à coups de haches les portes de l’Eglise Saint Bernard de la Chapelle à Paris pour en faire sortir de force trois cents étrangers en situation irrégulière. J’étais en colère et scandalisé, car l’évêque avait demandé leur expulsion. Et quand on expulse des êtres humains qui demandent protection dans une église, on désacralise cette église.»
[5] Diz José Comblin em «O Povo de Deus» (São Paulo, Paulus, 2002 e 32011, p. 381-382): «Ora, o Vaticano II reconheceu que o primeiro depositário da revelação de Deus é o povo. "O conjunto dos fiéis, ungidos que são pela unção do Santo (cf. 1Jo 2,20.27), não pode enganar-se no acto de fé. É manifesta esta sua propriedade peculiar mediante o senso sobrenatural da fé de todo o povo quando, ‘desde os bispos até aos últimos fiéis leigos’, apresenta um consenso universal sobre questões de fé e costumes"»; cf. Lumen Gentium 12. A citação sublinhada é de S. Agostinho, De prædestin. Sanct., 14,27, PL 44,980.
[6] Em quantas Comunidades os padres não são prepotentes ou, então, subtilmente manipulam os leigos de modo a «controlar para reinar» …