teologia para leigos

20 de abril de 2018

OPÇÃO PELOS POBRES [JULIO LOIS]



A OPÇÃO PELOS POBRES

Julio Lois Fernández




I - A «opção pelos pobres», questão chave para a Igreja de base

a)    Importância desta questão

A dita «opção pelos pobres» é uma questão de importância transcendental para qualquer movimento eclesial de base. Todas as comunidades cristãs que façam parte desse movimento — as latino-americanas ou africanas, as asiáticas ou as europeias, incluídas nesta, claro está, as espanholas — partilham da mesma convicção: a solidariedade real com a causa dos pobres e a firmeza da luta contra a pobreza injusta é algo essencial na vida da Igreja e na vida de todos os crentes. É por isso que tal «opção» ocupa um lugar bem central na reflexão cristã que hoje queira adoptar uma orientação libertadora.[1],[2]

Eis alguns testemunhos que exprimem essa evidente convicção:

«Eu continuo a sustentar que a opção preferencial pelos pobres é uma das características da Igreja verdadeira, que está ao mesmo nível daquelas características eclesiais muito antigas, que são: una, santa, católica e apostólica. Daqui se conclui que uma Igreja que em teoria e aquando da sua prática defenda que tal opção não é uma parte constitutiva da sua missão … é herética, pois está a falsear um dos dados intrínsecos da sua própria essência» (I. Ellacuría).
«Está na altura de compreender que o membro da Igreja que recuse, na prática, ter uma responsabilidade diante dos pobres é tão culpado de heresia como aquele que rejeita qualquer verdade da fé» (Vissert’h Hooft).
«Uma séria fidelidade à opção pelos pobres é o que faz com que a Igreja se desenvolva em plenitude. Por essa razão, a relação da Igreja com o mundo dos pobres não é mais um problema com que a Igreja terá de se confrontar, mas o problema fundamental. Na sua solução está em jogo ser (ou não ser) a Igreja de Jesus… Participar no destino dos pobres é o que em última análise dará credibilidade à Igreja, e, mais radicalmente, dará credibilidade à própria fé… Aquilo que os cristãos pressentem é que na proximidade (ou no afastamento) para com os pobres é que se joga o futuro da fé» (Jon Sobrino).
«Só o compromisso da Igreja com os camponeses sem terra, os jovens sem trabalho, as populações das barracas e favelas, as forças sociais neutralizadas e reduzidas ao silêncio pode revelar publicamente que o Evangelho é na verdade libertador porque anuncia um futuro novo» (Jean-Marc Ela, teólogo dos Camarões).
«Como Igreja de Base de Madrid, consideramos essencial a opção pelos pobres e a partir dos pobres, a fim de exercer a presença profético-libertadora na sociedade e na Igreja» (Documento-Programa da Igreja de Base de Madrid).
«Nas horas graves e decisivas da vida da Igreja… a constatação é angustiante, quando uma Igreja se dá conta que não está do lado dos mais pobres, daqueles que por definição são os seus primeiros destinatários. É que não se trata apenas de um incidente chato, desagradável, mas de um fracasso decisivo, diante de tão grande estado de degenerescência da dimensão missionária da comunitariedade dessa Igreja assim estabelecida» (M. D. Chenu).

«Não é necessário multiplicar os testemunhos, pois eles são inumeráveis. Todos os testemunhos coincidem quanto a assinalar que é em torno dessa questão que se joga a credibilidade da Igreja e, mais ainda, a autenticidade e o destino da própria fé cristã «que vê a sua razão de ser e a certificação da sua verdade na vivência da libertação integral do Homem, especialmente dos pobres» (L. Boff).


(…)


A versão grega dos Setenta (do Antigo Testamento) utiliza dois termos para se referir aos débeis e necessitados: «penes»[3] (pessoas que não conseguem viver dos seus bens próprios ou do seu património, mas que têm de trabalhar penosamente a fim de satisfazer as suas necessidades) e «ptocos»[4] (pessoas atrasadas ou necessitadas, incapazes, por carência de bens, de satisfazer as suas necessidades mais elementares, ou seja, pobres absolutos ou severos, socialmente dependentes).

O Novo Testamento quando fala de "pobres" opta claramente pelos "ptocos". «Penes» só se encontra em 2 Cor 9, 9 e numa citação do Salmo 112, versículo 9. Em Lucas 21, 2 usa-se um derivado de "penes" («penichrós»), mas o seu paralelo em Marcos usa o termo «ptocos». «Ptocos» aparece 34 vezes no Novo Testamento, 24 delas nos Evangelhos, quase sempre — pelo menos em 18 vezes — com o significado já indicado: os «ptocos» são os necessitados (no sentido forte da expressão), são os marginalizados indefesos (ainda que também se use essa expressão para designar os «pobres de espírito» – «ptocoi to pneumati» – como os beneficiários privilegiados do Reino[5]; os pobres como imagem de Cristo: Cf. 1Cor 1, 27b.28, mas sobretudo a carta de Tiago 2, 5-6: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?»).[6]

O que importa aqui sublinhar — contra o que se lê em certos tratados de vida espiritual — é que, quando os Evangelhos falam de pobres, referem-se quase sempre aos pobres reais ou materiais, que são também marginalizados ou socialmente dependentes. Para a mentalidade judaica do tempo de Jesus, esta última característica — a inferioridade ou dependência social — era aquela que mais importava evitar. Como assinalava o beneditino belga Jacques Dupont, «nós, hoje em dia, vemos na pobreza sobretudo a carência de bens, com todas as moléstias e privações que isso acarreta. O semita, por seu lado, é mais sensível à inferioridade social, humilhação que contribui para fazer, das pessoas de condição modesta, o «bombo da festa» por parte dos poderosos e dos violentos… O pobre, para nós, é sobretudo o desprovido; os judeus olham-no mais como o indefeso» (Jacques Dupont, «El mensaje de las bienaventuranzas», Editorial Verbo Divino, Estella (Navarra), 1990, CB24; existe edição em francês com o título de «Le Message des Béatitudes», Cahiers Evangile N.24, Ed. CERF, Paris, Mai 1978[7]).


III — Características fundamentais dos pobres

Os pobres, tal como ficou claro no capítulo anterior, são:

a – Uma realidade colectiva. Hoje em dia, a pobreza é uma questão social de raízes estructurais, e tem uma dimensão massiva sobretudo nos países ditos do «terceiro mundo». Os pobres são classes, sectores sociais e até povos inteiros ou imensas maiorias populares. É preciso acabar com a visão superficial, «empirista» ou «vulgar», que olha para o pobre isoladamente, abstraído do seu contexto social, como um indivíduo ou um caso particular. Como muito bem indica G. Gutiérrez, «a pobreza, sobretudo em meios cristãos, foi pensada e vivida em função da situação de seres humanos isolados, dos «pobres» objecto da nossa misericórdia. Mas, já não é assim que as coisas se apresentam hoje em dia. Classes sociais, povos e continentes inteiros tomam consciência da sua pobreza… Estamos diante de uma pobreza colectiva que cria laços de solidariedade entre os que a sofrem na pele…».

b – Uma realidade histórico-dialéctica de natureza estrutural. Ao dizermos que os pobres são uma realidade histórica procura-se afirmar que a sua situação não é uma fatalidade necessária e inevitável, algo que se explica a partir de causas naturais. Pelo contrário, a pobreza a que aqui nos referimos surge na História como resultado de uma acção livre e culpável por parte daqueles que a causam. Os pobres são os empobrecidos, os desapossados. Os pobres são um facto social produzido e não um facto fatal ou natural inevitável.

Ao dizer que são uma realidade dialéctica quer-se dizer que a sua pobreza só pode ser entendida — em si mesma, mas também quanto às suas características fundamentais — em relação com a riqueza, realidade contrária causadora. A pobreza é o correlato da riqueza e vice-versa. Dito de modo mais claro: há pobres porque há ricos. Os pobres são empobrecidos e os ricos são amealhadores que a outros empobrecem. A pobreza dos pobres reais, historicamente existentes cujos rostos bem conhecemos, não se pode confundir com «escassez» partilhada. A pobreza é uma realidade distinta, porque é fruto da desigualdade social, é fruto da distribuição não equitativa dos bens disponíveis, que foram criados com a intenção prioritária de satisfazer as necessidades de todos.

Dizemos também que os pobres constituem uma realidade cuja natureza é estrutural. As causas históricas que geram a pobreza, que tem a sua raiz pessoal última no egoísmo humano, cristalizam em estruturas e mecanismos sociais que configuram um sistema que mantém, reproduz e aumenta a pobreza. Toda a visão ingénua que esqueça esta raiz estrutural da pobreza existente está condenada ao mero «assistencialismo».

c – Uma realidade que é resultado dum processo conflituoso. Esta é a conclusão lógica daquilo que já dissemos. Tendo em atenção que os pobres foram reduzidos à pobreza e mantidos nela pelo sistema dominante, os pobres são colectivos empobrecidos e dominados. São, em suma, o resultado de um processo histórico conflituoso: «Os pobres são pobres porque são explorados ou rejeitados por uma organização económica perversa, como é entre nós o caso do capitalismo. O capitalismo é explorador e excludente. É por isso que o pobre é um oprimido e um sofredor: ele é mantido debaixo da pata do sistema ou chutado para fora do sistema. Esta é que é a verdadeira explicação da origem da pobreza dos pobres» (Jorge Pixley e Clodovis Boff, «Opção pelos pobres», Vozes, Petrópolis 1986; CESEP - São Paulo/Brasil).

Os pobres são fruto da conflitualidade gerada pelo sistema existente. Para além disso, e na medida em que vão tomando consciência da sua própria situação e se vão organizando para lutar contra ela, são fonte de conflitualidade futura, "força histórica" (G. Gutiérrez), possível sujeito de luta e de mudança social.

d – Uma realidade que reclama um projecto social alternativo. A partir desta visão histórico-dialéctica de natureza estrutural e conflituosa que consideramos a melhor e mais correcta para abordar a pobreza (em oposição à visão «funcionalista» ou «liberal», para quem os pobres são apenas grupos atrasados ou sub-desenvolvidos que com a ajuda dos países chamados «desenvolvidos» poderão aceder aos frutos desse progresso e sair da pobreza, sem que seja necessário alterar as relações que configuram o sistema) é compreensível que se considere os pobres como um grito clamoroso que está a exigir uma mudança social profunda capaz de levar a uma sociedade alternativa.

Na medida em que a situação tem raízes estruturais e, como já dissemos, os pobres são explorados e rejeitados por um sistema económico e social perverso, a sua libertação exige um projecto social alternativo.

e – Uma realidade com significado político. O que outorga um profundo significado político aos pobres é o seu carácter de força histórica em matéria de mudança social, é a sua condição de «novo sujeito histórico que provavelmente decidirá os destinos da sociedade futura» (L. Boff).

Para os teólogos da libertação, o aspecto «maior», «substancial e irreversível», sinal fundamental dos últimos anos do continente latino-americano é a «irrupção dos pobres na vida política mas também eclesial» dos seus povos. Trata-se – dizem – de uma nova presença «no sentido forte do termo», em virtude da qual «o pobre passa a ocupar o centro do cenário na sociedade e na Igreja, passa a reclamar os seus direitos, coloca sobre a mesa os seus interesses, desafia com a sua luta e a sua esperança» (G. Gutiérrez). Esta nova presença colectiva dos pobres confere, aos pobres, «força ou potência histórica transformadora» e converte-os em «sujeitos activos do seu processo libertador», «novos sujeitos da história» ou «motores de mudança social». Nesta nova irrupção e presença, e na sua capacidade concreta de organização popular, radica o significado político dos pobres.

Vistas a partir "do outro lado da rua", as coisas parecem outras, diferentes. A pobreza e a exploração têm, entre nós ocidentais, outras dimensões e características, tal como é muito maior a capacidade de integração por parte do sistema bem como a sua capacidade de submeter o colectivo dos pobres. Isso é verdade, mesmo reconhecendo que nos países industrializados ditos «desenvolvidos» a realidade seja a seguinte: um terço de pobres socialmente marginalizados; um terço que tem trabalho e possibilidades de satisfazer convenientemente as suas necessidades; um terço que goza de um nível de vida muito alto (sociedades às quais se dá o nome de «sociedades dos três terços»).

Há um ponto em que nos temos vindo a pôr de acordo, pese embora as diferentes situações em que todos vivemos: é preciso superar uma leitura «moralista» da realidade dos pobres para passarmos a uma leitura «política» dessa mesma realidade. Isto quer dizer que é preciso superar a ideia que considera os pobres como meros «carentes», simplesmente necessitados de ajuda e de generosidade por parte dos poderosos, para chegarmos uma outra concepção que veja nos pobres sujeitos que exigem uma mudança social alternativa e que, consciencializados e organizados, possuam força histórica e capacidade de transformação para o conseguir.

A esta nova visão chega-se – tal como indica L. Boff – abandonando a perspectiva que é própria dos ricos e assumindo a perspectiva dos pobres: «A partir dos ricos, o pobre só surge como quem não possui, que é indigente e necessitado… A visão a partir do pobre e do pobre é a única que permite descobrir a força do pobre, a sua dignidade, a sua riqueza humana. Na primeira visão, o pobre não passa de um objecto carente de ajuda. Na segunda, é um sujeito capaz de transformar. A primeira é assistencialista, a segunda é libertadora. A primeira é reformista, a segunda é revolucionária; a primeira deixa intacta a estrutura da sociedade; a segunda pretende superá-la e transformá-la num nova sociedade».

Este significado político dos pobres é crucial para entender, como veremos de seguida, em que consiste a opção pelos pobres.

f – Uma realidade com significado teológico. Até aqui falamos dos traços característicos que identificam os pobres a partir de uma perspectiva sociológica. A partir de uma perspectiva crente ou teologal, tendo sobretudo em conta a luz que a vida e a palavra de Jesus de Nazaré acrescentam, especialmente quando eles assumem a sua condição de forma consciente e activa (e para além do que já foi dito), os pobres-marginalizados são:

— O lugar privilegiado da manifestação ou revelação do Deus cristão, o sacramento preferencial da Sua autocomunicação. É por isso que, sem escutar o clamor dos pobres, não é possível saber o que Deus quer de nós.

— Os pobres-marginalizados são também o lugar social mais adequado ou o lugar mais apto "a partir de onde" se descobre o significado e o alcance da nossa fé. Não só é o melhor lugar para escutar a palavra de Deus, mas também para a interpretar, ou seja, para fazer teologia cristã. Isto quer dizer, por exemplo, que, para descortinar o rosto do Deus cristão, o significado de Jesus Cristo, o alcance da Sua salvação, a verdadeira natureza da Sua Igreja ou a autêntica espiritualidade cristã, é preciso ter em conta a realidade dos pobres e levar a sério a sua causa.

— Os pobres-marginalizados são o lugar mais apropriado e eficaz para a vivência da fé em Jesus, bem como a correlativa praxis do seguimento. Eles são isso, não apenas para sabermos algo acerca de Deus ou saber fazer teologia cristã, mas sobretudo para «praticar Deus», ou seja, realizar a Sua vontade ao serviço do seu Reino: para isso há que escutar o clamor dos pobres e responder a ele com seriedade e fidelidade.

A opção pelos pobres não é apenas fonte de conhecimento. É sobretudo fonte de vida. Sem «opção» não há propriamente «seguimento» de Jesus e, por conseguinte, não há autêntica vida cristã.

Tendo em conta tudo isto que dissemos acerca de quem são os pobres e quais são as suas características particulares procuremos clarificar o conceito de «opção pelos pobres», finalidade fundamental desta pequena monografia.


IV — Que devemos entender por «opção pelos pobres»?

Para começar, poderíamos dizer que a «opção pelos pobres» é uma decisão que, pondo em jogo de forma comprometida a existência inteira de uma pessoa, permite assumir com realismo histórico a causa da libertação dos pobres desta terra.

Vamos ver, com mais rigor, este conceito da «opção», desenvolvendo alguns aspectos fundamentais (...).

La opción por los pobres – característica fundamental que especifica nuestro movimiento eclesial de base», Cuadernos de la Iglesia de Base de Madrid, Editorial Nueva Utopía – calle Fernández de los Rios, 2 – 28015 Madrid; Teléfono: 447 23 60 – Fax: 445 45 44. ISBN 84-87264-06-9. Depósito legal: M – 15716 – 1991.














[1] A. Rebré, em epígrafe ao seu livrinho «Os pobres e a libertação dos homens» (Edição EDOC, Porto 1978), interroga: "Porque é que na Bíblia os pobres têm um lugar tão importante na libertação dos homens?". A resposta, com que Rebré fecha as breves oitenta páginas, resume-se a esta conclusão: "O que a Escritura nos diz da libertação dos homens através da experiência dos explorados e dos «humildes» conduz-nos a Jesus Cristo. É unicamente n’Ele e por Ele que se realiza plenamente a libertação integral pela qual os homens lutaram, sofreram e esperaram continuando a lutar, a sofrer e a esperar".
Blog de Teologia «A SALA DE CIMA» - 19 de Maio 2017:
GOOGLE DRIVE:

[2] Na mesma perspectiva vai o testemunho do teólogo jesuíta basco-salvadorenho Jon Sobrino, sobretudo a partir da página 20 - «2.2 Santidade primordial e solidariedade: "carregarem-se mutuamente"» (in “La santidad primordial”, capítulo 5 de «Terremoto, Terrorismo, Barbarie y Utopía – El Salvador, Nueva York, Afganistán», Ed. Trotta 2002, 123-168).

[3] Peneß (no original grego) =pobre.
Cf. pronúncia aqui [NdT]: 

[4] Ptocoß (no original grego): «reduced to beggary, begging, asking alms; destitute of wealth, influence, position, honor; lowly, afflicted, destitute of the Christian virtues and eternal riches; helpless, powerless to accomplish an end; poor, needy; lacking in anything; as respects their spirit; destitute of wealth of learning and intellectual culture which the schools afford (men of this class most readily give themselves up to Christ's teaching and proved themselves fitted to lay hold of the heavenly treasure)».
Cf. pronúncia aqui [NdT]:

[5] Cf. «Evangelii Nuntiandi» (N. 8 e 9), Papa Paulo VI.

[6] Cf. Albert Gelin, «Os pobres que Deus ama», Edições Paulinas, São Paulo 1973, concretamente, «A carga espiritual da terminologia – o encontro com o helenismo», p. 71ss. (original: «Les pauvres que Dieu aime», Cerf, Paris 1968). Importa consultar as imagens da linguagem bíblica primordial como formas de manifestação da superioridade, da opressão e da injustiça, in Pedro Jaramillo Rivas, «La injusticia y la opresión en el lenguaje figurado de los profetas», EVD 1992. Institución San Jerónimo 26. ISBN 84-7151-857-0. [NdT]



8 de abril de 2018

ECLESIOGÉNESE [L. BOFF]

«ECLESIOGÉNESE»
— As comunidades eclesiais de base reinventam a Igreja
Leonardo Boff, ofm

Datado de 1977, este histórico livrinho, de apenas 113 páginas, ainda é uma excelente porta de entrada (e de saída) para as múltiplas questões com que os católicos leigos (ainda) se confrontam no século XXI. Por exemplo:

«Quis, o Jesus histórico, uma única forma institucional de Igreja?»

«Jesus, com a sua morte e ressurreição, veio para salvar os homens. Aquando da sua vida terrestre, Jesus fundou a Igreja para que ela continuasse a Sua obra até à consumação dos tempos. A Igreja está de tal forma unida ao seu Fundador que pode ser chamada Corpo de Cristo.»

«Porém, para os evangelistas, há uma ruptura entre Jesus e a Igreja. Entre ambos está o "fracasso" de Jesus crucificado. Está também a infidelidade dos apóstolos e a dissolução da comunidade dos seguidores de Jesus. Só após a ressurreição é que se voltaram a reunir.»

«O modernista Alfred Loysi (1857-1940) situou bem o problema quando, com certo desconcerto, escreveu: "Cristo pregou o Reino de Deus e em seu lugar apareceu a Igreja" ("L’Evangile et l’Église", Paris 1902, 111).»

«Se não há identidade perfeita entre Reino de Deus e a Igreja, que relação vigora entre ambos? Como se chegou da pregação de Cristo sobre o Reino à constituição da Igreja? É ela uma consequência imediata desta pregação ou constitui um substitutivo precário do Reino de Deus que não veio? A Igreja é fruto de uma "decepção" ou de uma realização?»

«O que pregou Jesus: o Reino de Deus ou a Igreja?»

«Sem sacramento da Ordem, a pessoa é sacramentalmente incapaz [para presidir à Eucaristia]. A Igreja entendeu excluir o leigo da presidência eucarística. Ainda recentemente a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 15 de Fevereiro de 1975, censurou a opinião de Hans Küng nestes termos: "Também a opinião já insinuada pelo Prof. Küng no livro «Die Kirche» e segundo a qual a Eucaristia, pelo menos em caso de necessidade, pode ser consagrada validamente por pessoas baptizadas carentes da ordem sacerdotal, não pode estar de acordo com a doutrina dos Concílios Lateranense IV e Vaticano II"».

«O povo pergunta: porque é que nós não podemos celebrar a Eucaristia?» (Carlos Mesters, «O futuro do nosso passado», em "Uma Igreja que nasce do povo – Encontro de Vitória, ES", Vozes, Petrópolis, 1975, p. 137).

Inúmeras outras questões são, de vez em quando, pomos polémicos com ecos vibratórios muito violentos na comunicação social. Uma delas tem a ver com afirmações políticas consideradas fora ou para lá da missão da Igreja de Cristo (cf. certas críticas contundentes do bispo das forças armadas D. Januário Torgal Ferreira a certos ministros do Governo de Passos Coelho-Paulo Portas [2012], que tiveram, como resposta, as seguintes palavras do Ministro da Defesa Dr. José Pedro Aguiar-Branco: "O Sr. Bispo vai ter de escolher entre ser bispo e ser comentador político…". Outro exemplo, o do capelão militar, padre Mário de Oliveira, que após a Homilia do Dia Mundial da Paz de 1968, na Guiné Bissau, foi interpelado pelo comandante do Batalhão de Caçadores 1912 dizendo que o evangelho anunciado naquela homilia ia contra a Constituição que jurara defender. Resposta do capelão: «Pois então, meu comandante, mudem a Constituição, porque eu não posso mudar o Evangelho de Jesus. Estas palavras "assinariam" a sua Guia de Marcha para o Continente… - in "Evangelho no Pretório", p.65ss).

Outras questões (algumas relacionadas com esta tensão Igreja-mundo) dizem respeito às opções de fundo que a Comunidade cristã toma ou não toma. Há comunidades que optam por uma postura teológica pacifista, neutral, consensualmente pluralista, recusando «habitar» o polémico espaço público como seria de esperar em coerência com o Concílio Vaticano II.

«A Igreja deve entender-se e creditar-se como testemunho público e como transmissora de uma perigosa memória libertadora entre os «sistemas» da nossa sociedade emancipadora. Esta tese alicerça-se na memória como forma fundamental de expressão da fé cristã e na importância central e privilegiada da liberdade dentro dessa mesma fé. Na fé, os cristãos realizam a memoria passionis, mortis et resurrectionis Jesu Christi; no acto de acreditar recordam o testemunho do seu amor, em cujo amor se manifestou o reinado de Deus entre os homens pelo próprio facto de o domínio do homem pelo homem começar aí a desmoronar-se; memória de que Jesus se colocou do lado dos insignificantes, do lado dos marginalizados e oprimidos, proclamando assim o advento do reino de Deus como força libertadora de um amor sem reservas. Esta memoria Jesu Christi não é apenas uma recordação que dispense enganadoramente de correr riscos futuros. Não é uma espécie de reverso burguês da esperança. Pelo contrário, implica uma determinada antecipação do futuro, como futuro dos que não têm esperança, dos fracassados e acossados(J. B. Metz, «La fe, en la historia y la sociedad», Cristiandad, 1979, pp. 101-102)

Portanto, importa perguntar: qual é o «lugar teológico» que funciona como opção preferencial da Comunidade local? A resposta a esta pergunta é a garantia da sanidade (ou da doença) mental de uma comunidade local. Quando uma comunidade local não é capaz de responder como Jesus respondeu, então, começam o enquistamento e as tensões.

Como muito bem diz L. Boff, «na hora de escolher uma teoria explicativa da sociedade, entram em jogo uma série de critérios que não procedem exclusivamente da objectividade e da racionalidade, mas da 'opção de fundo' e do 'lugar social' de quem analisa.» De facto, «toda a reflexão sobre a realidade humana está orientada por um projecto de fundo, ou seja, por uma utopia construída por um grupo na qual esse colectivo humano projecta o seu futuro». Sendo assim, em termos gerais, «podemos identificar dois tipos de projectos ou utopias cada um com o seu tipo de aderente: o projecto das classes dominantes e o projecto das classes dominadas da sociedade. A utopia dos grupos dominantes propugna um progresso linear, sem mudança alguma dos esquemas que estruturam a sociedade; ela manifesta uma fé imensa na ciência e na técnica e pressupõe uma concepção elitista da sociedade, cujos fins e benefícios − acredita − irão progressivamente estender-se às massas. A utopia dos grupos dominados procura uma sociedade utilitária: o fosso entre as elites e as massas constitui o principal obstáculo ao desenvolvimento e, enquanto ele persistir, não haverá verdadeiro progresso e justiça social. Esta última utopia afirma uma fé inquebrantável no potencial transformador dos oprimidos capaz de gerar uma sociedade com o menor número de opressores injustos». ("La fe en la periferia del mundo. El caminar de la Iglesia con los oprimidos", Santander, 1981, 26-27 cit. por Julio Lois, «Identidad cristiana y compromiso socio-político», Ediciones HOAC, 110-111).

Como diz a Comunidade Cristã da Serra do Pilar (VN Gaia, 08-04-2018) pela boca de José Antonio Pagola, «a Igreja do futuro não poderá continuar a apoiar-se nos presbíteros», pois «o maior potencial para a renovação da Igreja está nos crentes leigos e leigas». Só os leigos — para lá dos ambíguos "sim, mas" que enxameiam os textos do Concílio Vaticano II, em matéria de identidade & especificidade laical … — serão capazes de viver sem esquizofrenias o serviço diaconal e ao mesmo tempo o compromisso político público como Jesus de Nazaré nos mandou viver.




(Leonardo Boff, ofm)






5 de abril de 2018

A CRISTOLOGIA DE JON SOBRINO [JULIO LOIS]



Nos três últimos dias de Outubro realizaram-se umas jornadas organizadas pelo Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral (IDTP), de Bilbao, subordinadas ao título «Questões actuais de cristologia», cujo objectivo principal era apresentar três esquemas cristológicos. No dia 29, José Antonio Pagola introduziu-nos no Jesus histórico. No dia 30, Jesús Martinez Gordo e Dom Ricardo Blázquez, bispo de Bilbao, apresentaram o pensamento cristológico do Papa Bento XVI.


Jon Sobrino sj


Por fim, no dia 31 de Outubro, Julio Lois, cuja conferência publicamos agora, ofereceu-nos as chaves da cristologia de Jon Sobrino, temática sobre a qual versam algumas das obras mais importantes do teólogo, e numerosos artigos seus.

Descobrimos a cristologia de Jon Sobrino como uma excelente expressão do legítimo pluralismo quanto à interpretação do "acontecimento–Jesus" e reconhecemos a sua importância e o seu significado para o momento histórico presente. Julio Lois termina a apresentação convidando-nos a fazer nossa a preocupação evangélica para com as vítimas expressa em toda a obra do autor estudado.

Ainda que Lois faça referência à "Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé",[1] a sua pretensão é, sobretudo, apresentar, perante não especialistas, os principais elementos da construção teológica do teólogo de Bilbao.


Javier Oñate Landa
Director do IDTP







[1] «Notificação sobre as obras de Jon Sobrino», CDF (presidente: card. Joseph Ratzinger):
«Nota Explicativa» (J. Ratzinger):
«Uma cristologia que incomoda», pelo teólogo das religiões na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG, Brasil), Faustino Teixeira:



21 de janeiro de 2018

SER CRISTÃO É SER SEGUIDOR DE JESUS [JULIO LOIS]



QUE SIGNIFICA SER CRISTÃO ENQUANTO "SEGUIDOR DE JESUS"?


Para começar, duas observações prévias acerca do próprio título da conferência e uma terceira de carácter metodológico.

A primeira observação poderia formular-se assim: ao ler o título pode ficar-se com a sensação de que ele é tautologicamente desnecessário e que deveríamos abreviá-lo. Ou seja, deveria bastar «que significa ser cristão?». Para quê acrescentar «enquanto seguidor de Jesus»? Porventura, não é óbvio que ser cristão é precisamente ser seguidor de Jesus? Seja qual for o ponto de vista quanto a esta questão (e o meu ficará claro ao longo desta conferência), a verdade é que, de facto, historicamente falando, a identificação entre "existência cristã" e "seguimento de Jesus" não parece tão óbvia assim.

«Quando somos obrigados a precisar em que consiste a identidade cristã sempre demos primazia, e conferimos valor autónomo, à aceitação intelectual do «depósito revelado», à confissão puramente verbal, ao cumprimento pontual desta ou daquela prática religiosa, etc., etc., e acabamos por deixar o "seguimento" de lado. É verdade que um sector importante da teologia cristã actual, bem como numerosas comunidades de crentes procuram «recuperar» o seguimento de Jesus como categoria constitutiva e central do existir cristão e, inclusivamente, como critério último da verificação da autenticidade desse mesmo existir. Contudo, não podemos dizer que se tenha conseguido um consenso unânime quanto a este tópico, nem que tal desejo já esteja a alimentar, no momento presente, a vida dos cristãos. Por isso, não me parece supérfluo insistir, tal como o faço no título, que ser cristão equivale a ser seguidor de Jesus.» (…)


Julio Lois Fernández [1935-2011], Conferência a 16 de Março de 1982.
«¿Que significa ser cristiano como seguidor de Jesús?
Catedra de Teología Contemporanea, Colegio Mayor «Chaminade»
Patrocínio: Fundación Santa María, Madrid. ISBN 84-348-1119-7.