14 de dezembro de 2014

GOD THAT LURKS IN FRAGILE [PB]

«O boi vai ao Presépio. O boi é paciente e não tem pressa de chegar. Caminha e pára. Rumina e pára. Rumina erva e rumina distraídas névoas perdidas no caminho. Quando alguém passa muito rápido, o boi não se assusta. Nem fica agitado. Levanta a cabeça. Pára a ouvir a pressa de quem passa depressa. E parado, rumina.» [Nuno Higino]


CHRISTMAS IN A CHRISTIAN FAMILY


©José Emídio




All disappointments come from false securities!

These days, the "world" runs so that everything is in its place and not misses anything. "So, I'm safer" - say the mothers of this world. Nevertheless, christians in Christmas celebrate the insecurity, the fragility, the detachment: they sing what is missing. Unpredictability is the great principle of biology! The unpredictability is the basis of diversity of Life: without diversity there will not be life-with-future - only abortions. At Christmas too. Not the turkey is, not the cod or the french toast ["rabanadas"] that are the center of the Christmas table, much less the "gifts" or the Christmas tree: the center is the insecurity, the fragility, the detachment [desprendimento]. These are the true bonds, real security. That is, the anti-power.

Pull the plant is mindless violence: You can only kill the plant!

Later or sooner, things of this "false world" will eventually reveal his idol’s face: because he cannot give what he promised you, he will fail and will reveal his true lie’s face. This false world we build wants to convince us that if embracing the Cristiano Ronaldo equipment (CR7), this makes us "a machine" unbeatable, always looking for "more" victories, for more success.

If we pull over by the plants they will not grow faster so: before, will leave its delicate roots. Later or sooner, we will vomit blood if we continue with the scam [esquema desonesto] of "work by progressive objectives": will need a new version of the guillotine for a new French Revolution.

It is the weakness of a Yacinth underlying the life-with-future: not the plastic flowers. The Dinosaurs were 'that machine'. Facing the small fishes or the small batrachians, who would say that those would be less likely to survive? But that's what happened: the Dinosaurs did not evolve; they were too strong-hard. Our world thinks only of "infallible and endless machines ", CR7 type: this world is totally sick, destined not to survive, because it is a killer and bloodthirsty. This system idolizes hard and hates fragile (vide, unemployed young people and the aged). But the fragile place it in court – they are the proof of its failure! The weakness is ductile and ephemeral. Three words. I ask: Three defects? Biology taught us that, after all, are three virtues. Thus, the life contradicts the world we build. Who is wrong: the Life that God created or the world we are building? The love between two human beings is a strong-hard or a fragile reality? How we would like it to be: strong-hard or weak? When that love is fertile: when their strength exclude its fragility?

Something beyond

At Christmas christians contemplate – in a child - the insecurity, the fragility, the detachment. Christians believe this is a God worth [em que vale a pena] believing, betting [apostar]: they are completely irresponsible, is’nt it?!

Christians declare: "our" Life is like that child there lying in a manger - life inhabited by a fragile God, a God that lurks at the heart of everything that lives in fragile.

The Christmas Party is then the Joy of Fragility and Slow (vide: "the humble joy of the slaves", Lk 1:48; the 'however' of a child's time, Lk 1:80). Christmas Party is also a hope inside an expectation, not a passive expectation but an active chamber!

At Christmas, fancy be small child! Feel like being «in-fante» (= "one who still cannot speak"; one who have no idea about "time run", "city traffic", noise, etc.). Faced with a child, suddenly, all that fills us with concern (or whatever until then have been very important to us), fades - the power falls to the ground, as in a catastrophe (Math 2,3.8: «the fragile place the system in question»). Christmas is the celebration of the "fall of the tyrannical power" of all Herods who thought they would never be overturned.

The Christian Hope teaches us that this world has to be sabotaged (Math 2:12) to make way for a "world other" based on the ability to wait for the human new’s ("the Kingdom of God's righteousness"; Math 6:33) and the welcome the new nature ("the lilies of the field"; Math 6:28)) - simply because nor we nor the Financial Markets are the owners of the Great Novelty. This world we are building must be based on the realization of full human relations. All kinds of goods - computers, fashion / clothing, footwear, cars, movies, hairstyles, art, film, food and beverages, toys, books, tablets, gifts, Facebook, vacation travel, money, work, smart phones, etc.  - aim to full human relations or become fatal in goods. In this regard, the Christmas Hope Christian only know to ask a question: "but for what all this things?" If it’s to go face-to-face instead of facebook, all right, all right…

"The await of the Christian hope [a espera da Esperança cristã] is to be experienced in the continuity of this present life. Are mistaken who think that hope has nothing to do with this life and its tasks. On the contrary, hope follows the course of everyday life. "(José Comblin - Brasil)

The Christian hope is an agonizing struggle in this short, persistent struggle, confident, cheerful. "Hope is a new experience of the time. It gives all times, at all stages of a value fullness" (José Comblin - Brasil)

And that's why I was glad that the request of João and Ema to take place: in this and in every Christmas, we expect an irresponsible responsibility of the "little children" (Mk 10:13) who want to join around the common-table [priest Leonel Oliveira]!

This year we have a richer Christmas: joined us Lucy by the hand of Luís. Was Lucy who, this year, ventured to come from so far to this far place (like the Pope Francis…): she brought light to the Child Jesus crib! And suddenly everything makes life interesting (John 9:25). Obrigado to Luís and Lucy. (This celebration goes on…)

"The ox goes to the crib. The ox is patient and does not rush to get. Walks and stops. Rumina and stops. Rumina grass and ruminates distracted mists lost on the way. When someone goes very fast, the ox is not frightened. Or is busy. Lift up is head. Stop listening to the rush of those who pass quickly. And still cud..." [Nuno Higino - Portugal]

It is the weakness of a Yacinth[1] underlying the life-with-future.

Christmas, Porto, December 24, 2014.





pb\

[1] Yacinth = genus of bulbous plants with bell-shaped flowers of various colours, intensively smell. Ephemeral. 



11 de dezembro de 2014

«A ECONOMIA QUE MATA» O SONHO NATALÍCIO DE DEUS [H. GEISSLER]

de um lado o deus dos «primeiros», do outro «o Deus dos últimos»






«O que diria Jesus hoje?»

Os dias de Natal são especiais. Há uma atmosfera diferente, e o melhor de nós pode revelar-se: mais proximidade, mais intimidade, mais amor, mais solidariedade. Directa ou indirectamente, há uma presença inegável: o nascimento de um Menino, com "a mensagem mais bela e revolucionária da história mundial", no dizer de Heiner Geissler que foi ministro do Governo Federal da Alemanha e que escreveu um livro admirável, precisamente com o título: "O que diria Jesus hoje?"[1]
Mesmo se muitas vezes os que se reclamam de Jesus fizeram da sua mensagem um Disangelho, como disse Nietzsche, ela é real e verdadeiro Evangelho, notícia boa e felicitante.

Essa mensagem tem na sua base a afirmação de que é o ser humano, com a sua dignidade inviolável e fundamentada em Deus, que ocupa o centro de toda a actividade política e económica. Essa dignidade e os direitos que dela derivam constituem o critério de todas as leis, mesmo das leis "divinas", e o fundamento para a convivência em igualdade de todos os seres humanos, independentemente do sexo, cultura, etnia, religião, classe, nação, estatuto social ou jurídico.

O amor a Deus sem amor ao próximo é uma ilusão, e este amor ao próximo não é platónico, pois tem de ter tradução prática concreta - dar de comer, de beber, de vestir, visitar o doente e o preso -, e supera as barreiras culturais, nacionais, religiosas. Próximo é o próprio inimigo em dificuldade.

Os seres humanos e os seus interesses estão antes dos interesses do capital. O capitalismo neoliberal não está de acordo com o Evangelho e "constitui um crime contra milhares de milhões de pessoas que têm de viver na pobreza, na doença e na ignorância". "Quem transforma o valor na Bolsa e a cotação das acções de uma empresa em algo absoluto e quem atribui importância, em termos económicos, apenas aos interesses do Capital faz parte das pessoas que, como diz Jesus, possuem muito dinheiro e para as quais será difícil entrar no Reino de Deus." (p.76) Os mais de dois mil milhões de cristãos têm, pois, de formar uma força impulsionadora de uma nova ordem económica mundial com base na justiça.

A mulher tem de ser tratada na plenitude da sua dignidade humana em igualdade com o homem. Qualquer discriminação, na sociedade ou na Igreja, está em contradição com o Evangelho. "A proibição da ordenação das mulheres e o celibato obrigatório não têm fundamento evangélico".

Jesus não excluiu os estrangeiros - curou o servo do centurião romano e a filha da mulher siro-fenícia (Mt 15,21; Mc 7,24). Portanto, a xenofobia não é compatível com o Evangelho. Os romanos, enquanto potência ocupante, podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano comece a conversar, e quem sabe se não acabarão por beber um copo juntos? Aí está: "A reconciliação, o desanuviamento e a solução pacífica dos conflitos são preferíveis à violência e à guerra."

Quando se olha para o comportamento de Jesus, por palavras e obras, com as mulheres, os estranhos, os samaritanos (hereges), os pobres, os doentes, os leprosos, os inimigos (romanos e cobradores de impostos), entende-se como a nova imagem do ser humano constituía um acto revolucionário, com significado político-religioso explosivo.

O conflito foi mortal por causa de duas imagens de Deus. De um lado, o deus do sistema do Templo e do Império de Roma, em cujo nome as autoridades sacerdotais e o prefeito romano oprimiam e exploravam o povo. Do outro, o Deus dos últimos. Jesus acaba por ser crucificado, porque a sua mensagem e a sua acção abalavam, na sua raiz, um sistema organizado ao serviço dos poderosos da religião do Templo e do Império.

E hoje? Jesus é o modelo da credibilidade, na harmonia entre ideias e actos. [Jesus] "Hoje, seria o deputado e o porta-voz ideal do povo, uma vez que, no seu tempo, defendeu as pessoas - de forma independente, aberta e corajosa - contra os detentores do poder."


Anselmo Borges, sacerdote missionário da Boa Nova.
«Diário de Notícias», OPINIÃO, 8 Janeiro 2011



Jesus, Jericó,
dinheiro, impostos, partilha… e Justiça

«Jesus entrou em Jericó e atravessou a cidade na sua última viagem a Jerusalém (Lc 19,1-10). Em Jericó vivia um homem muito rico chamado Zaqueu. Era o chefe dos cobradores de impostos naquela cidade fronteiriça – cidade importante para Roma - e responsável pela cobrança dos impostos indirectos que tinham de ser pagos ao imperador por cada província romana. Tratava-se, fundamentalmente, de impostos como por exemplo: portagens pela utilização de estradas e pontes, taxas portuárias e direitos aduaneiros de exportação.

«As províncias estavam divididas em distritos, para permitir a cobrança de impostos. Só na Judeia havia 11 distritos fiscais deste tipo.

«Enquanto os impostos directos eram cobrados pelos serviços da respectiva província, a cobrança dos impostos indirectos estava entregue aos arrendatários que oferecessem mais dinheiro. Assim, o Estado romano recebia uma receita fixa sem qualquer risco, visto que, fosse como fosse, o arrendatário tinha de entregar o montante previamente acordado.[2]

«Por seu lado, os arrendatários[3] cobravam os impostos através de funcionários inferiores – os chamados «cobradores[4]» - os quais são várias vezes referidos no Evangelho [Mt 10,3].

Estes cobradores de impostos exploravam muito a população [não para si, mas para os “de cima”], porque cada arrendatário esforçava-se por tirar, obviamente, aos contribuintes muito mais do que aquilo que eles deveriam legalmente pagar como renda [quanto mais “tirassem” mais lucravam: tudo o que fosse acima do acordado com Roma era “lucro extra”…]. Por isso é que os cobradores de impostos eram extraordinariamente odiados em Israel.»[5] [Heiner Geissler, Ibidem, p. 77-78]







[1] «O que diria Jesus hoje, Ed. Casa das Letras, Abril 2005, tradç. de Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy. ISBN 972-46-1596-0.
[2] Kroll, «Auf den Spuren Jesu», Leipzig, 291-292.
[3] archi-telonai
[4] telonai
[5] Heiner Geissler, «O que diria Jesus…». op. cit., p. 77-78. A situação social dos «cobradores» era terrivelmente angustiante, pois eles estavam entre a espada (=o povo) e a parede (o seu patrão= arrendatário)… Talvez por isso é que Jesus tivesse relações de acolhimento (=intimidade) para com eles que não tinha para com os «arrendatários»! - à excepção de Zaqueu (Lc 19), que, tudo indica, era um «arrendatário» e não um «cobrador» (Mc 10, 17-22); as traduções bíblicas não costumam fazer distinção entre estas duas categorias de funcionários das finanças.