teologia para leigos

15 de junho de 2016

A ESPIRITUALIDADE COMO DESAFIO HISTÓRICO [K. ARMSTRONG & J.A. ESTRADA]



A ESPIRITUALIDADE: QUAL? PARA QUÊ?


Pergunta - Hoje [1970] a oração é muito contestada, quer no mundo católico, quer no mundo cristão e no mundo em geral. Li uma síntese desta contestação dos nossos dias num artigo de Enzo Bianchi, que se resume nisto: a oração é contestada como lugar privilegiado de encontro com Deus, porque é considerada um meio de fuga ao quotidiano, porque é instrumento inautêntico de reconciliação interior, porque é privilégio e luxo de uma classe social que dispõe de muito tempo, de tanto tempo que até pode rezar. Num momento tão dramático da história do mundo – conflitos, fomes, ausência de liberdade, subdesenvolvimento humano, o rosto do homem deturpado por culpa de outros homens em todo o mundo – que sentido tem falar de oração? Orar, mas para quê? Para que serve? Que perspectivas abre? Que significado e que papel tem a oração no projecto global de uma existência humana?

José Maria González Ruiz − Nós, cristãos, não temos a pretensão imperialista de apresentar a nossa experiência religiosa, ainda que estimulante, como uma necessidade inegável em ordem a uma acção revolucionária. Mas, ao mesmo tempo, rejeitamos a paralela pretensão imperialista de alguns não-crentes, que, ou descuram o conhecimento e a simples constatação do nosso fenómeno religioso, ou o condenam a priori sem analisar a praxis que daí deriva.

Muitos de nós podem dizer que é próprio da oração empurrar-nos para a acção, até para a acção a mais comprometida. Eu, na minha vida, não posso afastar as minhas mais íntimas experiências religiosas, a minha oração, das decisões mais escaldantes. É tudo a mesma coisa. Por que motivo deverei renunciar a uma profunda experiência religiosa que me lançou entre os homens, que me forçou a partilhar com eles as suas tragédias e os seus movimentos revolucionários e libertadores?

Há a possibilidade de surgir em cada um de nós duas personalidades: uma pseudo-espiritualidade força-nos a tornarmo-nos esquizofrénicos. Isto aparece dito nas prédicas dos exercícios espirituais: "vem repousar com Deus, deixa na pia da água benta todas as tuas preocupações e, agora, falemos com Deus". Devo confessar que aquele Deus me repugnava. Por isso, no fim da minha adolescência, procurei avidamente a Bíblia, sobretudo o Novo Testamento. Quando fui capaz de ler bem o grego, pedi a uma livraria de Barcelona (que dista 1200 km de Málaga) uma cópia do Novo Testamento grego, da edição crítica das edições Vogels, porque no seminário, naquele tempo, não havia sequer uma cópia do Novo Testamento na sua língua original. Era o tempo do grande subdesenvolvimento teológico.

Nesse tempo, eu era feliz e levava à Igreja o meu Novo Testamento grego para alimentar a minha meditação religiosa, mas o superior repreendeu-me, dizendo que eu, um ávido intelectual, transformava a oração em estudo. Mas eu pensava: qual é a diferença entre o estudo e a oração? Agradeço a Deus ter superado aquela grande tentação de esquizofrenia.

Ainda hoje, muitos amigos me censuram por ter abandonado a mesa das investigações bíblicas (que, apesar de tudo, nunca deixei) para «me sujar» com uma praxis comprometida, revolucionária, não conveniente à dignidade de um padre, sobretudo, se se é um cónego.

Pelo contrário, outros censuram-me uma pretensa manipulação dos textos bíblicos a favor de uma discutível opção revolucionária. Quero dizer a estes senhores duas coisas: primeiro, que não chega dizer que eu tenha manipulado os textos; é preciso demonstrá-lo. Posso dizer que tenho calos causados por tantos anos de estudo paciente na obscuridade das bibliotecas, sobretudo, na do Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Em segundo lugar, a minha praxis comprometida não é anterior ao meu estudo e meditação da Bíblia, mas posterior e, por isso, dela derivada.

Foi a Bíblia, aquele Deus incómodo de Abraão, de Isaac, de Jacob, de Jesus, de Pedro, de Paulo, que me empurrou para aquela "praxis". Nas minhas orações, quantas vezes me recordei das angustiantes orações de Jesus em Getsemani. Eu via que a vontade de Deus era para andar para a frente, para ouvir os discípulos contestatários, para partilhar com os operários a luta pela liberdade, para pôr a minha assinatura em certos documentos comprometidos, etc., e tinha medo, muito medo.

Sentia a tentação de usar a palavra de Deus para a reduzir à medida da prudência humana. Mas o Deus incómodo da oração impelia-me para além destas tentações. Por isso, como poderia, então, renunciar à minha fé, à minha experiência religiosa, à minha oração, se na verdade daí brotava o meu ímpeto complementar contrário à minha condição natural de intelectual frio, de burguês com as mãos polidas, de belicista medroso?

Eis a resposta à sua pergunta “num momento dramático da história, que sentido tem falar de oração”? Para mim, tem todo o sentido. De facto, fui arrastado a identificar-me com o drama, porque fui fortemente impelido pela tramontana da oração

(José Maria González Ruiz, in «UM RISCO CHAMADO ORAÇÃO», Telos Editora, Porto, 1973; excertos de uma entrevista a Roger Garaudy e González Ruiz intitulada «O Homem como ponto de partida»).




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«Primeiro, temos de empenhar-nos na vida ética.
«Depois, a benevolência disciplinada e habitual − e não a convicção metafísica − dar-nos-ão provas da transcendência que buscamos.» [Karen Armstrong]

Karen Armstrong e Juan A. Estrada, a partir do estudo de dois tempos totalmente estranhos entre si, ajudam-nos a perceber a importância e o papel específico que a espiritualidade desempenha: o século VI (a.C.) judaico, aquando do exílio do povo de Israel na Babilónia, e a sociedade hodierna. Totalmente estranhos entre si é certo, mas interligados pela necessidade que todos os povos sempre tiveram de vencer um momento de grave bloqueio da sua identidade a fim de encontrar um sentido que valha a pena.

Todos os povos, mesmo os mais antigos, sempre tiveram necessidade de repensar a espiritualidade recebida de trás (Tradição) e de a reformular. Os povos mais fecundos, e com mais futuro espiritual, são aqueles que são capazes de se abrir aos desafios da História, são os que não voltam as costas a esses desafios inquietantes que Deus deixa livremente à solta, porque - também eles - são desafios divinos, também eles são obra da Criação.

«Esta hipótese apoia-se sobre um dado antropológico essencial: a proibição. (…) É sabido que existem três grandes proibições comuns a todas as civilizações, cuja finalidade é proteger o homem contra si mesmo, contra aquilo que o enganaria e o faria empreender um caminho falso (pervertere): a proibição do incesto; a proibição de matar e a proibição da idolatria. (…)

«Que significa proibição? Significa essencialmente isto: que a salvação do homem (na sua relação consigo mesmo, com os outros e com Deus) não se encontra no imediatismo (querer ter tudo, já e aqui). Ninguém procura mulher para casar dentro do seu círculo (na sua família; Lv 18, 6), mas fora dele; ninguém dirime as suas divergências com o próximo tomando soluções imediatas e drásticas (assassinato; Ex 20, 13): há que as resolver procurando mediações; ninguém adopta Deus a partir apenas dum reflexo d’Ele (ídolo; Ex 20, 3): Deus tem de ser o Outro, o totalmente diferente.

«O imediatismo engana e é caminho de perdição, porque encarcera dentro do seu próprio círculo e mantém tudo no já conhecido, quando aquilo que é preciso é construir e inventar uma relação aberta à alteridade, à exterioridade, ao desconhecido. Neste sentido, não há salvação a não ser fora de si mesmo(Adolphe Gesché, «Dios – Dios para pensar III», Sígueme 2010, p. 156. ISBN 978-84-301-1731-4)

O que estes dois autores – Karen A. e Juan Antonio E. – nos querem ensinar é que a dinâmica da Humanidade foi sempre esta: ou rompe com o imediatismo (vingança, ressentimento, tradição casuística ferrenha) e se abre ao desconhecido e ao diferente de si (utopia espiritual) ou definha e morre na mesmidade. É a essa tarefa iluminadora do sentido do nosso quotidiano e da nossa civilização que nos cabe, hoje em dia, a nós associarmo-nos.

Mas… «Primeiro, temos de empenhar-nos na vida ética.»






10 de fevereiro de 2016

«OUTRA IGREJA É POSSÍVEL» [JOAQUÍN PEREA]




A presença da Igreja na história do mundo

Que fique claro que a condição do sujeito da Igreja significa renunciar a si própria através duma escolha firme e decidida pela pessoa de Jesus Cristo. Ou seja, a conversão a Jesus diante de qualquer tipo de triunfalismo, a escuta comunitária da Palavra frente a todo o tipo de autoritarismo, o serviço recíproco frente a toda a pretensão de dominação. O povo de Deus é uma realidade profundamente «relativa», está totalmente dependente de Jesus.

Por isso, a identidade específica do seu sujeito histórico, o especificamente distintivo da Igreja é exercitar, ao mesmo tempo, a memória e a espera de Jesus[1]. A tensão entre memória e espera confere-lhe uma identidade que impede o seu anonimato aquando da sua dispersão no mundo. A missão do povo de Deus no mundo tem, como fundamento intrínseco, a memória e a espera de Jesus. Se o povo de Deus não anunciar, como Boa Notícia, essa experiência à humanidade, esta permanecerá nas trevas. Tal missão poderá levar a uma acção estimulante ou crítica do modo de viver dos homens e das mulheres do nosso tempo.

No plano das acções humanas destinadas à humanização do mundo, os membros deste povo de Deus não constituem um grupo particular que se diferencie de outros grupos humanos. Para nós, só contam as condições ordinárias e vulgares da vida humana, condições que todos somos chamados a partilhar solidariamente. Como cristãos, não temos projectos humanos específicos para contrapor como alternativa aos que já existem. Porém, o facto de sermos membros do povo de Deus confere-nos uma responsabilidade específica face ao mundo: aquilo que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo (cf. LG 38, que cita a Carta a Diogneto,[2] n. 6 [século II]).

É neste contexto que ocorre o confronto da própria Fé com as realidades maiores do nosso mundo, realidades essas que são encaradas como uma Revelação implícita de Deus, e que devem ser referidas ao acontecimento único de Cristo, onde ocorre a plenitude da Revelação.

Os esforços para que a Igreja esteja presente, hoje em dia, na História do mundo são porém embrionários. Por duas ordens de razões. Por um lado, se a praxis é o lugar da verificação da fé, ainda não foi possível estabelecer uma praxis pós-conciliar suficientemente ampla e coerente (nas suas diversas formas) de modo a permitir uma reflexão que atinja um certo grau de universalidade. Por outro lado, um dado específico da nova situação [pós-Conciliar] é a afirmação de que a teologia tem de deixar de ter por sujeito a pessoa do teólogo para se converter numa tarefa da comunidade eclesial inserida na acção histórica, comunidade que confronta a sua leitura da realidade com a análise que outros grupos, outras religiões e outras ciências fazem da mesma realidade. Ora, acontece que não houve ainda tempo suficiente, nem as comunidades amadureçam suficientemente em matéria de intercomunicação e confronto com outras leituras da realidade. Esta é uma tarefa que está aí diante de nós, a desafiar-nos.

Joaquín Perea
"Otra Iglesia es posible", Ediciones HOAC Madrid, 3ª Ed. 2011, pp. 269-272.72. ISBN 978-84-92787-06-7.









[1] Manter sempre a lamparina acesa, evitar que se esgote o azeite e ela se apague… [NdE]
[2] «Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo. A alma está em todos os membros do corpo e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, não é, contudo, do corpo; também os cristãos, se habitam no mundo, não são do mundo (Jo 15,19; 17,11.14.16). A alma invisível vela no corpo visível: também os cristãos sabe-se que estão neste mundo, mas a sua religião permanece invisível. A carne odeia a alma e, apesar de não a ter ofendido em nada, faz-lhe guerra (…): da mesma forma o mundo odeia os cristãos que não lhe fazem mal nenhum (…). A alma ama a carne, que a odeia, e os seus membros. Também os cristãos amam os que os odeiam.»


28 de janeiro de 2016

JESUS, O ESTALEIRO DO REINO [pb]

As Bem-aventuranças - a Magna Carta da Igreja


Solidariedade à maneira de Jesus


[…]

3º Pressuposto

1.   Jesus tinha um PROGRAMA MOBILIZADOR, forjou um PARADIGMA NOVO: é possível um mundo outro, diferente deste, virado do avesso, um mundo cheio do Espírito Santo, do Espírito de Deus – esse paradigma chamava-se «REINO DE DEUS». (cf. Mt 4:17; Mc 1:15). Esse programa – Reino de Deus – era o oposto do Reino da Morte; era um Reino de Vida (Mt 14:34-35; e todo o capítulo 15), e VIDA EM ABUNDÂNCIA (Jo 10:10). Era o contrário do reino da «morte, do luto e da fome» do Império romano – hoje diríamos, o contrário do Império Único do Neo-Liberalismo! (v.8, Apocalipse 18). Era um Reino Includente de Todos, independentemente de ter ou não ter religião, independente do género (gender) masculino ou feminino, independente da condição cultural, social ou económica.
2.   Jesus apenas SEGUIA a VONTADE DE DEUS (Ex 3:7-10; Neemias 9:9ss: Deus decide colocar-se APENAS do lado do povo escravizado CONTRA o opressor, o Faraó do Egipto; Deus decide-se a ser o Protector do seu Povo). Deus não é neutro, indiferente e, portanto, Jesus optou por um MODELO ESPIRITUAL NÃO NEUTRAL (Jesus, muito cedo, apercebeu-se que estava a arranjar problemas com este Modelo Espiritual não neutral: Lc 4:16-29; v. 28: «Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de ódio» contra Jesus; cf. Mt 10:16-23 - «Tende cuidado…»). Jesus vinha para DAR (a sua vida) / SERVINDO (Jo 13:4-6) e não para ROUBAR A VIDA (como fazem os “ladrões”; cf. Jo 10:1-6) OPRIMINDO / ROUBANDO / MANDANDO (Mt 20:20-28; Mc 10:42-45; Lc 22:24). Para um cristão, seguir a “Vontade de Deus” é OPTAR, não é ser indiferente, não é ser neutro − é o contrário do “qualquer coisa serve…”. Seguir Jesus é ser ‘parcial’ (Jon Sobrino), porque a Realidade nos obriga a fazer escolhas.


Em resumo:

1.   Jesus não é um monge,
2.   Jesus não é um sacerdote,
3.   Jesus é um leigo, que quis viver no meio do povo pobre,
4.   Jesus é sábio, mas não é um intelectual, é de classe pobre, um operário,
5.   Jesus faz escolhas, é «parcial», não é neutral, toma partido pelo seu Povo,
6.   Jesus segue os critérios de Deus Salvador (cf. «Bem-aventuranças»): assim, Jesus fortalece a dignidade do seu povo (dignidade de Filhos de Deus),
7.   Jesus não prega um Reino para depois da morte: começa já, AQUI E AGORA, a Salvar (curas, milagres,…). […]



[pp. 15]







3 de janeiro de 2016

ÉTICA DA FELICIDADE [J.M. CASTILLO]

A história e o bem
[primeira redacção]


Deixemos para «trás de nós a abstracção que domina em parte o pensamento Ético do homem individual isolado, o qual, de modo incessante e exclusivo, se deve decidir entre um Bem e um Mal claramente reconhecidos segundo um critério absoluto de que esse Homem Individual poderia dispor. Semelhante indivíduo singular não existe, nem desse critério absoluto do Bem dispomos nós, nem é habitual que o Bem e o Mal se apresentem a nós na sua forma pura. O erro deste abstracto esquematismo ético consiste em só valorizar o indivíduo isolado como eticamente relevante, em que só o absoluto e o universalmente válido conta como Norma, em que só a decisão entre o Bem e o Mal claramente reconhecidos valem como decisão ética; por outras palavras, o erro está em reduzir o elemento ético a uma fórmula fundamental absolutamente estática, o que é uma ficção e no qual o especificamente ético se perde.

A esta abstracção corresponde um determinado comportamento prático, com que se intenta sempre de novo a solução do problema ético e que está, no entanto, sempre de novo condenada a fracassar.

O que está em causa, aqui, é de o indivíduo abdicar da responsabilidade viva do seu ser-aí histórico e de se refugiar numa realização privada de ideais éticos em que veja garantida a sua bondade pessoal. (…)

De harmonia com a radicalidade de tais princípios, esta atitude leva a renunciar à responsabilidade na sua globalidade e a refugiar-se numa existência burguesa puramente privada ou no convento. Mas, visto que o isolamento ético do indivíduo é, na prática, uma ficção – pois ninguém se pode isolar de todo da comunidade humana e cada qual dela vive −, esta concepção do ético está condenada ao fracasso. Ela desmorona-se em face da historicidade do ser-aí humano. [M. Heidegger, «Sein und Zeit», 387 (título do §75): «A historicidade do ser-aí e o mundo-história.»] (…)

No momento em que um homem aceita uma responsabilidade por outros homens – e só assim ele está na realidade – nasce a situação ética genuína, que se distingue essencialmente da abstracção (…). O sujeito da acção já não é o indivíduo isolado, mas aquele que é responsável por outros homens; a norma do agir não é um princípio universalmente válido, mas o próximo concreto, tal como ele é dado por Deus; a decisão já não incide entre um Bem e um Mal claramente, mas a decisão é um risco que se corre na fé face à ocultação do Bem e do Mal na concreta situação histórica.

Agir na responsabilidade concreta significa agir na liberdade, decidir pessoalmente, sem ter aos ombros o manto protector de homens ou de princípios, é agir e responder pelas consequências do seu agir. A responsabilidade pressupõe uma derradeira liberdade no julgar uma dada situação, no decidir e no agir. A acção responsável não foi estabelecida à partida e de uma vez por todas, mas nasce na situação concreta. Não se trata de cumprir um princípio que, no fim, fracassa em contacto com a realidade, mas de aprender aquilo que é necessário - «mandato» - na situação dada. Importa observar, sopesar e avaliar tudo na perigosa liberdade do eu. É necessário ingressar totalmente no campo das relatividades, na luz ambígua que a situação histórica estende sobre o Bem e o Mal. Preferir o melhor ao menos bom porque o «absolutamente bom» pode, por isso mesmo, suscitar o Mal, é a auto-renúncia às suas pretensões, muitas vezes necessária, de quem com responsabilidade actua. (…) Afirma-se, aqui, do modo mais elevado a liberdade de quem é responsável também em face da escravatura dum «absolutamente bom». (…)

O agir é, num sentido muito profundo, adequado à realidade

Dietrich Bonhoeffer [1906-1945], «ÉTICA», Assírio & Alvim, Teofanias_6, 2007, tradução de Artur Morão. ISBN 979-972-37-1179-0. [Esta tese de D. Bonhoeffer opõe-se à tese conservadora dos conservadores e restauracionistas cardeal Joseph Ratzinger e Papa João Paulo II, apologistas das «verdades absolutas inegociáveis». D. Bonhoeffer opta, antes, por uma lógica indutiva. Esta deverá ser também a orientação das teologias cristã, muçulmana, judaica ou outras para os conturbados tempos de hoje, como propõe H. Kung]








Preceitos, não; felicidade e alegria, sim

[…] «O evangelho de Mateus começa o seu relato do Sermão da Montanha dizendo: «Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los» (Mt 5, 1-2). De seguida, Jesus expõe o seu programa: as Bem-aventuranças (Mt 5,3-12). É provável que a fórmula do relato contenha alguma alusão à memorável subida de Moisés ao Monte Sinai (Ex 19,3.12; 24, 15.18; 34, 1s.4). A conclusão do Sermão da Montanha também evoca esses textos alusivos a Moisés[1]. Nesse sentido houve quem afirmasse, com fundamento, que Jesus, ao subir ao monte das Bem-aventuranças, «assume a função de um novo Moisés»[2]. Seja qual for o conteúdo concreto desta afirmação, o certo é que Jesus, no Sermão da Montanha, promulga o seu programa: um programa ético. Contudo, um programa que se diferencia totalmente daquele que Moisés promulgou no outro monte,  o Sinai. No Sinai, Moisés promulgou Mandamentos, ao passo que Jesus, no monte da Galileia, anunciou Bem-aventuranças. Ou seja, passamos de uma ética de deveres e obrigações para uma ética de felicidade e ventura. Eis a surpreendente inovação do projecto moral oferecido por Jesus. Joaquim Jeremias disse, com toda a razão, que o Sermão da Montanha não é Lei mas Evangelho, de tal forma que a diferença entre um e outro é esta: «A Lei põe o homem diante das suas próprias forças e pede-lhe que as use até ao máximo; o Evangelho situa o homem diante do dom de Deus e pede-lhe que converta verdadeiramente esse dom inefável em fundamento da sua vida. Estamos perante dois mundos distintos[3].

Claro que não se trata de Jesus ter suprimido os mandamentos, como se de agora em diante fosse permitido matar, roubar, mentir ou adulterar. Nada disso. O que acontece é que as Bem-aventuranças vão muito para além do que tudo o que os mandamentos significam (ou podem significar). As Bem-aventuranças não se ficam por uns quantos limites que não se podem transgredir, mas definem metas que nunca seremos capazes de alcançar plenamente. Não são proibições, mas propostas. Não são a negação daquilo que não se pode fazer, mas a afirmação daquilo que nos dá vida e nos deixa indizivelmente felizes. É o Evangelho, a «Boa Notícia», o «tesouro» (Mt 13,44) e a «pérola» (Mt 13,45ss), que enche o ser humano de uma felicidade indizível.

Com efeito, a primeira característica que surge nas Bem-aventuranças é que o programa de Jesus para os seus companheiros é um programa de felicidade[4]. Cada afirmação de Jesus começa com a palavra makárioi, «ditosos». Em grego, essa palavra significa a condição de quem está livre de preocupações e trabalhos diários; e descreve, em linguagem poética, o estado dos deuses e daqueles que participam dessa existência feliz. Por conseguinte, Jesus propõe a ventura sem limites, a felicidade plena para os seus seguidores. Deus não quer a dor, a tristeza e o sofrimento. Deus quer precisamente o contrário: que o ser humano se realize plenamente, que viva feliz, que a boa sorte abunde e superabunde na sua vida.

Jesus compreendeu que o meio mais eficaz e mais directo para aproximar-se de Deus, e para que cada qual se realize, não é estabelecer proibições, mas fazer propostas que melhor e mais naturalmente encaixem na nossa condição humana, naquilo que mais desejamos e melhor agrada. Em suma, trata-se de substituir os mandamentos que proíbem o mal por ofertas que nos fazem sentir atraídos pela felicidade. Jesus não nos diz: «Não faças isto porque se o fazes estás condenado»; mas propõe: «Se viveres desta maneira, serás feliz». Sem sombra de dúvida que esta última é muito mais atraente e mais eficaz que a anterior. Por isso, logicamente, tal proposta deveria pesar mais na nossa vida. Acontece que, regra geral, tal não acontece. Por que será? (…)»


José M. Castillo

«Ética de obligaciones, ética de felicidad», in «La Ética de Cristo», 5ª Edición, Desclée De Brouwer Abril 2008, pp. 135-149. ISBN 978-84-330-2027-7.


[pp. 16]





[1] Ulrich Luz, «El Evangelio según san Mateo - I», Salamanca, Sígueme, 1993, 276. J. Jeremias: TWNT IV, 875.
[2] J. Mateos e F. Camacho, «El Evangelio de Mateo», Madrid, Cristiandad, 1981, 52.
[3] J. Jeremias, «Palabras de Jesús», Madrid, Edic. Fax, 1969, 99.
[4] J. M. Castillo, «Teología para comunidades», Madrid, San Pablo, 1990, com bibliografia sobre este assunto.

24 de novembro de 2015

«O MEU CRISTO PARTIDO DE CASA EM CASA» [R.CUÉ, sj]




«O MEU CRISTO PARTIDO DE CASA EM CASA»

– um invulgar êxito editorial, uma extraordinária companhia antes de adormecer


«Até que um dia… − e aqui começa propriamente o segundo episódio de "O Meu Cristo Partido" − aconteceu o inesperado. Se bem que, tratando-se de Cristo, tudo se possa esperar. Ele guia-se por dois padrões diferentes.

«Eu tinha estado ausente durante toda a tarde e regressava a casa cansado e aborrecido, depois de me ter esquivado a dois pedidos insistentes para lhes emprestar o Cristo. Tinha sido uma cena desagradável e violenta. Eu regressava com mau sabor de boca. E, pela primeira vez, comecei a duvidar da legitimidade da minha atitude e a suspeitar que me estava a deixar levar pela teimosia duma arbitrária decisão inicial.

«Seria um mero capricho?

«Estava disposto a reexaminar o problema. Até mesmo a mudar de opinião, se o novo exame assim o exigisse. Mas amanhã. Esta tarde, não tinha serenidade para isso.

− Bem! Vou perguntá-lo a Cristo. Ele que resolva! – disse de mim para mim, para acabar de me tranquilizar.

«E entrei em casa.

«Dois minutos depois, estava no meu escritório. Da porta, dirigi o meu olhar para o culpado de toda aquela tensão que tanto me angustiava: o Cristo.

«Fiquei estupefacto.

«O lugar que a imagem costumava ocupar estava vazio. Nem queria acreditar. Parecia-me uma alucinação, provocada pelo desgosto daqueles dias. Abeirei-me da parede. Era verdade. O meu Cristo partido tinha desaparecido.

«Sobre o damasco vermelho do fundo, só restava a marca do seu corpo – sem cruz e sem braço direito – recortada num tom mais vivo, que a luz do sol tinha respeitado.

«Não fui capaz de reagir.

«Ignoro o tempo que ali passei imóvel, em pé, de olhos cravados naquela silhueta desenhada no fundo vazio e desbotado do pano. Como se o damasco estivesse a sangrar por aquele vermelho mais vivo, qual ferida nele deixada pela imagem de Cristo.

«O choque apanhou-me tão desprevenido que fiquei sem capacidade de reacção, simplesmente aniquilado.

«Até que, ao mexer a cabeça, dei pela presença branca de uma carta à beira da lamparina que ardia sem interrupção junto do Cristo e que continuava acesa, alheia ao sucedido.

«O sobrescrito estava em branco e aberto. Continha um papel com quatro linhas escritas à mão numa letra clara e firme:

"Levo o seu Cristo porque preciso dele. Não lho pedi porque sei que é inútil e eu preciso dele. Não fique preocupado. Terei muito cuidado com ele, pois gosto dele pelo menos tanto como o senhor. Fique descansado. Devolver-lho-ei".

«A letra parecia espontânea e sem disfarces. […]

«Eu estava furioso. Tinham-me pisado no ponto mais sensível: o meu amor-próprio. E a minha heróica atitude de inquebrantável recusa a emprestar a imagem de Cristo jazia ridiculamente por terra.

«A essas horas, como estariam a rir, à minha custa, os que soubessem do sucedido!»


[…]


Cristo organiza o Seu escritório

− A bagagem de Cristo

− Manobra de Cristo num «Rolls-Royce»

− A lista negra de Cristo

− Cristo visita uma Confraria

− etc.


(A aventura continua… em mim… em ti… Dorme bem!)






«Mi Cristo roto de Casa en Casa», Ramón Cué, jesuíta, Santiago de Compostela.
«O meu Cristo partido de casa em casa», R. Cué sj, Editorial Perpétuo Socorro, Rua Visconde das Devesas, 630, Vila Nova de Gaia, 20ª edição. ISBN 972-563-184-6 (à venda na Livraria Paulinas, Rua de Cedofeita – Porto)