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29 de agosto de 2017

ÉTICA CIVIL E VIRTUDES REPUBLICANAS - C.P.S.




ÉTICA CIVIL e VIRTUDES REPUBLICANAS

[…] Na hora de assinalar as possíveis causas desta manifesta degradação ética que atravessa a sociedade espanhola, eu mencionaria particularmente duas. Em primeiro lugar, a invasão de um capitalismo selvagem que arrasou a consciência moral e conferiu verdade ao veredicto de Kenneth Galbraith: «A corrupção é inerente ao sistema capitalista, porque as pessoas confundem a ética de mercado com a ética propriamente dita, e porque o afã do enriquecimento anda de mão dada com o capitalismo».[1] Segunda causa: Espanha, ao contrário de outros países da Europa, não conheceu uma autêntica revolução cultural relacionada com a Modernidade Ilustrada. Concretamente, não se espalharam sistemas morais de tipo laico ou místicas de serviço à colectividade ao nível da função pública. As referências éticas ficaram ligadas, como habitualmente, aos princípios e imperativos morais da fé católica. Tentativas secularizadoras de cariz moral não calaram fundo nas massas, em grande parte por obra da reacção nacional-católica. A mais recente dessas tentativas, unida à «Segunda República», sucumbiu às mãos do chamado "Movimento nacional", de Julho de 1936. Quando a cultura nacional católica se afunda e surge o estado laico, a anomia e o vazio ético tomaram conta das consciências.

É extremamente urgente um forte movimento de remoralização da nossa cidadania afectada por tão grave doença. Por todos os lados se ouvem vozes de alarme, começando pela dos bispos espanhóis com o seu documento «La verdade os hará libres» e seguindo pelas dos intelectuais e jornalistas responsáveis, preocupados com o problema, entre eles Aranguren, Haro Tegglen, Sampedro, Rosa Montero, Vázquez Montalbán, etc. Urge atalhar este decrescimento moral, criar ou recriar uma ética civil ou cidadã, infundir virtudes republicanas, caso não queiramos cair numa barbárie de instintos à solta, num darwinismo de hominídeos. Não podemos esquecer a afirmação de Freud de que «a civilização está estreitamente ligada ao controlo permanente dos nossos instintos».

Parece-me que não é totalmente descabido lembrar, aqui, alguns enunciados relacionados com a chamada fundamentação da moral no ser humano. Várias são as dimensões que constituem a essência e a existência humanas. O ser humano — diz-se na antropologia — é um buscador de verdade e de clarificação. É um ser possuidor de uma dinâmica de convivência e de comunicação espelhadas na linguagem. É um ser temporal e histórico. A sua interioridade (o seu íntimo) impulsiona-o para o absoluto e para o incondicionado. Por fim, é um ente moral, estructuralmente moral: é-o estructuralmente e não apenas sociologicamente. O ético pertence à sua constituição. «Que o homem seja uma realidade moral não é uma questão de regras ou de normas, mas tem a ver com a sua própria estrutura formal como essência constitutivamente aberta. O homem … tem de se encarregar da realidade. O homem não pode esquivar-se a definir um sistema de possibilidades de realização … a moralidade é uma estrutura radical e física do homem» — afirmações de Xavier Zubiri.[2] A antropologia cultural ensina-nos que não existe cultura alguma que não reserve um lugar para os valores e códigos éticos. Não há povo que careça das denominações de «bom» e de «mau» referenciados a signos morais. A literatura do mito, que nos faz recuar à mais antiga humanidade civilizada, informa-nos que a consciência moral e o sentimento de culpabilidade sempre acompanharam o ser humano.

Não quero entrar numa discussão filosófica sobre o nada fácil tema dos valores. À margem da controvérsia, parece que a noção de valor contém em si algo pelo qual se opta (independentemente da argumentação) em virtude de uma dinâmica interna que faz com que sintamos algo (o valioso) como importante, como interessante, como gratificante, como preferível. Max Scheler, entre outras, propôs uma divisão ou classificação e uma hierarquia de valores. No plano mais baixo (inferior) estão os valores do agradável e desagradável; no plano mais alto (superior) por ordem ascendente, os valores vitais, os espirituais (o belo e o feio, ou seja, os valores estéticos; o justo e o injusto, ou seja, os valores éticos; o verdadeiro e o falso, ou seja, os valores do conhecimento) e os valores religiosos (o sagrado e o profano). Diante do imperativo moral exacto e normativo, os valores éticos seriam como estrelas que, na noite escura, orientam a conduta do ser humano forçado a optar.

Quando na pessoa já existe uma dinâmica capaz de vencer obstáculos na prossecução e realização de um determinado valor moral (verbi gratia, a justiça) podemos falar de virtude. Virtude, na sua raiz etimológica, quer dizer força. Na linguagem de S. Tomás de Aquino é o habitus operativus bonus. É a sensibilidade e a opção pelos valores éticos convertidos em algo consanguíneo, algo integrado na personalidade.

Os valores e as virtudes que agora nos interessam têm carácter público, ou seja, cívico (civitas = cidade), político (polis = cidade), republicano (respublica = coisa pública). Têm como referente a vida em colectividade organizada, necessária ao livre desenvolvimento do ser humano. Os valores e as virtudes situam-se para lá de uma referência centrada simplesmente no próprio sujeito (no indivíduo), e vão mais além da chamada esfera privada (Cf. Alberto de Mingo Kaminouchi[3]).

É evidente que esta linguagem pressupõe algo fundamental: ela é o negativo da ideia de que a realidade pública é algo estranho ao ético. De facto, a ética (sinónimo de Moral[4]) já não prescinde da inserção e referência pública, nem o público pode ser considerado e vivido à margem do ético. Nem ética sem política, nem política sem ética. Tornou-se um lugar-comum a crítica ao abandono da linguagem ética — tão da tradição do socialismo espanhol — pelo actual partido no poder e a sua substituição, nos seus políticos mais ilustres, pela ética da responsabilidade (uma alusão a Max Weber).[5] Creio que na maior parte das vezes, esta é a linguagem do sofisma e da mentira. Por trás dela esconde-se o mais tosco pragmatismo político. A tentativa de relegar a moral para a esfera do privado é algo tipicamente burguês. Não é sem razão que Maquiavel é o pai do político convertido no agente político autónomo, absoluto, à margem de qualquer referência, para lá do bem e do mal. Os nossos políticos são descendentes mais ou menos encapuzados do autor de «O Príncipe».

Há que - alto e bom som - dizer não a esse maquiavelismo disfarçado de éticas da responsabilidade. Os cidadãos têm o direito a julgar a índole moral ou imoral das metas a que se propõem aqueles que ocupam hoje em dia o poder, os cidadãos têm o direito a pronunciarem-se sobre a eticidade das políticas que os políticos põem em marcha. Os políticos têm o sagrado dever de dar carne cívica aos valores humanos que fazem da colectividade uma sociedade de seres racionais e livres, lugar da realização dos direitos e liberdades cidadãs. «A verdadeira política — ensinou-nos Kant — não pode dar um passo sem ter rendido previamente a devida fidelidade à Moral».[6]

Tudo isto é verdade e deve ser defendido como tal. Contudo, isso não impede que existam realidades que não podemos deixar de constatar; trata-se de limitações e de resistências, sobretudo morais, que a conjuntura concreta manifesta na hora de pôr em prática metas e métodos. Pensamos em problemas sociopolíticos, tais como o terrorismo, o desemprego, a droga, a imigração, etc. É verdade que a política é apresentada, por vezes, como a arte do possível. Confessá-lo, por parte dos políticos, não é nenhuma desonra. Mas o que nunca se pode fazer é erigir o mais vulgar pragmatismo, o esvaziamento humanístico de um governo e uma certa organização política numa ética da responsabilidade, no interesse pelo bem comum e pelo amor à pátria.

O ideal e a utopia de uma sociedade moral, de uma sociedade «da vinculação dos seres humanos às leis da virtude» (Kant), pressupõe uma aposta numa não separação entre o jurídico e o ético. É claro que o legislador não é um director espiritual e portanto terá de tolerar certas doses de mal moral a fim de não sufocar em excesso os âmbitos da liberdade cidadã. Mas a razão jurídica deve ser fundamentalmente uma razão ética. Qualquer ordenação jurídica pressupõe uma determinada antropologia, queira-o ou não. O importante é que essa antropologia seja uma concepção do homem «à altura do nosso tempo», como diria Zubiri. Qualquer ordem jurídica deve ter como meta garantir e tornar reais os direitos e as liberdades da pessoa humana. Qualquer constituição política deverá ter como referência primeira a inalienável dignidade da pessoa humana. Acertadamente, são os direitos e liberdades das pessoas os que abrem os conteúdos jurídicos da Constituição Espanhola.[7]

Passo, agora, a abordar o último destes postulados de ética fundamental. Diz respeito à tensão entre o privado e o público já anteriormente insinuado, entre o bem particular e o bem comum, entre o cidadão e o estado. Toda a gente sabe como Hegel viu, no Estado, a conciliação real desta esquizofrenia cívica originada entre duas leis: a lei que dimana do poder e a lei que tem a sua origem na consciência do indivíduo. O exemplo clássico é Antígona. A oposição entre juridicidade e moralidade é superada na eticidade, que Ortega traduz acertadamente por civilidade. O carácter específico da civilidade é a confiança através do Estado e através da devoção ao Estado, pai de todos nós, «passagem de Deus pela terra».

Ninguém poderá estar de acordo com esta mistificação e mitificação que Hegel faz do Estado, e do Estado em concreto. O século XX é testemunha do caos humano a que levou semelhante concepção do poder. Acertadamente, a «Declaração dos Direitos Humanos» de 1948 vê no Estado o grande negador da pessoa humana, dos seus direitos e liberdades. Ela previne contra o absolutismo do poder. «Nada é imutável — diria Jefferson — a não ser os inalienáveis direitos do Homem». Jefferson seria o anti-Hegel. Mas também não é correcto converter o Estado no mal absoluto. Sempre pensei que, se o Estado pode ser um mal, será, em todo o caso, um mal menor que o mal «da guerra de todos contra todos», em que seguramente aos mais débeis caberá a pior das partes. Ao Estado, às suas leis racionais, justas e equitativas, em consciência, devem os cidadãos obediência e respeito, a fim de contribuírem para o bem comum. Digamos não ao estatismo hegeliano, mas também não ao individualismo egoísta do vale-tudo do burguês ou do pequeno-burguês entrincheirado e refugiado no privado, do género, como se costuma dizer, «minha casa, minha missa e minha Maria Luísa». Com razão, o próprio Hegel também criticava a burguesia alemã cristã desprovida de sentido cívico e social.[8] No entanto, há-de haver situações na vida pública em que teremos de optar por Antígona. Refiro-me à objecção de consciência frente àquilo que se considere uma desmesura do poder (diante de leis como a do serviço militar obrigatório, lei sobre o aborto, etc.), desmesura que é enfrentada com uma consciência ética bem informada, honesta e disposta ao diálogo.

Tratei, até aqui, de estabelecer uma série de postulados fundamentadores de uma sensibilidade ética, e que convém recordar num momento de crise que atravessa a nossa cultura. Resumamos esses postulados fundamentadores, desta forma: consistiram esses princípios na condição moral estructural do ser humano; na noção daquilo que são valores e virtudes morais; no carácter irrenunciavelmente ético do agir político; na aposta por uma sociedade moral; num não ao divórcio entre o jurídico e o ético; e, por fim, no justo meio-termo que preserve a tensão entre o privado e o público.

Vou, agora, passar a algo especial quanto à sua relação com o título da comunicação. Consiste em estabelecer uma ética de conteúdos concretos, de valores com carácter cívico determinados, em estabelecer quais seriam as virtudes republicanas ou democráticas. (Excerto)


Alfredo Tamayo Ayestarán, «Ética civil y virtudes republicanas», in "Fé y Democracia», Jornadas C.P.S. – Cristianos por el Socialismo" Madrid 14-15 de Novembro de 1992, Editorial Popular 1993 (eds. Julio Lois Fernández, José Ramón López de la Osa, Alfredo Tamayo Ayestarán), N. 187, pp. 29-42. ISSN: 0210-3559.

[10 pp.]


Indice completo de «Fé y Democracia» - N. 187

1 – Apresentación (José María García-Mauriño, secretario-general de los CPS)

2 – Perspectiva social del cambio de valores en España en la década de los 80 (José Ramón López de la Osa)

3 - Ética civil y virtudes republicanas (Alfredo Tamayo Ayestarán)

4 – Aportación cristiana a la democracia (Julio Lois Fernández)

5 – Crisis de la participación democrática (Santiago Sánchez Torrado)

6 – Bases no éticas de las actuales falsas democracias (Alberto Giraldez Dávila)

7 – Ética, democracia y evangelio (Gregorio Galdós)

8 – La auto-eutanasia: «La anomia» (José Martín Adeba Hernaiz)

9 – Sugerencias Didácticas (Martín Valmaseda)








[1] «El País», 23 de Março de 1992.
[2] X. Zubiri, «Sobre el hombre», M 1986, p. 420s.
[3] [NdT] Alberto de Mingo Kaminouchi, «O surpreendente regresso da ética de Aristóteles»: "Grande parte da filosofia política da Modernidade assumiu como missão sustentar a legitimidade das regras do jogo, as quais protegem a liberdade e a igualdade de oportunidades para todos, só que, agora, constatamos que há que levar o diálogo ético para lá dum simples acordo acerca de regras e procedimentos." (…) "O individualismo da nossa cultura tem causas estruturais e tem de ser analisado também do ponto de vista político."; in «Introdución a la ética cristiana», Sígueme 2015.
[4] Cf. Marciano Vidal, «Moral de actitudes I - Moral fundamental», Vol. I, Madrid 1990, 18. [NdT]
[5] M. Weber, «El político y el científico», M 1967, p. 160ss.
[6] I. Kant, «La paz perpetua», M 1979, p. 149.
[7] Constitución española, Título I «De los derechos y deberes fundamentales».
[8] G. W. F. Hegel, «Theologisch Jugendschriften», p. 223; veja-se G. Lukacs, «El joven Hegel y los problemas de la sociedad capitalista», Barcelona / México 1972.


25 de setembro de 2015

INDICADORES SOCIAIS, BEM-ESTAR E FELICIDADE - 3/3






COMO A DESIGUALDADE SE ENTRANHA NA PELE


«É bem certo que cada homem traz no olhar
a indicação exacta da posição que ocupa
na imensa escala dos homens.
E estamos sempre a aprender a ler esse olhar.»
(Ralph Waldo Emerson, «A Conduta da Vida»).


Como se explica que sejamos tão fortemente marcados pela desigualdade e pela nossa posição no seio da sociedade, como sugerem os dados apresentados no capítulo anterior [«Pobreza ou Desigualdade?»]? Antes de explorarmos — nos nove capítulos seguintes — as relações entre a desigualdade e uma ampla gama de problemas sociais, nomeadamente os problemas incluídos no nosso índice de problemas sociais e de saúde, tentaremos explicar por que razão os seres humanos são, provavelmente, tão sensíveis à desigualdade.

Como a desigualdade é um aspecto da estrutura ampla das sociedades, as explicações dos seus efeitos implicam mostrar como os indivíduos são afectados pela estrutura social. São as pessoas, e não as sociedades em si, que têm saúde deficiente, que são violentas e se tornam mães adolescentes. Embora as pessoas não usufruam de uma distribuição de rendimentos, dispõem, no entanto, de um rendimento relativo, de um estatuto social ou posição de classe na sociedade em geral. Por conseguinte, neste capítulo iremos mostrar como a nossa sensibilidade individual em relação à sociedade em geral explica por que razão as sociedades mais desiguais talvez tenham efeitos tão profundos.

Compreender a nossa vulnerabilidade à desigualdade implica discutir algumas das nossas características psicológicas comuns. Quando falamos ou escrevemos acerca destas questões, é muito frequente as pessoas interpretarem mal o nosso propósito. Não estamos a sugerir que o problema se reduz a uma questão de psicologia individual, nem que é realmente a própria sensibilidade das pessoas, e não a escala da desigualdade, que deveria ser mudada. A solução para os problemas causados pela desigualdade não radica numa psicoterapia em massa destinada a tornar todas as pessoas menos vulneráveis. A melhor forma de lidar com os danos causados por altos níveis de desigualdade seria reduzir a própria desigualdade. Em vez de se mandar dissolver medicamentos ansiolíticos no sistema público de abastecimento de água ou de recorrer a uma psicoterapia em massa, o elemento mais entusiasmante do quadro que apresentamos é que a redução da desigualdade aumentaria o bem-estar e a qualidade de vida de todos nós. Longe de ser inevitável e imparável, a sensação de deterioração do bem-estar social e da qualidade das relações sociais na sociedade é, de facto, reversível. Compreender os efeitos da desigualdade implica implementar medidas políticas imediatas para fomentar o bem-estar das sociedades como um todo.

Os poderosos mecanismos que tornam as pessoas sensíveis à desigualdade não são passíveis de ser compreendidos apenas em termos de estrutura social ou de psicologia individual. A psicologia individual e a desigualdade social relacionam-se uma com a outra como uma chave e uma fechadura. Uma das razões por que os efeitos da desigualdade não foram anteriormente compreendidos de forma adequada deve-se ao fracasso em compreender a relação entre ambos os factores.


O aumento da ansiedade

Tendo em conta o conforto material e a comodidade física sem precedentes das sociedades modernas, talvez seja sensato adoptar um certo cepticismo em relação à forma como todas as pessoas falam do stresse, como se a vida fosse dificilmente suportável. No entanto, Jean Twenge, uma psicóloga da Universidade Estadual de San Diego, compilou provas impressionantes de que somos hoje realmente muito mais ansiosos do que costumávamos ser. Ao analisar o vasto número de estudos sobre os níveis de ansiedade na população realizados em datas diferentes, foi capaz de documentar tendências muito claras. Descobriu 269 estudos amplamente comparáveis que mediam os níveis de ansiedade nos EUA em vários períodos entre 1952 e 1993[1]. O conjunto desses estudos abrangeu mais de 52 mil indivíduos e revelou uma contínua tendência ascendente ao longo desse período de quarenta anos. Os resultados de Jean Twenge para os homens e para as mulheres são apresentados na figura 3.1. Cada ponto no gráfico mostra o nível médio de ansiedade apurado num estudo posterior à data da sondagem efectuada. A tendência ascendente presente em tantos estudos é inequívoca. Twenge descobriu o mesmo padrão tanto em estudantes universitários como em crianças: o estudante universitário médio estava no final desse período mais ansioso do que 85% da população no início desse mesmo período; e, mais impressionante ainda, no final da década de 1980 a criança norte-americana média estava mais ansiosa do que as crianças que eram pacientes psiquiátricos na década de 1950.

Estas provas resultaram da aplicação de medidas padronizadas da ansiedade às amostras da população. E não podem ser facilmente explicadas dizendo que as pessoas se tornaram mais conscientes da ansiedade. Esta tendência de agravamento também se encaixa nos resultados relativos a condições médicas similares como a depressão. A depressão e a ansiedade estão intimamente relacionadas: as pessoas que sofrem de uma também sofrem amiúde da outra e os psiquiatras tratam por vezes as duas condições médicas de forma similar. Existe hoje um enorme conjunto de estudos que mostram aumentos substanciais nas taxas de depressão nos países desenvolvidos. Alguns estudos analisaram as mudanças ocorridas ao longo dos últimos cinquenta anos por via da comparação das experiências das diferentes gerações, mas tentando sempre evitar a armadilha de atribuir essa maior consciência da depressão ao número crescente de relatos relativos a estados de depressão[2]. Outros investigadores compararam as taxas incluídas em estudos que acompanharam amostras representativas da população nascida em anos diferentes. Na Inglaterra, por exemplo, a taxa da depressão entre pessoas com cerca de 25 anos era o dobro da taxa de depressão num estudo de cerca de 10 mil nascidas em 1970 em comparação com um estudo similar realizado anteriormente entre pessoas com cerca de 25 anos nascidas em 1958[3].

As análises das investigações concluíram que em muitos países desenvolvidos as pessoas experienciaram aumentos substanciais na ansiedade e na depressão. Entre os adolescentes, a ansiedade e a depressão vinham também acompanhadas de aumentos na frequência de problemas comportamentais – nomeadamente criminalidade, alcoolismo e toxicodependência[4],[5]. Estes problemas afectavam adolescentes do «sexo masculino e feminino de todas as classes sociais e de todos os tipos de famílias»[6].

É importante compreender o que significam estes aumentos na taxa de ansiedade antes de a sua relevância se tornar clara para a desigualdade. Não estamos a sugerir que tais aumentos foram desencadeados pelo aumento da desigualdade. Essa possibilidade pode ser descartada, porque os aumentos nas taxas de incidência da ansiedade e da depressão parecem ter começado muito antes dos aumentos na desigualdade que ocorreram em muitos países durante o último quarto do século XX. (É no entanto possível que as tendências de 1970 e 1990 possam ter sido agravadas pelo aumento da desigualdade.)


Auto-estima e insegurança social

Uma pista importante sobre os factores subjacentes às tendências na saúde mental provém de provas que referem que tais factores vieram acompanhados de um aumento surpreendente naquilo que de início se pensou ser a auto-estima. Quando comparadas ao longo do tempo (muito à semelhança da forma como as tendências na ansiedade são mostradas na figura 3.1), as medidas-padrão da auto-estima revelaram também uma clara tendência ascendente a longo prazo. Como se, apesar dos crescentes níveis de ansiedade, as pessoas também estivessem a encarar-se de forma mais positiva no decurso do tempo. Por exemplo, havia mais probabilidades de se afirmarem orgulhosas de si próprias; de concordarem com afirmações como «Sou uma pessoa com valor»; e pareciam ter posto de lado questões de insegurança pessoal e sentimentos de que eram pessoas «inúteis» ou «sem nenhum valor». Twenge refere que na década de 1950 apenas 12% dos adolescentes concordavam com a afirmação «Sou uma pessoa importante», mas que, no final da década de 1980, esta proporção tinha subido para 80%.






Sendo assim, o que teria acontecido durante esse período intermédio entre as décadas de 1950 e 1980? O facto de as pessoas (…)»

Richard Wilkinson & Kate Pickett, in «O Espírito da Igualdade – por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor», Editorial Presença 1ª Edição Lisboa, Abril 2010.

Richard Wilkinson – professor de História Económica e de Epidemiologia [Universidade de Nottingham/Medical School e na University College London]
Kate Pickett – antropóloga-bióloga, cientista em Nutrição e em Epidemiologia [professora na Universidade de York, investigadora no National Institute for Health Research]


[pp. 15]






[1]  J. M. Twenge, «The age of anxiety? Birth cohort change in anxiety and neuroticism, 1952-1993», Journal of Personality and Social Psychology (2007), 79 (6): 1007-21.
[2] M. Rutter e D. J. Smith, «Psychosocial Disorders in Young People: Time Trends and Their Causes», Chincester: Wiley, 1995.
[3] S. Collishaw, B. Maughan, R. Goodman e A. Pickles, «Time trends in adolescent mental health», Journal of Child Psychology and Psychiatry (2004), 45 (8): 1350-62.
[4] Ibidem, M. Rutter e D. J. Smith, «Psychosocial Disorders in Young People: (…)
[5] B. Maughan, A. C. Iervolino e S. Collishaw, «Time trends in adolescent mental disorders», Current Opinion in Psychiatry (2005), 18 (4): 381-5.
[6] Ibidem, S. Collishaw, B. Maughan, R. Goodman e A. Pickles, «Time trends in adolescent mental health», (…)

18 de setembro de 2015

INDICADORES SOCIAIS, BEM-ESTAR E FELICIDADE - 2/3



POBREZA OU DESIGUALDADE?


«A pobreza não se reduz a uma determinada pequena quantidade de bens,
nem a uma simples relação entre meios e fins;
é acima de tudo uma relação entre pessoas.
A pobreza é um estatuto social…
E tem crescido
como uma distinção discriminatória entre as classes…»

MARSHALL SAHLINS, «STONE AGE ECONOMICS»



[…] A visão de que os problemas sociais são directamente causados por más condições materiais, tais como habitações degradadas, dietas pobres, ausência de oportunidades escolares e assim por diante, pressupõe que as sociedades mais desenvolvidas e mais ricas funcionam melhor do que as outras. Mas esta visão está muito longe de ser verdadeira: alguns dos países mais ricos funcionam pior ainda.

É notável que estes indicadores dos problemas sociais e de saúde em dois cenários diferentes, e do bem-estar da criança em dois países ricos, narram todos praticamente a mesma história. Os problemas nos países ricos não são causados pelo facto de a sociedade não ser suficientemente rica (nem sequer por ser demasiado rica), mas sim pelo facto de a escala das diferenças materiais entre pessoas no seio de cada sociedade ser demasiado grande. O que é relevante é a posição que cada um ocupa em relação aos outros no seio de cada sociedade.

Obviamente que, mesmo nos países mais ricos, uma pequena proporção das pessoas menos ricas não dispõe, por vezes, de dinheiro suficiente para se alimentar. Contudo, sondagens relativas aos 12,6% dos Norte-Americanos a viverem abaixo da linha da pobreza federal (um nível de rendimento absoluto e não um padrão relativo como metade do rendimento médio) revelam que 80% possuem ar condicionado, quase 75% possuem pelo menos um carro ou uma carrinha e cerca de 33% têm um computador, uma máquina de lavar louça ou um segundo carro. Isso significa que quando as pessoas não têm dinheiro para comprar coisas essenciais, como p. ex. comida, essa falta de dinheiro é geralmente um reflexo da força do seu desejo de viver à altura dos padrões prevalecentes na sociedade. As pessoas podem sentir, por exemplo, que é mais importante manter as aparências e gastar dinheiro em roupa do que investir na alimentação. Conhecemos um caso de um jovem que estava desempregado e tinha gasto o seu rendimento mensal num telemóvel novo porque, segundo ele, as raparigas não faziam caso daqueles que não tivessem os acessórios certos. Tal como Adam Smith frisou, é importante sermos capazes de nos apresentar de forma credível na sociedade sem incorrer na vergonha e no estigma da pobreza aparente.

No entanto, e tal como o gradiente da saúde afecta todos os escalões da sociedade, também as pressões da desigualdade e de tentar viver à altura dos padrões sociais prevalecentes não se confinam a uma minoria que é pobre. Pelo contrário, os efeitos encontram-se generalizados na população, como veremos mais adiante.


Problemas diferentes – causas comuns

Os problemas sociais e de saúde que descobrimos estarem relacionados com a desigualdade tendem a ser tratados pelos responsáveis políticos como se estivessem bastante separados uns dos outros, necessitando cada um soluções e serviços separados. Pagamos a médicos e a enfermeiros para tratar os problemas de saúde, pagamos à polícia e às prisões para lidar com a criminalidade, a educadores terapeutas e a psicólogos escolares para lidar com problemas educativos, a assistentes sociais, a centros de reabilitação de toxicodependentes, a serviços psiquiátricos e a especialistas de saúde para lidar com toda uma série de outros problemas. Todos estes serviços são dispendiosos e apenas parcialmente eficazes. Por exemplo, as diferenças na qualidade dos cuidados médicos têm menos peso na esperança de vida das pessoas do que as diferenças sociais nos riscos de contraírem alguma doença potencialmente fatal. E mesmo quando os vários serviços conseguem impedir que alguém volte a reincidir ou quando conseguem curar um cancro, reabilitar um toxicodependente ou lidar com um insucesso escolar, sabemos que as nossas sociedades continuam a recriar infinitamente estes problemas, geração após geração. Entretanto, todos estes problemas são mais comuns nas áreas mais carenciadas da nossa sociedade e são muito mais comuns ainda nas sociedades desiguais.


O que nos diz a desigualdade de rendimentos?

Antes de continuarmos a analisar, nos capítulos seguintes, de que modo a escala das diferenças de rendimento pode estar relacionada com outros problemas, deveríamos dizer algumas palavras sobre o que pensamos que as diferenças de rendimento nos revelam acerca de uma sociedade. Os seres humanos viveram já em todos os tipos de sociedade, desde as sociedades pré-históricas de caçadores-recolectores mais igualitárias até às ditaduras mais plutocráticas. Embora as modernas sociedades de mercado não pertençam a nenhum destes extremos, é razoável supor que existam diferenças no seu grau de hierarquização. Acreditamos que é precisamente isto o que a desigualdade está precisamente a medir: nas sociedades em que as diferenças de rendimento são maiores, também as distâncias sociais são maiores e a estratificação social é mais importante.

Seria profícuo dispor de muitos indicadores diferentes relativos à escala de hierarquização nos diferentes países que permitissem assim comparar as desigualdades, não só de rendimento mas também na saúde, na educação e no poder. Também seria interessante verificar como todas estas desigualdades estão relacionadas com distâncias sociais, com indicadores de estatuto, como a escolha que as pessoas fazem do vestuário, música e filmes, ou como a importância da hierarquia e da posição social. Embora no futuro talvez venhamos a dispor de indicadores adicionais que possam ser comparados entre países, de momento só podemos contar com a desigualdade de rendimentos. Mas o mais surpreendente é a quantidade de informação que este indicador nos revela quando analisado separadamente. […]

Richard Wilkinson & Kate Pickett, in «O Espírito da Igualdade – por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor», Editorial Presença 1ª Edição Lisboa, Abril 2010, Depósito Legal nº 307 171/10. E-mail: info@presença.pt

Richard Wilkinson – professor de História Económica e de Epidemiologia [Universidade de Nottingham/Medical School e na University College London]
Kate Pickett – antropóloga-bióloga, cientista em Nutrição e em Epidemiologia [professora na Universidade de York, investigadora no National Institute for Health Research]


[pp. 16]