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10 de março de 2023

Completou-se o tempo

 



Completou-se o tempo



Todos nós, em particular os católicos, deveríamos aferir a nossa vida pelo critério supremo da fidelidade ao «seguimento radical da ‘vida em acto’ de Jesus de Nazaré». Todos os conflitos, que com naturalidade surgem nas nossas vidas (íntimas e sociais), deveriam ser discernidos a partir deste critério supremo.

Parece-me que tal exigência tem ficado esquecida nas análises e nas tomadas de posição públicas no que diz respeito à questão dos ‘Abusos Sexuais praticados em menores de idade’ (assunto na ordem do dia).

A missão profética da Vida Humana em geral (seja ela cognominada de religiosa, laica, agnóstica, civil, canónica, política, etc.) não deve ser nem calculista, nem oportunista e muito menos prudente. Aliás, os primeiros passos da memória (vívida, ainda fresca) da pessoa de Jesus foram, no «seguimento do evangelho», marcadamente imprudentes. Pedro foi imprudente (Actos 10,9-48): ele ainda se lembrava que Jesus, diante do aparente fracasso da sua missão entre os judeus, também havia decidido ser imprudente e apostar nos estrangeiros que professavam uma religião herética: os odientos samaritanos (cf. João 4,27: «Diálogo com a mulher samaritana»).

A missão profética de qualquer ser humano implica essencialmente um compromisso com a inseparável dupla «Justiça-Direitos Humanos». A experiência do Deus bíblico e a prática da Justiça, na tradição profética, são inseparáveis. Conhecer Deus passa por fazer justiça ao pobre e ao desgraçado que, de seu, pouco ou nada possui (Jeremias 22,15-16: «Porventura pensas que és rei por dispores de mais cedro? Acaso o teu pai não comia e bebia, praticando a justiça e a equidade, e tudo lhe corria bem? Julgava a causa do pobre e do humilde, e tudo lhe era favorável! Não é isto conhecer-me? - oráculo do SENHOR.»).

O compromisso com a Justiça e com os Direitos Humanos (prioritariamente relacionados com a “Ciência Económica” e a “Ética do Bem Supremo e do Fim Último” – cf. Adela Cortina) tem um carácter liminar: os profetas veterotestamentários ‒ ‘via’ escolhida por Jesus por oposição à ‘via’ messiânica ‒ colocaram-se sempre do lado da Justiça, mas de uma Justiça a partir das circunstâncias sociais e a partir da perspectiva do pobre marginalizado, e aí persistiram até que as denúncias chegassem ao centro do poder e o incomodassem (1Reis 18,17). Jesus percebeu isso e foi por essa ‘via’: a vida em Deus dispensa o sacerdócio tal como a Igreja Católica de Roma defende em contramão face à Carta aos Hebreus e ao dominicano fray Marcos op (Madrid, «FE ADULTA») que se esforça semana-após-semana a explicá-lo. A nós compete-nos «seguir no encalce de Jesus». Todos nós sabemos de cor e salteado onde essa opção de vida levou Jesus: ao abandono absoluto e, por fim, à mais execrável forma de morte.

Ser cristão é «seguir no encalce de Jesus», profeta que rejeitou a opção messiânica (Cf. C. Escudero Freire). Foi por ter precocemente percebido isso que Jesus rejeitou os «inspirados», os «místicos», os «novíssimos movimentos» e os «líderes carismáticos» que costumam pairar acima do comum dos mortais ostentando misteriosamente a sabedoria da vinda do Filho do Homem ou dos últimos tempos da chegada do Espírito de Deus, curiosamente aqueles a quem Jesus chamou "abutres" (Lucas 17,20-37).

Creio que o confronto entre as partes beligerantes e a disputa pelos argumentos (em torno dos "abusos sexuais" por parte dos sacerdotes) tem vindo a afunilar-se e, por conseguinte, tende a esquecer ou pelo menos a não valorizar suficientemente o testemunho que Jesus deixou na memória daqueles que o conheceram. Um bom exemplo desse esquecimento - direi mais - da total ignorância acerca do conteúdo da Mensagem de Jesus é a argumentação usada na entrevista pelo Pe. Duarte da Cunha ao jornal ‘SOL’, 25/Fev./2023. Glosando J. Ratzinger, o Pe. Duarte da Cunha, ‘grosso modo’ afirma: Foi Deus que decidiu que a hierarquia da Igreja deveria ser assim: feita exclusivamente de homens os quais encarnam a pessoa de Deus… Na verdade, passado pouco mais de um século após a condenação à morte do Nazareno, a mensagem de Jesus começava a ser piramidalmente estruturada, segundo um modelo militar e uma 'origem divina' (=sacral), características a que nem sequer o rabinismo e os sacerdotes judaicos se alcandoraram ao longo da sua existência (Cf. Carta de Clemente de Roma aos cristãos de Corinto, Cap. XXXVII e Cap. XL).

Dito isto, - salvo um hipotético Cisma de enorme magnitude que creio ser totalmente improvável - não fiquei surpreendido com a conferência de imprensa que os bispos portugueses deram há dias (3 de Março 2023), Conferência de Imprensa apresentada e defendida pelo bispo José Ornelas. E porquê? Porque a Igreja de Roma diz-se representar uma Religião (o cristianismo) e por ser uma Religião é forçoso que tenha uma estrutura piramidal, tenha vocação universal ("Ide pelo mundo inteiro proclamar ... Quem não acreditar será condenado", cf. Marcos 16,15-16), seja militarmente hierarquizada (o que exige funcionários consagrados plenipotenciários, ou seja, "separados para o Sagrado"), e seja sobretudo reverenciada e única, porque de 'origem divina' (Efésios 4,11: “só a alguns é que constituiu como apóstolos…”). Diz-se que "Jesus instituiu a Eucaristia" (Mateus 26,26) e que transmitiu todos os seus poderes divinos ao seu 'discípulo-apóstolo número um', o qual passará a ser considerado pela Tradição como o primeiro Papa plenipotenciário: "Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra ficará desligado no Céu" (cf. Mateus 16,13-20). A leitura de «Abus sexuels et cléricalisme» de Hervé Legrand (“Études”, 2019/4 Avril, pages 81-92, ISSN 0014-1941, Cairn.info pour S.E.R.) revela quão inultrapassáveis são os obstáculos rumo à reforma da Instituição Eclesial Romana que o Papa Francisco diz que deseja. Mas o certo é que o próprio H. Legrand é totalmente incapaz de dizer preto-no-branco que Jesus não ordenou um corpo de sacerdotes nem pretendeu fundar uma Igreja, questões polémicas ultrapassadas há décadas por teólogos europeus de renome.

O futuro da questão dos Abusos sobre menores creio já estar sob controlo da Igreja (=dos Bispos) em Portugal – esta é a suspeita com que fiquei no fim daquela conferência de imprensa (creio que não poderia ser de outro modo). Era inevitável que os «funcionários do sagrado» controlassem esta crise e não permitissem que ela tomasse conta do centro das atenções por demasiado tempo. A realização das «Jornadas Mundiais da Juventude» é mais um Milagre de Fátima a acrescentar ao livro da 'Vida Consagrada de Portugal à Virgem' e também à consagração dos nossos Bispos à mesma Mãe. Seria o fim do catolicismo se se questionasse até aos alicerces esta Estrutura e esta Religião (que Jesus de Nazaré nunca quis nem fundou...). Deste modo (com as rédeas bem firmes nos carpos dos nossos hierarcas...), Fátima, ao colar tão estreitamente as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) a Maria e ao Terço (cf. Logotipo), consagrar-se-á definitivamente como "O Altar entre os altares do Mundo" (altares de que, curiosamente, os Profetas do Antigo Testamento, em convergência antecipativa com O Profeta do Novo Testamento, sempre fugiram: «Eis que vos enganais a vós mesmos, confiando em palavras vãs, que de nada vos servirão. Roubais, matais, cometeis adultérios, jurais falso, ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos; e depois, vindes apresentar-vos diante de mim, neste templo, onde o meu nome é invocado, e exclamais: 'Estamos salvos!' Mas seguidamente voltais a cometer todas essas abominações. Porventura, este templo, onde o meu nome é invocado, é a vossos olhos, um covil de ladrões? Ficai sabendo que Eu vi todas estas coisas - oráculo do SENHOR.» - Jeremias 7,8-11).

Esta foi a 'oportunidade do século' que nos escapou, a oportunidade perdida para, pelo menos, relançar o catolicismo neste Portugal, quer do ponto de vista religioso, quer do ponto de vista político, quer sociológico. Oportunidade para renovar a vida das paróquias e dos conventos neste século XXI que não sabe para onde se há-de inclinar, ou seja, perdeu-se a oportunidade para acrescentar «algo que ultrapasse o ateísmo e o teísmo», uma espécie de "ética da transcendência humanista" (Aloysius Pieris) que nunca como hoje teve tanto a ver com a felicidade dos seres humanos de todas as partes do mundo. De dentro do coração de uma enorme crise não se ouviu, troante, uma Palavra Profética, viesse ela de onde viesse: do campo ateu ou do campo crente, de um Filósofo ou de um Sociólogo, de um Académico ou de um Camponês, de um Poeta ou de um Artista Plástico. Nada. Uma desgraça. Ou estarei eu enganado e o que, na verdade, por aí germina é afinal de contas «uma graça divina»? (Avanço com três tópicos.)

Em primeiro lugar, essa questão deveria ser tratada pelos abusados (sem a mediação das comissões diocesanas) em sede dos Tribunais Não-eclesiásticos (Procuradoria Geral da República) e por iniciativa das próprias vítimas, as quais, caso fique provada a existência de crime, deveriam exigir da Igreja Católica Portuguesa enquanto instituição (na pessoa jurídica da Conferência Episcopal) uma indemnização pecuniária pelos danos causados, indemnização que também suportasse as custas do tratamento psicológico-psiquiátrico (tratamento decidido e escolhido em absoluta autonomia pela vítima sem intromissão alguma das comissões diocesanas). Acho inadmissível a proposta que ouvi (na Conferência de Imprensa) da boca do bispo J. Ornelas de uma indemnização a ser exigida ao abusador (peço antecipadamente perdão se entendi mal…), pois todos sabemos que, nesse caso, a vítima nunca viria a receber nada, já que os abusadores "deixaram tudo para trás a fim de trabalharem ‘pro bono’ na Igreja". A Igreja Católica não pode continuar a usufruir dos privilégios estatais de que sempre usufruiu. É tempo de a colocar ao nível de qualquer instituição que tem de responder FORÇOSAMENTE perante as Instâncias Civis Laicas (independentemente do seu código de conduta de uso interno). Há muito que o Estado se separou da tutela da Igreja.

Em segundo lugar, não sou ingénuo ao ponto de pensar que, caso a organização eclesial dos católicos (ou seja, as comunidades católicas ditas ‘Igrejas’, Paróquias, Movimentos, Conventos, Capelanias, etc.) se regesse pelo critério supremo do «seguimento radical da ‘vida em acto’ de Jesus de Nazaré» (Jeremias 7,5-7) poria fim de um dia para o outro aos casos de abuso sexual sobre menores de idade. Creio, contudo, que esta vergonha humilhante que agora assaltou a praça pública (um dia será inevitável que se fale da outra face da moeda: a prática sexual das mulheres e dos homens que fizeram votos de castidade…) seria uma oportunidade para credibilizar, e muito, a condição crente católica em Portugal caso a Justiça Económica, os Direitos Humanos sob a forma de «Prioridade Máxima e Concreta aos Marginalizados, aos Desempregados e aos Sem-Abrigo» passassem a ocupar o centro da espiritualidade católica portuguesa (Missas, Retiros, Linhas de Orientação dos Conselhos Paroquiais, Congressos de Teologia da Universidade Católica, Vida dos Seminários, Movimentos Laicais, etc.) em vez de algumas espiritualidades descafeinadas desprovidas de qualquer solidez teológica, como é o caso dos «Novos Movimentos Católicos» que encontraram, finalmente, um poderoso impulso no pontificado do Papa João Paulo II, no entanto, horrorosamente pérfidos... na sua vida íntima.

Se fossemos capazes de tal, poderíamos iluminar o espírito de todos os cristãos com a força do profetismo do Nazareno (Mateus 11,2-6) abrindo ao 'mundo real' as mentes dos católicos ao ponto de ferir publicamente e de forma determinante a tentação pela duplicidade de vidas espirituais frustradas e sofridas de muitos crentes, a tentação pelo Prestígio, pela Vaidade e pelo Luxo de eclesiásticos que se passeiam na praça pública (ainda novos, mas já poderosos), enquanto a seu lado caminha um povo apesar de tudo ainda crente, humilde, mas mal agasalhado e que em casa passa dificuldades económicas (um pequeno-grande exemplo de contratestemunho cristão não são apenas os 'abusos sexuais de menores' ou as orgias de sacerdotes aos domingos que procuram algum tipo de satisfacção sexual; é a própria Universidade Católica Portuguesa, Instituição que em certos cursos defende orientações ideológicas fortemente marcadas por correntes neoliberais incompatíveis com o Evangelho de Jesus; cf. Teresa Vasconcelos no jornal 7 MARGENS).

Por último. Dá que pensar aquilo que surpreendentemente surge no mundo Ocidental a partir do pós-guerra. Refiro-me à problemática da "perigosidade" estreitamente conectada em geral com as Religiões e as Seitas Religiosas. A ofensiva das forças policiais sobre comunidade do Monte Carmelo (Waco, Texas, 1993), a comunidade de Asahara Shōkō e o atentado com gaz sarin no Metro de Tóquio (1995), os assassinatos e suicídios dos membros da Ordem do Templo solar em Vercors perto de Grenoble (após os do Canadá e os da Suíça) lançam uma suspeita que aparentemente deixa imune a Igreja Católica (se exceptuássemos o caso do Office Culturel de Cluny). Aparentemente, a Igreja Católica permanece à margem de qualquer suspeita e, portanto, de qualquer investigação. Mas ... a investigação actual sobre «Abusos sexuais» demonstra que aquilo que se julgava que acontecia "extra Ecclesia" começara em simultâneo "intra Ecclesia": a senhora Odette de Beaulieu, de linhagem nobre, 'tomou o hábito' no convento das dominicanas de La Croix em 1924 e adoptou o nome de Marie Agnès de Jésus, para abraçar de modo absoluto o ramo contemplativo da Ordem. É nesse Convento feminino que um dia entra o bispo de Lille acompanhado do frei Thomas Philippe op recém ordenado sacerdote, o qual, com muita regularidade passa a dirigir retiros e a proferir conferências à volta do tema 'A Vida Contemplativa'. Este é apenas o primeiro nome de uma lista de cinco mulheres - Odette de Beaulieu, Madeleine Guéroult, Marie-Renée Seuillot, Alix Parmentier, Michèle-France Pesneau - que, entre 1930 e os dias de hoje cairam nas malhas de uma extraordinária tecitura feita de um delicado entrecruzamento entre Vida Contemplativa Clássica (isolada do mundo real), denúncia da "Cultura da Morte" e do Relativismo, tendo, à mistura, Rituais Sexuais empapados da Teologia do Amor Virginal e Íntimo de Maria, a Mãe de Deus. Jean Vanier, foi um dos mais importantes e horrendos membros desta aliança entre Espiritualidade Contemplativa e intimidade sexual. Antes de morrer, negou todas as suspeitas de abusos sexuais, ele que partilhava da mesma Espiritualidade Contemplativa dos irmãos dominicanos Philippe e de algumas freiras, que advogavam o sentir do Amor Virginal da Mãe Santíssima para com o seu Filho com todos os sentidos: os corporais e os espirituais.

É agora muito evidente que a Igreja Católica se foi tornando, ao longo de demasiado tempo (séculos) numa enigmática seita que oferecia sobre o Altar da Consagração a Graça Divina conjuntamente com o sexo do celebrante. Se não, vejamos:

«Saint Paul VI le suggérait ainsi en 1967: ”Saisi par le Christ Jésus (Ph 3, 12) jusqu'à s'abandonner totalement à lui, le prêtre se configure plus parfaitement au Christ également dans l'amour avec lequel le prêtre éternel a aimé l'Église, son corps s'offrant tout entier pour elle afin de s'en faire une Épouse glorieuse, sainte et immaculée (Ep 5,23-27)” La virginité des ministres sacrés manifeste en effet l’amour virginal du Christ pour l'Église et la fécondité virginale et surnaturelle de cette union [Paul VI, «Encyclique Sacerdotalis Caelibatus»,24 Juin 1967, nº 26]. Le Christ s'est offert sur l'autel de la Croix. Chaque jour, le prêtre renouvelle cette oblation en prononçant les mots “ceci est mon corps livré pour vous”. Ces paroles prennent pour lui le sens de l'entrée dans l'offrande virginale du Christ. Chaque fois qu'un prêtre redit “ceci est mon corps”, il offre son corps sexué en continuité avec le sacrifice de la Croix.» (Benoît XVI et cardenal Robert Sarah, «Des profondeurs de nos cœurs», Fayard 2020, p. 130)

Cf. N. «62. O sacerdócio é ministério instituído por Cristo para serviço do seu Corpo Místico que é a Igreja. A esta compete admitir os que julgar aptos, isto é, aqueles a quem Deus concedeu o carisma do celibato juntamente com os outros sinais de vocação eclesiástica (cf. n.15).
«Em virtude deste carisma corroborado pela lei canônica, o homem é chamado a responder com “decisão livre” e “entrega total”, subordinando o próprio eu ao beneplácito divino que o chama. Em concreto a vocação divina manifesta-se num indivíduo determinado, dotado de estrutura pessoal própria que a graça não costuma violentar. Por isso, no candidato ao sacerdócio, há de cultivar-se o sentido da receptividade do dom divino, e da disponibilidade nas relações com Deus, dando essencial importância aos meios sobrenaturais.» [Paul VI, «Encyclique Sacerdotalis Caelibatus»,24 Juin 1967]; Nº 62 da «Encyclique Sacerdotalis Caelibatus».

Creio que não é exagero algum dizer que estamos diante de uma linguagem demasiado estranha consentânea com concepções próprias de uma seita capaz de fazer a ponte com os piores exorcismos traumatizantes (cf. "L'Ombre de l'Aigle", p. 45-46). O 'ritual número 1 da seita católica' (a Consagração Eucarística) sugere uma espécie de castração ('oferenda sacrificial da condição sexuada' do sacerdote) a qual se assume sobre um Altar em perfeita simultaneidade com a oferta do corpo de um deus redentor que, igualmente vítima, também se imola a fim de tudo poder salvar! Paira, então, o pior de entre aquilo que o Antigo Testamento se esforçava por se ver livre: a idolatria e a feitiçaria.

Aparentemente, e excluindo os primeiros decénios do cristianismo, a Igreja cristã nunca pareceu ser uma seita e, por isso - ou seja, pela sua impecável 'omertà' - sempre foi respeitada pelos poderes político e jurídico e, por conseguinte, insuspeita e excluída de qualquer investigação judicial quanto à relação entre 'religião, seitas e violência', fenómeno pujante de força nos séculos XX-XXI. O tratado (com cerca de 800 páginas), que a editora Cerf lançou há semanas, ajuda a compreender o embaraço dos bispos e da Cúria (incluindo a atrapalhação do Papa, que hoje tanto diz que «o celibato sacerdotal é irrevogável» como amanhã o desdiz... e que hoje diz que a Igreja Alemã não tem poder para decidir por si o futuro dos Ministérios como amanhã irá ter de 'engolir' as decisões maioritárias do Caminho Sinodal que os germânicos começaram antes do da Cúria). Este relatório-investigação encomendado pela Ordem dos Irmãos Dominicanos franceses, chama-se «L'Affaire» e tem como autor Tangi Cavalin (Cerf, 2023; ISBN 978-2-204-15353-9), historiador que conta com obras notáveis sobre os "Padres Operários" e "La Mission de France". Um dos contributos desta obra é o de chamar a atenção para a Teologia da Espiritualidade contemplativa e para a sua repercussão na Psicologia humana, mas também na Eclesiologia, ou seja, no modelo de Igreja que daí resulta.



«Mon Dieu, je vous remercie très humblement de toutes les graces que vous m'avez faites jusqu'ici. C'est encore par un effet de votre bonté que je vois ce jour; je veux aussi l'employer uniquement à vous servir. Je vous consacre toutes les pensées, les paroles, les actions et les peines. Bénissez-les, Seigneur, afin qu'il n'y en ait aucune qui ne soit animée de votre amour, et qui ne tende à votre plus grande gloire. Adorable Jésus, divin modèle de la perfection à laquelle nous devons aspirer, je vais m'appliquer autant que je pourrait à me rendre semblabe à vous, humble, chaste, zélé, patient, charitable et résigné comme vous; et je ferai particulairement tous mes efforts pour ne pas retomber aujourd'hui dans les fautes que je commets si souvent, et dont je souhaite sincèrement de me corriger.»



Ou seja, quanto mais afastados da realidade material e social da "vida inter-humana mundana" estivermos, mais a espiritualidade se agiganta ao ponto de se tornar a totalidade do mundo psicológico do contemplativo («servir exclusivamente a Deus»). E porque, pelo elevado grau de exigência que coloca, isso fascina de tal modo 'o contemplativo' ao ponto dessa espiritualidade se constituir num Desígnio Absoluto, o qual, ao fim de algum tempo, transforma o místico num frágil e inseguro ser, capaz de tudo aceitar como fazendo parte de um segredo do seu coração que só poderá partilhar a sós com Deus. O seu discernimento acaba na despersonalização, às vezes numa luta contra o sentimento de culpa, outras vezes contra o medo de sofrer alguma atracção sexual. O(a) contemplativo(a) despersonalizado(a) sempre estremecerá diante duma súbita dúvida ("Mas ... não foi a mão do Amor de Deus que penetrou sob o corpete e afagou os meus seios?!!! Claro que foi: Ele era a mão, e o sussurro de Deus no meu ouvido!"). O mesmo acontecerá perante uma eventual denúncia que o(a) sobressalte (tal como aconteceu na Comunidade de "L'Eau Vive", entidade que antecedeu a fundação de «L'Arche» de Jean Vanier, para a qual ele transplantou o inferno dos abusos sexuais que com outros praticava na «L'Eau Vive»). Devemos interrogar-nos como foi possível, depois de ela saber tudo o que ali havia de mais escabroso, a mais alta hierarquia da Igreja Católica (dois Papas - João Paulo II, Bento XVI - e um Cardeal) ter tido o comportamento que teve (“Des décennies de louange par la haute hiérarchie de l'Église et d'amitié affichée avec le pape Jean-Paul II. Un hommage appuyé de Benoit XVI lors du décès de Marie-Dominique Philippe [Communauté de Saint-Jean] puis les funérailles élogieuses célébrées par le cardinal Barbarin.”; cf. Nota 23 in Marie-Dominique Philippe).


Em suma, o contemplativo despersonalizado (e isolado pelas calúnias que vê crescerem à sua volta) escolhe renunciar a ser quem sempre foi e é: um ser humano que vive no único reino que verdadeiramente existe - a Terra (João 1,14), onde Deus se deu inteiramente a conhecer sob a forma de "Caminho, Verdade e Vida" (ou seja, "Vida em doação para os demasiado frágeis, Fidelidade e Plenitude"). À medida que o tempo passa, o contemplativo-acossado e abusado procura desesperadamente consolo e refúgio num "Deus celestial" ... que habita no sacrário dum silêncio que mais cedo do que tarde se revelará insuportável. Muitos puseram fim ao Inferno, que é viver numa Comunidade Religiosa Católica onde é sinal de fraqueza (e até de irreverência) partilhar humilhações sofridas, lançando mão do suicídio (cf. «L'Ombre de l'Aigle», p. 6, edição de "AVREF - 2020 Aide aux victimes des dérives dans les mouvements religieux en Europe et à leurs familles").



«La vraie charité n'aime pas les rapports. Le démon ... semeur de rapports! Par rapports, il faut entendre certaines confidences que l'ont fait à quelqu'un... Oh! quelle peine il aurait éprouvée, lui qui était si bon, si charitable, si sa conscience lui avait adressée sur ce point le moindre reproche! Gardez-vous de ce désordre qui contristerait votre bon Ange. Efforcez-vous de fermer cette bouche intempérante.» (citações de «L'Amour du prochain», trinta meditações espirituais, Abbé P. Feige, Paris 1919)



Foi por isso que Jesus se afastou dos contemplativos, foi por isso que nunca orou ao Pai à maneira das Comunidades de Eleitos (Qümran), antes nos apontou ao peito a espada do Julgamento Definitivo (Mateus 25, 31-46) e nos alertou contra o espírito dos teólogos desligados da realidade social (Mateus 16,6).



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A fechar. Mais uma vez, e quanto às discussões em torno deste monstruoso CRIME eclesiástico, Jesus é o grande ausente: ninguém fala do Seu evangelho (“Completou-se o tempo”; Marcos 1,15). Inacreditavelmente, Ele acaba sempre fora dos muros da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana… quando na verdade, Ele é a resposta: a eucaristia que Jesus fez, aconteceu fora dos muros da igreja do seu tempo! Isso ‒ essa eucaristia ‒ deveria dizer-nos muito, mas parece que não é para aqui chamada.

«Por isso, também Jesus (…) padeceu fora das portas de Jerusalém, do lado de fora da Cidade Santa. Saiamos, então, ao seu encontro fora do acampamento, suportando a sua humilhação, porque não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura…» (Hebreus 13,12-14)

Os noticiários andam entupidos de ‘Papa para aqui’, ‘Papa para acolá’, ‘bispos para aqui’, ‘bispos para acolá’, ‘clericalismo para aqui’, ‘clericalismo para acolá’… quando a questão das questões é: de que é que os leigos estão à espera para empunharem, aos domingos, a bandeira da justiça, dos direitos humanos e da partilha eucarística de bens com os que pouco ou nada têm de seu? A questão das questões é: alguém sabe por onde anda o Nazareno aos domingos?

Garanto-vos que não vai à missa…Talvez fique à porta de mão estendida. Ou, então, deixou-se ficar no barraco, entanguido de frio com um naco de pão ressequido à cabeceira e um pacote de vinho como companhia divinal.

“Completou-se o tempo” do cristianismo como Religião centrada nos ritos do Altar e dos Templos que um Deus habita para receber Oferendas, Preces e ser venerado.

Saiamos fora disto também (o Papa Francisco diria: sejamos uma "igreja em saída", uma comunidade que procura ir no encalce do Crucificado).




Paulo Bateira (médico aposentado; reside no Porto)


1 de junho de 2021

Igreja, carisma e poder - Leonardo Boff

 





Leonardo Boff ‒ teólogo da Graça libertadora



Este livro tem apenas uma finalidade: mostrar a radicalidade do Evangelho de Jesus e o valor universal da Teologia da Libertação. De facto, há coisas que de tão óbvias acabam por ser pouco recordadas ou comentadas. Muito naturalmente passam despercebidas. A tempestade que se abateu sobre a Teologia da Libertação (TdL) foi tal que até pareceu que iria acabar definitivamente com ela. A verdade é que acabaram sempre por luzir as estrelas da sua legitimidade. Hoje, alguns dão a entender que a TdL é coisa que pertence ao passado, algo que deixou de fazer falta, inútil, e falam dela como de algo ensopado e morto na lama do esquecimento. Então, porque é que uns quantos, ‒ não tão poucos assim ‒ afiaram as suas hostilidades contra a TdL a partir de instâncias do poder as mais diversas?

Esta Teologia, despossuída de outros títulos que os do Evangelho de Jesus, revelava os pobres como os dilectos de Deus (Tiago 2,5) e reclamava os seus direitos. Velha novidade, esta, que acabava de chegar da periferia, onde sempre se impusera o absolutismo do centro. O centro imperial e religioso, dono da verdade, considerava inquestionável o seu direito a definir, a ensinar, a despojar, a dominar. A TdL, a partir da margem dos vencidos, procurava recentrar[1] a perspectiva, denunciava hábitos seculares, condenava todo o tipo de colonização, exigia um contrato de autonomia e de justa reciprocidade, ou seja, colocava-se no centro. A isso, o centro chamou heterodoxia eclesial, marxização, libertação temporalizante, fé decaída, assunção acrítica das ideologias materialistas e secularistas.

Comprovou-se uma vez mais um fenómeno secularmente reincidente: o poder, na medida em que se expõe tal qual é ‒ despojado de ideologias seculares ou sagradas que o justifiquem ‒ expõe à luz do dia o seu descaramento e, nesse momento, trata de se servir de argumentos falsos e, sobretudo, procura perseguir aqueles que não se preocupam em encobrir as suas fragilidades e fraquezas internas.

Leonardo é um dos mais relevantes expoentes da TdL. O poder sonhava domesticá-lo e para tal activou os mecanismos que o neutralizassem e que reduzisse o impacto libertador do seu ensino na mente do povo. Os objectivos da Inquisição, apesar de se revestirem de formas históricas diversas, são sempre os mesmos: moer a resistência e as utopias internas da pessoa em causa. Acontece que nem sempre o consegue. O poder pode reduzir, e inclusivamente extinguir, a vida do corpo ‒ a mais exasperante prova da sua impotência ‒ mas não consegue escravizar a alma: «Não temais aqueles que até podem matar o vosso corpo: eles não conseguem matar a alma» (Mateus 10,28). Leonardo, na sua famosa CARTA DE RENÚNCIA (ver em baixo), di-lo: “Tenho a sensação de ter chegado a um momento em que diante de mim está um muro intransponível. Não me é possível dar nem mais um passo. Retroceder implica sacrificar a minha própria dignidade e renunciar a uma luta de anos e anos. Nem tudo é lícito à Igreja. A morte de Jesus também quer significar que nem tudo é lícito neste mundo. Existem limites inultrapassáveis: o direito, a dignidade e a liberdade da pessoa humana. A igreja hierárquica não tem o monopólio dos valores evangélicos nem a Ordem Franciscana é a única herdeira do Sol de Assis”.

Ainda bem que existe gente que assume a tarefa de ajudar a Igreja a libertar-se sem que se deixe anular pelo temor. Boff, entre aprendizagens e evoluções, andou sempre para a frente como se tivesse encontrado uma pérola preciosa: tomou posse dela e nunca pôs a hipótese de a usar como moeda de troca ou traficar com ela. «O Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. O Reino do Céu é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola.» (Mateus 13,44-45)

Pode acontecer que muitos dos leitores deste livro, apesar de tudo o que se escreveu acerca da TdL, não tenham claro o seu sentido ou pensem que, qual fenómeno de moda, tenha começado a declinar e a perder vigor. É a essas dúvidas que este livro pretende responder. Dificilmente se encontrará, como aqui, uma antologia de textos como os que foram seleccionados: 10 artigos recenseados por ordem de publicação. Neles, Leonardo Boff, num lapso de tempo de cerca de 25 anos, afronta com profundidade o significado e o alcance da TdL. Alguns nunca tinham sido traduzidos para castelhano e outros nunca chegaram ao grande público por terem sido publicados em sítios muito dispersos ou para grupos restritos.

A novidade deste livro não está somente na antologia de textos, mas em apresentar pela primeira vez o contexto familiar e social a partir do qual Boff arranca, quase imparavelmente, a correr atrás da Teologia da Libertação.

E, por conseguinte, fica aqui relatada a comoção que a sua opção teológica provocou na Igreja católica e na sociedade em geral, atestada relevantemente durante o “processo doutrinal” que o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício), lhe abriu e que em tempos fora seu Professor e amigo.

Neste livro, onde encontrarão mais carisma que poder, é provável que acabem fazendo suas as palavras do poeta e bispo amigo Pedro Casaldáliga: “Paz e bem, irmão Leonardo: a irmandade inteira acompanha-te na oração e na fé com as serenatas impacientes da esperança e na rebelde fidelidade dos adultos corresponsáveis pelo Reino de Deus”. (Excerto - APRESENTAÇÃO)



Benjamín Forcano



Benjamín Forcano, «LEONARDO BOFF» (para download parcial)



Leonardo Boff, «Igreja, carisma e poder» (download total)





«Carta de Renúncia» de Leonardo Boff

BENTO XVI, o Papa fracassado que dedicou quase toda a sua vida de teólogo a destruir aquilo que o Concílio Vaticano II teve de mais profético e a "abrir" processos contra mais de cem teólogos/as e algumas Congregações Religiosas Femininas...




[1] Cf. Agenor Brighenti, «El Sínodo para la Amazónia – una sinodalidad como convergencia de la diversidade», Concilium 390 (2021/2/Abril), pp. 51-61 [pp. 211-221]: “Com o Sínodo para a Amazónia, a ‘periferia’, acabada de chegar ao ‘centro’ da Igreja ‒ gerando instabilidade e temor ‒, desafiou o ‘centro’ a descentrar-se de si mesmo para que acolha as interpelações do Espírito que, actualmente, procedem sobretudo do Sul global.” (…) “À luz do Concílio Vaticano II, uma suposta Igreja universal (que precede e acontece nas igrejas locais das quais o Papa é o representante e garante) é, para W. Kasper, uma «ficção eclesiológica». Tal universalidade não passaria de uma extensão e sobreposição de uma ‘particularidade’ acima das demais e, portanto, de um universalismo assente sobre uma relação assimétrica, vertical, dominante, colonizadora. A «única» Igreja é a «Igreja de Igrejas» [Cf. Jean-Marie Roger Tillard, «Église d’Églises. L’écclesiologie de communion», Partis, Cerf, 1987], cada uma conjugando autonomia e comunhão com as restantes igrejas, e presidida pelo Bispo de Roma. Na Igreja nascente, cada igreja local configura-se, não como uma filial ou cópia de uma suposta «Igreja mãe», mas pelo contrário, tendo ‘um rosto próprio’, culturalmente novo, ‘universal’ quanto às suas particularidades” [Mário de França Miranda, «Igreja local», Actualidade Teológica 34 (2010) 40-58, p. 44. Cf. Henri Legrand, «La réalisation de l’Église en un lieu», em Initiation à la practique de la théologie, vol. II, Paris, Cerf, 1993, 145s.]

5 de maio de 2018

A COMUNIDADE CRISTÃ E OS SEUS DIRIGENTES [PAUL HOFFMANN]




Cap. V - DA IGREJA DOS SACERDOTES À IGREJA DO POVO

"Nós somos o povo"
(divisa usada na manifestação de segunda-feira em Leipzig, em 1989)


Nas considerações que vêm a seguir, a minha preocupação principal será verificar como, dentro da perspectiva do Novo Testamento, se poderiam conceber futuramente as comunidades cristãs e, correspondentemente a isso, como se poderiam conceber os dirigentes das comunidades cristãs. Como ensina a experiência histórica, é aqui, na base da Igreja, e não nos escalões superiores da burocracia eclesiástica (ainda que ali se encontrem os centros da administração do poder eclesiástico), que se verificará se a comunidade cristã ainda tem condições de viver na sociedade moderna. Portanto, não se trata de desacreditar o sacerdote como dirigente da comunidade, já que, ele próprio, é o elo mais fraco e, do ponto de vista do direito, na cadeia hierárquica é o mais desprotegido. Trata-se, pelo contrário, de buscar uma forma de serviço sacerdotal que corresponda melhor ao paradigma neotestamentário da comunidade de irmãs e irmãos de Jesus e lhe permita exercer um serviço mais eficiente na comunidade. Isso implica, não só para os sacerdotes envolvidos, mas também para as comunidades, o difícil processo da compreensão mútua e da aprendizagem comum.
O exegeta, pela sua recordação dos dados da tradição neotestamentária, só pode dar contribuição modesta nesta questão. Com maior ou menor habilidade poderá mostrar as perspectivas do Novo Testamento. Todavia, a forma concreta da comunidade futura não será determinada apenas pela sua herança cristã ou pseudo-cristã, mas sim também pelas condições socioculturais da sociedade moderna. A comunidade cristã não constitui uma ilha de bem-aventurança no meio de um ambiente que se prefere apostrofar a si mesmo como ateu. Ela faz parte deste mundo e, quer queira quer não, está de múltiplas maneiras entrelaçada com as oportunidades e as calamidades do mundo. "Não há vida verdadeira no falso". Este aforismo de T. W. Adorno, na sua obra Minima Moralia, vale também para a Igreja cristã.
Consequentemente, o presente esboço, à medida que tenta desenvolver os dados do Novo Testamento com vistas a uma possível configuração futura da Igreja, representa apenas um dos lados de um processo bipolar. Do outro lado, exige-se a consciencialização da situação actual e das suas condições sociais, bem como da conciliação crítica criativa dos dois aspectos. Todavia, a experimentação da Igreja do amanhã só terá sucesso se as comunidades e seus dirigentes se empenharem neste processo de mediação: comprometidos com a inalienável herança de Jesus e solidários consigo mesmos e com o seu mundo actual.

Igreja como povo de Deus a caminho
Ainda que para a passagem do Ꞌmovimento carismático de JesusꞋ à ꞋIgreja oficialꞋ tenhamos que pressupor leis sociológicas − pois um movimento carismático necessita de institucionalização se quiser sobreviver ao tempo, e, em última instância, necessita da "Igreja-grande-formato" para não se tornar seita e sucumbir ao perigo de se transformar em gueto −, com base na experiência histórica, não se pode esquecer que as formas institucionais originadas dependem das respectivas premissas socioculturais e da constelação histórica. Do ponto de vista puramente sociológico, as formas monárquica e democrática de poder são resultados igualmente possíveis do processo de institucionalização. A história das Igrejas cristãs permite constatar a existência de um vasto leque de alternativas.
Este fato também é passível de interpretação teológica. A pluralidade de formas institucionais está essencialmente relacionada com a historicidade da revelação. A experiência de Deus transmitida por Jesus não visava apenas uma nova relação com Deus, mas também uma nova maneira de convivência humana e, por isso, implicava necessariamente a formação de comunidades. A forma concreta que estas comunidades assumiram foi, sob múltiplos aspectos, consequência do livre jogo das forças históricas, mas ao mesmo tempo também dependeu do impulso original de Jesus que deu, mais ou menos às comunidades cristãs, a sua configuração característica.
Neste sentido as formas originadas têm a sua razão histórica e a sua legitimidade teológica. O cristão crente sempre descobrirá, na caminhada da Igreja através da história, os traços do Espírito que lhe foi prometido. Todavia, esta visão de fé não deverá levar a fechar os olhos às deficiências dependentes justamente do processo histórico. A forma histórica originada pode ser deficiente, quer em relação à herança de Jesus (que deve ser desenvolvida e aprofundada no processo da transmissão), quer em relação ao desafio da situação histórica (por causa de uma acomodação barata a essa situação), quer por cega recusa, que degrada a tradição ao nível de uma letra morta que sufoca a força vital e inovadora do Espírito.
Para a nossa visão cristã isso significa que também hoje devemos ver-nos como "povo de Deus a caminho", numa peregrinação através da história. O êxodo é tema permanente da Igreja. Isso exige de nós a coragem de constante mudança. As palavras de Jesus — "Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, aquele que a perder, salvá-la-á." (Mc 8,35) — descrevem a lei da nossa vida pessoal mas também a lei da vida da Igreja.

          Comunidade de irmãs e de irmãos de Jesus
No centro da acção de Jesus está a experiência da bondade incondicional com que Deus se dedica a todo homem e assim torna presente o seu Reino no meio deste mundo mau. Prometendo a justiça de Deus aos pobres e injustiçados, curando os doentes e mantendo a comunhão com os pecadores e difamados, torna experienciável, no concreto, a acção da graça de Deus aos homens e abre-lhes novas possibilidades de vida. Então, só poderemos entender os ensinamentos de Jesus como uma tentativa de motivar os homens para agirem de acordo com essa bondade e assim — nas condições ainda reinantes deste eon — experimentarem a oportunidade de uma nova maneira de convivência. Não obstante a descontinuidade histórica que existe entre a pregação do Reino de Jesus e a Igreja posterior que lhe seguiu, temos aqui o dado primordial da Igreja, como aquela esfera em que poderá ser concretamente experimentada a graça de Deus entre os homens e através dos homens.
Jesus mostra surpreendente sensibilidade para aqueles pontos nevrálgicos das relações inter-humanas nos quais o homem corre o perigo de usar o seu próximo como objecto dos seus interesses ou de tornar-se ele próprio objecto de tal abuso. Assim, não surpreende que a questão do exercício do poder e da dominação sobre os outros seja tema da sua mensagem. Com base na tradição judaico-apocalíptica, Jesus sabe que as condições reinantes à sua época não eram as relações verdadeiras, as mais coerentes: então, para Jesus, Deus transformará os últimos em primeiros e os primeiros em últimos (Mc 10,31 entre outras passagens; cf. também Lc 1,51-53). Mas também aqui Jesus não se deixa ficar pela visão apocalíptica do futuro. Sob o signo do Reino de Deus que desponta, Jesus adverte os primeiros e os grandes, ou aqueles que pretendam sê-lo, a tornarem-se os últimos, escravos (Mc 9,35; 10,42-45; Mt 18,4; 20,25-28; 23,11; Lc 9,48; 22,24-27). Isso significa no mínimo a superação das estruturas de dominação que determinam o mundo, a favor de uma configuração isenta de dominação das relações inter-humanas, pela qual um se torna irmão e irmã do outro. Aqui está o fundamento da ideia mestra da comunidade cristã.
À luz disso, a comunidade cristã/igreja não pode ser concebida senão como comunhão de irmãs e irmãos de Jesus (Mc 3, 34ss). Mateus dá a esta realidade uma expressão inequívoca e válida, quando em 23, 8 enfatiza contra toda a forma de pretensão unilateral de dominação: ''Todos vós sois irmãos". Esta ideia de fraternidade e de renúncia à dominação marca toda a parenese das comunidades cristãs primitivas na admoestação para o amor e para a submissão mútua.[1] Assim, não admira que a Igreja antiga na sua autoconcepção e na sua prática fosse dominada por esta ideia do "amor mútuo" até ao fim da Antiguidade tardia, devendo precisamente a este fato o seu magnetismo para com os de fora. A muita citada frase "Vede como eles se amam" pode parecer banalizante e sentimental. Na verdade ela indica a característica constitutiva da comunidade cristã como de uma comunidade que deve a sua origem ao amor de Deus e que constantemente pode experimentar e deve praticar este amor na força do Espírito - "o vínculo do amor".
O processo de institucionalização, historicamente necessário, sobretudo a formação das estruturas burocrático-autoritárias que hoje caracterizam a Igreja romana, está em contradição com esta experiência eclesial primitiva. Instituição burocrática e fraternidade pela sua própria natureza excluem-se mutuamente, conforme constatou M. Weber com o olhar insubornável do sociólogo. Isso pode explicar o facto de o discurso sobre a fraternidade cristã, medida pela realidade vivida, parecer a muitos apenas uma farsa e olham, "a Igreja", como um frio aparelho de poder, que só pela ideologia é que ainda se distingue de outros sistemas autoritários. A isso se opõe hoje a consciência que, em muitos está novamente despertando, de que pela sua essência a Igreja deveria ser diferente. Mc 10, 43; Mt 20, 26; Lc 22, 26: a expressão "Não seja assim entre vós" assinala esse permanente desafio a que a Igreja não pode fugir. Assim, tudo depende da seguinte questão: conseguirá a Igreja, na sua vida, e inclusivamente nas suas estruturas, dar forma adequada e confiável a esta experiência eclesial original? Para muitos isso poderá parecer a quadratura do círculo. Para a fé significa o despontar do novo mundo de Deus, e neste sentido é um postulado inabdicável da sua esperança.
A realização da ideia da "comunidade fraterna cristã", conforme novamente vem mostrando a história da Igreja, não é isenta de perigos. A comunidade fraterna como "comunhão pessoal-emocional" pode tornar-se um círculo elitista ou uma seita, que, voltando-se sobre si mesma, perde o contacto com a realidade e, como minoria, se retrai num gueto eclesial. Este é um perigo que hoje se pode observar em movimentos carismáticos ou ainda em certas comunidades de vanguarda, mas também é relevante (em matéria de Igreja universal) quando se tenta compensar a silenciosa fuga das massas da Igreja com o discurso sobre o "pequeno rebanho" e, de tal redução, se esperar secretamente a conservação do status quo. Por isso o discurso sobre a comunidade fraterna cristã necessita do corretivo da "grande Igreja", da ecclesia de Deus que inclui todos os homens, do povo de Deus composto por todos os povos. Ou seja, uma visão de Igreja tal como sob muitos aspectos é atestada pelo Novo Testamento: do pragmatismo de Paulo que procura unir as comunidades heleno-cristãs locais entre si mas também uni-las ao cristianismo palestinense, até à visão do Apocalipse de João da tal "multidão incontável de todas as nações, tribos, povos e línguas" (7,9). A existência eclesial, comunitária, não possui finalidade em si mesma, mas está ao serviço daquela acção libertadora universal de Deus, que Jesus de Nazaré anunciou na sua mensagem do reino de Deus e que, pela sua própria actividade, começou a realizar. Portanto, nem a Igreja universal nem a comunidade local podem ser concebidas como sistemas "fechados", mas como sistemas "abertos", que constantemente ultrapassam as suas próprias fronteiras em direcção ao mundo, no qual se quer realizar o reino de Deus como reino de bondade e de paz, de justiça e de liberdade, ainda que neste mundo isso só seja possível como primícia e de modo fragmentado.
Por isso a Igreja não pode evitar os desafios sociais e políticos, da mesma forma como permanece sempre comprometida com a sua origem em Jesus, que deu a sua vida por muitos.

           A comunidade não precisa de muitos mediadores
A exegese mostra: o Novo Testamento não conhece o "sacerdote do culto" no sentido de oferente e mediador entre Deus e os homens, como autoridade da comunidade. O único mediador é o homem Jesus Cristo. Na sua morte — sacerdote e vítima ao mesmo tempo — Jesus, sobretudo conforme ensina a carta aos Hebreus, realizou de uma vez para sempre expiação e conciliação, e abriu para todos o livre acesso a Deus. Esta constatação contém em si uma reserva crítica em relação a qualquer tentativa de entender o presbítero cristão como "sacerdote" no sentido da história das religiões em geral ou no sentido da sociologia eclesial. Esta reserva põe em causa, em primeiro lugar, uma certa ideia de sacerdote muito difundida na piedade popular católica, e que continua a ser cultivada em sermões de «primeira missa» e livros sobre sacerdotes, e que muito influencia as consciências. Com mais razão ainda proíbe ver potenciada esta mediação no bispo ou no Papa. A reserva dirige-se também contra modernas tentativas de, numa espécie de concepção secularizada do sacerdote, atribuir ao presbítero o papel de terapeuta, médico, exorcista ou guru.
Mas a constatação exegética de que falamos também questiona a autoconcepção das comunidades cristãs. Por que carga de água, especialmente os cristãos católicos, projectam tais expectativas de função nos membros do clero? Não indicará, isso, uma grande deficiência da autoconcepção do cristão individual? Não se trata de encontrar culpados. Diante da actual distribuição de papéis nas comunidades, a responsabilidade maior pelas deficiências da fé cabe aos "pastores", não ao "rebanho", ainda que aqueles muitas vezes sejam apenas vítimas da sua socialização. Hoje temos de responder pelas consequências de uma funesta história da "pastoral", que foi determinada pelo medo e pela descrença, e não pela confiança na assistência do Espírito, que é prometido à Igreja como um todo e a todos na Igreja.
Na visão do Novo Testamento cada membro da comunidade deveria ser determinado pela experiência cristã original do livre acesso a Deus: não recebemos o espírito da escravidão, mas o espírito da filiação pelo qual chamamos a Deus pela palavra «Pai»: somos filhas e filhos de Deus, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rm 8,15-17). Quando o Apocalipse atribui a todos, na comunidade, a dignidade de sumos-sacerdotes e senhores, põe todos os baptizados naquele contacto directo com Deus e naquela soberania senhorial indicada por estas imagens antigas: o homem real e o sumo-sacerdote como a essência do homem redimido, que se tornou independente de intermediários humanos e dominadores terrenos. Ou seja, a comunidade como lugar do contacto directo com Deus e como lugar da liberdade face à dominação.
É somente sobre esta base que se pode buscar uma relação comunitária cristã. A imagem do "pastor e do rebanho", que originalmente se referia a Cristo e aos seus, considerada sob o aspecto da relação entre o sacerdote e a comunidade, aparece não só como inadequada, como também contrária à fé cristã, porque degrada os membros da comunidade a objectos da pastoral. Estes devem ser levados a sério mas como "sujeitos de fé", por mais deficiente que seja a sua autoconcepção cristã. Se muitas vezes parecem ser apenas "subordinados", só o são porque foram postos sob tutela.[2]
Por isso na actual situação de transição, a tarefa principal de todos os responsáveis na comunidade, especialmente do dirigente da comunidade, é o serviço na fé: deve estimular suas irmãs e seus irmãos cristãos para a maturidade (quando esta ainda é pobre ou até esteja em falta) e aceitá-la quando esses irmãos já estruturaram sua vida pessoal e comunitária a partir desta consciência. Deverá entender-se a si mesmo como parceiro numa história de fé comum, na qual antes de mais nada também ele (o que foi ordenado presbítero ou bispo) está inserido com a sua fé e a sua descrença, frequentemente ouvindo e aprendendo, recebendo estímulo e nem sempre ensinando ou encorajando.
Daqui também decorrem algumas consequências para a configuração do culto divino cristão, especialmente para a celebração da eucaristia. Em correspondência com uma falsa ideia de sacerdote, para muitos a Eucaristia é vista demasiado unilateralmente a partir da ideia de «sacrifício». Sem dúvida faz parte desta celebração a memória da morte de Jesus a qual, correctamente entendida, significa a "actualização" da morte de Jesus na cruz, pela qual não cessamos de ser envolvidos na origem da nossa redenção e liberdade. Ora, no centro do culto cristão não está o altar, no qual um "sacerdote" dotado de poder sacral realiza um sublimado ritual sacrificial, mas a mesa ao redor da qual o Kyrios reúne a sua comunidade. Ao participarem todos do mesmo pão e do mesmo cálice tornam-se seu corpo, constituem-se em comunidade de irmãs e irmãos, em nova aliança, na qual lhes é tirado o coração de pedra e lhes é implantado um coração de carne (Ez 36,26; Jr 31,31). Assim, antecipam a visão da refeição do fim dos tempos que Deus quer preparar para todos os povos (Is 25,6), como refeição dos libertados, que aqui se recordam da sua origem na acção libertadora de Jesus e incessantemente se reanimam e se comprometem a empenhar-se, no mundo, contra a situação de injustiça e violência dominante, em favor daquela visão de uma nova humanidade libertada, redimida. Assim, o dia-a-dia do mundo é o lugar do verdadeiro culto divino, onde cada qual deve realizar o serviço da reconciliação entre o homem e Deus e de os homens entre si.
 Com isto não se nega a função de um dirigente responsável pela celebração da eucaristia. Ela apenas necessita de uma integração mais consciente no todo da celebração da ceia do Senhor, cuja base, de acordo com a tradição eclesial, é a Igreja universal, e não o sacerdote individual. Se ele, aqui no contexto de uma acção simbólica religiosa, age "in persona Christi", representa aquele anfitrião que se tornou servidor de todos. Assim a celebração deve ser expressão daquela radical pró-existência de Jesus, que até viveu para os outros a sua própria morte na cruz. O símbolo sacramental está comprometido com este typos primordial. Isso significa que na configuração concreta da acção simbólica deve ser evitado todo gesto que converta a sua intenção original no seu oposto e — consciente ou inconscientemente — reproduza opressão em vez de libertação. Se considerarmos os nossos espaços de culto, a contradição é mais que evidente. Com poucas excepções, arquitectonicamente os espaços de culto não dão uma forma adequada à ideia comunitária da refeição cristã. A sua disposição é muito mais frequentemente expressão das estruturas repressivas que dominam as comunidades cristãs.

       Autoridade é serviço
   Se de acordo com o Novo Testamento o livre encontro entre Deus e a sua comunidade é constitutivo da auto-compreensão cristã, com isso também está mencionada a condição sob a qual se pode falar de direcção e de "autoridade" de direcção na Igreja. (…)


Paul Hoffmann
«Da Igreja dos sacerdotes à Igreja do povo», cap. V (pp. 99-137) de "A herança de Jesus e o poder na Igreja", Paulus, São Paulo/Brasil 1998 (excerto).








[1] Cf. Juan Antonio Estrada, «Igreja, fraternidade laical», blog  A SALA DE CIMA, 13-11-2014:

20 de abril de 2018

OPÇÃO PELOS POBRES [JULIO LOIS]



A OPÇÃO PELOS POBRES

Julio Lois Fernández




I - A «opção pelos pobres», questão chave para a Igreja de base

a)    Importância desta questão

A dita «opção pelos pobres» é uma questão de importância transcendental para qualquer movimento eclesial de base. Todas as comunidades cristãs que façam parte desse movimento — as latino-americanas ou africanas, as asiáticas ou as europeias, incluídas nesta, claro está, as espanholas — partilham da mesma convicção: a solidariedade real com a causa dos pobres e a firmeza da luta contra a pobreza injusta é algo essencial na vida da Igreja e na vida de todos os crentes. É por isso que tal «opção» ocupa um lugar bem central na reflexão cristã que hoje queira adoptar uma orientação libertadora.[1],[2]

Eis alguns testemunhos que exprimem essa evidente convicção:

«Eu continuo a sustentar que a opção preferencial pelos pobres é uma das características da Igreja verdadeira, que está ao mesmo nível daquelas características eclesiais muito antigas, que são: una, santa, católica e apostólica. Daqui se conclui que uma Igreja que em teoria e aquando da sua prática defenda que tal opção não é uma parte constitutiva da sua missão … é herética, pois está a falsear um dos dados intrínsecos da sua própria essência» (I. Ellacuría).
«Está na altura de compreender que o membro da Igreja que recuse, na prática, ter uma responsabilidade diante dos pobres é tão culpado de heresia como aquele que rejeita qualquer verdade da fé» (Vissert’h Hooft).
«Uma séria fidelidade à opção pelos pobres é o que faz com que a Igreja se desenvolva em plenitude. Por essa razão, a relação da Igreja com o mundo dos pobres não é mais um problema com que a Igreja terá de se confrontar, mas o problema fundamental. Na sua solução está em jogo ser (ou não ser) a Igreja de Jesus… Participar no destino dos pobres é o que em última análise dará credibilidade à Igreja, e, mais radicalmente, dará credibilidade à própria fé… Aquilo que os cristãos pressentem é que na proximidade (ou no afastamento) para com os pobres é que se joga o futuro da fé» (Jon Sobrino).
«Só o compromisso da Igreja com os camponeses sem terra, os jovens sem trabalho, as populações das barracas e favelas, as forças sociais neutralizadas e reduzidas ao silêncio pode revelar publicamente que o Evangelho é na verdade libertador porque anuncia um futuro novo» (Jean-Marc Ela, teólogo dos Camarões).
«Como Igreja de Base de Madrid, consideramos essencial a opção pelos pobres e a partir dos pobres, a fim de exercer a presença profético-libertadora na sociedade e na Igreja» (Documento-Programa da Igreja de Base de Madrid).
«Nas horas graves e decisivas da vida da Igreja… a constatação é angustiante, quando uma Igreja se dá conta que não está do lado dos mais pobres, daqueles que por definição são os seus primeiros destinatários. É que não se trata apenas de um incidente chato, desagradável, mas de um fracasso decisivo, diante de tão grande estado de degenerescência da dimensão missionária da comunitariedade dessa Igreja assim estabelecida» (M. D. Chenu).

«Não é necessário multiplicar os testemunhos, pois eles são inumeráveis. Todos os testemunhos coincidem quanto a assinalar que é em torno dessa questão que se joga a credibilidade da Igreja e, mais ainda, a autenticidade e o destino da própria fé cristã «que vê a sua razão de ser e a certificação da sua verdade na vivência da libertação integral do Homem, especialmente dos pobres» (L. Boff).


(…)


A versão grega dos Setenta (do Antigo Testamento) utiliza dois termos para se referir aos débeis e necessitados: «penes»[3] (pessoas que não conseguem viver dos seus bens próprios ou do seu património, mas que têm de trabalhar penosamente a fim de satisfazer as suas necessidades) e «ptocos»[4] (pessoas atrasadas ou necessitadas, incapazes, por carência de bens, de satisfazer as suas necessidades mais elementares, ou seja, pobres absolutos ou severos, socialmente dependentes).

O Novo Testamento quando fala de "pobres" opta claramente pelos "ptocos". «Penes» só se encontra em 2 Cor 9, 9 e numa citação do Salmo 112, versículo 9. Em Lucas 21, 2 usa-se um derivado de "penes" («penichrós»), mas o seu paralelo em Marcos usa o termo «ptocos». «Ptocos» aparece 34 vezes no Novo Testamento, 24 delas nos Evangelhos, quase sempre — pelo menos em 18 vezes — com o significado já indicado: os «ptocos» são os ꞋnecessitadosꞋ (no sentido forte da expressão), são os marginalizados indefesos (ainda que também se use essa expressão para designar os «pobres de espírito» – «ptocoi to pneumati» – como os beneficiários privilegiados do Reino[5]; os pobres como imagem de Cristo: Cf. 1Cor 1, 27b.28, mas sobretudo a carta de Tiago 2, 5-6: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?»).[6]

O que importa aqui sublinhar — contra o que se lê em certos tratados de vida espiritual — é que, quando os Evangelhos falam de pobres, referem-se quase sempre aos pobres reais ou materiais, que são também marginalizados ou socialmente dependentes. Para a mentalidade judaica do tempo de Jesus, esta última característica — a inferioridade ou dependência social — era aquela que mais importava evitar. Como assinalava o beneditino belga Jacques Dupont, «nós, hoje em dia, vemos na pobreza sobretudo a carência de bens, com todas as moléstias e privações que isso acarreta. O semita, por seu lado, é mais sensível à inferioridade social, humilhação que contribui para fazer, das pessoas de condição modesta, o «bombo da festa» por parte dos poderosos e dos violentos… O pobre, para nós, é sobretudo o desprovido; os judeus olham-no mais como o indefeso» (Jacques Dupont, «El mensaje de las bienaventuranzas», Editorial Verbo Divino, Estella (Navarra), 1990, CB24; existe edição em francês com o título de «Le Message des Béatitudes», Cahiers Evangile N.24, Ed. CERF, Paris, Mai 1978[7]).


III — Características fundamentais dos pobres

Os pobres, tal como ficou claro no capítulo anterior, são:

a – Uma realidade colectiva. Hoje em dia, a pobreza é uma questão social de raízes estructurais, e tem uma dimensão massiva sobretudo nos países ditos do «terceiro mundo». Os pobres são classes, sectores sociais e até povos inteiros ou imensas maiorias populares. É preciso acabar com a visão superficial, «empirista» ou «vulgar», que olha para o pobre isoladamente, abstraído do seu contexto social, como um indivíduo ou um caso particular. Como muito bem indica G. Gutiérrez, «a pobreza, sobretudo em meios cristãos, foi pensada e vivida em função da situação de seres humanos isolados, dos «pobres» objecto da nossa misericórdia. Mas, já não é assim que as coisas se apresentam hoje em dia. Classes sociais, povos e continentes inteiros tomam consciência da sua pobreza… Estamos diante de uma pobreza colectiva que cria laços de solidariedade entre os que a sofrem na pele…».

b – Uma realidade histórico-dialéctica de natureza estrutural. Ao dizermos que os pobres são uma realidade histórica procura-se afirmar que a sua situação não é uma fatalidade necessária e inevitável, algo que se explica a partir de causas naturais. Pelo contrário, a pobreza a que aqui nos referimos surge na História como resultado de uma acção livre e culpável por parte daqueles que a causam. Os pobres são os empobrecidos, os desapossados. Os pobres são um facto social produzido e não um facto fatal ou natural inevitável.

Ao dizer que são uma realidade dialéctica quer-se dizer que a sua pobreza só pode ser entendida — em si mesma, mas também quanto às suas características fundamentais — em relação com a riqueza, realidade contrária causadora. A pobreza é o correlato da riqueza e vice-versa. Dito de modo mais claro: há pobres porque há ricos. Os pobres são empobrecidos e os ricos são amealhadores que a outros empobrecem. A pobreza dos pobres reais, historicamente existentes cujos rostos bem conhecemos, não se pode confundir com «escassez» partilhada. A pobreza é uma realidade distinta, porque é fruto da desigualdade social, é fruto da distribuição não equitativa dos bens disponíveis, que foram criados com a intenção prioritária de satisfazer as necessidades de todos.

Dizemos também que os pobres constituem uma realidade cuja natureza é estrutural. As causas históricas que geram a pobreza, que tem a sua raiz pessoal última no egoísmo humano, cristalizam em estruturas e mecanismos sociais que configuram um sistema que mantém, reproduz e aumenta a pobreza. Toda a visão ingénua que esqueça esta raiz estrutural da pobreza existente está condenada ao mero «assistencialismo».

c – Uma realidade que é resultado dum processo conflituoso. Esta é a conclusão lógica daquilo que já dissemos. Tendo em atenção que os pobres foram reduzidos à pobreza e mantidos nela pelo sistema dominante, os pobres são colectivos empobrecidos e dominados. São, em suma, o resultado de um processo histórico conflituoso: «Os pobres são pobres porque são explorados ou rejeitados por uma organização económica perversa, como é entre nós o caso do capitalismo. O capitalismo é explorador e excludente. É por isso que o pobre é um oprimido e um sofredor: ele é mantido debaixo da pata do sistema ou chutado para fora do sistema. Esta é que é a verdadeira explicação da origem da pobreza dos pobres» (Jorge Pixley e Clodovis Boff, «Opção pelos pobres», Vozes, Petrópolis 1986; CESEP - São Paulo/Brasil).

Os pobres são fruto da conflitualidade gerada pelo sistema existente. Para além disso, e na medida em que vão tomando consciência da sua própria situação e se vão organizando para lutar contra ela, são fonte de conflitualidade futura, "força histórica" (G. Gutiérrez), possível sujeito de luta e de mudança social.

d – Uma realidade que reclama um projecto social alternativo. A partir desta visão histórico-dialéctica de natureza estrutural e conflituosa que consideramos a melhor e mais correcta para abordar a pobreza (em oposição à visão «funcionalista» ou «liberal», para quem os pobres são apenas grupos atrasados ou sub-desenvolvidos que com a ajuda dos países chamados «desenvolvidos» poderão aceder aos frutos desse progresso e sair da pobreza, sem que seja necessário alterar as relações que configuram o sistema) é compreensível que se considere os pobres como um grito clamoroso que está a exigir uma mudança social profunda capaz de levar a uma sociedade alternativa.

Na medida em que a situação tem raízes estruturais e, como já dissemos, os pobres são explorados e rejeitados por um sistema económico e social perverso, a sua libertação exige um projecto social alternativo.

e – Uma realidade com significado político. O que outorga um profundo significado político aos pobres é o seu carácter de força histórica em matéria de mudança social, é a sua condição de «novo sujeito histórico que provavelmente decidirá os destinos da sociedade futura» (L. Boff).

Para os teólogos da libertação, o aspecto «maior», «substancial e irreversível», sinal fundamental dos últimos anos do continente latino-americano é a «irrupção dos pobres na vida política mas também eclesial» dos seus povos. Trata-se – dizem – de uma nova presença «no sentido forte do termo», em virtude da qual «o pobre passa a ocupar o centro do cenário na sociedade e na Igreja, passa a reclamar os seus direitos, coloca sobre a mesa os seus interesses, desafia com a sua luta e a sua esperança» (G. Gutiérrez). Esta nova presença colectiva dos pobres confere, aos pobres, «força ou potência histórica transformadora» e converte-os em «sujeitos activos do seu processo libertador», «novos sujeitos da história» ou «motores de mudança social». Nesta nova irrupção e presença, e na sua capacidade concreta de organização popular, radica o significado político dos pobres.

Vistas a partir "do outro lado da rua", as coisas parecem outras, diferentes. A pobreza e a exploração têm, entre nós ocidentais, outras dimensões e características, tal como é muito maior a capacidade de integração por parte do sistema bem como a sua capacidade de submeter o colectivo dos pobres. Isso é verdade, mesmo reconhecendo que nos países industrializados ditos «desenvolvidos» a realidade seja a seguinte: um terço de pobres socialmente marginalizados; um terço que tem trabalho e possibilidades de satisfazer convenientemente as suas necessidades; um terço que goza de um nível de vida muito alto (sociedades às quais se dá o nome de «sociedades dos três terços»).

Há um ponto em que nos temos vindo a pôr de acordo, pese embora as diferentes situações em que todos vivemos: é preciso superar uma leitura «moralista» da realidade dos pobres para passarmos a uma leitura «política» dessa mesma realidade. Isto quer dizer que é preciso superar a ideia que considera os pobres como meros «carentes», simplesmente necessitados de ajuda e de generosidade por parte dos poderosos, para chegarmos uma outra concepção que veja nos pobres sujeitos que exigem uma mudança social alternativa e que, consciencializados e organizados, possuam força histórica e capacidade de transformação para o conseguir.

A esta nova visão chega-se – tal como indica L. Boff – abandonando a perspectiva que é própria dos ricos e assumindo a perspectiva dos pobres: «A partir dos ricos, o pobre só surge como quem não possui, que é indigente e necessitado… A visão a partir do pobre e do pobre é a única que permite descobrir a força do pobre, a sua dignidade, a sua riqueza humana. Na primeira visão, o pobre não passa de um objecto carente de ajuda. Na segunda, é um sujeito capaz de transformar. A primeira é assistencialista, a segunda é libertadora. A primeira é reformista, a segunda é revolucionária; a primeira deixa intacta a estrutura da sociedade; a segunda pretende superá-la e transformá-la num nova sociedade».

Este significado político dos pobres é crucial para entender, como veremos de seguida, em que consiste a opção pelos pobres.

f – Uma realidade com significado teológico. Até aqui falamos dos traços característicos que identificam os pobres a partir de uma perspectiva sociológica. A partir de uma perspectiva crente ou teologal, tendo sobretudo em conta a luz que a vida e a palavra de Jesus de Nazaré acrescentam, especialmente quando eles assumem a sua condição de forma consciente e activa (e para além do que já foi dito), os pobres-marginalizados são:

— O lugar privilegiado da manifestação ou revelação do Deus cristão, o sacramento preferencial da Sua autocomunicação. É por isso que, sem escutar o clamor dos pobres, não é possível saber o que Deus quer de nós.

— Os pobres-marginalizados são também o lugar social mais adequado ou o lugar mais apto "a partir de onde" se descobre o significado e o alcance da nossa fé. Não só é o melhor lugar para escutar a palavra de Deus, mas também para a interpretar, ou seja, para fazer teologia cristã. Isto quer dizer, por exemplo, que, para descortinar o rosto do Deus cristão, o significado de Jesus Cristo, o alcance da Sua salvação, a verdadeira natureza da Sua Igreja ou a autêntica espiritualidade cristã, é preciso ter em conta a realidade dos pobres e levar a sério a sua causa.

— Os pobres-marginalizados são o lugar mais apropriado e eficaz para a vivência da fé em Jesus, bem como a correlativa praxis do seguimento. Eles são isso, não apenas para sabermos algo acerca de Deus ou saber fazer teologia cristã, mas sobretudo para «praticar Deus», ou seja, realizar a Sua vontade ao serviço do seu Reino: para isso há que escutar o clamor dos pobres e responder a ele com seriedade e fidelidade.

A opção pelos pobres não é apenas fonte de conhecimento. É sobretudo fonte de vida. Sem «opção» não há propriamente «seguimento» de Jesus e, por conseguinte, não há autêntica vida cristã.

Tendo em conta tudo isto que dissemos acerca de quem são os pobres e quais são as suas características particulares procuremos clarificar o conceito de «opção pelos pobres», finalidade fundamental desta pequena monografia.


IV — Que devemos entender por «opção pelos pobres»?

Para começar, poderíamos dizer que a «opção pelos pobres» é uma decisão que, pondo em jogo de forma comprometida a existência inteira de uma pessoa, permite assumir com realismo histórico a causa da libertação dos pobres desta terra.

Vamos ver, com mais rigor, este conceito da «opção», desenvolvendo alguns aspectos fundamentais (...).

La opción por los pobres – característica fundamental que especifica nuestro movimiento eclesial de base», Cuadernos de la Iglesia de Base de Madrid, Editorial Nueva Utopía – calle Fernández de los Rios, 2 – 28015 Madrid; Teléfono: 447 23 60 – Fax: 445 45 44. ISBN 84-87264-06-9. Depósito legal: M – 15716 – 1991.














[1] A. Rebré, em epígrafe ao seu livrinho «Os pobres e a libertação dos homens» (Edição EDOC, Porto 1978), interroga: "Porque é que na Bíblia os pobres têm um lugar tão importante na libertação dos homens?". A resposta, com que Rebré fecha as breves oitenta páginas, resume-se a esta conclusão: "O que a Escritura nos diz da libertação dos homens através da experiência dos explorados e dos «humildes» conduz-nos a Jesus Cristo. É unicamente n’Ele e por Ele que se realiza plenamente a libertação integral pela qual os homens lutaram, sofreram e esperaram continuando a lutar, a sofrer e a esperar".
Blog de Teologia «A SALA DE CIMA» - 19 de Maio 2017:
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[2] Na mesma perspectiva vai o testemunho do teólogo jesuíta basco-salvadorenho Jon Sobrino, sobretudo a partir da página 20 - «2.2 Santidade primordial e solidariedade: "carregarem-se mutuamente"» (in “La santidad primordial”, capítulo 5 de «Terremoto, Terrorismo, Barbarie y Utopía – El Salvador, Nueva York, Afganistán», Ed. Trotta 2002, 123-168).

[3] Peneß (no original grego) =pobre.
Cf. pronúncia aqui [NdT]: 

[4] Ptocoß (no original grego): «reduced to beggary, begging, asking alms; destitute of wealth, influence, position, honor; lowly, afflicted, destitute of the Christian virtues and eternal riches; helpless, powerless to accomplish an end; poor, needy; lacking in anything; as respects their spirit; destitute of wealth of learning and intellectual culture which the schools afford (men of this class most readily give themselves up to Christ's teaching and proved themselves fitted to lay hold of the heavenly treasure)».
Cf. pronúncia aqui [NdT]:

[5] Cf. «Evangelii Nuntiandi» (N. 8 e 9), Papa Paulo VI.

[6] Cf. Albert Gelin, «Os pobres que Deus ama», Edições Paulinas, São Paulo 1973, concretamente, «A carga espiritual da terminologia – o encontro com o helenismo», p. 71ss. (original: «Les pauvres que Dieu aime», Cerf, Paris 1968). Importa consultar as imagens da linguagem bíblica primordial como formas de manifestação da superioridade, da opressão e da injustiça, in Pedro Jaramillo Rivas, «La injusticia y la opresión en el lenguaje figurado de los profetas», EVD 1992. Institución San Jerónimo 26. ISBN 84-7151-857-0. [NdT]