teologia para leigos
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20 de abril de 2018

OPÇÃO PELOS POBRES [JULIO LOIS]



A OPÇÃO PELOS POBRES

Julio Lois Fernández




I - A «opção pelos pobres», questão chave para a Igreja de base

a)    Importância desta questão

A dita «opção pelos pobres» é uma questão de importância transcendental para qualquer movimento eclesial de base. Todas as comunidades cristãs que façam parte desse movimento — as latino-americanas ou africanas, as asiáticas ou as europeias, incluídas nesta, claro está, as espanholas — partilham da mesma convicção: a solidariedade real com a causa dos pobres e a firmeza da luta contra a pobreza injusta é algo essencial na vida da Igreja e na vida de todos os crentes. É por isso que tal «opção» ocupa um lugar bem central na reflexão cristã que hoje queira adoptar uma orientação libertadora.[1],[2]

Eis alguns testemunhos que exprimem essa evidente convicção:

«Eu continuo a sustentar que a opção preferencial pelos pobres é uma das características da Igreja verdadeira, que está ao mesmo nível daquelas características eclesiais muito antigas, que são: una, santa, católica e apostólica. Daqui se conclui que uma Igreja que em teoria e aquando da sua prática defenda que tal opção não é uma parte constitutiva da sua missão … é herética, pois está a falsear um dos dados intrínsecos da sua própria essência» (I. Ellacuría).
«Está na altura de compreender que o membro da Igreja que recuse, na prática, ter uma responsabilidade diante dos pobres é tão culpado de heresia como aquele que rejeita qualquer verdade da fé» (Vissert’h Hooft).
«Uma séria fidelidade à opção pelos pobres é o que faz com que a Igreja se desenvolva em plenitude. Por essa razão, a relação da Igreja com o mundo dos pobres não é mais um problema com que a Igreja terá de se confrontar, mas o problema fundamental. Na sua solução está em jogo ser (ou não ser) a Igreja de Jesus… Participar no destino dos pobres é o que em última análise dará credibilidade à Igreja, e, mais radicalmente, dará credibilidade à própria fé… Aquilo que os cristãos pressentem é que na proximidade (ou no afastamento) para com os pobres é que se joga o futuro da fé» (Jon Sobrino).
«Só o compromisso da Igreja com os camponeses sem terra, os jovens sem trabalho, as populações das barracas e favelas, as forças sociais neutralizadas e reduzidas ao silêncio pode revelar publicamente que o Evangelho é na verdade libertador porque anuncia um futuro novo» (Jean-Marc Ela, teólogo dos Camarões).
«Como Igreja de Base de Madrid, consideramos essencial a opção pelos pobres e a partir dos pobres, a fim de exercer a presença profético-libertadora na sociedade e na Igreja» (Documento-Programa da Igreja de Base de Madrid).
«Nas horas graves e decisivas da vida da Igreja… a constatação é angustiante, quando uma Igreja se dá conta que não está do lado dos mais pobres, daqueles que por definição são os seus primeiros destinatários. É que não se trata apenas de um incidente chato, desagradável, mas de um fracasso decisivo, diante de tão grande estado de degenerescência da dimensão missionária da comunitariedade dessa Igreja assim estabelecida» (M. D. Chenu).

«Não é necessário multiplicar os testemunhos, pois eles são inumeráveis. Todos os testemunhos coincidem quanto a assinalar que é em torno dessa questão que se joga a credibilidade da Igreja e, mais ainda, a autenticidade e o destino da própria fé cristã «que vê a sua razão de ser e a certificação da sua verdade na vivência da libertação integral do Homem, especialmente dos pobres» (L. Boff).


(…)


A versão grega dos Setenta (do Antigo Testamento) utiliza dois termos para se referir aos débeis e necessitados: «penes»[3] (pessoas que não conseguem viver dos seus bens próprios ou do seu património, mas que têm de trabalhar penosamente a fim de satisfazer as suas necessidades) e «ptocos»[4] (pessoas atrasadas ou necessitadas, incapazes, por carência de bens, de satisfazer as suas necessidades mais elementares, ou seja, pobres absolutos ou severos, socialmente dependentes).

O Novo Testamento quando fala de "pobres" opta claramente pelos "ptocos". «Penes» só se encontra em 2 Cor 9, 9 e numa citação do Salmo 112, versículo 9. Em Lucas 21, 2 usa-se um derivado de "penes" («penichrós»), mas o seu paralelo em Marcos usa o termo «ptocos». «Ptocos» aparece 34 vezes no Novo Testamento, 24 delas nos Evangelhos, quase sempre — pelo menos em 18 vezes — com o significado já indicado: os «ptocos» são os necessitados (no sentido forte da expressão), são os marginalizados indefesos (ainda que também se use essa expressão para designar os «pobres de espírito» – «ptocoi to pneumati» – como os beneficiários privilegiados do Reino[5]; os pobres como imagem de Cristo: Cf. 1Cor 1, 27b.28, mas sobretudo a carta de Tiago 2, 5-6: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?»).[6]

O que importa aqui sublinhar — contra o que se lê em certos tratados de vida espiritual — é que, quando os Evangelhos falam de pobres, referem-se quase sempre aos pobres reais ou materiais, que são também marginalizados ou socialmente dependentes. Para a mentalidade judaica do tempo de Jesus, esta última característica — a inferioridade ou dependência social — era aquela que mais importava evitar. Como assinalava o beneditino belga Jacques Dupont, «nós, hoje em dia, vemos na pobreza sobretudo a carência de bens, com todas as moléstias e privações que isso acarreta. O semita, por seu lado, é mais sensível à inferioridade social, humilhação que contribui para fazer, das pessoas de condição modesta, o «bombo da festa» por parte dos poderosos e dos violentos… O pobre, para nós, é sobretudo o desprovido; os judeus olham-no mais como o indefeso» (Jacques Dupont, «El mensaje de las bienaventuranzas», Editorial Verbo Divino, Estella (Navarra), 1990, CB24; existe edição em francês com o título de «Le Message des Béatitudes», Cahiers Evangile N.24, Ed. CERF, Paris, Mai 1978[7]).


III — Características fundamentais dos pobres

Os pobres, tal como ficou claro no capítulo anterior, são:

a – Uma realidade colectiva. Hoje em dia, a pobreza é uma questão social de raízes estructurais, e tem uma dimensão massiva sobretudo nos países ditos do «terceiro mundo». Os pobres são classes, sectores sociais e até povos inteiros ou imensas maiorias populares. É preciso acabar com a visão superficial, «empirista» ou «vulgar», que olha para o pobre isoladamente, abstraído do seu contexto social, como um indivíduo ou um caso particular. Como muito bem indica G. Gutiérrez, «a pobreza, sobretudo em meios cristãos, foi pensada e vivida em função da situação de seres humanos isolados, dos «pobres» objecto da nossa misericórdia. Mas, já não é assim que as coisas se apresentam hoje em dia. Classes sociais, povos e continentes inteiros tomam consciência da sua pobreza… Estamos diante de uma pobreza colectiva que cria laços de solidariedade entre os que a sofrem na pele…».

b – Uma realidade histórico-dialéctica de natureza estrutural. Ao dizermos que os pobres são uma realidade histórica procura-se afirmar que a sua situação não é uma fatalidade necessária e inevitável, algo que se explica a partir de causas naturais. Pelo contrário, a pobreza a que aqui nos referimos surge na História como resultado de uma acção livre e culpável por parte daqueles que a causam. Os pobres são os empobrecidos, os desapossados. Os pobres são um facto social produzido e não um facto fatal ou natural inevitável.

Ao dizer que são uma realidade dialéctica quer-se dizer que a sua pobreza só pode ser entendida — em si mesma, mas também quanto às suas características fundamentais — em relação com a riqueza, realidade contrária causadora. A pobreza é o correlato da riqueza e vice-versa. Dito de modo mais claro: há pobres porque há ricos. Os pobres são empobrecidos e os ricos são amealhadores que a outros empobrecem. A pobreza dos pobres reais, historicamente existentes cujos rostos bem conhecemos, não se pode confundir com «escassez» partilhada. A pobreza é uma realidade distinta, porque é fruto da desigualdade social, é fruto da distribuição não equitativa dos bens disponíveis, que foram criados com a intenção prioritária de satisfazer as necessidades de todos.

Dizemos também que os pobres constituem uma realidade cuja natureza é estrutural. As causas históricas que geram a pobreza, que tem a sua raiz pessoal última no egoísmo humano, cristalizam em estruturas e mecanismos sociais que configuram um sistema que mantém, reproduz e aumenta a pobreza. Toda a visão ingénua que esqueça esta raiz estrutural da pobreza existente está condenada ao mero «assistencialismo».

c – Uma realidade que é resultado dum processo conflituoso. Esta é a conclusão lógica daquilo que já dissemos. Tendo em atenção que os pobres foram reduzidos à pobreza e mantidos nela pelo sistema dominante, os pobres são colectivos empobrecidos e dominados. São, em suma, o resultado de um processo histórico conflituoso: «Os pobres são pobres porque são explorados ou rejeitados por uma organização económica perversa, como é entre nós o caso do capitalismo. O capitalismo é explorador e excludente. É por isso que o pobre é um oprimido e um sofredor: ele é mantido debaixo da pata do sistema ou chutado para fora do sistema. Esta é que é a verdadeira explicação da origem da pobreza dos pobres» (Jorge Pixley e Clodovis Boff, «Opção pelos pobres», Vozes, Petrópolis 1986; CESEP - São Paulo/Brasil).

Os pobres são fruto da conflitualidade gerada pelo sistema existente. Para além disso, e na medida em que vão tomando consciência da sua própria situação e se vão organizando para lutar contra ela, são fonte de conflitualidade futura, "força histórica" (G. Gutiérrez), possível sujeito de luta e de mudança social.

d – Uma realidade que reclama um projecto social alternativo. A partir desta visão histórico-dialéctica de natureza estrutural e conflituosa que consideramos a melhor e mais correcta para abordar a pobreza (em oposição à visão «funcionalista» ou «liberal», para quem os pobres são apenas grupos atrasados ou sub-desenvolvidos que com a ajuda dos países chamados «desenvolvidos» poderão aceder aos frutos desse progresso e sair da pobreza, sem que seja necessário alterar as relações que configuram o sistema) é compreensível que se considere os pobres como um grito clamoroso que está a exigir uma mudança social profunda capaz de levar a uma sociedade alternativa.

Na medida em que a situação tem raízes estruturais e, como já dissemos, os pobres são explorados e rejeitados por um sistema económico e social perverso, a sua libertação exige um projecto social alternativo.

e – Uma realidade com significado político. O que outorga um profundo significado político aos pobres é o seu carácter de força histórica em matéria de mudança social, é a sua condição de «novo sujeito histórico que provavelmente decidirá os destinos da sociedade futura» (L. Boff).

Para os teólogos da libertação, o aspecto «maior», «substancial e irreversível», sinal fundamental dos últimos anos do continente latino-americano é a «irrupção dos pobres na vida política mas também eclesial» dos seus povos. Trata-se – dizem – de uma nova presença «no sentido forte do termo», em virtude da qual «o pobre passa a ocupar o centro do cenário na sociedade e na Igreja, passa a reclamar os seus direitos, coloca sobre a mesa os seus interesses, desafia com a sua luta e a sua esperança» (G. Gutiérrez). Esta nova presença colectiva dos pobres confere, aos pobres, «força ou potência histórica transformadora» e converte-os em «sujeitos activos do seu processo libertador», «novos sujeitos da história» ou «motores de mudança social». Nesta nova irrupção e presença, e na sua capacidade concreta de organização popular, radica o significado político dos pobres.

Vistas a partir "do outro lado da rua", as coisas parecem outras, diferentes. A pobreza e a exploração têm, entre nós ocidentais, outras dimensões e características, tal como é muito maior a capacidade de integração por parte do sistema bem como a sua capacidade de submeter o colectivo dos pobres. Isso é verdade, mesmo reconhecendo que nos países industrializados ditos «desenvolvidos» a realidade seja a seguinte: um terço de pobres socialmente marginalizados; um terço que tem trabalho e possibilidades de satisfazer convenientemente as suas necessidades; um terço que goza de um nível de vida muito alto (sociedades às quais se dá o nome de «sociedades dos três terços»).

Há um ponto em que nos temos vindo a pôr de acordo, pese embora as diferentes situações em que todos vivemos: é preciso superar uma leitura «moralista» da realidade dos pobres para passarmos a uma leitura «política» dessa mesma realidade. Isto quer dizer que é preciso superar a ideia que considera os pobres como meros «carentes», simplesmente necessitados de ajuda e de generosidade por parte dos poderosos, para chegarmos uma outra concepção que veja nos pobres sujeitos que exigem uma mudança social alternativa e que, consciencializados e organizados, possuam força histórica e capacidade de transformação para o conseguir.

A esta nova visão chega-se – tal como indica L. Boff – abandonando a perspectiva que é própria dos ricos e assumindo a perspectiva dos pobres: «A partir dos ricos, o pobre só surge como quem não possui, que é indigente e necessitado… A visão a partir do pobre e do pobre é a única que permite descobrir a força do pobre, a sua dignidade, a sua riqueza humana. Na primeira visão, o pobre não passa de um objecto carente de ajuda. Na segunda, é um sujeito capaz de transformar. A primeira é assistencialista, a segunda é libertadora. A primeira é reformista, a segunda é revolucionária; a primeira deixa intacta a estrutura da sociedade; a segunda pretende superá-la e transformá-la num nova sociedade».

Este significado político dos pobres é crucial para entender, como veremos de seguida, em que consiste a opção pelos pobres.

f – Uma realidade com significado teológico. Até aqui falamos dos traços característicos que identificam os pobres a partir de uma perspectiva sociológica. A partir de uma perspectiva crente ou teologal, tendo sobretudo em conta a luz que a vida e a palavra de Jesus de Nazaré acrescentam, especialmente quando eles assumem a sua condição de forma consciente e activa (e para além do que já foi dito), os pobres-marginalizados são:

— O lugar privilegiado da manifestação ou revelação do Deus cristão, o sacramento preferencial da Sua autocomunicação. É por isso que, sem escutar o clamor dos pobres, não é possível saber o que Deus quer de nós.

— Os pobres-marginalizados são também o lugar social mais adequado ou o lugar mais apto "a partir de onde" se descobre o significado e o alcance da nossa fé. Não só é o melhor lugar para escutar a palavra de Deus, mas também para a interpretar, ou seja, para fazer teologia cristã. Isto quer dizer, por exemplo, que, para descortinar o rosto do Deus cristão, o significado de Jesus Cristo, o alcance da Sua salvação, a verdadeira natureza da Sua Igreja ou a autêntica espiritualidade cristã, é preciso ter em conta a realidade dos pobres e levar a sério a sua causa.

— Os pobres-marginalizados são o lugar mais apropriado e eficaz para a vivência da fé em Jesus, bem como a correlativa praxis do seguimento. Eles são isso, não apenas para sabermos algo acerca de Deus ou saber fazer teologia cristã, mas sobretudo para «praticar Deus», ou seja, realizar a Sua vontade ao serviço do seu Reino: para isso há que escutar o clamor dos pobres e responder a ele com seriedade e fidelidade.

A opção pelos pobres não é apenas fonte de conhecimento. É sobretudo fonte de vida. Sem «opção» não há propriamente «seguimento» de Jesus e, por conseguinte, não há autêntica vida cristã.

Tendo em conta tudo isto que dissemos acerca de quem são os pobres e quais são as suas características particulares procuremos clarificar o conceito de «opção pelos pobres», finalidade fundamental desta pequena monografia.


IV — Que devemos entender por «opção pelos pobres»?

Para começar, poderíamos dizer que a «opção pelos pobres» é uma decisão que, pondo em jogo de forma comprometida a existência inteira de uma pessoa, permite assumir com realismo histórico a causa da libertação dos pobres desta terra.

Vamos ver, com mais rigor, este conceito da «opção», desenvolvendo alguns aspectos fundamentais (...).

La opción por los pobres – característica fundamental que especifica nuestro movimiento eclesial de base», Cuadernos de la Iglesia de Base de Madrid, Editorial Nueva Utopía – calle Fernández de los Rios, 2 – 28015 Madrid; Teléfono: 447 23 60 – Fax: 445 45 44. ISBN 84-87264-06-9. Depósito legal: M – 15716 – 1991.














[1] A. Rebré, em epígrafe ao seu livrinho «Os pobres e a libertação dos homens» (Edição EDOC, Porto 1978), interroga: "Porque é que na Bíblia os pobres têm um lugar tão importante na libertação dos homens?". A resposta, com que Rebré fecha as breves oitenta páginas, resume-se a esta conclusão: "O que a Escritura nos diz da libertação dos homens através da experiência dos explorados e dos «humildes» conduz-nos a Jesus Cristo. É unicamente n’Ele e por Ele que se realiza plenamente a libertação integral pela qual os homens lutaram, sofreram e esperaram continuando a lutar, a sofrer e a esperar".
Blog de Teologia «A SALA DE CIMA» - 19 de Maio 2017:
GOOGLE DRIVE:

[2] Na mesma perspectiva vai o testemunho do teólogo jesuíta basco-salvadorenho Jon Sobrino, sobretudo a partir da página 20 - «2.2 Santidade primordial e solidariedade: "carregarem-se mutuamente"» (in “La santidad primordial”, capítulo 5 de «Terremoto, Terrorismo, Barbarie y Utopía – El Salvador, Nueva York, Afganistán», Ed. Trotta 2002, 123-168).

[3] Peneß (no original grego) =pobre.
Cf. pronúncia aqui [NdT]: 

[4] Ptocoß (no original grego): «reduced to beggary, begging, asking alms; destitute of wealth, influence, position, honor; lowly, afflicted, destitute of the Christian virtues and eternal riches; helpless, powerless to accomplish an end; poor, needy; lacking in anything; as respects their spirit; destitute of wealth of learning and intellectual culture which the schools afford (men of this class most readily give themselves up to Christ's teaching and proved themselves fitted to lay hold of the heavenly treasure)».
Cf. pronúncia aqui [NdT]:

[5] Cf. «Evangelii Nuntiandi» (N. 8 e 9), Papa Paulo VI.

[6] Cf. Albert Gelin, «Os pobres que Deus ama», Edições Paulinas, São Paulo 1973, concretamente, «A carga espiritual da terminologia – o encontro com o helenismo», p. 71ss. (original: «Les pauvres que Dieu aime», Cerf, Paris 1968). Importa consultar as imagens da linguagem bíblica primordial como formas de manifestação da superioridade, da opressão e da injustiça, in Pedro Jaramillo Rivas, «La injusticia y la opresión en el lenguaje figurado de los profetas», EVD 1992. Institución San Jerónimo 26. ISBN 84-7151-857-0. [NdT]



5 de abril de 2018

A CRISTOLOGIA DE JON SOBRINO [JULIO LOIS]



Nos três últimos dias de Outubro realizaram-se umas jornadas organizadas pelo Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral (IDTP), de Bilbao, subordinadas ao título «Questões actuais de cristologia», cujo objectivo principal era apresentar três esquemas cristológicos. No dia 29, José Antonio Pagola introduziu-nos no Jesus histórico. No dia 30, Jesús Martinez Gordo e Dom Ricardo Blázquez, bispo de Bilbao, apresentaram o pensamento cristológico do Papa Bento XVI.


Jon Sobrino sj


Por fim, no dia 31 de Outubro, Julio Lois, cuja conferência publicamos agora, ofereceu-nos as chaves da cristologia de Jon Sobrino, temática sobre a qual versam algumas das obras mais importantes do teólogo, e numerosos artigos seus.

Descobrimos a cristologia de Jon Sobrino como uma excelente expressão do legítimo pluralismo quanto à interpretação do "acontecimento–Jesus" e reconhecemos a sua importância e o seu significado para o momento histórico presente. Julio Lois termina a apresentação convidando-nos a fazer nossa a preocupação evangélica para com as vítimas expressa em toda a obra do autor estudado.

Ainda que Lois faça referência à "Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé",[1] a sua pretensão é, sobretudo, apresentar, perante não especialistas, os principais elementos da construção teológica do teólogo de Bilbao.


Javier Oñate Landa
Director do IDTP







[1] «Notificação sobre as obras de Jon Sobrino», CDF (presidente: card. Joseph Ratzinger):
«Nota Explicativa» (J. Ratzinger):
«Uma cristologia que incomoda», pelo teólogo das religiões na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG, Brasil), Faustino Teixeira:



21 de janeiro de 2018

SER CRISTÃO É SER SEGUIDOR DE JESUS [JULIO LOIS]



QUE SIGNIFICA SER CRISTÃO ENQUANTO "SEGUIDOR DE JESUS"?


Para começar, duas observações prévias acerca do próprio título da conferência e uma terceira de carácter metodológico.

A primeira observação poderia formular-se assim: ao ler o título pode ficar-se com a sensação de que ele é tautologicamente desnecessário e que deveríamos abreviá-lo. Ou seja, deveria bastar «que significa ser cristão?». Para quê acrescentar «enquanto seguidor de Jesus»? Porventura, não é óbvio que ser cristão é precisamente ser seguidor de Jesus? Seja qual for o ponto de vista quanto a esta questão (e o meu ficará claro ao longo desta conferência), a verdade é que, de facto, historicamente falando, a identificação entre "existência cristã" e "seguimento de Jesus" não parece tão óbvia assim.

«Quando somos obrigados a precisar em que consiste a identidade cristã sempre demos primazia, e conferimos valor autónomo, à aceitação intelectual do «depósito revelado», à confissão puramente verbal, ao cumprimento pontual desta ou daquela prática religiosa, etc., etc., e acabamos por deixar o "seguimento" de lado. É verdade que um sector importante da teologia cristã actual, bem como numerosas comunidades de crentes procuram «recuperar» o seguimento de Jesus como categoria constitutiva e central do existir cristão e, inclusivamente, como critério último da verificação da autenticidade desse mesmo existir. Contudo, não podemos dizer que se tenha conseguido um consenso unânime quanto a este tópico, nem que tal desejo já esteja a alimentar, no momento presente, a vida dos cristãos. Por isso, não me parece supérfluo insistir, tal como o faço no título, que ser cristão equivale a ser seguidor de Jesus.» (…)


Julio Lois Fernández [1935-2011], Conferência a 16 de Março de 1982.
«¿Que significa ser cristiano como seguidor de Jesús?
Catedra de Teología Contemporanea, Colegio Mayor «Chaminade»
Patrocínio: Fundación Santa María, Madrid. ISBN 84-348-1119-7.






27 de outubro de 2017

O VOLUNTARIADO EM JULGAMENTO [JOAQUÍN PEREA]

 

IGREJA E VOLUNTARIADO SOCIAL


O tratamento deste tema requer que se explique, desde logo, alguns conceitos à volta dos quais gira a compreensão, o correcto enquadramento e até uma boa parte das respostas a dar à questão que temos entre mãos. Portanto, nada de admirar que as definições ou descrições que se seguem não sejam mesmo nada assépticas; antes pelo contrário, tomam partido em relação a certos pontos bem concretos.


Voluntariado cristão

As características com que se procura definir o voluntariado cristão não são exclusivas dele: podem ser atribuídas a voluntariados não crentes ou não confessionais. No entanto, já que os voluntários cristãos apresentam certas debilidades ou falências com um voluntariado de «restauração ou privatização, expressivo ou instrumental» — seja lá como lhe queiram chamar — convém deixar claros certos elementos que se deduzem desta opção cristã, que, no fundo, deverá ser a opção pelo seguimento de Jesus.

1 – Nesta linha, falamos de e defendemos um voluntariado social da margem, da marginalidade. Este tipo de voluntariado encarna-se em realidades próprias da exclusão social; trabalha directamente com os excluídos nos espaços sociais onde o progresso e o bem-estar fracassaram rotundamente. É um voluntariado que vive no interior da sociedade civil, aí se instala e se mantém, assistindo e curando as feridas que descobrir nessa sociedade, mas não prescindindo de lutar contra a injustiça que as causa. Faz este acompanhamento, mas vai mais longe: trabalha a questão da «promoção», ou seja, não perde de vista o horizonte da emancipação, dispondo-se a intervir na História com afã mobilizador. Pretende pôr em marcha uma dinâmica de transformação das estruturas e de remoção das causas que produzem a marginalização e a exclusão social. Deste seu compromisso nasce uma denúncia social reivindicativa. Com as suas práticas de assistência e acompanhamento desenvolve conteúdos de transformação social[1] e, em última análise, de resistência política, já que está avisado de que todo o voluntariado que nasça ou viva numa postura antipolítica será estéril.

Portanto, deixamos de fora todo o voluntariado que só serve para lavar a má consciência ou para compensar frustrações pessoais e profissionais, que se transforma num tapa-buracos do sistema neocapitalista ou que pratica a assistência e o paternalismo ingénua e acriticamente.

2 – Por conseguinte, o voluntariado cristão de que falamos é um desafio dirigido ao núcleo duro da nossa sociedade: não apenas pretende atingir o sistema económico, mas sobretudo, e para lá das leis económicas, pretende atacar os pressupostos culturais hegemónicos. Assim, quer contribuir para a construção de uma cultura alternativa.

3 – Este tipo de voluntariado cristão que defendemos caracteriza-se por um sentido radical da gratuidade. Este voluntariado carece de interesse económico pessoal, não espera nem aceita nada em troca. Entra em choque e rompe com o utilitarismo individualista.

4 – Responde a uma escolha totalmente livre da vontade da pessoa, e, por isso, é chamado voluntariado, mas a sua opção é movida pela solidariedade para com o outro e pelo compromisso com uma sociedade mais justa.

5 – O voluntariado desenvolve-se num âmbito mais ou menos organizado, mas a sua estrutura organizativa é flexível e bastante horizontal. Pressupõe uma estratégia de autorregulação colectiva que pretende que a sociedade civil tenha uma cada vez maior capacidade de intervenção na coisa pública. (…)


Necessidade de processos formativos

As opções a tomar, por parte das organizações de voluntariado cristão, a favor dos marginalizados exigem que elas estabeleçam processos formativos adequados para o acompanhamento dos marginalizados, bem como o respectivo confronto dos seus próprios membros.

O voluntário, que frequentemente começa a sua actividade como uma decisão fruto da sua generosidade visando preencher os seus tempos-livres, acaba por ir amadurecendo o seu compromisso tornando-o mais estável, consequência da sua liberdade (ou seja, continua a ser um amadurecimento voluntário). Acontece que esse processo acaba por alterar a vida do voluntário e isso fá-lo tomar opções de vida mais comprometidas e mais radicais (ou seja, opções de vida que atingem a raiz da sua existência humana e cristã).

Se o processo formativo for adequado, as atitudes do voluntário cristão irão mudar e pode produzir-se, então, um processo de conversão interior que acabará por criar rasgões na sua condescendência pessoal para com a injustiça, o que o levará à luta pela transformação do sistema.

Na hora de seleccionar os membros para as organizações de voluntariado cristão — mesmo sabendo da variedade de vocações seculares existentes — devemos verificar a presença à partida, a nosso ver imprescindível, de uma opção fundamental no momento actual que as nossas igrejas locais atravessam, que é coerente com tudo o que dissemos até aqui: procurar agrupar, incentivar e atrair o laicado que esteja disposto a transformar a realidade antecipando, assim, significativamente o Reino de Deus, o que constitui uma parte essencial da sua actividade no voluntariado.

O laicado pelo qual optamos deverá saber estabelecer um incentivo mútuo com o ambiente social, o bairro ou a povoação onde acontece a marginalização. É preciso que se consiga uma interacção, uma circularidade ou retroalimentação entre os projectos da organização de voluntariado e as inquietações dos marginalizados.

Ora, para que o compromisso do laicado nasça dessas actividades e seja genuinamente cristão, é preciso cuidar do desenvolvimento da fé mediante um verdadeiro acompanhamento eclesial.

Diante das dificuldades em romper com as rotinas existentes e face ao peso da longa história do dualismo separador existente entre e compromisso, é preciso rever os processos formativos a partir dos princípios evangelizadores e a partir da transformação da realidade. A formação doutrinal é importante, mas revela-se insuficiente.

Portanto, para levar por diante a proposta anterior é oportuno criar uma espécie de zona eclesial intermédia nova, a partir donde se consiga um desenvolvimento da fé mais pleno e equilibrado. Seria como que uma plataforma ou mediação eclesial à qual seriam convocados estes leigos, a que nos estamos a referir, com a finalidade de depurar as motivações do seu compromisso de transformação da realidade, provocando a sua clarificação, ao mesmo tempo que se exerceria o seu acompanhamento eclesial mediante o encontro entre si mas também com outros membros de outras organizações de voluntariado cristão.

O processo formativo deveria ser de carácter indutivo. Ou seja, deve:

— partir da vida de pessoas concretas, de situações que estão a acontecer nos seus ambientes locais concretos, para depois regressar à vida das pessoas.

— fazer com que se tragam à luz os problemas existentes na realidade do ambiente, do bairro, da povoação, dos vizinhos, etc.

— identificar os desafios e os respetivos «toques de chamada ao serviço» dos mais pobres.

— saber ler os sinais dos tempos.

— deixar bem claro que a solidariedade activa com os pobres é um dado que afecta o conjunto destas dimensões.

— estruturar-se a partir de uma pedagogia de acção transformadora, isto é, não como mera pedagogia activa nem mera instrução, mas como compromisso com o ambiente onde vivem as pessoas pobres.

— incorporar o compromisso transformador durante o processo e não achar que ele só entra no final do processo de formação do marginalizado.

— caracterizar-se pela personalização, pela progressividade e pela comunitariedade, bem como terá de se basear numa pedagogia do testemunho e do acompanhamento por parte do «voluntário».


Para potenciar os poucos recursos existentes, entre outras coisas, seria oportuno partilhar todo o tipo de informação acerca de materiais e experiências realizadas que digam respeito precisamente à formação do voluntariado e à transformação da realidade.


Conclusões – Está em jogo o rosto do Deus cristão

O Concílio Vaticano II deu como adquirido que hoje em dia vivemos num regime de rotura entre o cristianismo eclesial e a sociedade laica. Acontece que o Concílio, diante de tal situação, não se quis manter naquela atitude de uma Igreja assustada e medrosa diante das ameaças de desintegração interna, mas operou um golpe de rins, uma viragem, com a qual se propôs renovar a credibilidade do cristianismo através dum diálogo acerca da procura moderna dum sentido – social e cultural – mostrando como a opção crente não só não nega como assume, corrige e eleva à sua plenitude a exigência de todo o ser humano em optar por um sentido para a sua vida e de configurar um projecto de humanidade conforme a dita opção.

A revelação de Deus em Jesus, quando vivida historicamente na «comunidade de seguimento», descobre uma inesgotável capacidade de oferta de sentido. Este potencial só se desenvolve na medida em que seja vivido pela comunidade cristã através de tudo aquilo que constitua a acção humanizadora das pessoas.[2]

Por isso, no nosso tempo, a operação de legitimação do cristianismo consiste em acompanhar a marcha histórica da humanidade a partir duma fé activa que se transforme em fé eficaz pelo amor prático ao «comum dos mortais». Hoje em dia isso comporta uma enorme dificuldade, e por uma razão muito simples: ainda não nos distanciamos da contaminação que existe, desde há imenso tempo, entre o chamamento evangélico a servir, despojados de todas as estruturas de poder, e o poder (social ou político) realmente exercido pelo cristianismo eclesial.

Nós, os crentes, realizamos o acompanhamento da marcha histórica da humanidade, apoiados numa Promessa. Promessa que só nos é revelada através da fé e que consiste na recapitulação e na unificação de toda a realidade em Deus. Promessa que, contudo, ainda está por realizar historicamente e que, por já se ter realizado em Jesus Cristo, nos obriga a viver historicamente no fio da navalha, tal como os outros, a partir da esperança nessa Promessa.

Donde se conclui que a nossa prática é hermenêutica, é interpretação dos símbolos cristãos fundamentais, é tradução (prática) daquilo que queremos dizer quando afirmamos, por exemplo, que «Deus é nosso Pai», que «vivemos como irmãos», que «esperamos como filhos».

Na medida em que, como cristãos, interpretamos os símbolos bíblicos básicos através da nossa práxis social, o cristianismo fundamenta a sua legitimidade postando-se diante da sociedade actual, mostrando «a sua verdade» ao longo da História.

A questão da luta em prol da solidariedade tem a ver directamente com a imagem de Deus que os seguidores de Jesus dão enquanto reunidos em Igreja. Nós afirmamos que o Deus revelado por Jesus é um Deus-comunhão. Ora acontece que a comunidade hermenêutica de tal afirmação é a Igreja.

A extrema injustiça social do sistema económico vigente coloca graves perguntas acerca do Deus cristão. A pobreza, a exclusão, a marginalização não são apenas a outra margem da suposta civilização cristã, mas sobretudo o problema número um que afronta a nossa confissão de fé. Até porque a fé bíblica fala da salvação para os pobres; até porque a salvação que oferecemos em nome de Jesus não é meramente escatológica, ou seja, projectada para lá do fim da história humana, altura em que, então, os pobres seriam salvos. Se tudo se devesse passar assim, então, estaríamos a dar razão ao marxismo. O nosso messianismo é histórico: ele afirma a sua realização nesta terra. Se há algo específico do cristianismo é a esperança da realização da salvação já aqui, ainda que a sua plenificação seja no tempo definitivo.

Sem escuta do clamor dos pobres não pode haver Igreja de Jesus. Sem luta pela mudança de um sistema injusto não pode haver Igreja de Jesus. No interior da cultura economicista e consumista, e da mercantilização da existência, compete à Igreja promover a cultura da solidariedade com vistas a realizar uma sociedade algo parecida ao projecto de Jesus. Isso acarreta uma mudança de mentalidade quanto à maneira de enfrentar a situação injusta.

Às organizações de voluntariado cristão cabe-lhe uma parte desta tarefa. Elas não podem transformar-se em funcionários do sistema, em legitimadoras do sistema.


O poder do «um mais um»

O oceano de miséria e de marginalidade seria muito mais amargo sem esta pequena gota de voluntariado. Se as organizações de voluntariado não existissem, havia que as inventar neste preciso momento em que escrevo. Têm muitos defeitos, mas são imprescindíveis. A missão de todos os crentes, particularmente a dos cristãos embarcados nesta aventura, é a de as melhorar com uma crítica a partir de dentro.

Mantenhamos a persuasão expressada pelas palavras de Antonio Tabucchi, tomadas a partir da afirmação de um cientista: «o bater de asas de uma borboleta em Nova Iorque pode provocar um tufão em Pequim». Em pleno deslace da sociedade de bem-estar, onde impera a lei e a moral dos mais fortes e onde os milhentos rostos de marginalizados que Deus recrimina e que constitui uma realidade cada vez mais transbordante que parece tudo esmagar, nós, os que conhecemos a alternativa-esperança, sabemos do poder de «um mais um». No meio desta noite convém recordar a frase do poeta, prémio Nobel, Eugenio Montale: «Me contentaría com transmitir la luz de una cerilla» [Contentar-me-ia em emitir a luz de um fósforo]. É isso: a luz de milhões de fósforos juntos pode iluminar a noite.

Estou a chegar ao fim deste escrito sobre voluntariado. Falámos de noite. Nesta crua noite eclesial que nos tocou atravessar e cuja duração ignoramos, ainda que provavelmente não seja breve, existem alguns na Igreja que não desejam de maneira alguma que o laicado, até agora silencioso, se converta num laicado ilustrado que levanta problemas sérios e graves de reforma eclesial, como é o que acontece quando se levam a sério as iniciativas provenientes do voluntariado cristão.

Outros eclesiásticos, ainda que desejem um laicado ilustrado, temem que, diante das dificuldades que se lhes possam surgir por diante, a instituição eclesial não seja capaz de dar uma resposta pronta e adequada a essas dificuldades mais que razoáveis, e isso produza uma debandada geral, quer em bicos de pés, quer batendo em cheio com a porta. Esses eclesiásticos temem uma nova crise do laicado e preferem que nem se cheguem a colocar essas candentes questões.

Outros, porém, queremos confiar no Espírito que acompanha sempre a Igreja. Aqueles que sustentamos esta confiança, desejamos um laicado plenamente ilustrado, um laicado capaz de responder ao lema da Ilustração que I. Kant cunhou com a sua frase: «Atreve-te a pensar». É certo que tal atrevimento traz consigo riscos, mas também acreditamos que vale a pena corrê-los, pois só assim estaremos a gerar a Igreja de Jesus, Igreja do futuro que está aí a chegar.

Joaquín Perea
«Iglesia y Voluntariado Social», Instituto Diocesano de Teologia y Pastoral de Bilbao, N.6, Desclée De Brouwer 2001.









[1] Considera-se muito útil a leitura das conclusões do debate interno que o Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral de Bilbao levou a cabo (1988-1990), nomeadamente naquilo que diz respeito ao processo de catequese de adultos e à promoção laical. Recomenda-se meditar, sobretudo nas páginas 66-69, sobre aquilo que tradicionalmente é considerado específico (ou até exclusivo) dos leigos: viver a fé ao nível do temporal. O que significa, por exemplo, ser militante no temporal? «Pode ser-se cristão sem se ser militante? Não constitui uma falha do processo — de todos os processos de formação catecumenal — não promover militantes«Se desde o início do processo de formação [dos leigos] não se utiliza uma metodologia que desague sempre na transformação da realidade, dificilmente se criará depois um tipo específico de acção laical no mundo» (p. 66) Cf. «Fieles a la tierra y constructores del Reino – el conflicto de los laicos cristianos», Desclée De Brouwer 1991; citado das pp. 66-67. [NdT]
[2] Cf. F. Manresa, «Asumir, corrigir, plenificar (II). Una proposta teológica», Cuadernos «Institut de Teologia fonamental», n. 1 18, Barcelona (Cristinisme i Justicia) 1991, 70-71.