teologia para leigos
Mostrar mensagens com a etiqueta Páscoa-Ressurreição. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Páscoa-Ressurreição. Mostrar todas as mensagens

30 de outubro de 2018

EUTANÁSIA 4



QUE EUTANÁSIA?


(…) Uma actuação médica em prol do interesse do doente
Infelizmente, a nossa experiência mostra-nos que não podemos partir do pressuposto de que os médicos actuem sempre segundo o interesse do moribundo, nem que sempre o ajudará a transitar para a morte de um modo humano.
Muitos médicos compreensivos agem desse modo mas em segredo, ainda que fiquem com pesos na consciência. Já ouvi dizer que há gente que questiona criticamente a lei holandesa da eutanásia, mas que para si mesmas, de uma maneira muito pessoal e quando chegados ao fim da vida, desejariam poder encontrar por diante deles «um médico compassivo». Sendo assim, como poderá, o doente comum, encontrar um médico «adequado»? Infelizmente, a alguns médicos falta-lhes sensibilidade para esta problemática: a da "passagem para a morte".
Partilho com o leitor um de entre muitos testemunhos que me chegou por carta: «Nem por isso são poucos ou raros os casos, como os de que falou no seu livro, em que anciãos prostrados pelo coma são submetidos a reanimação de modo a que se mantenham vivos, e por conseguinte, vegetando. Entre essas pessoas está a minha mãe. Com mais de cem anos é um destroço humano. Todos os dias vêm tirá-la da cama para a deixarem sentada numa poltrona durante horas, à espera… Ela fala com frequência da morte: "Julgo que Nosso Senhor se esqueceu de mim, me abandonou". Já chegou a perguntar ao médico: "Será que não me poderia dar algo para que eu possa morrer?" Eu mesmo já perguntei ao médico se não seria possível reduzir ou até ir retirando progressivamente os medicamentos que mantêm o coração em funcionamento. O médico fica passado quando lhe falo disso…».
Ou o caso de uma "assistente voluntária" que dá apoio num lar de idosos: «Depois, dei-me conta que, ao contrário daqueles idosos a quem lhes é permitido ir a casa passar os seus últimos dias de vida, morrer neste lar é muito complicado. Frequentemente, o médico transfere-os para o hospital. Dou um exemplo: uma idosa com mais de noventa anos que estava às portas da morte a quem devolveram a vida no hospital à custa de suporte médico para que vivesse mais quatro semanas. Será que não a poderiam ter deixado em sossego a fim de morrer em paz? Outra idosa de igual idade jaz na cama: não consegue falar, expressar-se de que maneira for nem alegrar-se. Ninguém da família aparece para a visitar. Entretanto teve uma pneumonia e foi levada ao hospital. Desde então, apenas lhe administram uma infusão através de uma sonda naso-gástrica».
É de uso frequente que se use, hoje em dia, a sonda asséptica de alimentação gástrica, a qual, na Alemanha no ano de 2007, se aplicou a cerca de quarenta mil doentes, mais de metade deles sem o seu consentimento prévio. Para os doentes que têm condições de recuperação, mediante reabilitação, esta sonda representa uma ajuda extraordinária, mas para moribundos pressupõe que em certas circunstâncias não passa de um prolongamento do seu sofrimento e uma demora do morrer. Tampouco a medicina paliativa deve servir para manter os moribundos artificialmente com alguma vida ao longo de semanas, meses ou inclusivamente anos. Esta circunstância – manter vivos anos seguidos – poderá ser extrema, mas acontece.

(…)

Um sim fundamentado sobre uma vida eterna
À pergunta por «uma vida boa» corresponde também a pergunta por «uma morte boa». A esta grande e "última questão" de entre as «grandes questões», ao ser humano é-lhe exigido mais do que nunca um acto de confiança racional, o qual, obviamente, ele é livre de recusar. Uma confiança que, curiosamente, está profundamente enraizada na história da humanidade. Se é verdade que não morremos «como animais», vale a pena lembrar as respostas reveladoras — apesar de tudo, muito diversas — que as religiões deram desde a Idade da Pedra, sobretudo, à pergunta: uma única vida ou várias vidas?
O filósofo e pastor de almas Wilhem Schmid (também em Berlin) abeira-se, com todas as cautelas, de uma resposta: «Como transição para uma outra vida, a morte poderia parecer bela e ser digna de receber um «sim». É provável que ela não seja mais do que a transição de um estado de vigília para o sono. Mesmo em vida nem sempre é fácil encomendar-nos a esse outro estado. Só quando um profundo cansaço se apodera de nós é que tudo se passa por si só. Da mesma maneira haveria que confiar que nem toda a vida acaba com a morte, mas que apenas a vida vivida como tal é recuperada no sono do ser para outra vida. Assim como o sono pode ser curativo / reparativo, o "sono do ser" poderá curar as feridas pendentes da vida antes que ela comece de novo de uma maneira nova. Os assuntos pendentes da vida antiga poderiam ser confiados, agora, a uma outra vida possível para serem vividos, agora em alegre serenidade, deste lado da fronteira virada para o aberto. Poder apostar na possibilidade de uma outra vida nova alivia-nos, a nós que nos consideramos adultos, do stress vital de termos que exigir tudo de uma só vez à pressuposta «vida única». E se, apesar de todos os pesares, tudo fosse realmente de outra forma? Então, esta vida única terá sido, no mínimo, uma vida bela» ("Sosiego. A arte de envejecer", Kairós, Barcelona, 2014).
Nas minhas aulas magisteriais sobre «Vida Eterna», em 1981, expus com simpatia os argumentos para uma reencarnação nesta Terra, mas terminei por os rejeitar por não me serem suficientemente convincentes. Ao mesmo tempo, confesso com agrado que, com os olhos postos na minha própria vida vivida, com todos os seus sofrimentos e dores e apesar de todos os seus êxitos, não sinto a menor vontade de regressar seja lá sob que forma for a esta vida, a qual, apesar de toda a sua felicidade não cessa de, volta-e-meia, ser dolorosa. Igualmente os budistas e os hindus desejam finalmente apear-se do samsara, este ciclo doloroso das reencarnações e «extinguirem-se» num nirvana que, contudo, a maioria dos budistas entende não de uma maneira niilista, mas como realidade e santidade supremas…
Foi por isso que nas minhas três primeiras lições estreitei o «horizonte» da questão acerca da Vida Eterna a fim de expor a mensagem bíblica nas três lições seguintes sob o título «A esperança», nas quais me cingi reiteradamente ao meu livro «Ser cristão» (1974): a fé na ressurreição, que surge no judaísmo, é um fenómeno tardio; o testemunho oriental é mais antigo. Vejo a entrada na vida eterna assim: a compreensão da ressurreição não como a reanimação do meu cadáver enquanto grandeza física, mas como a entrada de toda a minha pessoa temporal na eternidade de Deus. A fé numa vida eterna é, para mim, a consequência da fé no Deus eternamente vivo. Abordo também as questões problemáticas / polémicas do Credo sobre o Jesus que desce ao reino da morte e ascende ao céu, estando bem consciente de que, se essas aulas não tivessem sido publicadas em 1982 — dois anos depois da grande confrontação com Roma — mas antes dessa confrontação, algumas das minhas concepções teriam feito com que a Inquisição viesse de novo a terreiro: por exemplo, a ideia acerca da "ressurreição física", melhor dito, a ressurreição por Deus, que há que ser entendida espiritualmente; ou a ideia de «purgatório», que não deve ser interpretada topograficamente de maneira localista, mas de maneira simbólica, etc.
A terceira parte das minhas aulas visava as «consequências» de uma fé numa vida eterna. Nelas submeto à crítica as ideologias que prometem o céu na Terra aos seres humanos. De seguida abordo, quer as teorias físicas, quer as declarações bíblicas acerca do fim do mundo. E assim se encerraram esses temas, tão incrivelmente diversos, sob a epígrafe ¿Vida Eterna?
«Crês realmente na vida depois da morte?» – perguntou-me com muita seriedade, há pouco tempo, uma das minhas irmãs. «Sim», respondi com convicção, mas não porque consiga demonstrar racionalmente a existência dessa vida depois da morte, mas porque conservei essa confiança racional em Deus; e porque deposito confiança no Deus eterno também posso depositar confiança na minha vida eterna. Quanto a isso, creio que tenho boas razões para tal.
Em todos estes anos não mudei de convicção básica, mas confesso que não me facilitaram a vida os modernos telescópios e as gigantescas investigações sobre os universos infinitos, obscuros e vazios do cosmos com seus milhares de milhões de estrelas. Ou será que sim, que facilitaram? Seja como for, eles obrigam o nosso entendimento a indagar as ideias tradicionais sobre céu e inferno e a interpretá-las à luz dos novos conhecimentos das ciências naturais. (…)»

Hans Küng, «Una muerte feliz», Editorial Trotta 2015, Madrid. ISBN 978-84-9879-632-2. Excertos.




5 de abril de 2018

A CRISTOLOGIA DE JON SOBRINO [JULIO LOIS]



Nos três últimos dias de Outubro realizaram-se umas jornadas organizadas pelo Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral (IDTP), de Bilbao, subordinadas ao título «Questões actuais de cristologia», cujo objectivo principal era apresentar três esquemas cristológicos. No dia 29, José Antonio Pagola introduziu-nos no Jesus histórico. No dia 30, Jesús Martinez Gordo e Dom Ricardo Blázquez, bispo de Bilbao, apresentaram o pensamento cristológico do Papa Bento XVI.


Jon Sobrino sj


Por fim, no dia 31 de Outubro, Julio Lois, cuja conferência publicamos agora, ofereceu-nos as chaves da cristologia de Jon Sobrino, temática sobre a qual versam algumas das obras mais importantes do teólogo, e numerosos artigos seus.

Descobrimos a cristologia de Jon Sobrino como uma excelente expressão do legítimo pluralismo quanto à interpretação do "acontecimento–Jesus" e reconhecemos a sua importância e o seu significado para o momento histórico presente. Julio Lois termina a apresentação convidando-nos a fazer nossa a preocupação evangélica para com as vítimas expressa em toda a obra do autor estudado.

Ainda que Lois faça referência à "Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé",[1] a sua pretensão é, sobretudo, apresentar, perante não especialistas, os principais elementos da construção teológica do teólogo de Bilbao.


Javier Oñate Landa
Director do IDTP







[1] «Notificação sobre as obras de Jon Sobrino», CDF (presidente: card. Joseph Ratzinger):
«Nota Explicativa» (J. Ratzinger):
«Uma cristologia que incomoda», pelo teólogo das religiões na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG, Brasil), Faustino Teixeira:



14 de abril de 2017

VIA-SACRA DA RESSURREIÇÃO [L. BOFF]

 
Ana Bateira @2002


O PARADIGMA PASCAL


«A história de Jesus serve de paradigma para a história universal na sua caminhada para o reino eterno. Essa história não caminha rectilineamente para um fim bom. Ela avança por crises e enfrentamentos. O Reino do não-homem organiza-se segundo a recusa e a oposição ao Reino de Deus. A justiça de Deus abre caminho por entre os muros da repressão. A libertação faz-se superando, com enormes custos, as opressões. Em tudo isso, ocorrem conflitos, dilacerações, sacrifícios sem conta e martírios. O sofrimento assumido na luta contra o sofrimento, que procura a sua superação, é digno e dignificante.

«A História, na linha do mistério pascal, urde-se através da luta de Cristo contra o Anti-Cristo. O final feliz e o nascimento do novo céu e da nova terra passam pelas dores do parto cósmico, pelo qual a criação inteira, finalmente, será acrisolada. Esta consideração liberta-nos de qualquer tipo de evolucionismo ingénuo. Tudo leva a crer que, na seara da História, joio e trigo crescerão sempre juntos até ao embate final (Mt 13, 30), altura em que se dará a síntese definitiva. Então, a ressurreição triunfará para sempre sobre a morte e haverá o reino da paz e da liberdade dos filhos de Deus.

«Cada existência humana é estruturada pelo dinamismo pascal: tudo tem um preço a pagar. A vida nunca surge acabada, pronta, dada. A vida é uma tarefa a ser realizada dia a dia. Os obstáculos têm de ser superados, os desejos são frustrados, cada um tem de aprender a renunciar e a aceitar, abrindo caminho para ascensões humanizadoras. Muitas vezes verificamos que há dimensões do mundo e do nosso próprio coração que somente se revelam, e nos enriquecem, quando o sofrimento nos penetra como uma faca e quando as crises nos libertam de muita ganga acumulada.

«As crises pertencem à estrutura da vida em crescimento contínuo. As crises significam oportunidade de penetração em horizontes novos: um arranjo existencial que havíamos penosamente construído começa a desvanecer-se e deixa de conferir sentido às experiências novas que nos sobrevêm; as estrelas norteadoras da nossa caminhada obnubilam-se; começamos a entrar em crise; sentimo-nos ameaçados e desorientados; um sofrimento secreto – amargura, desesperança – começa a macerar o nosso coração.

«Porém, a crise oferece-nos uma oportunidade única de acrisolamento da vida: ficamos apenas com o que realmente conta, o cerne, as intuições fundamentais. A decisão abre um espaço novo e cria uma síntese vital capaz de animar a existência. A crise foi uma experiência de paixão, morte e ressurreição.

«Toda a trajectória humana vem marcada por esta estrutura pascal.

«Em todo o processo de libertação fazemos a mesma experiência pascal.

«Como diziam os antigos cristãos: "mais vale a glória de uma morte violenta que o gozo de uma liberdade maldita".» (Cont.)


Leonardo Boff, ofm
«Via-sacra da ressurreição – a paixão, a morte e a ressurreição na vida de cada pessoa», VOZES 1983.







6 de abril de 2017

RESSURREIÇÃO [MANUEL FRAIJÓ]





RESSURREIÇÃO



1.   Dificuldade de linguagem

Karl Rahner costumava dizer que só recorrendo a uma «linguagem paradoxal» é que podemos evocar a ressurreição, porque a mensagem cristã sobre a ressurreição supera qualquer tipo de analogia possível face aos referentes já conhecidos. As nossas disponibilidades linguísticas para evocar a promessa cristã da ressurreição são muito limitadas. A expressão «ressurreição dos mortos» é um enorme desafio linguístico. Para grandes teólogos do nosso século «ressurreição dos mortos» e «Deus» são equivalentes. É o caso de Karl Barth [Suíça, 1886-1968] e Rudolf Karl Bultmann [Alemanha, 1884-1976]. Talvez tenham razão. Já no AT é outorgado a Deus o atributo de «ressuscitador de mortos».

Evocar o tema da ressurreição é, portanto, tão difícil como falar de Deus. Só os poetas conseguem realizar, com alguma seriedade, essa tarefa. Só isso pode explicar que o AT e o NT evoquem o tema socorrendo-se de metáforas, parábolas, símbolos e imagens literárias variadas. O II Livro dos Macabeus insere o tema da ressurreição num contexto de martírio e de sofrimento. Os sete irmãos torturados anunciam ao tirano que, para ele, não haverá ressurreição, vida eterna. Para se evocar a ressurreição, foi necessário contar com um episódio doloroso.[1]

Esta é a mesma linha que os autores do NT irão seguir. Também eles darão força à teologia narrativa: contam a história de Lázaro, do filho da viúva de Naim, da filha de Jairo.[2] A própria ressurreição de Jesus chega até nós através de um desenvolvimento narrativo de grande alcance: narra-se a peregrinação das mulheres ao sepulcro, referem-se relatos ingénuos sobre a vigilância militar do túmulo, fala-se de túmulo vazio e de aparições do Ressuscitado. O próprio Paulo, que foi acusado de tudo e mais alguma coisa menos de falta de capacidade teórica, serve-se, no seu magistral capítulo 15 de 1Coríntios, de todo o tipo de metáforas, símbolos e hinos para tornar inteligível a ressurreição.

A ressurreição, quer a de Jesus, quer a do resto da humanidade, é o tema humano limite, é o nosso último atrevimento diante da campa dos nossos entes queridos, é a nossa maneira de lhes dizer que continuamos a querer-lhes muito. Diante das pretensões da apologética católica tradicional, importa afirmar que a ressurreição não será jamais um acontecimento demonstrado ou demonstrável. Pelo contrário, pode-se aplicar-lhe a conclusão lapidar de Unamuno: «Aquilo que não é digno de prova, não poderá ser provado ou des-aprovado».

Para falar da ressurreição, a teologia, além de retornar sempre às fontes bíblicas, deve dar uma olhadela à história da cultura, da arte e da filosofia. O teólogo estará, assim, diante de um acúmulo de dados que testemunham uma inquietação e um apego, quase desesperado, a um "plus" para além das fronteiras da morte. Não se deve renunciar a nenhuma forma de linguagem. A linguagem sobre a ressurreição só se torna indigna quando se torna segura. Um discurso sobre este tema que não contenha o máximo de vacilação seria, paradoxalmente, pouco convincente.[3]

Os escritores bíblicos privilegiarão sempre uma metáfora: a do despertar do sono. Assim como os que estão dormindo despertam para a consciência, assim os mortos despertarão para uma nova vida. O interesse dos estudiosos do NT por esta e outras metáforas mostra-nos que resistem a declarar a ressurreição como completamente inefável. Os seus esforços por ultrapassar os limites da linguagem e conquistar um nome para o inominável ganham toda a nossa simpatia.

2.   O substrato antropológico

No Ocidente existe uma tradição antropológica segundo a qual a ressurreição satisfaz uma das exigências fundamentais do ser humano. É a «melancolia da plenitude» de que fala Ernst Bloch. Os seres humanos — afirma essa antropologia — vão muito para além do pobre limite das possíveis realizações intra-históricas. Por outras palavras: superam sempre os limites da finitude e esperam uma plenitude mesmo depois da morte. Este é um dado empírico adquirido: o ser humano não encontra a sua autorrealização dentro da frágil contingência na qual se desenrola a sua vida. O pano de fundo da morte ensombra o mínimo sinal de felicidade. «A morte — escreve W. Pannenberg — questiona radicalmente qualquer indício de sentido na vida individual». Exactamente porque a morte é muda e cruel, o ser humano resiste a outorgar-lhe honras de última instância. O ser humano lança-se assim à aventura de conceber uma outra vida, um além da morte.

Esta foi uma missão da filosofia: o ter-se convertido, durante séculos, em aliada da teologia. A própria filosofia também nunca se resignou perante as realidades insuperáveis. Defendeu que o mais importante para ser humano – a alma – não morreria. Platão ofereceu-nos as provas dessa imortalidade. A mais importante delas é a que se refere ao carácter eterno das ideias. Se as ideias que a alma capta são eternas, também ela o será. Há uma semelhança prévia entre a alma e as ideias.

De facto, a ideia da imortalidade da alma pôs de parte, durante séculos, a esperança da ressurreição dos mortos proclamada pelo cristianismo. Trata-se de um deslocamento difícil de entender. A separação entre corpo e alma — subjacente à filosofia platónica — é oposta à antropologia bíblica. Segundo esta, o ser humano é, antes de tudo, unidade. A ideia de uma alma que, separada do corpo, continua a viver noutras esferas é alheia à antropologia bíblica.

Existe, pois, uma "antropologia dos inquietos" (chamemo-la assim), que encaixa bem com o anúncio da ressurreição. Para ela, a ressurreição também é um postulado, uma exigência. Em sua defesa estão homens como M. Scheler, A. Gehlen, M. Buber, K. Rahner e muitos outros. Todos eles desejam radicalmente que não se interrompa para sempre a vida. Mas a todos deveria ser lembrado, como escreve Javier Muguerza, que o desejo é «algo que os poetas sabem bem ser susceptível de entrar em conflito com a ꞋrealidadeꞋ e, portanto, poder ficar insatisfeito».

Mas nem todos os impulsos do pensamento antropológico actual entoam o mesmo cantus firmus. Nem tudo são inquietações no seguimento de Pascal, Kirkegaard ou Unamuno. Professa-se, também, a renúncia ao desejo de um «além». Entre nós, espanhóis, Tierno Galván exprimiu-o com toda a clareza desejável: «Eu vivo perfeitamente bem na finitude, e não preciso de mais». Seguindo a mesma direcção, o filósofo utilitarista J. Stuart Mill decide, tal como o seu admirado mestre, procurar «unicamente o que é possível alcançar». Neste sentido, escreve: «Vejo-me inclinado a pensar que, conforme a condição da humanidade vai melhorando e os homens são cada vez mais felizes com as suas ideias e mais capazes de encontrar uma felicidade não fundamentada no egoísmo, irão preocupar-se menos com as promessas de uma vida futura». E acrescenta: «Precisamente, os que nunca foram felizes são os que têm este desejo. Aqueles que possuíram a felicidade podem suportar a ideia de deixar de existir; mas para quem nunca viveu deve ser duro morrer.»

J. Stuart Mill parece estar de acordo com Rilke: «Cada coisa no seu tempo. Exactamente no seu tempo e nada mais. E também, nós em nosso tempo. E nunca mais.» Se alguém tenta ir além, pensa J. Stuart Mill, é porque não é uma «alma generosa», porque está «apegado ao seu próprio eu», é porque é incapaz «de se identificar com nenhuma outra coisa que sobreviva a ele ou é incapaz de sentir que a sua vida se prolonga nas jovens gerações e em todos aqueles que ajudam a continuar o movimento progressivo dos assuntos humanos…».

Mais: nem sequer a teologia se viu livre deste tipo de debates. A teóloga protestante Dorothee Sölle [Alemanha, 1929-2003][4], comprometida com todas as causas nobres, qualifica de «ateia» a pergunta por um «além». Eis as suas palavras: «A pergunta sobre se tudo termina com a morte é uma pergunta ateia. Em que consiste esse «tudo» para ti? Tu não podes descrever a tua própria morte com a fórmula «então tudo se acabou» na medida em que é precisamente essencial à definição do cristão que ele não é tudo para si. Não se acaba tudo: tudo continua. Continuam as minhas esperanças, os projectos em comum que eu pus em marcha, as coisas que comecei e não tive tempo de terminar. É verdade que eu já não comerei, mas continuar-se-á cozinhando e comendo pão e, embora eu já não beba, continuar-se-á vertendo o vinho da fraternidade. Eu já não respirarei como pessoa individual, como mulher do século XX, mas o ar continuará existindo aí para todos».

Sölle não se preocupa com a sua própria sobrevivência pessoal. Contenta-se com que os outros continuem vivendo, com que não se interrompa essa corrente de fraternidade e beleza que ela descobre na criação. É um acreditar em Deus em troca de nada. Sölle é a representante de uma generosa renúncia à ressurreição. Ela não tem a sede de durar que angustiava o nosso Unamuno. Não lhe importa que o seu eu desapareça. E não está sozinha dentro do espectro protestante dos nossos dias. Não se pode negar grandeza humana e religiosa a essa postura. Inclusivamente, pode-se encontrá-la também num ou noutro teólogo católico, hoje. «Não é evidente — escreve J. M. Pohier — que o melhor modo que Deus tem de me conservar na sua memória seja fazer-me sobreviver». O importante é permanecer na memória de Deus. Para isso não é necessário que Deus nos dê outra vida.

A finalidade deste capítulo é oferecer uma amostra do quanto é inútil que se dogmatize a propósito do ser humano. Enquanto alguns humanos desejam, com enorme vigor existencial, viver sempre, outros encantam-se serenamente com um final definitivo. Isto sem contar, claro, com os que considerariam uma diversão macabra todos os discursos sobre a outra vida. Bastou-lhes esta. São homens que conheceram o cansaço de existir e não desejam mais futuro, senão a libertação do presente.

De facto, alguns textos de Paulo apontam para uma ressurreição restrita: apenas os que se salvarão é que se levantarão do pó da terra; a condenação dos condenados consistirá em que não ressuscitarão. A ressurreição deveria, portanto, identificar-se com a salvação. Não haveria, pois, uma ressurreição «neutra» (W. Pannenberg) subordinada ao juízo final. Se assim fosse, a ressurreição ficaria desvalorizada e perderia o seu carácter salvífico. Semelhante forma de ver as coisas parece mais plausível, e mais cristã, do que o discurso habitual sobre o inferno. A ressurreição como antessala do inferno é — seja-me permitida a expressão — uma triste piada, um presente envenenado. Seja como for, biblicamente a ressurreição identifica-se com a salvação.

Apercebemo-nos então que, o assunto que estamos a abordar, é de facto complexo. Está, portanto, na hora de irmos às fontes, que irão ajudar a nos esclarecer. [CONTINUA]



Manuel Fraijó
«Resurreción», in Nuevo Diccionario de Teología, (dir. Juan José Tamayo), Editorial Trotta 2005.









[1] Cf. Rubén Dri, «Devolver Jesus ao povo 5/5», nomeadamente o Ponto 2 «O triunfo da vida», no blog "A SALA DE CIMA", 19-01-2017 [NdT]: «Mas, antes, é necessário que analisemos quando é que surge esse assunto, em que circunstância surge e que significa ele. Prescindindo de certas aproximações anteriores, tal como as que se podem encontrar em Ezequiel e em Job, é sem dúvida alguma no livro de Daniel – do século II aec – onde encontraremos pela primeira vez, de forma muito clara, anunciada a mensagem da ressurreição».
[2] Rubén Dri diz que estes casos narrados «não são ressurreições mas ressuscitações» («Devolver Jesus ao povo 5/5», no subcapítulo: "Porém, que quer dizer ressurreição?", em A SALA DE CIMA, 19-01-2017:
[3] Rubén Dri diz: «onde há prova não há fé» (in «Devolver Jesus ao povo 5/5»), no subcapítulo «3.4 Âmbito da compreensão». Blog «A SALA DE CIMA», 19-01-2017 [NdT]:
[4] Biografia e bibliografia a recordar… [NdT]



28 de março de 2017

A RESSURREIÇÃO DA CARNE E A VIDA ETERNA [PETER L. BERGER]


  
«… a ressurreição da carne e a vida eterna»


A pergunta mais séria que os seres humanos podem fazer a si mesmos é se a morte é a última palavra, quer para a vida do indivíduo, quer para a colectividade humana. Sabemos de forma absoluta que todos nós e todos aqueles com quem nos preocupamos morreremos. A partir daquilo que a ciência nos diz, podemos estar razoavelmente seguros que até a própria terra morrerá em algum momento do futuro, sob a forma de gelo ou fogo. A ciência sugere ainda que o universo inteiro está submetido à lei da entropia, o que quer dizer que até ele de alguma forma se encaminha para algum tipo de morte cósmica. Para já, fiquemo-nos por uns instantes com o conhecimento mais certo que temos acerca da morte: a certeza de que todos os seres humanos terão de morrer.

Nalgumas páginas atrás, afirmei que a morte é inaceitável. Rejeitemos firmemente a ideia de que esta afirmação seja egoísta. É claro que eu não desejo morrer, mas exercitando-me na ginástica estóica, eu até poderei assumir a perspectiva da minha própria morte com uma certa dose de equanimidade. Mas aquilo que eu me recuso a aceitar é a morte do filho do meu vizinho, e isso não tem nada de «egoísta». A morte não é «natural», a não ser naquele mais que banal sentido de ela estar inserida na nossa constituição biológica. A morte é um ultraje. E é um ultraje que a fé desta criança na bondade do mundo seja traída, que o sorriso desta criança, que por vezes ilumina o céu, acabe em sofrimento e chegue a desaparecer da face da realidade. Nego-me a aceitar, recuso-me em consentir neste ultraje. Mais: a minha recusa é para mim o mais ácido critério para julgar qualquer mensagem religiosa: a minha postura negativa pode ou não ser aprovada? Possuo alguma palavra de consolo para este meu vizinho completamente esmagado?

Nas linhas de abertura deste livro declarei que a fé religiosa, em última instância, diz que a realidade, segundo os parâmetros humanos, tem um sentido. E acrescentei que, esteja ou não esteja certa essa afirmação, que se tratava, contudo, de uma afirmação «interessante». Desfiarei, de seguida, quatro enunciados sobre religião que, contudo, não são «interessantes». Ou, por outras palavras, se estes quatro enunciados descrevem com rigor o que é a religião, então esqueçamos a religião.

§ Supõe-se que a religião, bem como a ética atribuída a Jesus são necessárias como base da moralidade. Mas a religião não é necessária para a moralidade e os ensinamentos éticos de Jesus (na medida em que seja possível distingui-los daquilo que o judaísmo do seu tempo já ensinava) não podem servir de guia prático, quer para a vida individual, quer para a vida social. Não, obrigado.

§ A religião proporciona poderosos símbolos exigidos pela existência humana. Sim, isso é verdade, mas também existem outras fontes para esses símbolos. Não, obrigado.

§ A religião exige submissão à vontade de Deus, independentemente do significado que possa ter a morte do filho do meu vizinho. Sim, a religião implica submissão à vontade de Deus, mas apenas com a condição de que não se entenda esse Deus nem como autor nem como um passivo supervisor da morte dessa criança. Dito de outro modo: eu submeto-me a um Deus que não queira a morte desta criança. Qualquer outro tipo de submissão religiosa nega implicitamente a bondade de Deus e a bondade da criação. Não, obrigado.

§ A religião poderá tentar consolar-nos dizendo que seremos todos nós, incluindo esta criança, absorvidos por uma espécie de oceano cósmico da divindade. Não me interessam consolos. A única coisa que me interessa é esta criança — única, insubstituível, infinitamente preciosa. Absorvê-la numa realidade última na qual se perca toda a individualidade não é senão uma outra versão da morte. Não, obrigado.

Diante de todas as propostas religiosas totalmente «carentes de interesse», a fé cristã afirma o valor único e o destino eterno desta criança, de todas as crianças e da humanidade inteira. Esta afirmação está contida, com a mais sólida densidade e concisão alguma vez imaginável, na exclamação: «Cristo ressuscitou!» Eis a razão que faz da ressurreição o fundamento, o início da fé cristã e faz com que ela se mantenha e continue a sê-lo assim, caso queiramos manter a possibilidade desta fé nos nossos dias. Com toda a razão pode Paulo afirmar: «Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé.» (1 Cor 15, 13-14). Se é vã, nesse caso, Paulo – melhor, Saulo – volta para Tarso, dedica-te tranquilamente ao teu ofício de fabricante de tendas e cultiva o teu jardim de rosas.

Kant sugeria que uma das questões básicas da filosofia consistia em «que podemos esperar?». Não sei se o é na filosofia, mas na religião esta é a pergunta basilar. Podemos glosá-la em duas perguntas.


Que esperança resta ao indivíduo após a morte? Que esperança há para o cosmos para lá da entropia?

No seu (muito interessante) livro «Life after Death?», Jay Robinson usa as expressões «escatologia individual» e «escatologia cósmica» para se referir, respectivamente, a estas duas questões. Abordá-las-emos de seguida, separadamente. [CONTINUA]



Peter L. Berger (Viena 1929-2017), sociólogo e teólogo de reconhecido prestígio, director do «Institut on Religion and World Affairs», Boston.
«Cuestiones sobre la fe – una afirmación escéptica del cristianismo», Herder Barcelona, 2006.










19 de janeiro de 2017

DEVOLVER JESUS AO POVO 5/5





(…) 3.4 Âmbito da compreensão

Tal como já vimos, a ressurreição não é um facto histórico, ou seja, algo que se possa constatar usando uma metodologia. As «aparições» não são provas, no sentido científico ou histórico, mas maneiras de mostrar como é o corpo ressuscitado. As aparições pertencem ao género literário «epifania», manifestação da divindade[1], que apenas tem valor para quem a experimenta e para todos aqueles que a ela aderem.

Isso não significa de nenhuma maneira que a ressurreição pertence intrinsecamente ao âmbito do irracional. Quando alguém diz isso é sinal que sustenta um conceito estreito e unilateral de racionalidade herdado da Ilustração.[2] Para entender o significado da ressurreição é preciso, antes de mais, delimitar o âmbito da sua compreensão. Mais correctamente deve dizer-se «os âmbitos da sua compreensão», já que ela pode ser encarada a partir de vários ângulos.

Pode ser encarada a partir do âmbito das ciências sociais e históricas. Nesse caso, o que pode ser observado são os efeitos que a crença na ressurreição produz em determinados grupos humanos, e, para aquilo que nos interessa, os efeitos que produz no movimento de Jesus: os discípulos experimentam uma transformação radical, adquirem um dinamismo criativo inacreditável. Porém, as ciências sociais não descobrem nenhuma ressurreição como facto, como realidade fáctica, apenas se dão conta de uma crença nela.

Outro âmbito é o dos projectos revolucionários transformadores da realidade. Os sujeitos empenhados nesses projectos lêem a sua própria história colectiva como um sujeito que continuamente se recria. Dentro do processo dessa recriação, aqueles que os precederam e morreram não estão mortos, mas permanecem vivos na sua memória. Mas não se trata de um mero lembrar factos, coisas, acontecimentos, personagens que já estão fora de jogo, mas um rememorar interno, uma reapropriação do seu próprio passado colectivo, tal como cada pessoa faz do seu próprio passado pessoal. Neste âmbito dá-se uma compreensão sumamente interessante e criativa da ressurreição. Significa isso que aqueles que morreram na realidade não morreram, mas vivem. Vivem nos projectos, nos empreendimentos e nas lutas do presente. Desta maneira, quer Evita, quer Che, quer os 30 mil desaparecidos vivem: ressuscitaram, venceram a morte.

Mas existe um outro âmbito, um outro nível: o da fé. Este nível não nega o anterior, mas incorpora-o e eleva-o a uma dimensão nova. É o que precisamente nos propõem os textos bíblicos.

Chegados aqui é necessário distinguir três momentos distintos: o da propriamente dita, o da esperança e o da caridade ou solidariedade.

O momento da fé significa que a vida do ressuscitado não apenas está presente na memória, como o segundo âmbito refere, mas que acontece uma superação do espaço-tempo. O sujeito realmente existe para lá do espaço e do tempo no qual nos encontramos todos os que vivemos esta vida mortal. Este momento resiste a qualquer tipo de «prova», entendida esta como a exigência colocada pelo primeiro âmbito. Ou seja, onde há «prova» não há fé. A fé está sempre para lá das «provas».[3] No lugar das provas, a fé propõe razões para acreditar: símbolos, narrações, manifestações. Aqui não há lugar para dogma. É frequente que as pessoas confundam fé com dogma. Dogma é um decreto, uma intimação, uma ordem imposta pela autoridade da instituição sobre os seus membros. A fé é uma adesão crítica, uma adesão consciente, uma adesão voluntária e, sobretudo, uma adesão prático-crítica, pratico-consciente. A firmeza da adesão provém de razões subjectivas. Não tem nada de supersticioso ou alienante. Não só não arranca o sujeito da sua pertença à sociedade, como contribui a enraizá-lo ainda mais nela, já que só à insurreição é prometida a ressurreição.

O momento da esperança significa que a ressurreição não é uma constatação que se faz a partir de argumentos científicos, filosóficos ou de autoridade. A esperança é subjectiva, mas não subjectivista. É subjectiva na medida em que, diante das mesmas circunstâncias, uma pessoa pode estar cheia de esperança em mudá-las ou que elas venham a mudar, e outra estar abatida pela desesperança, pelo desânimo. Onde uma pessoa encontra razões válidas para esperar, outro vê precisamente o contrário. A espera não é passiva, mas activa, porque só à insurreição é prometida a ressurreição. A esperança pertence ao âmbito da utopia, a um mais além que sempre nos convoca, que sempre questiona, que sempre "exige mais".

O momento da caridade ou da solidariedade significa que não há ressurreição para o individualista, para o egoísta. A insurreição, à qual está prometida a ressurreição, é a insurreição popular, é a insurreição de um povo que se levanta colectivamente, comunitariamente. É isso que diz o célebre capítulo 25 de Mateus.

Jesus afirma que no Juízo Final – tema apocalíptico por excelência – Deus dirá a quem promete a ressurreição:

«O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ver-me.’» (Mt 25, 34-36)

Ante a pergunta destes bem-aventurados inconscientes de terem feito tal coisa – e seguindo as palavras de Jesus – Deus continua: «‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’» (Mt 25, 40). Só àqueles que dão de comer ao esfomeado, de beber ao sedento, de vestir o nu, ou seja, só aos que são solidários é prometida a ressurreição.

Isto pode dizer-se da seguinte maneira: só no âmbito da fé é que se compreende que a ressurreição seja conferida à esperança aquando da prática da caridade.


3.5 Significado último

O significado último da ressurreição é o triunfo sobre a morte. Trata-se da vida no sentido pleno, tal como verificamos aquando da evolução da apresentação das «aparições», que foram caminhando desde o espiritual até ao material, ao concreto, ao carnal. Não se trata apenas de vida humana, mas da vida toda, do cosmos.

É o que Paulo e o Apocalipse de João, com toda a clareza, exprimem. Diz Paulo:

«Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus. De facto, a criação foi sujeita à destruição - não voluntariamente, mas por disposição daquele que a sujeitou - na esperança de que também ela será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus. Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente.» (Rom 8, 19-22)

A ressurreição é cósmica. É a libertação plena de uma natureza cada vez mais oprimida, «violentamente» submetida, no dizer de Paulo. Muitos séculos após, os pensadores da Escola de Frankfurt vão desenvolver, ampla e profundamente, este submetimento da natureza realizado violentamente pelo ser humano, o qual provoca, por sua vez, uma subjugação do próprio sujeito opressor.

O tema central do Apocalipse é também esse: «Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia.» (Ap 21, 1) A terra, a natureza e a sociedade com todas as suas injustiças, desigualdades, opressões, morreram e ressuscitaram como nova terra, nova sociedade, Reino de Deus, cidade santa na qual «não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor.» (Ao 21, 4). O mar, mãe de tudo o que é bom, mas também de tudo o que é mau e monstruoso, já não existe.

O triunfo pleno da Vida! Isso significa que quando Jesus propunha o Reino de Deus e enfrentava as potências opressoras, tinha razão. A princípio, os membros do seu movimento entraram numa dúvida atroz: se Jesus tinha sido derrotado e condenado da maneira mais infame que se possa imaginar, não era o sinal mais que evidente de que Deus lhe havia virado as costas? Não era sinal de que os seus inimigos eram quem tinha razão e não ele, Jesus?

Deus tinha, de facto, dado razão aos seus inimigos. Essa dúvida atroz fora a mesma que afligira os desterrados na Babilónia, quando, nas festividades do Ano Novo, eles viam desfilar os cálices e outros utensílios sagrados do Templo de Jerusalém atrás do deus Marduk e de outros deuses igualmente submetidos[4]. Diante dessa dúvida atroz, e para vencê-la, os sacerdotes do povo de Israel exilado decidem escrever a "teologia da criação". Servindo-se apenas da sua Palavra, o Deus-Yahvé criou todo o Universo, diante dum Marduk obrigado de agora em diante a lidar com deuses opositores.

A ressurreição de Jesus é a resposta de Deus. Ela significa o triunfo definitivo da Vida e, com isso, deixa claro que a razão está do lado de Jesus e não dos seus inimigos. Por seu turno, esse triunfo da Vida celebra-se já nas comunidades onde todos os bens se repartam e partilham, onde se recriam os gérmens de uma nova sociedade fraterna.






Rubén Dri, «El movimiento anti-imperial de Jesús – Jesús en los conflictos de su tiempo», Editorial BIBLOS, Maio 2005. Professor e Investigador de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.







[1] Sobre esta temática, existem duas obras de Luis Maldonado que merecem ser reflectidas: «Religiosidad popular – nostalgia del magico» (ISBN 84-7057-193-1) e «Genesis del Catolicismo Popular» (ISBN 84-7057-248-2), da Ed. Cristiandad. [NdT]

[2] Elaborei uma crítica do conceito de racionalidade reduzido à racionalidade científico-matemática próprio da Ilustração, e desenvolvi um conceito mais abrangente em Rúben Dri, «Racionalidad, sujeto y poder». Cf. também artigo de R.D.,  «Religión y racionalidad en la Fenomenología del espíritu», in Rubén Dri (editor), «Los caminos de la racionalidad», Editorial BIBLOS, Argentina 2001 [NdT].

[3] Desde há inúmeras décadas que a sociedade mediática burocratizada uniformiza o pensamento, excluindo (para submeter) o diferente. O mesmo fenómeno existiu desde sempre na Humanidade, mas na Era Pós-Moderna atingiu um nível esmagador, absoluto, imperial e, ao mesmo tempo, subtil, ocupando o lugar deixado vago pela religião. Para isso contribuíram as tecnologias de comunicação virtual electrónicas, que se procura que sejam acessíveis até aos mais pobres. A estratégia é muito evidente: em vez de submeter os povos pela violência física, "apanham-nos" pelos sentimentos mais primários, como por exemplo, a insaciabilidade voyeurista do olhar, a atracção irresistível pelos escândalos, a sêde de bodes expiatórios (sede de "vingança" marrando contra pseudo-sacos-de-areia, como desforra pelo excesso de horas de trabalho stressante a troco de baixos salários) e a "fome" (de Sentido para a sua existência) por secretismos. A SOCIEDADE PÓS-MODERNA fabrica escândalos, segredos e teorias da conspiração e, depois, VIVE DE ESCÂNDALOS & ALIMENTA-SE DE SOCIEDADES SECRETAS, enriquecendo aqueles que produzem revistas cor-de-rosa, canais de TV e jornais diários especializados em escândalos, produções cinematográficas ou aqueles que escrevem obras como Dan Brown e José Rodrigues dos Santos. Quanto a este tema, o da Ressurreição de Jesus, há quem esteja a ganhar muito dinheiro à custa desta era digital virtual computacional, espalhando simplificações que, porque escandalizam ou criam suspense e secretismo (p. ex., «Maria Madalena foi para a cama com Jesus?»), aprisionam os apetites na casa da Razão e desviam do objectivo sério que importa aquilo – é o caso deste tema − que exige três coisas: estudo académico, partilha de vida em "grupo comprometido com os pobres" [«Grupos de Jesus»] e lentidão, pausas, silêncio [escuta da Palavra em Comunidade de Fé]. É o caso do seguinte sítio, do qual deixo duas ligações web para confronto com este texto de Rúben Dri. Fazem mais mal que bem aos crentes que sinceramente buscam Jesus. "Sites" como este só atrasam esse encontro com Jesus. [NdT]

[4] Cf. Robert Michaud, Los patriarcas, Verbo Divino, Estella (Navarra) 52000, pp. 122. (R. Michaud, «Les Patriarches – histoire et théologie», Cerf-Lire la Bible/42, p. 135) [NdT]:
«A estátua de Marduk era transportada pela rua principal (manifestação de honra a favor de Marduk), a via sacra. Mas, ao mesmo tempo e como maneira de deixar bem vincada a vergonha e a humilhação de Tiamat e dos deuses dos povos vencidos, as estátuas destes seguiam atrás a encerrar o cortejo. Cristoph Goldman assinala, e com razão, que nesse desfile ficava sempre um lugar vago por ocupar: faltava a estátua de Yahvé, o Deus dos exilados de Jerusalém. Em 587, durante a destruição de Jerusalém e do incêndio do templo, os soldados babilónios não encontraram nenhuma representação de Yahvé, e então levaram uma grande quantidade de utensílios e de objectos destinados ao culto (2Rs 25, 13ss). Não é exagerado pensar que, durante  a procissão em honra de Marduk, alguns sacerdotes babilónios levassem aos ombros ostensivamente os vasos sagrados trazidos de Jerusalém. Que humilhação para os exilados israelitas ali espalhados por entre a multidão de curiosos vindos de todas as partes para admirar o espectáculo daquela procissão! Não era difícil concluir que Yahvé nada era quando comparado com Marduk
Cf. O SAGRADO NA BABILÓNIA ANTIGA: