teologia para leigos

31 de janeiro de 2012

HOMOSSEXUALIDADE E IGREJA CATÓLICA

Xabier Pikaza, entrevistado por Manuel Villas-Boas_TSF_Out 2011_Valadares


Homossexualidade e ministérios cristãos



Introdução

O tema do amor sexual continua a colocar inúmeras dificuldades à igreja católica, quer no plano pessoal, quer no plano social. Trata-se de um género de amor que não é fácil de explorar abertamente na Igreja Católica, não só porque a igreja católica se opõe ao matrimónio dos homossexuais, mas porque lhes nega o acesso aos ministérios. O tema do «matrimónio homossexual» (com ou sem essa denominação: ‘uniões de facto’!), pelo menos no ocidente, parece civilmente arrumado: a sociedade está disposta a reconhecer a união legal dos homossexuais. A igreja católica não deveria opor-se a isso, mas tão-somente deveria pedir a Deus que os assim casados se amem gratuitamente, generosamente, pondo o seu amor ao serviço dos outros, pois é isso que o Evangelho quer.

Mais complicado é o acesso dos homossexuais aos ministérios da igreja. Para tal, esgrimem-se dois tipos de argumentos:

a)    A homossexualidade vai contra o amor cristão;
b)    Os ministros homossexuais correm o risco de cair na pederastia;


Este é um tema que continua a ser discutido nos círculos hierárquicos da Igreja. Neste contexto, podem-se fazer algumas considerações de princípio, relevando que «na casa do Pai há muitas moradas e na subida ao monte do amor há muitos caminhos».

Algumas teses


PrimeiroDentro da Igreja Católica, a homossexualidade, quer masculina, quer feminina, é um facto. Para começar, isso nem é bom, nem mau: pura e simplesmente, existe. A vida os fez assim (a uns, ‘hetero-’ e a outros, ‘homo-sexuais’) e assim devemos aceitá-lo como mais um elemento da nossa complexíssima e formosa existência, facto que pode ser muito positivo caso nos conduza a mais amor (dos homossexuais entre si e deles com o resto da sociedade humana, em ambas direcções). Por isso, é necessário que comecemos dando graças a Deus pelo dom dos homossexuais cristãos (e não cristãos). É uma boa nova o facto de muitos homossexuais poderem apresentar-se como tal, isto é, como pessoas, com os seus valores e problemas, pois seguramente os têm, tal como os têm os outros grupos de homens e mulheres. Se um cristão se envergonha deles ou os volta a meter na gaveta, envergonha-se do próprio Deus criador.

SegundoEntre o clero (e na vida religiosa) a percentagem de homossexuais é mais elevada do que no resto da sociedade, talvez pelo tipo de vida celibatária dos seus membros e também por causa de uma certa forma especial de filantropia e de sensibilidade face à vida que eles revelam. Sobre a igreja espanhola, não há números fiáveis, mas sobre a realidade da igreja norte-americana as estatísticas existem, como consta do livro de D. B. Cozzens, que foi um dos responsáveis pela formação dos presbíteros católicos nos EUA. Dentro da melhor tradição da hierarquia daquela igreja, Cozzens considera normal que, nas circunstâncias actuais, quase metade dos seminaristas e presbíteros católicos dos EUA sejam homossexuais, percentagem muito superior à média da sociedade americana (que se situa entre 10% a 15%). Enquanto o clero mantiver este estilo de vida, manterá uma média mais elevada que o resto da sociedade.

Terceiro – A maior parte dos presbíteros e religiosos homossexuais levaram e continuam a levar uma vida digna, trabalham honestamente a favor dos outros, são bons pastores ao serviço da igreja, são profissionais cuidadosos, ao serviço do evangelho, pelo que o próprio amor homossexual permite assumir a exigência pastoral de Jesus, tal como o indica João 21:15-24. Estes homossexuais não são bons pastores apesar da sua homossexualidade, mas em virtude dela. É evidente que têm seus problemas afectivos, tal como acontece com os heterossexuais, sendo, por vezes, os seus problemas de integração maiores. Porém, os seus contributos afectivo, social e espiritual podem ser, também, maiores. É por isso que a homossexualidade pode ser uma bênção para eles e para o resto da sociedade, numa linha de amor.

Quarto – Uma minoria de ministros homossexuais da igreja tiveram práticas delituosas, seduzindo menores, sobretudo em ambientes onde o contexto social é mais apertado ou asfixiante – seminários, internatos e grupos juvenis. Muitos destes casos podiam ser resolvidos sem o recurso aos tribunais com a ajuda de pessoas mais ou menos peritas e/ou amigas (médicos, sociólogos, etc.). Por vezes, a sedução foi mais intensa ou delituosa, pelo que os responsáveis podem e devem acabar nos tribunais. Se foi o caso, quando existe escândalo real, sejam culpados ou não, os clérigos implicados (presbíteros e bispos, religiosos e religiosas) deveriam abandonar as suas funções públicas, pelo menos por algum tempo, por razões de transparência, já que a vida clerical não é honra, vantagem, mas serviço.

Quinto – A percentagem de clérigos culpados de sedução homo- ou hetero-sexual é considerada «normal» pelas estatísticas. Mas, em muitos casos, essa sedução foi muito perniciosa e muito grave, por se ter realizado sob a capa do prestígio sacerdotal ou religioso dos agressores, motivo pelo que feriram com mais força ainda as suas vítimas. Neste campo, aconteceram e acontecem muitas tragédias, tal como acontece noutros âmbitos de patologia e/ou violência sexuais (violações e tráfico de prostitutas). Esta foi e continua a ser uma ferida aberta para a vida da igreja, já que a sua opção evangélica deveria ter ajudado os clérigos ou aspirantes a ele, tornando-os homens e mulheres da gratuidade. Porém, a vida coloca dificuldades e, em certos ambientes de reclusão afectiva, podem produzir-se reacções violentas. Mas isso não pressupõe que se condene todo o clero no seu conjunto, nem os homossexuais que o compõem.

Sexto – Parece aconselhável que os clérigos homossexuais se mostrem como são, mas nunca ao som de fanfarra e pendão, pois, na vida afectiva, em algumas circunstâncias, a melhor atitude é a discrição bondosa, sem mentiras nem ocultamente, mas também sem alardes propagandísticos, desde que não haja delitos ou injustiças graves. Se é certo que existe alguma responsabilidade dos meios de comunicação social quando pegam nestes temas, a verdade é que a responsabilidade da estrutura clerical é bem maior. Como pessoa pública na igreja, o clérigo tem que estar preparado para que a sua vida seja pública e se conheça. Se uma instituição religiosa, que deveria ser exemplo de gratuidade, se empenha em defender-se para lá do razoável protegendo os seus segredos e o seu poder, isso é digno de condenação e de ser dissolvida (ou de ser abandonada pelos seus fiéis) sem quaisquer delongas, para bem do evangelho e, sobretudo, da sociedade em geral.

Para uma reflexão posterior


Primeiro − Um juízo problemático por parte da Congregação para a Educação Cristã. Como se vinha dizendo, os ministros podem ser homo- e hetero-sexuais (e, evidentemente, casados ou solteiros), sempre que sejam capazes de amor, comportando-se não apenas como pessoas efectivamente maduras, mas também como amigos, em linha com João 21:15-17; só quem ama Jesus, isto é, só quem se deixou transformar pelo amor do evangelho, pode servir, em amor, aos demais. Jesus não procurou um certo tipo de amor, mas apenas amor. Em si mesmo, o amor nem é hetero- nem homo-sexual, mas dom gozoso de vida, de modo que, nesta matéria, o que importa não é a coloração mas a intensidade do amor. Pelo que o Juízo da Congregação para a Educação Católica pode ser problemático e até precipitado (para além de ineficaz e até injusto).

Segundo – O número 2 da Instrução diz: «2. A homossexualidade e o ministério ordenado. Desde o Concílio Vaticano II até hoje, diversos documentos do Magistério, e especialmente o Catecismo da Igreja Católica, confirmaram o ensinamento da Igreja sobre a homossexualidade. O Catecismo distingue entre os actos homossexuais e as tendências homossexuais.

«Quanto aos actos, ensina que, na Sagrada Escritura, esses são apresentados como pecados graves. A Tradição considerou-os constantemente como intrinsecamente imorais e contrários à lei natural. Por conseguinte, não podem ser aprovados em caso algum.

«No que respeita às tendências homossexuais profundamente radicadas, que um certo número de homens e mulheres apresenta, também elas são objectivamente desordenadas e constituem frequentemente, mesmo para tais pessoas, uma provação. Estas devem ser acolhidas com respeito e delicadeza; evitar-se-á, em relação a elas, qualquer marca de discriminação injusta. Essas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que possam encontrar.

«À luz de tal ensinamento, este Dicastério, de acordo com a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, considera necessário afirmar claramente que a Igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao Seminário e às Ordens sacras aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apoiam a chamada cultura gay.

«Estas pessoas encontram-se, de facto, numa situação que obstaculiza gravemente um correcto relacionamento com homens e mulheres. De modo algum, se há-de ignorar as consequências negativas que podem derivar da Ordenação de pessoas com tendências homossexuais profundamente arraigadas.

«Diversamente, no caso de se tratar de tendências homossexuais que sejam apenas expressão de um problema transitório como, por exemplo, o de uma adolescência ainda não completa, elas devem ser claramente superadas, pelo menos três anos antes da Ordenação diaconal

Terceiro – Um caminho aberto. Este juízo parece ineficaz e injusto, não só porque vai contra a realidade (que se há-de fazer de milhares de presbíteros e bispos homossexuais ainda em exercício?), mas também porque condena um tipo de tendência afectiva. A questão não está na existência de presbíteros homossexuais na igreja, mas na sua maturidade pessoal, na sua capacidade de amor e de serviço evangélico. A questão não é que existam homossexuais no clero (facto normal e claro, segundo as estatísticas), mas que saibam amar e o façam de modo cristão.

Como conclusão, podemos, pelo menos no ocidente, dizer que parece estar a acabar a fase clerical. O celibato dos presbíteros, o qual em outros tempos cumpriu uma função social, parece tê-la, pelo menos em parte, perdido. Importante não é que o presbítero seja celibatário ou casado, homo- ou hetero-sexual, mas que seja fiel ao amor e à vida, que seja pessoa da alegria e do evangelho, com fundura pessoal e de serviço de proximidade, livre para os outros.

Nesta nova etapa da igreja, o celibato será opcional para aqueles que o queiram viver como carisma ou como meta de chegada de caminhos peculiares, ficando ele reservado, de um modo especial, para comunidades religiosas de tipo carismático. Vincular o celibato a um tipo de poder clerical parece contrário ao evangelho, por mais que continuem aduzindo razões de tipo ideológico ou espiritualista.

Isto significa que o problema não fica fechado, mas, pelo contrário, aberto. É agora, a partir desta nova perspectiva, que se pode e deve colocar o tema dos ministérios cristãos, partindo do evangelho, precisamente neste momento da vida cristã e da vida da sociedade.

Xabier Pikaza Ibarrondo, blog
11 Janeiro 2010

Ler mais:

«Diccionario de la Biblia – Historia y Palabra»
Xabier Pikaza, Editorial Verbo Divino, 2007, Estella (Navarra) [nota ‘HOMOSEXUALIDAD’, pág 450ss, resumida no link em baixo] 

http://2006.atrio.org/?p=36

«O Desejo e a Ternura»
Erich Fuchs
Ed. Círculo de Leitores, col. NOVA CONSCIÊNCIA, 1994.[tradz. de «Le désir et la tendresse», Labor et  Fides, 1979]


«Cristianos gays»
http://www.cristianosgays.com/



«Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca de pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras» - Vaticano, 4 Nov. 2005
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccatheduc/documents/rc_con_ccatheduc_doc_20051104_istruzione_po.html

24 de janeiro de 2012

O CAMINHO DO SUCESSO: A ECONOMIA, A POLÍTICA E A RELIGIÃO


Frei Bento, op


Corrupção teológica


As leis da economia, da finança e da gestão foram divinizadas ao serviço de um deus cada vez mais oculto.

1. Este título é estranho, mas tem um contexto: a minha participação numa "mesa-redonda", sob o título: «O Ministério Público e o combate à corrupção, na perspectiva da sociedade civil». Este contexto torna o título ainda mais estranho, pois não vivemos numa sociedade sacral. São, aliás, as próprias referências cristãs que impõem a dessacralização do poder económico e político, assim como a utilização da religião para o justificar. Por isso mesmo, julgo interessante seguir o caminho que levou à própria denúncia da corrupção teológica - "uma operação diabólica" - que dava cobertura à corrupção económica e política. Segundo as narrativas do Evangelho, mal Jesus acabou de reorientar a sua vida e de abandonar o caminho de João Baptista, foi assaltado por tentações que procuravam separá-lo da sua missão de intervir no mundo a partir dos excluídos e humilhados. Os Evangelhos sinópticos comprazem-se em encenar três formas simbólicas de corrupção, tão simbólicas que foram, são e continuarão omnipresentes: a económica, a política e a religiosa. Mostram que este quadro é fundamental para especificar a missão de Jesus, a alteração que Ele procurou imprimir às concepções messiânicas do seu tempo e que continuam a interrogar-nos. As três tentações são, todas elas, populistas. Se Jesus queria ter sucesso, era obrigado a resolver, ainda que de forma miraculosa, a questão económica: "Converter pedras em pão." A seguir, teria de mostrar que tinha força para vencer a humilhação do seu povo: em vez de um país ocupado, Jesus deveria apresentar-se com um desígnio dominador de outros povos, fazendo uma aliança com o diabo, senhor do mundo. Finalmente, só com uma religião, feita espectáculo, seria possível realizar o programa económico e político. Este diabo é um perito em corrupção teológica. Deus é reduzido a um agente económico, dominador dos povos e um milagreiro de pacotilha. O diabo é quem distribui o jogo do céu e da terra.

2. As evocadas narrativas dos evangelhos mostram que, se Jesus resistiu às seduções do dinheiro, do poder e da religião exibicionista, o mesmo não aconteceu com os seus discípulos. A raiz da sua incompreensão do caminho de Jesus é, particularmente, sublinhada em S. Marcos (caps. 4 a 10). Eles procuram o caminho do sucesso, do poder, da dominação. Desenvolve-se, entre eles, uma tal rivalidade que os divide em grupos de pressão. É dito, expressamente, que a discussão entre eles versava sobre esta questão muito simples: quando Jesus conseguisse o poder, «qual deles seria o maior? Tiago e João, filhos de Zebedeu, adiantaram-se: “Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir.” Ele perguntou: “Que quereis que vos conceda?” Disseram: “Que nos concedas, na tua glória, sentar um à tua direita e o outro à tua esquerda (...).” Ouvindo isto, os dez começaram a indignar-se contra Tiago e João. Chamando-os, Jesus disse-lhes: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande seja o vosso servidor e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”» Poderíamos, agora, fazer um mapa de todas as situações e intervenções de Jesus em relação ao poder económico, político e religioso. Não se trata de uma maldição, mas de um combate, multifacetado, a essa idolatria que transforma os seres humanos em escravos daquilo que os deveria servir. Numa sociedade laica, este discurso pode parecer completamente desajustado. Só na aparência. Deus e a religião não são chamados ao caso, mas as leis da economia, da finança e da gestão foram divinizadas ao serviço de um deus cada vez mais oculto. São milhares e milhares os seus sacerdotes formados nos santuários das ciências da economia, da finança e da gestão, que o servem e pregam reverência aos ignorantes, aos que não frequentaram essas universidades classificadas como santuários de excelência.

3. Ficando no plano religioso, os esquemas da corrupção teológica são muito variados. Apesar de, nos textos do Novo Testamento, Jesus Cristo ser a presença humana de Deus, desenvolveu-se uma cristologia que o colocou longe daqueles de quem é irmão. A partir daí, foi preciso desenvolver um sistema de mediações, de cunhas e influências para conseguir as suas graças. A devoção a Nossa Senhora e aos Santos - segundo a especialidade de cada um -, pretendendo aproximar-nos de Cristo, acaba por dar a ideia errada de que Ele está longe de nós. Ora Jesus Cristo é a máxima proximidade de Deus, Deus connosco. Os Santos são expressões dessa proximidade. A oração, o acto essencial da religião, o acto de atenção e de acolhimento do Mistério, não se deve transformar numa técnica de tirar Deus da sua distracção, ignorância ou indiferença. Não é um meio de informação e convencimento de Deus.

Somos criados à imagem e semelhança do incansável, eterno e misterioso amor de Deus. Não devemos criar representações de Deus à imagem e semelhança dos nossos defeitos. Essa é a grande corrupção teológica.

Frei Bento Domingues, op
Jornal «Público», 15 Janeiro 2012

23 de janeiro de 2012

ASSISTIR À MISSA NÃO AJUDA A DESCOBRIR QUEM É JESUS

Henri-Marie Le Boursicaud




CORRESPONDÊNCIA LE BOURSICAUD - B. HÄRING


Paris, 16 de Março de 1992

Caro padre Bernhard Häring:

Escrevo-lhe tal como escrevia antes ao nosso grande amigo François Bourdeau, por uma necessidade indizível de me exprimir, de me dizer, de ser escutado.

Hoje, gostaria de lhe propor como tema da nossa conversa o seguinte: a IGREJAgraças à qual penso ter encontrado Cristo de uma forma bastante profunda, mas que, no entanto, me sinto capaz de trair.

Não acredito que Jesus de Nazaré queira que esta sociedade [a Igreja], que fundou há vinte séculos, se afaste cada vez mais dos homens, tal como um mar que, constante e inevitavelmente, se evaporasse pouco a pouco. Mas a realidade é mesmo essa. A Igreja, organizada pelos apóstolos segundo o modelo da religião judaica, sem grandes alterações, não foi capaz de transmitir totalmente aos homens o que Jesus realmente fez e viveu, embora nela tenha havido sempre verdadeiros discípulos de Jesus, verdadeiros pioneiros de caminhos novos.

Devido à minha orientação pessoal e graças também a Santo Afonso, nosso fundador, sou particularmente interpelado pelos mais desfavorecidos, sejam eles quem for. Acho que posso mesmo dizer – é uma constatação minha – que a Igreja, enquanto instituição, nunca esteve do lado dos mais pobres partilhando da sua vida, acolhendo-os e defendendo-os. Apesar das aparências em contrário, ela esteve sempre do lado dos mais poderosos.

Também, assistir à Missa – acto central do cristianismo – não ajuda muito a descobrir quem é Jesus, nem a alcançá-Lo. Não poderíamos até dizer que a Missa se afasta do seu verdadeiro objectivo, tornando-se ela própria um fim em si mesma?

Começo a adivinhar a necessidade de uma mutação da Igreja a partir das bases. Isso inquieta-me, abala-me, angustia-me, mas, ao mesmo tempo, enche-me de alegre entusiasmo. Parece-me que o povo cristão, em geral gente simples, e sobretudo aqueles que por coerência vão abandonando a Igreja-Instituição, se apercebe, sem o poder exprimir claramente, que o cristianismo vai desaparecer se os seus membros não encontrarem uma solução, se não mudarem, tornando-se autênticos discípulos de Jesus sempre vivo entre nós.

No passado domingo, sendo convidado pela Comunidade Emaús-Fraternidade de Saint-Agnan, em Charante, falei em duas pequenas Igrejas dos arredores. (…) Há muita gente, sobretudo jovens e gente pobre, que gosta imenso de me ouvir exprimir a minha Fé. Outros, principalmente padres, dizem que estou queimado e não falta quem me queira queimar ainda mais. Recentemente, o Superior Provincial escreveu-me uma carta em que me dizia: «…Coragem! Oxalá possas levar a cabo os teus objectivos, que continues a anunciar com ardor a Palavra, fazendo dom completo de ti mesmo. Tu semeias. Deus não deixará de fazer desabrochar a vida». Palavras sem dúvida amigáveis e animadoras nesta minha missão de ir à frente a desbravar caminho para que outros por ele possam avançar. Que acha?

Esta minha carta está já longa. Vou ficar por aqui. O meu muito obrigado por ter a paciência de me ouvir, de me ler e de me responder.

Henri Le Boursicaud




Gars, 27 de Março de 1992


Caro irmão Henri,

Muitos se questionam sobre o mesmo que o senhor. «Será que esta Igreja pode ser mesmo obra de Cristo?» Esta pergunta é inevitável. Procurando responder um pouco a ela, começo por lhe lembrar uma pequena história: Um judeu vem a Roma a fim de procurar encontrar todos os possíveis erros da Igreja e assim poder combater mais eficazmente contra ela. Descoberta após descoberta, acaba por se converter, apoiando-se no seguinte argumento: Se a Igreja pode dar-se ao luxo de cometer tantos erros, sem se destruir, é porque, de facto, é obra de Deus.

Nós não pregamos a Igreja, mas sim a Boa Nova de Jesus Cristo. Mas se pregarmos esta Boa Nova e vivermos de acordo com ela também, tanto nós como as autoridades da Igreja devemos submeter-nos ao julgamento do Evangelho.

Jesus funda a Igreja: chama discípulos, escolhe apóstolos, quer uma comunidade de crentes, de servidores do Reino do Pai. Mas já S. Paulo, referindo-se às Igrejas do Senhor, encontra nelas motivos suficientes de censura. Tal e tal Igreja não era suficientemente fiel ao chamamento. Durante os primeiros séculos, houve mesmo vários profetas, por toda a parte, para chamarem as Igrejas a uma maior conversão.

Ora, quando uma Igreja fala apenas de magistério e de obediência, sem que aceite o incómodo ministério dos profetas, é sinal de que carece de fidelidade às origens. As intolerâncias e o autoritarismo são sempre estruturas de pecado. S. Bernardo, meu patrono, apelida a política do Papa da altura de «adúltera», por estar toda ela imbuída de leis mundanas de Justiniano e não de leis  do Senhor. É este o estilo dos profetas. (…)

Numa altura em que se torna necessário denunciar as tendências restauracionistas, os triunfalismos, o centralismo totalmente anti-ecuménico, devemos dizer claramente e sem hesitar: a nomeação romana do sucessor de Dom Hélder Câmara é um claro sintoma de uma Igreja de estruturas doentias. Cristo quis e quer a Igreja, mas Ele não pode estar satisfeito com o rosto da Igreja apresentado pelo Vaticano, com todos os seus títulos anti-evangélicos e situações escandalosas a diversos níveis.

Naturalmente, que, apesar de tudo, temos na passagem do Génesis (18:16-33) uma consolação: certamente que há mais do que dez justos na cristandade. De facto, no meio de tanto aspecto negativo da Igreja-instituição, não deixo de ver simultaneamente nela milhões de cristãos, verdadeiros heróis, verdadeiros santos, que dedicam totalmente as suas vidas ao autêntico serviço do Evangelho. Até mesmo entre os Bispos houve e há santos, embora os santos de hoje não tenham grandes possibilidades de virem a ser bispos. Realmente, não deixa de ser este um momento crítico, mas um momento que, apesar de tudo, nos permite ter esperanças numa nova Primavera.

Que a alegria do Senhor e da Boa Nova evangélica nunca nos falte.

Shalom,

Bernard



Paris, 23 de Abril de 1993

Padre Häring:

Bom dia.
Gostei imenso da resposta que deu à questão que lhe tinha posto sobre a falta de padres para a celebração da Eucaristia. Também o bispo de Évreux, Jacques Gaillot, gostou, como pode deduzir das seguintes palavras que a seguir transcrevo de uma carta dele: «Obrigado pela sua carta e pela fotocópia da linda carta do P. Bernhard Häring. Penso exactamente da mesma forma. No entanto, uma das dificuldades que encontro surge das ADAP (Assembleias Dominicais na Ausência de Padre), onde tem lugar a comunhão. Os responsáveis dizem-me que o preceito do Senhor «tomai e comei todos» está a ser cumprido, embora estas assembleias sejam missas sem consagração.
Na minha opinião, a generalização das ADAP, que têm sem dúvida um papel pedagógico incontestável, não adianta muito porque, nelas, os cristãos continuam a comungar tal como antes, sem que o problema real fique resolvido. (…)»

1.A pergunta que agora lhe faço e que vem a propósito das palavras deste corajoso bispo de Évreux, é a seguinte: «O que é isso de ter Missa?» Será que o acto de assistir à Missa se limita a assistir ao milagre da consubstanciação realizado pelo padre, sem que se faça memória daquilo que Jesus viveu na véspera da sua paixão? Sim, o que é que significa realmente isto de se ter Missa? E, se um dia, no futuro, celebrantes casados tornarem possível que todos os cristãos possam já ter missa, porque já há consagração, só por isso, não será que o problema vai continuar inalterável? A sua resposta será certamente esclarecedora.

2.Uma outra questão que para mim é mesmo importante. Lutei e continuo a lutar com todas as minhas forças por um mundo mais justo e mais fraterno. Estou convencido de que só aquilo que construirmos em Fraternidade e Justiça será transformado pela vitória de Cristo ressuscitado. Acredito que será possível acabar com as marés negras da exploração. Naturalmente, que tanto eu como todos aqueles que lutam por uma mudança de estruturas sociais, somo considerados idealistas em sentido pejorativo. Mais. No movimento Emaús, onde Abbé Pierre tantas vezes repetiu que aliviar a miséria sem lutar contra as suas causas é desonesto, há quem afirme que os companheiros de Emaús não podem lutar contra as causas da miséria, porque, através do seu trabalho de recuperação, se estão também a aproveitar da sociedade de consumo e tudo isto seria para eles como um novo ópio. A sua opinião sobre isto será importante para mim, porque no congresso internacional do movimento Emaús, que irá ter lugar em Colónia em 1993, este tema será de certeza abordado (…).

3.Ainda uma terceira questão sobre uma realidade concreta da vida. Há um padre de sessenta anos que se confessa homossexual e que está a ser apoiado pelo Abbé Pierre. Ora, os responsáveis por Emaús em França reclamam que ele seja afastado o mais depressa possível de Abbé Pierre. François Bourdeau dizia-me que, segundo opinião médica, cerca de três por cento dos homossexuais poderiam curar-se. Quais? Como o saber, sem darmos a todos oportunidade de se curarem, depositando neles confiança e fé? Não será que, no fundo do seu ser, haverá alguém que trabalha com eles, com cada um deles, através de acções que são deles, mas não apenas deles, através de apelos interiores que são deles, mas também de alguém mais?

Houve pressões e encontros daqueles responsáveis com o Abbé Piere para lhe exigir que rejeitasse o padre homossexual, seu secretário. O Abbé Pierre, porém, acabou por lhes dizer: «Antes de eu o despedir a ele, tereis vós de me despedir a mim». (…)

Fico a aguardar a sua resposta.


Henri Le Boursicaud




Caro irmão Henri,

É com prazer que respondo às três questões da sua última carta.

1.Quanto à primeira, estou de acordo com o bispo de Évreux, Jacques Gaillot, tão conhecido e admirado entre nós. De facto, a acção das ADAP (Assembleias Dominicais na Ausência de Padre) é uma acção muito deficiente e, do ponto de vista teológico, incómoda. Porquê? Trata-se de uma solução evasiva e até contrária ao espírito da instituição da Memória Eucarística. Porquê essas celebrações com o pão pré-consagrado? Porque é que, em África, os catequistas são por vezes obrigados a fazer viagens de mais de 100 km para transportar o pão pré-consagrado? Porquê? Só porque são casados? Mesmo que as suas mulheres sejam umas santas…?!!

Esta prática revela bem o complexo neurótico do paternalismo anti-feminista. Impedir cristãos de poderem ter Missa, pura e simplesmente por causa da lei eclesiástica do celibato, condição considerada absolutamente necessária para a celebração válida da Ceia, revela uma mentalidade mesquinha e uma teologia desastrosa. Por agora, no entanto, penso que é melhor tolerar esta prática deficiente e teologicamente falsa para evitar uma injustiça ainda maior. Todavia, não podemos deixar de dizer que isto não pode continuar por muito tempo. Claro que os celebrantes casados quando, através da ordenação, estiverem autorizados a celebrar a Missa, devem, igualmente, ser autorizados a serem pastores das comunidades.

A ordenação de pessoas casadas não é apenas necessária para que todos os fiéis possam usufruir do seu direito fundamental «fazei isto em minha memória…», mas é também importante como testemunho do respeito pelo sacramento do matrimónio; além do mais, a pastoral da Igreja precisa também de padres que conheçam a vida, que tenham experiência profissional, etc. Mais – o testemunho do celibato vivido pelo Reino de Deus tornar-se-á certamente mais credível se se admitirem também clérigos casados. Poder-se-iam ainda acrescentar muitas outras razões que fariam com que a Igreja se tornasse mais credível, neste domínio.

2.Quanto à segunda questão, não há dúvida de que o capitalismo, na sua forma actual, não é coisa boa: urge que seja profundamente corrigido. Antes do congresso do movimento Emaús em Colónia, hei-de poder dizer algo mais. Por agora, o seu testemunho é indispensável, necessário, tal como o testemunho dos monges contra uma Igreja «constantiniana», que vive em concubinagem com os mais poderosos. A sua escolha de vida enche-se plenamente de sentido quando aliada à luta por um mundo mais justo.

3.Sobre o problema dos homossexuais, já estudei e escrevi bastante. Contudo, ainda não o cheguei a compreender claramente. O que o padre Bourdeau diz é, de facto, a opinião de muitos especialistas. Com a graça de Deus, acho que consegui curar várias pessoas bem intencionadas e dispostas a uma intensa espiritualidade, mas conheço também o insucesso de pessoas muito generosas.

Privar os homossexuais da misericórdia e da compreensão por parte da Igreja seria um desastre. Eles precisam de compreensão, de respeito e de encorajamento. Os juízes eclesiásticos jamais curaram um único homossexual. Eu agiria tal como o Abbé Pierre. Mas não possuo nenhuma solução geral. A nova geração de especialistas (teólogos, psicólogos, terapeutas) devem encarar este grave problema com humildade. Já mostraremos misericórdia se não julgarmos nem condenarmos, se mostrarmos respeito, se libertarmos os outros do complexo de culpa, se ajudarmos o homossexual concreto a compreender melhor a origem da sua doença…

Eis um modesto contributo, como resposta às suas tão importantes perguntas. Continuarei sempre pronto a aprofundar os meus pensamentos.

No amor de Cristo,

Bernhard Häring



[Excertos de «Em crente e activa liberdade» - 7 anos de Correspondência entre Bernhard Häring, padre Redentorista e pioneiro teólogo de Teologia Moral (falecido a 3 Julho 1998, com 85 anos) e Henri-Marie le Boursicaud, padre-operário Redentorista, membro-cofundador do Movimento Emaús] Ed. Perpétuo Socorro, Porto, Julho 1999.

http://osprodigios.blogspot.com/2010/05/henri-le-boursicaud.html

22 de janeiro de 2012

ATÉ OS BARCOS DA ARMADA SOVIÉTICA O SAUDARAM...

Há 50 anos – Roma, 11 Out. 1962
Abertura Solene do Concílio Ecuménico Vaticano II




Um Papa que era cristão

João XXIII, ao contrário do seu predecessor, não queria ser um grande eclesiástico, grande orador, diplomata, cientista ou organizador – tal como o dissera no seu discurso de coroação − mas apenas um pastor. À imagem do Pedro bíblico, ele queria consolar, fortalecer e estimular os irmãos e irmãs. Com o passar do tempo, revelou-se mais e mais como «grande a servir», ancorado na palavra de um Outro de grandeza inquestionável: «Quem de entre vós quiser ser o maior, seja vosso servidor». Não ensinava um papado novo ─ vivia-o! Assim, introduziu no papado uma mudança de paradigma com o qual se iniciava uma época: em vez do primado romano absolutista, como o era desde Gregório VII e Inocêncio III até Pio IX e Pio XII, introduziu um primado pastoral de serviço, um papado de rosto humano, cristão.

Portanto, nada de estranhar que, prontamente, Karl Barth me tivesse dito: «Agora, ao invés da época do senhorial Pio, a partir da cadeira de Pedro oiço ‘a voz do bom Pastor’». E, neste momento, após a sua morte, em alguns sítios se desdenha da comparação dos opostos João e Pio: a oficiosa «Documentation Catholique» (Paris) nega-se a publicar a minha nota necrológica, sobretudo porque «faz alusão ao nepotismo de Pio XII», mesmo que da Redacção me digam: «De facto, impossível descrever melhor a figura de João XXIII, mas nem sempre convém dizer todas as verdades (‘toutes les verités ne son pas toujours bonnes a dire’)». Pergunto: será sempre melhor maquilhar, ocultar, mentir, mesmo que postumamente?

O Papa Roncalli ─ um santo?

Sem dúvida. Para as pessoas, não só um bom homem, mas um verdadeiro cristão. O seu Diário íntimo demonstra, com toda a sua qualidade de bondade, a sabedoria de um coração amplo: no mais fundo, o que importa é imitar a Cristo. Ele quer ser, com a máxima naturalidade, a «imagem do bom Jesus» e, como Papa, «servidor de Deus e servidor dos servidores de Deus». Não era uma pessoa extraordinária, nem muito menos um santo. Nada de aparições de Nossa Senhora nem de Cristo, nada de mistérios de Fátima, nem de espectáculos piedosos. «Pio X era um santo e não o sabia; Pio XI não o era e sabia-o; Pio XII era e sabia-o», contava-se, como piada, na Cúria. E João XXIII? Um Papa que não necessita de «canonização», nem sequer que, por parte dos historiadores conciliares, se omitam os seus erros fatais. Para que serve a constantemente distorcida palavra «santo», a politicamente instrumentalizada e romana «declaração de santo» (mesclada, aliás, com enormes transacções financeiras a favor da Cúria)? Um Papa cristão ─ eis a novidade sensacional!

Em vez de milagres, obras de misericórdia: na verdade, quem, como Papa e pessoalmente, de entre os seus predecessores, visitou os pobres, consolou os enfermos em hospitais, visitou sacerdotes cujas vidas foram um fracasso? Quem visitou a prisão de Roma com quase 1.200 reclusos? E quem encontrara as palavras certas, ali, na Cadeia, onde inclusivamente os grandes oradores titubeiam? De modo muito simples, o Papa Giovanni contou, a esses reclusos e malfeitores, que nunca haviam sonhado com este tipo de visita, como as cadeias o haviam impressionado desde miúdo, por um tio seu ali ter ido parar por andar, furtivamente, à caça. O «Osservatore Romano», que frequentemente omitia as partes melhores dos discursos do papa, trocou a palavra «tio» por uma outra, menos ofensiva para a dignidade papal: «parente». Sempre que o Papa falava, as suas palavras chegavam ao fundo dos corações. O seu compromisso pastoral ia-o buscar à Bíblia, com a qual se familiarizara diariamente, sobretudo através do missal e do breviário. Fora assim que se livrara, sem dar nas vistas, de certos estereótipos e clichés romanos, tradicionais. E já Papa, lia os escritos, colocados no Índex, do teólogo reformador italiano Antonio Rosmini e do seu companheiro de estudos, e três vezes excomungado, o «arquimodernista» Buonaiuti ─ que morreria no domingo de Páscoa de 1946 como «excomungado vitando», vítima dos jesuítas e dos fascistas ─, do qual o Papa sempre falara com respeito citando-o pelo nome de sacerdote «D. Ernesto».

Apesar do seu considerável fracasso junto da Cúria ─ o que nunca se deve fazer de conta que não existiu ─, com a sua humanidade suave e o cristianismo singelo que irradiava, João XXIII conseguiu, de forma absolutamente espontânea, e sem nenhum tipo de violência espiritual, de ameaças ou sanções, um grande consenso na Igreja («consensus ecclesiae») que tanto lhe era querido, e isso muito para lá dos muros da igreja católica romana.


Mudança na política eclesiástica: o primeiro Papa ecuménico

«Giovanni ventitresimo» foi também o primeiro Papa ecuménico. Sim, foi uma figura de esperança para toda a humanidade. ‘Da noite pr’ó dia’, tirou a Igreja duma atitude reticente praticada pelo seu antecessor quanto ao desafio ecuménico, e deu-lhe uma orientação ecuménica. É certo que já existia um movimento ecuménico na Igreja Católica, mas isso pertencia a uma pequena vanguarda de teólogos e leigos muitas vezes marginalizados. O Papa João converteu a ‘unificação dos cristãos separados’ e a abertura ao judaísmo e a outras religiões mundiais em assunto da Igreja inteira, do Episcopado e, também, mas mais limitadamente, do vaticano. É certo que já antes dele «se haviam aberto os braços»era a linguagem de Roma ─ aos demais cristãos. O certo é que isso nunca se foi além dum convite a que regressassem a casa… Foi, João XXIII, o primeiro a demonstrar que não bastava abrir os braços, mas que tínhamos que «meter as mãos na massa», trabalhar decididamente com humildade: fazermos aquilo que tínhamos que fazer, a partir do lado católico, para preparar a reunificação e para nos tornarmos mais próximos das outras Igrejas.

Representou uma mudança histórica, finalmente, que João XXIII enterrasse, sorrateiramente, o estéril anticomunismo de Pio XII, o qual excomungara todos os membros de todos os partidos comunistas. Desde a fundação do Estado do Vaticano, foi o primeiro Papa que se manteve à margem da política interna italiana em matéria de eleições, e se manteve equidistante face a todos os partidos políticos, incluindo a Democracia Cristã. O ambiente da Cúria, amplamente fascista no passado e agora conservador, mostrou-se maioritariamente consternado e, com ele, os meios conservadores de Itália. O Papa introduziu uma mudança de estilo, de métodos e de mentalidade na política do Vaticano face à Igreja e ao Mundo, o que desembocou num prudente abandono da intromissão na política italiana e num «modus vivendi» com os Estados do Bloco de Leste, que dará frutos mais tarde, como o reconheceram, por fim, os bispos alemães.

Monsenhor AGOSTINO CASAROLI, responsável pela «Ostpolitik», (política de abertura a Leste), trabalhou de forma planificada e constructiva. Na sequência do agravamento do conflito Este-Oeste com o levantamento do Muro de Berlim em 1961, João XXIII, a partir duma «neutralidade activa» conscientemente defendida, emitiu apelos à paz e fez advertências sobre a guerra atómica. Para sua surpresa, no dia dos seus 80 anos, a 25 de Novembro de 1961 recebeu os parabéns, como «homem de paz», por parte do chefe do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas, NIKITA KRUSCHEV: era a primeira resposta dos soviéticos a esta abertura do Vaticano, desde a Revolução de Outubro de 1917! Claro que fora uma resposta provocada pelo próprio Papa, na medida em que, de modo confidencial e através do dirigente comunista italiano Palmiro Togliati (cujo «pensamento» crítico face a Moscovo ajudará mais tarde ao surgimento do «eurocomunismo»), havia emitido, para Moscovo, sinais do interesse do papa pelo melhoramento das relações mútuas. Aos Bispos da Europa de Leste, Kruschev prometeu-lhes que poderiam deslocar-se ao Concílio. Após um novo agravamento do conflito Este-Oeste, com a Crise de Cuba de 1962, [a chamada «crise dos mísseis»]com o Concílio já em andamento, uma intervenção do Papa, fazendo de novo uma chamada a ambas as partes, contribuiu para o início do processo de distensão.

«Não se tinha ido longe de mais?», perguntavam, depois da sua morte, os inimigos de Roncalli, na Cúria. Que o Papa, inclusivamente, tivesse recebido no Vaticano um comunista que tinha abandonado a Igreja (pelo apoio desta ao fascismo), filho também de Pérgamo, o grande escultor Giacomo Manzú, para que lhe fizesse o seu retrato e criasse a última porta, à esquerda, das sete grandes portas de S. Pedro (a «Porta da Morte», para os cardeais mortos); que a espectacular visita de Alexei Adyuvei e da sua esposa Rada ao Vaticano culminasse com uma audiência privada: aos velhos guardiões do Vaticano (outrora, fascistas), tudo isso parecia politicamente estúpido e perigoso. Na sua encíclica «Mater et Magistra» (1961), a «questão social» já não é identificada, por João XXIII, apenas com a questão dos trabalhadores da Europa, mas alarga-a ao problema do solo, da agricultura e dos camponeses. Com uma claridade como Papa algum antes dele tivera, condena o colonialismo e o subdesenvolvimento. Para a revista «Time Magazine» é «o homem do ano». Aí está uma má recomendação para os homens da ala direita do Vaticano, como igualmente o será o prémio Balzan, da Paz, por ele aceite contra a opinião curial.

Desde a Reforma, até mesmo desde a divisão da Igreja Oriental da Ocidental no século XI, nunca Papa algum encontrara adesão tão ampla. A este respeito, todas as notas de condolências oficiais expressaram efectivamente aquilo que uma imensidão de gente sentia. «O essencial é a mudança radical nas relações entre a Igreja Católica romana e as outras Igrejas, o que pressupôs o começo dum verdadeiro diálogo» - manifestou o Secretário Geral do Conselho das Igrejas, doutor Visser’t Hooft. E o mesmo se poderia dizer também da relação com o Judaísmo, as outras religiões e os homens do mundo secular. Até os barcos da armada soviética, presentes no porto de Génova, fazem ondular as bandeiras a meia-haste.

As forças reaccionárias da Cúria encontram-se diante de um plebiscito da opinião pública mundial que as surpreende e incomoda. Mas mantém-se uma demarcação: as manifestações de confiança por parte de todo o mundo não significam a aceitação do papado como instituição. Na sua pretensão medieval, nunca questionada, de domínio absoluto dentro da Igreja e na sua infalibilidade quanto ao doutrinal no que diz respeito aos outros cristãos e aos homens seculares, tudo se torna inaceitável de ora em diante. Desgraçadamente, a Cúria do Papa, o seu núcleo duro, não assumiu a mudança de paradigma, contra os muitos desejosos de tal mudança. Nem simpatizou com o Papa do Concílio, nem tampouco gostou do modo mais ajustado ao evangelho como exerceu o seu ministério. Diziam eles: serão precisos cem anos para emendar seus erros! Um sintoma: duas vezes – em Novembro de 1964 e em Outubro de 1965 – alguns bispos tentaram apresentar, no Concílio, uma proposta que declarava ‘santo’ o Papa João, não segundo um procedimento burocrático, mas, como às vezes acontece, «per aclamationem» (por aclamação). Pelas duas vezes, a Cúria o impediu. No entanto, quem imaginaria que esta mesma Cúria iria beatificar João XXIII a 11 de Setembro de 2000sob um estrondoso aplauso da multidão reunida – e, lado a lado e ao mesmo tempo, beatificado também o seu antípoda Pio IX (!)  – sob um silêncio quase absoluto –, Pio IX precisamente, autoritário inimigo dos Direitos Humanos, antisemita, egocêntrico e propalador da sua infalibilidade? Por isso, e uma vez mais, pergunto: que significa isso de «santo» e de se «declarar santo» a alguém ou «canonizar» alguém? «Corruptio optimi péssima»: péssimo é a corrupção do melhor.

Nem o titubeante Paulo VI, nem João Paulo I, de vida excessivamente curta, nem o dividido e ao mesmo tempo autoritário João Paulo II conseguiram, como o conseguiu João XXIII junto do Concílio Vaticano II por ele convocado, tocar as cordas mais fundas dos homens, dentro e fora da cristandade: as ânsias de consenso, de paz, de convivência; o desejo de uma Igreja renovada num mundo melhor. O Papa Roncalli pretendia abrir as janelas da Igreja e conseguiu-o. Verdadeiramente, foi o maior Papa do século XX.

Estes cinco anos, de 1958 a 1963, foram uma «window of opportunity»: com João XXIII termina um pontificado muito acalentador. Tudo o que o concílio fez foi apenas um começo. A tarefa que se lhe situava por diante era gigantesca e o resultado inseguro. Aliás, como já se disse, a 22 de Novembro do ano de 1963, dá-se a segunda desgraça: o assassinato do Presidente Kennedy. Fica, o mundo, privado duma segunda esperança. Desapareceram os astros gémeos de uma constelação de esperança, de um novo paradigma de «catolicismo»: o Papa símbolo duma bondade que abarca toda a humanidade, de 82 anos, e o presidente símbolo duma juventude e duma «nova fronteira», de 47 anos. «Partem sempre primeiros os que não merecem, enquanto os outros por cá se ficam…»: não sou alheio a esta diatribe com os planos e disposições de Deus.

Apenas mais uma nota final a este capítulo: Páscoa de 2002. Releio, em jeito de revisão, as minhas páginas, de 1963, carregadas de esperança, sobre a Igreja na América e sobre João XXIII, mas a meu lado tenho o número de 1 de Abril de 2002 da «Time Magazine», que traz o chocante título: «Can the Catholic Church save itself?», «Pode a Igreja Católica salvar-se a si própria?». Tal como antes já a «Newsweek», com páginas dedicadas a crónicas chocantes sobre pedofilia de padres católicos, relatava a diminuição catastrófica do número de sacerdotes, freiras e aspirantes ao sacerdócio, bem como a subida, até aos 27%, de paróquias sem padre (tal como na Europa, aliás).


Hans Küng

«Libertad conquistada – Memorias», Editorial Trotta, 2007, pp. 421-426.





O «CACHE-CACHE» DE DEUS



Cair na tua marotice

Preocupamo-nos demasiado.
Pensamos em demasia. Negamos demasiado.
Vivemos em demasia de medo, cegos de demasia.

O que importa? O que é que realmente importa?

Era uma vez uma simples história…
Do Amor nasceu um simples bebé.
Tão simples como o seu Nome: simplicidade.
Quase tão gémeo como felicidade.

Olhar, ouvir, cheirar, saborear e sentir
– tudo tão sobrecarregado de ruído!

De onde vem este ruído? Do tal sistema?
O tal que nos faz viver sob o medo,
cegos e prisioneiros…

Vem Deus!
Vem e abre as janelas da tua eterna imensidão,
do teu Amor infinito.

Em desespero, eles choram por ti – os que rezam.
Afinal o Sol sempre esteve atrás das nuvens.
Só vê quem crê no imprevisível clima!
Só crê quem vê!

Que marota a criança que habita em ti!
Gosto do teu ‘cache-cache’…
– não há carnaval para ninguém.
Felizes nós, as vítimas da tua marotice.




[Na Igreja da Reconciliação, Taizé – Janeiro 2012]

21 de janeiro de 2012

TROPEÇAR AO SOM DO SINO



O caminhar

Nem sei que dia é hoje… nem sei.
No silêncio a gente se entende.
Eu, do lado de cá a tentar o ritmo,
da multidão mais lento.
Tu, do lado de lá
a dar-me uma grande lição.

Badalada a badalada, badalada a badalada.

Um pé tropeça mais do que o outro.
O frio respira-se pelo nariz.
Assim há tempo para pensar.

Para onde vai o pé?
Onde poisa ele?
Não sei. Pois nem sei…

O outro vem sempre atrás.






[Na Igreja da Reconciliação, Taizé – Janeiro 2012]

17 de janeiro de 2012

A IGREJA NÃO É O REINO DE DEUS


Há 50 anos – Roma, 11 Out. 1962
Abertura Solene do Concílio Ecuménico Vaticano II




A Igreja que o Concílio quis


Após os diversos esquemas preparatórios e as numerosas intervenções de bispos durante o Concílio, na Constituição Dogmática sobre a Igreja que foi aprovada a 21 de Novembro de 1964 define-se, a Igreja, primeiro e antes de mais nada, como Mistério, a seguir, como Sacramento, e, em terceiro lugar, como Povo de Deus. Podemos afirmar com certeza absoluta que o Concílio pensou e quis, antes de mais nada, uma Igreja na qual se realizassem e se presentificassem essas três grandes ideias: o «mistério», o «sacramento» e «o povo de Deus», a ponto de, só a partir de tal triplo projecto, se poder perceber o que é a Igreja, como se organiza a sua presença e qual o seu modo de actuar neste mundo e na sociedade concreta em que vive.

Ao apresentar a Igreja segundo estes três conceitos fundamentais, a profunda intenção do Concílio terá sido afirmar que a Igreja é, essencialmente e antes de tudo, comunhão[1]. Porém, não o afirmou de ânimo leve, mas explicando essa «comunhão» a partir da sua origem última a fonte do seu próprio ser e que é a Trindade de Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, comunhão perfeita. Por isso, no capítulo primeiro da Constituição sobre a Igreja ocupam-se três pontos consecutivos a explicar a origem trinitária da mesma [Lumen Gentium, LG 2, 3 e 4]. Daí esse primeiro capítulo intitular-se «O mistério da Igreja». Neste ponto coincidiam todos os projectos elaborados durante a preparação do Concílio. Todos eles intitulavam o primeiro capítulo da Constituição sobre a Igreja com a palavra «mistério», porque todos pensavam que, ao falar da Igreja, o ponto de partida teria de ser o que a Bíblia e a tradição dos primeiros séculos diz sobre o assunto.

Espantoso é que, em matéria tão evidente, tenha havido alguns que se lamentassem do «excessivo» (?) recurso à Sagrada Escritura. Opinavam que se deviam citar mais as encíclicas papais! Foi neste último sentido que se manifestou o cardeal Ottaviani, perfeito do Santo Ofício, facto, ainda que estranho, perfeitamente compreensível. E, isso, por uma razão muito simples: interpretar a Igreja a partir da ‘comunhão perfeita’, aquela que se dá no mistério da Trindade divina, equivaleria a conceber todos os cristãos unidos por igual numa unidade que tem abundantes argumentos nas Sagradas Escrituras; ao passo que, as encíclicas papais (do século XIX e primeira metade do XX), ao que dão mais destaque, é a toda uma série de argumentos que apoiam os direitos e os poderes da hierarquia. Consequentemente, aqueles que defendiam a unidade e a comunhão por igual (como na Trindade Santíssima) não negavam a necessidade e a importância da hierarquia. O que acontecia é que Ottaviani, e com ele muita gente da Cúria Vaticana, tremiam diante duma eclesiologia que começasse por afirmar, assim de maneira tão taxativa e firme, a igualdade fundamental de todos os crentes. Ao cabo e ao rabo, os «homens da Cúria romana» sempre se sentiram inclinados a defender uma espécie de «ontologia das diferenças», antepondo-o a todo o tipo de argumento a favor da «igualdade fundamental» de todos.

Contudo, o Concílio não começou por falar de diferenças, mas afirmou que «as condições do tempo presente acrescentam ao dever da Igreja uma maior urgência, de modo a que todos os homens (hoje mais intimamente unidos entre si em virtude das novas relações sociais, técnicas e culturais) consigam também a plena unidade em Cristo». [LG 1] Ora, falar de unidade é, antes de mais nada, falar de igualdade. As diferenças, sejam elas quais forem, terão que ser entendidas em função da unidade e, portanto, colocadas ao serviço da igualdade básica de todos. Diferenças que criem divisões, e pior ainda se o que criam são enfrentamentos, são diferenças que não podem ser queridas por Deus. E, portanto, elas não têm lugar na Igreja que o Concílio quis.

A segunda palavra que o Concílio utiliza para explicar a Igreja que quis defender e que quis apresentar diante do mundo actual, é a palavra sacramento. Essa afirmação encontra-se precisamente no começo da Constituição Lumen Gentium: «A Igreja é, em Cristo, como um sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» [LG 1]. E mais. No nº 9 da mesma Constituição, dá a seguinte definição de Igreja: «A congregação de todos os crentes que vêem Jesus como autor da salvação e princípio da unidade e da paz, é a Igreja convocada e constituída por Deus para ser sacramento visível dessa união salvadora de todos e de cada um». Nesta definição de Igreja volta a aparecer a palavra «sacramento» e, certamente, se refere ao sacramento da «unidade». Antes de mais nada, isto significa que a Igreja que o Concílio quis é uma Igreja pensada a partir da unidade e em função da unidade de todos os seres humanos, a unidade com o Deus de Jesus que se deu a conhecer no próprio Jesus, e a unidade entre eles mesmos. Ou seja, se a Igreja pretende ser fiel ao que o Concílio disse dela, terá que organizar-se de tal maneira que surja diante das pessoas como a instituição que promove e fomenta tudo aquilo que é indispensável para que haja realmente unidade entre os seres humanos. Ou seja, a Igreja é fiel ao Concílio quando defende, a todo o custo, as pessoas, quando luta pelos direitos das pessoas, quando denuncia os que atropelam os mais miseráveis impossibilitando, assim, a unidade entre todos. Pelo contrário, a Igreja é infiel ao Concílio quando se organiza e funciona de maneira a que a unidade e a igualdade básica de todos se torne impossível no concreto.

Mas existe mais um aspecto nesta Igreja sacramento da unidade. O Concílio não definiu o que entende por ‘Igreja como sacramento’. Deixou esta questão entregue aos teólogos, para que estes a tornem mais precisa. Em todo o caso, é necessário ter em conta que, quando se fala de Igreja como sacramento, não se trata (como acertadamente assinalou O. Semmelroth) de uma ‘definição essencial’ (da essência) da Igreja, mas de uma descrição funcional. Isto é, falar da Igreja como sacramento não é falar da essência da Igreja, mas da sua funcionalidade, da sua actuação e, nesse sentido, da sua eficácia para cumprir a tarefa que tem que cumprir neste mundo. Por outro lado, nos anos do Concílio, um «sacramento» entendia-se, e ainda hoje se entende, como uma realidade visível («signo» ou «símbolo», segundo as diversas teorias) que nos comunica algo invisível, ou seja, algo que transcende as coisas imediatas. Pois bem, daqui seguem-se consequências de uma enorme importância. Com isto quer-se dizer que a Igreja tem que aparecer diante do mundo de forma que o visível que nela existe aquilo que entra pelos olhos adentro e de que toda a gente se apercebe de imediato esteja pensado e organizado de modo que qualquer pessoa veja, toque e palpe, nos «homens da Igreja», nas «cerimónias religiosas», nas «personagens eclesiásticas» (do Papa até ao último dos últimos) algo que leve a superar divisões, atropelos, agressões e as mil formas de violência que se cometem neste mundo. Sobretudo, as agressões e os atropelos que se cometem contra os mais indefesos e os mais débeis.

Por conseguinte, quando a Igreja é vista como uma instituição que está ao lado de uns contra outros, os dirigentes eclesiásticos têm que se interrogar por que o fazem. E os cristãos em geral também têm que se fazer a mesma pergunta. Jesus foi imensamente respeitador e tolerante para com os ignorantes, os pobres e os pecadores, os perdidos e os marginais do seu tempo. Jesus só foi intolerante para com os intolerantes, para com os fanáticos que, baseando-se na religião, se presumiam melhores do que os outros e se tomavam como ‘a norma’ à qual, todo o mundo, teria que se ajustar. Isso é que Jesus nunca tolerou! A partir desse tipo de comportamento é que se tem de compreender o que significa Igreja como sacramento da unidade.

Por último, a terceira expressão que o Concílio destaca, a fim de afirmar o modelo de Igreja que ele quis, é a conhecida fórmula de Povo de Deus [LG 9]. A ela, a Constituição sobre a Igreja dedica todo o segundo capítulo, sinal claro que esta questão foi de grande importância para o Concílio. No Novo Testamento já a comunidade cristã é denominada como «Povo de Deus» [1 Pe 2:9-10]. Esta ideia foi desenvolvida amplamente pelos Padres da Igreja nos primeiros séculos do cristianismo e, de seguida, na Tradição cristã. Mas foi, sobretudo a partir do final dos anos 30 do século XX, que se acentuou a compreensão da Igreja como «povo de Deus». O Concílio Vaticano II, como muito bem assinalou Juan A. Estrada, representou o fim deste processo e, ao mesmo tempo, o ponto de partida para a revalorização da comunidade e do povo como elemento característico da Igreja.

Chegados aqui, importa recordar que, no Esquema preparatório que se elaborou antes do Concílio, se falava primeiro da hierarquia e só depois do «povo de Deus». Mas o Concílio decidiu mudar esta ordem e antepôs o capítulo do «povo de Deus» ao capítulo terceiro, aquele que trata da hierarquia. Esta ordenação manifesta, claramente, as intenções do Concílio: primeiro, fala-se do que é comum a todos os cristãos, pois, sem dúvida, isso é básico e determinante; depois, estudam-se as diferenças e determinam-se o que distingue uns dos outros. Desta maneira acabou-se com aquela teologia antiga, na qual a hierarquia era o principal, o essencial e o decisivo na Igreja, enquanto os fiéis não passavam (na prática) da clientela do clero. O teólogo do século XX mais bem preparado nestas matérias, o dominicano Yves Congar, denominou aquela «eclesiologia» de «hierarcologia». Era assim que, nos manuais anteriores ao Concílio, se estudava a matéria sobre a Igreja e o resultado era que os sacerdotes saíam dos seminários com a firme convicção que eles eram os que, antes de tudo e essencialmente, constituíam a Igreja. Os bispos e os sacerdotes eram os que sabiam das coisas da Fé e os que decidiam o que os fiéis tinham que fazer ou deixar de fazer. O resto dos cristãos não tinha outra tarefa se não aceitar o que lhes diziam e cumprir o que lhes ordenavam.

Portanto, a grande novidade que o Vaticano II trouxe foi afirmar que aquilo que há que dizer dos cristãos (desde o Papa até ao último membro da Igreja) é que todos são iguais diante de Deus e, por isso, todos participam da mesma condição.

O motivo teológico desta igualdade fundamental está, antes de tudo, em que todos os baptizados participam por igual do sacerdócio que é comum a todos os membros do «Povo de Deus», já que Cristo «fez de nós um reino, sacerdotes para Deus e seu Pai» [Ap 1:6; 5:9-10]. Isto quer dizer que o sacerdócio primeiro e essencial que existe na Igreja não é o sacerdócio ritual (que se realiza no culto e nas cerimónias dos templos), mas é o sacerdócio existencial que se realiza na vida de todos os dias e a todas as horas, ao longo da vida de cada pessoa. Isto é prévio e é mais importante que todos os ritos e todas as liturgias que se possam oferecer nas melhores catedrais do mundo. Importa que todos os cristãos tenham isto bem claro!, pois com frequência se dá mais importância a uma cerimónia sagrada, que ao comportamento diário que cada um adopta na sua vida familiar, no trabalho ou nas suas relações com os outros ou com a sociedade em que está.

A igualdade básica e fundamental de todos os cristãos também se explica porque os sacramentos primordiais da Igreja são comuns a todos os seus membros. Esses sacramentos são, antes de mais, os tradicionalmente chamados «sacramentos da iniciação cristã»: o baptismo, a confirmação e a eucaristia [LG 11]. Através do baptismo, os fiéis são incorporados na Igreja por igual e têm o dever, todos por igual, de «confessar diante dos homens a Fé que receberam». Através da confirmação, estão todos «obrigados, de modo reforçado, a difundir e a defender a Fé através de palavras e actos». E, pela eucaristia, todos «oferecem a Deus a Vítima divina» e «todos tomam parte na acção litúrgica, não de modo sincrético, mas cada um segundo a sua condição» [LG 11,1].

A conclusão disto tudo é algo de que muitos cristãos não estão de todo conscientes, mas que é determinante: a Igreja diz respeito a todos os baptizados, é da responsabilidade de todos e é um direito que, basicamente, concerne a todos por igual. Porque o sacramento que configura a Igreja na sua essência não é o sacramento da «ordem» que os bispos e presbíteros recebem, mas o sacramento do «baptismo» que é igual para todos os cristãos. Por outro lado, a eucaristia que é «fonte e cume» de toda a vida cristã [LG 11,1], − centro da vida da Igreja, como tantas vezes se diz − é acto de todos e oferenda de todos, independentemente do posto e da tarefa que cada um exerça na celebração (non promiscue sed alii aliter). O que significa que, obviamente, ainda que na eucaristia um é que preside enquanto os demais participam, isso não quer dizer que o sacerdote é o que «diz» a missa e os fiéis a «oiçam», nem tão pouco significa que o presbítero «celebra» enquanto os outros «assistem» à celebração que o clérigo de turno realiza. Todas estas expressões não são meras deformações linguísticas – expressam uma perversão teológica grave. Perversão que atinge o cume quando alguém pergunta ao padre: «A que horas dá a missa?», como se a eucaristia fosse algo parecido com um concerto ou um recital que o artista «dá» e ao qual o público «assiste».

A gravidade da perversão teológica que se oculta por de trás destas linguagens consiste em que, se os cristãos falam desta maneira e isso não os escandaliza, é porque todos assumimos que a Igreja continua a ser uma questão do clero. Isto é, os protagonistas e os responsáveis na Igreja são (e continuarão a ser) os que sempre o foram: os bispos e os sacerdotes. Os restantes, os leigos, são (e continuarão a ser) aquilo que sempre foram a vida toda: a clientela do clero. Ao povo sempre se lhe disse que «todos somos igreja», quando se trata de colaborar economicamente numa colecta, mas quando estão em causa decisões importantes ou decidir sobre assuntos sérios que digam respeito à Fé ou aos costumes dos cristãos já não somos todos igreja.

E, no entanto, por mais que isto possa surpreender algumas pessoas, o Concílio, precisamente no que diz respeito à Fé, chegou onde muitos nem sequer imaginam. E isto porquê? Porque, ao tratar do assunto da Fé no Povo cristão, a Constituição sobre a Igreja afirma que «a universalidade dos fiéis que têm a unção do Santo (cf. 1 Jo 2:20 e 27) não pode falar de moto próprio» (in credendo falli nequit) [LG 12,1]. Isto, literalmente, significa que o sujeito primeiro e fundamental da «infalibilidade» (é a isso que se refere a expressão falli nequit), «em matéria de Fé e costumes» (1.c), é a totalidade do povo cristão. Que ninguém se surpreenda com isto! Quando o Concílio Vaticano I definiu a infalibilidade do Papa, disse que o Romano Pontífice «tem o poder de infalibilidade que o Divino Redentor concedeu à sua Igreja» (ea infallibilitate pollere qua divinus Redemptor Ecclesiam suam… instructam esse voluit) (DS 3074). Por isso, têm toda a razão os teólogos quando dizem que «a Igreja, no seu conjunto, é o sujeito total da infalibilidade» (L. Scheffczyk) ou ainda quando afirmam que «não há mais do que um só sujeito de infalibilidade: a Igreja» (B. D. Dupuy). E sabemos bem que falar da Igreja é falar da totalidade do Povo de Deus. Portanto, a totalidade do povo cristão possui esse protagonismo em matéria de Fé, ou seja, o Povo de Deus é o sujeito primeiro e fundamental da infalibilidade. De modo que, se o Papa é infalível, é-o porque exprime a infalibilidade que reside em todo o Povo crente.

A partir de tudo o que está para trás, que Igreja podemos dizer que o Concílio quis? Como conclusões, podemos adiantar o seguinte:

1.                            O Concílio quis uma Igreja que seja entendível a partir da unidade misteriosa e radical que existe na Trindade Santíssima de Deus. Donde, o primeiro capítulo da Constituição sobre a Igreja se ter intitulado «O mistério da Igreja».
2.                            O Concílio quis uma Igreja que se entenda, antes de tudo, a partir da igualdade fundamental de todos os cristãos, já que, ainda que as três pessoas da Trindade Divina sejam distintas, se são entre si divinas, então, entre elas existe uma igualdade essencial.
3.                            O Concílio quis uma Igreja cuja igualdade se entenda a partir do Povo, já que a Igreja realiza em si o projecto de «Povo de Deus», o qual, desde o Antigo Testamento atá à plenitude dos tempos, é a expressão de como Deus quer realizar a salvação dos seres humanos. Trata-se, portanto, dum projecto que se realiza a partir da condição igualitária, solidária e fraterna do povo e não a partir da condição de superioridade dos que detêm o poder, dos notáveis da sociedade. Por isso, no Concílio, o capítulo do «Povo de Deus» é anteposto ao capítulo que trata da hierarquia.
4.                            O Concílio quis uma Igreja que surja e se torna visível de tal maneira que as pessoas se sintam atraídas para as coisas de Deus, pelo Evangelho de Jesus. Isto é, aquilo que toda a gente vê e palpa na Igreja deverá estar pensado e organizado de tal forma que os cidadãos normais e correntes percebam nisso algo que os leva a crer em Deus e, por isso, a sentirem-se vinculados a uma realidade última e definitiva que confira sentido pleno à vida. Por isso o Concílio afirmou que a Igreja é sacramento «da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» [LG 1].
5.                            O Concílio quis uma Igreja na qual todos são, e se sintam, responsáveis na medida em que possam participar, e de facto participam, no que se pensa, naquilo que se diz e se decide. Porque todos os que pertencem a essa Igreja a sentem e a vivem como coisa sua, como algo que lhes concerne vivamente e com a qual se sentem comprometidos. Trata-se, portanto, duma Igreja em que todos, mulheres e homens, têm voz e são escutados. Uma Igreja, por isso, na qual o clero não concentra e muito menos monopoliza o poder de pensar, de dizer e de decidir. O «Povo de Deus» é, com efeito, um povo unido, no qual todos «participam» e todos realizam «obras várias e ofícios proveitosos para a renovação e uma mais ampla edificação da Igreja» [LG 12].


A conclusão que se deduz de tudo o que fica dito é que, quando a Igreja se organiza de maneira a que as coisas que acabo de indicar se tornem, no dia-a-dia, impossíveis de realizar, essa Igreja não é nem pode ser a Igreja que Deus quis. Repito: falo da prática concreta daquilo que se faz ou deixa de fazer na Igreja. Porque, em teoria, todos estamos de acordo com aquilo que o Concílio disse. Porém, o decisivo é tomar consciência de que, na Igreja, as coisas estão organizadas, de maneira que uma coisa é a teoria que se ensina e outra, bem distinta, é o que se faz na prática.

Ao dizer isto, estamos a pôr o dedo na ferida! Isto é, estamos a tocar no ponto-chave que explica porque é que o Concílio não se tornou vida na vida da Igreja e porquê se esqueceram e se perderam as esperanças que o Vaticano II despertou na Igreja. A questão determinante está em descobrir e compreender porquê, estando todos de acordo com o que disse o Concílio, na prática foi impossível realizá-lo. Isto, e precisamente isto, é o que muita gente, concretamente muitos «homens da Igreja», não conseguem compreender.

Por isso, qualquer pessoa que por um lado leia, desapaixonadamente, os Evangelhos e, por outro, repare no que é a vida e a organização da Igreja, logo logo se apercebe da distância que vai entre ambos e e, em determinadas coisas, de uma alarmante contradição.

Hoje sabemos que o centro da mensagem do Evangelho é o projecto do Reino de Deus que Jesus anunciou com as suas palavras e com a sua vida. O Concílio disse, com muita precisão e rigor, que Jesus, anunciando o Reino de Deus, «pôs em marcha» (initium fecit) aquilo que é a Igreja [LG 5,1]. Donde, a missão da Igreja deva ser «anunciar o Reino de Cristo e de Deus, estabelece-lo no meio das pessoas», de maneira que ela «constitua na terra o gérmen e o princípio deste Reino» [LG 5,2].

A Igreja, portanto, não é o Reino de Deus!

A Igreja é o começo, o sinal e a voz que anuncia aos povos que o projecto de Jesus – o Reino de Deus – está presente neste mundo, na nossa sociedade, na nossa cultura, no nosso meio. Mas, como irá, a Igreja, cumprir esta tarefa se, na prática, se organizou de tal modo que é impossível tornar em vida aquilo que é a sua razão de ser e a sua missão essencial? Eis o nó da questão – a questão da organização − que teremos de analisar e matizar cuidadosamente, se é que queremos realmente conhecer a Igreja que o Concílio quis.

José Maria Castillo [2002]


[1] Em Taizé, o Ir. Roger sempre falou da Igreja como «mistério de comunhão».[Nota do tradutor; pb]