teologia para leigos
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21 de março de 2023

Os destinatários da Boa Nova de Jesus

 


Os destinatários da boa nova de Jesus

− os desmiolados, a escumalha, os ladrões e as prostitutas

Lucas 5,31-32

“Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos fazendo turnos a vigiar os seus rebanhos durante a noite”.

 

Como acabamos de ver, os pastores monopolizaram as atenções desta cena. «Olhai que vos anuncio uma grande alegria, … Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor.» (Lc 2,10-11)

Que significado têm aqui, os pastores, neste momento da cena? Que representam eles na narração? A perícopa inicia-se afirmando que «naquela região (Belém) havia uns pastores que passavam a noite sob a intempérie velando o rebanho por turnos». No tempo de Jesus, os pastores eram gente menosprezada e marginalizada pela sociedade[1]. Eram normalmente considerados delinquentes, ladrões obstinados que se dedicavam à pilhagem contínua, pelo que constituíam um grupo que não merecia a mínima confiança. Esse era um dos motivos por que eram proibidos de testemunhar em julgamentos. Quanto a isto, eles eram comparáveis aos cobradores de impostos, que, igualmente, estavam excluídos de comparecer em juízo enquanto testemunhas[2].

Também é verdade que existe uma tradição bíblica favorável aos pastores[3]. No entanto, o contexto próximo e o horizonte da obra lucana favorece a interpretação pejorativa: os pastores eram gente marginalizada e perigosa e, por isso mesmo, menosprezada. Para Lucas, são precisamente estas pessoas pobres, simples e depreciadas pelos poderosos as escolhidas por Deus para receber, antes de mais ninguém e como autênticos destinatários, a revelação celeste de Jesus. Como disse C. Stuhlmüller, «é típico de Lucas serem os pobres os primeiros a receber a mensagem da salvação»[4]. Os pastores pertencem à categoria dos pobres de Yahvé de que os fariseus se enojavam e que depreciavam porque, por causa da vida nómada que tinham de levar [e por, apesar de ser “impuro”, serem obrigados a contactar com vísceras ensanguentadas aquando da degola], não podiam observar todas as prescrições da Lei»[5].

Fica bem patente o contraste entre o modelo de sociedade judaica defendido pelo poder religioso no tempo de Jesus e o projecto de Deus. Os pastores, protótipo das pessoas marginalizadas, menosprezadas e descartadas são precisamente os eleitos por Deus a fim de lhes comunicar a boa notícia, a grande alegria: o nascimento, a eles dirigido, do Salvador, que é o Messias, o Senhor. O paralelismo com Lucas 4,18 é manifesto. Na perícopa de Belém (2,10-11), o evangelho identifica-se com o nascimento do Salvador. É o próprio Deus quem anuncia a boa notícia aos pastores, protótipo de gente pobre e protótipo dos destinatários do evangelho. Na cena de Nazaré (4,18-19.21) o evangelho identifica-se com a actividade libertadora de Jesus. Aqui, é o próprio homem Jesus quem anuncia essa boa notícia aos pobres e oprimidos, os verdadeiros destinatários da sua mensagem e da sua actividade salvífica.

O evangelho fica, por um lado, definitivamente identificado com a pessoa, a mensagem e a actividade de Jesus e, por outro, não deixa a mais pequena dúvida de que os primeiros e verdadeiros destinatários desse evangelho são os pobres, os marginalizados, os descartados, os explorados, os menosprezados. Foi Deus que o decretou deste modo (e não de outro) e foi Deus que o revelou sem intermediários em Lucas 2,10-11 – na primeira pessoa (Anjo) e directamente; também, através de Jesus, em Lucas 4,14-19.21.

Estas duas cenas da escritura não fazem mais do que antecipar, como programa, e ratificar enquanto compêndio, a actividade libertadora de Jesus, através do seu ministério terrestre. De facto, os cobradores de impostos e as prostitutas (gente odiada, excluída e depreciada por serem ‘pecadores públicos’) são colocados nos lugares da frente, em lugares de destaque, muito à frente dos chefes do povo no que diz respeito ao acolhimento no Reino de Deus[6]. O motivo para tal tem a ver com o facto de terem sido esses os que em primeiro lugar acreditaram na mensagem de João (e por conseguinte em Jesus), ao passo que estes últimos não creram em João. O evangelho é de facto desconcertante; no entanto, nós continuamos a insistir em não o levar a sério. Jesus desprestigia a classe dominante, desmascarando-a e denuncia-a enquanto “classe”, já que o respeito aos dirigentes e às instituições judaicas constitui «o grande obstáculo para aceitar a mensagem de Jesus»[7].

Por parte de Jesus há, portanto, uma opção de classe: pelos marginalizados, desprezados e pecadores. Lucas é cristalino, quanto a isto. Tendo como cenário o baptismo de João, Jesus contrapõe duas classes sociais: por um lado, o povo (laos) e os cobradores de impostos e, por outro, os fariseus e os juristas:

 

«E todo o povo que o escutou, bem como os cobradores de impostos, reconheceram a justiça de Deus, recebendo o baptismo de João. Mas, não se deixando baptizar por ele, os fariseus e os doutores da Lei anularam os desígnios de Deus a seu respeito.» (Lucas 7,29-30)

 

Nesta contraposição existe uma verdadeira “opção de classe”. O povo-escória e os cobradores (pecadores) são a classe que aceita o desígnio de Deus: serem libertados da opressão que os esmaga e enlouquece[8].

O convite feito a Levi (Mateus 9,9, Lucas 5,27-32) e a conversão de Zaqueu (Lc 19,1-10) são igualmente significativos. Levi é cobrador de impostos. Jesus escolhe-o para ser ‘um dos Doze’ e de seguida entram em casa para tomar uma refeição juntos. A reacção dos fariseus e dos doutores da lei é fulminante: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» A resposta de Jesus não se fez esperar. «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: “Prefiro a misericórdia ao sacrifício”(Oseias 6,6; 12,7; Amós 5,21-27). Porque … Eu não vim chamar os ‘justos’ [os zelosos], mas os pecadores.» (Lc 5,32) Este versículo expõe a opção de Jesus pelos doentes e pelos pecadores como sendo o cerne da sua missão. Jesus quer dizer-nos que, para Ele, a grande questão é a existência de miseráveis e que os responsáveis por essa miséria são os ‘religiosos’… (a pobreza é ‘sinal’ de que eles não merecem viver; até Yahvé os amaldiçoa não permitindo que enriqueçam: eles são pobres porque querem… se quisessem ser ricos, bastava-lhes rezar muito e darem gordas esmolas no Templo…). Há aqui, mais uma vez, uma opção pela classe débil, necessitada; a leitura da realidade social por parte de Jesus é antissistema, anti-preconceituosa, é includente, é misericordiosa! Enquanto os eclesiásticos apontam o dedo e dizem: ‘Vão trabalhar malandros!’, Jesus diz: ‘Baixem os impostos, perdoai as dívidas e cumpram a Lei do Ano do Jubileu!’

A perícopa de Zaqueu é muito semelhante. Também Zaqueu era cobrador de impostos (chefe de cobradores e muito rico; Lc 19,2). As pessoas que estão a observar protestam e murmuram porque Jesus vai hospedar-se na casa de Zaqueu (19,5-7). A conclusão de Jesus é clara: «Este homem veio procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 19,10). Jesus opta pelo que anda perdido e desprezado e isso surge aqui, mais uma vez, como algo habitual no seu ministério[9].

Por existir uma enorme semelhança com Lucas 2,10-11, no que diz respeito à revelação, deixei Lucas 10,21-22 para o final deste breve excurso sobre os pobres, os pecadores e os escorraçados como os autênticos destinatários do evangelho:

«Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos simples. (…) quem é o Filho só o Pai o sabe, quem é o Pai só o conhece o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho.»

Jesus bendiz a seu Pai por ter querido revelar-se a gente simples, por oposição aos sábios e entendidos. A opção de Deus é manifesta e gratuita. Esta passagem faz-nos pensar nos pastores como os primeiros destinatários da revelação divina.

Os pastores, primeiros e autênticos destinatários da mensagem evangélica, representam o povo (laos), essa gente que sofre, que não tem importância social alguma, mas que afectiva e vitalmente está do lado de Jesus: «O povo inteiro estava suspenso dos seus lábios» (Lucas 19,48b).

O texto evangélico é explícito a este respeito: «Hoje trago-vos uma boa notícia, uma grande alegria para todo o povo» (2,10).

 

Carlos Escudero Freire, «Devolver el evangelio a los pobres», Sígueme 1977, 291-294.

 

 

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[1] [141] Josef Schmid, «El evangelio según san Marcos» Herder Barcelona, 1967, 101-103.

[2] [142] H. L. Strack-P. Billerbeck, «Kommentar zum Nueuen Testament IV» , II, 113-114.

[3] [143] Quer os Patriarcas, quer David foram pastores. Ao próprio Deus se chama pastor de Israel (Salmo 23,1; 80,2), na medida em que ele governa o seu povo. Pastorear chega a ter, com efeito, o significado de governar (2 Samuel 7,7; Jeremias 2,8); cf. C. Stuhlmüller, o. c., 319.

[4] [144] Ibid, 318. Até porque, em Lucas, «evangelizar» é sinónimo de «libertar da opressão socio-económica»; cf. J. Dupont, «Les beatitudes II», Paris 1969, 19-51: “pobres são todos aqueles que se encontram numa situação de total incapacidade de se defenderem de todo o tipo de violência.”

[5] [145] G. Leonardi, «L’infanzia di Gesù nei vangeli di Matteo e di Luca», Padova 1975, 211. Os fariseus, abusando da enorme autoridade que tinham sobre o povo «faziam crer às pessoas que, para estarem de bem com Deus, tinham de fazer tudo como eles faziam, inculcando-lhes um sentimento de culpa e de inferioridade o que os tornava sem valor, escória. Para além da observância das regras religiosas, os fariseus eram amigos do dinheiro [avarentos] e extorquiam dinheiro de gente simplória pressionando-as com argumentos de natureza piedosa (Mateus 23,25-28; Marcos 12,40; Lucas 11,39; Lc.16,14)»: Juan Mateos, Luís Alonso Schökel, «Nuevo testamento», Madrid 1987, p. 15.

[6] [146] Cf. Mateus 21,31-32. Os interlocutores, a quem Jesus se dirige quando quer comparar com cobradores de impostos e prostitutas, são os sacerdotes e os senadores do povo [anciãos], a fina flor, ‘la crème de la crème’ da sociedade judaica (Mateus 21,23). Em si mesma, a comparação por si só é já um verdadeiro insulto. A classe dos dirigentes é excluída do Reino, ao passo que os desprezados por essa mesma classe são admitidos prioritariamente; cf. P.-E. Bonnard, «Le second Isaïe. Son disciple et leurs éditeurs. Isaïe 40 - 66», Paris 1972, 313-314.

[7] [147] Juan Mateos, L. A. Schökel, «Nuevo testamento», Cristiandad Madrid, 1987, p. 33: «… el gobernador, sabendo que [Jesus] es inocente, lo condena a muerte (Mt 27,23-26). La injusticia del mundo no quiere que Dios reine (Mt 11,12-15), odia todo lo que Dios pide, mata el Hijo de Dios.»

[8] [148] O paralelismo com Mateus 21,31-32 é por demais evidente. Provavelmente, aqui, Jesus não faz referência às prostitutas pela simples razão de que, neste mesmo capítulo, Jesus vai apresentar uma delas em casa de Simão, o fariseu (Lc 7,36-50). A contraposição entre esta prostituta e o fariseu é, só por si, eloquente.

[9] [149] A parábola lucana do fariseu e do cobrador (Lucas 18, 9-14) ilumina admiravelmente as anteriores passagens. Com efeito, aos fariseus da parábola ela os descreve como «gente segura de si e que despreza os restantes» (Lc 18, 9-11-12); o cobrador, ao contrário, surge reconhecendo os seus pecados e pondo a confiança no Senhor (Lc 18,13). Este é o único que regressa a casa de bem com Deus (18,14); a conclusão é clara: Deus opta pelo que está curvado para o erguer bem alto; cf. também Lc 14,12-14; 14, 21 e contexto.


20 de março de 2023

O sagrado e o profano no Evangelho

 


O sagrado e o profano

no Evangelho

 

Antes de abordar os conceitos de sagrado e profano, convém esclarecer o termo “Evangelho”, que domina todo este meu livro «El Evangelio es profano». ‘Evangelho’ não é um conceito abstrato pertença de uma teologia especulativa. É algo muito concreto, eu diria que é bem palpável, já que Jesus, a sua actividade e a sua mensagem constituem o que chamamos “Evangelho”.

O tema do sagrado e do profano   referido ao Evangelho, que pretendo abordar neste livro, é um dos pontos mais importantes e conflituosos que diferenciam o Antigo do Novo Testamento. As pessoas podem compreender com relativa facilidade o que se entende por “sagrado”, mas convém explicar qual o alcance da palavra e do conceito “profano”[1]. O profano, oposto ao sagrado, indica antes de tudo a autonomia dos seres humanos em relação à realidade que os circunda e com a qual se relacionam constantemente. O profano significa, pois, o quotidiano, algo normal na vida das pessoas, o secular, aquilo que lhes pertence e que tem a ver com os «leigos», segundo a linguagem e o conteúdo do Código de Direito Canónico e da Hierarquia católica em uso nos seus documentos. Deste modo, a laicidade, por ser remetida pela hierarquia aos leigos, não deveria assustar assim tanto os chefes eclesiásticos, porque foram eles mesmos que dividiram o mundo católico em clérigos e leigos. Esta divisão tem por objetivo fazer com que os hierarcas se diferenciassem com muita nitidez dos leigos para se constituir a eles ‒ a hierarquia ‒ no único referente sagrado provido de todo o tipo de prebendas, honras e privilégios, enquanto os leigos constituiriam o mundo vulgar e comum do profano.

A Hierarquia, ou seja, o Papa, os Bispos, os sacerdotes e os diáconos, não só constituem o mundo do sagrado, mas também, através de diversos ritos religiosos de caráter sagrado, são eles mesmos os consagrados. Para além disso, só eles têm o poder de consagrar.  Eles são os senhores e donos absolutos no e do campo do religioso, e apenas eles o administram, pois assim o decidiram ao longo da história secular da Igreja, em matéria de sagrado: os sacramentos, as missas, os tríduos, as novenas, as peregrinações ou romarias a lugares sagrados, as aparições da virgem e os templos construídos e por eles abençoados por tudo quanto é canto. Mais! São eles os únicos que decidem a quem proclamar beatos e santos aqui na terra. A Hierarquia tem, pois, o monopólio total do sagrado e da santidade. A hierarquia tem igualmente o poder sagrado de «benzer» seja lá o que for inclusivamente benzer entidades bancárias e caixas de aforro, muitas das quais acabam por ‘derreter’ as poupanças dos imprudentes, pelo que a hierarquia também tem algo a ver com crises financeiras, socioeconómicas e dos “mercados” em que todos os países estão enterrados até ao pescoço. Num passado não tão longínquo quanto isso, benziam igualmente canhões, carros de combate e a própria guerra. Com estas incursões no terreno dos leigos, a hierarquia quis demonstrar o seu poder e domínio sobre tudo o que existe. Em suma: a hierarquia move-se na esfera de Deus e do divino e encarrega-se de tudo o que for relacionado com Deus enquanto intermediários e administradores do sagrado.

Portanto, os leigos estão atados de pés e mãos e à sua mercê. Enquanto cristãos, muitos crentes vivem absolutamente dependentes das leis e das normas da Hierarquia sem possibilidades de se desenvolverem e crescerem enquanto pessoas autónomas, num perpétuo e triste infantilismo. Perante este cenário, o problema que se coloca é da máxima actualidade na medida em que os leigos começam hoje em dia a despertar e progressivamente a tomar contacto com o convite do Evangelho para que cresçam enquanto pessoas e para que vivam uma vida feliz e plena. É por isso que os leigos começam a exigir autonomia em matérias que dizem respeito às suas vidas enquanto leigos, ao mesmo tempo que começam a querer desmistificar e desconstruir a questão do sagrado a partir de narrativas e acontecimentos referidos nos Evangelhos. Os leigos estão a deixar de aceitar ingerências absurdas dos hierarcas católicos ‒ ou dos chefes de outras confissões religiosas ‒ no seu mundo e na sua vida específica de leigos. Basta de bênçãos e de palestras sobre o sagrado as quais procuram apenas tornar-nos dependentes e submissos! Tudo isso começa a asfixiar-nos. Para além disto, tenho a certeza que a Hierarquia vive mais à maneira judaica do que à maneira do cristianismo, ou seja, persegue o espírito e a letra do Antigo Testamento muito mais do que “o núcleo do Novo”, o qual se centra sobretudo nos evangelhos. Sobre este assunto, e para já, não é preciso discorrer mais; basta chamar a atenção para o seguinte tópico: Jesus foi um leigo e não uma pessoa consagrada.

Há que examinar igualmente quais foram as instituições sagradas do Antigo Testamento e a forma como Jesus se relacionou com elas, ou seja, que relação teve Jesus com tais instituições e com as personagens que as representavam e as promoviam, como fora o caso dos fariseus (enquanto fiéis observantes da Lei e cumpridores rigorosos da mesma), a «Lei de Moisés», o Sábado, os sumos-sacerdotes, o Templo, o Sinédrio algo semelhante a um Conselho ou Parlamento-Tribunal constituído pelos sacerdotes, escribas e doutores da Lei (anciãos ou presbíteros) e que pelo menos aparentemente parece que tinha capacidade para condenar à morte; cf. João 8,5. (cf. «Diccionário de la Bíblia – Historia y Palabra», Verbo Divino 2007, p. 58).

É muito importante escrutinar com muita atenção aquilo que os evangelhos nos dizem sobre esta relação de Jesus com estas instituições. É bem possível que aquilo que muito provavelmente fez com que Jesus fosse descartado como impróprio e indesejável esteja também a acontecer hoje em dia (com toda a normalidade) pela mão da Hierarquia católica. Importa também examinar, investigar e provar se o núcleo central e as passagens nucleares dos evangelhos surgiram e se configuraram no âmbito laical ou profano (espaços da preferência de Jesus) ou, pelo contrário, se foram originários de lugares sagrados ou de lugares coniventes com lugares sagrados.

Regressando ao que foi dito atrás em matéria de História das Religiões («Lo sagrado y lo profano en la historia de la humanidad»[2]), com que abrimos este livro, convém aclarar alguns conceitos em relação aos evangelhos. Há que distinguir entre teofanias ou revelações divinas que ocorrem nos evangelhos e que são muito importantes, como é o caso da Anunciação aquando da narração do nascimento de Jesus, do seu baptismo e da consequente abertura do céu por uma voz que fala, etc., e a criação ou constituição de lugares sagrados, dos quais não se encontra rasto nos evangelhos. Tampouco encontramos nos evangelhos a mediação sagrada, de capital importância no Antigo Testamento e nas religiões antigas, sobretudo nas mais evoluídas. Ou seja, nos evangelhos, Jesus nunca aparece como mediador sagrado a desempenhar essa função de mediação em lugares sagrados. Mais: Jesus nunca instituiu mediadores sagrados.

Por outro lado, convém deixar desde já bem claro que as teofanias ou manifestações divinas são momentos de gratuidade e, por isso, não podem ser requeridas nem controladas pelos discípulos de Jesus. Tampouco deveriam ser instrumentalizadas pelos seus seguidores constituindo-as em lugares sagrados ali onde tiveram lugar tais teofanias. Muito menos é próprio do cristianismo construir e erguer templos para oferecer sacrifícios, o que exigiria e justificaria a criação de ministros sagrados. Mas aquilo que de facto vemos acontecer é que o divino, o transcendente e as suas manifestações de gratuidade são consideradas como algo sagrado pela Hierarquia. O divino e o transcendente pertencem à esfera de Deus ao passo que o sagrado e as suas mediações pertencem à esfera humana. Ainda há pouco afirmamos que na maioria das religiões existe a mediação sagrada; no judaísmo acontece o mesmo. Mas não é admissível que isso aconteça no cristianismo, pois o cristianismo não pode ser considerado mais uma religião entre outras.

A práxis histórica do cristianismo, caso fizéssemos dele uma religião como as outras, acabaria por se apartar substancialmente do projecto inicial de Jesus que nunca pensou em fundar mais uma religião, mas em proclamar e realizar o Reinado de Deus aqui, no meio dos homens, tendo como base valores qualitativamente novos, revolucionários e subversivos enfrentando os contravalores da sociedade do seu tempo. Tal como dissemos no começo deste livro, o Reinado de Deus não se manifestou no sagrado, mas no profano, ou seja, no meio da vida comum, aquando da vida normal das pessoas. Muito menos precisou do sagrado para se implantar e crescer, quer no tempo do Jesus histórico, quer no tempo da Igreja primitiva.

Todas as religiões ‒ incluindo o cristianismo no seu devir histórico ‒ submeteram e dominaram o ser humano de diversas maneiras à custa de modos primitivos ou subtilmente fundamentalistas. Houve momentos em que as religiões passaram por cima do ser humano, escravizaram-no e inclusivamente torturaram-no e levaram-no à morte. Pelo contrário, o Evangelho coloca o ser humano no centro: a vida humana é o valor supremo. O Evangelho procura o desenvolvimento do ser humano, a liberdade e a felicidade humana. Esta maneira de ver convida-nos a recuperar a frescura dos evangelhos a partir dos seus núcleos essenciais e dos seus temas fundamentais.

 

In Carlos Escudero Freire, «El Evangelio es profano», Ed. El Almendro, Córdoba 2011, pp. 27-30

 

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[1] “Pro” (= de frente) refere-se àquele que observa, a partir de fora, com curiosidade, o “fanos”, ou seja, a manifestação do transcendente. Profano refere-se a uma atitude positiva e não negacionista. [PB]

[2] Corresponde ao cap. 1 deste livro.


31 de dezembro de 2022

Joseph Ratzinger, o paradigma ascético-estático

 







«Para mim, o do costume».

«Foram dois anos que, em retrospectiva, marcaram de modo especial as últimas décadas do milénio recém-concluído: 1968 e 1989. O ano de 1968 assinala a rebelião de uma nova geração que não só julgou insuficiente, cheia de injustiças, de egoísmo e de avareza a obra da reconstrução do pós-guerra, como considerou errado e fracassado todo o percurso da história a partir da vitória do cristianismo. (…) [essa geração] pensara ter encontrado, na grande corrente do pensamento marxista, o caminho que levaria [ao mundo da liberdade, da igualdade e da justiça]».

Estes dois parágrafos iniciais são essenciais para perscrutar o âmago do ímpar Joseph Ratzinger. A primeira citação é a resposta de Ratzinger ao chefe-de-sala, num famoso restaurante nas margens do Danúbio. Preparava-se para almoçar a convite de Angelo Scola, reitor da U. P. Lateranense, o qual também convocara Hans Urs von Balthasar para que se juntasse aos dois comensais. Motivo do almoço? Sondar o interesse de todos para o lançamento de uma edição italiana da futura revista Communio. A segunda citação pertence ao prefácio escrito por Ratzinger para a edição de 2000, da sua obra «Introdução ao Cristianismo» (Tübingen 11967).

Diz-se, do menino Joseph R., ter presenciado o seu pároco a ser açoitado pelos nazis, antes desse pároco começar a celebração da Santa Missa… Este menino, filho de um comissário de polícia [Joseph Ratzinger, 1927-2020], fora marcado pela infância instável, acanhada e traumática do ambiente conservador do campo onde viera ao mundo, ou seja, muito longe da oferta cultural sempre provocadora e estimulante da urbe. Encravado na fronteira sul da Alemanha, junto à Áustria, o jovem Joseph, quando chega a Munique para dar assistência às antiaéreas da II Guerra Mundial, reconhece que, vindo da «província», chegara ao «novo mundo» bem preparado em latim e grego é certo, mas desprovido dos «novos horizontes» dos seus outros colegas. É assim que, desde cedo, se revelou uma pessoa insegura, carente de um apoio delicado, mas acalentador de um sonho com laivos de alguma grandiosidade.

Joseph, o mais novo de três filhos, solitário e possuidor de uma mente brilhante, recorda-se ter nascido muito perto de um Santuário Mariano (Altötting) − lugar de peregrinações da Baviera e da Áustria ocidental − porque aí se beatificara e canonizara um “santo irmão-porteiro”, Conrad de Parzham. Refere-se a isso, nas suas Memórias, com estas significativas expressões: «estes “pequenos” santos pertencentes a um tempo que me comove muito» («Mi Vida – Recuerdos 1927/1977», Ediciones Encuentro; daqui em diante: MV). Deste período da sua infância-juventude, Joseph regista, apenas, grandezas majestáticas, fontenários nobres, catedrais, igrejas altivas, coadjutores canónicos, igrejas paroquiais como pequenos castelos, igrejas monacais barrocas, e, em especial, o «Santo Sepulcro» que se enfeitava pela Sexta-Feira Santa e Domingo de Páscoa e que «nos ajudava a sentir-nos mais próximos do mistério da morte e da Ressurreição e a entendê-los com os nossos sentidos internos e externos, muito previamente a qualquer intento de compreensão racional» (MV). No alto da colina estava a capela de Ponlach, «um amoroso santuário barroco», donde se avistava o vale de Salzach. Cá em baixo, viveria na casa da gendarmeria, «uma das casas mais belas da Praça Maior» da cidade: a casa havia pertencido ao Capítulo dos Cónegos. O dormitório fora, em tempos, a Sala Capitular. «Para nós, ainda crianças, tudo isto era absolutamente misterioso e excitante». Quando, nos finais de 1932, a família de Joseph decidiu mudar-se de Tittmoning para Aschau, ocuparam uma casa de polícia «com um pequeno jardim dianteiro e um belo cruzeiro que dava para o caminho e para um prado». Joseph confessa que aí lhe «faltava a grandiosidade da pequena cidade de onde viemos e da qual estávamos muito orgulhosos». «A graciosa igrejita neogótica [de Aschau] não resistia à comparação com tudo aquilo que havia onde acabávamos de chegar». Foi nesse período de tempo que «nos caiu em cima da cabeça a pesada História: Hitler é eleito Chanceler do Reich!». Curiosamente, deste tempo, Ratzinger nada regista, no seu diário, em matéria de escola e brincadeiras de crianças, mas descreve e regista com uma surpreendente minúcia todos os pormenores quanto a ‘tratados concordatários’, ‘convénios Igreja-Estado’ em matéria de escolas confessionais, a ‘ideologia do Führer’ e a actividade confiada ao Professor Mestre-Escola (organista, director do coro da Igreja e professor de Bíblia), bem como ao Pároco, e tudo isto envolto num rigor antropológico e sociológico que assombra, para uma criança que ainda o era… Nas suas memórias, Joseph Ratzinger nunca menciona os nomes dos seus irmãos; diz apenas, «meu irmão» e «minha irmã»… Sabemos, porém, que se chamavam Georg e Maria. Por essa altura, a irmã e o irmão começavam as suas “carreiras” religiosas. Estava-se em 1935. Em 1937, a família abandonava Aschau.

De Traunstein, local da sua nova habitação e do início do Bacharelato em Clássicas, ficar-lhe-ia retido na memória o forte impacto da Liturgia e da Cultura Greco-latina, aí absorvidos. Nunca mais, ao longo da sua vida de teólogo famoso, admirado, deixaria de mencionar a importância da Liturgia e do Latim… apesar de um abade de um Mosteiro beneditino, em Beuron (de seu nome Anselm Schott; finais do século XIX), já ter posto a circular a sua tradução do Missal em Latim para a língua alemã, tradução que Anselm fazia o favor de oferecer aos paroquianos. E aos Ratzinger’s, também.

Perante este pano de fundo infanto-juvenil, não é por demais fantasioso imaginar que Joseph R. aprendera a manejar a prudência da fala, o calculismo das deslocações e um sorriso sardónico como se fossem ferramentas que o poderiam no futuro levar a viver (e realizar?) aquilo que ele via, melancolicamente, como “um passado grandioso”: infância, juventude e cristianismo. Passado glorioso já, então, ameaçado, mas que ele se propunha agarrar e levar adiante. Refere, nas suas Memórias, que nasceu em dia de Sábado Santo (Sábado Pascal) e que fora baptizado no dia seguinte (Domingo de Páscoa) com a Nova Água, o que releva de um espírito de presumido predestinado… ou (desde logo?) bento.

Joseph Ratzinger nasceu em 1927. Foi ordenado presbítero em 1951 (24 a.). Em 1953 (26 a.) formou-se em teologia com uma dissertação sobre o tema: "Povo e Casa de Deus na Doutrina da Igreja de Santo Agostinho". Em 1957 (30 a.) fez a livre docência com o conhecido professor de teologia fundamental de Munique, Gottlieb Söhngen, com um trabalho sobre: "A teologia da história de São Boaventura". Depois de um cargo de dogmática e de teologia fundamental na Escola Superior de Freising, prosseguiu a sua actividade de ensino em Bonn (1959-1969). A convite do decano da universidade Hans Küng e através de um “concurso à medida”…, Ratzinger é nomeado professor de dogmática e história dos dogmas para a Universidade de Tübingen (1966-1969). A partir de 1969 foi professor de Dogmática e de História dos Dogmas na Universidade de Ratisbona (42 a.), onde desempenhou também o cargo de Vice-Reitor da Universidade. A sua intensa actividade científica levou-o a desempenhar importantes cargos no âmbito da Conferência Episcopal Alemã e na Comissão Teológica Internacional. É ordenado Arcebispo de Munich e Freising em 1977 (50 a.) e de imediato Cardeal em 27/06/1977 (50 a.). Foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em 1981 (54 a.). A 15 de Fevereiro de 1982 renunciou ao governo pastoral da Arquidiocese de Münster (em português, Monastério) e Freising. A 5 de Abril de 1993 foi chamado a fazer parte da Ordem dos Bispos (66 a.) e tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Velletri-Segni. No dia 6 de Novembro de 1998 foi nomeado Vice-Decano do Colégio Cardinalício e a 30 de Novembro de 2002 tornou-se Decano (75 a.): tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Ostia. É eleito Papa a 18 de Abril de 2005 com o nome de Bento XVI (o Papa mais velho a ser eleito nos últimos 275 anos e o primeiro alemão a ser chefe da Igreja a seguir ao Papa Victor II − bispo de Eichstädt − que pontificou entre 1055 e 1057…). A partir de 28 de Fevereiro de 2013 é “Papa emérito”, por renúncia ao cargo.

O seu percurso biográfico decorre do seu percurso espiritual (e vice-versa) e isso poderá ser sintetizado assim: aferrado de modo ascético ao mistério de Jesus Cristo através da oração, da liturgia e do crucifixo, e, tudo isto, submetido ao “critério de verificação” supremo que é a Tradição da Igreja (Padres da Igreja e Doutores da Igreja). A sua imagem de Igreja é aquela que «encontra no septenário sacramental a realização completa da lógica da encarnação e, ao mesmo tempo, o renascer contínuo no coração da pessoa» (A. Scola, in MV). O conceito «A Tradição» seria «o património espiritual definido desde o início» do cristianismo («Introdução ao cristianismo», Principia, p. 37, Nota 6). Continuo a citar A. Scola: «No sacramento dá-se, com efeito, a contemporaneidade entre ‘a verdade eterna’ que é Deus e a ‘natureza dramática’ (ou seja, finita, mas capaz de infinito) que é o homem». É por isso que o sacramento da Eucaristia, como símbolo hierático supremo, tem um peso espiritual, eclesiológico e teológico inexcedível para Ratzinger. Todo o seu labor teológico arranca daqui e aqui regressa.

É certo que, em Tübingen e ao lado de 1 322 teólogos e teólogas, assina a Declaração pela Liberdade da Teologia, um apelo público redigido no essencial por Hans Küng. Também apoia, em 1969, a declaração de Tubinga (redigida pelo canonista Neumann e outros) sobre a eleição dos bispos, em que, entre outros aspectos, se prevê um limite de 8 anos para o respectivo exercício episcopal. Mas o que é certo é que, apesar disso, Ratzinger decide abandonar a Universidade de Tubinga, retirando então a sua assinatura desta última declaração: a pensar, já, na sua futura carreira eclesiástica ou, como depois justificou, “por ter sido pressionado”? (H. Küng sempre negou tais pressões… e sugeriu que Ratzinger sentiu-se fortemente pressionado pela contestação estudantil universitária como a pior das pressões psicológicas que jamais enfrentara)

«Ratzinger não alinhava com maiorias ‒ mantinha seu espírito crítico ‒, mas certamente não era ele quem procurava polémicas e confrontos com seus colegas. Por índole, não era um pugilista, não gostava de partir para o combate, fugia das rixas académicas. Não pensava realmente em assumir o papel de ‘bastião contrário’ que organizaria a resistência diante da deriva que aumentava. O facto é que nos anos de Tübingen não se registaram conflitos evidentes entre Ratzinger e o resto do corpo académico docente, o qual inclusivamente o escolhera como decano.» (Gianni Valente, «1966-1969. Os anos difíceis em Tübingen»)

Porém, nas suas memórias é por demais evidente o trauma da sua estadia em Tübingen, marcada pelos efervescentes trabalhos Conciliares de 63-65 e pela contestação estudantil de Maio de 68 (Cf. capítulo «Münster y Tubinga», MV, p. 109ss). Diz Ratzinger: «Crescia cada vez mais a impressão de que na Igreja não havia nada de estável, que tudo podia ser objecto de revisão. O Concílio assemelhava-se a um grande parlamento eclesial, que podia mudar tudo e revolucionar cada coisa a seu bel-prazer. Era mais do que evidente que crescia um ressentimento contra Roma e a Curia, os quais surgiam como os verdadeiros inimigos a fazerem frente a qualquer tipo de novidade e progresso. (…) Pouco a pouco, as tensões e as divisões, que eram atribuídas ao Concílio, começaram a tomar forma também no interior da nossa paisagem eclesial [alemã]. Acontece que aqui, na Alemanha, tinha começado um processo muitíssimo mais radical e profundo.» (MV, p. 110).

Mais adiante, no seu registo de memórias, Joseph Ratzinger elabora sobre o processo de mudança que o levou de Münster para Tübingen acabando por concluir que se havia equivocado totalmente, pois o ambiente que ali fora encontrar era de altíssimo nível teológico, mas também de alta tensão, em matéria de contestação e de «polémica estudantil» (crítica política e teológica). «E eu não estava nada habituado a uma coisa destas!» (MV, p. 113).

Culpados? Joseph Ratzinger não tem papas na língua. Não foi Ratzinger que falhou por ser incapaz de enfrentar as teses inovadoras dos alunos e dos teólogos, fossem católicos ou evangélicos: foram os outros que «mudaram». Não fora ele que fracassara diante deste mundo em efervescência que irrompia: foram os outros que traíram a Tradição. Na época em que chegara a Tübingen, «o modelo de pensamento dominante assentava na teologia de Bultmann e na filosofia de Heidegger. Subitamente, como da noite para o dia, o esquema existencialista desmoronou-se e foi substituído pelo esquema marxista. Ernst Bloch leccionava em Tübingen e as suas lições denegriam Heidegger, catalogando-o de pequeno-burguês. Praticamente coincidindo com a minha chegada a Tübingen, ‒ escreve Ratzinger ‒, foi chamado, à faculdade evangélica de teologia, Jürgen Moltmann, que no seu fascinante livro “Teologia da esperança” repensava a teologia a partir de Bloch. O existencialismo desintegrava-se completamente e a revolução marxista alastrava por toda a Universidade, sacudindo-a até aos alicerces. Até essa época, sabia-se que as faculdades de teologia seriam baluartes contra a tentação marxista. Agora, sem dúvida, sucedia justamente o contrário: convertiam-se no seu verdadeiro centro ideológico.» (MV, p. 113) A ser assim, não restam dúvidas quanto ao impacto do embate que Tübingen representou para este bávaro reservado, não viajado e desde a infância traumatizado.

Apesar de à época ser o decano da faculdade de teologia de Tübingen, Ratzinger acabou por aceitar o insistente convite para ir leccionar em Ratisbona: «queria escrever a minha teologia num contexto menos agitado e não queria estar implicado em contínuas polémicas». «Naturalmente, os ecos da revolta marxista também se fizeram sentir na nossa jovem “Alma Mater” (…) Mas a Universidade [de Ratisbona] rapidamente conseguiu regressar à sua própria fisionomia [ganha agora sentido a expressão de Ratzinger ‒ «Para mim, o do costume» ‒ com que eu abro este meu texto biográfico sobre J. R., resposta pronunciada no restaurante onde sempre almoçava na cadeira e na mesa do costume e onde, da Carta, sempre escolhera o mesmo ‘prato’: «o do costume» - sabe-se que era uma mariscada], ou seja, a Universidade de Ratisbona conseguiu nomear professores de grande valia, a tal ponto que, ali nas margens do Danúbio, rapidamente se forjaram grandes amizades fora dos limites da faculdade. (…) Os primeiros anos em Ratisbona coincidiram com uma série de acontecimentos determinantes. O primeiro deles foi a minha chamada para fazer parte da Comissão Teológica Internacional [a convite do Papa Paulo VI]» (p. 118)

Mas… (recorda H. Küng) «após a eleição de Karol Wojtyla como Papa, a 16 de Outubro de 1978, todas as esperanças conciliares reformistas (p. ex., as propostas do cardeal Suenens − Bruxelas-Malines), tiveram definitivamente de ser “encaixotadas” e postas na prateleira. Com João Paulo II entra em cena um Papa para quem a Acção Católica não desempenha papel algum, um Papa que desde o primeiro momento aposta sem qualquer dúvida nos «novos» movimentos carismáticos, que lhe devotam submissão absoluta. Quanto aos seus fundamentos, trata-se de movimentos conservadores, que não manifestam interesse algum pelas “reformas internas” da Igreja apontadas pelo Concílio, mas apenas pela “evangelização”, melhor dito, pela “catolicização” de um mundo que se desinteressou de Deus. Para esses movimentos ditos «novos», o Vaticano II não conta; basta-lhes ter um líder espiritual a quem aclamar, mesmo que nunca se tenham preocupado em conhecer a fundo os dogmas e muito menos pratiquem a doutrina moral desse líder. Em 1981, organiza-se em Roma um grande congresso internacional desses movimentos, para o qual a Acção Católica nem sequer é convidada. Estes movimentos, estabelecidos sobretudo nos países da Contrarreforma – Itália, Espanha, Irlanda e Polónia −, acudirão, no futuro, em massa, às grandes manifestações papais e arrastarão muitos curiosos, buscadores de sentido e simpatizantes. Por exemplo, no dia da juventude celebrado em Berna, em Junho de 2004 (a última visita de João Paulo II à Suíça), formam, com as suas bandeiras, coortes facilmente perceptíveis, as quais − de forma atípica, para a mentalidade Suíça − acompanham com frenéticos aplausos cada frase do Pontífice. Também, na Jornada Mundial da Juventude celebrada em Colónia, em Agosto de 2005, serão esses Movimentos os eleitos para dar as boas-vindas logo no aeroporto – aos gritos de «Benedetto!!! Benedetto!!!» lançados em uníssono – ao sucessor de Wojtyla, Joseph Ratzinger, como que para dar a ideia de que «os jovens» pura e simplesmente estão uma vez mais e de novo com o Papa. Acontece que, por trás do Papa, age a toda poderosa Opus Dei. Enquanto a Legião de Maria ainda procura chegar a todos ‒ incluindo os marginalizados e os desgraçados, como é o caso das prostitutas ‒ a Opus Dei dirige-se conscientemente aos poderosos da política, aos banqueiros, aos meios de comunicação social e às universidades. O eficaz coordenador do poder papal, do poder económico e do poder mediático de todos estes dispendiosos eventos mundiais é o diretor do Gabinete de Imprensa do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, um homem da Opus Dei.» («Verdad controvertida», Hans Küng, Trotta 2009, p. 362)

Entretanto, acontece algo com impacto mundial. O Papa João Paulo II sofre dois atentados seguidos: alvejado, a tiro, a 13 de Maio de 1981 em Roma e, de novo, numa segunda tentativa (pelo padre Juan Fernandez Krohn, munido de uma baioneta), a 12 de Maio de 1982, em Fátima (Portugal). O chefe da Igreja mais numerosa do mundo e a própria Igreja estavam de rastos. Impunha-se um milagre: um gesto ousado, algo muito forte que permitisse recuperar a imagem divina da sua Missão no mundo e, ao mesmo tempo, manter de pé o anteriormente estabelecido “modelo polaco” de evangelização. O projecto de Karol Wojtyla assentava na conversão da cristandade ao Coração de Maria, de quem, afinal, recebera a respectiva indicação: um forte sinal dos céus fora-lhe dado, de uma maneira misteriosamente mariana, por uma bala, a 13 de Maio, o ponto alto das Aparições marianas em Portugal. De quem se iria lembrar, a Curia, para ajudar a reerguer esta Igreja ferida e o seu confiantíssimo Papa, agora totalmente fragilizado?

É evidente que havia chegado ‒ finalmente ‒ a hora do brilhante, prestigiado e ‘renovador’ teólogo conciliar, Joseph Ratzinger. Tudo parecia ter o dedo de Deus e de Maria. Não apenas a Congregação para a Doutrina da Fé como o futuro de toda a Igreja católica iria, inevitavelmente, passar pelo alemão Joseph Ratzinger, de modo a que o governo da Igreja não desse sinais de fraqueza e, ao mesmo tempo, se reforçasse a fé na Tradição, uma fé de contornos medievais possuído de imagéticas inadmissíveis para o nosso século (Dogma da Imaculada Conceição − 1854; dogma da Infalibilidade Papal − 1870; «Munificentissimus Deus» ‒ dogma da Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma ao Céu – 1950; o gesto de Bento XVI que ‘beija o sangue’ do falecido papa polaco, etc. etc. etc.).

A teologia dogmática de Ratzinger era mais do que conhecida. Assentava que nem uma luva na estratégia de João Paulo II, na medida em que ela também partia de um método a-histórico e a-crítico revelando uma preferência pela cristologia joanica, pretextos mais que suficientes para um entendimento cruzado com os dogmas conciliares de Niceia (séc. IV) e de Calcedónia (séc. V), armação que permitia que o Jesus da história se dissesse ‘da mesma natureza que o Pai’ («homoousius»). Os indícios de sucesso eram, à partida, titulados como ‘muito bom’ ou ‘excelente’.

A pastoral implícita no “modelo polaco” (que também pedia que ‘não se pense, mas se sinta’ … «com os sentidos internos e externos») era conforme com a particular relação de Ratzinger com as questões históricas: ela remetia para aquela confissão de fé que os cinco primeiros séculos helenistas conformaram, altura em que a teologia dogmática adquiria a sua forma clássica. Deste modo, esta dogmática ‒ que irá entrar e em força ao serviço ‒ inspirava confiança, estabilidade e oferecia um novo impulso à Instituição romana. Joseph Ratzinger é alemão e é um grande teólogo (porém, em nada superior a Juan Luis Segundo, Karl Rahner, Karl Barth, Henri De Lubac, Teilhard de Chardin, Hans Küng, Edward Schillebeeckx, Ignacio Ellacuría, Gustavo Gutiérrez, etc. etc. etc.). Ratzinger é o preferido de Karol Wojtyla. O espírito renovador do Concílio Vaticano II poderá esperar, enquanto a cadeira da Congregação para a Doutrina da Fé não for ocupada pelo “partido alemão”, o garante da consolidação teológica do “modelo placo” de evangelização. Urge, então. Não há tempo a perder. A “restauração” estará prestes a entrar em marcha. Três anos apenas após a nomeação de Karol Wojtyla como Papa (1978), Ratzinger é nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981). Em 1984, J. Ratzinger dá uma extensa entrevista em que expõe o seu ideário. O jornalista V. Messori, regista as ideias de Ratzinger; o historiador G. Zízola lê-as e comenta-as:

«Agora [cf. a entrevista «Perché la fede è in crisi»], Ratzinger reconhece tranquilamente e sem-papas na língua, que, de facto, do que se trata é mesmo de “restauração”: “Se por restauração – diz ele – se entende uma volta atrás, então não é possível restauração alguma: a Igreja caminha para a frente rumo à consumação da História; ela tem o olhar virado para a frente, para o Senhor. Mas, se por restauração, entendemos a procura de um novo equilíbrio, passados os exageros provocados por uma abertura indiscriminada ao mundo e passadas as interpretações demasiado positivas de um mundo agnóstico e ateu, então, certamente que essa restauração é desejável e, na verdade, já está em marcha”».
Diz Ratzinger: «Os resultados que se seguiram ao Concílio parecem opor-se cruelmente às esperanças de todos, começando pelas do Papa João XXIII e, depois, pelas de Paulo VI. Os cristãos voltaram a ser minoria, o que já não se via desde os fins da Antiguidade. (…) Temos de ser realistas.» (V. Messori, «Informe sobre la fe», BAC, 2005, pp. 35 e 45).

«O cardeal faz um balanço inteiramente negativo do Concílio. Diz ele: “Esperava-se uma nova unidade católica e deparamo-nos com o dissentimento, o qual, para usar as palavras do Papa Montini, parece ter passado da crítica à autodestruição. Tínhamos a expectativa de um salto para a frente e deparamo-nos com um processo progressivo de decadência”. E acrescenta: “O problema dos anos sessenta era poder dar como adquiridos os melhores valores expressos pelos anteriores séculos de cultura ‘liberal’. Sem dúvida que existem valores que, embora nascidos fora dos muros da Igreja católica, podem nela encontrar um lugar – desde que depurados e corrigidos – dando o seu contributo para uma visão do mundo. Até certo ponto, foi isto que aconteceu. Porém, chegados a este momento, verificamos que o clima é totalmente diferente: piorou muito, sobretudo no que diz respeito às razões para o optimismo que o antecedeu, optimismo talvez ingénuo. Impõe-se agora, portanto, procurar novos equilíbrios”.»

«Tudo aquilo que, na Igreja, vá no sentido do pensamento divergente, no sentido do ‘fragmentário’ que procura a reconquista das próprias raízes e o sentido das culturas plurais, as identidades históricas, representa, aos olhos do responsável pelo ex-Santo Ofício, um perigo imediato. Nem as teologias latino-americanas da libertação nem as africanas nem as asiáticas, que no horizonte católico estão a surgir com crescente autonomia e consciência de si, se livram de riscos: “O perigo está – diz Ratzinger – em que, em nome de uma negritude de contornos incertos, seja esquecida a unidade católica”. Se o catolicismo se descentra do modelo e se reveste de multipolaridade, Ratzinger impõe-lhe a necessidade de um centro: “A fé fracciona-se numa série de escolas e correntes. Saiu derrotado o serviço à verdade que o dogma garantia. Certas tendências parecem indicar que algumas inculturações ou indigenizações apressadas poderiam conduzir, o catolicismo que agora conhecemos, a novas religiões”.

«O protesto de Ratzinger vai ao ponto de incluir todo o potencial do pensamento religioso divergente, graças ao qual o catolicismo se vai tornando multiforme e a sua universalidade se vá conformando como ‘multiversalidade’ [no original, “multiversalità”, termo que expressa o sinal de que o cristianismo sempre esteve aberto à diversidade de culturas dos povos com quem contactou pela primeira vez…]. Aquilo que à partida parece disseminado através de buscas plurais de identidade, o que tende a conformar-se e a crescer sobre as raízes, sobre a terra da história e a partir da cultura de cada um é, por isso mesmo, considerado como uma ameaça para o modelo que se quer exportar. Ratzinger faz uma leitura dogmática (e à defensiva) destes novos níveis de pluralismo que o catolicismo vai tentando conquistar com muito sacrifício; Ratzinger faz uma leitura dogmática e à defensiva desta variedade de mediações que surgem em sintonia com as culturas dos povos com que partilha a vida do dia-a-dia. Esta mesma realidade, porém, tinha sido lida há bem pouco tempo de um modo positivo pelo teólogo Karl Rahner, o jesuíta a quem muitos consideravam o maior pensador católico do século XX. “A Igreja una do futuro – disse Rahner, numa entrevista em 1984, um ano antes de morrer, a G. Zízola – não será naturalmente a Igreja romana católica na forma em que actualmente existe. E essa Igreja una do futuro terá um pluralismo legítimo, um pluralismo maior que aquele que existia e ainda existe no catolicismo italiano actual. Na perspectiva dum maior pluralismo do futuro, o pluralismo actual das confissões cristãs não está tão distante assim desta Igreja una do futuro” (K. Rahner, «Se vedessi Reagen gli direi che non sono d’accordo», entrevistado por Giancarlo Zízola em «Panorama Mese», Setembro de 1984, p. 55).

«Acontece que é precisamente essa teoria de Rahner aquela que, sem a nomear, constitui, para Ratzinger, o objecto da sua crítica cardinalícia: a tese do “cristianismo anónimo” e, por conseguinte, a possibilidade de salvação reconhecida para lá das muralhas institucionais. Essa teoria “foi demasiada vezes repetida”, diz o cardeal. Por sua vez, ele deplora que “se tenha chegado a dizer que a Graça intervém sempre quando alguém não crente em religião alguma ou um seguidor de uma religião qualquer se aceite a si mesmo como Homem […]. Glorificaram-se, igualmente, os valores das religiões não cristãs, que alguns teólogos apresentam como vias ordinárias em vez de extraordinárias de salvação”. Se o Concílio tinha reconhecido as religiões não cristãs como um caminho da Graça, Ratzinger não duvida em liquidá-las como “regimes de terror”, instrumentos de satanás. O protocolo cultural − digamos, a epistemologia −, que determina o discurso é o mesmo de Bonifácio VIII: «Extra Ecclesia nec salus est nec remissio peccatorum» («Unam Sanctam», 1302).

«O estatuto da restauração revela-se, pois, inteiramente enquadrado numa filosofia do saber que se desenvolve sobre modelos centrados em e na dependência de Hegel. Poder-se-ia, inclusivamente, falar de uma «ideologia alemã» a partir de uma matriz ou contexto eclesiástico. A Igreja de Ratzinger ainda não chegou aos calcanhares de Karl Popper. O seu realismo actual parece reabsorver todo o determinismo de que a ciência se vai libertando, com a crise da imanência positivista.

«O “pensamento convergente” do cardeal tem como paradigma de fé a teologia euro-romana que se formou nas margens do Mediterrâneo, tendo deixado de lado uma variedade bastante vasta de investigações, perguntas e perspectivas plurais da revelação judeo-cristã. Este paradigma é contraposto aos fermentos do imaginário e às produções simbólicas que pululam no âmbito cristão da Ásia, da África e da América Latina, precisamente quando a Igreja começa a libertar-se da hegemonia política (exercida pelas elites e pelos latifundiários) durante séculos sobre esses povos, para, enfim, começar a mergulhar na massa e a fazer um caminho de “experiência popular”.

«Quando Ratzinger fala de «fragmentação» coloca imediatamente no centro da sua simbólica argumentativa uma espécie de “epistemologia do obelisco”, o supersistema total, a gigantesca ‘escada para o céu’. Ratzinger evoca a chave do segredo do Mundo, a ideia de uma verdade exclusiva e separada, monolítica, mas, no entanto, capaz de ser possuída, dominada, um centro gravitacional do espírito mundial: a cúpula como lugar messiânico. Diante da nossa insistência para que ele clarifique melhor o significado dessa ‘restauração’, o cardeal esclarece: «Se a expressão “restauração” for entendida no seu sentido originário, ou seja, como recuperação dos valores perdidos no seio de uma nova totalidade, então, eu diria que essa é precisamente a tarefa que hoje se impõe, neste segundo período do pós-concílio».

«(…) o surgimento do livro «Introdução ao cristianismo» representa uma viragem – no sentido da involução – na trajectória de Ratzinger. Abandona a revista «Concilium» e participa na fundação da revista teológica «Communio», mediante a qual reforçará o seu vínculo a um círculo político-religioso retrógrado. Em 1971 as suas obras já se encontravam no catálogo da Jaka Book, a editora milanesa vinculada aos meios ligados a «Comunhão e Libertação» e a importantes fundações culturais da Baviera straussiana. Ratzinger assume um distanciamento formal face às teorias de Karl Rahner e declara as suas reservas quanto ao desenvolvimento de uma teologia ecuménica.

«Em 1975, dez anos após o encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, promulga oficialmente − aquando de um debate, em Munique, organizado pela «Communio» − os pontos-chave da restauração: constituem a magna carta do avanço dos retrógrados da Igreja. “Uma reforma real da Igreja – diz Ratzinger – pressupõe um abandono total dos caminhos equivocados, que, entretanto, conduziram a consequências indiscutivelmente catastróficas”. Partindo de uma distinção entre “Concílio” e “anti-Espírito” do Concílio – distinção formulada pela primeira vez precisamente aqui, neste Debate – o teólogo afirma que “é preciso trabalhar de modo que seja separado o espírito (ou seja, o Concílio vivido na sua essência espiritual e teológica) do anti-espírito”.»

«Para que tal programa possa ser realizável, Ratzinger indica algumas intervenções bem precisas: em primeiro lugar, uma revisão da reforma litúrgica. “Devemos opor-nos muito decididamente contra tudo o que se tem feito até hoje numa submissão ao esmagamento racionalista, aos discursos moles e ao infantilismo pastoral, que degradam a liturgia ao nível dos homens do campo e que a procura reduzir ao nível do comic. Igualmente, as reformas já efectuadas, especialmente no que diz respeito ao ritual, devem ser reexaminadas uma vez mais, a partir destes pontos de vista”». (fim dos excertos de «La restauración del Papa Wojtyla», por Giancarlo Zízola, Ediciones Cristiandad)

Por fim, Ratzinger afasta-se: abdica da cadeira de Pedro. Creio que Bento XVI «sai» duplamente vitorioso: com a sua renúncia, vê-se livre das dores de cabeça do cargo papal (do mesmo modo como sempre soube ver-se livre das “confusões”…) ao mesmo tempo que, com a sua obra teológica surpreendente - porque inesperadamente arredada da orientação sugerida pelo Concílio Vaticano II -, une à sua volta uma mole incomensurável de “hier-arcas” saudosistas, arraia miúda e graúda fascinada, uma multidão imensa de fiéis que à roda do Planeta adoravam o seu "Deus Fabuloso" capazes de fazerem frente ao "Deus de Compaixão Humana e de Denúncia Profética" do Papa Francisco. Lembremos que, já bem para lá dos noventa anos - e vizinho “emérito” na porta ao lado do seu sucessor (Francisco) -, foi capaz de se "bater" contra a eventualidade da abolição da obrigatoriedade do celibato sacerdotal. (“«Des profondeurs de nos cœurs»: les explications du cardinal Sarah”, Aleteia.fr, 14/01/2020)

Ratzinger possuía uma mente brilhante e delirante. A amálgama terminológica e a hermenêutica neoescolástica sempre lhe deram jeito. Estou profundamente convicto de que hoje em dia ninguém será capaz de entender o que Ratzinger se esforçou por explicar ao longo das páginas 101-122, sob o título «As mulheres. Uma mulher» no livro «Informe sobre la fe» de Vittorio Messori (Madrid, BAC Popular, 2005). Estas elucubrações ficarão para a História de um catolicismo delirante, em pleno século XX (ex.: «Ao afirmarmos que a diferença sexual é uma realidade secundária e, portanto, negando o próprio corpo como encarnação do Espírito num ser sexuado, despojamos a mulher não só da maternidade, mas também da livre escolha da virgindade, e isto, tendo em atenção que o homem não pode procriar nem pode ser virgem a não ser “imitando” o exemplo da mulher virginal. Por esta via, a mulher assumiria um altíssimo valor de “signo” e de “exemplo” para o resto da humanidade»). Só uma mente brilhante e delirante como a do teólogo bávaro para nos fazer voar tão para lá das nuvens...

J. Ratzinger renunciou ... mas não renunciou ao combate pela “religião vinda do alto”. É que um “padre” não é apenas vigário de Cristo feito Homem: é vigário de Deus! E Deus é para Bento XVI uma “norma do alto” que fica acima do “aberto”, uma espécie de ‘Santo Agostinho de uma única cidade’, a Cidade de Deus, e que, por isso, «está contra todas as outras cidades» (cf. ideia, defendida pelo teólogo Ratzinger, de que os cristãos − caso se assumam em pleno − têm de «estar sempre contra o mundo»). Para o teólogo bávaro, a encarnação só se realiza no hierático sacerdotal: tudo o que há de Mistério Divino pára nessa linha vermelha que tudo separa … porque, em “Religião”, sem separação e distinção não há nem Identidade divina nem partícipe da Santidade. Com Ratzinger, a “casta sacerdotal” reabilitou a Tribo de Levi. Para Ratzinger, a Distância faz de mediação, assim como a lonjura estranha a Compaixão imanente, o Ritual mascara ‘Deus-Pai-e-Mãe’ e o Começo (archè) faz de Fim (thelos).

«A história mostra como este “poder tão especial” (divinal) diante dos homens se auto-protege e se defende através de mil instituições humanas religiosamente justificadas, como é o caso da “casta”, da “família sacerdotal“ e dos sistemas de não-transferibilidade que asseguram que ninguém possa apropriar-se dessa ‘honra’ a não ser que seja “eleito” (ordenado) pela Divindade. Estas instituições não assentam apenas numa lógica de “desejo sincero de pureza religiosa”, mas também porque o tipo de poder sacerdotal nelas implicado arrasta toda uma série de vantagens materiais. S. Paulo reconheceu o direito dos ministros veterotestamentários a «viver do altar» (1 Coríntios 9, 13: «Não sabeis que aqueles que desempenham funções sagradas vivem dos proventos do templo, e os que servem ao altar participam do que se oferece sobre o altar?»). Aristóteles afirmou que a metafísica podia ter nascido no Egipto, porque ali os sacerdotes tinham uma vida mais que garantida… E, nesta linha, quem hoje for visitar as ruínas de Teotihuacan, no México, verá que as ruínas melhor conservadas são as casas dos sacerdotes (as que estão mais perto das pirâmides), precisamente por terem sido as mais escrupulosamente bem construídas…» (J. I. González Faus, «Hombres de la Comunidad», p. 13)

O ritual da ordenação, em si, não reveste ninguém de santidade divina para sempre nem pode obrigar a separar. A santidade divina é uma tarefa universal e para toda a vida de todos os seres humanos, sejam eles baptizados ou não; ela nunca está garantida. Foi por ter assumido tudo isto que Jesus foi crucificado. Com o seu resgate por parte do Pai de Compaixão, introduziu-se no Mundo a relatividade, a perturbação insegura do ser-cristão e a paz daqueles que depositam toda a confiança numa Vida Íntegra, nunca coberta por apólice espiritual alguma.



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Em conclusão: foi esta a tentativa tedesco-polaca de reversão do «errado» espírito conciliar, que «visou corrigir os teólogos progressistas marxistas e até o próprio Jesus…» − como reza a célebre anedota curial. A religião mais antiga do mundo é, de facto, o polimento do eterno até que o eterno fique imóvel a brilhar num esplendor que é só seu. Foi esta a tentativa de restauração-na-contramão levada a cabo pela dupla Wojtyla-Ratzinger. Depois do sobressalto que o Concílio trouxe, esta tentativa acabou como acabou: com um cisne a cantar o seu canto no fundo de um abismo de pessimismo.



Paulo Bateira

Nota - A expressão “paradigma ascético-estático” devo-a a Juan José Tamayo