teologia para leigos

18 de outubro de 2011

PARA SAIR DA CRISE 1/8

por onde começar?

1/8



[Pretende-se juntar duas ou três ideias a fim de começar um processo de busca e organização de uma «saída para a crise», o qual poderá muito bem ser apenas uma «busca contínua» e não apenas uma «simples saída» definitiva. Rejeita-se qualquer tipo de «regresso mimético ao passado». Os textos que se seguem são apenas a publicitação desse ziguezaguear em torno das questões nucleares. Deseja-se que vá no sentido de uma construção positiva que não absolutize um idílico ‘ponto-Zero’ qualquer, a partir do qual seria − então finalmente! − possível enterrar o capitalismo em que vivemos e começar tudo de novo. Na ordem do dia está o debate entre «local» versus «global», que divide os que se preocupam pelo «por onde começar?». Mas, antes disso, uma breve introdução − «A crise como oportunidade?» − que a enquadre]



A crise como oportunidade?








«Existe uma enorme inércia − a tirania do status quo (…) Só uma crise − real ou imaginada − produz a verdadeira mudança. Quando a crise ocorre, as decisões que são tomadas dependem das ideias que estão disponíveis. Estou convencido que esta é a nossa principal função: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável. [Milton Friedman, Capitalism and Freedom, The University of Chicago Press, Chicago, (1962), 2002, p. 14]



Talvez Milton Friedman tenha caído na armadilha de muitos intelectuais públicos, sobrestimando o papel das ideias económicas nas respostas políticas às crises, reais ou imaginadas, por oposição à força dos interesses, onde se inclui, por exemplo, a força militar de Pinochet no Chile, um dos primeiros laboratórios para as ideias da sua escola de Chicago. No entanto, os economistas têm de agir como se as palavras de Friedman fossem verdadeiras e apresentar diagnósticos, independentemente da sua maior ou menor plausibilidade política imediata, concentrando-se na sua validade, na sua capacidade para identificar os mecanismos e processos reais, na construção de argumentos que sobrevivam a um escrutínio plural e, assim, ofereçam a esperança de que as coisas podem melhorar para a maioria dos cidadãos, de que é possível forjar alternativas que, como defendia Keynes, conciliem pleno emprego, justiça social e amplas liberdades.

A intervenção externa da chamada troika confronta, hoje, o país com um quadro prolongado de recessão, com o aumento do desemprego e das desigualdades, acentuando-se a erosão de direitos sociais e laborais e instituindo-se uma liberticida economia do medo.

A intervenção externa confronta, também, os economistas com as suas responsabilidades na criação de uma economia cada vez menos civilizada, cada vez mais desligada das pessoas, da vida comum e de um sentido de progresso colectivo. Em geral, a profissão não se tem saído nada bem.

No espaço público, multiplicaram-se os apoios, mais ou menos explícitos, de economistas ao que designam por «ajuda externa». Só por manipulação ideológica ou por ignorância do que se tem passado por exemplo na Irlanda e na Grécia se pode usar tal expressão para caracterizar um violento plano de austeridade como contrapartida de empréstimos europeus e do Fundo Monetário Internacional a taxas de juro elevadas e que exaurem a economia para salvar os credores financeiros nacionais e internacionais.

A ansiedade revelada perante as dificuldades reais da nossa economia transforma-se, para esses economistas, num profundo dogmatismo guiado pela sujeição da sociedade, dos indivíduos e dos grupos sociais mais desfavorecidos a um programa económico ortodoxo, centrado num entendimento limitado e opressivo do que é a economia.

Esta posição maioritária dos economistas é consistente com o seu apoio à austeridade recessiva dos sucessivos Programas de Estabilidade e Crescimento [PEC’s] apresentados desde 2010, com os silêncios ensurdecedores face à crise financeira iniciada em 2007 ou com a adesão acrítica à subversão da integração europeia desde Maastricht, talvez a melhor expressão institucional da vitória política dessa engenharia social dedicada ao reforço do poder financeiro a que se deu o nome de liberalismo económico e que está na génese da tripla crise europeia: crise económica, crise da dívida soberana e crise bancária. Uma tripla crise que ocorre numa paisagem europeia marcada pelo aprofundamento das fracturas socioeconómicas e políticas entre o centro e as periferias, que a especulação sem freios só acentua, expondo as fragilidades de uma Zona Euro sem governo económico digno desse nome.

José Reis e João Rodrigues
in «PORTUGAL E A EUROPA EM CRISE – Para acabar com a economia de austeridade»,
Le Monde diplomatique & ACTUAL [Grupo Almedina], p.11-12
ISBN 978-989-694-021-8