teologia para leigos

6 de março de 2012

PEDRO, PESCADOR OU CHEFE DE ESTADO?



Pedro, o pescador, ia à pesca de tiara



«Diz-se que, pelos lados do Vaticano, o gosto pela ostentação, pelos mantos, peles, rendas e luvas, pela pose e ritualismos ocos está a crescer a ritmos estonteantes com reflexos naturais em toda o orbe católico. Ou então cresce no orbe católico e concentra-se no Vaticano. Qualquer dos sentidos é um mau sinal. A recente celebração dos cardeais esteve cheia disso. Os títulos, eminências, reverências, dons, monsenhores, príncipes..., prestam-se a mostrar o que a igreja tem de pior: o desejo de poder, a distância da realidade mais comum. E as vestes, os barretes...


 

Se tivessem noção do ridículo, abandonavam-nos num instante. Mas em Roma, a monumentalidade da cidade e a diversidade da fauna eclesiástica atenuam a percepção do ridículo.



 
O que mais me impressionou, porém, foi terem vestido a estátua de S. Pedro (aquela que tem os pés gastos pelas mãos dos peregrinos e visitantes da basílica), com vestes de imperador (é preciso não esquecer que boa parte das vestes eclesiásticas é uma imitação do poder romano), anel e tiara. Provavelmente, a paramentação da estátua de Pedro é algo habitual nestas celebrações. E é mais difícil acabar com uma tradição do que resolver o défice português.

A tiara tem três faixas, por causa dos três poderes papais (ordem, jurisdição e magistério), mas é preciso notar que, historicamente, as faixas foram aparecendo com o desejo de poder dos papas medievais.

 Quando Paulo VI se desfez de uma das tiaras, quis dizer que o poder da Igreja é o serviço à humanidade. Não precisa de símbolos ambíguos.

Li num livro de Bento XVI (quis agora mesmo encontrar a citação, mas não dei com ela) que um dos teólogos medievais (Bernardo de Claraval?) escreveu uma carta a um pontífice que ainda agora os Papas lêem. Nela, pede-se ao Papa que se lembre que é sucessor de Pedro, um pescador, e não de Constantino, um imperador. A lição deveria ser aprendida por todos.»

Comunidade Cristã da Serra do Pilar
04:III:2012




Bernardo de Claraval

 
«Ontem falávamos de que tipo de bispos gostaríamos de ter para nos guiar ao longo do nosso caminho: não dos que temos na realidade. A nossa experiência está a léguas do que dizíamos, já que os que nos rodeiam hoje e adestram a Esposa [de Cristo] nem todos são amigos do Esposo. São muito escassos os que não buscam seus próprios interesses. Adoram prendas e não conseguem amar a Cristo, pois têm as mãos atadas pelo dinheiro. Reparem como se passeiam elegantes, esplendorosos, envoltos em tecidos como esposa que sai de seu tálamo… E donde julgas que lhes vem tal exuberância de coisas, tal resplendor de vestidos, o luxo de suas mesas, sua colecção de objectos de ouro e prata? É claro que procede dos bens da Esposa [A Igreja], a qual, por via disso, se vê desfigurada, em desalinho, pálida, insípida e com aspecto lamentável. Aquilo que eles fazem não é desposá-la, mas despojá-la. Não é conservá-la, mas deitá-la a perder. Não a compõem: a expõem! Não a constituem: a prostituem! Não apascentam o rebanho: sacrificam-no e comem-no…

O Profeta diz: ‘comerão os pecados do meu povo’, o que quer dizer: exigem dinheiro (pelas penitência) pelos pecados, sem sequer se preocuparem em emendar os pecadores. Aponta-me um bispo que não ande mais preocupado em esvaziar as bolsas que em despejar os pecados do povo.»

S. Bernardo de Claraval, “Sermão 77 sobre o Cântico dos Cânticos”; PL 183, 1155-56. [citado por J. I. G. Faus, ‘La libertad de la Palabra en la Iglesia y en la Teología’]


«Aquele em cuja cadeira estás é S. Pedro, de quem não há notícia de que jamais saísse vestido de sedas ou adornado de pedras ou coberto de ouro, nem em cavalo branco, nem rodeado de soldados, nem com um séquito de seguidores vociferantes. Já estás a ver: sem nada disto, Pedro pensou que seria capaz de cumprir bastante bem o mandamento do Senhor: ‘Se me amas, apascenta as minhas ovelhas’. Em tudo o que fica dito, tu não sucedeste a Pedro, mas a Constantino.

«Que sejas pastor de povos, mestre de analfabetos, os olhos dos cegos, voz dos sem-voz, báculo dos anciãos…, martelo dos tiranos…, sal da terra, luz do mundo, ungido do Senhor e até ‘Deus’ para os faraós…».

[ibidem, PL 182, 771-778; citado por J. I. G. Faus, ‘La libertad de la Palabra en la Iglesia y en la Teología’]

Cluny



Bernardo de Claraval

 
«Nascido numa grande família nobre da Borgonha, no castelo de Fontaine-lès-Dijon, Bernardo [1090-1153] foi o terceiro de sete filhos de Tescelin o Vermelho (Tescelin Sorrel) e de Aleth de Montbard. Com a idade de nove anos, é enviado para a Escola Canônica de Châtillon-sur-Seine, onde mostra um gosto particular pela literatura. Em 1112, (com 22 anos) decide entrar na Abadia de Cister, fundada em 1098 por São Roberto de Molesme, [cf. o romance ‘O NOME DA ROSA’, de Umberto Eco] e na qual Santo Estevão Harding havia acabado de ser eleito Abade. Convence vários amigos, irmãos e parentes a ingressarem com ele na vida monástica e chega assim com outros 30 candidatos para entrar na Abadia.

«Em 1115, Estevão Harding envia-o jovem à frente de um grupo de monges para fundar uma nova casa cisterciense no vale de Langres, em Ville-sous-la-Ferté. A fundação é chamada "Vale Claro", ou Clairvaux – Claraval. Bernardo é nomeado Abade desta nova Abadia, e confirmado por Guilherme de Champeux, bispo de Châlons e célebre teólogo.

«Os primórdios de Claraval são difíceis: a disciplina imposta por São Bernardo é bastante severa. Bernardo busca formação nas ‘Sagradas Escrituras’ e nos ‘Padres da Igreja’. Ele tem uma predileção quase exclusiva pelo Cântico dos Cânticos e por Santo Agostinho. O livro e o autor correspondem às tendências da época.




 
«Em 1119, Bernardo faz parte do Capítulo Geral dos Cistercienses convocado por Estevão Harding, que dá sua forma definitiva à Ordem. A Carta da Caridade, que é então redigida, é confirmada pouco depois pelo papa Calisto II. É nesta época que Bernardo escreve suas primeiras obras, tratados e homilias e, sobretudo, uma Apologia, escrita a pedido de Guilherme de Saint-Thierry, que defende os beneditinos brancos (os cistercienses segundo a cor de seu hábito) contra os beneditinos negros (clunisienses). Pedro, o Venerável, abade de Cluny, responde-lhe amigavelmente, e apesar de suas diferenças ideológicas, os dois homens tornam-se amigos. Ele envia igualmente numerosas cartas para incentivar à reforma o resto do clero, em particular os bispos. Sua carta ao arcebispo de Sens, Henrique de Boisrogues chamada mais tarde de De Officiis Episcoporum (Da conduta dos Bispos) é reveladora do importante papel dos monges no XII século, e das tensões entre o clero regular e secular.»