teologia para leigos

27 de agosto de 2013

A IGREJA QUE JESUS QUERIA [X. ALEGRE]

UTOPIA
- a Igreja tal como Jesus a queria






1.   Preâmbulo

Quando vemos figuras como a daquele Papa bom que foi João XXIII [Bérgamo (Itália) 1881- Vaticano 1963] ou como a de monsenhor Romero [El Salvador, 1917-1980] ou monsenhor Casaldáliga [Barcelona/S. Félix do Araguaia (Brasil), 1928-], sentimo-nos orgulhosos por pertencer a esta Igreja, que amamos, por nela termos conhecido Jesus vivo. E Jesus vivo, sobretudo, naqueles homens e mulheres que, na maior parte dos casos, de modo muito simples e anónimo, se deixaram apanhar pela figura de Jesus de Nazaré e foram capazes de cravar o Seu projecto bem fundo dentro das suas vidas, vivendo totalmente para os outros, de modo que esses outros possam ter vida e vida em abundância (Jo 10:10). E quando lemos o poema de monsenhor Casaldáliga «Deixa a Cúria, Pedro» sentimos que o vigor profético continua vivo na Igreja e que ele reaviva em nós a esperança de que, como comunidade eclesial, tenhamos algo de importante para dizer ao mundo em nome de Jesus de Nazaré, precisamente num momento em que o mundo parece carecer de utopias e sente dificuldade em viver esperançadamente.

Porém, naquilo que diz respeito à realidade eclesial, isto que acabamos de dizer é apenas uma das faces da moeda. A involução eclesial pós-conciliar, cada vez mais patente em muitas das atitudes recentes   sobretudo ao nível das «altas instâncias» da Igreja carrega consigo a tentação do desânimo. Este perigo é real, sobretudo para aquelas pessoas que procuraram viver a sua fé de modo muito comprometido com a Igreja. É cada vez mais usual ouvir, sobretudo entre os jovens, o slogan «Jesus sim, Igreja não». E nós, os adultos, não podemos deixar de nos recordar daquela frase de Loisy «Jesus anunciou o reino de Deus e acabou por nascer a Igreja»[1]. Como respondermos, a partir da nossa identidade cristã, a esta objecção? Antes de mais, a fim de podermos dar razões da nossa esperança (1Pe 3:15), temos de nos interrogar se a nossa Igreja, tal como ela surge aos olhos dos crentes e dos não crentes, é efectivamente a Igreja que Jesus queria. Como comunidade cristã, somos fiéis ao Espírito de Jesus de Nazaré?

Como responder a essa pergunta? Se formos capazes de nos libertarmos de preconceitos e se aceitamos como dado de fé que a Sagrada Escritura foi inspirada por Deus (2Tm 3:16) e é Palavra de Deus dirigida a nós, então o Novo Testamento a nossa raiz cristã mais funda pode ajudar, e quer ajudar-nos, a ser construtivamente críticos face às nossas igrejas e face à nossa maneira de ser Igreja.

Porém, antes de desenvolvermos o tema, devemos ter presente uma possível objecção. No tempo crítico em que estamos a viver, tempo que conhece bem a dificuldade em chegar à realidade histórica de Jesus de Nazaré[2], será que poderemos algum dia vir a saber se Jesus quis uma Igreja? E, no caso de podermos ter uma resposta afirmativa, como teria sido a Igreja que Jesus quis? Apesar de não me ser possível desenvolver este tema no âmbito deste artigo, creio que a pluralidade de dados que o Novo Testamento nos proporciona, lidos à luz da Tradição cristã, permite dar uma resposta positiva àquela pergunta[3]. A pergunta à qual vou tentar responder é em que sentido quis Jesus a Igreja actual, ou em que sentido colocou os fundamentos que levariam às Igrejas actuais, grandes ou pequenas, tal como elas são a católica incluída. Na verdade, são elas que se consideram igrejas fundadas por Ele e são elas que procuram ser fiéis ao Seu Espírito…


2.   O esquema católico clássico pré-conciliar

Todos conhecemos o esquema clássico pré-conciliar dominante antes do desenvolvimento e aceitação dos métodos modernos de interpretação do Novo Testamento, os quais se deveram, fundamentalmente, à encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII [1943][4] e à constituição conciliar Dei Verbum do concílio ecuménico Vaticano II [1965][5]. Tal esquema pré-conciliar dizia assim:

Na Quinta-Feira Santa, Jesus celebrou a sua primeira Missa no Cenáculo com os seus Apóstolos. Foi assim que instituiu a Eucaristia e fundou o sacerdócio ministerial hierárquico, o qual, rapidamente, se estruturou tal como o conhecemos hoje em dia na Igreja católica, segundo uma linha hierárquica vertical, que se transmite pela imposição das mãos dos bispos, os quais, por sua vez, receberam esse poder dos Apóstolos e estes de Jesus.

Segundo esta concepção, a estrutura vertical Papa-Bispos-Presbíteros-Diáconos e povo-de-fiéis é uma estrutura intocável, pois fora desejada assim por Jesus.[6]

Desta concepção também se deduz que as mulheres não podem ser ordenadas sacerdotes pelo facto de Jesus só ter escolhido homens para os Doze. Segundo essa perspectiva, as diaconisas que encontramos na Igreja primitiva não faziam parte do ministério hierárquico, desempenhando apenas funções assistenciais.

É claro que esta concepção é anacrónica. E é-o, não porque esta forma de conceber seja falsa, mas por ser parcial e imprecisa: ela não interpreta adequadamente os dados que o Novo Testamento nos proporciona. Segundo este, Jesus não instituiu directamente o sacerdócio ministerial hierárquico[7], mas escolheu os Doze discípulos para os enviar a pregar o Reinado de Deus e que fossem o sinal escatológico da chegada deste Reino na pessoa de Jesus de Nazaré.

O desenvolvimento posterior das comunidades eclesiais foi (…)

Xavier Alegre
Professor de Teologia

[30 páginas]







[1] «L’évangile et l’Église», Paris, 1902, p. 111.
[2] Fizeram-se, contudo, notáveis progressos neste campo. Ver P. M. Beaude, Jesús de Nazareth, Estella, 1988.
[3] Para exposição deste tema, servi-me fundamentalmente da obra de G. Lohfink La Iglesia que Jesús queria, Bilbao, 1986 (a tradução literal do título seria: «Que tipo de comunidade teria querido Jesus?»).
[6] Cf. G. Fourez, «Penser des Églises chrétiennes aujourd’hui» : La Foi et le Temps 18 (1988), p. 295.
[7] Cf. G. Lohfink, «Weibliche Diakone im Neuen Testament»: Diakonia 11 (1980), pp. 385-400 (trabalho resumido sob o título «Diáconos femininos en el Nuevo Testamento»: SelTeol 21 (1982) pp 303-310), que trata também do papel da mulher na Igreja primitiva (sobre este assunto, cf. também aquilo que já dissemos em «Junia, una mujer “Apóstol”?» [cf. infra pp. 335-351]).