teologia para leigos

9 de abril de 2013

O REINO DE DEUS, COMO SE FAZ? [JON SOBRINO]

A relação de Jesus com os pobres

e com os desprezados

«Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça,
e tudo o mais vos será dado por acréscimo»
(Mt 6:33; Lc 12:31)



Os «milagres», em Jesus, são «opção de classe»... e anúncio do Reino!




«(…) Jesus anuncia o reino como boa notícia para os pobres (Lc 4:18; cf. Lc 7:22; Mt 11:5) e declara que o reino é dos pobres (Lc 6:20; cf. Mt 5:3). Assim, se estabelece uma fundamental co-relação entre a boa notícia e os seus destinatários privilegiados (privilegiados ou únicos[1]), facto que indirectamente permite compreender de que trata a boa notícia.

Se esse reino é para os pobres; se a salvação vem não para os justos, mas para os pecadores; se os publicanos e as prostitutas chegam ao reino antes dos piedosos, então, é na situação concreta que esses destinatários estão a viver que teremos que encontrar ainda que, num primeiro momento, sub specie contrarii aquilo que é o nuclear dessa boa notícia.

Sendo assim, o reino de Deus não poderá ser um símbolo universal de esperança utópica, intermutável com outra utopia qualquer, mas terá que ser, muito em concreto, a esperança dos colectivos humanos que estejam a viver em sofrimento debaixo da opressão material e social.[2] A boa notícia será, em primeiro lugar e em directo, aquilo que hoje se denomina libertação, e que encontra o seu paralelismo bíblico mais na linha profética do que na concepção apocalíptica da história universal.

E, antes de espiritualizar precipitadamente os pobres e extrapolar universalmente a noção do reino, convém lembrar que os destinatários do reino são aqueles que mais privados estão de vida, e privados daquilo que é mais básico. Naquela passagem em que Jesus responde aos enviados de João Baptista, nela os pobres são equiparados aos cegos, aos coxos, aos surdos, etc. Segundo J. Jeremias, esta passagem não deve ser interpretada espiritualmente, porque «à situação de tais pessoas, e segundo o pensamento da época, já não se lhe pode mais chamar vida».[3] A boa notícia consiste, então, em trazer para a vida aqueles que viram secularmente ameaçada e negada a vida.

O reino de Deus, precisamente aquilo que importa erguer, está, portanto, em estreita relação com aqueles que mais privados estão de vida. Por isso, para conseguir uma noção operativa do conteúdo do Reino de Deus, haverá que adoptar a óptica[4] dos sem vida, dos sem poder, dos sem dignidade e não pretender que fora dessa óptica seja possível saber-se, mais e melhor, o que é o reino de Deus. Assim, a noção de reino de Deus não ficará paralisada pelo universalismo abstracto do seu conteúdo ou pela imposição precipitada da reserva escatológica sobre ele.[5] Os pobres, os pecadores, os desprezados representam o lugar necessário, ainda que sob muitos aspectos não suficiente[6], para saber do que trata a boa notícia do reino. Acresce uma última razão de natureza teológica: Deus chama-os, Deus defende-os e Deus quer que tenham vida.[7]

Para além desta primeira correlação entre reino de Deus e pobres, consegue-se (…)».

Jon Sobrino, sj

[pp. 10]




[1] Cf. J. Jeremias, Teologia del Nuevo Testamento I, Sígueme, Salamanca 1974, p. 142.
[2] Acerca desta dualidade do significado de pobre, cf. J. Jeremias, ibid., pp. 134-138. 
[3] Ibid., p.128.
[4] «Dentro da óptica» implica mudança de campo social, vizinhança, partilha/ajuda, intimidade comensal, gestualidade e proximidade corporal, compreensão analítica dos “códigos sociais” específicos. [Nota do Editor]
[5] Isto não significa reduzir o reino de Deus aos níveis primários da vida, mas tê-los presentes para que, quando se fale, de acordo com o Evangelho, de vida plena e de plenitude escatológica não se esqueça o seu pressuposto fundamental.
[6] O simples facto da pobreza é importante para a determinação daquilo que é o reino de Deus, mas a pobreza em si não possui eficácia automática com vistas à salvação histórica; cf. I. Ellacuría, «Las bienaventuranzas como Carta Fundacional de la Iglesia de los pobres», VV.AA., Iglesia de los pobres y organizaciones populares. S. Salvador 1979, p. 118.
[7] Foi assim que o Documento de Puebla, no nº 1142, o reconheceu: «Por apenas essa razão, os pobres merecem uma atenção preferencial, seja lá qual for a situação moral ou pessoal em que eles se encontrem… Deus toma a sua defesa e ama-os». Cf. G. Gutiérrez, «Pobres y liberación en Puebla», Páginas, Abril 1979, pp. 11ss.