teologia para leigos

28 de março de 2013

PÁSCOA, A GRANDE ESPERANÇA [C. MESTERS]

Páscoa que passas…




Quando, pela primeira vez, o Povo hebreu, na sua já longa caminhada por terras desconfortáveis (Gn 12:10; Ex 1:11) ergueu a cabeça ao alto e clamou por Deus, o Deus que lhe saiu ao caminho dirigiu-lhe uma Palavra de compaixão, condoído (Ex 3:7; Sl 107:20), palavra paternal, cuidadosa, sinalizando os perigos (Dt 30:15-19). Pela primeira vez, na história da humanidade, um Deus falava condoído aos humanos e desejava ser (co)respondido em amor.

Nesse instante comunicacional, o Povo hebreu colocou Deus no seu estandarte: Deus tornou-se um ser colectivo (Dt 6:10; Dt 7:6; Dt 27:9; Gn 17:7). O povo puxou Deus para baixo ('mundanizou-o e infantilizou-o': Ex 1:8-2:10), apeou-o das alturas (dos deuses babilónios): «Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob.» (Ex 3:6). Doravante, Deus canalizou o seu “infinito” (‘milésimo’) amor para aquele redil que lhe respondera ‘que sim’ (Dt 5:9-10; veja a desproporção entre ‘terceira e quarta’ e ‘milésima’ geração…). Deus não deixou fugir aquela oportunidade: agarrou-a com afinco e ousadia; agarrou-a como a Grande Oportunidade da sua Vida Divina na terra (Dt 10:15ss).

Aparentemente, isto pode parecer muito injusto. Então, não existiam mais povos à face da terra? Eleger alguns poucos seres humanos e virar as costas à imensa humanidade? Ao desejar entrar na História, Deus fez aquilo que deve ser feito: esperar que as oportunidades surjam e nunca as forçar. Na verdade, Deus não abandonou nunca o resto da Humanidade, tal como a história de Caim o comprova (Gn 4:15-16). Os hebreus (e nós, os cristãos, também) é que acharam que sim, que eram os proprietários do registo da patente…

Mas, por mais de uma vez, Deus foi avisando: cuidado com essa coisa de ‘povo preferencial’, de Povo Eleito de Deus, terra só a vós prometida, nação santa, etc. (Dt 6:3-4; Moisés − e era Moisés − por castigo de Deus, não haveria de entrar na Terra prometida; cf. Dt 34:4-5) Cuidado… porque, é certo, «Tu és um Povo consagrado ao Senhor… Deus escolheu-te… [mas] Não foi por serdes mais numerosos que outros povos que o Senhor se agradou de vós e vos escolheu; vós até éreis o mais pequeno de todos os povos» (Dt 7:6-7; cf. Jo 8:53 e a bazófia da herança; temos como Pai Abraão; porventura serás tu maior que ele?). Cuidado, pois! Foi tudo por «amor» e «fidelidade». (Dt 7:8) Impossível maior humanidade… nesta divindade!

Um dia, envolto em ira e castigos, Deus fartou-se mesmo da religião que os homens inventaram para O «enquadrar» e rasgou a Aliança de amor (Ex 32:1-19; Ex 33:3; Sl 106:6.19-21; 1Rs 18-21; Ez 6:1-5; 7:4; 8:6; 9:5-7; 10:18; Gn 6:5-6; Mt 21:12; Mc 11:15; Lc 19:45; Jo 2:13-16). «Deus abandona o Povo e o Templo!», pois o Povo corrompera-se e o Templo fora transformado na sede do saque austeritário, numa «casa de ladrões» …

Mas, tal como acontece nas nossas vidas, quando alguém entra em nós, verdadeiramente, nunca mais sai, mesmo que fisicamente morra. «Na verdade, como se pode repudiar a esposa da juventude? (…) Por um curto momento Eu te abandonei, mas, com grande amor, volto a unir-me contigo. Num acesso de ira, e por um instante, escondi de ti a minha face, mas Eu tenho por ti um amor eterno. (…) Vou agir como no tempo de Noé» (Is 54:6-10). Na verdade, Deus nunca mais se retiraria para as nuvens nem viraria as costas à História, como «o Grande e Poderoso Soberano que domina o Céu e a Terra» (Hino a Enlil, deus sumério, finais do 3º milénio). E Deus, não só regressou à Aliança («Deus recordou-se»: Gn 8:1.21-22.9:1-17; cf. renovação da Aliança pós-Dilúvio), como não foi apenas ficando, não: ficou mesmo, para sempre incrustado na história dos homens! Quero dizer, «montou a sua tenda entre nós» (Jo 1:14) e, até… arregaçou as mangas (Ex 34:10; cf. Sinagoga de Nazaré, Lucas 4:16.30).

Deus fez-se Povo. Ou seja, Deus passou a ser uma personalidade colectiva com currículo em Ciências de Educação Popular: Deus é pedagogo do Seu povo! (Dt 8:11-20) Deus deixou de ser uma realidade enigmática existente ou contemplável a partir de fora (Sarça Ardente; Ex 3:2.5). Deus passa a pertencer à História, Deus entra na História, é Deus dos Pais (patriarcas), caminha com o Povo, o seu Ser é lado-a-lado com a história do Povo, apenas existe se asa-com-a-asa-do-Povo (Ex 3:6; «EU SOU»=’estarei lado a lado convosco, sempre’). Os "pecados" são "pecados históricos" e passam a estar sujeitos a "julgamentos históricos" (Ex 32:1-35;  - "um grande povo acode em massa" -v.1- e comete "um tão grande pecado" - v.21). Acabaram-se as pequenas e individuais vias-sacras culpabilizantes... porque o Mal – o único que conta! – é histórico! O Senhor é o Deus da História (humana), o Deus do Universo (cósmico)! Os julgamentos do Senhor Deus de Israel têm dimensão colectiva (v.34 - "pedir-lhes-ei - no plural! - contas"), não por banal bestialidade, mas porque a correcção (Salvação) do Senhor não é indivíduo a indivíduo, mas é para toda a Humanidade, sem excepção, é colectiva: "Vai agora e conduz o meu povo". (v.34) O Senhor Deus exige solidariedade popular, consciência histórica ("memória universal e perseverança histórica", v.1b) e não mera espiritualidade de pequenas obras piedosas... (bezerro de ouro) «Quando amanhã os teus filhos te perguntarem... dirás... "Éramos escravos do faraó, no Egipto, e o Senhor tirou-nos do Egipto com o seu braço poderoso... contra o faraó e o seu império"» (Dt 6:20ss).

Deus exige do Povo a grandeza que o seu plano comporta: Deus não se contenta com pouco. Exige audácia, mas sobretudo fidelidade à magnitude da Hora e da Obra! Com Deus não há lugar a "saldos" ou a "descontos" espirituais... apenas a exigente dignidade de quem caminha lado a lado com o seu Deus libertador! (Ex 33:14 - "Eu em pessoa caminharei convosco até vos dar o repouso") Diante do «plano dos tiranos» (Ex 1:10), Deus, astuciosamente, põe em marcha um «plano libertador» (Ex 1:17). Deus não é um pietista despersonalizado ou um castrado complexado. Deus não faz por menos: para esperto esperto e meio... Deus vai à luta!

Deus é uma realidade existencial, arado (força) que lavra a História Humana (1 Cor 3:9b) como o faz um filho da humanidade: Deus mexe na terra (que somos nós), mete as mãos nos torrões, semeia a batata pela Páscoa, suja-se, trabalha, cava e planta, rega, e tanto faz crescer como, ao mesmo tempo, sabe esperar o descanso (Gn 2:2-3), sentado sobre o mistério do Reino da Vida que se ergue por si (Mc 4:26-29). «As minhas delícias é estar junto dos seres humanos» (Pr 8:31).

A aventura bíblica ensina-nos: não é cada hebreu, individualmente, que adora Deus, o venera e o louva - o Povo é que é de Deus e Deus tem um Povo (Ex 1:6 - de "família de José" o relato passa a "israelitas"). Povo e Deus encontram-se, agora, num Templo que, doravante, se chama História da Humanidade, pois todos os véus - que extasiavam, cobriam, sagravam, atraíam, consagravam mas separavam Deus da humanidade - foram «rasgados de alto a baixo» (Mt 27:51; Mc 15:38-39; Lc 23:44-49), abrindo um caminho transversal de universalidade na comunhão em si e com Deus (cf. centurião, multidão, mulheres), sabor que viajara dos confins da memória (1 Cr 17:4-8).

Maravilhosa aventura: o Povo de Deus abre caminho ao longo da História da humanidade com a ajuda do Deus das origens (Génesis), com a ajuda do Deus dos começos (Patriarcas: Abraão, Isaac e Jacob). Deus original (criador / criação), que se quis dar a conhecer no começo da história (revelação), que tomou a iniciativa de se apresentar (apenas!) como Deus-Amor que se dá (dom e graça) na gratuitidade dum compromisso que bebe na Liberdade mais radical e gratuita. «Atenção! Todos vós que tendes sede, vinde beber desta água. Mesmo os que não tendes dinheiro, vinde, comprai trigo para comer sem pagar nada. Levai vinho e leite, que é de graça» (Isaías 55:1; cf. Jo 2 – ‘água’ e ‘vinho’ nas Bodas de Caná). «Quem o diz é o Senhor que tanto te ama» (Is 54:10b)

Na hora de pôr o preto no branco, na hora de assinar a definitiva versão do contrato, a única factura que Deus apresentou foi a conta da liberdade radical e da solidariedade extrema: mais nada («Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine»; Gn 1:26 – relato da Criação; «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai [de morrer], Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo»; cf. Jo 13:1 - Última Ceia). Deus passou a ser – Deus quis ser!a Humanidade elevada ao extremo da radical liberdade solidária!

Ou seja, Deus revelou-se como liberdade absoluta e dom total, pleno e radical, não fora mas DENTRO da história da humanidade (cf. «ao entrar no mundo», Heb 10:5; e tão dentro da História Ele entrou que até age servindo-se dos deuses babilónios e dos reis persas, pagãos, 2Cr 36:22-23; ex. Ciro, a quem Isaías denomina «o ungido do Senhor», cf. Is 45:1; cf. «uns Magos vindos do Oriente», cf. Mt 1:2).

E tanta importância deu à História que chegou a exigir prioridade à libertação histórica ("deixa partir o meu Povo"; Ex 5:1b) e só depois, então, a "religião" ("para que ele celebre para mim uma festa no deserto")!

Este Deus-Amor podia sê-lo de cima, do alto ou à margem (versão babilónica revista e aumentada[1]): mas não quis! Podia ter enviado uma sonda espacial e, nela, um CD carregado de imagens curriculares suas, com tudo o que Ele é e faz, com tudo o que o rodeia, com um documentário sobre o Seu Reino esplendoroso (que alguns insistem em dizer que não é deste nosso mundo!). Teria sido mais confortável: nós, diante dum leitor de DVD, ora horrorizados com tanta miséria e injustiça inter-estelar (imediatamente fazendo chamadas telefónicas e alimentando a tele-caridade); ora, em êxtases suspirosos face a tanto Belo, a tanta Bondade e a tanta Verdade derramada. Deus podia, mas não quis que fosse assim. Podia ter descido de helicóptero sobre uma passadeira vermelha ao som de mil fanfarras. Podia ter contratado uma empresa multi-média ou inaugurado uma coisa tipo-FIL com tantos stands quantos os seus «atributos divinos», onde a humanidade pudesse tirar dúvidas a Seu respeito, comprar catálogos de recordação, adquirir tratados especializados sobre os mais variados temas teológicos. Podia ter organizado colóquios, concertos de canto gregoriano, congressos, grandes jornadas mundiais da juventude ao ar livre, podia ter soltado todo o seu foguetório, podia ter impressionado o Povo basbaque (Mt 4:6; Lc 17:20-23), podia ter nomeado uma comissão de honra, tipo Ecce Hommo, que pensasse a questão «Deus num universo laicizado», podia ter sonhado com a «reconstrução do mundo», tão fragmentário, à luz de Si, escrevendo Conferências… Podia, mas não era a mesma coisa.

Preferiu escolher este pequeno planeta e, dele, um pequeno colectivo de homens e mulheres sem eira nem beira, ainda por cima com crianças piolhosas e gado e sementes, alfaias, muita tralha e confusão, com berreiro e cheiro a sovaco, gente vulgar… nómada, errante, meio aparvalhada! Deus viu aí, provavelmente, alguma coisa de si, a sua própria itinerância talvez (característica muito sua!, supunha). Deus viu aí a sua própria fragilidade amorosa, Deus viu aí a sua necessidade de perdão, fome de perdoar e de costurar relações (mergulha nas águas do Baptista como um filho de homem rente à sua condição, «ele que era divinamente rico, fez-se pobre»; cf. Fl 2:6; 2Cor 8:9). Deus sentia que, em si, sofria de obstipação: sofria, por que nada nele fluía. Amava, mas o seu amor não era correspondido: vivia apaixonado, mas de uma forma ‘constipated’… Era um amor egoísta, a dois: «de Mim para Mim». Deus bocejava... Um Deus sentado no sofá, embevecido é certo, diante da sua criação de cristal, porcelana finíssima, porém, porcelana sob a redoma dos sustos da securitas… Deus contemplando a sua caríssima obra da criação como um coleccionador de ametistas, ícones eslavos, velinhas cool e rolexes de toda a forma e feitio. Deus fora da História: sempre mais do mesmo Só os filósofos de quando em vez lhe ligavam porque necessitavam de se entreter - crianças diante de peças de legos. Mas, até esses, os filósofos, ligavam-lhe apenas à distância como quem faz palavras-cruzadas em suas pinças de razão tacteando no escuro da imensidão boreal das suas inquirições a chá e torradas.







Para aquele humilde e pacífico galileu perdido nos confins do Império romano - pacífico mas ingente galileu – a vida de relação entre o seu Povo e o seu Deus entrara num beco sem cancelo. A História dos homens havia esgotado o seu potencial e arrefecera: o tempo perro rodava agora sobre si próprio e os ponteiros ferrugentos, rangiam. O sonho dos começos, a alegria das grandes aventuras, os originalíssimos contos acerca dos Patriarcas, tudo tinha sido invadido pelo sal. Tudo em vão. O amor morrera, só faltava devolver alguns poucos objectos pessoais, retirar as alianças do dedo e assinar, displicentemente, a última versão do clausulado da carta do divórcio. Os raríssimos que ainda sonhavam, sonhavam apenas com memórias, coisas giras que o passado dos pais lhes deixara, algum folclore, certos hábitos interessantes como comidas e festas, uns quantos enfeites nos cabelos, prendas que se trocam, alguns rituais órfãos, viagens à província, trajes, gente que brinca às casinhas monta tendas no jardim e mete-se lá dentro por umas horas como se fossem veros peregrinos dum deserto qualquer (Lv 23:33; Festa das Tendas); outros, que vestem paramentos coloridos e saem às ruas, de sinetas nas mãos a tilintar e a gritar ‘Vitória! Vitória!’ sem que se perceba quem venceu quem e quem derrotou o quê, se é que houve, de facto, vencedores e derrotados (o Compasso). Mas, quanto ao resto, a vida ia sobrevivendo debaixo da maior escravidão dum fatídico quotidiano de ferro (Max Weber). Deus ausentara-se definitivamente e, com ele, a memória actuante e inquiridora dos começos, esmagada pela bota do Império.
 
Jesus, o galileu, sentiu «bater» o Sonho, sentiu de novo a utopia de Deus a tocar à sua porta. As velhas palavras de sua mãe não paravam de o incomodar nas têmporas: «Não está no céu… nem tão pouco do outro lado do mar… está muito perto de ti, na tua boca, no teu coração… é como uma brisa, um murmúrio de brisa… escolhe a vida» (Dt 30:12-14; 1Rs 19:12; Dt 30:19b).

Tinha trinta anos − muita idade − velho para casar. Por um instante, resolveu retirar-se para um lugar sossegado, não muito longe da sua aldeia – a cabeça estalava. E, à vista do vale, olhando-o de longe e condoendo-se do estado do seu Povo, começou a orar. Mais tarde, os mais chegados a ele, interpelaram-no: - Que dizias quando foste rezar? Jesus respondeu: - Se quereis saber, orai comigo. E começaram: «Pai-Nosso,…».

A Grande Esperança regressava e anichava-se. A Grande Aventura com Deus estava de volta a casa! Um caminho novo, uma vez mais, era aberto. Contra todas as expectativas e ao arrepio do sistema vigente, desta vez era encetado um novo caminho por um anónimo galileu, de nome Jesus, o filho de Maria de Nazaré, nenhum deles letrado, ambos habitantes duma terra repelente (Jo 7:49.52). A pachorrenta roda da vida iniciava então o seu agudo chiar.

Em qualquer recôndito lugarejo da terra, alguém pode tropeçar na voz de Deus que passa (Jo 1:36.9:1) e que, sem cessar, repete: “Eu bem vejo a opressão e os gemidos do meu Povo… Eu bem ouço seus gritos de aflição… Condói-me o seu desânimo…” (Ex 3:7; Mt 9:36).

Também tu podes começar já a abrir um caminho novo no chão duro deste «sistema de ferro», ordoliberal & merkeliano, de que nos querem convencer e aceitar ser sem alternativa. Queres saber como, de que jeito? Se sim, entra por esta porta aqui.

pb\







[1] Cf. os trabalhos de J Bottéro sobre as religiões da Mesopotâmia (La idea de «divindad» y «naturaleza divina»).