teologia para leigos

19 de março de 2013

NO HUMANO O DIVINO [P. J. ALVES CORREIA]

Caridade em toda a linha


«VIDA MAIS ALTA», Padre Joaquim Alves Correia



É inútil pretender vida espiritual, piedosa, cristã, sem a impregnar de caridade. E enganar-se-ia quem se julgasse quite do preceito do Senhor, pagando simplesmente o imposto da esmola, que ajuda a matar ao pobre a fome ou a tirar-lhe o frio. Esmola, também a davam os fariseus, e a toque de trombeta!...

Mostra Cristo, na parábola do rico e do Lázaro, que o mísero ávaro era pior do que os cães, porque nem as migalhas dava ao pobre e os cães, pelo menos, lambiam-lhe as úlceras; mas quem fosse julgar-se cristão, porque dava migalhas, em vez de as dar aos cães, teria uma ideia bem pícara da fraternidade entre os homens.

O capitalismo bem-pensante, às vezes religioso e devoto, que dá esmolas e subsidia creches e asilos, mas que reserva o lucro para automóveis e salões, deixando ao operário apenas um salário que escassamente chega para não morrer de fome, não é sequer justo, quanto mais cristão! A «miséria imerecida» do trabalhador, que não pode sustentar família em nível de vida que sequer de longe se possa chamar de humano e decente com casa, aceio, repouso, tempo para educação e para vida do espírito é o escândalo, já muita vez denunciado, que faz perder a fé aos pobres, aos naturais amigos de Cristo[1].

Mas a caridade cristã não se contenta com dar confôrto aos corpos: abraça os espíritos. E, para os abraçar, passa a luz de uns aos outros, sem arrogância nem sobranceria, sem aquele ar de mestre e de doutor, que irrita, pretendendo humilhar; antes com simplicidade e alegria de irmão, que acende a outro a candeia; não amimalha nem lisonjea, avisa do perigo e exorta à aceitação das responsabilidades. É isto a obra de misericórdia (de misericórdia, não de dominação) que o catecismo nomeia, quando diz: ensinar os ignorantes, castigar os que erram…

São fariseus, não são cristãos, os que ensinam e castigam para mostrar superioridade, não para levantar irmãos deprimidos e humilhados à altura de um abraço fraterno. A esmola do orgulhoso, que seja dar pão a um faminto, como quem o atira a um cão vadio, ou que seja dar luz ao menos culto, para o deslumbrar e confundir, é esmola profana. Por isso Jesus, naquela mesma prègração em que nos exortava a sermos «misericordiosos», dizia assim aos lamentáveis mestres e mentores, que julgam poder ensinar e representar sem terem humildade nem modéstia: «Hipócrita, tira primeiro a tranca da tua vista e depois poderás ir tirar o argueiro da vista do teu irmão!»[2]

Santiago, que, na sua Epístola, tanto exortou à caridade caridade de esmola, que se não contenta com palavras doces, caridade de língua, que respeita a honra e a tranquilidade alheia, caridade de justiça, que dá ao trabalhador o fruto do seu trabalho mostra-nos bem que nenhuma caridade é possível onde haja orgulho e se não der ao próximo o seu lugar e dignidade de irmão: «Se entrar na vossa reunião algum varão de aneis de oiro e de vestido fino e entrar também qualquer pobre de veste roçada, e vós disserdes àquele: Vem aqui, senta-te bem! e, voltados para o pobre: Deixa-te estar para aí mesmo em pé ou então encolhe-te debaixo do meu escabelo! não é certo que fazeis distinções cruéis e sois juízes de pensamentos iníquos?!»[3].

A caridade cristã é, acima de tudo, espiritual. Por isso é, para principiar, tolerante e boa: não tolerante dos erros ou da iniquidade que não têm direitos, pois não são pessoas mas das vítimas do erro e dos desgraçados iníquos, que são bem mais desgraçados até do que as vítimas que perseguem.

Um cristão de zelo amargo, um cristão que odeie ou mesmo só despreze os inimigos de Cristo, nem serve a Cristo, nem sabe de que espírito é.

Sem mêdo de ninguém, sem ser «cão mudo» diante da injustiça, sobretudo sem bajulação dos poderosos que seria traição aos humildes não pode o Cristão consentir tão pouco no rancor, na vingança, na contraposição do seu próprio orgulho ao orgulho dos iníquos. Seria combater o ódio com o ódio; e o ódio só pode ser combatido com o amor.

A caridade, a que o cristão deve aspirar, sem descansar enquanto lá não chegue, será a do Pai Celeste, que «manda sol a bons e a maus e envia a sua chuva ao campo do justo como ao do pecador… Sede pois vós perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito»[4].

Se a caridade é essencialmente espiritual, para ser cristã, a esmola material não pode ser, é claro, a única expressão, nem é a sua expressão essencial. A alma da caridade é a mentalidade fraterna. Um irmão não pode tolerar que outro irmão se considere vil, nem pode deixá-lo na abjecção, como filho de segunda ordem entre os filhos de Deus. «Que todo o vale se levante, prègava S. João Baptista, percursor do reino do Espírito, e que todo o monte soberbo se arrase! E então verá toda a carne a salvação do Senhor».







A salvação é esta nivelação dos homens pela santa caridade. A esmola seguirá como consequência inelutável: porque será indecente haver irmãos fartos e confortados e, ao pé, irmãos com fome: a indecência que S. Paulo notava nos ágapes dos Coríntios e lhes atirava à cara como um aleijão na Família Cristã.

Se alguém quere ver contradição entre este ponto de vista e a hierarquia na Igreja, nem entende a natureza da hierarquia eclesiástica, nem entendeu nunca o sacerdócio cristão. Sacerdotes demiurgos, sacerdotes familiares de Deus e dominadores dos homens do vulgo simples servos seriam sacerdotes bons para os judeus, que diziam a Moisés: «Não nos fale Deus, porque morreríamos!».

Deus quere que se eleve à consciência de filho todo o homem que aceitou a salvação do Filho Unigénito. Quem distingue entre amigos de Cristo (os sacerdotes) e servos de Cristo (os fiéis) deturpa o sagrado contexto do Evangelho. Todos amigos e todos irmãos.

A verdadeira grandeza dos sacerdotes de Cristo, a única primazia, é serem mais servos (por amor) dos seus irmãos, porque aceitaram, além da obrigação cristã de servir, a delegação da Igreja e a consagração do Espírito Santo, para que o seu modo de vida, sua única profissão na terra, fosse o ministério de Cristo, o do amor, dedicação total aos irmãos, para lhes cultivar a consciência da nossa comum grandeza de «real sacerdócio, de gente santa»[5], a consciência de filhos e amigos do Pai, que os criou para a alegria inefável do mesmo Lar de eterno e divino amor.
Padre Joaquim Alves Correia [Aguiar de Sousa, Paredes 1886 – (exílio) Pittsburgh, USA 1951]
Missionário do Espírito Santo

in “Vida mais alta – perene Espírito novo”
Editorial L.I.A.M., Rua de Sto. Amaro, 47 (à Estrela), Imprimatur de 23 de Março de 1957, 2ª edição, pp. 87-91.

[Manteve-se toda a grafia e acentuação; reproduziu-se capa e página de rosto]
BIOGRAFIA:




[1] Vide Encíclica «Quadragésimo Anno»…
[2] S. Lucas, VI, 36-42.
[3] Santiago, II, 2-4
[4] S. Mateus, V, 45-48.
[5] I Ep. de S. Pedro, II, 9.