teologia para leigos

13 de maio de 2012

A CULPABILIZAÇÃO DAS VÍTIMAS

Mantras da economia

R. Campo dos Mártires da Pátria [Teatro Carlos Alberto]


Um mantra, diz a Wikipédia, pode ser qualquer som, sílaba, palavra, frase ou texto, que detenha um poder específico. Acrescenta a enciclopédia da Internet que “existem mantras para facilitar a concentração e meditação, mantras para energizar, para adormecer ou despertar, para desenvolver chakras ou vibrar canais energéticos a fim de desobstruí-los”. Um mantra, em síntese, usando o dicionário da Porto Editora, é uma fórmula sagrada que tem o poder de materializar a divindade invocada.

Não são apenas as religiões orientais que têm mantras. Entre nós, há também frases (ou textos) que se recitam, repetidamente, tal e qual fórmulas sagradas que encarnam a divindade omnipotente deste tempo, a economia. Afirma uma delas que nós andámos a viver acima das nossas possibilidades. Este mantra foi recitado, no início da semana, no último programa “Prós & Contras”, por Rui Machete. Pode, evidentemente, haver quem tenha vivido acima das suas possibilidades e não se negará a Rui Machete a autoridade para sobre essa gente falar, uma vez que ele foi o presidente do Conselho Superior da Sociedade Lusa de Negócios, a dona do Banco Português de Negócios (BPN).

Mas o “nós” do mantra de Rui Machete não se refere, apenas ou sobretudo, aos amigos do BPN, ele implica a generalidade dos portugueses no tal viver acima das possibilidades, mesmo os que viveram sempre e apenas com o que receberam por um trabalho honestamente realizado. O deus da economia que Rui Machete convoca com o seu mantra é, todavia, injusto. Enquanto, para proveito dos bancos, foi conveniente que os portugueses vivessem acima das suas possibilidades, não faltava o crédito para acelerar e multiplicar o consumo. Casas, automóveis, viagens de férias, o que se quisesse, tudo era facilitado para imenso lucro dos que agora peroram sobre o ter-se vivido acima das possibilidades. O deus da economia vinga-se hoje dos que ontem o veneraram.

Outro mantra em uso é o que garante que a crise gera oportunidades. A afirmação pode ter sentido para quem vende livros de auto-ajuda ou faz negócios à custa do Estado. Dirigida à generalidade dos cidadãos, é uma palermice. “É um cliché e é um cliché perigoso”, garantiu Telmo Mourinho Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, numa entrevista concedida ao jornal i de 19 de Abril de 2012. Explicou ele que, “na prática, oportunidades temos sempre, não precisamos de crises”. Para o psicólogo, “é bom que se separe, até porque as crises, se são oportunidades, também são uma oportunidade para se desorganizar e ficar pior, o que não é uma oportunidade positiva”. É que “qualquer crise tem um carácter desorganizador”.

O bastonário da Ordem dos Psicólogos avisou que “temos de ter muito cuidado com esse cliché: parece que estamos à espera da crise para ter oportunidades”, notando ainda que “resolver problemas complexos em crise é muito mais difícil”. Telmo Mourinho Baptista sabe bem do que fala, mas não seria preciso ter um diploma de psicologia para se perceber que há cada vez mais pessoas, e cada vez mais famílias inteiras, a quem o desemprego está a destruir. Se um governante se revela incapaz de as ajudar, promovendo políticas que estimulem o emprego, mandaria se não algum conhecimento rudimentar de psicologia, pelo menos o sentido não invertido das coisas que não se culpabilizasse quem é vítima, dizendo, como anteontem disse o primeiro-ministro, “que o desemprego não tem de ser encarado como negativo e pode ser ‘uma oportunidade para mudar de vida’”, uma afirmação que, aliás, no mesmo dia, o ministro das Finanças contrariaria, afirmando o inverso: as pessoas adaptam-se “surpreendentemente bem” a um diversas mudanças trágicas nas suas vidas, mas “a satisfação de vida de um desempregado não se recupera”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes‘OS DIAS DA SEMANA’12:V:2012