teologia para leigos

22 de dezembro de 2013

NATAL, REMOVER OBSTÁCULOS [N. HIGINO, L. BOFF]

NATAL NO PAÍS DAS MONTANHAS

 
«HISTÓRIAS DE NATAL»_Nuno Higino



Havia estrelas em todos os lugares do céu. Tinham uma luz muito brilhante parecida com uma luz de vidro. Quem caminhasse naquela noite via com toda a nitidez as árvores, as pedras, as casas e os muros; e as sombras ligeiras das árvores, das pedras, das casas e dos muros. Era uma noite de um azul metal. Ninguém podia dizer se o azul de metal era da luz intensa das estrelas ou era do frio agudo de Dezembro. Quando os cães perfuravam o tambor da noite com os seus latidos distantes parecia rasgar-se o tecido da noite. Às vezes era um pássaro que desafiava a inteireza da noite, mas depressa ela se recompunha na sua unidade.

José e Maria caminhavam durante horas e horas, mas nem sentiam o cansaço porque apetecia andar dentro daquela noite. E Maria, sentada num burrito molengão e que brincava com as sombras do caminho atirando a cauda para cima e para baixo, sentia dentro de si uma ligeira agitação que às vezes se tornava numa dor intensa. Mas pensavam que era o frio da noite a querer aconchegar-se sob o seu manto. José seguia ao lado do burrito e às vezes acariciava-lhe o pescoço e as orelhas e perguntava a Maria:

− Que horas serão? Decerto já passámos a cidade…

Era uma cidade muito grande e iluminada. Mas, naquela noite, o brilho das estrelas tinha tanta claridade que possivelmente nem repararam nas luzes que guardam a cidade. O caminho por onde seguiam passava ao largo da cidade e havia uma colina que a escondia aos caminhantes desatentos.

− Não importa! Acho que depois desta cidade aparece outra cidade – disse Maria.

Caminharam ainda durante muito tempo. E foi quando a noite já perdia a nitidez da sua luz e uma névoa imprecisa se levantava no horizonte, que lhes pareceu avistar três vultos distantes.

− Deve ser a sombra de três cedros – disse Maria.
− Parecem homens a caminhar ao nosso encontro – disse José.
− Se forem homens – respondeu Maria, agora moída por uma dor que já quase lhe não cabia no ventre – vamos perguntar-lhes se acaso estamos longe da cidade.

Os três vultos umas vezes pareciam aproximar-se e outras vezes pareciam afastar-se. Por algum tempo ficaram sem saber se eram sombras desenhadas no chão ou se eram homens. Mas não tiveram medo porque pensaram: “Ninguém nos deve fazer mal”.

Entretanto, do lado direito e do lado esquerdo do caminho elevavam-se montanhas enormes, muito altas e recortadas. E, por detrás delas, viam-se outras mais altas ainda. Atravessavam uma garganta apertada e uma ligeira depressão retirou-lhes do olhar os vultos que caminhavam ou as sombras que os confundiam.

− Decerto eram arbustos ou pedras – disse José.
− Talvez fossem homens e tenham tomado outro caminho – acrescentou Maria.

O dia clareava cada vez mais e a névoa da manhã recolhia-se pelas enormes bolsas da montanha.

De repente ouviram um ruído de passos e de vozes que articulavam sons imperceptíveis.

− Ai, José, sempre é gente que vem. Vamos perguntar pela cidade.
− Vamos! - disse José.

Os três homens estavam cada vez mais próximos. Agora distinguiam-nos claramente. Caminhavam em passo decidido e traziam às costas uma pequena mochila.

Quando pararam, trocaram entre si palavras desconhecidas.

− Devemos estar num país estrangeiro – disse José.
− Deve ser o País das Montanhas – disse Maria.

Os três homens fizeram uma saudação muito profunda e abriram um sorriso transparente. José apontou com a mão o ventre de Maria e os homens entenderam que ela ia dar à luz. Com um gesto delicado fizeram-lhes sinal para os seguir e os cinco mais o burrito caminharam em silêncio.

Entraram por outro caminho e ainda caminharam mais algum tempo. Depois pararam e José e Maria perceberam que eles queriam dizer:

− “É aqui…”

Era a entrada de uma gruta. O chão estava todo polido. Devia entrar ali gente todos os dias.

José ajudou Maria a descer do burrito e os três homens estenderam os seus mantos. E desapareceram.

Quando voltaram, o Menino já tinha nascido.

Um trazia pedrinhas de jade, que são mais preciosas que o oiro, a prata e o marfim e são chamadas «as pedras do céu». Outro homem trazia flores, de um azul muito vivo, que crescem nas montanhas. Outro, abriu a sua mochila e tirou tâmaras.

Ofereceram estas coisas ao Menino e dançaram em frente à gruta umas danças muito antigas. E batiam palmas. E trocavam risos muito sonoros. E cantavam.


Nuno Higino
In “A mais alta estrela – sete histórias de Natal”
CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Igreja de Santa Maria, Marco de Canaveses, 2ª Edição Dez. 2000. ISBN 972-98026-5-3. Ilustrações de JOSÉ MAIA. [Esta Edição está esgotada]

NOTA: Acaba de ser editado um novo livro de Contos de Natal, de Nuno Higino [de que se reproduz a capa], intitulado «HISTÓRIAS DE NATAL», com inéditos, mas que reedita alguns dos mais belos Contos esgotados em edições anteriores (Ex.: «O Boi chegará a tempo ao Presépio?»). Edição «Letras & Coisas», Ilustração de Paula Gaspar. Distribuidora: «Companhia das Artes», ISBN 978-972-8908-60-7.


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[LEONARDO BOFF]






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«...perché per loro non c’era posto all’albergo»
(“por não haver lugar para eles na hospedaria”; Lc 2:7)

Homilia da Noite de Natal – Arcobaleno – «Comunitá dell’ARCA» (Padre Massimo Ruggiamo)
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