teologia para leigos

3 de janeiro de 2016

ÉTICA DA FELICIDADE [J.M. CASTILLO]

A história e o bem
[primeira redacção]


Deixemos para «trás de nós a abstracção que domina em parte o pensamento Ético do homem individual isolado, o qual, de modo incessante e exclusivo, se deve decidir entre um Bem e um Mal claramente reconhecidos segundo um critério absoluto de que esse Homem Individual poderia dispor. Semelhante indivíduo singular não existe, nem desse critério absoluto do Bem dispomos nós, nem é habitual que o Bem e o Mal se apresentem a nós na sua forma pura. O erro deste abstracto esquematismo ético consiste em só valorizar o indivíduo isolado como eticamente relevante, em que só o absoluto e o universalmente válido conta como Norma, em que só a decisão entre o Bem e o Mal claramente reconhecidos valem como decisão ética; por outras palavras, o erro está em reduzir o elemento ético a uma fórmula fundamental absolutamente estática, o que é uma ficção e no qual o especificamente ético se perde.

A esta abstracção corresponde um determinado comportamento prático, com que se intenta sempre de novo a solução do problema ético e que está, no entanto, sempre de novo condenada a fracassar.

O que está em causa, aqui, é de o indivíduo abdicar da responsabilidade viva do seu ser-aí histórico e de se refugiar numa realização privada de ideais éticos em que veja garantida a sua bondade pessoal. (…)

De harmonia com a radicalidade de tais princípios, esta atitude leva a renunciar à responsabilidade na sua globalidade e a refugiar-se numa existência burguesa puramente privada ou no convento. Mas, visto que o isolamento ético do indivíduo é, na prática, uma ficção – pois ninguém se pode isolar de todo da comunidade humana e cada qual dela vive −, esta concepção do ético está condenada ao fracasso. Ela desmorona-se em face da historicidade do ser-aí humano. [M. Heidegger, «Sein und Zeit», 387 (título do §75): «A historicidade do ser-aí e o mundo-história.»] (…)

No momento em que um homem aceita uma responsabilidade por outros homens – e só assim ele está na realidade – nasce a situação ética genuína, que se distingue essencialmente da abstracção (…). O sujeito da acção já não é o indivíduo isolado, mas aquele que é responsável por outros homens; a norma do agir não é um princípio universalmente válido, mas o próximo concreto, tal como ele é dado por Deus; a decisão já não incide entre um Bem e um Mal claramente, mas a decisão é um risco que se corre na fé face à ocultação do Bem e do Mal na concreta situação histórica.

Agir na responsabilidade concreta significa agir na liberdade, decidir pessoalmente, sem ter aos ombros o manto protector de homens ou de princípios, é agir e responder pelas consequências do seu agir. A responsabilidade pressupõe uma derradeira liberdade no julgar uma dada situação, no decidir e no agir. A acção responsável não foi estabelecida à partida e de uma vez por todas, mas nasce na situação concreta. Não se trata de cumprir um princípio que, no fim, fracassa em contacto com a realidade, mas de aprender aquilo que é necessário - «mandato» - na situação dada. Importa observar, sopesar e avaliar tudo na perigosa liberdade do eu. É necessário ingressar totalmente no campo das relatividades, na luz ambígua que a situação histórica estende sobre o Bem e o Mal. Preferir o melhor ao menos bom porque o «absolutamente bom» pode, por isso mesmo, suscitar o Mal, é a auto-renúncia às suas pretensões, muitas vezes necessária, de quem com responsabilidade actua. (…) Afirma-se, aqui, do modo mais elevado a liberdade de quem é responsável também em face da escravatura dum «absolutamente bom». (…)

O agir é, num sentido muito profundo, adequado à realidade

Dietrich Bonhoeffer [1906-1945], «ÉTICA», Assírio & Alvim, Teofanias_6, 2007, tradução de Artur Morão. ISBN 979-972-37-1179-0. [Esta tese de D. Bonhoeffer opõe-se à tese conservadora dos conservadores e restauracionistas cardeal Joseph Ratzinger e Papa João Paulo II, apologistas das «verdades absolutas inegociáveis». D. Bonhoeffer opta, antes, por uma lógica indutiva. Esta deverá ser também a orientação das teologias cristã, muçulmana, judaica ou outras para os conturbados tempos de hoje, como propõe H. Kung]








Preceitos, não; felicidade e alegria, sim

[…] «O evangelho de Mateus começa o seu relato do Sermão da Montanha dizendo: «Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los» (Mt 5, 1-2). De seguida, Jesus expõe o seu programa: as Bem-aventuranças (Mt 5,3-12). É provável que a fórmula do relato contenha alguma alusão à memorável subida de Moisés ao Monte Sinai (Ex 19,3.12; 24, 15.18; 34, 1s.4). A conclusão do Sermão da Montanha também evoca esses textos alusivos a Moisés[1]. Nesse sentido houve quem afirmasse, com fundamento, que Jesus, ao subir ao monte das Bem-aventuranças, «assume a função de um novo Moisés»[2]. Seja qual for o conteúdo concreto desta afirmação, o certo é que Jesus, no Sermão da Montanha, promulga o seu programa: um programa ético. Contudo, um programa que se diferencia totalmente daquele que Moisés promulgou no outro monte,  o Sinai. No Sinai, Moisés promulgou Mandamentos, ao passo que Jesus, no monte da Galileia, anunciou Bem-aventuranças. Ou seja, passamos de uma ética de deveres e obrigações para uma ética de felicidade e ventura. Eis a surpreendente inovação do projecto moral oferecido por Jesus. Joaquim Jeremias disse, com toda a razão, que o Sermão da Montanha não é Lei mas Evangelho, de tal forma que a diferença entre um e outro é esta: «A Lei põe o homem diante das suas próprias forças e pede-lhe que as use até ao máximo; o Evangelho situa o homem diante do dom de Deus e pede-lhe que converta verdadeiramente esse dom inefável em fundamento da sua vida. Estamos perante dois mundos distintos[3].

Claro que não se trata de Jesus ter suprimido os mandamentos, como se de agora em diante fosse permitido matar, roubar, mentir ou adulterar. Nada disso. O que acontece é que as Bem-aventuranças vão muito para além do que tudo o que os mandamentos significam (ou podem significar). As Bem-aventuranças não se ficam por uns quantos limites que não se podem transgredir, mas definem metas que nunca seremos capazes de alcançar plenamente. Não são proibições, mas propostas. Não são a negação daquilo que não se pode fazer, mas a afirmação daquilo que nos dá vida e nos deixa indizivelmente felizes. É o Evangelho, a «Boa Notícia», o «tesouro» (Mt 13,44) e a «pérola» (Mt 13,45ss), que enche o ser humano de uma felicidade indizível.

Com efeito, a primeira característica que surge nas Bem-aventuranças é que o programa de Jesus para os seus companheiros é um programa de felicidade[4]. Cada afirmação de Jesus começa com a palavra makárioi, «ditosos». Em grego, essa palavra significa a condição de quem está livre de preocupações e trabalhos diários; e descreve, em linguagem poética, o estado dos deuses e daqueles que participam dessa existência feliz. Por conseguinte, Jesus propõe a ventura sem limites, a felicidade plena para os seus seguidores. Deus não quer a dor, a tristeza e o sofrimento. Deus quer precisamente o contrário: que o ser humano se realize plenamente, que viva feliz, que a boa sorte abunde e superabunde na sua vida.

Jesus compreendeu que o meio mais eficaz e mais directo para aproximar-se de Deus, e para que cada qual se realize, não é estabelecer proibições, mas fazer propostas que melhor e mais naturalmente encaixem na nossa condição humana, naquilo que mais desejamos e melhor agrada. Em suma, trata-se de substituir os mandamentos que proíbem o mal por ofertas que nos fazem sentir atraídos pela felicidade. Jesus não nos diz: «Não faças isto porque se o fazes estás condenado»; mas propõe: «Se viveres desta maneira, serás feliz». Sem sombra de dúvida que esta última é muito mais atraente e mais eficaz que a anterior. Por isso, logicamente, tal proposta deveria pesar mais na nossa vida. Acontece que, regra geral, tal não acontece. Por que será? (…)»


José M. Castillo

«Ética de obligaciones, ética de felicidad», in «La Ética de Cristo», 5ª Edición, Desclée De Brouwer Abril 2008, pp. 135-149. ISBN 978-84-330-2027-7.


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[1] Ulrich Luz, «El Evangelio según san Mateo - I», Salamanca, Sígueme, 1993, 276. J. Jeremias: TWNT IV, 875.
[2] J. Mateos e F. Camacho, «El Evangelio de Mateo», Madrid, Cristiandad, 1981, 52.
[3] J. Jeremias, «Palabras de Jesús», Madrid, Edic. Fax, 1969, 99.
[4] J. M. Castillo, «Teología para comunidades», Madrid, San Pablo, 1990, com bibliografia sobre este assunto.