O FIM DE UMA ERA
«Nestas condições é que eu penso no grande poder da riqueza,
que nos permite receber os hóspedes e salvar-nos na doença.
Mas também serve para a nutrição de cada dia,
porque toda a criatura humana, seja pobre ou seja rica,
se sacia da mesma maneira.»
EURÍPEDES, "ELECTRA"
É um paradoxo
notável que, no auge da realização material e técnica, continuemos a ser
assolados pela ansiedade, sujeitos à depressão, preocupados com a opinião que os outros têm de nós,
inseguros das nossas amizades, impelidos a consumir, e com pouca ou nenhuma
vida comunitária. Faltando-nos o contacto social descontraído e a satisfação
emocional de que todos precisamos, procuramos a consolação comendo em excesso,
fazendo compras e gastando de forma obsessiva ou tornando-nos vítimas do
consumo excessivo de álcool, de medicamentos psicoactivos e de drogas ilegais.
Como criámos um
tal sofrimento mental e emocional apesar dos níveis de riqueza e conforto sem
precedentes em outros períodos da história humana? É muito frequente sentirmos,
sobretudo, falta de tempo para o passar na companhia dos amigos, mas até esse
simples prazer pode parecer-nos inalcançável. Falamos como se as nossas vidas
fossem uma batalha constante pela sobrevivência psicológica, sempre a combater
o stresse e o esgotamento emocional, mas a verdade é que o luxo e a
extravagância das nossas vidas são tão acentuadas que ameaçam a própria
existência do planeta.
Uma investigação
do Instituto
Harwood para a Inovação Pública (encomendada pela Fundação Família
Merck) nos EUA revela que as pessoas sentem que o «materialismo» se
interpõe de alguma forma entre elas e a satisfação das suas necessidades
sociais. Um relatório intitulado Yearning for
Balance [Ansiando pelo
Equilíbrio], baseado numa sondagem nacional realizada nos EUA, conclui que
os Norte-Americanos eram «profundamente ambivalentes em relação à riqueza e aos
ganhos materiais»[1].
Uma grande maioria das pessoas desejava que a sociedade «se afastasse da
ganância e do excesso e favorecesse um tipo de vida mais centrado nos valores,
na comunidade e na família». Mas essas pessoas também sentiam que estas
prioridades não eram partilhadas pela maioria dos seus concidadãos
norte-americanos, que, segundo elas, se tinham tornado «cada vez mais
fragmentados, egoístas e irresponsáveis». E, em resultado disso, sentiam-se muitas
vezes isolados. No entanto, o relatório refere também que, quando as pessoas se
juntavam em grupos de discussão para debater estas questões, ficavam
«surpreendidas e entusiasmadas ao verificar que os outros partilhavam das suas
opiniões». Em vez de nos unirmos uns aos outros numa causa comum, a ansiedade
que sentimos em relação à perda dos valores sociais e à forma como somos
impelidos a procurar ganhos materiais é muitas vezes vivida como se fosse uma
ambivalência puramente privada que nos separa dos outros.
As políticas
vigentes já não se debruçam sobre estas questões e desistem de tentar fornecer
uma visão comum capaz de nos motivar a criar uma sociedade melhor. Como eleitores, já perdemos de
vista qualquer crença colectiva de que a sociedade poderá ser diferente.
Em vez de uma sociedade melhor, a única coisa que quase todos nós ansiamos por
alcançar é melhorar a nossa própria posição – como indivíduos – no seio da
sociedade existente.
O contraste entre
o sucesso material e o insucesso social existente, em muitos países ricos, é um
indicador muito importante, pois sugere que, se quisermos alcançar mais
melhorias na verdadeira qualidade da vida, então precisamos de deixar de focar
a nossa atenção nos padrões materiais e no crescimento económico, e concentrarmo-nos,
antes, nas formas de melhorar o bem-estar psicológico e social das
sociedades como um todo. No entanto, assim que se menciona algum
factor psicológico, a discussão tende a concentrar-se quase exclusivamente em formas individuais de remediação e
tratamento. Quanto a este aspecto, o pensamento
político falha rotundamente.
É possível
compor, hoje em dia, um quadro novo, convincente e coerente de como podemos libertar as sociedades da pesada
influência de tantos comportamentos disfuncionais. Uma melhor
compreensão daquilo que está a acontecer poderia transformar a política e a
qualidade de vida de todos nós. Poderia mudar a forma como vivemos a experiência do mundo
à nossa volta, a nossa intenção de voto e aquilo que exigimos aos
dirigentes políticos.
Neste livro
demonstramos que a qualidade das relações sociais numa sociedade baseia-se em alicerces
materiais. A escala das diferenças de rendimento tem um efeito
poderoso na forma como nos relacionamos uns com os outros. Em vez de culparmos
os pais, a religião, os valores, a educação ou o sistema penal, demonstraremos
que a escala da desigualdade fornece uma poderosa alavanca política que afecta
o bem-estar psicológico de todos nós. Assim como outrora foram necessários
estudos sobre o aumento de peso em bebés para mostrar que a interacção com um
prestador da cuidados carinhoso é crucial para o desenvolvimento da criança, de
igual forma também foram necessários estudos sobre as taxas de mortalidade e da
distribuição de rendimentos para mostrar as necessidades sociais dos adultos e
indicar como as sociedades poderiam satisfazê-las.
Muito antes do
surgimento da crise financeira que começou a impor-se nos meses finais de 2008,
políticos ingleses que estavam a debater o declínio da comunidade ou o aumento
de várias formas de comportamento antissocial referiam-se, por vezes, àquilo que
denominavam «a nossa arruinada sociedade». O colapso financeiro
desviou as atenções para a economia arruinada e, embora a sociedade arruinada
fosse por vezes culpabilizada pelo comportamento dos pobres, a economia
arruinada foi largamente atribuída aos ricos. Estimulados pelas perspectivas de
salários e bónus cada vez mais elevados, os administradores de algumas das
instituições financeiras mais dignas de confiança lançaram a cautela às urtigas e construíram castelos de cartas que só
conseguiam manter-se de pé no âmbito da protecção de uma fina bolha de
especulação. Mas a verdade é que tanto a sociedade arruinada
como a economia arruinada
resultaram do crescimento da desigualdade.
O que nos sugerem as provas
Iremos começar
por salientar as provas que demonstram que estamos a chegar ao fim daquilo que
o crescimento económico pode fazer por nós. A melhor forma de promover a
qualidade de vida humana foi, durante milhares de anos, melhorar os padrões de
vida material. Quando o lobo rondava e nunca estava muito longe da porta, "bons
tempos" eram simplesmente tempos de fartura, abundância. Mas para a vasta
maioria dos habitantes dos países ricos, as dificuldades da vida já não têm a
ver com encher o estômago, dispor de água limpa e manter-nos quentes. A maior
parte de nós actualmente deseja comer menos, curiosamente, e não mais. E, pela primeira
vez na História, os pobres são, em média, mais gordos que os ricos.
O crescimento económico, que foi durante muito tempo o grande motor do
progresso, alcançou largamente as suas metas nos países ricos. Não só os
indicadores de (…).
Richard
Wilkinson & Kate Pickett, «O
Espírito da Igualdade – porque razão sociedades mais igualitárias funcionam
quase sempre melhor», Editorial Presença 1ª Edição Lisboa, Abril
2010, Depósito Legal nº 307 171/10. E-mail: info@presença.pt
Richard Wilkinson
– professor de História Económica e de Epidemiologia [Universidade de
Nottingham/Medical School e na University College London]
Kate Pickett –
antropóloga-bióloga, cientista em Nutrição e em Epidemiologia [professora na
Universidade de York, investigadora no National Institute for Health Research]
[pp. 12]
[1] The Harwood Group, «Yearning for Balance: Views of Americans on Consumption,
Materialism, and the Environment». Takoma Park, MD: Merck Family
Fund, 1995.