teologia para leigos

19 de julho de 2022

REINO, SIM



REINO, SIM
‒ a propósito da consulta Sinodal





Contexto

Começo por referir dois factos coincidentes no tempo. O primeiro facto tem a ver com dois Autores que tinha começado a ler, precisamente quando surgiu a proposta da Consulta Sinodal por parte do Papa da Igreja Católica; refiro-me ao jesuíta belga Roger Lenaers (falecido em 2021) e ao Prof. José Veiga Torres. O segundo facto tem a ver com a minha dificuldade em sintonizar com o modelo escolhido para a auscultação. O ‘molde’ da proposta de trabalho do Papa Francisco parece-me ‘clássico demais’ para o longo tempo que já leva esta ‘vida católica oficial’ tão imbuída ainda ‒ p. ex., no terreno das Paróquias ‒ do “espírito de cristandade” (50 anos após o Concílio; «Depois da cristandade»; ¿Para qué la Iglesia?). Com este muito particular «Documento Preparatório - Sínodo 2023», percebe-se que o centro das atenções da metodologia de Francisco é a própria instituição. Devo confessar abertamente que isso merece uma séria reflexão. Sobretudo porque, a ser assim, a consulta caminha de costas-voltadas ao descentrado Espírito de Jesus Cristo. João 14,15-26 ‒ Jesus diz: Eu não sou importante. Importante é o espírito que está em vós (v.17). Quem crê em mim também fará as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas… Se me tendes amor, seguireis os meus passos e fareis o meu Caminho. Irei ser assassinado, mas não vos deixarei órfãos … Eu não sou o que importa, pois o que mais importa é «Quem acolhe o meu testemunho e o põe em prática» (v.21).

Também fiquei a interrogar-me quando me pus a contemplar o doloroso espírito do Mundo actual e o lugar que lhe estava reservado neste modelo de consulta («A sociedade da transparência», , «Meios sem fim», «Paradoxos do individualismo», «Política, Ética e Religião»). Foi então que me interroguei: será que, de facto, Roma jamais será capaz de superar o «eclesiocentrismo», o crónico «apascentar-se a si própria», essa incubadora de mártires, génios e profetas, mas também de carreirismo e autopromoção local e universal?

O Concílio Vaticano II deixou-nos uma enorme lista de questões para resolver. Elas começaram por ser valentes dores de cabeça para a Cúria, mas, de imediato (meia dúzia de anos apenas), foram tratadas como «documentos» a dissecar para ‘consumo consoante’, ou seja, para «citar» consoante. O Vaticano ‒ garante da boa Tradição ‒ conservou, até hoje, os textos do Concílio … no frigorífico. Não lhe deu o seguimento práxico como lhe competia.

A consequência é que, após o Concílio Vaticano II, a debandada dos católicos continuou e até se acentuou («Humanae Vitae», Papa Paulo VI, 1968). Ao mesmo tempo, começaram a perceber melhor porque se sentiam mal (“enganados”): alguns teólogos afirmaram que a Igreja Católica já não era a concretização terrena do «Reino de Deus» anunciado por Jesus (ainda nos lembramos da expressão “extra Ecclesiam nulla salus” ‒ «fora da Igreja não há salvação» ‒ expressão de S. Cipriano de Cartago, que Joseph Ratzinger retoma subtilmente na “Dominus Iesus”). Por outro lado, leigos mais críticos e letrados deram-se conta que até seria teologicamente concebível a existência de cristãos anónimos … (cf. «Los cristianos anónimos», Cap. XII de “Escritos de Teología-VI”, K. Rahner, Ed. Cristiandad, Madrid 2007, p. 485-493).

Após o pregão de Alfred Loisy ‒ «Jésus annonçait le Royaume, et c’est l’Église qui est venue» ‒ esses mesmos leigos passaram a interrogar-se: merece a Igreja ser objecto da nossa fé? Na verdade, na versão latina do Credo, não está lá «creio na Igreja», mas “credo ecclesiam” («creio [que existe a] Igreja»)… Além disso, se esta Igreja é tudo menos uma “verdadeira assembleia de amor”… e apenas um ajuntamento dominical onde todos até condescendemos num muito artificioso ‘abraço da paz’…, merece crédito de fé, esta Igreja assim? Rapidamente, tudo se complicava.

Quando surge o slogan «Jesus sim, Igreja não!» não faltaram as reacções desestabilizadoras. O certo é que mais uma vez, mas agora com Francisco, esta Consulta Sinodal parece querer ir na mesma linha de preocupação manifestada por alguns diante do Concílio Vaticano II: tornar a Igreja apenas «mais apta» (Paulo VI). Reparemos. Em todos os 8 «objetivos de grande relevância para a qualidade da vida eclesial e para o cumprimento da missão de evangelização» com que o “Documento preparatório Sínodo 2023” abre (cf. Ponto 2. - «caminhar juntos»), o objectivo visado é sempre o incremento da qualidade do ‘ser Igreja’, o qual por larga maioria é ‘ad intra’. Com esta consulta, reforça-se assim, pois, a preocupação da Igreja católica consigo mesma, enquanto a crise de identidade e de pertença vai abalando de uma maneira violenta os alicerces da própria instituição: taxa de baptismos, ‘baixa’; taxa de casamentos, ‘baixa’; taxa de divorciados recasados, ‘brutalmente alta’; sacramento da penitência, ‘zero’; participação na eucaristia, ‘em queda continuada’; vida sacerdotal e ordenações sacerdotais, ‘crise profunda’; paróquias sem sacerdote, ‘em crescendo’. Face ao século XX, onde o Concílio Vaticano II pontificou como uma aragem promissora, nós, os do século XXI, com este ‘modelo’ de «abordagem virada para dentro» («Documento Preparatório – Sínodo 2023»), avançamos mesmo ou marcamos passo? Como o caraterizar? Estamos, de facto, perante uma estratégia eivada de «ousadia» do nível da insuperável capacidade de ruptura do «Bom Papa» Roncalli, logo após a sua investidura?

50 anos a marcar passo

É lei geral das instituições humanas acabarem por confundir os seus fins com os seus próprios interesses. Ora, todos sabemos que “o culto religioso” gira em torno de sacerdotes que ‘oficiam’ e ‘oferecem sacrifícios a Deus’ à volta de um altar. A expressão do Catecismo ‒ «Fonte e Cume» (n. 1324) ‒, aplicada, ‘a secas’, à eucaristia (passe o espanholismo) fez com que a Missa arrebatasse o melhor do quinhão da vida da Fé do crente e, a ela, o amarrasse: «Tudo a ela se ordena», diz o Catecismo. Na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa. Não há Igreja, salvação, acção pela qual Deus em Cristo santifica o mundo, nem vida de fé, sem eucaristia (Catecismo ns. 1324-1327).

A Igreja católica, no seu geral, não conseguiu intuir os “sinais conciliares”, nem perceber que após o Concílio urgia recentrar a sua missão, nomeadamente, passar de uma Religião à volta do Rito e do Culto a Deus (Antigo Testamento) para o anúncio do Reino de Deus proclamado por Jesus (Novo Testamento).

Recordemos o que, entretanto, foi acontecendo após o Concílio. Nos anos 60-70 (séc. XX) surge o movimento «Regresso a Jesus» (prioridade aos Evangelhos, regresso aos textos); mais tarde, anos 80-90, surge o slogan «Deus sim, Igreja não» (“dissociação”; crer, mas não pertencer - «believe without belong»). Mais tarde, «Religião sim, Deus não» (fragmentação da cultura pós-moderna; “alternativas religiosas”; ‘religião sim, mas o Deus dos cristãos não’; “religião à la carte”). Em suma, a religião cristã, que a Instituição apresenta no espaço público, começa a ser relativizada. A sua procura retrocede consideravelmente e o catolicismo (europeu, mas não só) decai.

Que tem Jesus a ver com isto?

Hoje sabemos (de modo fundamentado) que Jesus de Nazaré não pregou nem fundou uma Igreja, Jesus não ordenou nem “enviou” uma hierarquia de eclesiásticos, não formulou nem instituiu os sacramentos (Eucaristia, etc.), não definiu serviços ministeriais, não pregou uma nova Religião, etc. Sendo verdade que tudo foi construído apenas por mãos humanas, então, ao verificar-se a necessidade de reformas tudo poderia ser igualmente reformulado por seres humanos. Acontece que essa pretensão colide de frente com a dita “origem divina” da Instituição eclesial, com a dita “origem divina” da ordenação dos sacerdotes, com a dita “origem divina” da configuração dos sacramentos, etc., pelo que só os eclesiásticos ‒ intermediários entre Deus e os homens ‒ estão mandatados para o fazer. Como nestas matérias só ‘entram’ eclesiásticos auto-divinizados, de nada adianta a consulta sinodal aos leigos sobre esses assuntos, pois a sua opinião nunca poderá ser vinculativa enquanto não se anular a usurpação da ‘origem divina das ordens’ por parte dos eclesiásticos. Eu creio que essa anulação nunca irá acontecer, na medida em que isso significaria o fim da «Religião Católica», uma verdadeira hecatombe. Quanto a isto, Jesus está ilibado. Ele não tem nada a ver com este estado de coisas. É tudo da responsabilidade dos homens. Por isso mesmo, eu guardo sérias dúvidas sobre o real valor desta consulta sinodal. Como diz o ditado árabe, «Os cães ladram e a caravana passa.»

Aquando da presença de Francisco nas JMJ no Brasil (2013), o Professor Alfredo Valladão reparou no que estava a acontecer com os movimentos evangélicos e deu-lhe para os comparar com a maneira como a estrutura da Igreja Católica brasileira agia com o mesmo tipo de povo: “Francisco foi eleito para pôr a casa em ordem e reconquistar os corações perdidos dos fiéis. Mas não há reconquista que não passe pela América Latina. Basta olhar para um mapa-múndi religioso para constatar que a região contém mais de 40% dos que se declaram católicos no Universo e que o Brasil é a maior potencia católica do planeta com mais de 160 milhões de fiéis.” E acrescentou: «Um povo sem segurança e sem garantias. Famílias destruídas, instituições carentes. Do caos desta urbanização selvagem nasceu o “indivíduo”, solto, sem referências sociais, cuja sobrevivência depende da sua capacidade de iniciativa própria. Cada um por si e Deus por todos. Na última década, a nova Classe C mergulhou na sociedade de consumo e cada um quer participar da festa. Pela primeira vez o espírito do capitalismo e do sucesso individual chegou às populações mais pobres do país. Tudo isso é bênção de Deus para os movimentos evangélicos que trabalham numa relação direta com cada pessoa, exaltando as emoções. Para os crentes, o Paraíso é aqui e agora. O sucesso econômico é uma manifestação direta e individual da graça divina. Melhorar de vida, trabalhar duro e ganhar dinheiro são valores que devem ser cultivados. A responsabilidade individual é promovida como regra central de comportamento. Nas assembleias de crentes a confissão é pública e o pecador assume seus pecados perante os outros e perante a Deus, sem intermediários.

«A Igreja católica tem as maiores dificuldades em se adaptar a este novo mundo. O aparelho católico construiu sua força e seu poder como um “corpo intermediário” entre Deus e os homens. No seu relacionamento com o divino, o católico tem de passar necessariamente pela mediação do padre, das ordens religiosas, de toda a pesada estrutura eclesiástica. Apesar das inovações do Concílio Vaticano Segundo, a liturgia católica ainda está longe de ser “participativa”. A confissão segredada (‘cochichada’) a um sacerdote, que ostenta o poder de conceder a absolvição, retira a responsabilidade e a culpa individual do pecador para reintegrá-las no corpo coletivo da Igreja. Uma Igreja que detêm a chave do Paraíso. Que não é deste mundo.» (https://www.rfi.fr/br/)

Há então que fazer a seguinte pergunta: se Jesus não reformou a sua Igreja judaica nem anunciou uma Nova Religião, então o que é que Jesus veio anunciar que fosse verdadeiramente novo? A resposta a esta pergunta entrou num texto conciliar (p. ex., Lumen Gentium 5). Há que relevar que, dez anos após a abertura do Concílio, o Papa Paulo VI, fruto da presença impactante das Igrejas da América Latina nos trabalhos conciliares («Pacto das Catacumbas»), fez questão de referir essa imprescindível centralidade do Reino na sua «Evangelii Nuntiandi» (ponto n. 8), o que ficará para a história do pós-Concílio: «Como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser "o resto" que é "dado por acréscimo". Só o reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele.» (“Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.” – Mateus 6,33). Esta “pérola” teológica acabaria por ser vilipendiada pelo superintendente da «Doutrina verdadeira», card. Joseph Ratzinger», do que resultariam críticas e sanções muito graves a alguns teólogos não-europeus, mas também europeus. À época, era Papa o cardeal Karol Wojtyla.

Por aqui vemos que a menina-dos-olhos de Jesus reside, pois, na expressão que os evangelistas guardaram como um tesouro no seio de comunidades de vida fraterna: «Reino de Deus», «Reino dos Céus» ou «Reinado de Deus» (Marcos 1,14-15, Mateus 18,1). Quem quer que vire as costas à Igreja católica, quem aponte o dedo à Igreja católica, quem a pretenda reformar, quem a defenda obstinadamente contra-ventos-e-marés tal como está ou ache que ela deve ser apenas «mais apta», modernizando-a («Evangelii Nuntiandi» n. 2), terá, inevitavelmente, de responder à pergunta “o que é que Jesus de Nazaré queria dizer com aquilo que Ele anunciava como decisivo, o Reino de Deus?”. É aqui que está a questão que decidirá sempre o futuro da instituição católica, instituição que foi vivendo desde o séc. IV até … bem dentro do século XX … (o que é espantoso!) em «Regime de Cristandade», regime que há muito se esgotou.

A primeira questão que a “Consulta Sinodal” deveria, por conseguinte, colocar é: que significou, para Jesus de Nazaré, o «Reino de Deus?», que significou esse grande omnipresente na vida de Jesus? Se no decorrer da consulta sinodal os cristãos não derem, antes de mais, resposta a essa pergunta, o futuro da Mensagem de Jesus ficará uma vez mais adiada…

Cristologia

A condição crente é, antes de mais, a condição daqueles que colocam a sua Fé em Jesus Cristo e a partir d’Ele conformam a totalidade do seu projecto de vida. Mas, para isso, é preciso saber quem é Jesus Cristo. A resposta é, então, do foro da cristologia. Portanto, a questão central da Consulta Sinodal deverá ser do foro da Cristologia e não da Eclesiologia. A cristologia é o discurso sobre Jesus ‘sub specie regni’, ou seja, à luz do Reino. Nada do que se diga de Jesus pode ser dito se não estiver em sintonia com o Seu projecto de Reino de Deus. Uma cristologia sem Reino é mera formalidade. Jesus serviu para justificar ditaduras, massacres, perseguições e assassinatos (muitas vezes, à ordem da própria Igreja de Roma). Portanto, há que exigir sempre esta referência ao Reino, quando se impõe justificar acções e programas humanos ditos cristãos. A Pessoa de Jesus e o Mistério que o habita estão em muito íntima dependência do Seu projecto de Vida ‒ o Reino de Deus ‒, o qual Ele exerceu em estreita relação com a vontade do Pai (Getsémani; Mateus 26,36). Só podemos falar de Jesus (e justificar-nos) a partir da sua história e da sua práxis: que fez e que disse Jesus (gestos e palavras, sabendo de antemão que as Suas ‘palavras’ não eram parte de discussões ou falatório, antes desencadeavam ‘acções’). Aceder ao que Jesus disse e fez é uma realidade que não está ao nosso alcance sem o recurso, em primeira instância, à leitura dos evangelhos. Se excluirmos o livro dos Actos dos Apóstolos, a expressão “Reino de Deus” (ou Reino dos Céus) surge cento e quatorze vezes nos Sinópticos. Torna-se evidente que, entre Jesus Cristo e ‘Reino de Deus’, se constitui um círculo hermenêutico, que acaba por ser um princípio epistemológico para a Cristologia. A circularidade hermenêutica entre Jesus e o Reino é a condição fundamental que há que ter em conta para se conhecer Jesus Cristo. A pessoa e a missão de Jesus Cristo só podem ser conhecidas à luz do Reino. É o que quer dizer ‘circularidade’: se pretendo conhecer uma destas duas realidades ‒ Reino ou Jesus ‒ necessito iniludivelmente de me referir à outra. Marcos 8,33 é um bom exemplo prático desta circularidade: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens.». Em concreto: compreender quem era Deus para Jesus e em que consiste esse Reino de Deus para Jesus implica ter sempre presente como Jesus optou pelos pobres e pelos marginais (Lucas 17,11), implica ter sempre presente as Bem-aventuranças (Mateus 5), implica o poder como serviço e não como domínio (Mateus 20,28), implica fazer como Ele fez a práxis do “esvaziamento, da humilhação e da encarnação”, como denunciou profeticamente tudo aquilo e todo aquele que atenta contra a vontade de Deus-Pai, que quer que o ser humano viva e tenha vida em abundância (João, 10,10).

Compreender Jesus a partir do Reino de Deus faz com que nos coloquemos diante da concreção histórica da pessoa de Jesus e do modo como Ele se inscreve nas Promessas Históricas do Antigo Testamento ou como Jesus deita raízes bem fundas na Memória dos Hebreus, quanto à opção pela condição humilde, pelo desprendimento diante da tentação da acumulação egoísta, bem como quanto à solidariedade para com os escorraçados do sistema imperial (Lucas 4,16-30). É a partir da práxis de Jesus que acolheremos o Reino de Deus na História, evitando a vontade de poder e de domínio típica do ser humano (Idem, v. 28: «todos se encheram de furor»). Esta tentação, sempre patente, também se manifestou em Pedro, o qual diante do destino de rejeição, de conflito, de condenação e perante o vaticínio da morte do seu amigo, lhe puxa o braço para o lado a fim de o repreender. Convém relembrar que o motivo porque Jesus foi condenado à morte tem a ver com o seu projecto de instauração do Reino de Deus pelo qual deu a sua vida até ao fim (Marcos 15,43: «José de Arimateia também esperava o Reino de Deus»). Em suma, Jesus não é o mediador entre Deus e os homens. Jesus é o mediador entre o Reino de Deus-Pai-Misericordioso e a humanidade.

«(…) melhor se conhece a interioridade humana de Jesus a partir da exterioridade da sua relação com o reino. Essa exterioridade é a que melhor nos revela no concreto ‒ in actu ‒ o Jesus comprometido com a verdade, misericordioso e justo, denunciador e desmascarador, disponível e fiel. É essa exterioridade, exigida pela construção do Reino de Deus, que vai configurando a sua interioridade pessoal quanto à sua relação com o Pai.» (Jon Sobrino, «Cristología sistemática – Jesucristo, El mediador absoluto del Reino de Dios», in ‘Conceptos fundamentales de la Teología de la Liberación’, Vol I, UCA Editores y Trotta Madrid 1990, pp. 579-580).

Reino, sim

Numa época em que todo o Mundo já ultrapassou o slogan de que ‘a religião é ópio do povo’ e em que a dimensão “Mistério da Vida Humana” vai saindo à rua por diversos poros (férias e fins-de-semana frugais, poesia, literatura, contemplação, arte, modos de vida familiar alternativos, «solidariedade activa na história» [Mt 25,31-46], etc.), damo-nos conta de que “a vida humana não se esgota no mundo físico. Há uma série de «mundos» ou âmbitos que não são tão palpáveis nem são descritíveis e, no entanto, são reais, existem [e exigem-nos], e são importantíssimos para a vida humana – é o caso da interioridade: o mundo da vida psíquica, das vivências, dos sentimentos, dos desejos, das frustrações, dos traumas, [da vida em comum, o viver juntos].” (J. M. Mardones, «Matar a nuestros dioses», p. 200).

Ora, é então que faz sentido a expressão «Reino» como o universo do gratuito, do encontro e da verdade plena. A ser assim, outras tradições religiosas e culturais poderão enriquecê-la com valorações para lá das expressões cristãs “Igreja, Cristo, Jesus ou Deus”. Inclusivamente, os cristãos poderão preenchê-la com Graça e Verdade plena, Encontro fraterno, ‘agapê’. Se estivermos inspirados, poderemos realizar o «Encontro Humano» à volta da dimensão duma «Vida Abundante» que seja fruto da justiça, da fraternidade e da paz, permitindo confluir para aí seres humanos de distintas tradições culturais e religiosas que valorizem a centralidade da compaixão. Não vivenciaram outros, antes de nós, que a Graça de Deus chega sempre antes que o Evangelho seja proclamado? «É assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós» (cf. Romanos 5,5-10). E que são estas “migalhas de Reino” senão aquilo que os Padres da Igreja chamavam “semina Verbi”, consequência da encarnação do Verbo que assume todo o tipo de ser humano (Filipenses 2,1-11)?

Se quisermos abrir novas rotas à Igreja do século XXI, esta categoria elementar ‒ ‘Reino’ ‒ será capaz de franquear uma nova perspectiva de diálogo e de procura comum com muitos homens e mulheres que partilham, como horizonte, aquilo que Jesus também possuía (mesmo que não o identifiquem como «o Mestre» de Nazaré; seria preciso, agora, reler Karl Rahner in «Fundamentación sacramental del estado laical en la Iglesia», Escritos de Teología VII, Taurus Madrid 1969, p. 364, linhas 3-8). Esta perspectiva evangelizadora das ‘semina Regni’ convida-nos a ter um olhar da história e da realidade a partir daquilo que também era fundamental para Jesus: o Reino. Assim, confluindo nós para «O Reino» ‒ sem o complemento ‘de Deus’ ‒ podemos associar as nossas forças à de todos aqueles que queiram, não só curar os feridos que jazem na margem do caminho, mas também aos que queiram interrogar-se acerca das razões de por que é que o caminho continua a expulsar e a despejar vidas humanas, bem como, ao mesmo tempo, como é que nós poderemos refazer o caminho novo da liberdade, da justiça, da paz e da fraternidade, onde não haja verdugos nem vítimas, mas sim Reino, Reino, sim!

Seria muito triste que, depois de termos colocado no centro do nosso olhar precisamente aquilo que Jesus colocou no centro do seu olhar ‒ um Reino de paz e de justiça sem verdugos ou vítimas, mas apenas ‘agapê’ (C. Spicq) ‒ voltássemos, neste século XXI, a olhar apenas para o nosso umbigo… Perante isto, creio que é desnecessário referir que as questões insistentemente reclamadas nas respostas à Consulta Sinodal ‒ mais democratização dentro da Igreja católica, ordenação das mulheres, partilha do poder de decisão, ordenação de homens casados, repescagem de sacerdotes afastados, etc., etc., etc., curiosamente tudo «aquilo que nos seria dado por acréscimo» se nos lançássemos à construção do Reino de Deus e que, precisamente por isso, não nos deveria moer o juízo ‒ são secundárias apenas por uma razão: porque elas terão forçosamente de ser referidas à questão central da Vida de Jesus:

La centralidad del reino de Dios anunciado por Jesús .



Paulo Bateira

28 de Junho de 2022


1 de junho de 2021

Igreja, carisma e poder - Leonardo Boff

 





Leonardo Boff ‒ teólogo da Graça libertadora



Este livro tem apenas uma finalidade: mostrar a radicalidade do Evangelho de Jesus e o valor universal da Teologia da Libertação. De facto, há coisas que de tão óbvias acabam por ser pouco recordadas ou comentadas. Muito naturalmente passam despercebidas. A tempestade que se abateu sobre a Teologia da Libertação (TdL) foi tal que até pareceu que iria acabar definitivamente com ela. A verdade é que acabaram sempre por luzir as estrelas da sua legitimidade. Hoje, alguns dão a entender que a TdL é coisa que pertence ao passado, algo que deixou de fazer falta, inútil, e falam dela como de algo ensopado e morto na lama do esquecimento. Então, porque é que uns quantos, ‒ não tão poucos assim ‒ afiaram as suas hostilidades contra a TdL a partir de instâncias do poder as mais diversas?

Esta Teologia, despossuída de outros títulos que os do Evangelho de Jesus, revelava os pobres como os dilectos de Deus (Tiago 2,5) e reclamava os seus direitos. Velha novidade, esta, que acabava de chegar da periferia, onde sempre se impusera o absolutismo do centro. O centro imperial e religioso, dono da verdade, considerava inquestionável o seu direito a definir, a ensinar, a despojar, a dominar. A TdL, a partir da margem dos vencidos, procurava recentrar[1] a perspectiva, denunciava hábitos seculares, condenava todo o tipo de colonização, exigia um contrato de autonomia e de justa reciprocidade, ou seja, colocava-se no centro. A isso, o centro chamou heterodoxia eclesial, marxização, libertação temporalizante, fé decaída, assunção acrítica das ideologias materialistas e secularistas.

Comprovou-se uma vez mais um fenómeno secularmente reincidente: o poder, na medida em que se expõe tal qual é ‒ despojado de ideologias seculares ou sagradas que o justifiquem ‒ expõe à luz do dia o seu descaramento e, nesse momento, trata de se servir de argumentos falsos e, sobretudo, procura perseguir aqueles que não se preocupam em encobrir as suas fragilidades e fraquezas internas.

Leonardo é um dos mais relevantes expoentes da TdL. O poder sonhava domesticá-lo e para tal activou os mecanismos que o neutralizassem e que reduzisse o impacto libertador do seu ensino na mente do povo. Os objectivos da Inquisição, apesar de se revestirem de formas históricas diversas, são sempre os mesmos: moer a resistência e as utopias internas da pessoa em causa. Acontece que nem sempre o consegue. O poder pode reduzir, e inclusivamente extinguir, a vida do corpo ‒ a mais exasperante prova da sua impotência ‒ mas não consegue escravizar a alma: «Não temais aqueles que até podem matar o vosso corpo: eles não conseguem matar a alma» (Mateus 10,28). Leonardo, na sua famosa CARTA DE RENÚNCIA (ver em baixo), di-lo: “Tenho a sensação de ter chegado a um momento em que diante de mim está um muro intransponível. Não me é possível dar nem mais um passo. Retroceder implica sacrificar a minha própria dignidade e renunciar a uma luta de anos e anos. Nem tudo é lícito à Igreja. A morte de Jesus também quer significar que nem tudo é lícito neste mundo. Existem limites inultrapassáveis: o direito, a dignidade e a liberdade da pessoa humana. A igreja hierárquica não tem o monopólio dos valores evangélicos nem a Ordem Franciscana é a única herdeira do Sol de Assis”.

Ainda bem que existe gente que assume a tarefa de ajudar a Igreja a libertar-se sem que se deixe anular pelo temor. Boff, entre aprendizagens e evoluções, andou sempre para a frente como se tivesse encontrado uma pérola preciosa: tomou posse dela e nunca pôs a hipótese de a usar como moeda de troca ou traficar com ela. «O Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. O Reino do Céu é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola.» (Mateus 13,44-45)

Pode acontecer que muitos dos leitores deste livro, apesar de tudo o que se escreveu acerca da TdL, não tenham claro o seu sentido ou pensem que, qual fenómeno de moda, tenha começado a declinar e a perder vigor. É a essas dúvidas que este livro pretende responder. Dificilmente se encontrará, como aqui, uma antologia de textos como os que foram seleccionados: 10 artigos recenseados por ordem de publicação. Neles, Leonardo Boff, num lapso de tempo de cerca de 25 anos, afronta com profundidade o significado e o alcance da TdL. Alguns nunca tinham sido traduzidos para castelhano e outros nunca chegaram ao grande público por terem sido publicados em sítios muito dispersos ou para grupos restritos.

A novidade deste livro não está somente na antologia de textos, mas em apresentar pela primeira vez o contexto familiar e social a partir do qual Boff arranca, quase imparavelmente, a correr atrás da Teologia da Libertação.

E, por conseguinte, fica aqui relatada a comoção que a sua opção teológica provocou na Igreja católica e na sociedade em geral, atestada relevantemente durante o “processo doutrinal” que o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício), lhe abriu e que em tempos fora seu Professor e amigo.

Neste livro, onde encontrarão mais carisma que poder, é provável que acabem fazendo suas as palavras do poeta e bispo amigo Pedro Casaldáliga: “Paz e bem, irmão Leonardo: a irmandade inteira acompanha-te na oração e na fé com as serenatas impacientes da esperança e na rebelde fidelidade dos adultos corresponsáveis pelo Reino de Deus”. (Excerto - APRESENTAÇÃO)



Benjamín Forcano



Benjamín Forcano, «LEONARDO BOFF» (para download parcial)



Leonardo Boff, «Igreja, carisma e poder» (download total)





«Carta de Renúncia» de Leonardo Boff

BENTO XVI, o Papa fracassado que dedicou quase toda a sua vida de teólogo a destruir aquilo que o Concílio Vaticano II teve de mais profético e a "abrir" processos contra mais de cem teólogos/as e algumas Congregações Religiosas Femininas...




[1] Cf. Agenor Brighenti, «El Sínodo para la Amazónia – una sinodalidad como convergencia de la diversidade», Concilium 390 (2021/2/Abril), pp. 51-61 [pp. 211-221]: “Com o Sínodo para a Amazónia, a ‘periferia’, acabada de chegar ao ‘centro’ da Igreja ‒ gerando instabilidade e temor ‒, desafiou o ‘centro’ a descentrar-se de si mesmo para que acolha as interpelações do Espírito que, actualmente, procedem sobretudo do Sul global.” (…) “À luz do Concílio Vaticano II, uma suposta Igreja universal (que precede e acontece nas igrejas locais das quais o Papa é o representante e garante) é, para W. Kasper, uma «ficção eclesiológica». Tal universalidade não passaria de uma extensão e sobreposição de uma ‘particularidade’ acima das demais e, portanto, de um universalismo assente sobre uma relação assimétrica, vertical, dominante, colonizadora. A «única» Igreja é a «Igreja de Igrejas» [Cf. Jean-Marie Roger Tillard, «Église d’Églises. L’écclesiologie de communion», Partis, Cerf, 1987], cada uma conjugando autonomia e comunhão com as restantes igrejas, e presidida pelo Bispo de Roma. Na Igreja nascente, cada igreja local configura-se, não como uma filial ou cópia de uma suposta «Igreja mãe», mas pelo contrário, tendo ‘um rosto próprio’, culturalmente novo, ‘universal’ quanto às suas particularidades” [Mário de França Miranda, «Igreja local», Actualidade Teológica 34 (2010) 40-58, p. 44. Cf. Henri Legrand, «La réalisation de l’Église en un lieu», em Initiation à la practique de la théologie, vol. II, Paris, Cerf, 1993, 145s.]

28 de março de 2021

Las cosas deben cambiar - Bernhard Häring





NADA PODERÁ FICAR COMO ESTÁ

Uma confissão corajosa



«Não conheço este homem» (Mateus 26,72.74)

O conhecimento amoroso de Jesus como pressuposto do conhecimento do Pai é a essência e a síntese da «vida eterna» (João 17,3), da salvação. Ele é também a afirmação central da salvação e do anúncio salvífico. O vocábulo hebraico para ‘conhecer’ (yadá) indica um conhecimento amoroso revitalizante, o qual também abarca o conhecimento mútuo dos esposos durante o acto do amor transmissor de vida. Era este tipo de conhecimento de Jesus que faltava a Pedro, segundo o relato de Mateus. A sua obstinada negação e a sua resistência a abrir-se a este tipo de «conhecimento» de um Messias humilde e sofrido fê-lo carregar com a admoestação: «Satanás!» (Mateus 16,23). É precisamente isso que está no centro da «conversão»: o regresso ao conhecimento de Jesus como Filho do Homem.

Por conseguinte, não temos de ficar surpreendidos por, no relato das negações, Mateus ter posto o dedo na ferida! Pedro, relutante, insiste duas vezes: «Não conheço esse homem» (Mateus 26,72). «Pedro começou, então, a dizer imprecações e a jurar: “Não conheço esse homem!”» (Mt 26,74).

“Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo. Jesus disse-lhe em resposta: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu».” (Mateus 16,16-17) Segundo Mateus 16, e outras passagens, é patente que a proclamação salvífica de que «Jesus é o Messias, o Cristo» pressupõe o «conhecimento do filho do homem», ficando assim claro que este tipo de «conhecimento» está na essência e no cerne da «conversão» de Pedro. Não basta um «conhecimento» meramente teórico de fórmulas de fé. Tem de ser um conhecimento que transforma toda a existência da pessoa e garanta a entrada numa vida autêntica, ou seja, na «vida eterna». Poderá então enjeitar-se a conclusão de que a credibilidade do ministério de Pedro depende de uma conversão existencial a este tipo de conhecimento, o qual deverá encharcar e marcar profundamente toda a vida do titular de dito ministério e de todos os seus colaboradores?

Frequentemente, o desejo de postos honoríficos, incluindo o «trono pontifício», foi, ao longo da história da Igreja, um obstáculo a dificultar a expressão da pureza dos sentimentos e do testemunho da fé, quando não até motivo para o efeito totalmente inverso. A sacralização de comportamentos atentatórios e o exercício autoritário do poder são coisas diametralmente opostas à mensagem salvífica e à missão de curar. Quando o sucessor de Pedro e os seus colaboradores mais próximos se entrincheiram em doutrinas que não foram reveladas nem pertencem seguramente ao núcleo da fé no filho do homem glorificado pelo Pai, então, eles põem em perigo a saúde e a salvação; e isso tanto mais quanto o seu «estilo de dominação» se afasta do carácter de serviço da sua vocação. Entretanto, tudo aquilo que foi dito a Pedro é igualmente dirigido a todos nós: ou entramos totalmente na solidariedade da salvação ou então ver-nos-emos capturados pelas armadilhas da perdição do egoísmo.

A doutrina da fé na redenção e da solidariedade na salvação concentra-se sobretudo na ideia que Jesus tem de si mesmo como «servo de Yahvé» e «filho do homem». Donde se conclui, portanto, que é particularmente nociva negar-nos a conhecer ou insistir em ignorar tal dimensão. É assim que se bloqueia «o caminho da paz» e se priva o mundo do testemunho salvífico através do Messias. Toda a cristandade se deve interrogar uma e outra vez e sempre sobre o que significa o “conhecimento” (no sentido bíblico) do filho do homem.

Caso insistamos em martelar incansavelmente em mandamentos e preceitos secundários e inclusivamente indemonstráveis passando ao largo da fé nuclear e do testemunho vivente da mesma fé, deslegitimaremos a fé e a alegria da fé dos nossos irmãos e irmãs. Esta afirmação é aplicável a todos nós, mas de um modo sobretudo urgente ao titular do ministério de Pedro e à totalidade dos seus colaboradores. Que fantástico futuro se abriria de par em par para toda a Igreja, para a cristandade inteira, se o bispo de Roma e todos os bispos e teólogos humildemente aprendessem a partir do testemunho existencial dos homens e das mulheres que encarnam esta fé nuclear! Para a Igreja católica, o ministério de Pedro é uma questão de vital importância. Acontece que a Igreja também precisa do ministério e do testemunho de João, que não menosprezou Pedro, apesar do seu grave fracasso, nem lhe virou as costas. Na senda das palavras de Maria de Magdala, ambos empreenderam juntos uma caminhada veloz em direcção ao sepulcro vazio. João foi mais rápido do que Pedro. A fé pascal acendeu-se, primeiramente, no discípulo que permanecera junto à Cruz. João foi não apenas acicate, mas o apoio de Pedro, no seu caminho da «conversão».



AS TRÊS TENTAÇÕES E OS TRÊS ÂMBITOS DA CONVERSÃO


Gostaria, pela mão do Midrash da tentação e da oração de Jesus diante das tentações diabólicas que falseiam a religião, expor algumas ideias que eventualmente pudessem ser proveitosas para a Igreja, para todos nós, incluindo o Vaticano. Ainda que, a princípio, isso possa ser doloroso, temos de arrancar a crosta à ferida a fim de a tratar e curar.


A religião rentável

O «Opus Dei» (a Obra de Deus) e com muito mais evidência a «Engelwerk» (a Obra dos anjos), são exemplos de marginalização do caracter religioso, sobretudo no que diz respeito à primeira das tentações da religião. Ambas instituições cultivam uma religião muito rentável. A Obra dos anjos, com a sua consagração e iniciações secretas aos arcanos misteriosos dum presumível “fim dos tempos”, conseguiu haver-se com dilatados donativos e fabulosas heranças.

Quanto ao Opus Dei, a apreciação deverá ser mais matizada. Nele agem forças e anseios verdadeiramente religiosos, ainda que dentro dele se perfile a tendência para se estabelecerem alianças com os ricos e os poderosos, sob o argumento de ser uma obra despensadora e esmoler dos pobres. Mesmo assim, ninguém alerta para que deste modo se alimenta um dos maiores perigos a que sempre esteve e ainda está exposta a Igreja: ao aliar-se aos ricos, incute-se nos pobres a falsa consciência de que as desigualdades entre ricos e pobres é algo querido por Deus, devendo, portanto, ser lícito aceitar resignadamente a «ordem» das coisas (na verdade, uma catastrófica desordem), enquanto gotejar a esmola… Este modo de ver induz os bispos a continuar a dormir em palácios e a fazer pronunciamentos a favor do restabelecimento da «antiga boa ordem» na Igreja e a dar mais atenção à rigorosa obediência do que à autêntica ética da responsabilidade dos cristãos adultos.

Hoje é particularmente urgente revelar e denunciar todas as formas de «religião rentável» e desmascarar a cegueira e as seduções satânicas, que lhe subjazem, lançando mão de uma dinâmica salvadora, seguindo assim o exemplo de Cristo. Isto é muitíssimo mais importante do que procurar responder à pergunta de se … não será que por trás de todas essas cegueiras não estará o Diabo?! Enquanto remetemos as causas dessa realidade para demónios e bruxas pessoais e concretas, assim se vai mantendo e inclusivamente consolidando a funesta teia envolvente. Dito isto, não quero de modo algum dar por encerrada e respondida a questão de se e até que ponto esta funesta teia terá, neste nosso pequeno planeta, uma dimensão transcendente.

De modo algum gostaria de ser mal interpretado, por exemplo, querer converter o Opus Dei numa espécie de bode expiatório. A sua característica de gostar de se relacionar com a riqueza e com o poder não é um exclusivo seu: é uma herança a que, de um certo ponto de vista, todos estamos submetidos. Se o Opus Dei for capaz de se dar conta disso, assinalar os respectivos perigos e com os olhos postos no Evangelho superá-los, contrairá grandes méritos no âmbito de uma autêntica renovação da Igreja. Entretanto, essa propensão para claudicar deveria proporcionar a todos nós uma séria oportunidade para um exame de consciência.

Dentro do conceito de «religião rentável» está também a realidade das «mãos mortas», ou seja, do constante aumento e multiplicação dos bens da Igreja. Este fenómeno chegou quase ao seu fim (o arcebispo Paul Casimir Marcinkus disse: «Não se pode dirigir a Igreja apenas com Avé-Marias») aquando da secularização sob Napoleão e com a dissolução dos Estados Pontifícios. Seja como for, ainda se mantém de pé, ainda que numa proporção bem mais pequena, a dita tentação.

Pertence igualmente, e continuam a pertencer a esta problemática da «religião rentável» as diversas conjugações de ‘recompensa e castigo’, ‘sistema de promoções e de sanções’, etc. Com a sua psicologia do comportamento, F. B. Skinner demonstrou, servindo-se de argumentos convincentes, que, tal como entre os animais, também os humanos podem ser manipulados à custa de uma combinação adequada de “pau e cenoura”. No entanto, este autor não teve em conta ‒ e isso para mim é importantíssimo ‒ que as pessoas que estejam profundamente motivadas pela experiência da gratuidade de Deus, diante de Deus e diante dos homens, nunca morderão esse isco! Sempre que os círculos eclesiásticos, incluindo o próprio Vaticano, consentiram em ser apanhados por este sistema, isso é a prova de que nunca foram tocados pela experiência radical da fé e pela vivência da gratuidade; se acaso o foram, não o foram em grau suficiente.


Conduta ostensiva sacralizada

O Midrash da tentação revela até que ponto é funesta e até satânica a sacralização do antiquíssimo mecanismo contagiante desencadeado pela “conduta ostensiva”. René Girard, e outros investigadores do tema da Paz, vêem com inteira razão no comportamento ostensivo [1]‒ sobretudo nas culturas patriarcais ‒ sempre que se associa a “comportamentos imitativos”, uma das raízes principais da violência, mas também ‒ por último, mas não menos importante ‒ a origem da «violência religiosa»[2]. O comportamento ostensivo como método de autoimposição e como meio para se situar acima dos demais acaba por ser mais perigoso para a autenticidade da religião do que a vaidade feminina. Existe também a vaidade masculina, por exemplo entre os teólogos, mas essa é relativamente inofensiva e não acarreta perigos para a religião, a não ser quando consegue chegar ao extremo de pretender dominar ou menosprezar os outros. Uma certa e moderada dose de vaidade até poderá funcionar como válvula de escape, na medida em que isso faz com que não consiga atingir aquelas formas perigosas de comportamento ostensivo, sobretudo quando a pessoa é capaz de se rir com toda a franqueza da sua própria vaidade.

A história da religião, e de maneira especial a história da Igreja, denuncia a presença de formas sumamente nocivas de consentimento e de sacralização de comportamentos ostentatórios próprios de sistemas mundanos, que tendem sempre para a autoexaltação e acentuação da autoridade. Na verdade, praticamente todos os sistemas de dominação baseados no poder procuram sacralizar os seus próprios comportamentos ostensivos e impositivos. São exemplos clássicos, quanto a este propósito, o culto ao imperador divinizado no Oriente, no Egipto, em Roma, etc.

Já desde os dias da «aliança entre o trono e o altar» sob Constantino até à «Santa Aliança» entre o Papa, o Czar e o Kaiser, têm vindo a actuar os mecanismos de mútuo reforço dos comportamentos impositivos e respectiva sacralização. Santos como Francisco de Assis e Filipe de Néri aperceberam-se deste jogo e foram certeiros a ridiculariza-lo, mercê de um sentido de humor cristão e, assim, ajudaram muitos a precaver-se diante de tal tendência.




Quando em 1968 dirigi Exercícios Espirituais aos cavaleiros da Ordem de Malta, em Roma, o Mestre de cerimónias avisou-me que sempre que eu fizesse a genuflexão diante do altar deveria, de seguida, fazer uma profunda vénia ante o Grande Mestre e que, antes de começar uma homilia ou conferência, deveria dirigir-me a ele com a saudação de “Alteza eminentíssima”. Acontece que aqueles homens da alta aristocracia, que se batiam pela sua caridade generosa, gozavam com aquele rito e estavam perfeitamente dispostos a renunciar a ele. Uma das formas mais ridículas de “mimese e sacralização” do comportamento ostensivo é o uso da púrpura nas vestes dos Cardeais e a denominação de «purpurados» e de Eminência Reverendíssima outorgada aos seus titulares. O ponto culminante foi a introdução da “cauda” da capa magna na roupa cardinalícia. Até Pio XII, um dos direitos fundamentais do cardinalato era o de poder usar uma cauda de 12 metros. Eu fui testemunha, em Roma, de como, em variadas ocasiões, os cardeais mantinham entre si esses 12 metros de respeitosa distância e como eles desfilavam na Basílica Vaticana, seguidos dos seus caudatários.

Quando Pio XII diminuiu o comprimento da cauda cardinalícia para os 9 metros, produziu-se entre alguns deles um grande alvoroço. Aquando do funeral deste Pontífice, o cardeal Canali, chefe do grupo conservador à época, mais outros dois colegas, apresentaram-se ostensivamente em público, deslumbrantes, com a antiga ‘cappa magna’ luzidia de 12 metros.

O Papa João XXIII não deixou passar a mensagem subliminar deste curioso espectáculo. Nos primeiros dias da sua eleição como Sumo Pontífice, o «Osservatore Romano» ainda se mantinha fiel ao estilo do costume: «Pudemos ouvir dos augustos lábios de Sua Santidade…». O Papa tratou de chamar o redactor e comunicou-lhe: «Deixe-se de patetices e escreva: “O Papa disse”.» Antes do início da Quaresma de 1963, no primeiro ano do seu pontificado, Paulo VI enviou o seu mordomo a dizer-me que desejava que eu dirigisse os exercícios espirituais à Cúria. Perguntei ao mordomo com que títulos eu me deveria dirigir ao Papa e recebi como resposta uma desconcertante litania. Pedi-lhe então por favor: «Será que me podem pô-los por escrito? É que não sei se serei capaz de o fixar de memória…» O prelado apressou-se a comunicar ao Papa a minha pergunta e fez-me, então, chegar a resposta: «Proíbo-o de perder um tempo tão precioso com títulos inúteis. Caso concorde, pode saudar-nos a todos, a abrir a prática, com um “reverendos padres”.»

O meu cargo de secretário da redacção da Comissão para o ‘esquema’ «A Igreja no mundo actual» permitiu-me manter uma activa correspondência epistolar com os bispos que a integravam. Cedo descobri um sem número de bispos de espírito aberto, e também alguns muito conservadores, que recusavam o título de «excelência» e coisas parecidas. No fim do Concílio, vários bispos e cardeais mantinham frequentemente, em conjunto com alguns teólogos, uma reunião no Colégio belga, à qual também fomos convidados Yves Congar e eu. O assunto era um suposto «Esquema 14» acerca do retorno dos bispos e dos cardeais à simplicidade e à pobreza apostólica, bem como a supressão de todos os títulos não evangélicos. Várias centenas de prelados manifestaram a sua expressa aprovação à iniciativa. Estou convencido que ao regressarem às suas dioceses continuaram a alimentar as velhas fórmulas cerimoniosas. Provavelmente, a crise dos tempos pós-conciliares teria tido um cariz muito distinto e tivesse avançado por vias muito mais salvíficas se o Concílio tivesse tido a coragem de pôr um ponto final claro e definitivo a todo esse tipo de comportamento ostentatórios.

Advirto também para uma conexão entre a actual onda restauracionista e o regresso às velhas tradições ostentatórias. Caso não esteja errada esta suposição, então ficaria clara a existência de uma inter-relação psicológica entre as actuais tentativas de uma maior concentração do poder no Vaticano, um sistema mais generalizado de controlo e a imposição à força do conformismo em tudo aquilo que diz respeito a declarações vaticanas. Os líderes do movimento restauracionista tratam-se mútua e complacentemente com os ressonantes títulos de «Eminentíssimo e reverendíssimo senhor Cardeal», «Excelentíssimo e reverendíssimo senhor Bispo». Fica assim bem destacada a superior importância dos purpurados. Eu ouvi dos lábios de um dos mais acérrimos defensores da restauração e instigador da nomeação de bispos pertencentes à “linha dura” amargas lamentações porque tinha descido na escala muitos pontos a importância dos cardeais comparativamente aos bons velhos tempos em que cada cardeal dispunha do seu próprio palácio e de uma farta serventia de auxiliares. Fiquei surpreso que o Papa se tenha deixado levar por esse comportamento ostentatório sacralizador, sobretudo aquando da (posterior) confirmação do decreto que exige de todos aqueles que ocupam lugares de docência na Igreja uma confissão de fé e um juramento de fidelidade às doutrinas pontifícias (sem as definir em concreto). Os «Acta Apostolicæ Sedis» faziam notar que a aprovação pontifícia deste Decreto fora outorgada “ex audientia Sanctissimi”: aquando de uma audiência com o Santíssimo (AAS [1989], 1405). O documento, na verdade, é algo menos solene e, em vez do Santíssimo, contenta-se com um Beatíssimo, qualificações referidas ao Papa.

Impõe-se que Jesus leve a cabo uma nova purificação do Templo a fim de que se restabeleçam de novo na Igreja a salvação e as relações salvíficas para que se possa dar testemunho do Evangelho e da sua simplicidade. Desmascarar estas interconexões é um dever absoluto de todos quantos não queiram ser culpados das farsas e dos autoenganos «satânicos». A cobardia faz com que muitos se mantenham eternamente aprisionados nesta manobra do poder: a ostentação.

Para mútuo consolo, recordo a mim mesmo e aos meus leitores que a grande maioria dos nossos bispos já perceberam a marosca e amam a simplicidade evangélica. Contudo, são necessárias ainda algumas procissões rogativas e o ressoar de muitas trombetas de denúncia profética para que se desmoronem, como um castelo de cartas, os muros de Jericó e se abra na Igreja espaço livre para sãs relações, as quais nos permitam anunciar ao mundo de forma convincente o Messias manso e inimigo da ostentação.


As estruturas da tentação do poder religioso

Uma sentença proclama: «O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente» (Lord Acton). É esse o sentido que se dá à expressão latina “Corruptio optimi pessima” (A corrupção do melhor é a pior). A natureza das tentações e a sua interpretação pela Bíblia e pelo próprio Cristo abrange a dimensão satânica, a abismal rede da solidariedade na perdição, a falsidade e o logro como uma terrível ameaça à verdadeira religião. Aquela realidade chamada «mundo», no sentido que o Evangelho de João lhe dá, à qual nunca nos podemos acomodar, culmina no abuso do poder em nome de Deus. Donde, a fé e o seguimento incondicional do Servo de Yahvé, humilde, pacífico e pronto ao sofrimento sejam parte do desmascaramento joanico das tentações satânicas. A esta fé e a este seguimento é que deve converter-se Pedro e, com não menos radicalidade, todos quantos participam de algum tipo de exercício de autoridade na Igreja. Temos de olhar olhos nos olhos a tentação e reflectir com rigor uma e outra vez e interrogar-nos: como enfrentar essa tentação?

Paralelamente ao comportamento ostensivo sacralizado, caminha o perigo da implantação de estruturas de poder não evangélicas e o respectivo exercício da autoridade. Quando em 1870, Garibaldi, (1807-1882), líder dos movimentos de libertação italianos e da unidade nacional, arrancou ao papado os caducos Estados Pontifícios, os papas manifestaram sinais de ira durante quase sessenta anos: trancaram-se dentro dos muros do Vaticano e repreendiam todos aqueles que procurassem adverti-los que era possível renunciar ao poder terreno e continuar a seguir em frente. O conluio entre o ministério de Pedro na Igreja e o poder político ‒ de facto, expresso nos constantes Pactos com sistemas políticos europeus doentios e por fim acabando por estabelecer a «Santa Aliança» com o Kaiser e o Czar ‒ tinha de acarretar forçosamente repercussões funestas à autoridade e ao poder dos Papas e da Igreja no seu conjunto. Já na Alta Idade Média se havia registado essa mescla confusa quando o ministério petrino se converteu no pomo de discórdia entre a aristocracia romana e italiana. Contudo, só durante o «cativeiro de Avinhão» (1309-1377) é que se iniciou o caminho rumo a um centralismo universal de carácter absolutista. Confluíram para isso então ‒ com efeitos devastadores ‒ dois elementos: em primeiro lugar, a corte pontifícia de Avinhão precisava de novas fontes de recursos económicos, já que se tinha secado a mina dos impostos vindos dos Estados Pontifícios. E, por outro lado, o Estado francês, organizado de modo fortemente centralizado, sugeria um novo modelo de domínio papal. Foi, sob esta dupla influência, que se passaram a produzir as nomeações de bispos feitas pelos Papas praticamente sem a intervenção das Igrejas orientais, nomeações acompanhadas sempre de um “tributo”. A concessão de títulos eclesiásticos honoríficos converteu-se, também, em importante fonte financeira.





É legítimo justificarem-se as nomeações pontifícias de bispos por parte dos Papas na medida em que, assim, elas arrancavam essas nomeações das mãos dos interesses do poder político de imperadores, reis e príncipes. No entanto, que ainda hoje continue a ser o Vaticano quem, na prática, seja a única autoridade competente para a escolha dos cerca de cinco mil bispos repartidos por toda a terra e que, recentemente e pela primeira vez na história, se reserve ao Vaticano a aprovação de todos os professores de teologia das universidades e faculdades eclesiásticas, isso significa uma enorme concentração de poder. A frase «o Papa decide» induz em erro. Como é que é possível um único homem reger com justiça a diocese de Roma e chamar a si ao mesmo tempo e eficazmente as tarefas de Metropolita da circunscrição romana, as funções de Primado de Itália e Patriarca do Ocidente, de África, etc. etc. para além das funções de Cabeça da Igreja Universal? Como é possível um Papa controlar, de forma minimamente aproximada, as cinco mil nomeações de bispos e as ainda mais numerosas ‘confirmações’ de Professores de Teologia? Estamos perante uma inversão do princípio da subsidiariedade tão expressamente proclamado pela Igreja. Desta instância de nomeação e controlo faz parte um imenso aparelho burocrático, informadores oficiais e extraoficiais e dossiês com quilómetros de comprimento. Mais: isto não tem nada que ver com o princípio, reactualizado no Concílio Vaticano II, da «Colegialidade». Nascem, assim, nocivas estruturas de poder com a consequente diminuição da confiança mútua. Volta a fazer sentido puxar para o centro desta realidade a pergunta: podem, Pedro e os seus colaboradores, anunciar a mensagem nuclear do Servo de Yahvé humilde, manso e sofrido, glorificado pelo Pai? Obviamente que existem por muitos lugares do mundo testemunhas da fé que gozam de grande credibilidade, mas a questão que está aqui sobre a mesa é: o ministério de Pedro confirma ou, pelo contrário, obscurece essa credibilidade? Aquilo que unicamente importa é: uma “aliança de amor” … com a qual não encaixa mesmo nada bem um «aparelho» de controlo pletoricamente centralizado! «Mas tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos!» (Anúncio das negações de Pedro (Mt 26,30-35; Mc 14,26-31; Jo 13,36-38) - E o Senhor disse: «Simão, Simão, olha que Satanás pediu para vos joeirar como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos.» Ele respondeu-lhe: «Senhor, estou pronto a ir contigo até para a prisão e para a morte.» Jesus disse-lhe: «Eu te digo, Pedro: o galo não cantará hoje sem que, por três vezes, tenhas negado conhecer-me.» - Lucas 22, 31ss)

Afastemo-nos agora de algum tipo de pessimismo que eventualmente a descrição desta situação poderá ter causado e citemos um parágrafo de uma carta de um de entre os meus mais antigos doutorados, e que recentemente me chegou às mãos. O zeloso missionário escreve, cheio de confiança: «Aqui [na Indonésia] o cristianismo não tem a mais pequena mancha de bolor bafiento ou de religião retrógrada. Roma e o Vaticano estão demasiado longe e os dirigentes religiosos são homens e mulheres que dão o peito às balas, que se solidarizam com as preocupações e os temores, mas também com as esperanças e aspirações das suas comunidades e ninguém consegue ver neles a face do funcionário nomeado para vigiar autoritariamente a moral e as leis eclesiásticas. Aqui ninguém conhece a expressão «Igreja oficial» e penso até que nunca iremos ter necessidade de a traduzir para a nossa língua mãe.»


O caso da China

A Igreja perseguida da China há muito que teria tido a oportunidade de superar as suas enormes dificuldades se, diante daquele imenso povo e daquela excepcional cultura (um dos maiores espaços culturais planetários), Roma tivesse decididamente renunciado à nomeação dos bispos, ou seja, se pelo menos na China se tivesse regressado à ordenação eclesiástica inicial da Igreja dos começos. Para poder sobreviver, as igrejas locais teriam de assumir a responsabilidade de escolher os seus próprios pastores.

Porque será que Roma não consentiu? A nosso ver, porque não quis abrir nenhum precedente. De facto, se a Igreja abrisse a oportunidade de reactualizar, na China, o antigo ordenamento eclesial, como o poderia negar em África, na América Latina e nas restantes igrejas orientais? No novo Código de Direito Canónico, introduziu-se, pensando especialmente nas igrejas uniatas ‒ de pequena dimensão ‒, um modelo que está muito próximo do princípio da subsidiariedade. Porquê não o aplicar igualmente na China e, posteriormente, de forma definitiva, à Igreja universal? Não sairia afectada, bem pelo contrário, a “unidade na caridade” a que Roma deve presidir. A situação da Igreja na China é um kairos (um tempo desafiador) que merece profunda reflexão e coragem diante da oportunidade.


O caso da Checoslováquia

Em situações de necessidade extrema ‒ épocas de perseguição ‒ a Igreja recorreu, neste país, à ordenação sacerdotal (e episcopal?) de homens casados. Portanto, isto quer dizer que Roma estava de acordo com esta prática, ou não?! Hoje em dia, após a libertação [da submissão à URSS], existem regiões que sofrem de acentuada penúria de sacerdotes. E, no entanto, aquilo que parece pretender-se fazer neste momento é reduzir ao estado de diáconos todos aqueles homens casados feitos sacerdotes por extrema necessidade, passando uma esponja sobre tanto padecimento que, por causa da sua fé, esses sacerdotes sofreram. Estamos, mais uma vez, diante da atitude que visa não abrir precedentes. Também aqui estamos diante de um tempo-kairos. Até ao fim do século XIX, a Igreja da América Latina e a das Filipinas dependiam, exclusiva ou quase exclusivamente, de sacerdotes importados. Não se confiava na capacidade dos nativos em viver o celibato e nem sequer capacidade formativa sacerdotal de acordo com as concepções romanas. Com esta atitude, bloqueou-se, em primeiro lugar, a inculturação e, em segundo lugar, privavam-se aqueles povos do direito fundamental das comunidades cristãs a participar regularmente na celebração eucarística. O caso da Checoslováquia estava destinado a dar brado na Igreja universal. O que aqui estava, com efeito, em jogo era um direito cristão básico, a saber, o direito a celebrações eucarísticas autênticas e criadoras de comunidade. O “celibato pelo reino dos céus” é enorme e belo (Mateus 19,12). Mas, se por causa da lei do celibato se sacrifica a fidelidade ao solene testamento e mandato de Jesus bem como o direito radical à celebração eucarística, então estamos a pôr em perigo a ortodoxia e a confirmação, por intermédio de Pedro, da fé fundamental.

Coloca-se, além disso, em questão outro dos artigos do Credo: «Creio no Espírito Santo». Adianta-se frequentemente o argumento de que se se renunciasse ao imperativo legal de que só pode receber a ordenação sacerdotal aqueles que se obriguem a permanecer celibatários, seriam muito poucos os que escolheriam ser celibatários. No entanto, na minha opinião, o celibato livremente escolhido é um dom do Espírito, pelo que não se pode condicionar todo o potencial da acção do Espírito exclusivamente aos limitados canais da lei. Creio bem que, caso introduzíssemos uma radical mudança e fosse permitido o acesso ao sacerdócio a homens casados experimentados, postos à prova pela vida, teríamos um número maior de sacerdotes, com a vantagem de serem pessoas mais próximas da realidade concreta da vida, gente piedosa experimentada capaz de um testemunho em favor do reino dos céus mais credível do que o dos celibatários que o vivem de acordo com as circunstâncias. Neste caso, creio que aqueles que escolhessem não casar e ser mesmo celibatários por convicção tornariam essa escolha mais atraente. Entretanto, o que temos é a ortodoxia e quanto a isso o que há a dizer é que não é lícito sacrificar um mandato e um testamento divino a uma tradição legal meramente humana. Por fim, há que sublinhar que também neste caso o princípio da subsidiariedade deve adquirir plena vigência: todas as partes da Igreja universal devem ter “direito de codeterminação” ou, mais concretamente, de decisão dentro do seu próprio âmbito.

Das minhas actividades por África e dos meus contactos com os respectivos povos cheguei à seguinte conclusão: existem, nesse continente, tribos e culturas muitos jovens dispostos a aceitar o sacerdócio celibatário e bem capazes de o viver em plena fidelidade. Porém, também existem numerosas tribos em cuja cultura não haverá aceitação do celibato, pelo menos durante algumas gerações. Deverão, estas populações que também alcançaram altos valores culturais, depender de sacerdotes importados de outras tribos?

A Igreja católica necessita de uma drástica limitação do exercício centralizado do poder. Deve admitir de bom grado e com coragem complacente a existência de um certo pluralismo e respeitar o princípio da subsidiariedade e isto para o seu próprio bem e em benefício da missão que lhe foi confiada: promover saúde e salvação. Isto, que é tão urgente no âmbito interno, é imensamente benéfico e determinante para a causa do ecumenismo.


Restabelecer as relações de mútua confiança estruturalmente perturbadas

O Concílio foi, para muitos de nós, uma festa, uma experiência cimeira de fé na capacidade de renovação da Igreja, de fé no poder do Espírito Santo. Há que o dizer: também nos esforçamos por compreender e tratar com afecto humano a velha guarda da Cúria romana, totalmente impregnada de uma visão de Igreja marcadamente centralista, repleta duma mentalidade de cidadela assediada: uma Igreja como baluarte de todos os tesouros da verdade que teria de defender, desse por onde desse. Aqueles círculos curiais tinham preparado 72 documentos destinados a consolidar, com muito poucos retoques, a velha concepção da Igreja e a rígida estrutura eclesial centralizada, conjuntamente com todo o seu andaime teológico.

Foi enorme (e humanamente compreensível) a sua comoção quando viram como, nas sessões públicas do Concílio, se criticava abertamente a até então tão encomiada encíclica Casti connubii de Pio XI. As reacções da velha guarda curial raiaram o patológico quando se abordou a fundo o debate sobre a colegialidade. Apesar da expressa vontade, por parte da “maioria conciliar, de querer estabelecer sinceros compromissos e conciliações” em questões secundárias e, inclusivamente, no ponto muito importante do “colégio episcopal”, muitos dos oficiais da velha Cúria sofreram um sério traumatismo, do qual responsabilizaram sobretudo os teólogos conciliares. Nunca chegaram a ter consciência que aquele Concílio era o modelo arquetípico de uma colaboração exemplar entre os pastores da Igreja e a teologia científica.

Mais tarde, por ocasião do primeiro Sínodo dos bispos celebrado após o Concílio em Roma, o cardeal Ottaviani (1890-1979) e a sua equipa ‒ prontos para porem em andamento ‘a obra da restauração’ ‒ lançaram duros ataques contra «os teólogos», como se eles tivessem sido os únicos culpados das tensões pós-conciliares. Por trás de tudo isto estava o anteriormente referido traumatismo, que procuro enquadrar para compreender.

O cardeal Suenens, apoiado pelo cardeal Döpfner e outros, fez uma proposta que não se limitava a ser apenas uma escapatória para sairmos do atoleiro, mas que verdadeiramente abria um caminho com futuro: a nomeação de uma “comissão teológica internacional” verdadeiramente representativa, cuja missão seria coadjuvar o Papa e a «Congregação da Doutrina da Fé» ‒ a herdeira da «Suprema», quero dizer, do Santo Ofício ‒ garantindo assim um diálogo fecundo e permanente entre o Magistério romano e a comunidade teológica da Igreja universal. No momento de se passar, então, à constituição desta comissão, nomeando os futuros teólogos, Paulo VI acabou de ceder à pressão da mencionada Comissão da Doutrina da Fé enchendo a respectiva lista de nomes de pessoal da sua confiança (propostos pelas Conferências Episcopais).

Perante um protesto público e face à renúncia de Karl Rahner em fazer parte de uma lista constituída com base em critérios manipulados, foram muitos os olhos que se arregalaram diante da situação que acabava de se cozinhar ali, e que não passava do seguinte: as autoridades romanas, na prática, negavam-se a um diálogo seriamente representativo da realidade teológica universal. Não se tratava apenas de terem sido excluídos da proposta todos os nomes dos teólogos que trabalharam no Concílio pela renovação da Igreja, mas de se ter incluído apenas nomes de teólogos retrógrados, os minoritários do Concílio. Cito um exemplo, em matéria de teologia moral: foram incluídos na comissão homens como Carlo Caffara e William May que defendiam, entre outras coisas, que a Casti connubii era um documento infalível (“Reafirma o magistério da Igreja que se opõe ao adultério e ao divórcio. Afirma que o ato conjugal deve sempre estar aberto à vida e não deve ser frustrado o poder de gerar a vida deliberadamente. Casti Connubii é muito notada pela sua posição fortemente oposta à contracepção através de controle de natalidade por meios artificiais. Este documento, bem como a «Humanae vitae», representam bem o ensino do Magistério da Igreja sobre a matéria.”).

O processo doutrinal incoado contra mim em 1975, juntamente contra muitos outros nos dias de senectude de Paulo VI, constituiu a expressão clássica do objectivo fundamental da Congregação da Doutrina da Fé e da ala restauradora, em geral. Visava esmagar qualquer dissentimento acerca de matérias obviamente não infalíveis: de futuro, ficaria completamente proibido dissentir, mesmo que humilde e moderadamente que fosse, perante manifestações não infalíveis do magistério romano.

Acontece que, durante os muitos anos em que trabalhei em Roma, prestei ajuda, quer no campo espiritual quer no âmbito terapêutico (sem que o procurasse intencionalmente) a alguns teólogos que tiveram a infelicidade de serem apanhados pelo rodado do camião da «Santíssima Congregação do Santo Ofício». Esta situação particular deu-me experiência nestas matérias e circunstâncias. O tal processo, durante o qual estava totalmente excluída a possibilidade de um diálogo prévio, andava sobretudo à volta da «Humanæ vitæ», dos caminhos que conduziam a uma paternidade responsável e dos inerentes problemas de ética médica. O quilométrico laudo acusatório, semeado de imputações a cargo de moralistas anónimos, baseava-se numa tradução italiana do meu livro «Heilender Dienst» (cf. "Ministério da cura. Problemas éticos da Medicina moderna" e "Medical Ethics» e «Manipulation» – ambos por Bernhard Häring; cf. também "Perspective chrétienne pour une médicine humaine", Fayard 1975). Todo aquele que leia ou tenha lido este meu escrito concordará comigo que as afirmações que ali faço não rebaixam em nada tudo o que até agora fora formulado (sobre as pertinentes matérias) por prestigiadas conferências episcopais bem como pelos sínodos alemães. No meu processo, o único elemento novo era a declarada intenção de matar à nascença ‒ acompanhada de punições ‒ qualquer dissensão perante as declarações doutrinais do magistério romano, por exemplo, as contidas na declaração do ex-Santo Ofício intitulada «Persona Humana ‒ sobre algumas questões de moral sexual».

Transcrevo este excerto da carta, por mim recebida, vinda da Congregação da Doutrina da Fé, de 18 de Maio de 1977:

«Esta Congregação insta-o a que exprima o seu assentimento à doutrina católica quanto aos pontos em questão sobre os quais o magistério se pronunciou com verdade, e que no futuro evite qualquer manifestação, por palavras ou por escrito, que permita deixar dúvidas sobre tal assentimento… Caso isso se verifique, tal permitiria que a Congregação solicitasse o encerramento do seu processo à instância superior. Portanto, esta Congregação está a pedir-lhe que lhe faça chegar uma promessa por escrito no sentido acima indicado.»

Antes de mais, atentemos na estreita margem de manobra que é concedida a um teólogo que trata de cruciantes problemas pastorais. É aceitável que se exija a um teólogo que sopese cada palavra dita a fim de que não seja interpretada como sub-reptício dissentimento das declarações doutrinais das autoridades romanas ou do Papa? Até que ponto isso é digno de fé e ajuda as pessoas com mentalidade crítica? Durante os decénios em que pude conviver com a juventude italiana soube, por experiência, do escárnio que encerra a expressão: «Este fala como um Monsignore.» Esta experiência significa que, o teólogo ou o cura, a quem se aplica a expressão, antes de falar, não pensa na mensagem e nos seus ouvintes, mas naqueles de quem depende a sua promoção. Porém, no que me diz respeito, não se trata de promoções, mas da paz do meu espírito e da possibilidade de uma proclamação digna de fé.

Como teólogo, preocupam-me as seguintes questões: Como enfrentar a vida moderna, o pluralismo de culturas e a multiplicidade de formas éticas e costumes? Como colaborar, diante da exigência do assentimento às formulações doutrinais romanas, na inculturação da mensagem cristã num contexto diversificado de culturas e perante as novas gerações? É ainda possível um diálogo ecuménico? E como? Porém, a questão que mais directa e imediatamente me acusa é a seguinte: como compaginar esta exigência da Congregação da Doutrina da Fé com a afirmação paulina: “Tudo o que não é feito a partir da convicção da fé pura é pecado.” (Romanos 14,23)? Em nenhum dos processos doutrinais a que tive acesso consta, para além da pressão para conseguir a retratação e o consenso, a pergunta se um teólogo agiu ou falou de boa fé ou de consciência honesta. Está ou não em jogo, nesta questão tão inflexivelmente exigida, a missão autenticamente salvadora e santificadora da Igreja? Mais: não apenas no processo incoado contra mim, mas noutros parecidos, bem como em muitas outras ocasiões, as autoridades romanas, uma ou outra vez, desacreditam a assistência do Espírito Santo, como se essa assistência fosse algo garantido automaticamente. Portanto, o que está em questão são questões fundamentais.

Tudo isto poderia ser atirado tranquilamente para trás das costas e até ser desculpável e abafado pelo manto do silêncio, não fora porque o mencionado processo, que nunca teve nada a ver com dogmas, pudesse lançar uma luz reveladora sobre a evolução futura e sobre a situação actual. Que fique bem claro: o Papa João Paulo II não tem nada a ver com isso, mas que fique aqui bem expresso quanto me custou o processo ou a minha recusa a comprometer-me sob juramento àquela conformidade. Apesar de três operações cirúrgicas a um cancro durante o processo, e de um grave enfarto do miocárdio, e apesar da minha alusão pública a este meu delicado estado de saúde, o processo prolongou-se por mais dois anos, na sequência da minha recusa em pactuar com a obrigatoriedade de assinar uma retratação que eliminasse a mais pequena sombra de dissentimento.

Aquilo que precisamente estava por trás de tudo isto era o Novo Código de Direito Canónico de 1983 que estipula, no seu Cânone 1371, 1[3], o castigo a aplicar, no caso do meu processo: qualquer dissentimento face a declarações não infalíveis do magistério romano considera-se ‒ expressamente e segundo o dito cânone ‒ delito sempre que o culpado se negue a uma retratação incondicional. Também no meu processo, esta lei penal não faz referência alguma à existência ou não de fé verdadeira ou de convicção de consciência. Com base neste modelo, pode ser desencadeado todo o tipo de processos. É curioso ‒ e digno de nota relevante! ‒ que na Comissão Internacional para a preparação do novo Código jamais se mencionara esta lei punitiva. Ela fora introduzida, na última hora, pelo Vaticano…

Apesar de nos últimos anos se ter registado uma apreciável sequência de “procedimentos doutrinários” e inúmeras exortações à obediência ao Papa, é patente que as sanções punitivas não conseguiram atingir os seus objectivos persecutórios, a saber, um conformismo total. Assim se explica o facto de, de forma fulminante e talvez como reacção contra a chamada «Declaração de Colónia», tenha aparecido, com data de 9 de Janeiro de 1989, um documento muitíssimo controverso que prescreve aos teólogos uma «confissão de fé» e o respectivo “juramento de fidelidade” aos ensinamentos papais não infalíveis. Deu nas vistas a circunstância dessa publicação não vir acompanhada da Nota, regra geral habitual, de que havia sido confirmada pelo Papa. Esta falha grave foi em parte sanada a 19 de Setembro daquele mesmo ano mediante a declaração de que tinha sido ratificada pelo Sanctissimus et Beatissimus. (Como já disse, oficialmente o Vaticano trata o Papa por «santíssimo e beatíssimo») A propósito do sentido e objectivo de tão extraordinária prescrição só podemos formular hipóteses. Pretender-se-ia, por ventura, acrescentar ao ‘castigo por dissentimento’ uma sanção especial por ‘quebra de juramento’? Suspeito que sim.

Deixando agora de lado o caracter insuperável de tamanha impositividade deste decreto, peguemos num ponto singularmente débil. Sob a denominação «confissão de fé» inclui-se quer a fé em todos os dogmas e o assentimento inquebrantável em todos os ensinamentos não revelados a que Roma tenha conferido carácter definitivo ‒ ainda que sem citar um único exemplo ‒ como, imaginemos, o obsequium religiosum do entendimento e da vontade de todas as decisões doutrinais de Roma. É assim que se confundem de forma inadmissível as fronteiras invioláveis entre «verdades reveladas e ensinadas como infalíveis» e respectivos graus ‒ ainda que não devidamente detalhadas ‒ das «decisões do magistério» romano. Estamos, pois, diante de uma perigosa e intolerável confusão de matérias totalmente diferentes entre si. Estamos perante o mais claro exemplo de um «insidioso infalibilismo» (veja-se A. Schmied , «Schleichende Infallibisierung. Zur Diskussion um das kirchliche Lehramt», in “In Christus zum Leben befreit”, J. Römelt e B. Hildber [dir.], Friburgo 1992, p. 250-274).

Cito, de seguida, um princípio de singular importância, fruto do Concílio Vaticano II, formulado no número 62 da constituição Gaudium et spes e dedicado às relações entre a Igreja e a cultura. Nele, recomenda-se encarecidamente ‒ a partir de uma visão da missão da Igreja como fermento de toda a vida cultural ‒ o diálogo interdisciplinar entre os teólogos e os mais destacados representantes das outras ciências. Estimula-se inclusivamente os leigos a estudar teologia. Chama expressamente a atenção ao seguinte: «… as recentes investigações e descobertas das ciências, da história e da filosofia, levantam novos problemas, que implicam consequências também para a vida e exigem dos teólogos novos estudos. (…) uma coisa é o depósito da fé ou as suas verdades, outra o modo como elas se enunciam, sempre, porém, com o mesmo sentido e significado. Na actividade pastoral, conheçam-se e apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas, principalmente da psicologia e sociologia, para que assim os fiéis sejam conduzidos a uma vida de fé mais pura e adulta. (…) Vivam, pois, os fiéis em estreita união com os demais homens do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os costumes e doutrina cristã, a fim de que a prática religiosa e a rectidão moral acompanhem neles o conhecimento científico e o progresso técnico e sejam capazes de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão. (…) A investigação teológica deve simultaneamente procurar um profundo conhecimento da verdade revelada e não descurar a ligação com o seu tempo (…). É mesmo de desejar que muitos leigos adquiram uma conveniente formação nas disciplinas sagradas e que muitos deles se consagrem expressamente a cultivar e aprofundar estes estudos. E para que possam desempenhar bem a sua tarefa, deve reconhecer-se aos fiéis, clérigos ou leigos, uma justa liberdade de investigação, de pensamento e de expressão da própria opinião, com humildade e fortaleza, nos domínios da sua competência.» Em nenhum dos documentos da Congregação da Doutrina da Fé, especialmente naqueles que combatem o dissentimento, se menciona alguma vez esta afirmação do Concílio, que é da máxima actualidade. Sendo assim, é hora de nos interrogarmos: em que sentido deverá ir a nossa ‘obediência responsável’?

A Igreja pós-conciliar encontra-se, pois, diante de um ponto de não retorno. Pode ser que a nossa Igreja peregrina consiga retirar ensinamentos para o futuro a partir deste «incidente», que em si é muitíssimo mais grave do que o conflito que a Inquisição teve com Galileo. Estou convencido que nos próximos tempos se irá produzir um volte-face radical, quanto a questões deste teor. A opinião pública está muito sensibilizada a estas questões eclesiais internas. Há que desarticular incondicionalmente e com a maior urgência e eficácia as estruturas que geram desconfiança, as já mencionadas bem como outras parecidas, as quais só podem favorecer um centralismo doentio, a fim de que a Igreja possa ser, em virtude da sua teologia, «sal da terra», bem como enfrentar a imensa tarefa da reevangelização.

Nunca é demais insistir em que nos encontramos diante de um dos pontos nevrálgicos do ecumenismo. Todo o mundo está farto de o saber! Não há encontro ecuménico algum em que esta questão não seja levantada. Acaba sempre por ser referido: ‘como são altos e sólidos os muros que rodeiam «o palácio do Santo Ofício»’! Será possível, nem que seja apenas imaginar, um diálogo ecuménico oficial frutuoso se, quanto às questões mais prementes, elas só possam ser expressas sob a forma de afirmações doutrinais autorizadas por Roma e que se tenha de passar por cima ‒ em matérias muito importantes ‒ da opinião unânime dissidente dos teólogos de todas as Igrejas? Parte-se do princípio que Magistério romano e Doutrina são uma e mesma coisa, tal como se pensava na época pré-conciliar. Como último exemplo, basta folhear o Novo Catecismo da Igreja Católica e reparar na expressão «doutrina da Igreja» como sendo única e exclusiva, mesmo em matérias nas quais é mais do que evidente que a postura romana não foi aceite pela Igreja universal. É minha opinião que existe contradição entre a situação presente e o ministério autêntico de Pedro.




E, assim, chegamos ao grandioso e radical sonho do Salvador! (continua)



Bernhard Häring, «Las cosas deben cambiar – una confesión valiente», Barcelona, Editorial Herder 1995, pp. 56-99. ISBN 978-84-254-1906-9.



 

LAS COSAS DEBEN CAMBIAR OCR

 

 «Intacta desde Sisto V (1585-1590)» - Expectativas muito em baixo...

 

 

 




[1] «Ostensivo é o adjetivo que qualifica algo ou alguém que se exibe exageradamente, que gosta de chamar a atenção, que é vistoso, exuberante e extravagante. Também pode se referir a uma ação ou atitude que seja agressiva, instantânea e de efeitos imediatos. Quando se diz que uma pessoa é ostensiva pode significar que possui um comportamento arrogante, provocativo e prepotente em comparação aos demais. Exemplo: “O seu modo ostensivo fez com que chegassem ao divórcio”.

Alguns dos principais sinônimos de ostensivo são: intencional, propositado, aparatoso, pomposo, descoberto, escancarado, evidente, visível, altivo, agressivo, aguerrido, exaltado, suntuoso, feérico e deslumbrante. Etimologicamente, a palavra “ostensivo” é originada a partir do latim ‘ostensivus’, que pode ser traduzido como “com o propósito de se mostrar” ou “próprio para exibir”.» («Significados» sítio consultado a 04/03/2021)

[2] «A paz é um dos bens mais apreciados pela humanidade e, ao mesmo tempo, um dos mais frágeis; o mais desejado, mas também o mais ameaçado. (…) Revisitando as andanças da História, não é fácil encontrar um estado de paz duradoiro. A paz, na opinião certeira de José Luis López Aranguren, acabou por se transformar num período intermédio entre duas guerras, sendo que esse período intermédio não é outra coisa senão um tempo dedicado a preparar uma nova guerra. Parece até que, quanto a este assunto, vem a calhar o velho provérbio: «se queres a paz, prepara a guerra». (…) Não são poucas as guerras [sobretudo depois do “11 de Setembro” de 2001] que se vêm sucedendo nas últimas décadas e que se remetem para “guerras religiosas” com as características de «violência do sagrado» de que falava René Girard (“La violence et le sacré”). Dá a sensação que a guerra está no coração das religiões. (…) Uma das teses do meu amigo e colega, o teólogo Hans Küng, diz: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem consensos éticos globais. Não haverá no nosso Globo sobrevivência em paz e com justiça sem um novo paradigma de relações internacionais baseado em níveis éticos globais.” Esta proposta constituiu a base do “II Parlamento das Religiões do Mundo”, celebrado em Chicago de 28 de Agosto a 4 de Setembro de 1993, onde crentes de todas as religiões expressaram pela primeira vez na História o seu consenso à volta de uma série de valores, atitudes e modelos éticos comuns. (…) Eis a alternativa à teoria do “Choque das Civilizações” proposta por Samuel P. Huntington no seu livro homónimo, o qual destina ao cristianismo uma nova função bélica contra outras religiões, muito especialmente contra o Islão, considerando-o “a civilização menos tolerante de todas as religiões monoteístas”.» Juan José Tamayo (Dir.), “La realidade de la violência y la aspiración a la paz en las religiones” in «10 palabras clave sobre PAZ Y VIOLENCIA EN LAS RELIGIONES», EVD 2003, pp. 11-13.

[3] A leitura dos “comentários” aos cânones 1371 e 1372 feitos pelos Professores de Direito Canónico da Universidade Pontifícia de Salamanca deveria ser suficiente para que qualquer cristão deixe de crer que esta Igreja Católica, assente nesta Lei, tenha futuro algum… Cf. «Código de Derecho Canónico», Edición bilingüe comentada por los Profesores de Derecho Canónico de la Universidad Pontifícia de Salamanca, BAC, Madrid MMXI, pp. 786-787. [NdT/pb]