teologia para leigos

31 de dezembro de 2022

Joseph Ratzinger, o paradigma ascético-estático

 







«Para mim, o do costume».

«Foram dois anos que, em retrospectiva, marcaram de modo especial as últimas décadas do milénio recém-concluído: 1968 e 1989. O ano de 1968 assinala a rebelião de uma nova geração que não só julgou insuficiente, cheia de injustiças, de egoísmo e de avareza a obra da reconstrução do pós-guerra, como considerou errado e fracassado todo o percurso da história a partir da vitória do cristianismo. (…) [essa geração] pensara ter encontrado, na grande corrente do pensamento marxista, o caminho que levaria [ao mundo da liberdade, da igualdade e da justiça]».

Estes dois parágrafos iniciais são essenciais para perscrutar o âmago do ímpar Joseph Ratzinger. A primeira citação é a resposta de Ratzinger ao chefe-de-sala, num famoso restaurante nas margens do Danúbio. Preparava-se para almoçar a convite de Angelo Scola, reitor da U. P. Lateranense, o qual também convocara Hans Urs von Balthasar para que se juntasse aos dois comensais. Motivo do almoço? Sondar o interesse de todos para o lançamento de uma edição italiana da futura revista Communio. A segunda citação pertence ao prefácio escrito por Ratzinger para a edição de 2000, da sua obra «Introdução ao Cristianismo» (Tübingen 11967).

Diz-se, do menino Joseph R., ter presenciado o seu pároco a ser açoitado pelos nazis, antes desse pároco começar a celebração da Santa Missa… Este menino, filho de um comissário de polícia [Joseph Ratzinger, 1927-2020], fora marcado pela infância instável, acanhada e traumática do ambiente conservador do campo onde viera ao mundo, ou seja, muito longe da oferta cultural sempre provocadora e estimulante da urbe. Encravado na fronteira sul da Alemanha, junto à Áustria, o jovem Joseph, quando chega a Munique para dar assistência às antiaéreas da II Guerra Mundial, reconhece que, vindo da «província», chegara ao «novo mundo» bem preparado em latim e grego é certo, mas desprovido dos «novos horizontes» dos seus outros colegas. É assim que, desde cedo, se revelou uma pessoa insegura, carente de um apoio delicado, mas acalentador de um sonho com laivos de alguma grandiosidade.

Joseph, o mais novo de três filhos, solitário e possuidor de uma mente brilhante, recorda-se ter nascido muito perto de um Santuário Mariano (Altötting) − lugar de peregrinações da Baviera e da Áustria ocidental − porque aí se beatificara e canonizara um “santo irmão-porteiro”, Conrad de Parzham. Refere-se a isso, nas suas Memórias, com estas significativas expressões: «estes “pequenos” santos pertencentes a um tempo que me comove muito» («Mi Vida – Recuerdos 1927/1977», Ediciones Encuentro; daqui em diante: MV). Deste período da sua infância-juventude, Joseph regista, apenas, grandezas majestáticas, fontenários nobres, catedrais, igrejas altivas, coadjutores canónicos, igrejas paroquiais como pequenos castelos, igrejas monacais barrocas, e, em especial, o «Santo Sepulcro» que se enfeitava pela Sexta-Feira Santa e Domingo de Páscoa e que «nos ajudava a sentir-nos mais próximos do mistério da morte e da Ressurreição e a entendê-los com os nossos sentidos internos e externos, muito previamente a qualquer intento de compreensão racional» (MV). No alto da colina estava a capela de Ponlach, «um amoroso santuário barroco», donde se avistava o vale de Salzach. Cá em baixo, viveria na casa da gendarmeria, «uma das casas mais belas da Praça Maior» da cidade: a casa havia pertencido ao Capítulo dos Cónegos. O dormitório fora, em tempos, a Sala Capitular. «Para nós, ainda crianças, tudo isto era absolutamente misterioso e excitante». Quando, nos finais de 1932, a família de Joseph decidiu mudar-se de Tittmoning para Aschau, ocuparam uma casa de polícia «com um pequeno jardim dianteiro e um belo cruzeiro que dava para o caminho e para um prado». Joseph confessa que aí lhe «faltava a grandiosidade da pequena cidade de onde viemos e da qual estávamos muito orgulhosos». «A graciosa igrejita neogótica [de Aschau] não resistia à comparação com tudo aquilo que havia onde acabávamos de chegar». Foi nesse período de tempo que «nos caiu em cima da cabeça a pesada História: Hitler é eleito Chanceler do Reich!». Curiosamente, deste tempo, Ratzinger nada regista, no seu diário, em matéria de escola e brincadeiras de crianças, mas descreve e regista com uma surpreendente minúcia todos os pormenores quanto a ‘tratados concordatários’, ‘convénios Igreja-Estado’ em matéria de escolas confessionais, a ‘ideologia do Führer’ e a actividade confiada ao Professor Mestre-Escola (organista, director do coro da Igreja e professor de Bíblia), bem como ao Pároco, e tudo isto envolto num rigor antropológico e sociológico que assombra, para uma criança que ainda o era… Nas suas memórias, Joseph Ratzinger nunca menciona os nomes dos seus irmãos; diz apenas, «meu irmão» e «minha irmã»… Sabemos, porém, que se chamavam Georg e Maria. Por essa altura, a irmã e o irmão começavam as suas “carreiras” religiosas. Estava-se em 1935. Em 1937, a família abandonava Aschau.

De Traunstein, local da sua nova habitação e do início do Bacharelato em Clássicas, ficar-lhe-ia retido na memória o forte impacto da Liturgia e da Cultura Greco-latina, aí absorvidos. Nunca mais, ao longo da sua vida de teólogo famoso, admirado, deixaria de mencionar a importância da Liturgia e do Latim… apesar de um abade de um Mosteiro beneditino, em Beuron (de seu nome Anselm Schott; finais do século XIX), já ter posto a circular a sua tradução do Missal em Latim para a língua alemã, tradução que Anselm fazia o favor de oferecer aos paroquianos. E aos Ratzinger’s, também.

Perante este pano de fundo infanto-juvenil, não é por demais fantasioso imaginar que Joseph R. aprendera a manejar a prudência da fala, o calculismo das deslocações e um sorriso sardónico como se fossem ferramentas que o poderiam no futuro levar a viver (e realizar?) aquilo que ele via, melancolicamente, como “um passado grandioso”: infância, juventude e cristianismo. Passado glorioso já, então, ameaçado, mas que ele se propunha agarrar e levar adiante. Refere, nas suas Memórias, que nasceu em dia de Sábado Santo (Sábado Pascal) e que fora baptizado no dia seguinte (Domingo de Páscoa) com a Nova Água, o que releva de um espírito de presumido predestinado… ou (desde logo?) bento.

Joseph Ratzinger nasceu em 1927. Foi ordenado presbítero em 1951 (24 a.). Em 1953 (26 a.) formou-se em teologia com uma dissertação sobre o tema: "Povo e Casa de Deus na Doutrina da Igreja de Santo Agostinho". Em 1957 (30 a.) fez a livre docência com o conhecido professor de teologia fundamental de Munique, Gottlieb Söhngen, com um trabalho sobre: "A teologia da história de São Boaventura". Depois de um cargo de dogmática e de teologia fundamental na Escola Superior de Freising, prosseguiu a sua actividade de ensino em Bonn (1959-1969). A convite do decano da universidade Hans Küng e através de um “concurso à medida”…, Ratzinger é nomeado professor de dogmática e história dos dogmas para a Universidade de Tübingen (1966-1969). A partir de 1969 foi professor de Dogmática e de História dos Dogmas na Universidade de Ratisbona (42 a.), onde desempenhou também o cargo de Vice-Reitor da Universidade. A sua intensa actividade científica levou-o a desempenhar importantes cargos no âmbito da Conferência Episcopal Alemã e na Comissão Teológica Internacional. É ordenado Arcebispo de Munich e Freising em 1977 (50 a.) e de imediato Cardeal em 27/06/1977 (50 a.). Foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em 1981 (54 a.). A 15 de Fevereiro de 1982 renunciou ao governo pastoral da Arquidiocese de Münster (em português, Monastério) e Freising. A 5 de Abril de 1993 foi chamado a fazer parte da Ordem dos Bispos (66 a.) e tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Velletri-Segni. No dia 6 de Novembro de 1998 foi nomeado Vice-Decano do Colégio Cardinalício e a 30 de Novembro de 2002 tornou-se Decano (75 a.): tomou posse do Título da Igreja Suburbicária de Ostia. É eleito Papa a 18 de Abril de 2005 com o nome de Bento XVI (o Papa mais velho a ser eleito nos últimos 275 anos e o primeiro alemão a ser chefe da Igreja a seguir ao Papa Victor II − bispo de Eichstädt − que pontificou entre 1055 e 1057…). A partir de 28 de Fevereiro de 2013 é “Papa emérito”, por renúncia ao cargo.

O seu percurso biográfico decorre do seu percurso espiritual (e vice-versa) e isso poderá ser sintetizado assim: aferrado de modo ascético ao mistério de Jesus Cristo através da oração, da liturgia e do crucifixo, e, tudo isto, submetido ao “critério de verificação” supremo que é a Tradição da Igreja (Padres da Igreja e Doutores da Igreja). A sua imagem de Igreja é aquela que «encontra no septenário sacramental a realização completa da lógica da encarnação e, ao mesmo tempo, o renascer contínuo no coração da pessoa» (A. Scola, in MV). O conceito «A Tradição» seria «o património espiritual definido desde o início» do cristianismo («Introdução ao cristianismo», Principia, p. 37, Nota 6). Continuo a citar A. Scola: «No sacramento dá-se, com efeito, a contemporaneidade entre ‘a verdade eterna’ que é Deus e a ‘natureza dramática’ (ou seja, finita, mas capaz de infinito) que é o homem». É por isso que o sacramento da Eucaristia, como símbolo hierático supremo, tem um peso espiritual, eclesiológico e teológico inexcedível para Ratzinger. Todo o seu labor teológico arranca daqui e aqui regressa.

É certo que, em Tübingen e ao lado de 1 322 teólogos e teólogas, assina a Declaração pela Liberdade da Teologia, um apelo público redigido no essencial por Hans Küng. Também apoia, em 1969, a declaração de Tubinga (redigida pelo canonista Neumann e outros) sobre a eleição dos bispos, em que, entre outros aspectos, se prevê um limite de 8 anos para o respectivo exercício episcopal. Mas o que é certo é que, apesar disso, Ratzinger decide abandonar a Universidade de Tubinga, retirando então a sua assinatura desta última declaração: a pensar, já, na sua futura carreira eclesiástica ou, como depois justificou, “por ter sido pressionado”? (H. Küng sempre negou tais pressões… e sugeriu que Ratzinger sentiu-se fortemente pressionado pela contestação estudantil universitária como a pior das pressões psicológicas que jamais enfrentara)

«Ratzinger não alinhava com maiorias ‒ mantinha seu espírito crítico ‒, mas certamente não era ele quem procurava polémicas e confrontos com seus colegas. Por índole, não era um pugilista, não gostava de partir para o combate, fugia das rixas académicas. Não pensava realmente em assumir o papel de ‘bastião contrário’ que organizaria a resistência diante da deriva que aumentava. O facto é que nos anos de Tübingen não se registaram conflitos evidentes entre Ratzinger e o resto do corpo académico docente, o qual inclusivamente o escolhera como decano.» (Gianni Valente, «1966-1969. Os anos difíceis em Tübingen»)

Porém, nas suas memórias é por demais evidente o trauma da sua estadia em Tübingen, marcada pelos efervescentes trabalhos Conciliares de 63-65 e pela contestação estudantil de Maio de 68 (Cf. capítulo «Münster y Tubinga», MV, p. 109ss). Diz Ratzinger: «Crescia cada vez mais a impressão de que na Igreja não havia nada de estável, que tudo podia ser objecto de revisão. O Concílio assemelhava-se a um grande parlamento eclesial, que podia mudar tudo e revolucionar cada coisa a seu bel-prazer. Era mais do que evidente que crescia um ressentimento contra Roma e a Curia, os quais surgiam como os verdadeiros inimigos a fazerem frente a qualquer tipo de novidade e progresso. (…) Pouco a pouco, as tensões e as divisões, que eram atribuídas ao Concílio, começaram a tomar forma também no interior da nossa paisagem eclesial [alemã]. Acontece que aqui, na Alemanha, tinha começado um processo muitíssimo mais radical e profundo.» (MV, p. 110).

Mais adiante, no seu registo de memórias, Joseph Ratzinger elabora sobre o processo de mudança que o levou de Münster para Tübingen acabando por concluir que se havia equivocado totalmente, pois o ambiente que ali fora encontrar era de altíssimo nível teológico, mas também de alta tensão, em matéria de contestação e de «polémica estudantil» (crítica política e teológica). «E eu não estava nada habituado a uma coisa destas!» (MV, p. 113).

Culpados? Joseph Ratzinger não tem papas na língua. Não foi Ratzinger que falhou por ser incapaz de enfrentar as teses inovadoras dos alunos e dos teólogos, fossem católicos ou evangélicos: foram os outros que «mudaram». Não fora ele que fracassara diante deste mundo em efervescência que irrompia: foram os outros que traíram a Tradição. Na época em que chegara a Tübingen, «o modelo de pensamento dominante assentava na teologia de Bultmann e na filosofia de Heidegger. Subitamente, como da noite para o dia, o esquema existencialista desmoronou-se e foi substituído pelo esquema marxista. Ernst Bloch leccionava em Tübingen e as suas lições denegriam Heidegger, catalogando-o de pequeno-burguês. Praticamente coincidindo com a minha chegada a Tübingen, ‒ escreve Ratzinger ‒, foi chamado, à faculdade evangélica de teologia, Jürgen Moltmann, que no seu fascinante livro “Teologia da esperança” repensava a teologia a partir de Bloch. O existencialismo desintegrava-se completamente e a revolução marxista alastrava por toda a Universidade, sacudindo-a até aos alicerces. Até essa época, sabia-se que as faculdades de teologia seriam baluartes contra a tentação marxista. Agora, sem dúvida, sucedia justamente o contrário: convertiam-se no seu verdadeiro centro ideológico.» (MV, p. 113) A ser assim, não restam dúvidas quanto ao impacto do embate que Tübingen representou para este bávaro reservado, não viajado e desde a infância traumatizado.

Apesar de à época ser o decano da faculdade de teologia de Tübingen, Ratzinger acabou por aceitar o insistente convite para ir leccionar em Ratisbona: «queria escrever a minha teologia num contexto menos agitado e não queria estar implicado em contínuas polémicas». «Naturalmente, os ecos da revolta marxista também se fizeram sentir na nossa jovem “Alma Mater” (…) Mas a Universidade [de Ratisbona] rapidamente conseguiu regressar à sua própria fisionomia [ganha agora sentido a expressão de Ratzinger ‒ «Para mim, o do costume» ‒ com que eu abro este meu texto biográfico sobre J. R., resposta pronunciada no restaurante onde sempre almoçava na cadeira e na mesa do costume e onde, da Carta, sempre escolhera o mesmo ‘prato’: «o do costume» - sabe-se que era uma mariscada], ou seja, a Universidade de Ratisbona conseguiu nomear professores de grande valia, a tal ponto que, ali nas margens do Danúbio, rapidamente se forjaram grandes amizades fora dos limites da faculdade. (…) Os primeiros anos em Ratisbona coincidiram com uma série de acontecimentos determinantes. O primeiro deles foi a minha chamada para fazer parte da Comissão Teológica Internacional [a convite do Papa Paulo VI]» (p. 118)

Mas… (recorda H. Küng) «após a eleição de Karol Wojtyla como Papa, a 16 de Outubro de 1978, todas as esperanças conciliares reformistas (p. ex., as propostas do cardeal Suenens − Bruxelas-Malines), tiveram definitivamente de ser “encaixotadas” e postas na prateleira. Com João Paulo II entra em cena um Papa para quem a Acção Católica não desempenha papel algum, um Papa que desde o primeiro momento aposta sem qualquer dúvida nos «novos» movimentos carismáticos, que lhe devotam submissão absoluta. Quanto aos seus fundamentos, trata-se de movimentos conservadores, que não manifestam interesse algum pelas “reformas internas” da Igreja apontadas pelo Concílio, mas apenas pela “evangelização”, melhor dito, pela “catolicização” de um mundo que se desinteressou de Deus. Para esses movimentos ditos «novos», o Vaticano II não conta; basta-lhes ter um líder espiritual a quem aclamar, mesmo que nunca se tenham preocupado em conhecer a fundo os dogmas e muito menos pratiquem a doutrina moral desse líder. Em 1981, organiza-se em Roma um grande congresso internacional desses movimentos, para o qual a Acção Católica nem sequer é convidada. Estes movimentos, estabelecidos sobretudo nos países da Contrarreforma – Itália, Espanha, Irlanda e Polónia −, acudirão, no futuro, em massa, às grandes manifestações papais e arrastarão muitos curiosos, buscadores de sentido e simpatizantes. Por exemplo, no dia da juventude celebrado em Berna, em Junho de 2004 (a última visita de João Paulo II à Suíça), formam, com as suas bandeiras, coortes facilmente perceptíveis, as quais − de forma atípica, para a mentalidade Suíça − acompanham com frenéticos aplausos cada frase do Pontífice. Também, na Jornada Mundial da Juventude celebrada em Colónia, em Agosto de 2005, serão esses Movimentos os eleitos para dar as boas-vindas logo no aeroporto – aos gritos de «Benedetto!!! Benedetto!!!» lançados em uníssono – ao sucessor de Wojtyla, Joseph Ratzinger, como que para dar a ideia de que «os jovens» pura e simplesmente estão uma vez mais e de novo com o Papa. Acontece que, por trás do Papa, age a toda poderosa Opus Dei. Enquanto a Legião de Maria ainda procura chegar a todos ‒ incluindo os marginalizados e os desgraçados, como é o caso das prostitutas ‒ a Opus Dei dirige-se conscientemente aos poderosos da política, aos banqueiros, aos meios de comunicação social e às universidades. O eficaz coordenador do poder papal, do poder económico e do poder mediático de todos estes dispendiosos eventos mundiais é o diretor do Gabinete de Imprensa do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, um homem da Opus Dei.» («Verdad controvertida», Hans Küng, Trotta 2009, p. 362)

Entretanto, acontece algo com impacto mundial. O Papa João Paulo II sofre dois atentados seguidos: alvejado, a tiro, a 13 de Maio de 1981 em Roma e, de novo, numa segunda tentativa (pelo padre Juan Fernandez Krohn, munido de uma baioneta), a 12 de Maio de 1982, em Fátima (Portugal). O chefe da Igreja mais numerosa do mundo e a própria Igreja estavam de rastos. Impunha-se um milagre: um gesto ousado, algo muito forte que permitisse recuperar a imagem divina da sua Missão no mundo e, ao mesmo tempo, manter de pé o anteriormente estabelecido “modelo polaco” de evangelização. O projecto de Karol Wojtyla assentava na conversão da cristandade ao Coração de Maria, de quem, afinal, recebera a respectiva indicação: um forte sinal dos céus fora-lhe dado, de uma maneira misteriosamente mariana, por uma bala, a 13 de Maio, o ponto alto das Aparições marianas em Portugal. De quem se iria lembrar, a Curia, para ajudar a reerguer esta Igreja ferida e o seu confiantíssimo Papa, agora totalmente fragilizado?

É evidente que havia chegado ‒ finalmente ‒ a hora do brilhante, prestigiado e ‘renovador’ teólogo conciliar, Joseph Ratzinger. Tudo parecia ter o dedo de Deus e de Maria. Não apenas a Congregação para a Doutrina da Fé como o futuro de toda a Igreja católica iria, inevitavelmente, passar pelo alemão Joseph Ratzinger, de modo a que o governo da Igreja não desse sinais de fraqueza e, ao mesmo tempo, se reforçasse a fé na Tradição, uma fé de contornos medievais possuído de imagéticas inadmissíveis para o nosso século (Dogma da Imaculada Conceição − 1854; dogma da Infalibilidade Papal − 1870; «Munificentissimus Deus» ‒ dogma da Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma ao Céu – 1950; o gesto de Bento XVI que ‘beija o sangue’ do falecido papa polaco, etc. etc. etc.).

A teologia dogmática de Ratzinger era mais do que conhecida. Assentava que nem uma luva na estratégia de João Paulo II, na medida em que ela também partia de um método a-histórico e a-crítico revelando uma preferência pela cristologia joanica, pretextos mais que suficientes para um entendimento cruzado com os dogmas conciliares de Niceia (séc. IV) e de Calcedónia (séc. V), armação que permitia que o Jesus da história se dissesse ‘da mesma natureza que o Pai’homoousius»). Os indícios de sucesso eram, à partida, titulados como ‘muito bom’ ou ‘excelente’.

A pastoral implícita no “modelo polaco” (que também pedia que ‘não se pense, mas se sinta’ … «com os sentidos internos e externos») era conforme com a particular relação de Ratzinger com as questões históricas: ela remetia para aquela confissão de fé que os cinco primeiros séculos helenistas conformaram, altura em que a teologia dogmática adquiria a sua forma clássica. Deste modo, esta dogmática ‒ que irá entrar e em força ao serviço ‒ inspirava confiança, estabilidade e oferecia um novo impulso à Instituição romana. Joseph Ratzinger é alemão e é um grande teólogo (porém, em nada superior a Juan Luis Segundo, Karl Rahner, Karl Barth, Henri De Lubac, Teilhard de Chardin, Hans Küng, Edward Schillebeeckx, Ignacio Ellacuría, Gustavo Gutiérrez, etc. etc. etc.). Ratzinger é o preferido de Karol Wojtyla. O espírito renovador do Concílio Vaticano II poderá esperar, enquanto a cadeira da Congregação para a Doutrina da Fé não for ocupada pelo “partido alemão”, o garante da consolidação teológica do “modelo placo” de evangelização. Urge, então. Não há tempo a perder. A “restauração” estará prestes a entrar em marcha. Três anos apenas após a nomeação de Karol Wojtyla como Papa (1978), Ratzinger é nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981). Em 1984, J. Ratzinger dá uma extensa entrevista em que expõe o seu ideário. O jornalista V. Messori, regista as ideias de Ratzinger; o historiador G. Zízola lê-as e comenta-as:

«Agora [cf. a entrevista «Perché la fede è in crisi»], Ratzinger reconhece tranquilamente e sem-papas na língua, que, de facto, do que se trata é mesmo de “restauração”: “Se por restauração – diz ele – se entende uma volta atrás, então não é possível restauração alguma: a Igreja caminha para a frente rumo à consumação da História; ela tem o olhar virado para a frente, para o Senhor. Mas, se por restauração, entendemos a procura de um novo equilíbrio, passados os exageros provocados por uma abertura indiscriminada ao mundo e passadas as interpretações demasiado positivas de um mundo agnóstico e ateu, então, certamente que essa restauração é desejável e, na verdade, já está em marcha”».
Diz Ratzinger: «Os resultados que se seguiram ao Concílio parecem opor-se cruelmente às esperanças de todos, começando pelas do Papa João XXIII e, depois, pelas de Paulo VI. Os cristãos voltaram a ser minoria, o que já não se via desde os fins da Antiguidade. (…) Temos de ser realistas.» (V. Messori, «Informe sobre la fe», BAC, 2005, pp. 35 e 45).

«O cardeal faz um balanço inteiramente negativo do Concílio. Diz ele: “Esperava-se uma nova unidade católica e deparamo-nos com o dissentimento, o qual, para usar as palavras do Papa Montini, parece ter passado da crítica à autodestruição. Tínhamos a expectativa de um salto para a frente e deparamo-nos com um processo progressivo de decadência”. E acrescenta: “O problema dos anos sessenta era poder dar como adquiridos os melhores valores expressos pelos anteriores séculos de cultura ‘liberal’. Sem dúvida que existem valores que, embora nascidos fora dos muros da Igreja católica, podem nela encontrar um lugar – desde que depurados e corrigidos – dando o seu contributo para uma visão do mundo. Até certo ponto, foi isto que aconteceu. Porém, chegados a este momento, verificamos que o clima é totalmente diferente: piorou muito, sobretudo no que diz respeito às razões para o optimismo que o antecedeu, optimismo talvez ingénuo. Impõe-se agora, portanto, procurar novos equilíbrios”.»

«Tudo aquilo que, na Igreja, vá no sentido do pensamento divergente, no sentido do ‘fragmentário’ que procura a reconquista das próprias raízes e o sentido das culturas plurais, as identidades históricas, representa, aos olhos do responsável pelo ex-Santo Ofício, um perigo imediato. Nem as teologias latino-americanas da libertação nem as africanas nem as asiáticas, que no horizonte católico estão a surgir com crescente autonomia e consciência de si, se livram de riscos: “O perigo está – diz Ratzinger – em que, em nome de uma negritude de contornos incertos, seja esquecida a unidade católica”. Se o catolicismo se descentra do modelo e se reveste de multipolaridade, Ratzinger impõe-lhe a necessidade de um centro: “A fé fracciona-se numa série de escolas e correntes. Saiu derrotado o serviço à verdade que o dogma garantia. Certas tendências parecem indicar que algumas inculturações ou indigenizações apressadas poderiam conduzir, o catolicismo que agora conhecemos, a novas religiões”.

«O protesto de Ratzinger vai ao ponto de incluir todo o potencial do pensamento religioso divergente, graças ao qual o catolicismo se vai tornando multiforme e a sua universalidade se vá conformando como ‘multiversalidade’ [no original, “multiversalità”, termo que expressa o sinal de que o cristianismo sempre esteve aberto à diversidade de culturas dos povos com quem contactou pela primeira vez…]. Aquilo que à partida parece disseminado através de buscas plurais de identidade, o que tende a conformar-se e a crescer sobre as raízes, sobre a terra da história e a partir da cultura de cada um é, por isso mesmo, considerado como uma ameaça para o modelo que se quer exportar. Ratzinger faz uma leitura dogmática (e à defensiva) destes novos níveis de pluralismo que o catolicismo vai tentando conquistar com muito sacrifício; Ratzinger faz uma leitura dogmática e à defensiva desta variedade de mediações que surgem em sintonia com as culturas dos povos com que partilha a vida do dia-a-dia. Esta mesma realidade, porém, tinha sido lida há bem pouco tempo de um modo positivo pelo teólogo Karl Rahner, o jesuíta a quem muitos consideravam o maior pensador católico do século XX. “A Igreja una do futuro – disse Rahner, numa entrevista em 1984, um ano antes de morrer, a G. Zízola – não será naturalmente a Igreja romana católica na forma em que actualmente existe. E essa Igreja una do futuro terá um pluralismo legítimo, um pluralismo maior que aquele que existia e ainda existe no catolicismo italiano actual. Na perspectiva dum maior pluralismo do futuro, o pluralismo actual das confissões cristãs não está tão distante assim desta Igreja una do futuro” (K. Rahner, «Se vedessi Reagen gli direi che non sono d’accordo», entrevistado por Giancarlo Zízola em «Panorama Mese», Setembro de 1984, p. 55).

«Acontece que é precisamente essa teoria de Rahner aquela que, sem a nomear, constitui, para Ratzinger, o objecto da sua crítica cardinalícia: a tese do “cristianismo anónimo” e, por conseguinte, a possibilidade de salvação reconhecida para lá das muralhas institucionais. Essa teoria “foi demasiada vezes repetida”, diz o cardeal. Por sua vez, ele deplora que “se tenha chegado a dizer que a Graça intervém sempre quando alguém não crente em religião alguma ou um seguidor de uma religião qualquer se aceite a si mesmo como Homem […]. Glorificaram-se, igualmente, os valores das religiões não cristãs, que alguns teólogos apresentam como vias ordinárias em vez de extraordinárias de salvação”. Se o Concílio tinha reconhecido as religiões não cristãs como um caminho da Graça, Ratzinger não duvida em liquidá-las como “regimes de terror”, instrumentos de satanás. O protocolo cultural − digamos, a epistemologia −, que determina o discurso é o mesmo de Bonifácio VIII: «Extra Ecclesia nec salus est nec remissio peccatorum» («Unam Sanctam», 1302).

«O estatuto da restauração revela-se, pois, inteiramente enquadrado numa filosofia do saber que se desenvolve sobre modelos centrados em e na dependência de Hegel. Poder-se-ia, inclusivamente, falar de uma «ideologia alemã» a partir de uma matriz ou contexto eclesiástico. A Igreja de Ratzinger ainda não chegou aos calcanhares de Karl Popper. O seu realismo actual parece reabsorver todo o determinismo de que a ciência se vai libertando, com a crise da imanência positivista.

«O “pensamento convergente” do cardeal tem como paradigma de fé a teologia euro-romana que se formou nas margens do Mediterrâneo, tendo deixado de lado uma variedade bastante vasta de investigações, perguntas e perspectivas plurais da revelação judeo-cristã. Este paradigma é contraposto aos fermentos do imaginário e às produções simbólicas que pululam no âmbito cristão da Ásia, da África e da América Latina, precisamente quando a Igreja começa a libertar-se da hegemonia política (exercida pelas elites e pelos latifundiários) durante séculos sobre esses povos, para, enfim, começar a mergulhar na massa e a fazer um caminho de “experiência popular”.

«Quando Ratzinger fala de «fragmentação» coloca imediatamente no centro da sua simbólica argumentativa uma espécie de “epistemologia do obelisco”, o supersistema total, a gigantesca ‘escada para o céu’. Ratzinger evoca a chave do segredo do Mundo, a ideia de uma verdade exclusiva e separada, monolítica, mas, no entanto, capaz de ser possuída, dominada, um centro gravitacional do espírito mundial: a cúpula como lugar messiânico. Diante da nossa insistência para que ele clarifique melhor o significado dessa ‘restauração’, o cardeal esclarece: «Se a expressão “restauração” for entendida no seu sentido originário, ou seja, como recuperação dos valores perdidos no seio de uma nova totalidade, então, eu diria que essa é precisamente a tarefa que hoje se impõe, neste segundo período do pós-concílio».

«(…) o surgimento do livro «Introdução ao cristianismo» representa uma viragem – no sentido da involução – na trajectória de Ratzinger. Abandona a revista «Concilium» e participa na fundação da revista teológica «Communio», mediante a qual reforçará o seu vínculo a um círculo político-religioso retrógrado. Em 1971 as suas obras já se encontravam no catálogo da Jaka Book, a editora milanesa vinculada aos meios ligados a «Comunhão e Libertação» e a importantes fundações culturais da Baviera straussiana. Ratzinger assume um distanciamento formal face às teorias de Karl Rahner e declara as suas reservas quanto ao desenvolvimento de uma teologia ecuménica.

«Em 1975, dez anos após o encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, promulga oficialmente − aquando de um debate, em Munique, organizado pela «Communio» − os pontos-chave da restauração: constituem a magna carta do avanço dos retrógrados da Igreja. “Uma reforma real da Igreja – diz Ratzinger – pressupõe um abandono total dos caminhos equivocados, que, entretanto, conduziram a consequências indiscutivelmente catastróficas”. Partindo de uma distinção entre “Concílio” e “anti-Espírito” do Concílio – distinção formulada pela primeira vez precisamente aqui, neste Debate – o teólogo afirma que “é preciso trabalhar de modo que seja separado o espírito (ou seja, o Concílio vivido na sua essência espiritual e teológica) do anti-espírito”.»

«Para que tal programa possa ser realizável, Ratzinger indica algumas intervenções bem precisas: em primeiro lugar, uma revisão da reforma litúrgica. “Devemos opor-nos muito decididamente contra tudo o que se tem feito até hoje numa submissão ao esmagamento racionalista, aos discursos moles e ao infantilismo pastoral, que degradam a liturgia ao nível dos homens do campo e que a procura reduzir ao nível do comic. Igualmente, as reformas já efectuadas, especialmente no que diz respeito ao ritual, devem ser reexaminadas uma vez mais, a partir destes pontos de vista”». (fim dos excertos de «La restauración del Papa Wojtyla», por Giancarlo Zízola, Ediciones Cristiandad)

Por fim, Ratzinger afasta-se: abdica da cadeira de Pedro. Creio que Bento XVI «sai» duplamente vitorioso: com a sua renúncia, vê-se livre das dores de cabeça do cargo papal (do mesmo modo como sempre soube ver-se livre das “confusões”…) ao mesmo tempo que, com a sua obra teológica surpreendente - porque inesperadamente arredada da orientação sugerida pelo Concílio Vaticano II -, une à sua volta uma mole incomensurável de “hier-arcas” saudosistas, arraia miúda e graúda fascinada, uma multidão imensa de fiéis que à roda do Planeta adoravam o seu "Deus Fabuloso" capazes de fazerem frente ao "Deus de Compaixão Humana e de Denúncia Profética" do Papa Francisco. Lembremos que, já bem para lá dos noventa anos - e vizinho “emérito” na porta ao lado do seu sucessor (Francisco) -, foi capaz de se "bater" contra a eventualidade da abolição da obrigatoriedade do celibato sacerdotal. (“«Des profondeurs de nos cœurs»: les explications du cardinal Sarah”, Aleteia.fr, 14/01/2020)

Ratzinger possuía uma mente brilhante e delirante. A amálgama terminológica e a hermenêutica neoescolástica sempre lhe deram jeito. Estou profundamente convicto de que hoje em dia ninguém será capaz de entender o que Ratzinger se esforçou por explicar ao longo das páginas 101-122, sob o título «As mulheres. Uma mulher» no livro «Informe sobre la fe» de Vittorio Messori (Madrid, BAC Popular, 2005). Estas elucubrações ficarão para a História de um catolicismo delirante, em pleno século XX (ex.: «Ao afirmarmos que a diferença sexual é uma realidade secundária e, portanto, negando o próprio corpo como encarnação do Espírito num ser sexuado, despojamos a mulher não só da maternidade, mas também da livre escolha da virgindade, e isto, tendo em atenção que o homem não pode procriar nem pode ser virgem a não ser “imitando” o exemplo da mulher virginal. Por esta via, a mulher assumiria um altíssimo valor de “signo” e de “exemplo” para o resto da humanidade»). Só uma mente brilhante e delirante como a do teólogo bávaro para nos fazer voar tão para lá das nuvens...

J. Ratzinger renunciou ... mas não renunciou ao combate pela “religião vinda do alto”. É que um “padre” não é apenas vigário de Cristo feito Homem: é vigário de Deus! E Deus é para Bento XVI uma “norma do alto” que fica acima do “aberto”, uma espécie de ‘Santo Agostinho de uma única cidade’, a Cidade de Deus, e que, por isso, «está contra todas as outras cidades» (cf. ideia, defendida pelo teólogo Ratzinger, de que os cristãos − caso se assumam em pleno − têm de «estar sempre contra o mundo»). Para o teólogo bávaro, a encarnação só se realiza no hierático sacerdotal: tudo o que há de Mistério Divino pára nessa linha vermelha que tudo separa … porque, em “Religião”, sem separação e distinção não há nem Identidade divina nem partícipe da Santidade. Com Ratzinger, a “casta sacerdotal” reabilitou a Tribo de Levi. Para Ratzinger, a Distância faz de mediação, assim como a lonjura estranha a Compaixão imanente, o Ritual mascara ‘Deus-Pai-e-Mãe’ e o Começo (archè) faz de Fim (thelos).

«A história mostra como este “poder tão especial” (divinal) diante dos homens se auto-protege e se defende através de mil instituições humanas religiosamente justificadas, como é o caso da “casta”, da “família sacerdotal“ e dos sistemas de não-transferibilidade que asseguram que ninguém possa apropriar-se dessa ‘honra’ a não ser que seja “eleito” (ordenado) pela Divindade. Estas instituições não assentam apenas numa lógica de “desejo sincero de pureza religiosa”, mas também porque o tipo de poder sacerdotal nelas implicado arrasta toda uma série de vantagens materiais. S. Paulo reconheceu o direito dos ministros veterotestamentários a «viver do altar» (1 Coríntios 9, 13: «Não sabeis que aqueles que desempenham funções sagradas vivem dos proventos do templo, e os que servem ao altar participam do que se oferece sobre o altar?»). Aristóteles afirmou que a metafísica podia ter nascido no Egipto, porque ali os sacerdotes tinham uma vida mais que garantida… E, nesta linha, quem hoje for visitar as ruínas de Teotihuacan, no México, verá que as ruínas melhor conservadas são as casas dos sacerdotes (as que estão mais perto das pirâmides), precisamente por terem sido as mais escrupulosamente bem construídas…» (J. I. González Faus, «Hombres de la Comunidad», p. 13)

O ritual da ordenação, em si, não reveste ninguém de santidade divina para sempre nem pode obrigar a separar. A santidade divina é uma tarefa universal e para toda a vida de todos os seres humanos, sejam eles baptizados ou não; ela nunca está garantida. Foi por ter assumido tudo isto que Jesus foi crucificado. Com o seu resgate por parte do Pai de Compaixão, introduziu-se no Mundo a relatividade, a perturbação insegura do ser-cristão e a paz daqueles que depositam toda a confiança numa Vida Íntegra, nunca coberta por apólice espiritual alguma.



©




Em conclusão: foi esta a tentativa tedesco-polaca de reversão do «errado» espírito conciliar, que «visou corrigir os teólogos progressistas marxistas e até o próprio Jesus…» − como reza a célebre anedota curial. A religião mais antiga do mundo é, de facto, o polimento do eterno até que o eterno fique imóvel a brilhar num esplendor que é só seu. Foi esta a tentativa de restauração-na-contramão levada a cabo pela dupla Wojtyla-Ratzinger. Depois do sobressalto que o Concílio trouxe, esta tentativa acabou como acabou: com um cisne a cantar o seu canto no fundo de um abismo de pessimismo.



Paulo Bateira

Nota - A expressão “paradigma ascético-estático” devo-a a Juan José Tamayo

 

 


19 de julho de 2022

REINO, SIM



REINO, SIM
‒ a propósito da consulta Sinodal





Contexto

Começo por referir dois factos coincidentes no tempo. O primeiro facto tem a ver com dois Autores que tinha começado a ler, precisamente quando surgiu a proposta da Consulta Sinodal por parte do Papa da Igreja Católica; refiro-me ao jesuíta belga Roger Lenaers (falecido em 2021) e ao Prof. José Veiga Torres. O segundo facto tem a ver com a minha dificuldade em sintonizar com o modelo escolhido para a auscultação. O ‘molde’ da proposta de trabalho do Papa Francisco parece-me ‘clássico demais’ para o longo tempo que já leva esta ‘vida católica oficial’ tão imbuída ainda ‒ p. ex., no terreno das Paróquias ‒ do “espírito de cristandade” (50 anos após o Concílio; «Depois da cristandade»; ¿Para qué la Iglesia?). Com este muito particular «Documento Preparatório - Sínodo 2023», percebe-se que o centro das atenções da metodologia de Francisco é a própria instituição. Devo confessar abertamente que isso merece uma séria reflexão. Sobretudo porque, a ser assim, a consulta caminha de costas-voltadas ao descentrado Espírito de Jesus Cristo. João 14,15-26 ‒ Jesus diz: Eu não sou importante. Importante é o espírito que está em vós (v.17). Quem crê em mim também fará as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas… Se me tendes amor, seguireis os meus passos e fareis o meu Caminho. Irei ser assassinado, mas não vos deixarei órfãos … Eu não sou o que importa, pois o que mais importa é «Quem acolhe o meu testemunho e o põe em prática» (v.21).

Também fiquei a interrogar-me quando me pus a contemplar o doloroso espírito do Mundo actual e o lugar que lhe estava reservado neste modelo de consulta («A sociedade da transparência», , «Meios sem fim», «Paradoxos do individualismo», «Política, Ética e Religião»). Foi então que me interroguei: será que, de facto, Roma jamais será capaz de superar o «eclesiocentrismo», o crónico «apascentar-se a si própria», essa incubadora de mártires, génios e profetas, mas também de carreirismo e autopromoção local e universal?

O Concílio Vaticano II deixou-nos uma enorme lista de questões para resolver. Elas começaram por ser valentes dores de cabeça para a Cúria, mas, de imediato (meia dúzia de anos apenas), foram tratadas como «documentos» a dissecar para ‘consumo consoante’, ou seja, para «citar» consoante. O Vaticano ‒ garante da boa Tradição ‒ conservou, até hoje, os textos do Concílio … no frigorífico. Não lhe deu o seguimento práxico como lhe competia.

A consequência é que, após o Concílio Vaticano II, a debandada dos católicos continuou e até se acentuou («Humanae Vitae», Papa Paulo VI, 1968). Ao mesmo tempo, começaram a perceber melhor porque se sentiam mal (“enganados”): alguns teólogos afirmaram que a Igreja Católica já não era a concretização terrena do «Reino de Deus» anunciado por Jesus (ainda nos lembramos da expressão “extra Ecclesiam nulla salus” ‒ «fora da Igreja não há salvação» ‒ expressão de S. Cipriano de Cartago, que Joseph Ratzinger retoma subtilmente na “Dominus Iesus”). Por outro lado, leigos mais críticos e letrados deram-se conta que até seria teologicamente concebível a existência de cristãos anónimos … (cf. «Los cristianos anónimos», Cap. XII de “Escritos de Teología-VI”, K. Rahner, Ed. Cristiandad, Madrid 2007, p. 485-493).

Após o pregão de Alfred Loisy ‒ «Jésus annonçait le Royaume, et c’est l’Église qui est venue» ‒ esses mesmos leigos passaram a interrogar-se: merece a Igreja ser objecto da nossa fé? Na verdade, na versão latina do Credo, não está lá «creio na Igreja», mas “credo ecclesiam” («creio [que existe a] Igreja»)… Além disso, se esta Igreja é tudo menos uma “verdadeira assembleia de amor”… e apenas um ajuntamento dominical onde todos até condescendemos num muito artificioso ‘abraço da paz’…, merece crédito de fé, esta Igreja assim? Rapidamente, tudo se complicava.

Quando surge o slogan «Jesus sim, Igreja não!» não faltaram as reacções desestabilizadoras. O certo é que mais uma vez, mas agora com Francisco, esta Consulta Sinodal parece querer ir na mesma linha de preocupação manifestada por alguns diante do Concílio Vaticano II: tornar a Igreja apenas «mais apta» (Paulo VI). Reparemos. Em todos os 8 «objetivos de grande relevância para a qualidade da vida eclesial e para o cumprimento da missão de evangelização» com que o “Documento preparatório Sínodo 2023” abre (cf. Ponto 2. - «caminhar juntos»), o objectivo visado é sempre o incremento da qualidade do ‘ser Igreja’, o qual por larga maioria é ‘ad intra’. Com esta consulta, reforça-se assim, pois, a preocupação da Igreja católica consigo mesma, enquanto a crise de identidade e de pertença vai abalando de uma maneira violenta os alicerces da própria instituição: taxa de baptismos, ‘baixa’; taxa de casamentos, ‘baixa’; taxa de divorciados recasados, ‘brutalmente alta’; sacramento da penitência, ‘zero’; participação na eucaristia, ‘em queda continuada’; vida sacerdotal e ordenações sacerdotais, ‘crise profunda’; paróquias sem sacerdote, ‘em crescendo’. Face ao século XX, onde o Concílio Vaticano II pontificou como uma aragem promissora, nós, os do século XXI, com este ‘modelo’ de «abordagem virada para dentro» («Documento Preparatório – Sínodo 2023»), avançamos mesmo ou marcamos passo? Como o caraterizar? Estamos, de facto, perante uma estratégia eivada de «ousadia» do nível da insuperável capacidade de ruptura do «Bom Papa» Roncalli, logo após a sua investidura?

50 anos a marcar passo

É lei geral das instituições humanas acabarem por confundir os seus fins com os seus próprios interesses. Ora, todos sabemos que “o culto religioso” gira em torno de sacerdotes que ‘oficiam’ e ‘oferecem sacrifícios a Deus’ à volta de um altar. A expressão do Catecismo ‒ «Fonte e Cume» (n. 1324) ‒, aplicada, ‘a secas’, à eucaristia (passe o espanholismo) fez com que a Missa arrebatasse o melhor do quinhão da vida da Fé do crente e, a ela, o amarrasse: «Tudo a ela se ordena», diz o Catecismo. Na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa. Não há Igreja, salvação, acção pela qual Deus em Cristo santifica o mundo, nem vida de fé, sem eucaristia (Catecismo ns. 1324-1327).

A Igreja católica, no seu geral, não conseguiu intuir os “sinais conciliares”, nem perceber que após o Concílio urgia recentrar a sua missão, nomeadamente, passar de uma Religião à volta do Rito e do Culto a Deus (Antigo Testamento) para o anúncio do Reino de Deus proclamado por Jesus (Novo Testamento).

Recordemos o que, entretanto, foi acontecendo após o Concílio. Nos anos 60-70 (séc. XX) surge o movimento «Regresso a Jesus» (prioridade aos Evangelhos, regresso aos textos); mais tarde, anos 80-90, surge o slogan «Deus sim, Igreja não» (“dissociação”; crer, mas não pertencer - «believe without belong»). Mais tarde, «Religião sim, Deus não» (fragmentação da cultura pós-moderna; “alternativas religiosas”; ‘religião sim, mas o Deus dos cristãos não’; “religião à la carte”). Em suma, a religião cristã, que a Instituição apresenta no espaço público, começa a ser relativizada. A sua procura retrocede consideravelmente e o catolicismo (europeu, mas não só) decai.

Que tem Jesus a ver com isto?

Hoje sabemos (de modo fundamentado) que Jesus de Nazaré não pregou nem fundou uma Igreja, Jesus não ordenou nem “enviou” uma hierarquia de eclesiásticos, não formulou nem instituiu os sacramentos (Eucaristia, etc.), não definiu serviços ministeriais, não pregou uma nova Religião, etc. Sendo verdade que tudo foi construído apenas por mãos humanas, então, ao verificar-se a necessidade de reformas tudo poderia ser igualmente reformulado por seres humanos. Acontece que essa pretensão colide de frente com a dita “origem divina” da Instituição eclesial, com a dita “origem divina” da ordenação dos sacerdotes, com a dita “origem divina” da configuração dos sacramentos, etc., pelo que só os eclesiásticos ‒ intermediários entre Deus e os homens ‒ estão mandatados para o fazer. Como nestas matérias só ‘entram’ eclesiásticos auto-divinizados, de nada adianta a consulta sinodal aos leigos sobre esses assuntos, pois a sua opinião nunca poderá ser vinculativa enquanto não se anular a usurpação da ‘origem divina das ordens’ por parte dos eclesiásticos. Eu creio que essa anulação nunca irá acontecer, na medida em que isso significaria o fim da «Religião Católica», uma verdadeira hecatombe. Quanto a isto, Jesus está ilibado. Ele não tem nada a ver com este estado de coisas. É tudo da responsabilidade dos homens. Por isso mesmo, eu guardo sérias dúvidas sobre o real valor desta consulta sinodal. Como diz o ditado árabe, «Os cães ladram e a caravana passa.»

Aquando da presença de Francisco nas JMJ no Brasil (2013), o Professor Alfredo Valladão reparou no que estava a acontecer com os movimentos evangélicos e deu-lhe para os comparar com a maneira como a estrutura da Igreja Católica brasileira agia com o mesmo tipo de povo: “Francisco foi eleito para pôr a casa em ordem e reconquistar os corações perdidos dos fiéis. Mas não há reconquista que não passe pela América Latina. Basta olhar para um mapa-múndi religioso para constatar que a região contém mais de 40% dos que se declaram católicos no Universo e que o Brasil é a maior potencia católica do planeta com mais de 160 milhões de fiéis.” E acrescentou: «Um povo sem segurança e sem garantias. Famílias destruídas, instituições carentes. Do caos desta urbanização selvagem nasceu o “indivíduo”, solto, sem referências sociais, cuja sobrevivência depende da sua capacidade de iniciativa própria. Cada um por si e Deus por todos. Na última década, a nova Classe C mergulhou na sociedade de consumo e cada um quer participar da festa. Pela primeira vez o espírito do capitalismo e do sucesso individual chegou às populações mais pobres do país. Tudo isso é bênção de Deus para os movimentos evangélicos que trabalham numa relação direta com cada pessoa, exaltando as emoções. Para os crentes, o Paraíso é aqui e agora. O sucesso econômico é uma manifestação direta e individual da graça divina. Melhorar de vida, trabalhar duro e ganhar dinheiro são valores que devem ser cultivados. A responsabilidade individual é promovida como regra central de comportamento. Nas assembleias de crentes a confissão é pública e o pecador assume seus pecados perante os outros e perante a Deus, sem intermediários.

«A Igreja católica tem as maiores dificuldades em se adaptar a este novo mundo. O aparelho católico construiu sua força e seu poder como um “corpo intermediário” entre Deus e os homens. No seu relacionamento com o divino, o católico tem de passar necessariamente pela mediação do padre, das ordens religiosas, de toda a pesada estrutura eclesiástica. Apesar das inovações do Concílio Vaticano Segundo, a liturgia católica ainda está longe de ser “participativa”. A confissão segredada (‘cochichada’) a um sacerdote, que ostenta o poder de conceder a absolvição, retira a responsabilidade e a culpa individual do pecador para reintegrá-las no corpo coletivo da Igreja. Uma Igreja que detêm a chave do Paraíso. Que não é deste mundo.» (https://www.rfi.fr/br/)

Há então que fazer a seguinte pergunta: se Jesus não reformou a sua Igreja judaica nem anunciou uma Nova Religião, então o que é que Jesus veio anunciar que fosse verdadeiramente novo? A resposta a esta pergunta entrou num texto conciliar (p. ex., Lumen Gentium 5). Há que relevar que, dez anos após a abertura do Concílio, o Papa Paulo VI, fruto da presença impactante das Igrejas da América Latina nos trabalhos conciliares («Pacto das Catacumbas»), fez questão de referir essa imprescindível centralidade do Reino na sua «Evangelii Nuntiandi» (ponto n. 8), o que ficará para a história do pós-Concílio: «Como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser "o resto" que é "dado por acréscimo". Só o reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele.» (“Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.” – Mateus 6,33). Esta “pérola” teológica acabaria por ser vilipendiada pelo superintendente da «Doutrina verdadeira», card. Joseph Ratzinger», do que resultariam críticas e sanções muito graves a alguns teólogos não-europeus, mas também europeus. À época, era Papa o cardeal Karol Wojtyla.

Por aqui vemos que a menina-dos-olhos de Jesus reside, pois, na expressão que os evangelistas guardaram como um tesouro no seio de comunidades de vida fraterna: «Reino de Deus», «Reino dos Céus» ou «Reinado de Deus» (Marcos 1,14-15, Mateus 18,1). Quem quer que vire as costas à Igreja católica, quem aponte o dedo à Igreja católica, quem a pretenda reformar, quem a defenda obstinadamente contra-ventos-e-marés tal como está ou ache que ela deve ser apenas «mais apta», modernizando-a («Evangelii Nuntiandi» n. 2), terá, inevitavelmente, de responder à pergunta “o que é que Jesus de Nazaré queria dizer com aquilo que Ele anunciava como decisivo, o Reino de Deus?”. É aqui que está a questão que decidirá sempre o futuro da instituição católica, instituição que foi vivendo desde o séc. IV até … bem dentro do século XX … (o que é espantoso!) em «Regime de Cristandade», regime que há muito se esgotou.

A primeira questão que a “Consulta Sinodal” deveria, por conseguinte, colocar é: que significou, para Jesus de Nazaré, o «Reino de Deus?», que significou esse grande omnipresente na vida de Jesus? Se no decorrer da consulta sinodal os cristãos não derem, antes de mais, resposta a essa pergunta, o futuro da Mensagem de Jesus ficará uma vez mais adiada…

Cristologia

A condição crente é, antes de mais, a condição daqueles que colocam a sua Fé em Jesus Cristo e a partir d’Ele conformam a totalidade do seu projecto de vida. Mas, para isso, é preciso saber quem é Jesus Cristo. A resposta é, então, do foro da cristologia. Portanto, a questão central da Consulta Sinodal deverá ser do foro da Cristologia e não da Eclesiologia. A cristologia é o discurso sobre Jesus ‘sub specie regni’, ou seja, à luz do Reino. Nada do que se diga de Jesus pode ser dito se não estiver em sintonia com o Seu projecto de Reino de Deus. Uma cristologia sem Reino é mera formalidade. Jesus serviu para justificar ditaduras, massacres, perseguições e assassinatos (muitas vezes, à ordem da própria Igreja de Roma). Portanto, há que exigir sempre esta referência ao Reino, quando se impõe justificar acções e programas humanos ditos cristãos. A Pessoa de Jesus e o Mistério que o habita estão em muito íntima dependência do Seu projecto de Vida ‒ o Reino de Deus ‒, o qual Ele exerceu em estreita relação com a vontade do Pai (Getsémani; Mateus 26,36). Só podemos falar de Jesus (e justificar-nos) a partir da sua história e da sua práxis: que fez e que disse Jesus (gestos e palavras, sabendo de antemão que as Suas ‘palavras’ não eram parte de discussões ou falatório, antes desencadeavam ‘acções’). Aceder ao que Jesus disse e fez é uma realidade que não está ao nosso alcance sem o recurso, em primeira instância, à leitura dos evangelhos. Se excluirmos o livro dos Actos dos Apóstolos, a expressão “Reino de Deus” (ou Reino dos Céus) surge cento e quatorze vezes nos Sinópticos. Torna-se evidente que, entre Jesus Cristo e ‘Reino de Deus’, se constitui um círculo hermenêutico, que acaba por ser um princípio epistemológico para a Cristologia. A circularidade hermenêutica entre Jesus e o Reino é a condição fundamental que há que ter em conta para se conhecer Jesus Cristo. A pessoa e a missão de Jesus Cristo só podem ser conhecidas à luz do Reino. É o que quer dizer ‘circularidade’: se pretendo conhecer uma destas duas realidades ‒ Reino ou Jesus ‒ necessito iniludivelmente de me referir à outra. Marcos 8,33 é um bom exemplo prático desta circularidade: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens.». Em concreto: compreender quem era Deus para Jesus e em que consiste esse Reino de Deus para Jesus implica ter sempre presente como Jesus optou pelos pobres e pelos marginais (Lucas 17,11), implica ter sempre presente as Bem-aventuranças (Mateus 5), implica o poder como serviço e não como domínio (Mateus 20,28), implica fazer como Ele fez a práxis do “esvaziamento, da humilhação e da encarnação”, como denunciou profeticamente tudo aquilo e todo aquele que atenta contra a vontade de Deus-Pai, que quer que o ser humano viva e tenha vida em abundância (João, 10,10).

Compreender Jesus a partir do Reino de Deus faz com que nos coloquemos diante da concreção histórica da pessoa de Jesus e do modo como Ele se inscreve nas Promessas Históricas do Antigo Testamento ou como Jesus deita raízes bem fundas na Memória dos Hebreus, quanto à opção pela condição humilde, pelo desprendimento diante da tentação da acumulação egoísta, bem como quanto à solidariedade para com os escorraçados do sistema imperial (Lucas 4,16-30). É a partir da práxis de Jesus que acolheremos o Reino de Deus na História, evitando a vontade de poder e de domínio típica do ser humano (Idem, v. 28: «todos se encheram de furor»). Esta tentação, sempre patente, também se manifestou em Pedro, o qual diante do destino de rejeição, de conflito, de condenação e perante o vaticínio da morte do seu amigo, lhe puxa o braço para o lado a fim de o repreender. Convém relembrar que o motivo porque Jesus foi condenado à morte tem a ver com o seu projecto de instauração do Reino de Deus pelo qual deu a sua vida até ao fim (Marcos 15,43: «José de Arimateia também esperava o Reino de Deus»). Em suma, Jesus não é o mediador entre Deus e os homens. Jesus é o mediador entre o Reino de Deus-Pai-Misericordioso e a humanidade.

«(…) melhor se conhece a interioridade humana de Jesus a partir da exterioridade da sua relação com o reino. Essa exterioridade é a que melhor nos revela no concreto ‒ in actu ‒ o Jesus comprometido com a verdade, misericordioso e justo, denunciador e desmascarador, disponível e fiel. É essa exterioridade, exigida pela construção do Reino de Deus, que vai configurando a sua interioridade pessoal quanto à sua relação com o Pai.» (Jon Sobrino, «Cristología sistemática – Jesucristo, El mediador absoluto del Reino de Dios», in ‘Conceptos fundamentales de la Teología de la Liberación’, Vol I, UCA Editores y Trotta Madrid 1990, pp. 579-580).

Reino, sim

Numa época em que todo o Mundo já ultrapassou o slogan de que ‘a religião é ópio do povo’ e em que a dimensão “Mistério da Vida Humana” vai saindo à rua por diversos poros (férias e fins-de-semana frugais, poesia, literatura, contemplação, arte, modos de vida familiar alternativos, «solidariedade activa na história» [Mt 25,31-46], etc.), damo-nos conta de que “a vida humana não se esgota no mundo físico. Há uma série de «mundos» ou âmbitos que não são tão palpáveis nem são descritíveis e, no entanto, são reais, existem [e exigem-nos], e são importantíssimos para a vida humana – é o caso da interioridade: o mundo da vida psíquica, das vivências, dos sentimentos, dos desejos, das frustrações, dos traumas, [da vida em comum, o viver juntos].” (J. M. Mardones, «Matar a nuestros dioses», p. 200).

Ora, é então que faz sentido a expressão «Reino» como o universo do gratuito, do encontro e da verdade plena. A ser assim, outras tradições religiosas e culturais poderão enriquecê-la com valorações para lá das expressões cristãs “Igreja, Cristo, Jesus ou Deus”. Inclusivamente, os cristãos poderão preenchê-la com Graça e Verdade plena, Encontro fraterno, ‘agapê’. Se estivermos inspirados, poderemos realizar o «Encontro Humano» à volta da dimensão duma «Vida Abundante» que seja fruto da justiça, da fraternidade e da paz, permitindo confluir para aí seres humanos de distintas tradições culturais e religiosas que valorizem a centralidade da compaixão. Não vivenciaram outros, antes de nós, que a Graça de Deus chega sempre antes que o Evangelho seja proclamado? «É assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós» (cf. Romanos 5,5-10). E que são estas “migalhas de Reino” senão aquilo que os Padres da Igreja chamavam “semina Verbi”, consequência da encarnação do Verbo que assume todo o tipo de ser humano (Filipenses 2,1-11)?

Se quisermos abrir novas rotas à Igreja do século XXI, esta categoria elementar ‒ ‘Reino’ ‒ será capaz de franquear uma nova perspectiva de diálogo e de procura comum com muitos homens e mulheres que partilham, como horizonte, aquilo que Jesus também possuía (mesmo que não o identifiquem como «o Mestre» de Nazaré; seria preciso, agora, reler Karl Rahner in «Fundamentación sacramental del estado laical en la Iglesia», Escritos de Teología VII, Taurus Madrid 1969, p. 364, linhas 3-8). Esta perspectiva evangelizadora das ‘semina Regni’ convida-nos a ter um olhar da história e da realidade a partir daquilo que também era fundamental para Jesus: o Reino. Assim, confluindo nós para «O Reino» ‒ sem o complemento ‘de Deus’ ‒ podemos associar as nossas forças à de todos aqueles que queiram, não só curar os feridos que jazem na margem do caminho, mas também aos que queiram interrogar-se acerca das razões de por que é que o caminho continua a expulsar e a despejar vidas humanas, bem como, ao mesmo tempo, como é que nós poderemos refazer o caminho novo da liberdade, da justiça, da paz e da fraternidade, onde não haja verdugos nem vítimas, mas sim Reino, Reino, sim!

Seria muito triste que, depois de termos colocado no centro do nosso olhar precisamente aquilo que Jesus colocou no centro do seu olhar ‒ um Reino de paz e de justiça sem verdugos ou vítimas, mas apenas ‘agapê’ (C. Spicq) ‒ voltássemos, neste século XXI, a olhar apenas para o nosso umbigo… Perante isto, creio que é desnecessário referir que as questões insistentemente reclamadas nas respostas à Consulta Sinodal ‒ mais democratização dentro da Igreja católica, ordenação das mulheres, partilha do poder de decisão, ordenação de homens casados, repescagem de sacerdotes afastados, etc., etc., etc., curiosamente tudo «aquilo que nos seria dado por acréscimo» se nos lançássemos à construção do Reino de Deus e que, precisamente por isso, não nos deveria moer o juízo ‒ são secundárias apenas por uma razão: porque elas terão forçosamente de ser referidas à questão central da Vida de Jesus:

La centralidad del reino de Dios anunciado por Jesús .



Paulo Bateira

28 de Junho de 2022