teologia para leigos
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10 de março de 2023

Completou-se o tempo

 



Completou-se o tempo



Todos nós, em particular os católicos, deveríamos aferir a nossa vida pelo critério supremo da fidelidade ao «seguimento radical da ‘vida em acto’ de Jesus de Nazaré». Todos os conflitos, que com naturalidade surgem nas nossas vidas (íntimas e sociais), deveriam ser discernidos a partir deste critério supremo.

Parece-me que tal exigência tem ficado esquecida nas análises e nas tomadas de posição públicas no que diz respeito à questão dos ‘Abusos Sexuais praticados em menores de idade’ (assunto na ordem do dia).

A missão profética da Vida Humana em geral (seja ela cognominada de religiosa, laica, agnóstica, civil, canónica, política, etc.) não deve ser nem calculista, nem oportunista e muito menos prudente. Aliás, os primeiros passos da memória (vívida, ainda fresca) da pessoa de Jesus foram, no «seguimento do evangelho», marcadamente imprudentes. Pedro foi imprudente (Actos 10,9-48): ele ainda se lembrava que Jesus, diante do aparente fracasso da sua missão entre os judeus, também havia decidido ser imprudente e apostar nos estrangeiros que professavam uma religião herética: os odientos samaritanos (cf. João 4,27: «Diálogo com a mulher samaritana»).

A missão profética de qualquer ser humano implica essencialmente um compromisso com a inseparável dupla «Justiça-Direitos Humanos». A experiência do Deus bíblico e a prática da Justiça, na tradição profética, são inseparáveis. Conhecer Deus passa por fazer justiça ao pobre e ao desgraçado que, de seu, pouco ou nada possui (Jeremias 22,15-16: «Porventura pensas que és rei por dispores de mais cedro? Acaso o teu pai não comia e bebia, praticando a justiça e a equidade, e tudo lhe corria bem? Julgava a causa do pobre e do humilde, e tudo lhe era favorável! Não é isto conhecer-me? - oráculo do SENHOR.»).

O compromisso com a Justiça e com os Direitos Humanos (prioritariamente relacionados com a “Ciência Económica” e a “Ética do Bem Supremo e do Fim Último” – cf. Adela Cortina) tem um carácter liminar: os profetas veterotestamentários ‒ ‘via’ escolhida por Jesus por oposição à ‘via’ messiânica ‒ colocaram-se sempre do lado da Justiça, mas de uma Justiça a partir das circunstâncias sociais e a partir da perspectiva do pobre marginalizado, e aí persistiram até que as denúncias chegassem ao centro do poder e o incomodassem (1Reis 18,17). Jesus percebeu isso e foi por essa ‘via’: a vida em Deus dispensa o sacerdócio tal como a Igreja Católica de Roma defende em contramão face à Carta aos Hebreus e ao dominicano fray Marcos op (Madrid, «FE ADULTA») que se esforça semana-após-semana a explicá-lo. A nós compete-nos «seguir no encalce de Jesus». Todos nós sabemos de cor e salteado onde essa opção de vida levou Jesus: ao abandono absoluto e, por fim, à mais execrável forma de morte.

Ser cristão é «seguir no encalce de Jesus», profeta que rejeitou a opção messiânica (Cf. C. Escudero Freire). Foi por ter precocemente percebido isso que Jesus rejeitou os «inspirados», os «místicos», os «novíssimos movimentos» e os «líderes carismáticos» que costumam pairar acima do comum dos mortais ostentando misteriosamente a sabedoria da vinda do Filho do Homem ou dos últimos tempos da chegada do Espírito de Deus, curiosamente aqueles a quem Jesus chamou "abutres" (Lucas 17,20-37).

Creio que o confronto entre as partes beligerantes e a disputa pelos argumentos (em torno dos "abusos sexuais" por parte dos sacerdotes) tem vindo a afunilar-se e, por conseguinte, tende a esquecer ou pelo menos a não valorizar suficientemente o testemunho que Jesus deixou na memória daqueles que o conheceram. Um bom exemplo desse esquecimento - direi mais - da total ignorância acerca do conteúdo da Mensagem de Jesus é a argumentação usada na entrevista pelo Pe. Duarte da Cunha ao jornal ‘SOL’, 25/Fev./2023. Glosando J. Ratzinger, o Pe. Duarte da Cunha, ‘grosso modo’ afirma: Foi Deus que decidiu que a hierarquia da Igreja deveria ser assim: feita exclusivamente de homens os quais encarnam a pessoa de Deus… Na verdade, passado pouco mais de um século após a condenação à morte do Nazareno, a mensagem de Jesus começava a ser piramidalmente estruturada, segundo um modelo militar e uma 'origem divina' (=sacral), características a que nem sequer o rabinismo e os sacerdotes judaicos se alcandoraram ao longo da sua existência (Cf. Carta de Clemente de Roma aos cristãos de Corinto, Cap. XXXVII e Cap. XL).

Dito isto, - salvo um hipotético Cisma de enorme magnitude que creio ser totalmente improvável - não fiquei surpreendido com a conferência de imprensa que os bispos portugueses deram há dias (3 de Março 2023), Conferência de Imprensa apresentada e defendida pelo bispo José Ornelas. E porquê? Porque a Igreja de Roma diz-se representar uma Religião (o cristianismo) e por ser uma Religião é forçoso que tenha uma estrutura piramidal, tenha vocação universal ("Ide pelo mundo inteiro proclamar ... Quem não acreditar será condenado", cf. Marcos 16,15-16), seja militarmente hierarquizada (o que exige funcionários consagrados plenipotenciários, ou seja, "separados para o Sagrado"), e seja sobretudo reverenciada e única, porque de 'origem divina' (Efésios 4,11: “só a alguns é que constituiu como apóstolos…”). Diz-se que "Jesus instituiu a Eucaristia" (Mateus 26,26) e que transmitiu todos os seus poderes divinos ao seu 'discípulo-apóstolo número um', o qual passará a ser considerado pela Tradição como o primeiro Papa plenipotenciário: "Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra ficará desligado no Céu" (cf. Mateus 16,13-20). A leitura de «Abus sexuels et cléricalisme» de Hervé Legrand (“Études”, 2019/4 Avril, pages 81-92, ISSN 0014-1941, Cairn.info pour S.E.R.) revela quão inultrapassáveis são os obstáculos rumo à reforma da Instituição Eclesial Romana que o Papa Francisco diz que deseja. Mas o certo é que o próprio H. Legrand é totalmente incapaz de dizer preto-no-branco que Jesus não ordenou um corpo de sacerdotes nem pretendeu fundar uma Igreja, questões polémicas ultrapassadas há décadas por teólogos europeus de renome.

O futuro da questão dos Abusos sobre menores creio já estar sob controlo da Igreja (=dos Bispos) em Portugal – esta é a suspeita com que fiquei no fim daquela conferência de imprensa (creio que não poderia ser de outro modo). Era inevitável que os «funcionários do sagrado» controlassem esta crise e não permitissem que ela tomasse conta do centro das atenções por demasiado tempo. A realização das «Jornadas Mundiais da Juventude» é mais um Milagre de Fátima a acrescentar ao livro da 'Vida Consagrada de Portugal à Virgem' e também à consagração dos nossos Bispos à mesma Mãe. Seria o fim do catolicismo se se questionasse até aos alicerces esta Estrutura e esta Religião (que Jesus de Nazaré nunca quis nem fundou...). Deste modo (com as rédeas bem firmes nos carpos dos nossos hierarcas...), Fátima, ao colar tão estreitamente as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) a Maria e ao Terço (cf. Logotipo), consagrar-se-á definitivamente como "O Altar entre os altares do Mundo" (altares de que, curiosamente, os Profetas do Antigo Testamento, em convergência antecipativa com O Profeta do Novo Testamento, sempre fugiram: «Eis que vos enganais a vós mesmos, confiando em palavras vãs, que de nada vos servirão. Roubais, matais, cometeis adultérios, jurais falso, ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos; e depois, vindes apresentar-vos diante de mim, neste templo, onde o meu nome é invocado, e exclamais: 'Estamos salvos!' Mas seguidamente voltais a cometer todas essas abominações. Porventura, este templo, onde o meu nome é invocado, é a vossos olhos, um covil de ladrões? Ficai sabendo que Eu vi todas estas coisas - oráculo do SENHOR.» - Jeremias 7,8-11).

Esta foi a 'oportunidade do século' que nos escapou, a oportunidade perdida para, pelo menos, relançar o catolicismo neste Portugal, quer do ponto de vista religioso, quer do ponto de vista político, quer sociológico. Oportunidade para renovar a vida das paróquias e dos conventos neste século XXI que não sabe para onde se há-de inclinar, ou seja, perdeu-se a oportunidade para acrescentar «algo que ultrapasse o ateísmo e o teísmo», uma espécie de "ética da transcendência humanista" (Aloysius Pieris) que nunca como hoje teve tanto a ver com a felicidade dos seres humanos de todas as partes do mundo. De dentro do coração de uma enorme crise não se ouviu, troante, uma Palavra Profética, viesse ela de onde viesse: do campo ateu ou do campo crente, de um Filósofo ou de um Sociólogo, de um Académico ou de um Camponês, de um Poeta ou de um Artista Plástico. Nada. Uma desgraça. Ou estarei eu enganado e o que, na verdade, por aí germina é afinal de contas «uma graça divina»? (Avanço com três tópicos.)

Em primeiro lugar, essa questão deveria ser tratada pelos abusados (sem a mediação das comissões diocesanas) em sede dos Tribunais Não-eclesiásticos (Procuradoria Geral da República) e por iniciativa das próprias vítimas, as quais, caso fique provada a existência de crime, deveriam exigir da Igreja Católica Portuguesa enquanto instituição (na pessoa jurídica da Conferência Episcopal) uma indemnização pecuniária pelos danos causados, indemnização que também suportasse as custas do tratamento psicológico-psiquiátrico (tratamento decidido e escolhido em absoluta autonomia pela vítima sem intromissão alguma das comissões diocesanas). Acho inadmissível a proposta que ouvi (na Conferência de Imprensa) da boca do bispo J. Ornelas de uma indemnização a ser exigida ao abusador (peço antecipadamente perdão se entendi mal…), pois todos sabemos que, nesse caso, a vítima nunca viria a receber nada, já que os abusadores "deixaram tudo para trás a fim de trabalharem ‘pro bono’ na Igreja". A Igreja Católica não pode continuar a usufruir dos privilégios estatais de que sempre usufruiu. É tempo de a colocar ao nível de qualquer instituição que tem de responder FORÇOSAMENTE perante as Instâncias Civis Laicas (independentemente do seu código de conduta de uso interno). Há muito que o Estado se separou da tutela da Igreja.

Em segundo lugar, não sou ingénuo ao ponto de pensar que, caso a organização eclesial dos católicos (ou seja, as comunidades católicas ditas ‘Igrejas’, Paróquias, Movimentos, Conventos, Capelanias, etc.) se regesse pelo critério supremo do «seguimento radical da ‘vida em acto’ de Jesus de Nazaré» (Jeremias 7,5-7) poria fim de um dia para o outro aos casos de abuso sexual sobre menores de idade. Creio, contudo, que esta vergonha humilhante que agora assaltou a praça pública (um dia será inevitável que se fale da outra face da moeda: a prática sexual das mulheres e dos homens que fizeram votos de castidade…) seria uma oportunidade para credibilizar, e muito, a condição crente católica em Portugal caso a Justiça Económica, os Direitos Humanos sob a forma de «Prioridade Máxima e Concreta aos Marginalizados, aos Desempregados e aos Sem-Abrigo» passassem a ocupar o centro da espiritualidade católica portuguesa (Missas, Retiros, Linhas de Orientação dos Conselhos Paroquiais, Congressos de Teologia da Universidade Católica, Vida dos Seminários, Movimentos Laicais, etc.) em vez de algumas espiritualidades descafeinadas desprovidas de qualquer solidez teológica, como é o caso dos «Novos Movimentos Católicos» que encontraram, finalmente, um poderoso impulso no pontificado do Papa João Paulo II, no entanto, horrorosamente pérfidos... na sua vida íntima.

Se fossemos capazes de tal, poderíamos iluminar o espírito de todos os cristãos com a força do profetismo do Nazareno (Mateus 11,2-6) abrindo ao 'mundo real' as mentes dos católicos ao ponto de ferir publicamente e de forma determinante a tentação pela duplicidade de vidas espirituais frustradas e sofridas de muitos crentes, a tentação pelo Prestígio, pela Vaidade e pelo Luxo de eclesiásticos que se passeiam na praça pública (ainda novos, mas já poderosos), enquanto a seu lado caminha um povo apesar de tudo ainda crente, humilde, mas mal agasalhado e que em casa passa dificuldades económicas (um pequeno-grande exemplo de contratestemunho cristão não são apenas os 'abusos sexuais de menores' ou as orgias de sacerdotes aos domingos que procuram algum tipo de satisfacção sexual; é a própria Universidade Católica Portuguesa, Instituição que em certos cursos defende orientações ideológicas fortemente marcadas por correntes neoliberais incompatíveis com o Evangelho de Jesus; cf. Teresa Vasconcelos no jornal 7 MARGENS).

Por último. Dá que pensar aquilo que surpreendentemente surge no mundo Ocidental a partir do pós-guerra. Refiro-me à problemática da "perigosidade" estreitamente conectada em geral com as Religiões e as Seitas Religiosas. A ofensiva das forças policiais sobre comunidade do Monte Carmelo (Waco, Texas, 1993), a comunidade de Asahara Shōkō e o atentado com gaz sarin no Metro de Tóquio (1995), os assassinatos e suicídios dos membros da Ordem do Templo solar em Vercors perto de Grenoble (após os do Canadá e os da Suíça) lançam uma suspeita que aparentemente deixa imune a Igreja Católica (se exceptuássemos o caso do Office Culturel de Cluny). Aparentemente, a Igreja Católica permanece à margem de qualquer suspeita e, portanto, de qualquer investigação. Mas ... a investigação actual sobre «Abusos sexuais» demonstra que aquilo que se julgava que acontecia "extra Ecclesia" começara em simultâneo "intra Ecclesia": a senhora Odette de Beaulieu, de linhagem nobre, 'tomou o hábito' no convento das dominicanas de La Croix em 1924 e adoptou o nome de Marie Agnès de Jésus, para abraçar de modo absoluto o ramo contemplativo da Ordem. É nesse Convento feminino que um dia entra o bispo de Lille acompanhado do frei Thomas Philippe op recém ordenado sacerdote, o qual, com muita regularidade passa a dirigir retiros e a proferir conferências à volta do tema 'A Vida Contemplativa'. Este é apenas o primeiro nome de uma lista de cinco mulheres - Odette de Beaulieu, Madeleine Guéroult, Marie-Renée Seuillot, Alix Parmentier, Michèle-France Pesneau - que, entre 1930 e os dias de hoje cairam nas malhas de uma extraordinária tecitura feita de um delicado entrecruzamento entre Vida Contemplativa Clássica (isolada do mundo real), denúncia da "Cultura da Morte" e do Relativismo, tendo, à mistura, Rituais Sexuais empapados da Teologia do Amor Virginal e Íntimo de Maria, a Mãe de Deus. Jean Vanier, foi um dos mais importantes e horrendos membros desta aliança entre Espiritualidade Contemplativa e intimidade sexual. Antes de morrer, negou todas as suspeitas de abusos sexuais, ele que partilhava da mesma Espiritualidade Contemplativa dos irmãos dominicanos Philippe e de algumas freiras, que advogavam o sentir do Amor Virginal da Mãe Santíssima para com o seu Filho com todos os sentidos: os corporais e os espirituais.

É agora muito evidente que a Igreja Católica se foi tornando, ao longo de demasiado tempo (séculos) numa enigmática seita que oferecia sobre o Altar da Consagração a Graça Divina conjuntamente com o sexo do celebrante. Se não, vejamos:

«Saint Paul VI le suggérait ainsi en 1967: ”Saisi par le Christ Jésus (Ph 3, 12) jusqu'à s'abandonner totalement à lui, le prêtre se configure plus parfaitement au Christ également dans l'amour avec lequel le prêtre éternel a aimé l'Église, son corps s'offrant tout entier pour elle afin de s'en faire une Épouse glorieuse, sainte et immaculée (Ep 5,23-27)” La virginité des ministres sacrés manifeste en effet l’amour virginal du Christ pour l'Église et la fécondité virginale et surnaturelle de cette union [Paul VI, «Encyclique Sacerdotalis Caelibatus»,24 Juin 1967, nº 26]. Le Christ s'est offert sur l'autel de la Croix. Chaque jour, le prêtre renouvelle cette oblation en prononçant les mots “ceci est mon corps livré pour vous”. Ces paroles prennent pour lui le sens de l'entrée dans l'offrande virginale du Christ. Chaque fois qu'un prêtre redit “ceci est mon corps”, il offre son corps sexué en continuité avec le sacrifice de la Croix.» (Benoît XVI et cardenal Robert Sarah, «Des profondeurs de nos cœurs», Fayard 2020, p. 130)

Cf. N. «62. O sacerdócio é ministério instituído por Cristo para serviço do seu Corpo Místico que é a Igreja. A esta compete admitir os que julgar aptos, isto é, aqueles a quem Deus concedeu o carisma do celibato juntamente com os outros sinais de vocação eclesiástica (cf. n.15).
«Em virtude deste carisma corroborado pela lei canônica, o homem é chamado a responder com “decisão livre” e “entrega total”, subordinando o próprio eu ao beneplácito divino que o chama. Em concreto a vocação divina manifesta-se num indivíduo determinado, dotado de estrutura pessoal própria que a graça não costuma violentar. Por isso, no candidato ao sacerdócio, há de cultivar-se o sentido da receptividade do dom divino, e da disponibilidade nas relações com Deus, dando essencial importância aos meios sobrenaturais.» [Paul VI, «Encyclique Sacerdotalis Caelibatus»,24 Juin 1967]; Nº 62 da «Encyclique Sacerdotalis Caelibatus».

Creio que não é exagero algum dizer que estamos diante de uma linguagem demasiado estranha consentânea com concepções próprias de uma seita capaz de fazer a ponte com os piores exorcismos traumatizantes (cf. "L'Ombre de l'Aigle", p. 45-46). O 'ritual número 1 da seita católica' (a Consagração Eucarística) sugere uma espécie de castração ('oferenda sacrificial da condição sexuada' do sacerdote) a qual se assume sobre um Altar em perfeita simultaneidade com a oferta do corpo de um deus redentor que, igualmente vítima, também se imola a fim de tudo poder salvar! Paira, então, o pior de entre aquilo que o Antigo Testamento se esforçava por se ver livre: a idolatria e a feitiçaria.

Aparentemente, e excluindo os primeiros decénios do cristianismo, a Igreja cristã nunca pareceu ser uma seita e, por isso - ou seja, pela sua impecável 'omertà' - sempre foi respeitada pelos poderes político e jurídico e, por conseguinte, insuspeita e excluída de qualquer investigação judicial quanto à relação entre 'religião, seitas e violência', fenómeno pujante de força nos séculos XX-XXI. O tratado (com cerca de 800 páginas), que a editora Cerf lançou há semanas, ajuda a compreender o embaraço dos bispos e da Cúria (incluindo a atrapalhação do Papa, que hoje tanto diz que «o celibato sacerdotal é irrevogável» como amanhã o desdiz... e que hoje diz que a Igreja Alemã não tem poder para decidir por si o futuro dos Ministérios como amanhã irá ter de 'engolir' as decisões maioritárias do Caminho Sinodal que os germânicos começaram antes do da Cúria). Este relatório-investigação encomendado pela Ordem dos Irmãos Dominicanos franceses, chama-se «L'Affaire» e tem como autor Tangi Cavalin (Cerf, 2023; ISBN 978-2-204-15353-9), historiador que conta com obras notáveis sobre os "Padres Operários" e "La Mission de France". Um dos contributos desta obra é o de chamar a atenção para a Teologia da Espiritualidade contemplativa e para a sua repercussão na Psicologia humana, mas também na Eclesiologia, ou seja, no modelo de Igreja que daí resulta.



«Mon Dieu, je vous remercie très humblement de toutes les graces que vous m'avez faites jusqu'ici. C'est encore par un effet de votre bonté que je vois ce jour; je veux aussi l'employer uniquement à vous servir. Je vous consacre toutes les pensées, les paroles, les actions et les peines. Bénissez-les, Seigneur, afin qu'il n'y en ait aucune qui ne soit animée de votre amour, et qui ne tende à votre plus grande gloire. Adorable Jésus, divin modèle de la perfection à laquelle nous devons aspirer, je vais m'appliquer autant que je pourrait à me rendre semblabe à vous, humble, chaste, zélé, patient, charitable et résigné comme vous; et je ferai particulairement tous mes efforts pour ne pas retomber aujourd'hui dans les fautes que je commets si souvent, et dont je souhaite sincèrement de me corriger



Ou seja, quanto mais afastados da realidade material e social da "vida inter-humana mundana" estivermos, mais a espiritualidade se agiganta ao ponto de se tornar a totalidade do mundo psicológico do contemplativo («servir exclusivamente a Deus»). E porque, pelo elevado grau de exigência que coloca, isso fascina de tal modo 'o contemplativo' ao ponto dessa espiritualidade se constituir num Desígnio Absoluto, o qual, ao fim de algum tempo, transforma o místico num frágil e inseguro ser, capaz de tudo aceitar como fazendo parte de um segredo do seu coração que só poderá partilhar a sós com Deus. O seu discernimento acaba na despersonalização, às vezes numa luta contra o sentimento de culpa, outras vezes contra o medo de sofrer alguma atracção sexual. O(a) contemplativo(a) despersonalizado(a) sempre estremecerá diante duma súbita dúvida ("Mas ... não foi a mão do Amor de Deus que penetrou sob o corpete e afagou os meus seios?!!! Claro que foi: Ele era a mão, e o sussurro de Deus no meu ouvido!"). O mesmo acontecerá perante uma eventual denúncia que o(a) sobressalte (tal como aconteceu na Comunidade de "L'Eau Vive", entidade que antecedeu a fundação de «L'Arche» de Jean Vanier, para a qual ele transplantou o inferno dos abusos sexuais que com outros praticava na «L'Eau Vive»). Devemos interrogar-nos como foi possível, depois de ela saber tudo o que ali havia de mais escabroso, a mais alta hierarquia da Igreja Católica (dois Papas - João Paulo II, Bento XVI - e um Cardeal) ter tido o comportamento que teve (“Des décennies de louange par la haute hiérarchie de l'Église et d'amitié affichée avec le pape Jean-Paul II. Un hommage appuyé de Benoit XVI lors du décès de Marie-Dominique Philippe [Communauté de Saint-Jean] puis les funérailles élogieuses célébrées par le cardinal Barbarin.”; cf. Nota 23 in Marie-Dominique Philippe).


Em suma, o contemplativo despersonalizado (e isolado pelas calúnias que vê crescerem à sua volta) escolhe renunciar a ser quem sempre foi e é: um ser humano que vive no único reino que verdadeiramente existe - a Terra (João 1,14), onde Deus se deu inteiramente a conhecer sob a forma de "Caminho, Verdade e Vida" (ou seja, "Vida em doação para os demasiado frágeis, Fidelidade e Plenitude"). À medida que o tempo passa, o contemplativo-acossado e abusado procura desesperadamente consolo e refúgio num "Deus celestial" ... que habita no sacrário dum silêncio que mais cedo do que tarde se revelará insuportável. Muitos puseram fim ao Inferno, que é viver numa Comunidade Religiosa Católica onde é sinal de fraqueza (e até de irreverência) partilhar humilhações sofridas, lançando mão do suicídio (cf. «L'Ombre de l'Aigle», p. 6, edição de "AVREF - 2020 Aide aux victimes des dérives dans les mouvements religieux en Europe et à leurs familles").



«La vraie charité n'aime pas les rapports. Le démon ... semeur de rapports! Par rapports, il faut entendre certaines confidences que l'ont fait à quelqu'un... Oh! quelle peine il aurait éprouvée, lui qui était si bon, si charitable, si sa conscience lui avait adressée sur ce point le moindre reproche! Gardez-vous de ce désordre qui contristerait votre bon Ange. Efforcez-vous de fermer cette bouche intempérante.» (citações de «L'Amour du prochain», trinta meditações espirituais, Abbé P. Feige, Paris 1919)



Foi por isso que Jesus se afastou dos contemplativos, foi por isso que nunca orou ao Pai à maneira das Comunidades de Eleitos (Qümran), antes nos apontou ao peito a espada do Julgamento Definitivo (Mateus 25, 31-46) e nos alertou contra o espírito dos teólogos desligados da realidade social (Mateus 16,6).



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A fechar. Mais uma vez, e quanto às discussões em torno deste monstruoso CRIME eclesiástico, Jesus é o grande ausente: ninguém fala do Seu evangelho (“Completou-se o tempo”; Marcos 1,15). Inacreditavelmente, Ele acaba sempre fora dos muros da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana… quando na verdade, Ele é a resposta: a eucaristia que Jesus fez, aconteceu fora dos muros da igreja do seu tempo! Isso ‒ essa eucaristia ‒ deveria dizer-nos muito, mas parece que não é para aqui chamada.

«Por isso, também Jesus (…) padeceu fora das portas de Jerusalém, do lado de fora da Cidade Santa. Saiamos, então, ao seu encontro fora do acampamento, suportando a sua humilhação, porque não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura…» (Hebreus 13,12-14)

Os noticiários andam entupidos de ‘Papa para aqui’, ‘Papa para acolá’, ‘bispos para aqui’, ‘bispos para acolá’, ‘clericalismo para aqui’, ‘clericalismo para acolá’… quando a questão das questões é: de que é que os leigos estão à espera para empunharem, aos domingos, a bandeira da justiça, dos direitos humanos e da partilha eucarística de bens com os que pouco ou nada têm de seu? A questão das questões é: alguém sabe por onde anda o Nazareno aos domingos?

Garanto-vos que não vai à missa…Talvez fique à porta de mão estendida. Ou, então, deixou-se ficar no barraco, entanguido de frio com um naco de pão ressequido à cabeceira e um pacote de vinho como companhia divinal.

Completou-se o tempo” do cristianismo como Religião centrada nos ritos do Altar e dos Templos que um Deus habita para receber Oferendas, Preces e ser venerado.

Saiamos fora disto também (o Papa Francisco diria: sejamos uma "igreja em saída", uma comunidade que procura ir no encalce do Crucificado).




Paulo Bateira (médico aposentado; reside no Porto)


19 de julho de 2022

REINO, SIM



REINO, SIM
‒ a propósito da consulta Sinodal





Contexto

Começo por referir dois factos coincidentes no tempo. O primeiro facto tem a ver com dois Autores que tinha começado a ler, precisamente quando surgiu a proposta da Consulta Sinodal por parte do Papa da Igreja Católica; refiro-me ao jesuíta belga Roger Lenaers (falecido em 2021) e ao Prof. José Veiga Torres. O segundo facto tem a ver com a minha dificuldade em sintonizar com o modelo escolhido para a auscultação. O ‘molde’ da proposta de trabalho do Papa Francisco parece-me ‘clássico demais’ para o longo tempo que já leva esta ‘vida católica oficial’ tão imbuída ainda ‒ p. ex., no terreno das Paróquias ‒ do “espírito de cristandade” (50 anos após o Concílio; «Depois da cristandade»; ¿Para qué la Iglesia?). Com este muito particular «Documento Preparatório - Sínodo 2023», percebe-se que o centro das atenções da metodologia de Francisco é a própria instituição. Devo confessar abertamente que isso merece uma séria reflexão. Sobretudo porque, a ser assim, a consulta caminha de costas-voltadas ao descentrado Espírito de Jesus Cristo. João 14,15-26 ‒ Jesus diz: Eu não sou importante. Importante é o espírito que está em vós (v.17). Quem crê em mim também fará as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas… Se me tendes amor, seguireis os meus passos e fareis o meu Caminho. Irei ser assassinado, mas não vos deixarei órfãos … Eu não sou o que importa, pois o que mais importa é «Quem acolhe o meu testemunho e o põe em prática» (v.21).

Também fiquei a interrogar-me quando me pus a contemplar o doloroso espírito do Mundo actual e o lugar que lhe estava reservado neste modelo de consulta («A sociedade da transparência», , «Meios sem fim», «Paradoxos do individualismo», «Política, Ética e Religião»). Foi então que me interroguei: será que, de facto, Roma jamais será capaz de superar o «eclesiocentrismo», o crónico «apascentar-se a si própria», essa incubadora de mártires, génios e profetas, mas também de carreirismo e autopromoção local e universal?

O Concílio Vaticano II deixou-nos uma enorme lista de questões para resolver. Elas começaram por ser valentes dores de cabeça para a Cúria, mas, de imediato (meia dúzia de anos apenas), foram tratadas como «documentos» a dissecar para ‘consumo consoante’, ou seja, para «citar» consoante. O Vaticano ‒ garante da boa Tradição ‒ conservou, até hoje, os textos do Concílio … no frigorífico. Não lhe deu o seguimento práxico como lhe competia.

A consequência é que, após o Concílio Vaticano II, a debandada dos católicos continuou e até se acentuou («Humanae Vitae», Papa Paulo VI, 1968). Ao mesmo tempo, começaram a perceber melhor porque se sentiam mal (“enganados”): alguns teólogos afirmaram que a Igreja Católica já não era a concretização terrena do «Reino de Deus» anunciado por Jesus (ainda nos lembramos da expressão “extra Ecclesiam nulla salus” ‒ «fora da Igreja não há salvação» ‒ expressão de S. Cipriano de Cartago, que Joseph Ratzinger retoma subtilmente na “Dominus Iesus”). Por outro lado, leigos mais críticos e letrados deram-se conta que até seria teologicamente concebível a existência de cristãos anónimos … (cf. «Los cristianos anónimos», Cap. XII de “Escritos de Teología-VI”, K. Rahner, Ed. Cristiandad, Madrid 2007, p. 485-493).

Após o pregão de Alfred Loisy ‒ «Jésus annonçait le Royaume, et c’est l’Église qui est venue» ‒ esses mesmos leigos passaram a interrogar-se: merece a Igreja ser objecto da nossa fé? Na verdade, na versão latina do Credo, não está lá «creio na Igreja», mas “credo ecclesiam” («creio [que existe a] Igreja»)… Além disso, se esta Igreja é tudo menos uma “verdadeira assembleia de amor”… e apenas um ajuntamento dominical onde todos até condescendemos num muito artificioso ‘abraço da paz’…, merece crédito de fé, esta Igreja assim? Rapidamente, tudo se complicava.

Quando surge o slogan «Jesus sim, Igreja não!» não faltaram as reacções desestabilizadoras. O certo é que mais uma vez, mas agora com Francisco, esta Consulta Sinodal parece querer ir na mesma linha de preocupação manifestada por alguns diante do Concílio Vaticano II: tornar a Igreja apenas «mais apta» (Paulo VI). Reparemos. Em todos os 8 «objetivos de grande relevância para a qualidade da vida eclesial e para o cumprimento da missão de evangelização» com que o “Documento preparatório Sínodo 2023” abre (cf. Ponto 2. - «caminhar juntos»), o objectivo visado é sempre o incremento da qualidade do ‘ser Igreja’, o qual por larga maioria é ‘ad intra’. Com esta consulta, reforça-se assim, pois, a preocupação da Igreja católica consigo mesma, enquanto a crise de identidade e de pertença vai abalando de uma maneira violenta os alicerces da própria instituição: taxa de baptismos, ‘baixa’; taxa de casamentos, ‘baixa’; taxa de divorciados recasados, ‘brutalmente alta’; sacramento da penitência, ‘zero’; participação na eucaristia, ‘em queda continuada’; vida sacerdotal e ordenações sacerdotais, ‘crise profunda’; paróquias sem sacerdote, ‘em crescendo’. Face ao século XX, onde o Concílio Vaticano II pontificou como uma aragem promissora, nós, os do século XXI, com este ‘modelo’ de «abordagem virada para dentro» («Documento Preparatório – Sínodo 2023»), avançamos mesmo ou marcamos passo? Como o caraterizar? Estamos, de facto, perante uma estratégia eivada de «ousadia» do nível da insuperável capacidade de ruptura do «Bom Papa» Roncalli, logo após a sua investidura?

50 anos a marcar passo

É lei geral das instituições humanas acabarem por confundir os seus fins com os seus próprios interesses. Ora, todos sabemos que “o culto religioso” gira em torno de sacerdotes que ‘oficiam’ e ‘oferecem sacrifícios a Deus’ à volta de um altar. A expressão do Catecismo ‒ «Fonte e Cume» (n. 1324) ‒, aplicada, ‘a secas’, à eucaristia (passe o espanholismo) fez com que a Missa arrebatasse o melhor do quinhão da vida da Fé do crente e, a ela, o amarrasse: «Tudo a ela se ordena», diz o Catecismo. Na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa. Não há Igreja, salvação, acção pela qual Deus em Cristo santifica o mundo, nem vida de fé, sem eucaristia (Catecismo ns. 1324-1327).

A Igreja católica, no seu geral, não conseguiu intuir os “sinais conciliares”, nem perceber que após o Concílio urgia recentrar a sua missão, nomeadamente, passar de uma Religião à volta do Rito e do Culto a Deus (Antigo Testamento) para o anúncio do Reino de Deus proclamado por Jesus (Novo Testamento).

Recordemos o que, entretanto, foi acontecendo após o Concílio. Nos anos 60-70 (séc. XX) surge o movimento «Regresso a Jesus» (prioridade aos Evangelhos, regresso aos textos); mais tarde, anos 80-90, surge o slogan «Deus sim, Igreja não» (“dissociação”; crer, mas não pertencer - «believe without belong»). Mais tarde, «Religião sim, Deus não» (fragmentação da cultura pós-moderna; “alternativas religiosas”; ‘religião sim, mas o Deus dos cristãos não’; “religião à la carte”). Em suma, a religião cristã, que a Instituição apresenta no espaço público, começa a ser relativizada. A sua procura retrocede consideravelmente e o catolicismo (europeu, mas não só) decai.

Que tem Jesus a ver com isto?

Hoje sabemos (de modo fundamentado) que Jesus de Nazaré não pregou nem fundou uma Igreja, Jesus não ordenou nem “enviou” uma hierarquia de eclesiásticos, não formulou nem instituiu os sacramentos (Eucaristia, etc.), não definiu serviços ministeriais, não pregou uma nova Religião, etc. Sendo verdade que tudo foi construído apenas por mãos humanas, então, ao verificar-se a necessidade de reformas tudo poderia ser igualmente reformulado por seres humanos. Acontece que essa pretensão colide de frente com a dita “origem divina” da Instituição eclesial, com a dita “origem divina” da ordenação dos sacerdotes, com a dita “origem divina” da configuração dos sacramentos, etc., pelo que só os eclesiásticos ‒ intermediários entre Deus e os homens ‒ estão mandatados para o fazer. Como nestas matérias só ‘entram’ eclesiásticos auto-divinizados, de nada adianta a consulta sinodal aos leigos sobre esses assuntos, pois a sua opinião nunca poderá ser vinculativa enquanto não se anular a usurpação da ‘origem divina das ordens’ por parte dos eclesiásticos. Eu creio que essa anulação nunca irá acontecer, na medida em que isso significaria o fim da «Religião Católica», uma verdadeira hecatombe. Quanto a isto, Jesus está ilibado. Ele não tem nada a ver com este estado de coisas. É tudo da responsabilidade dos homens. Por isso mesmo, eu guardo sérias dúvidas sobre o real valor desta consulta sinodal. Como diz o ditado árabe, «Os cães ladram e a caravana passa.»

Aquando da presença de Francisco nas JMJ no Brasil (2013), o Professor Alfredo Valladão reparou no que estava a acontecer com os movimentos evangélicos e deu-lhe para os comparar com a maneira como a estrutura da Igreja Católica brasileira agia com o mesmo tipo de povo: “Francisco foi eleito para pôr a casa em ordem e reconquistar os corações perdidos dos fiéis. Mas não há reconquista que não passe pela América Latina. Basta olhar para um mapa-múndi religioso para constatar que a região contém mais de 40% dos que se declaram católicos no Universo e que o Brasil é a maior potencia católica do planeta com mais de 160 milhões de fiéis.” E acrescentou: «Um povo sem segurança e sem garantias. Famílias destruídas, instituições carentes. Do caos desta urbanização selvagem nasceu o “indivíduo”, solto, sem referências sociais, cuja sobrevivência depende da sua capacidade de iniciativa própria. Cada um por si e Deus por todos. Na última década, a nova Classe C mergulhou na sociedade de consumo e cada um quer participar da festa. Pela primeira vez o espírito do capitalismo e do sucesso individual chegou às populações mais pobres do país. Tudo isso é bênção de Deus para os movimentos evangélicos que trabalham numa relação direta com cada pessoa, exaltando as emoções. Para os crentes, o Paraíso é aqui e agora. O sucesso econômico é uma manifestação direta e individual da graça divina. Melhorar de vida, trabalhar duro e ganhar dinheiro são valores que devem ser cultivados. A responsabilidade individual é promovida como regra central de comportamento. Nas assembleias de crentes a confissão é pública e o pecador assume seus pecados perante os outros e perante a Deus, sem intermediários.

«A Igreja católica tem as maiores dificuldades em se adaptar a este novo mundo. O aparelho católico construiu sua força e seu poder como um “corpo intermediário” entre Deus e os homens. No seu relacionamento com o divino, o católico tem de passar necessariamente pela mediação do padre, das ordens religiosas, de toda a pesada estrutura eclesiástica. Apesar das inovações do Concílio Vaticano Segundo, a liturgia católica ainda está longe de ser “participativa”. A confissão segredada (‘cochichada’) a um sacerdote, que ostenta o poder de conceder a absolvição, retira a responsabilidade e a culpa individual do pecador para reintegrá-las no corpo coletivo da Igreja. Uma Igreja que detêm a chave do Paraíso. Que não é deste mundo.» (https://www.rfi.fr/br/)

Há então que fazer a seguinte pergunta: se Jesus não reformou a sua Igreja judaica nem anunciou uma Nova Religião, então o que é que Jesus veio anunciar que fosse verdadeiramente novo? A resposta a esta pergunta entrou num texto conciliar (p. ex., Lumen Gentium 5). Há que relevar que, dez anos após a abertura do Concílio, o Papa Paulo VI, fruto da presença impactante das Igrejas da América Latina nos trabalhos conciliares («Pacto das Catacumbas»), fez questão de referir essa imprescindível centralidade do Reino na sua «Evangelii Nuntiandi» (ponto n. 8), o que ficará para a história do pós-Concílio: «Como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser "o resto" que é "dado por acréscimo". Só o reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele.» (“Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo.” – Mateus 6,33). Esta “pérola” teológica acabaria por ser vilipendiada pelo superintendente da «Doutrina verdadeira», card. Joseph Ratzinger», do que resultariam críticas e sanções muito graves a alguns teólogos não-europeus, mas também europeus. À época, era Papa o cardeal Karol Wojtyla.

Por aqui vemos que a menina-dos-olhos de Jesus reside, pois, na expressão que os evangelistas guardaram como um tesouro no seio de comunidades de vida fraterna: «Reino de Deus», «Reino dos Céus» ou «Reinado de Deus» (Marcos 1,14-15, Mateus 18,1). Quem quer que vire as costas à Igreja católica, quem aponte o dedo à Igreja católica, quem a pretenda reformar, quem a defenda obstinadamente contra-ventos-e-marés tal como está ou ache que ela deve ser apenas «mais apta», modernizando-a («Evangelii Nuntiandi» n. 2), terá, inevitavelmente, de responder à pergunta “o que é que Jesus de Nazaré queria dizer com aquilo que Ele anunciava como decisivo, o Reino de Deus?”. É aqui que está a questão que decidirá sempre o futuro da instituição católica, instituição que foi vivendo desde o séc. IV até … bem dentro do século XX … (o que é espantoso!) em «Regime de Cristandade», regime que há muito se esgotou.

A primeira questão que a “Consulta Sinodal” deveria, por conseguinte, colocar é: que significou, para Jesus de Nazaré, o «Reino de Deus?», que significou esse grande omnipresente na vida de Jesus? Se no decorrer da consulta sinodal os cristãos não derem, antes de mais, resposta a essa pergunta, o futuro da Mensagem de Jesus ficará uma vez mais adiada…

Cristologia

A condição crente é, antes de mais, a condição daqueles que colocam a sua Fé em Jesus Cristo e a partir d’Ele conformam a totalidade do seu projecto de vida. Mas, para isso, é preciso saber quem é Jesus Cristo. A resposta é, então, do foro da cristologia. Portanto, a questão central da Consulta Sinodal deverá ser do foro da Cristologia e não da Eclesiologia. A cristologia é o discurso sobre Jesus ‘sub specie regni’, ou seja, à luz do Reino. Nada do que se diga de Jesus pode ser dito se não estiver em sintonia com o Seu projecto de Reino de Deus. Uma cristologia sem Reino é mera formalidade. Jesus serviu para justificar ditaduras, massacres, perseguições e assassinatos (muitas vezes, à ordem da própria Igreja de Roma). Portanto, há que exigir sempre esta referência ao Reino, quando se impõe justificar acções e programas humanos ditos cristãos. A Pessoa de Jesus e o Mistério que o habita estão em muito íntima dependência do Seu projecto de Vida ‒ o Reino de Deus ‒, o qual Ele exerceu em estreita relação com a vontade do Pai (Getsémani; Mateus 26,36). Só podemos falar de Jesus (e justificar-nos) a partir da sua história e da sua práxis: que fez e que disse Jesus (gestos e palavras, sabendo de antemão que as Suas ‘palavras’ não eram parte de discussões ou falatório, antes desencadeavam ‘acções’). Aceder ao que Jesus disse e fez é uma realidade que não está ao nosso alcance sem o recurso, em primeira instância, à leitura dos evangelhos. Se excluirmos o livro dos Actos dos Apóstolos, a expressão “Reino de Deus” (ou Reino dos Céus) surge cento e quatorze vezes nos Sinópticos. Torna-se evidente que, entre Jesus Cristo e ‘Reino de Deus’, se constitui um círculo hermenêutico, que acaba por ser um princípio epistemológico para a Cristologia. A circularidade hermenêutica entre Jesus e o Reino é a condição fundamental que há que ter em conta para se conhecer Jesus Cristo. A pessoa e a missão de Jesus Cristo só podem ser conhecidas à luz do Reino. É o que quer dizer ‘circularidade’: se pretendo conhecer uma destas duas realidades ‒ Reino ou Jesus ‒ necessito iniludivelmente de me referir à outra. Marcos 8,33 é um bom exemplo prático desta circularidade: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens.». Em concreto: compreender quem era Deus para Jesus e em que consiste esse Reino de Deus para Jesus implica ter sempre presente como Jesus optou pelos pobres e pelos marginais (Lucas 17,11), implica ter sempre presente as Bem-aventuranças (Mateus 5), implica o poder como serviço e não como domínio (Mateus 20,28), implica fazer como Ele fez a práxis do “esvaziamento, da humilhação e da encarnação”, como denunciou profeticamente tudo aquilo e todo aquele que atenta contra a vontade de Deus-Pai, que quer que o ser humano viva e tenha vida em abundância (João, 10,10).

Compreender Jesus a partir do Reino de Deus faz com que nos coloquemos diante da concreção histórica da pessoa de Jesus e do modo como Ele se inscreve nas Promessas Históricas do Antigo Testamento ou como Jesus deita raízes bem fundas na Memória dos Hebreus, quanto à opção pela condição humilde, pelo desprendimento diante da tentação da acumulação egoísta, bem como quanto à solidariedade para com os escorraçados do sistema imperial (Lucas 4,16-30). É a partir da práxis de Jesus que acolheremos o Reino de Deus na História, evitando a vontade de poder e de domínio típica do ser humano (Idem, v. 28: «todos se encheram de furor»). Esta tentação, sempre patente, também se manifestou em Pedro, o qual diante do destino de rejeição, de conflito, de condenação e perante o vaticínio da morte do seu amigo, lhe puxa o braço para o lado a fim de o repreender. Convém relembrar que o motivo porque Jesus foi condenado à morte tem a ver com o seu projecto de instauração do Reino de Deus pelo qual deu a sua vida até ao fim (Marcos 15,43: «José de Arimateia também esperava o Reino de Deus»). Em suma, Jesus não é o mediador entre Deus e os homens. Jesus é o mediador entre o Reino de Deus-Pai-Misericordioso e a humanidade.

«(…) melhor se conhece a interioridade humana de Jesus a partir da exterioridade da sua relação com o reino. Essa exterioridade é a que melhor nos revela no concreto ‒ in actu ‒ o Jesus comprometido com a verdade, misericordioso e justo, denunciador e desmascarador, disponível e fiel. É essa exterioridade, exigida pela construção do Reino de Deus, que vai configurando a sua interioridade pessoal quanto à sua relação com o Pai.» (Jon Sobrino, «Cristología sistemática – Jesucristo, El mediador absoluto del Reino de Dios», in ‘Conceptos fundamentales de la Teología de la Liberación’, Vol I, UCA Editores y Trotta Madrid 1990, pp. 579-580).

Reino, sim

Numa época em que todo o Mundo já ultrapassou o slogan de que ‘a religião é ópio do povo’ e em que a dimensão “Mistério da Vida Humana” vai saindo à rua por diversos poros (férias e fins-de-semana frugais, poesia, literatura, contemplação, arte, modos de vida familiar alternativos, «solidariedade activa na história» [Mt 25,31-46], etc.), damo-nos conta de que “a vida humana não se esgota no mundo físico. Há uma série de «mundos» ou âmbitos que não são tão palpáveis nem são descritíveis e, no entanto, são reais, existem [e exigem-nos], e são importantíssimos para a vida humana – é o caso da interioridade: o mundo da vida psíquica, das vivências, dos sentimentos, dos desejos, das frustrações, dos traumas, [da vida em comum, o viver juntos].” (J. M. Mardones, «Matar a nuestros dioses», p. 200).

Ora, é então que faz sentido a expressão «Reino» como o universo do gratuito, do encontro e da verdade plena. A ser assim, outras tradições religiosas e culturais poderão enriquecê-la com valorações para lá das expressões cristãs “Igreja, Cristo, Jesus ou Deus”. Inclusivamente, os cristãos poderão preenchê-la com Graça e Verdade plena, Encontro fraterno, ‘agapê’. Se estivermos inspirados, poderemos realizar o «Encontro Humano» à volta da dimensão duma «Vida Abundante» que seja fruto da justiça, da fraternidade e da paz, permitindo confluir para aí seres humanos de distintas tradições culturais e religiosas que valorizem a centralidade da compaixão. Não vivenciaram outros, antes de nós, que a Graça de Deus chega sempre antes que o Evangelho seja proclamado? «É assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós» (cf. Romanos 5,5-10). E que são estas “migalhas de Reino” senão aquilo que os Padres da Igreja chamavam “semina Verbi”, consequência da encarnação do Verbo que assume todo o tipo de ser humano (Filipenses 2,1-11)?

Se quisermos abrir novas rotas à Igreja do século XXI, esta categoria elementar ‒ ‘Reino’ ‒ será capaz de franquear uma nova perspectiva de diálogo e de procura comum com muitos homens e mulheres que partilham, como horizonte, aquilo que Jesus também possuía (mesmo que não o identifiquem como «o Mestre» de Nazaré; seria preciso, agora, reler Karl Rahner in «Fundamentación sacramental del estado laical en la Iglesia», Escritos de Teología VII, Taurus Madrid 1969, p. 364, linhas 3-8). Esta perspectiva evangelizadora das ‘semina Regni’ convida-nos a ter um olhar da história e da realidade a partir daquilo que também era fundamental para Jesus: o Reino. Assim, confluindo nós para «O Reino» ‒ sem o complemento ‘de Deus’ ‒ podemos associar as nossas forças à de todos aqueles que queiram, não só curar os feridos que jazem na margem do caminho, mas também aos que queiram interrogar-se acerca das razões de por que é que o caminho continua a expulsar e a despejar vidas humanas, bem como, ao mesmo tempo, como é que nós poderemos refazer o caminho novo da liberdade, da justiça, da paz e da fraternidade, onde não haja verdugos nem vítimas, mas sim Reino, Reino, sim!

Seria muito triste que, depois de termos colocado no centro do nosso olhar precisamente aquilo que Jesus colocou no centro do seu olhar ‒ um Reino de paz e de justiça sem verdugos ou vítimas, mas apenas ‘agapê’ (C. Spicq) ‒ voltássemos, neste século XXI, a olhar apenas para o nosso umbigo… Perante isto, creio que é desnecessário referir que as questões insistentemente reclamadas nas respostas à Consulta Sinodal ‒ mais democratização dentro da Igreja católica, ordenação das mulheres, partilha do poder de decisão, ordenação de homens casados, repescagem de sacerdotes afastados, etc., etc., etc., curiosamente tudo «aquilo que nos seria dado por acréscimo» se nos lançássemos à construção do Reino de Deus e que, precisamente por isso, não nos deveria moer o juízo ‒ são secundárias apenas por uma razão: porque elas terão forçosamente de ser referidas à questão central da Vida de Jesus:

La centralidad del reino de Dios anunciado por Jesús .



Paulo Bateira

28 de Junho de 2022


11 de janeiro de 2021

Conversas no adro da Igreja - Jacques Gaillot & Eugen Drewermann

 



 

UM PROGRAMA DE ACÇÃO QUE RELEGA O

“AMOR DESINSTITUCIONALIZADO”

É UM PROGRAMA ANTI-JESUANO

 

 

A (Apresentador) - Monsenhor Gaillot, acha mesmo que a Igreja obscurece a esse ponto a imagem e a mensagem de Jesus de Nazaré?

 

JG (Jacques Gaillot) - Há algum tempo, fui convidado para um almoço nos arredores de Paris. Dirigi-me de metro para o local. Ao sair, verifiquei que chovia a cântaros. Abriguei-me num portal porque não levava nem gabardina nem guarda-chuva. Um homem veio ter comigo e perguntou-me se queria o seu impermeável. Respondi-lhe que ele também precisava dele: «Fique com ele. Sinto-me muito sensibilizado pelo seu gesto». Antes de ele ter continuado o seu caminho, soube que era judeu. Em seguida chega uma mulher com um guarda-chuva. Diz-me: «Monsenhor, abrigue-se no meu guarda-chuva, levo-o aonde tiver de ir». E lá fomos de braço dado, conversando. A certa altura diz-me: «Sabe quem é que lhe segura este guarda-chuva? É uma muçulmana». Disse para comigo: que sorte não ter levado nem gabardina nem guarda-chuva; assim, precisei dos outros. Se a Igreja não tem necessidade do próximo, se ela possui a verdade, se ela sabe o que é bom para os outros, não tem nada a receber. Quando se tem falta de qualquer coisa, aceita-se receber. O próprio Jesus começou por pedir de beber à Samaritana antes de lhe oferecer a água viva. A Igreja de hoje deve ser suficientemente simples para receber qualquer coisa da sociedade; em primeiro lugar, dos excluídos.

 

ED (Eugen Drewermann) - Jacques Gaillot, o que o senhor diz, mostra o erro que cometemos continuando a discutir a Igreja e continuando a permitir que a questão nos seja colocada. Estou convencido de que não é numa instituição que encontramos uma razão para nos mostrarmos humanos. Encontramo-la em nós próprios, na nossa capacidade de vibrar com o nosso próximo, nesta orientação do coração de que Jesus nos dá o exemplo. Se alguém me dissesse: mostro-me humano para contigo, emprestando-te a minha gabardina porque a Igreja o ordena, seria menos humano. É exactamente essa a opinião das pessoas. Encontramos pessoas maravilhosas como S. Francisco de Assis. Mas hoje o problema consiste no facto de termos durante demasiado tempo recorrido a personalidades como esta ‒ S. Francisco de Assis ‒ para desculpar outras figuras como Inocêncio III. Procedemos sempre como se meia-dúzia de santos fossem suficientes para reparar tudo o que a Igreja fez de horrível. É evidente que esses santos existem. Mas a razão pela qual existem pessoas tão maravilhosas já não é a Igreja. Fazem o que é humano fazer-se. Óptimo, se isto estiver de acordo com a Igreja. Mas, em caso de necessidade, fariam a mesma coisa sem a Igreja ou contra a Igreja, simplesmente porque são homens.

Todas as crianças alemãs conhecem a história tirada da obra de Lessing, “Nathan, o sábio”. Nesta peça de teatro, Sittah, judeu, explica a Saladino, muçulmano: «Não conheces os cristãos e não os queres conhecer. O orgulho dos cristãos não é o de serem homens, mas de serem cristãos. Gostam do que o seu salvador lhes dizia com humanidade, não por ser humano, mas porque foi ele que o disse. Foi uma sorte que tenha sido um homem de bem e que seja a sua virtude que lhes serve de exemplo». Sendo assim, já há mais de dois séculos que Lessing decidia afirmar peremptoriamente que, se os cristãos têm uma necessidade constante de uma instância exterior para lhes dizer o que devem fazer, isto é o suficiente para os impedir de alguma vez poderem chegar a ser humanos.

Se o importante, para eles, é pertencer a uma instituição e caminhar em grupo, isto faz com que nunca cheguem a ser pessoas. Têm então, à partida, um programa de acção que, no melhor dos casos, não suscita qualquer perigo, mas que aparece desde logo viciado na sua essência pelo simples facto de ignorar a liberdade. Esta definição já tem duzentos anos, e é a melhor e a pior descrição daquilo que hoje a Igreja romana representa. É preciso acabar com isso permitindo-nos ser homens. Ou a Igreja romana aprende a escutar os seus fiéis e se transforma (regressando ao Jesus dos Evangelhos), ou então permanece tal como está, ou seja, continua a endurecer transformando-se em museu. Entretanto, não nos compete a nós responder à questão (essa competência foi-nos roubada há muitos séculos pela casta sacerdotal…).

Aquilo de que o homem necessita urgentemente é d’o exemplo de Jesus de Nazaré: por toda a parte onde intervinha com bondade, as almas sentiam-se satisfeitas, os olhos humedeciam-se, os corações abriam-se; sobre este aspecto, nenhum problema. Mas aquilo que de certeza não precisamos é de uma instituição que se atravesse no nosso caminho, declarando que ela é a continuação viva de Cristo e erguendo as suas barreiras de potência mundial dissociada dos homens. Aquilo que, pelo contrário, Jesus queria era a relação pessoal com Deus: «Não façais com que vos chamem "pai", e ainda menos "mestre"», dizia Ele (Mateus 23,1-36). Ora, é precisamente este carácter imediato que o sistema da Igreja romana impede. Proclamando o reino de Deus, Jesus de Nazaré não se propunha fundar uma Igreja, mas fazer com que Deus estivesse próximo do homem.

Torna-se necessário fazer toda a justiça ao protestantismo quando, há quinhentos anos, declarava que uma Igreja, qualquer que ela fosse, devia deixar-se medir por este exemplo, em vez de exibir um Papa que não pode enganar-se, enquanto que a Bíblia podia sempre dar azo a mal-entendidos.

 

A - Senhor Drewermann, enquanto a fé permanecer como um processo colectivo e mantiver a dimensão elementar de um «nós», temos necessidade de uma comunidade, ou seja, de uma instituição ...

 

ED – Desse modo, estamos a cometer dois erros. O primeiro é o de nos interrogarmos continuamente sobre o que a Igreja faz e manda que se faça. O segundo erro é não entender que a única questão legítima é a de nos interrogarmos esta noite: o que é que fazemos nós da mensagem de Jesus? Que fazemos nós pelos três quartos da humanidade que têm fome? Que fazemos nós pelos milhões de animais que são torturados sistematicamente? Que fazemos nós pelos grupos da nossa sociedade que são marginalizados? Que fazemos nós dos poucos dias ou dos vinte anos que ainda nos restam para viver? Para Jesus é isso que se torna premente. Em relação a isso, a questão de saber o que é que faz a Igreja é perfeitamente secundária. É evidente que estou de acordo com a afirmação de que a fé deve ser vivida pelo menos a dois. Mas é muito mais importante saber que a fé cristã é antes de mais uma decisão que diz respeito a todos nós. Ninguém poderá dispensar-nos disso. Nas suas lições sobre a essência do cristianismo, Adolf von Harnack dizia a certa altura que a salvação não diz respeito nem ao povo nem ao Estado, mas unicamente ao indivíduo. E a primeira questão que se nos põe é a de sabermos se vivemos de tal maneira que, com isso, ajudamos verdadeiramente os outros no caminho da liberdade. Perguntando quem vem buscar-me do exterior, pela mão, à sombra de uma instituição que desejaria ter razão, invertem o problema.

 

A - Não se trata de ‘pegar na mão’, mas de saber se ‘temos necessidade’ de uma comunidade. Monsenhor Gaillot, não é isso que nós fazemos, cada vez que nos encontramos em conjunto para partilhar a refeição? «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles». Trata-se de uma missão essencial. Ou, para o dizer por outras palavras, quando Jesus diz: «Eu sou a verdade e a vida» pretende fornecer-nos uma perspectiva com a qual tudo se torna possível.

 

Jacques Gaillot - Sempre tive necessidade de uma comunidade para viver a minha fé. A minha primeira comunidade foi a família. A comunidade é para mim um espaço de liberdade que areja a minha fé. Actualmente vivo juntamente com excluídos. Recentemente, num domingo, celebrava a missa numa sala onde as famílias se reúnem todas as semanas. Estavam presentes mendigos, jovens sem trabalho, gente sem importância, sem esquecer, no entanto, um industrial que se encontrava de passagem, um grande editor e amigos jesuítas. O evangelho das bem-aventuranças inundava-lhes o coração. A palavra circulava. Um mendigo tomou a palavra: «Eu sou um pobre. Sinto-me feliz como sou. Sei que Deus está presente, que não me abandona. Todos os dias tenho aquilo que é preciso para viver. Mas há as crianças...». E, assim, o repasto eucarístico à maneira de Jesus constitui um momento muito intenso. Isto ajuda-nos a realizar aquilo que Deus espera de nós. Durante a semana todos retomam o tema e voltam a falar sobre o mesmo assunto. A comunidade é para mim qualquer coisa de necessário.

 

Eugen Drewermann - Julgo que não existe a menor divergência entre nós, a respeito deste ponto. (…)

 

Dialoque sur le parvis entre un êveque et un théologien” (Desclée de Brouwer, 1996) ou «Conversas no adro da Igreja», Jacques Gaillot & Eugen Drewermann, Editorial Notícias 1997.

 

DESCARREGAR AQUI O LIVRO NA ÍNTEGRA

 

 



5 de maio de 2018

A COMUNIDADE CRISTÃ E OS SEUS DIRIGENTES [PAUL HOFFMANN]




Cap. V - DA IGREJA DOS SACERDOTES À IGREJA DO POVO

"Nós somos o povo"
(divisa usada na manifestação de segunda-feira em Leipzig, em 1989)


Nas considerações que vêm a seguir, a minha preocupação principal será verificar como, dentro da perspectiva do Novo Testamento, se poderiam conceber futuramente as comunidades cristãs e, correspondentemente a isso, como se poderiam conceber os dirigentes das comunidades cristãs. Como ensina a experiência histórica, é aqui, na base da Igreja, e não nos escalões superiores da burocracia eclesiástica (ainda que ali se encontrem os centros da administração do poder eclesiástico), que se verificará se a comunidade cristã ainda tem condições de viver na sociedade moderna. Portanto, não se trata de desacreditar o sacerdote como dirigente da comunidade, já que, ele próprio, é o elo mais fraco e, do ponto de vista do direito, na cadeia hierárquica é o mais desprotegido. Trata-se, pelo contrário, de buscar uma forma de serviço sacerdotal que corresponda melhor ao paradigma neotestamentário da comunidade de irmãs e irmãos de Jesus e lhe permita exercer um serviço mais eficiente na comunidade. Isso implica, não só para os sacerdotes envolvidos, mas também para as comunidades, o difícil processo da compreensão mútua e da aprendizagem comum.
O exegeta, pela sua recordação dos dados da tradição neotestamentária, só pode dar contribuição modesta nesta questão. Com maior ou menor habilidade poderá mostrar as perspectivas do Novo Testamento. Todavia, a forma concreta da comunidade futura não será determinada apenas pela sua herança cristã ou pseudo-cristã, mas sim também pelas condições socioculturais da sociedade moderna. A comunidade cristã não constitui uma ilha de bem-aventurança no meio de um ambiente que se prefere apostrofar a si mesmo como ateu. Ela faz parte deste mundo e, quer queira quer não, está de múltiplas maneiras entrelaçada com as oportunidades e as calamidades do mundo. "Não há vida verdadeira no falso". Este aforismo de T. W. Adorno, na sua obra Minima Moralia, vale também para a Igreja cristã.
Consequentemente, o presente esboço, à medida que tenta desenvolver os dados do Novo Testamento com vistas a uma possível configuração futura da Igreja, representa apenas um dos lados de um processo bipolar. Do outro lado, exige-se a consciencialização da situação actual e das suas condições sociais, bem como da conciliação crítica criativa dos dois aspectos. Todavia, a experimentação da Igreja do amanhã só terá sucesso se as comunidades e seus dirigentes se empenharem neste processo de mediação: comprometidos com a inalienável herança de Jesus e solidários consigo mesmos e com o seu mundo actual.

Igreja como povo de Deus a caminho
Ainda que para a passagem do movimento carismático de Jesus à Igreja oficial tenhamos que pressupor leis sociológicas − pois um movimento carismático necessita de institucionalização se quiser sobreviver ao tempo, e, em última instância, necessita da "Igreja-grande-formato" para não se tornar seita e sucumbir ao perigo de se transformar em gueto −, com base na experiência histórica, não se pode esquecer que as formas institucionais originadas dependem das respectivas premissas socioculturais e da constelação histórica. Do ponto de vista puramente sociológico, as formas monárquica e democrática de poder são resultados igualmente possíveis do processo de institucionalização. A história das Igrejas cristãs permite constatar a existência de um vasto leque de alternativas.
Este fato também é passível de interpretação teológica. A pluralidade de formas institucionais está essencialmente relacionada com a historicidade da revelação. A experiência de Deus transmitida por Jesus não visava apenas uma nova relação com Deus, mas também uma nova maneira de convivência humana e, por isso, implicava necessariamente a formação de comunidades. A forma concreta que estas comunidades assumiram foi, sob múltiplos aspectos, consequência do livre jogo das forças históricas, mas ao mesmo tempo também dependeu do impulso original de Jesus que deu, mais ou menos às comunidades cristãs, a sua configuração característica.
Neste sentido as formas originadas têm a sua razão histórica e a sua legitimidade teológica. O cristão crente sempre descobrirá, na caminhada da Igreja através da história, os traços do Espírito que lhe foi prometido. Todavia, esta visão de fé não deverá levar a fechar os olhos às deficiências dependentes justamente do processo histórico. A forma histórica originada pode ser deficiente, quer em relação à herança de Jesus (que deve ser desenvolvida e aprofundada no processo da transmissão), quer em relação ao desafio da situação histórica (por causa de uma acomodação barata a essa situação), quer por cega recusa, que degrada a tradição ao nível de uma letra morta que sufoca a força vital e inovadora do Espírito.
Para a nossa visão cristã isso significa que também hoje devemos ver-nos como "povo de Deus a caminho", numa peregrinação através da história. O êxodo é tema permanente da Igreja. Isso exige de nós a coragem de constante mudança. As palavras de Jesus — "Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, aquele que a perder, salvá-la-á." (Mc 8,35) — descrevem a lei da nossa vida pessoal mas também a lei da vida da Igreja.

          Comunidade de irmãs e de irmãos de Jesus
No centro da acção de Jesus está a experiência da bondade incondicional com que Deus se dedica a todo homem e assim torna presente o seu Reino no meio deste mundo mau. Prometendo a justiça de Deus aos pobres e injustiçados, curando os doentes e mantendo a comunhão com os pecadores e difamados, torna experienciável, no concreto, a acção da graça de Deus aos homens e abre-lhes novas possibilidades de vida. Então, só poderemos entender os ensinamentos de Jesus como uma tentativa de motivar os homens para agirem de acordo com essa bondade e assim — nas condições ainda reinantes deste eon — experimentarem a oportunidade de uma nova maneira de convivência. Não obstante a descontinuidade histórica que existe entre a pregação do Reino de Jesus e a Igreja posterior que lhe seguiu, temos aqui o dado primordial da Igreja, como aquela esfera em que poderá ser concretamente experimentada a graça de Deus entre os homens e através dos homens.
Jesus mostra surpreendente sensibilidade para aqueles pontos nevrálgicos das relações inter-humanas nos quais o homem corre o perigo de usar o seu próximo como objecto dos seus interesses ou de tornar-se ele próprio objecto de tal abuso. Assim, não surpreende que a questão do exercício do poder e da dominação sobre os outros seja tema da sua mensagem. Com base na tradição judaico-apocalíptica, Jesus sabe que as condições reinantes à sua época não eram as relações verdadeiras, as mais coerentes: então, para Jesus, Deus transformará os últimos em primeiros e os primeiros em últimos (Mc 10,31 entre outras passagens; cf. também Lc 1,51-53). Mas também aqui Jesus não se deixa ficar pela visão apocalíptica do futuro. Sob o signo do Reino de Deus que desponta, Jesus adverte os primeiros e os grandes, ou aqueles que pretendam sê-lo, a tornarem-se os últimos, escravos (Mc 9,35; 10,42-45; Mt 18,4; 20,25-28; 23,11; Lc 9,48; 22,24-27). Isso significa no mínimo a superação das estruturas de dominação que determinam o mundo, a favor de uma configuração isenta de dominação das relações inter-humanas, pela qual um se torna irmão e irmã do outro. Aqui está o fundamento da ideia mestra da comunidade cristã.
À luz disso, a comunidade cristã/igreja não pode ser concebida senão como comunhão de irmãs e irmãos de Jesus (Mc 3, 34ss). Mateus dá a esta realidade uma expressão inequívoca e válida, quando em 23, 8 enfatiza contra toda a forma de pretensão unilateral de dominação: ''Todos vós sois irmãos". Esta ideia de fraternidade e de renúncia à dominação marca toda a parenese das comunidades cristãs primitivas na admoestação para o amor e para a submissão mútua.[1] Assim, não admira que a Igreja antiga na sua autoconcepção e na sua prática fosse dominada por esta ideia do "amor mútuo" até ao fim da Antiguidade tardia, devendo precisamente a este fato o seu magnetismo para com os de fora. A muita citada frase "Vede como eles se amam" pode parecer banalizante e sentimental. Na verdade ela indica a característica constitutiva da comunidade cristã como de uma comunidade que deve a sua origem ao amor de Deus e que constantemente pode experimentar e deve praticar este amor na força do Espírito - "o vínculo do amor".
O processo de institucionalização, historicamente necessário, sobretudo a formação das estruturas burocrático-autoritárias que hoje caracterizam a Igreja romana, está em contradição com esta experiência eclesial primitiva. Instituição burocrática e fraternidade pela sua própria natureza excluem-se mutuamente, conforme constatou M. Weber com o olhar insubornável do sociólogo. Isso pode explicar o facto de o discurso sobre a fraternidade cristã, medida pela realidade vivida, parecer a muitos apenas uma farsa e olham, "a Igreja", como um frio aparelho de poder, que só pela ideologia é que ainda se distingue de outros sistemas autoritários. A isso se opõe hoje a consciência que, em muitos está novamente despertando, de que pela sua essência a Igreja deveria ser diferente. Mc 10, 43; Mt 20, 26; Lc 22, 26: a expressão "Não seja assim entre vós" assinala esse permanente desafio a que a Igreja não pode fugir. Assim, tudo depende da seguinte questão: conseguirá a Igreja, na sua vida, e inclusivamente nas suas estruturas, dar forma adequada e confiável a esta experiência eclesial original? Para muitos isso poderá parecer a quadratura do círculo. Para a fé significa o despontar do novo mundo de Deus, e neste sentido é um postulado inabdicável da sua esperança.
A realização da ideia da "comunidade fraterna cristã", conforme novamente vem mostrando a história da Igreja, não é isenta de perigos. A comunidade fraterna como "comunhão pessoal-emocional" pode tornar-se um círculo elitista ou uma seita, que, voltando-se sobre si mesma, perde o contacto com a realidade e, como minoria, se retrai num gueto eclesial. Este é um perigo que hoje se pode observar em movimentos carismáticos ou ainda em certas comunidades de vanguarda, mas também é relevante (em matéria de Igreja universal) quando se tenta compensar a silenciosa fuga das massas da Igreja com o discurso sobre o "pequeno rebanho" e, de tal redução, se esperar secretamente a conservação do status quo. Por isso o discurso sobre a comunidade fraterna cristã necessita do corretivo da "grande Igreja", da ecclesia de Deus que inclui todos os homens, do povo de Deus composto por todos os povos. Ou seja, uma visão de Igreja tal como sob muitos aspectos é atestada pelo Novo Testamento: do pragmatismo de Paulo que procura unir as comunidades heleno-cristãs locais entre si mas também uni-las ao cristianismo palestinense, até à visão do Apocalipse de João da tal "multidão incontável de todas as nações, tribos, povos e línguas" (7,9). A existência eclesial, comunitária, não possui finalidade em si mesma, mas está ao serviço daquela acção libertadora universal de Deus, que Jesus de Nazaré anunciou na sua mensagem do reino de Deus e que, pela sua própria actividade, começou a realizar. Portanto, nem a Igreja universal nem a comunidade local podem ser concebidas como sistemas "fechados", mas como sistemas "abertos", que constantemente ultrapassam as suas próprias fronteiras em direcção ao mundo, no qual se quer realizar o reino de Deus como reino de bondade e de paz, de justiça e de liberdade, ainda que neste mundo isso só seja possível como primícia e de modo fragmentado.
Por isso a Igreja não pode evitar os desafios sociais e políticos, da mesma forma como permanece sempre comprometida com a sua origem em Jesus, que deu a sua vida por muitos.

           A comunidade não precisa de muitos mediadores
A exegese mostra: o Novo Testamento não conhece o "sacerdote do culto" no sentido de oferente e mediador entre Deus e os homens, como autoridade da comunidade. O único mediador é o homem Jesus Cristo. Na sua morte — sacerdote e vítima ao mesmo tempo — Jesus, sobretudo conforme ensina a carta aos Hebreus, realizou de uma vez para sempre expiação e conciliação, e abriu para todos o livre acesso a Deus. Esta constatação contém em si uma reserva crítica em relação a qualquer tentativa de entender o presbítero cristão como "sacerdote" no sentido da história das religiões em geral ou no sentido da sociologia eclesial. Esta reserva põe em causa, em primeiro lugar, uma certa ideia de sacerdote muito difundida na piedade popular católica, e que continua a ser cultivada em sermões de «primeira missa» e livros sobre sacerdotes, e que muito influencia as consciências. Com mais razão ainda proíbe ver potenciada esta mediação no bispo ou no Papa. A reserva dirige-se também contra modernas tentativas de, numa espécie de concepção secularizada do sacerdote, atribuir ao presbítero o papel de terapeuta, médico, exorcista ou guru.
Mas a constatação exegética de que falamos também questiona a autoconcepção das comunidades cristãs. Por que carga de água, especialmente os cristãos católicos, projectam tais expectativas de função nos membros do clero? Não indicará, isso, uma grande deficiência da autoconcepção do cristão individual? Não se trata de encontrar culpados. Diante da actual distribuição de papéis nas comunidades, a responsabilidade maior pelas deficiências da fé cabe aos "pastores", não ao "rebanho", ainda que aqueles muitas vezes sejam apenas vítimas da sua socialização. Hoje temos de responder pelas consequências de uma funesta história da "pastoral", que foi determinada pelo medo e pela descrença, e não pela confiança na assistência do Espírito, que é prometido à Igreja como um todo e a todos na Igreja.
Na visão do Novo Testamento cada membro da comunidade deveria ser determinado pela experiência cristã original do livre acesso a Deus: não recebemos o espírito da escravidão, mas o espírito da filiação pelo qual chamamos a Deus pela palavra «Pai»: somos filhas e filhos de Deus, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rm 8,15-17). Quando o Apocalipse atribui a todos, na comunidade, a dignidade de sumos-sacerdotes e senhores, põe todos os baptizados naquele contacto directo com Deus e naquela soberania senhorial indicada por estas imagens antigas: o homem real e o sumo-sacerdote como a essência do homem redimido, que se tornou independente de intermediários humanos e dominadores terrenos. Ou seja, a comunidade como lugar do contacto directo com Deus e como lugar da liberdade face à dominação.
É somente sobre esta base que se pode buscar uma relação comunitária cristã. A imagem do "pastor e do rebanho", que originalmente se referia a Cristo e aos seus, considerada sob o aspecto da relação entre o sacerdote e a comunidade, aparece não só como inadequada, como também contrária à fé cristã, porque degrada os membros da comunidade a objectos da pastoral. Estes devem ser levados a sério mas como "sujeitos de fé", por mais deficiente que seja a sua autoconcepção cristã. Se muitas vezes parecem ser apenas "subordinados", só o são porque foram postos sob tutela.[2]
Por isso na actual situação de transição, a tarefa principal de todos os responsáveis na comunidade, especialmente do dirigente da comunidade, é o serviço na fé: deve estimular suas irmãs e seus irmãos cristãos para a maturidade (quando esta ainda é pobre ou até esteja em falta) e aceitá-la quando esses irmãos já estruturaram sua vida pessoal e comunitária a partir desta consciência. Deverá entender-se a si mesmo como parceiro numa história de fé comum, na qual antes de mais nada também ele (o que foi ordenado presbítero ou bispo) está inserido com a sua fé e a sua descrença, frequentemente ouvindo e aprendendo, recebendo estímulo e nem sempre ensinando ou encorajando.
Daqui também decorrem algumas consequências para a configuração do culto divino cristão, especialmente para a celebração da eucaristia. Em correspondência com uma falsa ideia de sacerdote, para muitos a Eucaristia é vista demasiado unilateralmente a partir da ideia de «sacrifício». Sem dúvida faz parte desta celebração a memória da morte de Jesus a qual, correctamente entendida, significa a "actualização" da morte de Jesus na cruz, pela qual não cessamos de ser envolvidos na origem da nossa redenção e liberdade. Ora, no centro do culto cristão não está o altar, no qual um "sacerdote" dotado de poder sacral realiza um sublimado ritual sacrificial, mas a mesa ao redor da qual o Kyrios reúne a sua comunidade. Ao participarem todos do mesmo pão e do mesmo cálice tornam-se seu corpo, constituem-se em comunidade de irmãs e irmãos, em nova aliança, na qual lhes é tirado o coração de pedra e lhes é implantado um coração de carne (Ez 36,26; Jr 31,31). Assim, antecipam a visão da refeição do fim dos tempos que Deus quer preparar para todos os povos (Is 25,6), como refeição dos libertados, que aqui se recordam da sua origem na acção libertadora de Jesus e incessantemente se reanimam e se comprometem a empenhar-se, no mundo, contra a situação de injustiça e violência dominante, em favor daquela visão de uma nova humanidade libertada, redimida. Assim, o dia-a-dia do mundo é o lugar do verdadeiro culto divino, onde cada qual deve realizar o serviço da reconciliação entre o homem e Deus e de os homens entre si.
 Com isto não se nega a função de um dirigente responsável pela celebração da eucaristia. Ela apenas necessita de uma integração mais consciente no todo da celebração da ceia do Senhor, cuja base, de acordo com a tradição eclesial, é a Igreja universal, e não o sacerdote individual. Se ele, aqui no contexto de uma acção simbólica religiosa, age "in persona Christi", representa aquele anfitrião que se tornou servidor de todos. Assim a celebração deve ser expressão daquela radical pró-existência de Jesus, que até viveu para os outros a sua própria morte na cruz. O símbolo sacramental está comprometido com este typos primordial. Isso significa que na configuração concreta da acção simbólica deve ser evitado todo gesto que converta a sua intenção original no seu oposto e — consciente ou inconscientemente — reproduza opressão em vez de libertação. Se considerarmos os nossos espaços de culto, a contradição é mais que evidente. Com poucas excepções, arquitectonicamente os espaços de culto não dão uma forma adequada à ideia comunitária da refeição cristã. A sua disposição é muito mais frequentemente expressão das estruturas repressivas que dominam as comunidades cristãs.

       Autoridade é serviço
   Se de acordo com o Novo Testamento o livre encontro entre Deus e a sua comunidade é constitutivo da auto-compreensão cristã, com isso também está mencionada a condição sob a qual se pode falar de direcção e de "autoridade" de direcção na Igreja. (…)


Paul Hoffmann
«Da Igreja dos sacerdotes à Igreja do povo», cap. V (pp. 99-137) de "A herança de Jesus e o poder na Igreja", Paulus, São Paulo/Brasil 1998 (excerto).








[1] Cf. Juan Antonio Estrada, «Igreja, fraternidade laical», blog  A SALA DE CIMA, 13-11-2014: