teologia para leigos

25 de fevereiro de 2021

Que padres ... para a Igreja? - Bernhard Häring


 Fragmento de um ousado testemunho sobre “a vocação sacerdotal” por parte do teólogo Redentorista Bernhard Häring (1912-1998) escrito muitos anos antes do terramoto provocado pelo conhecimento público da degradação da vida sexual por parte de eclesiásticos católicos.

Poderíamos, então, começar por «Era uma vez um jovem alemão nascido há mais de 100 anos que se sentia fascinado pela vida sacerdotal…», que não fugiríamos muito ao que se irá seguir. Só que, depois… Bem, o melhor será mesmo ler tudo até ao fim, até ao fim … do minúsculo livro de testemunhos. O livrinho tem o valor (raro) de trespassar e revelar as duas faces dum único e muito especial século XX: a do «padre-polícia» e a do «padre-profeta». Uma pérola…

 

QUE PADRES PARA QUE IGREJA?

 

Há pouco tempo (1993?), li um artigo escrito por um teólogo católico sério, com este título: "JESUS NÃO QUIS PADRES". Fiquei indignado. Pensava: então Jesus não teria querido o que durante uma longa vida sempre tentei ser? Para mim, padre feliz na minha vocação, isso era inaceitável. Depois da leitura atenta do Artigo, acabei por compreender que o autor, com uma formulação desconcertante, queria fazer-nos reflectir.

Então, fiz a pergunta a diferentes pessoas, crentes e católicas fervorosas: "Na sua opinião Jesus quis que houvesse padres?" Os mais inteligentes, após um momento de surpresa, respondem: "Tudo depende de que tipo de padres está a falar, que padres querem ser, ou que padres desejam para a Igreja". Depois desta resposta, tornei a perguntar: "Qual seria então, na vossa opinião, o tipo de padre aceitável ou agradável para Jesus?" Alguém respondeu:

‒ “PENSO NO PADRE GAILLOT, O BISPO SEM FRONTEIRAS!”

Eis o ponto de partida para um diálogo que procuro com o Ieitor. Estou convicto de que Jesus quis discípulos consagrados ao serviço do evangelho e da paz messiânica, homens de oração e de uma grande caridade para com os pobres e para com as pessoas não amadas.

Nos últimos anos temos vindo a fazer todo um percurso paciente, interrogando o Novo Testamento e a história do cristianismo para chegarmos um pouco mais perto de uma resposta exacta à questão: "Que padres Jesus teria achado aceitáveis, au mesmo agradáveis, como discípulos segundo o desejo do Seu coração?" Colocamos a questão tendo em vista, evidentemente, a história da salvação para nós, para a próxima geração, para a salvação do mundo. As reflexões de muitos e um esforço comum poderiam talvez conduzir a uma grande diversidade de opiniões e, ao mesmo tempo, a um acordo de fundo.

É assim que nos pomos a caminho numa pesquisa nunca terminada: "QUE PADRES PARA A IGREJA? QUE IGREJA PARA O MUNDO?" As duas questões não podem facilmente ser analisadas em separado.

 

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COMO ENCAREI A MINHA VOCAÇÃO PESSOAL

 

Ser um santo missionário

Que experiencia fiz da minha vocação na minha juventude e como a vejo agora após 56 anos de ministério? No princípio da minha vocação não existia, seguramente, o desejo de ser, um dia, um “pároco”. Padre era para mim sinónimo de pároco, imagem igual à que conhecia do pároco da minha aldeia. Ele era alegre, simples. Mas a minha experiência durante a formação religiosa, o catecismo, etc. não era entusiasmante. Não conseguia compreender que um pároco se mostrasse tão facilmente impaciente e furioso. E, sobretudo, eu estava zangado com o seu cão. Um belo dia, esse seu cão violento esfarrapou-me as calças e rasgou-me a pasta da escola, com os dentes. A minha mãe, depois de um primeiro esforço para me acalmar, foi comigo à casa do pároco. Disse à criada: “O pároco tem que ver o Bernhard para constatar o que lhe fez o seu cão”. A reacção da criada espantou-me: “O Azor conhece muito bem os seus inimigos”. O pároco, bom homem no fundo, mostrou-se mais sensível e compreensivo. Consolou-me e deu dinheiro à minha mãe para me comprar umas calças novas. Mas, … ser eu um dia um pároco, com um cão mau? Nunca!

Mais tarde, durante um retiro para padres, eu faria uma conferência inteira com o título “O cão do meu pároco”, pondo o cão como reflexo do seu amo. Aos dez anos fiz a minha primeira comunhão. A preparação feita pelo pároco não foi grande coisa para mim. Mas a minha mãe e sobretudo a minha irmã Konstantine, dez anos mais velha do que eu, prepararam-me de uma maneira verdadeiramente tocante. Chegado o dia, confiei nesta comunhão dizendo: “Gostaria muito de vir a ser um santo”. Nunca me passaria pela cabeça identificar um santo com um pároco. A minha ideia de santo recebi-a nos serões de Inverno quando a minha mãe lia e explicava a vida dos grandes santos. Ela dava preferência aos santos missionários. E, por isso, aos onze, doze anos, um dia, quando estava em casa sozinho com a minha mãe, tive a coragem de lhe dizer: "Que é que tu pensas da minha ideia de ser missionário? Sei muito bem que não sou propriamente um modelo de rapaz, mas ... " A minha mãe ficou maravilhada e disse-me: "Mas, Bernhard, nunca santo algum caiu do céu. Com a ajuda de Deus tu conseguirás o que foi possível a tantos outros". Assim começou a minha vocação sacerdotal. Era simplesmente uma visão bem imperfeita de um santo missionário.

O ideal de missionário concretizou-se para mim num encontro com um missionário Redentorista, o padre Leonard Eckl, que mais tarde se tornou famoso, como missionário corajoso e dedicado, no Brasil. Pregou uma “missão” na minha terra. Contou os trabalhos missionários dos seus confrades no Brasil, em viagem durante meses para pregarem O Evangelho e administrarem os sacramentos a milhares de pessoas que raramente viam um padre. Mais tarde, li bibliografias sobre os grandes missionários jesuítas na China. A sua ideia era serem tudo para todos, serem chineses com os chineses. Com este objectivo, logo que terminei os meus estudos humanistas, procurei informações nos Jesuítas. Mas quando soube que eles tinham dois cursos de formação diferentes, um para futuros professores e outro para os menos dotados, destinados a serem futuros missionários, essa Ordem deixou de me interessar. A vocação de professor não estava nos meus planos, menos ainda no meu coração. Então, dirigi-me ao Padre Provincial dos Redentoristas com a ideia firme de saber se poderia ter a certeza de que não iriam fazer de mim um professor. Resposta: "Com 95% de probabilidades: - ‘Não’. Pode ter quase a certeza de que irão mandá-Io para o Brasil, se for esse o seu desejo". Só muito mais tarde compreendi que a profissão de teólogo, e sobretudo de ‘teólogo moralista’, poderia muito bem ser uma vocação missionária.

 

A PRIMEIRA MISSA

Celebrei a "primeira missa" na minha paróquia natal, juntamente com o meu amigo e primo Johannes Flad que, sobretudo devido à nossa amizade, se tinha associado a mim nos estudos e na escolha da vocação de Redentorista, encorajado pela mãe, a minha madrinha: “Se o teu amigo Bernhard, com toda a sua vivacidade, se decidiu, porque não tu?”. Celebramos a primeira missa no mesmo dia, no mesmo altar. Mas, segundo a lei da Igreja desse tempo, não podíamos concelebrar. Cantamos duas missas, uma a seguir à outra. Na igreja do nosso grande convento, numa grande igreja, durante duas horas, os seus nove altares foram ocupados por confrades: cada um celebrava "a sua missa", sozinho, coadjuvado por um irmão leigo. Que absurdo! Sinceramente, nem sequer tínhamos coragem de pensar nisso, menos ainda de o discutir. Era uma característica do “bom” padre. Naturalmente, era tudo em latim, sinal de uma cultura superior e sinal da separação relativamente ao povo, ao comum.

Foi uma grande festa para a aldeia. Vieram muitas pessoas das aldeias vizinhas, sinal da alta estima da vocação sacerdotal. Durante todo o dia choveu torrencialmente. As pessoas consolavam-se ou antes consolavam-nos dizendo: “É um símbolo da chuva de graças que estão a cair do céu”. Eu pensava: Será que isto não é uma espécie de profecia, a mostrar-me que muitas vezes o padre tem de andar “à chuva”?

 

NO “SERVIÇO” DE SAÚDE: “UM DE NÓS”

Comecei o meu ministério sacerdotal durante a guerra de 1939-1945. De facto, estava entre os primeiros padres convocados pelo exército de Hitler. Segundo a “Concordata”, os padres tinham o direito de recusar o serviço armado. Por isso, a companhia em que fui inserido era composta quase exclusivamente de padres, médicos, seminaristas e estudantes de medicina. O cabo que dirigia os exercícios ostentava, com orgulho indizível, a sua superioridade sobre um grupo assim. Um dia, quis evidenciá-lo de uma forma particularmente espectacular mandando correr um de nós, padre, até ao outro lado do quartel e gritar em voz alta: “Eu sou um idiota”. O padre-soldado correu muito, mas gritou com voz bem forte: “Cabo, você disse com razão: Eu sou um idiota”. Todos se desfizeram a rir. O cabo estúpido contribuiu, assim, para criar entre nós uma grande solidariedade. Todos reconheciam intimamente: Este padre é um de nós! Todos notavam que os padres são bons companheiros. E os mais endurecidos tinham a possibilidade de descobrir que os padres não são nem ingénuos nem covardes.

Durante os tempos maus da guerra na Rússia fui, a meu pedido, integrado numa companhia de infantaria, como cabo nos serviços de saúde. Muitas vezes, tive de transportar feridos das primeiras linhas para a retaguarda, para os salvar. A resposta era uma amizade calorosa quase com todos. Mas havia também nazis fanáticos que nunca deixavam de manifestar o seu desprezo pelos "ratinhos". Um belo dia, um deles estava a insultar-me diante dos companheiros. A minha resposta foi directa e enérgica: “Se um dia você gritar por socorro, eu lá estarei. Lembre-se disso!” Quando algumas semanas depois eu trazia este capitão da linha de fogo e cuidava das suas feridas graves, ele, com as lágrimas nos olhos, pedia-me perdão. Não se tinha esquecido dos seus insultos. Tais acontecimentos fortificavam o espírito de camaradagem, a experiência de que «padre do serviço de saúde é “um de nós”». Esta imagem do padre "um de nós" ultrapassava as fronteiras confessionais e nacionais. Quando, durante o Inverno de 1940/41, me encontrei com a minha companhia na Normandia, rapidamente tive o privilégio da amizade de muitas famílias francesas. Contra as leis do regime, eu celebrava todos os Domingos uma missa cantada com o coro do regimento na Catedral de Bayeux. De Domingo para Domingo aumentava o número de franceses que vinha participar. Não sei se estavam conscientes do risco que eu corria. Como os outros padres do serviço de saúde do exército, eu sabia muito bem que tínhamos uma proibição formal de exercer o nosso ministério no exército, sob pena de incorrermos em nove anos de prisão. Um Domingo, quando vinha de bicicleta da cidade de Bayeux, encontrei, por acaso, o coronel comandante da cidade, que me fez sinal de que queria falar comigo. Receei o pior. Mas, para meu espanto, desta vez cumprimentou-me cordialmente, dizendo-me. Se aparece de bicicleta, isso causa má impressão ao povo. Vou dar ordens para que, daqui em diante o venham buscar de carro. Aliás, se estiver de acordo, pedirei aos músicos do regimento para darem um pouco mais de solenidade à celebração. Ele, coronel, bem ao corrente da legislação, revelava-se, à sua maneira, “um de nós”.

Assim iam caindo as fronteiras confessionais: durante esse Inverno, um grupo de soldados protestantes abordou-me, pedindo-me para os ajudar a animar “serões bíblicos”. E isso durou todo o tempo em que pertenci ao regimento. À noite, numa floresta, antes da declaração de guerra à Rússia, celebrei uma Missa, com confissão e absolvição geral para o regimento, sem uma palavra de distinção entre católicos e protestantes. Muitos manifestaram-me o seu reconhecimento. E uma vez que isto começara assim num momento tão crucial, nunca mais pensei afastar-me da orientação ecuménica.

Uma vez, na Rússia, adverti os meus companheiros protestantes de que, no dia seguinte, viria o seu capelão protestante para uma celebração. Reacção espontânea: “Não, você é um de nós. Aliás, nós não sabemos exactamente o que pensa o capelão sobre o nazismo e esta guerra”. De facto, tem que se dizer francamente, o capelão protestante desta divisão era um homem de fé e de espírito ecuménico. Quando um dia, eu já não tinha vinho para celebrar a missa, foi ele que veio oferecer-me espontaneamente uma garrafa de graça. E que amor me mostraram os Ortodoxos ‒ povo e padres ‒ em toda a parte da Ucrânia e da Rússia! Sempre me tratavam como um deles. E no fim da guerra diabólica, uma paróquia da Polónia, onde antes eu tinha tratado algumas pessoas doentes, decidiu por unanimidade arrancar-me ao campo de prisioneiros russos e pôr-me ao seu serviço como padre, mas não “como Senhor Prior.

 

SERÁ POSSÍVEL?! DEUS ENVIA-ME UM PADRE!

Uma tarde, num dos dias mais terríveis, chegavam de todos os lados gritos: “Serviço de saúde, socorro! Enfermeiro, socorro”. Eu estava absolutamente esgotado, quando eu comecei a preparar uma trincheira para me proteger dos atiradores russos o melhor que podia. De longe chegavam gritos: ”Socorro, serviço de saúde!”. Como vinham de um outro batalhão, poderia ter ficado tranquilo, dizendo: não é nada comigo. Até porque já tinha trabalhado muito para além das minhas forças. Mas, subitamente, compreendi que alguém gritava chamando um padre. Corri, então, dez minutos sob os olhares dos atiradores russos. Ainda agora me espanto que eles não me tenham matado. Penso que foi por respeito às Convenções de Genebra. Assim, totalmente esgotado, encontrei um companheiro muito gravemente ferido, mas ainda em plena consciência. Depois de ter constatado a natureza das feridas e feito o possível, disse-lhe que era padre católico e que além disso trazia comigo a hóstia consagrada para a comunhão. Nunca mais esquecerei o seu olhar e as suas palavras: “Então o bom Deus enviou-me a esta hora um padre, a mim pobre pecador!” Antes de o deixar, fiquei com o seu nome e direcção para informar a família. A resposta veio-me dum padre, primo do defunto: “Que maravilha! Ele tinha-se afastado da Igreja depois de uma grave injustiça cometida pelo seu pároco e nunca mais conseguira encontrar o caminho de volta com esse pároco. A mãe tinha rezado dia e noite para que Deus lhe desse a graça da Paz”.

Sim, o padre faz bem em considerar-se enviado aos necessitados. O padre é por vocação “o homem para os outros”. Ser enviado aos outros foi também a minha experiência feliz e algumas vezes exigente, quando, tanto os católicos polacos, como os Ortodoxos, procuravam o meu auxílio para as suas doenças e mais ainda o meu ministério sacerdotal. A notícia circulava de boca em boca: “O doutor alemão é um de nós”. Não havia nada a fazer. Chamavam-me "doutor" (médico), não apenas porque durante muito tempo eu ocupara o posto de médico do batalhão, mas também porque os meus companheiros alemães, por todo lado onde os russos ou ucranianos estavam doentes, diziam: “Vá ao nosso doutor!” Estar ao serviço, tanto da saúde como da salvação, derruba todas as fronteiras. E que Graça imensa se - por onde quer que andemos como 'padres servidores' - encontramos no coração das pessoas um lugar para nós!

 

MISSIONÁRIO NO MEIO DE EXPATRIADOS E REFUGIADOS

Ser "um de vós" é muito mais fácil de dizer do que de realizar. Ser "o homem para os outros", obra da graça. Durante os anos que se seguiram à segunda guerra mundial, um grupo de missionários começou a visitar os expatriados de língua alemã nas regiões que antes eram exclusivamente protestantes. Para esta pobre gente, eram os primeiros encontros com a Igreja Católica na Alemanha. Partíamos juntos, em grupo, mas a cada um era atribuído um certo número de aldeias onde devia visitar todos os católicos. Viviam ainda na miséria. Em algumas aldeias, o pároco luterano punha à nossa disposição a sua igreja, mas, muitas vezes, as nossas reuniões eram feitas numa sala de dança alugada. Começámos na região de Coburg e Ansbach onde ainda não havia paróquias. Eu fazia esse “trabalho” dez semanas por ano. Foi durante esse tempo que comecei a escrever a obra «A Lei de Cristo», em três volumes, (tanto para as fiéis como para as padres). Antes de partir tinha preparado dezasseis sermões ou, se quiserem, “conferências”. Deixei-os de lado. Eram inúteis. Depois das visitas a todas as famílias, devíamos responder às suas perguntas, problemas, sofrimentos. Aprendi assim que a evangelização é uma dupla resposta: resposta ao apelo de Deus e, ao mesmo tempo, resposta aos ouvintes. São eles que nos dão os temas.

Por princípio, nunca procurávamos um hotel. Hospedávamo-nos em casas particulares. Refeições a sério só as tomávamos se fôssemos convidados par alguma família. Mas, normalmente, estávamos muito contentes. Nunca tínhamos a certeza de que seríamos convidados. Numa cidade pequena, de facto, como ninguém me convidou tive de ocupar um espaço reservado a vagabundos. A roupa havia muito tempo que não era mudada. Depois, os expatriados começaram a aperceber-se disso. Um professor protestante e a sua mulher traziam-me roupa lavada. E eu ia com o primeiro que me convidasse para as suas pobres refeições. Porém, poucas vezes os nossos encontros foram tão familiares como neste lugar.

Como se pode anunciar a Boa Nova às pessoas que vivem na miséria, se não se é, tanto quanto possível, um deles quanto ao modo de vida?

 

DESPERTAR VOCAÇÕES MISSIONÁRIAS

Um dos frutos mais preciosos era despertar vocações entre os expatriados. Nas aldeias e nas cidades procurámos cooperadores e cooperadoras para construir comunidades fervorosas. Voltávamos todos os anos para ver e promover o crescimento. Agora, vejamos um exemplo, entre outros. Numa pequena cidade, uma jovem de uns vinte anos ajudou-me a encontrar todos os católicos para os preparar para a Eucaristia. No fim, ela confiava-me: “Se eu conseguir trazer toda a minha família à prática da fé, sentir-me-ei chamada a ser missionária”. No primeiro ano, conseguia a participação da mãe; no segundo, a da irmã e um dos dois irmãos; no terceiro, pode dizer-me: “A minha oração foi ouvida; toda a nossa família é praticante”. Entrou nas Irmãs Beneditinas de Tutzing. Quando, anos mais tarde, fui à Tanzânia, lá estava ela, muita activa e muita amada! ...

No tempo da primeira cristandade teria podido, depois de ter pedido conselho a toda a comunidade, propor o “presbiterado” para alguns e algumas como dirigentes da comunidade e como presidentes da celebração eucarística. Ou, então, teria podido facilmente, em nome de todos, propor ao bispo uma lista de "Responsáveis" pela comunidade com diversidade de carismas e de ministérios.

O futuro na Igreja e da Igreja tem ainda belas hipóteses em perspectiva. Para se ter consciência disso, é preciso conhecer o Evangelho e decifrar os sinais dos tempos.

 

NO HOSPITAL ENTRE DOENTES POBRES

Em 1977 tive de fazer, pela segunda vez, uma delicada operação devido a eu ter um cancro na laringe. Foi uma operação de seis horas, com risco de morte por causa de várias complicações. Não me lembro bem se fiz considerações idealistas. A razão directa era a circunstância de o cirurgião, que me tinha feito a primeira operação numa clínica de Irmãs, ser o “chefe” da secção no hospital de Colleferro, ao Sul de Roma. Do ponto de vista cirúrgico nada faltava, mas tudo o resto era realmente destinado apenas aos pobres. O cirurgião, sem dúvida simpático, tinha aprendido nos Estados Unidos a substituir as laringes por membranas mucosas do doente com a condição, no entanto, de ele nunca ter fumado. Era o meu caso. Logo no primeiro dia, veio visitar-me um grupo de carismáticos que me trouxe garfos, colheres, tigelas de sopa, justamente tudo aquilo que se devia levar para um hospital de pobres, e que eu não sabia. No dia seguinte, trouxeram-me flores. As relações com os outros doentes foram logo cordiais. Uma velhinha, do quarto ao lado, vinha todos os dias cumprimentar-me e cantar-me canções com a sua rica e bela voz. “Você está completamente mudo e eu surda. Não é a mesma coisa", disse ela e desandou. Como padres, sentimo-nos muito bem entre os pobres de um hospital, se eles tiverem a impressão de que somos "um deles".

 

PADRE DOENTE NO MEIO DE OUTROS DOENTES

Há cerca de dezoito anos que, de uma maneira ou de outra, luto contra o cancro. Há quinze anos que me foi extraída completamente a laringe. Isto deu-me uma capacidade extraordinária para ajudar outros doentes, sobretudo do mesmo género. Eles não podem dizer: “Este padre fala muito bem, mas que é que ele sabe da minha situação?”. Cedo me apercebi de que esta espécie de proximidade é um privilégio para consolar e poder encorajar. Nestas circunstâncias, podemos traduzir melhor as palavras de Deus ao rei Ezequias, doente: “Ouvi a tua oração, vi as tuas lágrimas, vou curar-te” (2 Rs 20, 5). Para um padre que não sofreu de uma maneira semelhante, é mais difícil aprender e viver uma compaixão autêntica, mutuamente partilhada. Não aprendeu Jesus Cristo, de uma maneira especialíssima, a compaixão através da sua Paixão? Da Sua boca aprendemos o grande mandamento: “Mostrai-vos misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36). Ele próprio, na Sua humanidade, é um sinal privilegiado da compaixão do Pai celeste.

 

CURAR OS DOENTES

Durante os últimos séculos, a Igreja organizou serviços maravilhosos para os doentes, graças, sobretudo, à grande generosidade das religiosas. Foi um padre, S. Vicente, que rompeu com tabus e libertou as energias tornadas estéreis durante muito tempo pela severa lei da clausura imposta por um clérigo “masculino” às mulheres consagradas. Não há dúvida de que as enfermeiras, mulheres da Igreja, deram também um testemunho corajoso e de que comunicaram o evangelho. Mesmo assim, esta época foi marcada por uma separação de duas tarefas inseparáveis: anunciar a Boa Nova e curar. Pior ainda, o moralismo angustiante causou muitos sofrimentos e graves doenças psicogéneas e noogéneas. Hoje, fala-se mesmo de patologias eclesiogénicas, quer dizer, causadas ou condicionadas pela Igreja.

Mas a fé, se vivida com alegria e comunicada com justiça, pode ter uma força tanto libertadora como curativa. Voltarei a este importante tema muitas vezes. Vou contar uma experiência que também me ajudou a desenvolver sistematicamente o poder da dimensão terapêutica da fé e da moral verdadeiramente evangélica.

Tendo quarenta anos, levaram-me a casa onde vivia, em Roma, uma mulher jovem que, durante os últimos exames na Universidade, sofreu de uma terrível explosão de esquizofrenia. Face ao seu comportamento impossível e à sua miséria indizível, o velho Adão reagiu dentro de mim: “Mas porque é que as pessoas me trazem tantas vezes doentes que ninguém pode ajudar? Se os outros não conseguem, com maioria de razão, eu também não!” Mas, nesse momento, a graça tocou o meu coração, dizendo-me: “É Jesus que te põe à prova. Na medida em que o fizestes a um destes mais pequenos dos Meus irmãos e irmãs, foi a Mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40). Então, tomei a firme decisão de manifestar a essa pessoa tão doente todo o meu respeito religioso e humano, como se ela fosse Jesus em pessoa que tivesse vindo ter comigo. A doente rapidamente ganhou uma confiança sem reservas. Apesar de uma psicocirurgia que normalmente priva as pessoas de qualquer espírito de iniciativa, nunca faltou à visita na hora marcada.

Continua a contactar comigo, sem qualquer tipo de dependência. Vive uma vida normalíssima, com relações completamente sãs e naturais. Não sou um terapeuta diplomado. Estudei as obras dos maiores terapeutas e estou particularmente atento às opiniões daquelas que mais insistem de que é necessário, sobretudo, curar as relações humanas. Isto é muito eficaz na medida em que há um profundo respeito por todos, sobretudo por aqueles que sofrem psicologicamente. Mas há mais do que melhorar a saúde. Ainda não acolhemos todas as consequências de uma missão com duas dimensões inseparáveis: “Proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes gratuitamente ... “ (Mt 10,8-9; Lc 10, 9).

Para se abrir ao carisma de curar através de todo o seu ministério, o padre e geralmente todo o terapeuta inspirado pela fé, devem viver e promover sobretudo relações sensatas, saudáveis, de tal maneira que elas se transformem também em relações geradoras de saúde, “curadoras”. Tais relações devem ser marcadas pela experiência da gratuidade e por uma profunda confiança em Deus. De tudo isto decorrerão relações amigas muito respeitadoras, generosas e encorajadoras para com os doentes, os perturbados.

Não se pode anunciar a Boa Nova de que o Reino de Deus está próximo, se os outros, sobretudo os doentes, não vêem em nós, naturalmente, através das nossas relações diárias com eles, mensageiros cheios de uma profunda paz interior e de um amor muito respeitoso. É diferente de uma atitude dita “caridosa” que olha do alto o miserável. A Redenção, regime de saúde e de salvação, está profundamente marcada pela "gratia præveniens", segundo a expressão teológica. Tento traduzi-la pelo conceito de adiantamento”. Deus, pela graça do seu Espírito, o Paráclito, encoraja-nos sempre com um fecundo "adiantamento" que inspira confiança, esperança, força interior para avançar. Se os educadores censurarem excessivamente e degradarem os que lhe são confiados, só gerarão doentes, anormais, paralíticos, leprosos ou, então, revolucionários destruidores. Pelo contrário, se os pais e todos os outros educadores sabiamente comunicarem “o adiantamento” da coragem, farão, por assim dizer, “milagres”, ou melhor, impelirão os outros a realizar o “milagre” de relações sensatas e saudáveis consigo próprios e com Deus, de confiança e de criatividade ...

Nós, padres, nunca devemos atribuir-nos um poder mágico-miraculoso. Nada disso. Mas Deus faz grandes coisas se nos ajudarmos uns aos outros a reconciliar-nos connosco próprios, com o próximo, com Deus. Sobretudo, com “o adiantamento permanente” de um grande respeito, despertaremos uma sã confiança em Deus e também nos nossos recursos pessoais interiores que, gradualmente, podem, querem e devem ser descobertos. Todos os métodos, aliás excelentes, das diferentes escolas terapêuticas são pouca coisa em comparação com a força terapêutica das relações plenamente humanizadas, isto é, em comparação com “o meio divino” onde surge continuamente o louvor de Deus e que se exprime pelo encorajamento mútuo, pela paz interior, pela franqueza e pelas iniciativas criadoras.

A Igreja, a todos os seus níveis, é convidada com urgência a criar e a recriar um tal meio divino, baseado no "adiantamento recebido da parte de Deus". Evidentemente que isso exige uma luta encarniçada contra estruturas malsãs.

 


UMA SÃ TEOLOGIA MORAL: UMA VOCAÇÃO SACERDOTAL

Fui descobrindo lentamente que uma sã teologia moral e todos os esforços da catequese e pedagogia morais têm uma dimensão de vocação sacerdotal, mas não no sentido dum ‘monopólio do clero’. Penso sempre, em primeiro lugar, no povo sacerdotal-profético de Deus, que vive a consagração pelo baptismo de Cristo. Sempre ensinei e escrevi sobre teologia moral, tendo em vista todos os fiéis. Descobrir e aperceber-se que uma espécie de moral ‒ o moralismo ‒ pode deixar as pessoas doentes e que, de facto, causa muitas doenças psicogénias, noogénias, eclesiogénias, quer dizer, muitos sofrimentos que afectam a salvação das pessoas e as relações humanas, criando sistemas e modos malsãos de pensar e de dialogar, é chocante!!! A palavra "eclesiógene" é um apelo urgente aos homens da Igreja a que se dêem conta das muitas desordens, sofrimentos e doenças que são, pelo menos parcialmente, causadas por estruturas, relações e ideologias malsãs existentes no seu interior. Karl Rahner chamou a atenção de muitos católicos para o facto de, no Confessionário, se classificarem como "pecados mortais", simples "bagatelas".

Quando era jovem professor de teologia moral preguei retiros ao clero do Tyrol; eram uma centena de padres. Na primeira conferência afirmei que não pensava ter diante de mim padres com pecados mortais na consciência. Devemos pensar, pelo contrário, numa conversão contínua, como cristãos-padres que vivem habitualmente na graça de Deus. Um decano levantou-se ineditamente perguntando: "Como é que se pode viver sempre em graça se os ritos da Igreja estão cheios de leis que ‘obrigam sob pena de pecado mortal’?" Vinte anos mais tarde tive um duro litígio com um cardeal que, num decreto público, queria obrigar as crianças a confessarem os seus "pecados mortais" antes da primeira comunhão, mesmo que tivessem apenas sete anos. Qual é o Estado que hoje aplica a pena de morte a crianças? E que Deus seria esse que considerasse os defeitos das crianças merecedores de pena mortal para toda a eternidade! Se esse Deus existisse, merecia um tiro. A teologia moral tinha e ainda tem muito que fazer para eliminar todas as doenças "eclesiogénias", causadas por uma religião terrivelmente angustiante. No decurso dos anos, comecei a compreender que a renovação da teologia moral é uma vocação sacerdotal que tem como objectivo a libertação e também a cura. Pouco a pouco, os melhores «teólogos da libertação» foram descobrindo a importância de uma teologia moral ponderada, saudável, libertadora e curativa. Para mim, isto é o centro da minha vocação sacerdotal.

Espero que todas as minhas obras publicadas depois do Concílio, nomeadamente “Livres e Fiéis em Cristo” e o livro sobre a pastoral dos divorciadosExiste Saída?”, dêem testemunho e apelem aos leitores para que comecem corajosamente a testemunhar e a anunciar uma mensagem moral libertadora e ao mesmo tempo curativa.

 

A PASTORAL PARA OS DIVORCIADOS

A minha preocupação relativamente aos divorciados não resultou de uma pesquisa teórica. Foi a vida, todo o sofrimento dos divorciados, muitas vezes imenso, que me mobilizou. Onde quer que eu fosse fazer cursos, retiros, conferências, todos os meus amigos, particularmente as religiosas, mas também os bispos, mandavam-me os angustiados, os aflitos, os perturbados. Em África, um bispo mandou-me um dos seus irmãos, dizendo-lhe: “O que o Padre Häring te disser, fá-lo e fica tranquilo!” Que variedade imensa de dolorosas experiências, que oceano de sofrimentos! Muitas vezes lembrava-me da palavra de Cristo: “O que fizestes a um destes mais pequenos, que são Meus irmãos e irmãs, foi a Mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40). Lembrava-me do amor respeitoso com que Jesus abordou a mulher da Samaria e como lhe devolveu a sentido da dignidade, de tal forma que ela veio a ser a primeira grande "missionária" da Boa Nova na sua cidade (João 4).

Foi a ela que Ele falou da adoração do Pai em Espírito e Verdade. De facto, a Sua atitude para com esta mulher desprezada por homens que a tinham injustamente destruído, era um acto de adoração do Pai em Espírito e em Verdade. Ela tinha sido rejeitada por homens cinco vezes! Ora, segundo uma regra estabelecida por homens, exigia que ninguém de boa reputação falasse com “uma tal pessoa”. Jesus foi deveras severo para com os homens "justos" que levaram, escondida, a mulher adúltera a Ele (João 8), e nem sequer acusou o desgraçado do homem que tinha abusado dela. Foi grande a Sua misericórdia para com a mulher. Mas não basta recordarmos o exemplo de Jesus. Impressionante é também a minha experiência interior. Nas pessoas doentes, e muitas vezes injustamente desprezadas, Jesus testa o meu amor por Ele.

Um grande número de moralistas, e até de prelados, sentem-se tranquilamente de bem com a sua intenção a “atirarem a primeira pedra” (Jo 8, 7), mas nem sequer se perguntam se eles próprios não serão, talvez, pecadores ainda maiores. Jesus disse: “Quem nunca pecou ... “

O Padre autêntico nunca deve entrar na rotina de julgar segundo categorias simplistas. Deve entrar no sofrimento de cada um e de cada uma. Percebi, de forma muito clara, que neles e nelas ‒ nos que sofrem ‒ o próprio Senhor vem ao meu encontro. Teria realmente um sentimento de desprezo para comigo mesmo, como padre, se os tratasse com categorias generalizantes, como pessoas “que objectivamente se encontrassem em estado de pecado grave”, como se pode ler em alguns documentos eclesiásticos. Aliás, também aqui se trata, logicamente, de espírito ecuménico. De facto, muitos ortodoxos, zelosos com a causa da unidade, ficam muitas vezes chocados com a dureza de alguns documentos católicos para com as pessoas que sofreram e sofrem por causa do fracasso do seu casamento. Como padres, e justamente porque amamos muito a nossa Igreja, sofremos com isso. E em nome de Cristo, e da sublime missão da Igreja, que amamos Cristo nas pessoas que fracassaram e em quem, muitas vezes, tive a ocasião de admirar grande generosidade e sinceridade. (…)

 

CELIBATO ‒ UM “CASAMENTO INVÁLIDO”

Ao longo dos anos, muitos moralistas e canonistas descobriram que um grande número de casamentos, realizados solenemente e segundo todas as regras canónicas, estavam, desde o início, tão gravemente feridos que, apesar da boa vontade, quase não tinham hipótese de se tornarem "sacramentos indissolúveis". Apesar de toda a boa vontade dos dois, ou pelo menos de um deles, naufragaram. Um dos cônjuges permanecia totalmente "estranho" ao outro, em todo o seu modo de ser. Mesmo entre pessoas "normais" há, por vezes, alergias de tal maneira graves que levam à repulsa do outro. As Igrejas Ortodoxas e as Igrejas saídas da reforma são muito mais sensíveis a estas situações e abordam esta realidade com uma compreensão curativa. Entre nós, uma mentalidade abstracta e jurídica reage, pelo contrário, com condenações e marginalizações.

No que diz respeito ao celibato, algo de semelhante deve ser posto a nu. Também os padres, com plena sinceridade, fizeram a promessa de o viver e de o praticar. Mas, como poderiam desde o início conhecer-se a si próprios e conhecer todos os problemas do celibato, sobretudo, com uma educação nos seminários tão hermeticamente separados da vida normal?

Apesar da boa vontade e de uma vida de oração sincera, alguns padres, amados pelos fiéis, acabaram por pedir dispensa do seu voto para se casarem, para viverem com coerência num casamento cristão. Conheço casos nos quais a experiência do "outro" foi decisiva. A Igreja no Vaticano, assim como a Igreja local, pode tornar-se para um padre de tal maneira um estrangeiro ou uma estrangeira, que ele não consiga viver com ela uma vida sã de celibato.

Conto só um caso típico. Num dia de Natal, na refeição comunitária, o pároco mostra-se furioso contra o vigário por este, durante a missa, não ter observado todas as regras, por ter, por exemplo, estendido demasiado os braços. Para defender-se, o vigário cita-lhe palavras do Cardeal Faulhaber. Então, o pároco grita: Você tem que seguir a lei e não um cardeal. À tarde, encontram-se de novo nas escadas e repete-se a mesma cena, o mesmo grito de escândalo. O jovem padre acaba por me dizer, mais tarde, que naquele dia, pela primeira vez em toda a sua vida, se masturbara: nenhum prazer, mas uma extrema experiência de frustração. Nas semanas seguintes, foram-se repetindo os mesmos fenómenos de frustração. Um psicoterapeuta dá-lhe o conselho de abandonar o estado de celibato numa Igreja que faz as pessoas doentes. Passados muitos anos, esse jovem padre faz-me uma visita: casado, pai de família, feliz, muito dedicado ao apostolado, uma família missionária. A sua vocação sacerdotal e o seu celibato poderiam ter sido vividos muito bem se ele tivesse encontrado no seu prior, nos seus confrades e superiores “o outro” em sã reciprocidade e mútuo enriquecimento. Todos conhecemos pessoas assim que, apesar do seu carácter simpático, experimentam a derrota por causa do “outro” inassimilável, repelente.

O problema do celibato, como lei e porta indispensável para se entrar no sacerdócio, toma-se na Igreja uma questão envenenada, deletéria por causa de uma "outra" Igreja representada por pessoas autoritárias, juízes supremos. Só uma Igreja que saiba curar, encorajar, pode ajudar tanto as pessoas casadas como os padres. A extrema dureza, sem discernimento, para com os divorciados, tornou-se, há muito tempo em vários lugares, e é-o ainda mais hoje, um motivo para recusar o casamento litúrgico. Encontrei jovens que não ousavam entrar no estado de celibato por causa do tratamento indigno para com os celibatários que, mais tarde, nas situações concretas, descobriram que não eram capazes de viver um celibato saudável.

Em toda a vida cristã, mas de uma maneira particular no que concerne ao celibato e ao casamento, há duas perspectivas totalmente opostas: ou a perspectiva da Boa Nova, da Paraclese(«encorajamento no poder do Espírito»), do sopro da graça, da fé alegre e cheia de confiança, da solidariedade que salva e cura, ou então, a perspectiva da lei em toda a sua dureza, a das proibições, dos julgamentos, das sanções, das segregações, com a graça apenas acrescentada para observar a lei.

Tanto os que são convidados para o sacerdócio, e ao mesmo tempo para o celibato, como aqueles que os convidam, devem estar dinamizados pela Boa Nova: O pecado não terá mais poder sobre vós, porque já não estais sob o regime da lei, mas sob o espírito da Graça (Rom 6, 14). (…)

 

 

Bernhard Häring

«Que padres … para a Igreja?», Editorial Perpétuo Socorro, Porto Julho 1995, pp. 9-31.112-115. ISBN 972-563-245-1.

 

 

AS CONFISSÕES DO PADRE HÄRING CONTINUAM…