teologia para leigos

19 de setembro de 2020

EUTANÁSIA 11

 VIDA & MAIS VIDA PARA ALÉM DESTA VIDA: A CONSTRUÇÃO DUM AMOR EM DOAÇÃO DIVERSAMENTE “COMSENTIDO”! SIM, HÁ UM MISTÉRIO FECUNDO QUE DOA SENTIDO. EU CREIO NESSE IMENSO MISTÉRIO FECUNDO, NA ETERNIDADE DO AMOR DE DEUS… «Eternamente filhos no Filho…».

 


 

Ao fim de 55 anos de «vida paraplégica» nesta Terra, sobretudo para todos nós que tacteamos o corrimão desse “tempo que se reclina” ficam estes quase 30 minutos de elevada maturidade humana e profética ousadia moral por parte do senhor Luís Miguel Marques, 63 anos, portador de Poliomielite desde os 8 anos de idade (já existindo, à época em Angola ‒, vacina e vacinação).

Uma Comunidade humana pressupõe a construção de um “sentido consentido”. É sobretudo a isso que assistimos, neste «ATÉ AO FIM…». Haverá algo que lhe seja humanamente mais divino?

 

(Programa «Até ao Fim…», da RTP-3, com a jornalista Paula Rebelo, Série «Linha da Frente», emitido a 18-09-2020, RTP Play).

 https://www.rtp.pt/play/p6595/e493881/linha-da-frente

 

Paulo Bateira\

 

 

 

 


1 de setembro de 2020

EUTANÁSIA 10


  

MORRER DE FOME E DE SEDE?

Alimentação e hidratação no fim da vida

 

 

A questão da alimentação e da hidratação durante a última fase da vida constitui um tema carregado de conteúdo emocional. A razão para tal tem a ver com o facto de uma das primeiras necessidades da pessoa se centrar na satisfação da fome e da sede, e, por isso, a alimentação ser o arquétipo central da existência humana.

Os conceitos «passar fome» e «passar sede» surgem como fantasmas constantes que assustam e com frequência impedem uma discussão séria acerca da alimentação e da hidratação durante a fase terminal. Por isso, a Bundesärztekammer (equivalente, na Alemanha, à Ordem dos Médicos) estabeleceu uma norma (em 2004 e ratificada em 2011) para o acompanhamento médico na hora da morte:

«a ajuda consiste em cuidados de medicina paliativa e, portanto, em assistência e preocupação pela atenção básica. Neste âmbito não está incluído o fornecimento de alimentos e líquidos, os quais poderão constituir uma carga muito pesada para um moribundo. Ainda assim, a fome e a sede devem ser saciadas no que diz respeito à sua experiência subjectiva».

 

Falta de alimentação e de líquidos em pessoas sadias e moribundas

A ideia que fazemos da morte por falta de alimentos e bebidas está, frequentemente, marcada pelas fotografias de desnutrição e por informações sanitárias repulsivas que recebemos das regiões mais subdesenvolvidas do mundo. As consequências da falta de alimentação e hidratação em pessoas sãs estão resumidas na Tabela 1.

Este resumo angustiante não tem importância alguma aquando do final da vida. Nesta fase terminal da vida, coloca-se mais uma outra questão, que é a seguinte: será verdade que os moribundos passam pela sensação dolorosa da fome e da sede, sempre que não se lhes dá alimentos nem líquidos? E para evitar que tal sofrimento ocorra, devemos administrar-lhes, artificialmente, alimentos e líquidos, durante a fase terminal?

(…)

 

TEXTO INTEGRAL AQUI

 

 

30 de agosto de 2020

EUTANÁSIA 9

 

 

«libera nos, Domine»

 

«Durante numerosos séculos, a ‘morte repentina’ foi temida por ser considerada a pior das mortes. Era seguramente por razões de natureza religiosa, que os crentes desejavam poder preparar-se para comparecer diante do Deus-Juiz, a quem deveriam prestar pessoalmente contas da vida terrena. Advinha daí a preparação religiosa e moral para a morte, os últimos sacramentos e as orações à volta do moribundo.

«Algumas orações católicas, tais como as Litanias dos Santos, pediam e ainda pedem a Deus, ainda que hoje em dia em franco desuso, «A subitanea et improvisa morte, libera nos, Domine» («Da morte súbita e imprevista, livra-nos Senhor»). Era aquilo a que chamávamos a «boa morte», e para isso existiam as «confrarias da boa morte»: para a preparar e para a venerar.

«Porém, as razões para desejar uma morte que não súbita e imprevista não eram apenas de natureza religiosa: ansiava-se poder morrer rodeado dos familiares, após ter deixado com a devida antecedência resolvidos todos os assuntos e destinados todos os bens, pelo que a morte seria uma espécie de despedida desta vida rodeados de muita troca de afecto e gratidão. O exemplo mais conhecido que testemunha este tipo de morte é a fábula de La Fontaine “Le Laboureur et ses enfants”, ainda que inúmeras obras de historiografia nos possam provar o quanto este desejo era realmente intenso e como este tipo de morte surgia de facto, aos olhos do moribundo e dos seus familiares, como uma «bela morte» (Philippe Ariès, “L’Homme devant la mort”).

 

«Acontece que a possibilidade de prolongar medicamente a duração dos tempos finais de uma doença mortal ou de uma velhice muito avançada, faz com que, entre outras consequências (nem sempre todas desfavoráveis) se possa abordar esta última etapa do morrer em si em perfeita lucidez…».

 

Jacques Pohier, “La mort opportune”, Seuil, 1998, pp. 162-163

 

GETSÉMANI

 

 

6 de agosto de 2020

EUTANÁSIA 8

E, no entanto, nunca aqui estive

 

O poeta Foix, que cuida que chegará aos cem anos e que já vai a caminho deles com os seus gloriosos noventa e três, dizia um dia ao seu amigo Espinàs: «Tenho vontade de mandar colocar uma lápide na minha sepultura que diga “E, no entanto, nunca aqui estive”».

Na verdade, nunca estaremos numa sepultura. Um ser humano nunca entrará numa sepultura: sempre estará na vida, quer antes, quer depois da morte.

O romantismo passou da poesia e dos enamorados para o para-choques dos camiões TIR: «Sigo o luar».

«O coração é um recipiente muito pequeno e, no entanto, dentro dele encontramos todas as coisas.» (S. Macário do Egipto)

A vida humana não pode caber numa sepultura…

A vida humana é como o mistério do Natal: todos os anos é sempre o mesmo mistério, no entanto, caldeado pelas mais díspares circunstâncias… É por isso que o Natal nunca se repete, tal como as vidas humanas: o Natal e a vida humana apenas atraem e desafiam a nossa vontade de mandar (Mateus 2, 3 ou a postura do Vaticano sobre o «caso» Eluana Englaro).

Deveríamos saber conjugar o verbo “liberdade minimamente mesquinha”… a fim de sermos dignos de existir e de deixar os outros simplesmente existir. Até porque somos todos apenas filhos, «irmãos» (ninguém é pai/dono do projecto de vida de ninguém; Mateus 23; sobretudo v. 8) e porque só existe vida humana dentro da existência. As palavras “vida” e “morte” são conceitos tão abstractos e fantasiosos que … nunca sobreviveriam fora da existência de cada um de nós.

 

DOSSIÊ AQUI

 

 Eutanásia vai passar na AR. Número de condenados na justiça é "inferior a três"

Tudo a postos, hoje, no Parlamento, para a discussão potencialmente mais fraturante da legislatura. Mas ainda faltam semanas para a votação final global. A despenalização vai ser aprovada - falta saber em que condições concretas. 

DN, 20-02-2020 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/20-fev-2020/eutanasia-vai-passar-numero-de-condenados-na-justica-inferior-a-tres-11840448.html

 

OS PROJECTOS-DE-LEI em votação

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/15-fev-2020/morte-assistida-e-mais-o-que-os-aproxima-do-que-aquilo-que-os-afasta--11824077.html


RESULTADO DA VOTAÇÃO NO PARLAMENTO

RTP-NOTÍCIAS

21-02-2020

 

https://www.rtp.pt/noticias/politica/eutanasia-parlamento-aprova-despenalizacao-da-eutanasia_e1206616

 

 

 


4 de fevereiro de 2020

EUTANÁSIA 7




“365 dias sem ti ... ou talvez um pouco mais!”
Desde o dia em que te deitaram na cama nº. 25 da UCI, daquele lugar frio e deserto, que foste partindo. Devagar, dia após dia. Deixei de ouvir a tua voz, de ver o teu sorriso, de sentir o teu aperto de mão.
E estavas ali, mas já não estavas ...
Foste-me preparando para a separação física, bem ao teu jeito, sofrendo, mas evitando o sofrimento nos outros. A tua força vinha de nós, dizias tu. Nós ... os mais fracos!
E foram longos os meses de dor. Aqueles meses em que escondias a dor com a tua boa disposição e os outros meses em que já nada pudeste negar, tal era a evidência dos factos.
Mas foi a dor psicológica que te foi consumindo interiormente. Até que toda a esperança se esvaziou... Estavas disponível para este momento, tal era a tua fé, mas não estavas preparada!
Foste apanhada de surpresa, quando tinhas ainda tanto para dar. E como preciso desta tua dádiva ... como sinto a tua falta!
O vazio é enorme, a saudade é imensa!
Amo-te para todo o sempre, minha querida Mãezita!

(testemunho real…)
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PETIÇÕES em DEBATE: EUTANÁSIA & MORTE ASSISTIDA
https://drive.google.com/file/d/1X09tagXjLtiaoJS-WUgDKlIYd3KB6v8Q/view?usp=sharing


“Quem, como e onde? O que propõem os partidos sobre eutanásia”
https://drive.google.com/file/d/1mCHvNqjHFLVX5ymaMFNdlhp1SgPVH-88/view?usp=sharing


5 de fevereiro de 2019

EUTANÁSIA 6




A VIDA DEPOIS DA RAZÃO
CODA: AS PRIMEIRAS E AS ÚLTIMAS COISAS

La Rochefoucauld disse que a morte, tal como o sol, é algo que não se deve olhar fixamente de frente. Não tivemos em conta esse conselho: ao longo deste livro, encaramos de frente a morte e o debate acerca da morte sempre nos devolveu à vida, ou seja, ao território (domínio) da vida muito mais do que ao domínio da morte, à devastadora e muito importante verdade de que o significado da morte depende de como e do porque as nossas vidas são sagradas. Começámos com a amarga e vasta discussão acerca do aborto. É, para nós, uma batalha inabordável (que não tem ponta por onde se pegue): batalha agressiva pela sua virulência e ódio, e tudo isso apenas porque fomos enganados ou nos enganamos a nós próprios, por causa de uma equivocada compreensão acerca daquilo que está realmente no centro do debate. Persuadiram-nos que a questão central é metafísica — será, o feto, uma pessoa? — diante da qual nenhum argumento é definitivo, decisivo e nenhum compromisso é aceitável já que, para uns, a pergunta é se os bebés podem ser assassinados?, enquanto, para outros, a pergunta é se as mulheres devem ser vítimas de uma superstição religiosa?. Quando analisamos mais minuciosamente aquilo que as pessoas sentem a propósito do aborto, esta questão (metafísica) fica imediatamente fora de jogo, por ser fatalmente enganosa. Praticamente ninguém de entre aqueles que apoiam a tese antiaborto crê realmente que um feto recém-concebido seja uma pessoa, e quase nenhum dos opositores a essas leis crê realmente que o argumento contra o aborto se apoie apenas na superstição. O verdadeiro debate é muito distinto: estamos tão profundamente em desacordo uns com os outros porque todos assumimos seriamente um valor que nos unifica como seres humanos: a santidade ou a inviolabilidade, seja lá em que etapa da vida estamos e seja lá que vida humana for. As nossas tão drásticas dissensões sinalizam a complexidade desse valor e das formas como interpretam o seu significado (marcadamente diversas: dependentes da cultura, do grupo social e das diversas pessoas comprometidas com esse valor).
Um compromisso soberano com a santidade da vida domina igualmente as nossas preocupações com o outro extremo da vida: é aí que se ancoram as nossas preocupações e enigmas acerca da eutanásia. Os interesses da maioria das pessoas não se esgotam no desejo de prazer ou de gozo, bem-estar, etc. Os interesses têm a ver com aquilo que é crucial para o sentido da identidade pessoal: a vontade de que viver seja o atingir de um objetivo finalmente bem-sucedido, que a existência seja rica em vida, que consiga mais vida que morte, mais bem que mal. Mesmo que a maioria das pessoas não se expressem desta forma tão cénica (dramática), o certo é que a maioria assume que viver é envolver-se, comprometer-se numa responsabilidade sagrada, e sentem que a sua responsabilidade parece que cresce quando encaram a própria morte ou a morte dos outros. Aqueles que desejam uma morte rápida e pacífica para si ou para os seus familiares não rejeitam ou denigrem a santidade da vida. Pelo contrário, crêem que uma morte rápida revela maior respeito pela vida, quando comparada com uma morte prolongada. Mais uma vez, acerca da eutanásia, os contendores partilham a preocupação comum pela santidade da vida; estão unidos por esse valor, estando o seu desacordo relacionado com a melhor maneira de o interpretar e respeitar.
A dignidade — reveladora do respeito para com o valor inerente às nossas próprias vidas — está no centro de ambos os argumentos. Ao longo deste livro, ocupamo-nos intensamente com aquilo que outras pessoas fazem com o aborto e a eutanásia, porque estas decisões revelam uma opinião acerca do valor intrínseco de qualquer forma de vida e, por conseguinte, afectam também a nossa própria dignidade. Esperamos que, em relação ao aborto, todos adoptem decisões que se adequem ao nosso próprio sentido de transcendência. Achamos que um aborto frívolo ou não justificado revela um desprezo por qualquer tipo de vida humana, é uma subvalorização do respeito por qualquer tipo de vida. Desejamos que todos — no caso de lhes ser possível escolher — morram de uma maneira que expresse respeito por si próprio: desse modo, esse sino também repicará por nós.
Contudo, mesmo que sintamos que a nossa própria dignidade se encontra comprometida com aquilo que os outros fazem com a sua morte, e às vezes sintamos que gostaríamos que esses outros actuassem como nós consideramos o mais correcto, a verdadeira percepção da dignidade aponta no sentido oposto desse nosso querer, isto é, ela favorece a liberdade individual e não a coerção, ela está a favor de um regime jurídico e de uma atitude que anime, que incentive cada um de nós a adoptar decisões sobre a morte, individualmente. A liberdade é o requisito cardinal e absoluto do respeito próprio: as pessoas só consideram a sua vida como algo importante — intrínseca e objectivamente — se forem elas a conduzi-la por si mesmas e a não serem levadas por outros ao longo do processo de viver, independentemente do amor, do respeito ou do temor que a esses tenham. As decisões relativas à vida e à morte são da maior importância, são as mais cruciais quanto à formação e expressão da personalidade, de entre todas as decisões que for capaz de realizar. Achamos que, sim: é crucial chegar a decisões correctas, mas também é crucial realizá-las segundo um modelo personalizado e em conformidade com o próprio carácter de quem decide. Inclusivamente, todas aquelas pessoas que pretendem impor as suas convicções aos outros servindo-se do Código de Direito Penal numa altura das suas vidas em que se sentem todo-poderosas, poderiam horrorizar-se — ao ponto de promoverem, até, uma revolução — caso a situação política se invertesse e dessem de caras com uma total perda de liberdade, aquela precisamente que agora querem negar aos outros.
Insistimos na liberdade, porque valorizamos a dignidade e, no seu centro, colocamos o direito a exercer a liberdade de consciência, pelo que um governo que negue a liberdade é um governo totalitário, mesmo que nos deixe livres para escolhas de menor valor. Porque honramos a liberdade, reclamamos a democracia; definimos democracia de um modo tal que, quando uma Constituição que permita que a maioria restrinja a liberdade de consciência, essa Constituição é inimiga da democracia e nunca a expressão da democracia. Seja lá qual for a opinião que adoptemos face ao aborto e à eutanásia, reivindicamos o direito a decidir por nós mesmos e, portanto, devemos estar dispostos a insistir que qualquer Constituição credível e genuína que assente em Princípios tem de garantir esse direito a todos.
É tão importante viver de acordo com a nossa liberdade como poder dispor dela. A liberdade de consciência pressupõe responsabilidade pessoal de reflexão e perde grande parte do seu significado quando ignora essa responsabilidade. Uma vida boa não tem de ser uma vida especialmente reflectida; a maioria das melhores vidas são justamente aquelas que foram simplesmente vividas e não aquelas que apenas foram planeadas. Contudo, existem momentos que clamam por uma autoafirmação. Por exemplo, uma entrega nos braços do destino ou uma decisão mecânica a favor da complacência ou da conveniência pressupõe uma traição, porque isso suspende a dignidade a troco simplesmente de "facilitar a coisa"… Ao longo deste livro encontramos um grande número de convicções pessoais intensas relacionadas com o aborto e a eutanásia, algumas liberais outras conservadoras. São convicções respeitáveis, e aqueles que as defendem devem viver e morrer de acordo com elas. Porém, é imperdoável ignorar inteiramente a importância destas questões: escolher ou aconselhar, acerca do aborto, levado apenas pela comodidade irreflectida, ou deixar a decisão acerca do destino de um amigo inconsciente ou demente entregue a estranhos de bata-branca, apenas, com o argumento que pouco importa o que lhe venha a acontecer. O maior insulto à santidade da vida é a indiferença ou a preguiça em enfrentar a complexidade.
No entanto, ainda não começamos a medir esta complexidade ou a avaliar todas as suas dimensões. Recentemente, os médicos vieram anunciar novos êxitos no tratamento da doença de Parkinson, usando tecido fetal, e alguns creem que um tratamento similar poderia beneficiar as vítimas de outras doenças, incluindo, quiçá, a doença de Alzheimer. Pode ser que um dia se consiga convencer as mulheres a engravidar precisamente para produzir tecidos salvadores através de um aborto realizado no momento preciso. Até poderá acontecer que, passada uma geração, as grandes batalhas em volta da eutanásia e do aborto tenham sido postas de parte — na imaginação pública e na controvérsia política — por outras questões mais complexas que tenham que ver com o valor intrínseco da vida humana. A ciência promete — ou ameaça poder — alterar dramaticamente os processos de reprodução humana e de desenvolvimento de embriões, melhorar as técnicas de inseminação e inclusivamente desenvolver novas técnicas para o nascimento de bebés sem fertilização; o poder de alterar códigos genéticos e de produzir crianças desenhadas segundo um modelo pré-definido e eleito, para produzir pessoas com as células de outros indivíduos com características muito apreciadas ou muito ricas ou com desejos de imortalidade. A ciência também promete — ou ameaça com — novas técnicas médicas e cirúrgicas que aumentem a esperança média de vida, em alguns casos para as esticar até dimensões bíblicas, ainda que com um custo tão grande que, desenvolvê-las e experimentar tais técnicas e, pior, colocá-las à disposição de um grande número de pessoas e não as reservar apenas a uma reduzida minoria, poderia esgotar os recursos necessários para fazer com que as pessoas não apenas vivam uma vida longa, mas também uma vida boa.
Qualquer destes desenvolvimentos ou quaisquer dúzias de outros que possam saltar da ficção científica para a rotina médica poderiam forçar-nos a enfrentar as questões já colocadas — a importância relativa dos contributos naturais e humanos para a santidade da vida — em termos muito diferentes. Isso faria com que fosse absurdo especular acerca de como estas questões poderiam ser melhor definidas e muito menos ainda como seriam resolvidas. Contudo, se preservarmos a autoconsciência e o autorrespeito"consciência de si" e "respeito por si" que são, afinal, as grandes conquistas da nossa espécie — isso não permitirá que nem a ciência nem a natureza tudo atropele no seu imparável caminho, mas fará com que os seres humanos lutem por exprimir, através de leis elaboradas por cidadãos e através de escolhas feitas por indivíduos, a melhor compreensão a que se possa chegar acerca das razões porque a vida humana é sagrada e — subordinado a este domínio — a definir qual o lugar adequado para a liberdade.



Ronald Dworkin, «El dominio de la vida – una discusión acerca del aborto, la eutanasia y la libertad individual», Ariel, Barcelona 1994, pp. 285-315, ISBN 84-344-1115-6.



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11 de novembro de 2018

EUTANÁSIA 5

Eis a nuvem dos que procuram a tua compaixão, Senhor


No filme que por estas alturas se exibe nas salas de cinema — «At War»[1]  —, a cena final — inesperada, chocante e, também por isso, polémica e arrebatadora de ânimos — aproxima-nos da densidade de textos e situações históricas como a dos textos do Evangelho de João, capítulos 18 e 19: suplício e morte de Jesus. Um manto de silêncio envolve-a e uma grossa escuridão pesa sobre as consciências de todos os actores, espectadores e sobre os próprios elementos físicos: à última palavra do moribundo («Tudo está consumado», João 19, 30; e à exalação do Espírito), diante da última imagem seguem-se passos secretos, temor, respeito, silêncio, compaixão, peso e negrume. Pouco antes de tão trágico desfecho, tudo era tumulto, discussão raivosa, exaltação tempestuosa, gritos (João 18, 28-40), mas, em poucos minutos, tudo está consumado.

Parece-me que está aqui a falha maior do depoimento do jesuíta Javier Gafo (1936-2001, Doutorado em Teologia Moral pela Universidade Gregoriana de Roma, 1976; director da Cátedra de Bioética da Universidade Pontifícia de Comillas, Madrid, desde Dezembro de 1987) no que diz respeito à «eutanásia de Ramón Sampedro»: a dificuldade em calçarmos as sandálias do servo sofredor é imensa! A incapacidade de treparmos à cruz para ficarmos silenciosamente ao lado do líder até que tudo esteja consumado, rói-nos! A quase impossibilidade de sermos apenas «seguidores» respeitadores, chaga: é gume e lume! A negatividade de nunca relativizarmos as nossas certezas é pecado.

Gafo cai na tentação de fazer passar tudo pelo pensamento e pela razão (lógica), inclusivamente aquilo que não deve porque não pode passar por aí se não pelo coração e pelas entranhas. Gafo esfacela-se, assim, diante da simples razão, muito misteriosa, de que estamos apenas e totalmente diante de uma «pedra que ainda espera dar flor»… (Raúl Brandão), ou seja, estamos diante da máxima expectação transcendente, alguém que está definitivamente condenado a um sofrimento visceral prometaico sem qualquer esperança hercúlea.

O conteúdo deste livro (Javier Gafo sj, «Eutanasia y ayuda al suicidio – mis recuerdos de Ramón Sampedro», DDB, 1999) é um contributo ao debate sobre a eutanásia e à ajuda ao suicídio. Está repleto de argumentos contra, esmeradamente preparados para derrotar (ou entontecer…) os argumentos pró. O livro foi editado em 1999 e desde então a realidade (intelectual, médica, filosófica, jurídica, teológica, espiritual e sociológica) já mudou muito: os avanços (filosóficos, jurídicos e teológicos) relativizam a maior parte destas armas. Mesmo assim, deve ser lido: ele faz a pedagogia do contra, expondo os argumentos ainda hoje os mais esgrimidos. Peca, porém, por sair das mãos de um cristão sem algo mais que faça a diferença.

Eu penso que ninguém consegue falar (ou escrever) sobre esta situação existencial, que é a eutanásia, sem estremecimento, respeito e pavor. Quem leu o livro, a estas horas estará a murmurar que estou a ser injusto. Na verdade, quer no Prólogo, quer no Epílogo, o Autor refere-se com muita amabilidade e respeito à pessoa de Ramón Sampedro, mas fá-lo, pelo menos mais de uma vez, para lamentar a sua opção final – o suicídio; para contrapor um 'sentido alternativo' à visão da sua vida de tetraplégico (contra as preferências de Ramón); para forçar uma argumentação lógica acerca da eutanásia e para mais uma vez defender a racionalidade da opção "contra"; para opor, à visão não crente da eternidade de Sampedro («en la estrella que en el cielo de las noches parpadea»; permanecer vivo «na estrela que no céu das noites cintila»), o discurso "humano, demasiado humano" dos braços de um Deus bom que o olha; etc.


https://www.youtube.com/watch?v=UkDIhkdv3NA


Também é verdade que procura, por mais de uma vez, esquivar-se à crítica de que poderá estar a «fazer o jogo de Sampedro» (o que seria muito mal visto por Roma…), mas, para evitar isso, serve-se da pior das estratégias: sem se colocar totalmente do lado dos críticos de Ramón Sampedro (Gafo de facto diz: «eu não me atrevo a dizer tanto», referindo-se aos decepcionados de última hora com Sampedro, quando começaram a divulgar – a tornar público – que alguém ouvira Ramón confessar que, com a decisão de se eutanasiar, estava a «encontrar o sentido da sua vida através da luta pela sua própria morte»…), Javier Gafo confessa: «Eu não tencionava tornar públicas estas minhas reflexões, caso não tivesse acontecido esta espécie de canonização – quase maioritariamente − nos meios de comunicação social. É verdade que é sempre legítimo dizer que cada pessoa é uma pessoa única, com poder para tomar as suas próprias opções de vida ou de morte — ainda que, nesta circunstância, a opção nunca é tomada sozinha e conta sempre com a ajuda de um terceiro —, mas devemos sempre resistir à sacralização da figura de uma pessoa que não foi capaz de tomar em mãos a sua situação – indiscutivelmente difícil – na qual, contudo, era sempre possível uma certa forma de realização pessoal.» Esta machadada final (que destila uma certa má relação com a imprensa espanhola e que também lança um julgamento moralista e culpabilizador sobre Ramón Sampedro…), quase a despedir-se dos leitores, é de tom muito pouco cristão. Mas, para Javier Gafo, pior é ainda a ideia de ir buscar dois exemplos de tetraplégicos que escreveram a Gafo e a Sampedro a dar o seu testemunho — «ALTERNATIVO!» —, a fim de serem usados por J. Gafo neste seu livro como prova demonstrativa de que a eutanásia não é a única saída. Ao tomar conhecimento desses testemunhos, a resposta de Ramón Sampedro não poderia ser mais elevada: «De facto, somos todos diferentes…».

A nossa condição de seguidores cristãos de Jesus de Nazaré, ainda que não seja nada fácil, deve-nos fazer lembrar que (na feliz expressão de Fray Marcos op, Madrid) «a atitude interna é a única atitude espiritual válida para Jesus». Em circunstâncias terríveis, duríssimas (como a de um assassinato colectivo iminente…), o Irmão Christophe Lebreton, monge trapista de Tibhirine (Argélia), escreve no seu livro "Aime":

«Creio profundamente numa proximidade misteriosa entre o monge e o delinquente, o prisioneiro, os nossos amigos da Arche, os torturados. Penso que tenho de receber dos mais pobres a permissão de ser monge, monge da miséria». (Edição Consolata, Fátima, p. 51)

«Être serviteur, afin d’entendre l’Appel en Le vivant car telle est «ma» vocation. Souffrance : expression de l’amour, purification de l’amour. La Croix : Jésus tout amour tout donné… Le temps prend la dimension de Dieu : il exprime l’appel de Dieu quel que soit mon travail, il se nourrit d’amour et je veux le gaver [encher] de moi, de mes ambitions, désirs, projets ou souvenirs. Trappiste: si Dieu veut.» (Diário, 24.10.1973, cit. de «Moines de Tibhirine – Heureux ceux qui espèrent – autobiographies spirituelles», CERF, Abbaye de Bellefontaine, p. 512)

Fico com a sensação que o jesuíta sempre viajou a Porto do Son (Coruña) não para procurar estar com e conhecer Ramón, mas para o con/vencer, com os bolsos cheios de discursos e catequese. Fico com a sensação que o jesuíta Gafo foi incapaz daquele silêncio compassivo e acolhedor, «ombro com ombro», junto de Ramón, o sofredor humilhado pelo terrível abandono e pela humilhação que a incompreensão sempre produz: incompreensão da família, da Igreja católica local, do Rei e do Estado espanhol; o jesuíta despachou essa compaixão silenciosa e mistérica que é própria dos santos e que fora destinada ao 'aqui e agora', transferindo-a para os ombros de Deus… quando Ramón Sampedro fosse já cadáver. Ele, que também já morreu, perdeu a oportunidade única de se converter ao pobre, de ser também «servo sofredor» e salvar-se. «Monge da miséria»? Infelizmente, miséria de monge, por não ter pedido permissão (ao Servo Sofredor) para o ser. Por ser auto-suficiente demais.

O "pecado" de Gafo está em ter presumido que sabia tudo o que Ramón tinha vivenciado. Não só nunca o havia experienciado… como nunca o havia sabido todo, porque um ser humano como Ramón (um pescador galego que entretanto — sendo tetraplégico há décadas — adquirira uma cultura muito elevada…) são muitíssimos seres humanos num só. Quem algum dia poderá dizer que Ramón Sampedro nunca «procurou o grande ausente»? Quem, de entre os humanos, poderá julgar os sentimentos e as hesitações mais íntimas de Ramón Sampedro? Quem senão «quem é terrível entre as coisas grandiosas», «a mandrágora perfumada» (Cântico dos Cânticos 6, 4.7, 14)?

Procurava-te nas estrelas
quando em criança as interrogava.
Pedi-te às montanhas,
mas só me deram em poucas ocasiões
solidão e breve paz.
Porque faltavas, nas longas noites
cismei no disparate insensato
de que o mundo era um erro de Deus,
eu um erro do mundo.
E quando, diante da morte,
Gritei que não com todas as fibras,
que ainda não terminara,
que tinha ainda muito a fazer,
tu comigo a meu lado, tal como hoje sucede,
um homem uma mulher sob o sol.
Voltei porque tu existias.

[Primo Levi]



Eis a nuvem dos incompreendidos, dos humilhados e aflitos que entregamos à mortal solidão dum sofrimento atroz e sem sentido, apenas porque, burguesmente, desistimos deles, meu Deus, e nos afligimos muito mais com os rígidos Princípios, as Normas mornas e as Regras de mármore. Para quem acredita na força curadora de Jesus de Nazaré,

«A pedra ainda espera dar flor»…


Paulo Bateira, 11 de Novembro de 2018.






«Quem acreditou no nosso anúncio? A quem foi revelado o braço do Senhor?»


«O servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado. Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores.

Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes. Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador.

Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido. Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude.

Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele. Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz. O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. Ele, o justo, justificará a muitos, porque carregou com o crime deles. Por isso, ser-lhe-á dada uma multidão como herança, há-de receber muita gente como despojos, porque ele próprio entregou a sua vida à morte, e foi contado entre os pecadores, tomando sobre si os pecados de todos, e sofreu pelos culpados.» (Isaías 53)










[1] «Em Guerra», «At War» de Stéphane Brizé (Maio de 2018):