teologia para leigos

13 de fevereiro de 2021

Funcionários de Deus - Eugen Drewermann

 


SACERDOTES DO ALTÍSSIMO?

 

No decorrer do Concílio Ecuménico Vaticano II em Roma, as sessões plenárias da Igreja Católica (1962-1965) introduziram novidades teológico-pastorais tais ao ponto de, pela primeira vez, em cerca de dois mil anos após o assassinato de Jesus de Nazaré, se ter posto em causa o modelo eclesiológico em que até então assentara a instituição. A percepção dos vultos maiores da teologia renovadora (europeia e sul-americana [1]) era a de que, com o 2º Concílio, havia chegado a hora de “dar livre curso a impulsos actualizadores longamente reprimidos” [2]. Um dos peritos mais autorizados presente, o dominicano Yves Congar, no decurso da segunda Sessão (Outubro de 1963) e após a votação do dia 30 ‒ em que a Assembleia aprovara por ampla maioria a colegialidade episcopal ‒, prevendo a profunda transformação eclesial que tal pressupunha, afirmou que o Vaticano II nunca mais poderia ser considerado apenas como (expressão de alguns oradores…) “uma espécie de vagão suplementar que se estava a acrescentar à cauda do Concílio Vaticano I” [3]. Nessa mesma linha e reforçando ainda mais a ideia, Y. Congar escreveu: “pacificamente, a Igreja fez de facto a sua revolução de Outubro…” [4]. Estas expressões denotam dois factos: por um lado, o insustentável sofrimento que se vivia há demasiadas décadas dentro da Igreja Romana, e, por outro lado, a deficiente avaliação das causas desse sofrimento acompanhada de uma completa ingenuidade quanto às garantias de sucesso futuro por parte das orientações conciliares aprovadas pela Assembleia e subscritas pelo Papa.

Na verdade, dois mil anos era muito tempo para que se acreditasse que a reforma de tal Instituição ainda iria a tempo. Só uma ingenuidade do mesmo tamanho temporal poderia clamar eufórica ‒ como o voltou a fazer Y. Congar ‒ dizendo que se tratou de “uma revolução pacífica decisiva” [5]. Muito poucos anos após o encerramento das Sessões conciliares, eram já evidentes os sinais de alarme que emergiam da reacção curial.

O teólogo Joseph Ratzinger encabeçara já a ala que iria, lentamente, restaurar o espírito pré-conciliar e colocar entraves à Reforma que a nova teologia sugeria. Dizia ele: «… se por restauração, entendemos a procura de um novo equilíbrio passados os exageros provocados por uma abertura indiscriminada ao mundo e passadas as interpretações demasiado positivas de um mundo agnóstico e ateu, então, certamente que essa restauração é desejável e de facto, na verdade, a restauração pré-conciliar já está em marcha». Em 1975, dez anos após o encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, J. Ratzinger promulga oficialmente − aquando de um debate, em Munique, organizado pela revista «Communio» − os pontos-chave da restauração: eles constituem a magna carta do avanço dos retrógrados da Igreja. «Uma reforma real da Igreja – diz Ratzinger – pressupõe um abandono total dos caminhos equivocados, que, entretanto, conduziram a consequências indiscutivelmente catastróficas». Partindo de uma distinção entre “Concílio” e “anti-Espírito” do Concílio – distinção formulada pela primeira vez neste Debate – o teólogo afirma que «é preciso trabalhar de modo que seja separado o espírito (ou seja, o Concílio vivido na sua essência espiritual e teológica) do anti-espírito».

Para que tal programa possa ser realizável, Ratzinger indica algumas intervenções bem precisas: em primeiro lugar, uma revisão da reforma litúrgica. «Devemos opor-nos muito decididamente contra tudo o que se tem feito até hoje numa submissão ao esmagamento racionalista, aos discursos moles e ao infantilismo pastoral, que degradam a liturgia ao nível dos homens do campo e que a procura reduzir ao nível do comic. Igualmente, as reformas já efectuadas, especialmente no que diz respeito ao ritual, devem ser reexaminadas uma vez mais, a partir destes pontos de vista» [6].

O documento da Congregação para a Doutrina da Fé [1976?], que ratificava o «não» católico ao sacerdócio da mulher (partilhado por todas as Igrejas da ortodoxia oriental e, até há pouco tempo, também pelos anglicanos), tem, ao fundo, a assinatura do predecessor do cardeal Ratzinger. Porém, hoje sabemos que não há dúvida que Ratzinger também contribuiu para a sua elaboração e, quando confrontado com uma pergunta muito directa, definiu, esse Documento, como «muito bem preparado, ainda que, tal como todos os documentos oficiais, apresente uma certa secura e vá directo demais às conclusões sem desenvolver suficientemente, com a amplitude que se impunha, todos os passos que a elas o conduziram».

É a este documento que o Prefeito remete, a fim de examinar mais uma vez a questão que, segundo o seu pensamento, tem sido mal colocada.

Falando do tema da mulher em geral (e da sua projecção na Igreja, em particular entre as religiosas) parece-me descortinar nele uma certa amargura: «É a mulher quem mais duramente paga as consequências da confusão, da superficialidade de uma cultura fruto de mentes masculinas, de ideologias machistas que enganam a mulher e as tornam confusas no seu mais profundo íntimo, sob a capa de as querer libertar».

«Não haja dúvidas – as mulheres seriam as maiores vítimas desta “revolução”. É a mulher que mais paga! Maternidade e virgindade (os dois altíssimos valores através dos quais ela realiza a sua vocação mais profunda) acabam por ser os valores opostos aos valores dominantes hoje. Mas a mulher, criadora por excelência ao dar à luz vida, não “produz” no sentido técnico, que é o único sentido que nos domina hoje nesta sociedade entregue ao culto da eficácia e, por isso, mais dominada que nunca pelos homens. Estamos a convencer a mulher que queremos libertá-la e emancipá-la, induzindo-a a masculinizar-se e, assim, homogeneizando-a na cultura da produção, submetendo-a ao controlo da sociedade masculina dos técnicos, dos vendedores e dos políticos que procuram benefícios e poder, e, por isso, tudo organizam, tudo vendem e instrumentalizam para conseguir o seu objectivo. Ao afirmarmos que a diferença sexual é uma realidade secundária (e, portanto, negando o próprio corpo como encarnação do Espírito num ser sexuado), despojamos a mulher não só da maternidade, mas também da livre escolha da virgindade; e isto, tendo em atenção que o homem não pode procriar nem pode ser virgem a não ser “imitando” o exemplo da mulher virginal. Por esta via, a mulher assumiria um altíssimo valor de “signo” e de “exemplo” para o resto da humanidade». (Ibid.)

Eu estou convencido que é assim - com narrativas delirantes tipicamente ratzinguerianas -  que se tenta negar o evidente e esconder uma das maiores senão a maior causa da encruzilhada aflitiva, da podridão e sofrimento intrainstitucional e da irrelevância aos olhos do Mundo Ocidental em que a Igreja Católica Romana hoje em dia se encontra: refiro-me à condição da «Família Sacerdotal», donde decorre uma certa “moralidade sexual” (para os leigos) e o famigerado “celibato obrigatório” (para os sacerdotes). Ao mesmo tempo que assistimos a manifestações públicas de mulheres católicas a exigir acesso ao Altar Sacerdotal Sacrificial (ainda administrado ao modo do Antigo Testamento), o Papa Francisco denuncia o cancro que corrói a Igreja Católica: o clericalismo. Defende L. Kerimel: “Este último introduziu na Instituição Católica Romana as categorias da separação (clero / leigos, homens / mulheres, puros / impuros), da hierarquização (bispos / presbíteros / diáconos/ religiosos / fiéis), da marginalização da mulher e da sacralização de uma pessoa pela imposição das mãos, o que cria as condições para que ela se sinta parte de uma casta (a "sacerdotal") detentora de competências e atribuições exclusivas e excludentes.” (Loïc de Kerimel, «En finir avec le cléricalisme» [Para acabar com o clericalismo] Edições du Seuil, Abril de 2020).

Bernhard Häring, teólogo cimeiro e renovador da teologia moral e, por isso mesmo, acossado pela Curia, disse que «o Concílio sepultou o clericalismo e o anticlericalismo» (cf. «O Concílio começa agora», Paulistas 1966, p. 131). «O trabalho realizado pelo Concílio Vaticano II contribuiu, sem dúvida, para sepultar o clericalismo...» (Idem, p. 132). Viu-se...

Moral da História: a Instituição Católica Romana é uma instituição que se julga «a única morada de Deus» e, portanto, a única instituição a poder dispensar as bênçãos divinas àqueles que se convertam a todo o seu sistema estrutural, institucional, canónico, dogmático e moral «assim desejado e assim decretado por Cristo». É nesta encruzilhada que a Igreja Católica Romana vive desde há mais de 1 000 anos e da qual não abrirá mão, a não ser de temas secundários que não ousem pôr em causa a sua origem divina «querida por Cristo» (Joseph Ratzinger). Até aceito que, neste século, a Cúria Romana consiga adoçar o clericalismo com uns pingos de feminilidade (o Papa Francisco está sempre a chamar a atenção para o "imprescindível jeitinho tão feminino das mulheres"..., expressão que deveria envergonhar-nos a tod@s), desde que isso não questione o seu sacerdotalismo, ou seja, a sua intocável missão divina que é a de ser «a única mediadora capaz entre Deus e a Humanidade». A «Ordenação apostólica» (e não apenas o clericalismo...) é a questão número um: quem é "ordenado" passa a ser um ser humano diferente dos outros seres humanos, passa a ser como alguns pensam e escrevem o que Jesus Cristo era: ele «não era, (...), simplesmente igual a toda a gente» (Roger Lenaers, "Jesus de Nazaré, um ser humano como nós?", p. 151, Scortecci Editora, São Paulo 2017, ISBN 978-85-366-5242-9). A "ordenação sacerdotal" transfigura a essência do ser humano (seja mulher, homem ou trans... ou...) transcendendo-a, divinizando-a. Ou seja, o «sacerdotalismo» está na base do clericalismo e foi ele que fez da Mensagem de Jesus de Nazaré a 2ª Edição revista e aumentada do Antigo Testamento! É aqui que reside o cancro da Igreja Católica Romana, uma igreja que "vive do altar" (1 Coríntios 9,13-18) e para o altar. Sem altar, sem vítimas e sem Sacerdotes, uma Igreja Clerical não sabe nem pode oferecer Sacrifícios a Deus! Para ela, a "Ordenação Sacerdotal" é imprescindível para manter e perpetuar este canal de comunicação entre Deus e a Criação. Ao mesmo tempo, a "Ordenação Sacerdotal" cria dentro da pessoa ordenada uma outra pessoa, uma pessoa criada e ao mesmo tempo 'criadora' como o Criador: ou seja, a "pessoa sacerdotalizada" passa a possuir "um outro ego" (superego divino) dentro de si, ombro-a-ombro com o ego humano (Cf. Anne Philibert, «Des prêtres et des scandales», Cerf 2019, pp. 16-18). É assim que se potenciam as vidas 'divididas', vidas 'duplas', as meias verdades, se geram as tensões e as depressões, bem como as frustrações da profissão sacerdotal.

«E, pior do que isso, é bem provável que Freud tivesse razão ‒ pelo menos quanto à descrição daquilo que se considera como católico ‒ quando reflectia sobre a formação do “complexo”, o qual consiste na assimilação do medo por parte de algumas pessoas já na infância, medo que será mais tarde explorado pelas instituições. Foi assim que Freud chegou à “teoria do complexo de Édipo” convencido que estava que tal se fundamentava na capacidade, por parte de uma poderosa autoridade paterna, de reprimir a capacidade de amor e de manter as relações entre marido e mulher numa eterna ambivalência moral saltitante entre “Senhora” (Madona) e prostituta. Lancem vocês, agora, uma olhadela ao estado em que se encontra a Igreja católica de hoje (1992), e irão dar de caras com um caso clássico de estruturas colectivas edipianas: ‒ uma autoridade paterna que priva um funcionariado célibe da felicidade do amor e que, a partir de uma mística mariana, provoca constantes desdobramentos da moral. É nesse ponto que entra em acção a constante referência à importância da virgindade biológica e até psicológica ‒ convém dizê-lo, para que fique clara a força do que está em causa ‒ de Maria. É sem dúvida verdadeiramente enigmático como é possível vir a ser ‘mãe’ sem nunca ter tido uma verdadeira e autêntica ‘sensação sexual’…» (Herbert Haag e Eugen Drewermann, «No os dejéis arrebatar la libertad», Herder 1994, pp. 36-37)

O clericalismo é filho do autoritarismo, o qual, por sua vez, é filho do "burn-out" - por excesso de tarefas e pela ausência de "vida própria" - realidade que os sacerdotes (sejam mulheres ou homens), mais dia menos dia, acabam por reconhecer ao olharem-se ao espelho da sinceridade e da cruel realidade. Fazerem de nós humanos e divinos ao mesmo tempo (e tudo isso num único corpo) é ingrato, é desleal... É desumano! É anti-vicarial! Se algum dia se retirar o sacerdotalismo a este cristianismo, acontecerá a derrocada do modelo eclesiológico vigente há mais de 1 000 anos. Alguns acreditaram que isso iria acontecer com o Concílio Vaticano II. Infelizmente, tal não ocorreu; e como tal não ocorreu, "para quê ficarmos a olhar para o céu"?!! Que os mortos enterrem os seus mortos...

Em pleno século XXI, estou profundamente convencido que esta Instituição Romana absolutista ‒ Planetária quanto à vocação, de Sede Mundial Única (Roma) e Líder Unipessoal (Papa) ‒ só pode ser uma instituição estruturalmente anacrónica geradora de várias patologias (comportamentais e psíquicas).

A enormidade de casos de traição ao juramento (diante de Deus e do Povo de Deus…) dos votos de pobreza, castidade e obediência por parte dos eclesiásticos (mas também por parte de «religiosas») merecia um estudo académico psicanalítico bastante alargado. Há uma razão que sobreleva todas as outras: o sofrimento humano. Para quem tenha vivido várias décadas em contacto com padres, monges e freiras é por demais evidente que não há razão alguma para desvalorizar a situação actual ou achar que estou a exagerar. É óbvio que eu conheço muitos padres e algumas freiras que são ou foram, para mim, luz e guia; a esses devo muitíssimo. Mas nunca poderei esquecer aquilo que já vi, pelo que me recuso a aceitar, como resposta, a costumeira reacção: “nada que não exista em muito maior percentagem em todas as outras instituições por esse mundo fora”.

A vida de muitos eclesiásticos está salpicada de inadmissível sofrimento humano traumático também motivado pela duplicidade em que é vivida (dissociação & esquizofrenia): diante dos seus paroquianos são um oceano de simpatia e atenção; mal viram as costas ao povo, sabe-se lá como se aguentam de pé… se é que se aguentam. A relação dos eclesiásticos com o poder que lhe foi dado gerir (mas também com aquele poder que está acima do seu poder - a subserviência muitas vezes hipócrita e castradora como condição para a sobrevivência vs. a exclusão: AQUI, AQUI, AQUI, AQUI), a labilidade dos seus rendimentos económicos, a relação com os seus desejos naturais como “seres-sexuados-que-desejam”, o peso estrangulador da solidão quotidiana, as suas contradições comportamentais (muitas delas enigmáticas aos olhos dos leigos que eles representam) e o medo da intriga (por todos fomentada, diga-se…) constituem o universo que levou Eugen Drewermann a escrever o livro «Funcionários de Deus» (em castelhano «Clérigos – Psicograma de un ideal») e que deveria ser objecto de atenção redobrada. É dele que anexo o excerto abaixo (PDF-OCR), convicto que estou de que será muito útil como estímulo à leitura integral do restante da obra.

 Depois do seu fracasso há poucos anos atrás (Amoris Laetitia), o Papa Francisco prepara-se, agora (2021), para voltar a bater uma vez mais no ceguinho de sempre apud «A Família Cristã» … Dou-me conta de que o problema da Reforma e da Governação da Igreja Católica, para Francisco, passa, no concreto das mudanças realmente conseguidas, por aligeirar as “normas administrativas & morais” (Cf. “LA MUJER EN LA IGLESIA, ACÓLITA Y LECTORA. ¿PASO ADELANTE O DECEPCIÓN?”, JUAN CEJUDO, miembro de MOCEOP, Eclesalia 18 enero 2021) e por contornar / evitar medos de pseudo-cismas (leia e conclua por si, a partir do próprio texto das Conclusões do Sínodo da Amazónia, o manifesto controlo burocrático exigido, pela casta eclesiástica, às comunidades ameríndias que precisem de ordenar alguém, já hoje, porém casad@). Francisco, que já teve intuições maravilhosas, esforça-se por deixar a sua marca numa instituição que é irreformável e incorrigível (por causa da sua inviável enormidade física). No entanto, não deixa de “assobiar para o ar” quando se trata do ‘sofrimento dos eclesiásticos’ vítimas única e exclusivamente da monstruosidade institucional que resiste a ser destapada e olhada de frente (cf. Mgr Gaillot, «Ma liberté dans l'Église», Albin Michel, 1989, p. 175-176).

A condição da família pós-moderna civil pode ser objecto de preocupações várias por parte do Papa, mas nenhuma dessas preocupações tem a gravidade daquela que atinge a “Família Sacerdotal”: é muitíssimo mais grave aquilo que se passa com a vida espiritual dos eclesiásticos quando comparada com a vivência do desempenho humano (ao nível do “temporal”) por parte das Famílias cristãs.

Se a causa número um do insucesso universal da Igreja Católica Romana (há anos sob o comando da “geração dos padres / bispos de João Paulo II”) é a preocupação com a imagem institucional, com o respectivo controlo da “doutrina” (moral e dogmática) em diversos Continentes, bem como com a angariação de fundos financeiros para o Banco do Vaticano (IOR), para os leigos a preocupação número um não é o institucional, mas o Espírito do institucional no seu confronto com a História da Humanidade, com o ‘temporal’:

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos.” (Gaudium et spes, n. 1)

Enquanto os eclesiásticos sofrem na carne, injustamente, as agruras de terem sido apanhados nas malhas de uma Instituição perniciosa, os casais leigos “sentem-se real e intimamente ligados ao género humano e à sua história” (GS 1). O dia-a-dia o comprova: diante de leigos que fazem voluntariado e acorrem ao sofrimento do Mundo, a verdadeira preocupação do Papa, dos Cardeais e dos Bispos deveria ser, por seu lado, a sanidade mental e teológica da “Família Sacerdotal” através de uma Teologia Libertadora dos Ministérios e de uma Espiritualidade Vocacional igualmente Libertadora (a qual fora, ao longo de quase três décadas, dificultada pela dupla Wojtyla-Ratzinger).

 

Quatro pétalas finais: a vida humana é divina floração e perfume

 A ‒ Depois da “Carta aos Hebreus” (Hebreus 7,14) ficou claro que a Mensagem Martirial de Jesus ultrapassava qualquer tipo de Religião rotineira (calendarizada) e todo o tipo de Culto Sacerdotal a Deus: a vida humana e toda a Criação eram, desde então, a ‘menina dos olhos’ de Abba, o Pai da Justiça, da Paz e do ágape. O Deus dos cristãos não sente que se suja quando ama a humanidade e cria vida humana por amor: o nosso Deus não necessita de ser pago e resgatado com ofertas e sacrifícios objectivados sobre um altar pagão mesmo que situado na cabeceira de uma Catedral… dita católica. A vida humana é uma aventura e uma batalha que, em Jesus, vale a pena. O lugar da História do nosso Deus, através de Jesus, é bem acessível (ainda que exigente…); temo-lo, por exemplo, na delicadeza com que Jon Sobrino recorda ‒ «Cartas a Ellacuria. 1989-2004», p. 87, com as lágrimas nos olhos ‒ Julia Elba, a cozinheira e sua filha adolescente Celina, o bondoso Amando e o carisma de Polín, todos assassinados ao lado dos padres jesuítas pelo exército salvadorenho… Para nós, testemunhas da morte e da ressurreição de Jesus, o Altar corresponde a todas as vidas ceifadas pela injustiça humana, crentes ou não crentes. Para os cristãos, só há um altar: o pobre abandonado (Mt 27,46), o marginal cristificado.

B ‒ “O Homem é a melhor floração do Mundo: por isso, nunca poderá negar as suas raízes terrenas, ainda que as transcenda.” (L. Boff, “Vida más allá de la muerte”, in «Un compromiso liberador», Verbo Divino, 1992, p.13)

C ‒ “O Homem é uma parábola de Deus. Se é comunhão, transcendência, abertura aos demais, então, é porque reproduz, ao nível da Criatura, a maneira de ser de Deus.” (L. Boff, “Encarnación. La humanidad y la jovialidad de nuestro Dios”, in «Un compromiso liberador», Verbo Divino, 1992, p.13)

D ‒ “Perante os ideais eclesiásticos, é extremamente difícil, (…), ganhar-se terreno suficiente para a construção de um ego com os seus objectivos próprios. Uma terapia a eclesiásticos exige conflitos com instâncias consideradas até aí como sagradas: assiste-se, então, a uma verdadeira «derrocada dos deuses», ou seja, assiste-se a uma das coisas psiquicamente mais difíceis de suportar; a isto acresce ainda a oposição violenta das Irmãs e dos Confrades, que se sentem ameaçados ao pressentir mudanças. Mas não há outro caminho. Quando os diques rompem, a primeira coisa a fazer é desviar o rio. Terapias a eclesiásticos nunca são possíveis sem uma enorme reestruturação psíquica, sobretudo no declive tocante à identificação do ego e do superego. É preciso ensinar a viver pessoas que nunca haviam tido o direito de viver a sua própria vida, e cujo ideal até tinha sido a renúncia a si mesmas.” (E. Drewermann, op. cit., pp. 134-135)

 

Paulo Bateira

 

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Referências bibliográficas:

 [1] Cf. as sugestões do cardeal D. Hélder Câmara (Brasil), citado por Y. Congar in «Mon Journal du Concile», 2 de Outubro de 1963, CERF 2002, p. 420: “O Concílio não pretende definir dogmas de fé; que isso fique bem explícito [nas Conclusões]; que haja uma palavra sobre os pobres…”.

[2] Andrés Torres Queiruga, «La teología del Vaticano II – diagnóstico y propuestas», Herder 2013, p.24.

[3] CONGAR, Y., «Diario del Concilio. Segunda sesión», Estela, Barcelona: 1964, p. 114 (Citado por Carlos Schickendantz, “Una revolucion pacifica decisiva. En camiño hacia nuevas formas históricas de la fe y de la vida ecclesial”, in Palabra y Razón, n.2 Deciembre de 2012).

[4] Ibid., p. 116.

[5] Ibid., p. 135.

[6] A língua em uso na Liturgia torna-se, para Ratzinger, também um problema sério. Leia-se a entrevista a J. Ratzinger por parte de Vittorio Messori «Informe sobre la fe», BAC-Popular, Madrid 2005, pp. 134-136, quanto à substituição do Latim pela língua vernácula, decisão que, no seu entender, constituiu «um dos mais claros exemplos de oposição entre aquilo que diz o texto autêntico do Vaticano II e a maneira como depois foi interpretado e aplicado.» Ou seja, para Ratzinger, o Latim nunca devia ter sido abolido, com tamanha ligeireza, do Serviço litúrgico.

 

©

 

Porto, 03 de Janeiro de 2021.

«FUNCIONÁRIOSDE DEUS»

 

 

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ANEXO:

Ignace Berten op

«Porquê um tão longo silêncio?» (7MARGENS, 2019)

 

 

 

21 de janeiro de 2021

A Igreja católica ainda tem futuro? - Herbert Haag


  

A IGREJA CATÓLICA AINDA TEM FUTURO?

Em defesa de uma nova Constituição para a Igreja católica

 

É com muita satisfação que escrevi expressamente para a edição portuguesa este prefácio ao meu livro «Nur ver sich andert bleibt sich treu», que em português aparece na colecção «Religiões» com o título «A Igreja Católica ainda Tem Futuro?»

Ele consta de três pontos fundamentais:

1. Jesus não fundou nem quis fundar uma Igreja.

2. Por isso, toda a estrutura ministerial remete para a própria Igreja. Jesus não criou nenhum cargo oficial. Assim, a Igreja pode proceder de modo totalmente livre com os ministérios. Pode mudar os actuais ou aboli-los e introduzir novos. Não deve tornar-se escrava dos ministérios que ela própria criou.

3. O mesmo vale para os sacramentos. Todos os sacramentos têm a sua origem na própria Igreja, e esta pode, neste domínio, proceder com liberdade: mudar o seu número, dispor do modo como relacionar-se com os sacramentos (por exemplo, se é necessária uma ordenação ou não para a celebração da Eucaristia).

Vou explicitar.

Este livro não nos vai libertar de todas as preocupações que a Igreja Católica nos causa presentemente um livro não consegue mudar a Igreja , mas pode apontar um caminho que a transformaria, se ela tivesse a sabedoria e a coragem de segui-lo. A Igreja cristã tem cerca de dois mil anos. As suas estruturas e a sua Constituição permaneceram, porém, praticamente as mesmas ao longo destes dois mil anos. Ora, já isto nos mostra que há algo aqui que não está certo. De facto, o homem, a sua vida, a sua história, as suas representações sociais, religiosas, políticas, são no ano 2001 completamente diferentes do que eram no ano 1001. Em 1001 ainda não se sabia nada do Brasil, e Portugal estava sob domínio árabe. Mas a Igreja, no essencial, manteve-se imóvel.

Houve vários factores que contribuíram para que a Igreja em nada mudasse. O principal foi que desde o século III se introduziu a ideia de que para o exercício de um ministério eclesial era precisa uma ordenação. Por isso, desde então já não há uma Igreja, mas duas: a Igreja do clero, que consta de Papa, bispos, padres e diáconos, os «sagrados», e a Igreja dos fiéis «normais», os «leigos». Todos os direitos e poderes estão com os do primeiro grupo; ao segundo, aos leigos, compete o cumprimento dos deveres.

É de admirar que esta situação tenha sido aceite obedientemente. De facto, era fácil ver que nos Evangelhos não existe uma só palavra referente a esta «ordenação sagrada». Jesus não queria que entre os seus discípulos houvesse diferenças entre os colocados mais acima e os situados mais abaixo. Esta é a sua divisa: «Não vos deixeis tratar por rabi, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos» (Mateus 23, 8).

 

Jesus não quis fundar uma Igreja

O grande erro cometido consistiu em pensar-se que a Constituição hierárquica da Igreja foi querida por Jesus. Se assim tivesse sido, então não se poderia tocar nela. Se Jesus tivesse pretendido um Papa para a sua Igreja, ela teria de ter um Papa. Se Jesus tivesse desejado bispos com determinados direitos e deveres, esses bispos tinham de existir na sua Igreja. Se Jesus tivesse querido padres, tinha de haver padres. Nesta situação, a proposta de transferir para leigos os privilégios dos padres, por exemplo, a presidência na Eucaristia, teria de levar a uma divisão na Igreja.

Mas é preciso ir ainda mais longe. Devemos perguntar não apenas que forma de Igreja Jesus quis, precisamos de perguntar se Jesus quis pura e simplesmente uma Igreja. Ora, quanto a esta questão, há hoje unanimidade na investigação teológica e a resposta é: «não». Que Jesus não pode ter pensado na fundação de uma nova instituição torna-se claro pelo facto de que esperava como iminente o fim do tempo em que vivia. Deste fim próximo falam várias parábolas, bem como a palavra proferida por ele na última ceia com os discípulos: «Já não beberei do produto da videira até àquele dia em que o hei-de beber de novo no Reino de Deus» (Marcos 14,25).

Não é, pois, de admirar que a palavra «igreja» (ekklesia, em grego) não pertença à linguagem de Jesus. Nos quatro Evangelhos só se encontra duas vezes em São Mateus (16, 18 e 18, 17). É bem conhecida a passagem de Mateus (16, 18) em que Jesus denomina o discípulo Simão como uma pedra sobre a qual edificará a sua Igreja (ekklesia), mas hoje a investigação é unânime no reconhecimento de que ambas as passagens de Mateus têm origem pós-pascal e não são do Jesus histórico.

 

Instituição livre dos ministérios

Se Jesus nunca teve o propósito de fundar uma instituição, uma Igreja, então ainda menos podia prever uma determinada Constituição para essa instituição. O que aconteceu foi que a mensagem de Jesus foi levada a todo o mundo pelos seus discípulos e discípulas. Por toda a parte se formaram comunidades cristãs, em Jerusalém, Síria, Ásia Menor, Grécia, Roma, Itália, e desse modo surgiu a necessidade de se organizarem, o que, por sua vez, deu lugar a cargos de direcção. Desde o século III é uma instituição estável a estruturação em bispos (vigilantes), presbíteros (anciãos) e diáconos (servidores). Finalmente, quando Constantino, o Grande, em 313, no Édito de Milão, reconheceu o cristianismo em igualdade com as antigas religiões, a Igreja pôde adaptar os seus ministérios ao sistema romano de administração. Frente ao poder civil, desenvolveu-se um «poder sagrado», uma hierarquia.

É natural e evidente que a Igreja tenha formado um sistema de administração e instituído cargos. E porque não havia de aproveitar o sistema do Império Romano, apoiado numa experiência rica? Mas é preciso tornar completamente claro que todos estes cargos eclesiais foram criados por homens e nenhum foi criado por Jesus.

Foi a Igreja que deu a si própria a sua estrutura e organização, e os cargos que criou correspondiam às necessidades daquele tempo. A Igreja precisa, porém, de adaptá-los permanentemente às novas situações. Pode conservá-los, mudá-los ou aboli-los totalmente, segundo as exigências dos tempos. Os ministérios são para a Igreja e não, ao contrário do que pensam muitos hoje, os fiéis para os ministérios. Os ministros da Igreja devem estar ao serviço dos fiéis e não os fiéis ao serviço dos ministros da Igreja.

As necessidades dos fiéis são, portanto, a lei suprema na estrutura dos cargos eclesiais. Se essa necessidade for uma Igreja sem Papa, que seja uma Igreja sem Papa; se for uma Igreja sem bispos, que seja sem bispos; se for uma Igreja sem padres, que seja sem padres. A Igreja não só pode abolir os actuais cargos, mas também introduzir novos. Não pode capitular perante barreiras que ela própria ergueu (por exemplo, o celibato obrigatório), pelo contrário, deve afastá-las. O novo Código do Direito Canónico (Codex luris Canonici, N. 1752), de 1983, termina com a afirmação: «Salus animarum in Ecclesia suprema semper lex esse debet» (a salvação dos homens tem de ser sempre, na Igreja, a lei suprema). Isto quer dizer que a Igreja tem de colocar todo o poder que possui ao serviço dos seres humanos.

 

Sacramenta propter homines - também os sacramentos existem por causa dos seres humanos

Tal como no respeitante às estruturas da Igreja, também quanto aos sacramentos se julga que foram instituídos por Jesus. Segundo a tradição da Igreja, três coisas pertencem a um sacramento: é um sinal exterior que é mediador de uma graça interior e foi instituído por Jesus. Depois de muitas hesitações, o Concílio de Trento decidiu, no século XVI, que há sete sacramentos: baptismo, confirmação, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimónio. A Reforma só defendeu a existência de dois: o baptismo e a ceia, mas também do lado católico houve dúvidas quanto a alguns sacramentos. A unção dos enfermos é realmente um sacramento, que pode ser equiparado ao baptismo? Será o matrimónio um sacramento? Nunca houve dúvidas quanto ao baptismo e à ceia. No fim do Evangelho de Mateus há a ordem de baptizar dada por Jesus aos onze discípulos: «Ide a todos os povos, tornai todos os homens meus discípulos e baptizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (28, 29). E na última ceia com os discípulos, Jesus deu-lhes pão e vinho como seu corpo e sangue, e ordenou-lhes que o fizessem em sua memória (Lc. 22, 19; 1 Cor. 11, 24).

A actual investigação bíblica sabe que as narrativas da ceia no Novo Testamento estão fortemente influenciadas pelo modo como a Eucaristia era celebrada nas diferentes comunidades. Em linguagem técnica, diz-se que se trata de narrações que não contam o acontecimento histórico, mas o pensamento e a praxis da comunidade em que o Evangelho foi escrito, o que se chama formação da comunidade. Assim, as narrativas sobre a instituição do baptismo e da Eucaristia por Jesus são em parte formação da comunidade, isto é: a prática da Eucaristia não foi ordenada por Jesus, mas introduzida pelas comunidades. Sem entrarmos aqui em pormenores, podemos globalmente dizer que Jesus não instituiu nenhum dos sete sacramentos. Todos eles remetem para a prática das comunidades, são todos obra da Igreja.

 

A Igreja pode relacionar-se livremente com os sacramentos

Se todos os sacramentos foram instituídos pela Igreja, então ficam para sempre no âmbito da sua autoridade. Ela pode decidir por quem devem ser administrados e de que modo. Ao longo dos anos e dos séculos, vivemos neste domínio as transformações mais variadas. Ainda me lembro muito bem do tempo em que, se se queria comungar no dia seguinte, era pecado grave comer ou beber a mínima coisa a partir da meia-noite. Mais tarde, a Igreja aboliu esta determinação. Também houve um tempo durou vários séculos em que leigos presidiram à Eucaristia. Hoje, muitas comunidades têm de renunciar à Eucaristia, porque há falta de padres para presidir à celebração. A Igreja poderia mudar isto de uma penada, ficando o problema resolvido. A prescrição segundo a qual só um padre ordenado pode presidir à Eucaristia não provém de Jesus, pois, se assim fosse, a Igreja não poderia agir de modo diferente durante centenas de anos. A prescrição procede da Igreja, e esta torna-se escrava de leis que ela própria fez e que sem dificuldades poderia mudar.

 

O que não pode mudar na Igreja?

Se Jesus não fundou nenhuma Igreja nem instituiu nenhum sacramento, o que continua na Igreja que seja proveniente de Jesus? É ele o Senhor da Igreja, como permanentemente ouvimos? Sim e não. Quem levou a mensagem de Jesus a todo o mundo eram homens, seres humanos que estavam decididos a segui-lo como discípulas e discípulos e a formar uma comunidade, mas esta comunidade será sempre até ao fim dos tempos constituída por seres humanos e cometerá todos os erros que podem ser cometidos por seres humanos. É certo que Jesus estará sempre presente nesta comunidade, pois onde estiverem dois ou três reunidos em seu nome aí estará ele no meio deles (Mateus 18,20).

Jesus vê a comunidade dos seus discípulos e discípulas como comunidade de irmãos e irmãs, a qual tem como critério do seu comportamento a mensagem de Jesus. Tudo pode ser mudado na Igreja, só uma coisa é que não: a Palavra de Jesus, que lhe está confiada, Palavra que é a Boa Nova de Deus para os homens e para as mulheres. Noutros termos: Palavra referente à causa de Deus, que é a causa do ser humano. (…)

 

Herbert Haag (1915-2001), Biblista de renome internacional. Leccionou como Professor da Universidade de Tubinga.

Lucerna, 8 de Março de 2001

 

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 «Que Igreja (também) para as mulheres - Pe. João Alves, Diocese de Aveiro

https://drive.google.com/file/d/1n5AhAqNckoatuew6iOnGAGs-dn_wd0iQ/view?usp=sharing



 

11 de janeiro de 2021

Conversas no adro da Igreja - Jacques Gaillot & Eugen Drewermann

 



 

UM PROGRAMA DE ACÇÃO QUE RELEGA O

“AMOR DESINSTITUCIONALIZADO”

É UM PROGRAMA ANTI-JESUANO

 

 

A (Apresentador) - Monsenhor Gaillot, acha mesmo que a Igreja obscurece a esse ponto a imagem e a mensagem de Jesus de Nazaré?

 

JG (Jacques Gaillot) - Há algum tempo, fui convidado para um almoço nos arredores de Paris. Dirigi-me de metro para o local. Ao sair, verifiquei que chovia a cântaros. Abriguei-me num portal porque não levava nem gabardina nem guarda-chuva. Um homem veio ter comigo e perguntou-me se queria o seu impermeável. Respondi-lhe que ele também precisava dele: «Fique com ele. Sinto-me muito sensibilizado pelo seu gesto». Antes de ele ter continuado o seu caminho, soube que era judeu. Em seguida chega uma mulher com um guarda-chuva. Diz-me: «Monsenhor, abrigue-se no meu guarda-chuva, levo-o aonde tiver de ir». E lá fomos de braço dado, conversando. A certa altura diz-me: «Sabe quem é que lhe segura este guarda-chuva? É uma muçulmana». Disse para comigo: que sorte não ter levado nem gabardina nem guarda-chuva; assim, precisei dos outros. Se a Igreja não tem necessidade do próximo, se ela possui a verdade, se ela sabe o que é bom para os outros, não tem nada a receber. Quando se tem falta de qualquer coisa, aceita-se receber. O próprio Jesus começou por pedir de beber à Samaritana antes de lhe oferecer a água viva. A Igreja de hoje deve ser suficientemente simples para receber qualquer coisa da sociedade; em primeiro lugar, dos excluídos.

 

ED (Eugen Drewermann) - Jacques Gaillot, o que o senhor diz, mostra o erro que cometemos continuando a discutir a Igreja e continuando a permitir que a questão nos seja colocada. Estou convencido de que não é numa instituição que encontramos uma razão para nos mostrarmos humanos. Encontramo-la em nós próprios, na nossa capacidade de vibrar com o nosso próximo, nesta orientação do coração de que Jesus nos dá o exemplo. Se alguém me dissesse: mostro-me humano para contigo, emprestando-te a minha gabardina porque a Igreja o ordena, seria menos humano. É exactamente essa a opinião das pessoas. Encontramos pessoas maravilhosas como S. Francisco de Assis. Mas hoje o problema consiste no facto de termos durante demasiado tempo recorrido a personalidades como esta ‒ S. Francisco de Assis ‒ para desculpar outras figuras como Inocêncio III. Procedemos sempre como se meia-dúzia de santos fossem suficientes para reparar tudo o que a Igreja fez de horrível. É evidente que esses santos existem. Mas a razão pela qual existem pessoas tão maravilhosas já não é a Igreja. Fazem o que é humano fazer-se. Óptimo, se isto estiver de acordo com a Igreja. Mas, em caso de necessidade, fariam a mesma coisa sem a Igreja ou contra a Igreja, simplesmente porque são homens.

Todas as crianças alemãs conhecem a história tirada da obra de Lessing, “Nathan, o sábio”. Nesta peça de teatro, Sittah, judeu, explica a Saladino, muçulmano: «Não conheces os cristãos e não os queres conhecer. O orgulho dos cristãos não é o de serem homens, mas de serem cristãos. Gostam do que o seu salvador lhes dizia com humanidade, não por ser humano, mas porque foi ele que o disse. Foi uma sorte que tenha sido um homem de bem e que seja a sua virtude que lhes serve de exemplo». Sendo assim, já há mais de dois séculos que Lessing decidia afirmar peremptoriamente que, se os cristãos têm uma necessidade constante de uma instância exterior para lhes dizer o que devem fazer, isto é o suficiente para os impedir de alguma vez poderem chegar a ser humanos.

Se o importante, para eles, é pertencer a uma instituição e caminhar em grupo, isto faz com que nunca cheguem a ser pessoas. Têm então, à partida, um programa de acção que, no melhor dos casos, não suscita qualquer perigo, mas que aparece desde logo viciado na sua essência pelo simples facto de ignorar a liberdade. Esta definição já tem duzentos anos, e é a melhor e a pior descrição daquilo que hoje a Igreja romana representa. É preciso acabar com isso permitindo-nos ser homens. Ou a Igreja romana aprende a escutar os seus fiéis e se transforma (regressando ao Jesus dos Evangelhos), ou então permanece tal como está, ou seja, continua a endurecer transformando-se em museu. Entretanto, não nos compete a nós responder à questão (essa competência foi-nos roubada há muitos séculos pela casta sacerdotal…).

Aquilo de que o homem necessita urgentemente é d’o exemplo de Jesus de Nazaré: por toda a parte onde intervinha com bondade, as almas sentiam-se satisfeitas, os olhos humedeciam-se, os corações abriam-se; sobre este aspecto, nenhum problema. Mas aquilo que de certeza não precisamos é de uma instituição que se atravesse no nosso caminho, declarando que ela é a continuação viva de Cristo e erguendo as suas barreiras de potência mundial dissociada dos homens. Aquilo que, pelo contrário, Jesus queria era a relação pessoal com Deus: «Não façais com que vos chamem "pai", e ainda menos "mestre"», dizia Ele (Mateus 23,1-36). Ora, é precisamente este carácter imediato que o sistema da Igreja romana impede. Proclamando o reino de Deus, Jesus de Nazaré não se propunha fundar uma Igreja, mas fazer com que Deus estivesse próximo do homem.

Torna-se necessário fazer toda a justiça ao protestantismo quando, há quinhentos anos, declarava que uma Igreja, qualquer que ela fosse, devia deixar-se medir por este exemplo, em vez de exibir um Papa que não pode enganar-se, enquanto que a Bíblia podia sempre dar azo a mal-entendidos.

 

A - Senhor Drewermann, enquanto a fé permanecer como um processo colectivo e mantiver a dimensão elementar de um «nós», temos necessidade de uma comunidade, ou seja, de uma instituição ...

 

ED – Desse modo, estamos a cometer dois erros. O primeiro é o de nos interrogarmos continuamente sobre o que a Igreja faz e manda que se faça. O segundo erro é não entender que a única questão legítima é a de nos interrogarmos esta noite: o que é que fazemos nós da mensagem de Jesus? Que fazemos nós pelos três quartos da humanidade que têm fome? Que fazemos nós pelos milhões de animais que são torturados sistematicamente? Que fazemos nós pelos grupos da nossa sociedade que são marginalizados? Que fazemos nós dos poucos dias ou dos vinte anos que ainda nos restam para viver? Para Jesus é isso que se torna premente. Em relação a isso, a questão de saber o que é que faz a Igreja é perfeitamente secundária. É evidente que estou de acordo com a afirmação de que a fé deve ser vivida pelo menos a dois. Mas é muito mais importante saber que a fé cristã é antes de mais uma decisão que diz respeito a todos nós. Ninguém poderá dispensar-nos disso. Nas suas lições sobre a essência do cristianismo, Adolf von Harnack dizia a certa altura que a salvação não diz respeito nem ao povo nem ao Estado, mas unicamente ao indivíduo. E a primeira questão que se nos põe é a de sabermos se vivemos de tal maneira que, com isso, ajudamos verdadeiramente os outros no caminho da liberdade. Perguntando quem vem buscar-me do exterior, pela mão, à sombra de uma instituição que desejaria ter razão, invertem o problema.

 

A - Não se trata de ‘pegar na mão’, mas de saber se ‘temos necessidade’ de uma comunidade. Monsenhor Gaillot, não é isso que nós fazemos, cada vez que nos encontramos em conjunto para partilhar a refeição? «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles». Trata-se de uma missão essencial. Ou, para o dizer por outras palavras, quando Jesus diz: «Eu sou a verdade e a vida» pretende fornecer-nos uma perspectiva com a qual tudo se torna possível.

 

Jacques Gaillot - Sempre tive necessidade de uma comunidade para viver a minha fé. A minha primeira comunidade foi a família. A comunidade é para mim um espaço de liberdade que areja a minha fé. Actualmente vivo juntamente com excluídos. Recentemente, num domingo, celebrava a missa numa sala onde as famílias se reúnem todas as semanas. Estavam presentes mendigos, jovens sem trabalho, gente sem importância, sem esquecer, no entanto, um industrial que se encontrava de passagem, um grande editor e amigos jesuítas. O evangelho das bem-aventuranças inundava-lhes o coração. A palavra circulava. Um mendigo tomou a palavra: «Eu sou um pobre. Sinto-me feliz como sou. Sei que Deus está presente, que não me abandona. Todos os dias tenho aquilo que é preciso para viver. Mas há as crianças...». E, assim, o repasto eucarístico à maneira de Jesus constitui um momento muito intenso. Isto ajuda-nos a realizar aquilo que Deus espera de nós. Durante a semana todos retomam o tema e voltam a falar sobre o mesmo assunto. A comunidade é para mim qualquer coisa de necessário.

 

Eugen Drewermann - Julgo que não existe a menor divergência entre nós, a respeito deste ponto. (…)

 

Dialoque sur le parvis entre un êveque et un théologien” (Desclée de Brouwer, 1996) ou «Conversas no adro da Igreja», Jacques Gaillot & Eugen Drewermann, Editorial Notícias 1997.

 

DESCARREGAR AQUI O LIVRO NA ÍNTEGRA

 

 



24 de outubro de 2020

EUTANÁSIA 12

 


 

LAURA FERREIRA DOS SANTOS

  (…) «Quanto ao número de pessoas que procurariam o suicídio medicamente assistido, Cassell não está muito preocupado, pois crê que a maior parte delas pretende manter-se ligada à vida o maior tempo possível, o que expli­caria o número reduzido de pedidos de suicídio medicamente assistido no Estado do Oregon (USA).

As reflexões de Cassell em torno da dor e do sofrimento permitem-nos avaliar melhor outros posicionamentos. Do lado de quem é contra o sui­cídio medicamente assistido nota-se por vezes a necessidade de enfatizar que, como o próprio Cassell assinala, «De um modo virtual, todas/os as/os doentes com doença grave podem estar fisicamente confortáveis» (Cohn & Lynn, in The case against: 245). Nas palavras de Leon Kass, «o número daquelas pessoas com dor realmente intratável é de facto bastante baixo» (in The case against: 23). Naturalmente, considerar-se que a dor só muito raramente é refractária a algum tipo de tratamento é tentar dizer-se que a legalização do suicídio medicamente assistido é uma medida desnecessá­ria. Nos casos mais graves, os seus adversários inclinam-se por vezes para o uso da sedação, basicamente a sedação controlada, não a terminal. Aliás, para alguns dos que admitem claramente a existência de um sofrimento exis­tencial, ou «profundo mal-estar emocional» (“emotional distress” - neste contexto, Cassell utiliza mais o termo distress do que o de suffering), a sedação controlada é também a alternativa que apresentam, não se interrogando sobre se esse procedimento respeitaria ou não as convicções ou valores da/o doente.

Não é essa, no entanto, a opção de uma das organizadoras do livro «The case against», Kathleen Foley, quando escreve no livro «a solo». Sendo decerto a autora que, neste livro, mais relevo dá ao facto de haver um inadequado tratamento ou alívio da dor e do sofrimento, os dados que apresenta são assustadores (cf. The case against: 298), aceitando que se diga que «o subtratamento» (undertreatment) da dor é «a forma mais comum de abuso dos/as doentes» (ibid.: 304). Aliás, em vez de colocar em primeiro lugar a saúde como principal fim da medicina, afirma que «O alívio do sofri­mento é reconhecido universalmente como uma finalidade fundamental do cuidado médico» (ibid.: 297).

Mas é com muita prudência que aborda a questão do «profundo mal-estar emocional». Admite claramente a sua existência, reconhece que é o sofrimento que «os/as médicos/as podem ser menos capazes de controlar com terapias médicas» (ibid.: 302), mas apresenta-o como estando ainda mal estudado, logo mal compreendido, quase como se fosse um enigma o modo como certos medos dos/as doen­tes graves contribuem para este profundo mal-estar existencial, mesmo na ausência de dor. Curiosa ou sintomaticamente, não dei conta de que o livro de Eric Cassell já referido figurasse nas notas deste capítulo, tal­vez por a sua abordagem abrir pistas para resolver este sofrimento pela via do suicídio medicamente assistido, algo que não se pretende.

Para os opositores da sua legalização, não parece ser muito adequado entrar pelas questões do sentido ou significado, como já se viu com Callahan, a não ser que se posicionem numa perspectiva religiosa, o que é actualmente pouco produtivo de um ponto de vista estratégico. Portanto, mais vale evitar as questões do sentido existencial do sofrimento e passar do domínio pessoal para o social, insistindo antes na impossibilidade de construir salvaguardas seguras. Por isso também, não admira que, quando o sofrimento existen­cial é admitido, só pareça haver um modo fundamental de lidar com ele: não discuti-lo, mas «sedá-lo», terminalmente se necessário, não obstante haver quem afirme que «Nalgumas situações clínicas, não consegue aliviar os sintomas do/a doente […]» (Dan W. Brock, in The case for: 133).

Se a sedação, como vimos, não é a opção de Foley quando escreve sozi­nha, pois apenas recomenda que o assunto seja melhor estudado, já quando conclui o livro juntamente com Herbert Hendin esta estratégia aparece­-nos recomendada para os doentes em morte iminente, com base no seu consentimento ou no do seu representante legal, para aliviar um «sofri­mento» apenas assim referido, sem qualquer especificação (cf. The case against: 326),

A problemática das estratégias a adoptar perante o sofrimento por parte de quem se opõe ao suicídio medicamente assistido permite-me introdu­zir aqui, embora de um modo rápido, a questão dos cuidados paliativos, pois são muitas vezes encarados como a melhor alternativa ao suicídio medicamente assistido. No entanto, nem sempre os cuidados paliativos, mesmo quando bons, são o oásis de auxílio que se poderia crer, mesmo deixando de lado a dor e o sofrimento refractários. Na filosofia subjacente a algumas destas instituições existe, como afirma Marcia Angell (e já Put­nam também assinalara em «Hospice or hemlock?», “Lar da Terceira Idade ou cicuta?”), «um orgulho profissional que fica muito próximo da hubris e da rigidez» (The case for: 22). Quer isto dizer que, por vezes, possuem uma convicção muito inabalável do que sig­nifica uma «boa morte», não deixando espaço para a concepção pessoal de quem está a morrer.

Finalmente, coloca-se do lado dos defensores da morte medicamente assistida a questão de saber se será legítimo avançar-se com a sua despe­nalização − e, de um modo mais alargado, com a despenalização das duas vertentes da morte assistida − quando nem todas as pessoas têm acesso a bons cuidados paliativos. Na parte conclusiva de The case for, Quill e Bat­tin respondem resolutamente que sim, para serem justos relativamente àqueles/as que, mesmo estando servidos/as por óptimos cuidados palia­tivos, pedem para morrer por se encontrarem em sofrimento intolerá­vel. Aliás, retomando o título sugestivo do livro de Constance Putnam, «Hospice or hemlock?», estes autores consideram, logo na «Introdução», que as duas possibilidades deveriam ser oferecidas às populações, numa situ­ação cumulativa e não disjuntiva. E, na «Conclusão», consideram que o que mais poderá beneficiar e proteger as pessoas não será uma proibição total, mas uma abertura completa em torno da discussão deste assunto, reclamando-se igualmente uma maior consciencialização do público em torno das questões de fim-de-vida.

 

3. Conclusão: o «conflito das razoabilidades»

 

Daniel Callahan afirma, como vimos, que do ponto de vista de uma razão instrumental, o suicídio poderia não ser qualificado de irracional, pois decorreria coerentemente das premissas de partida. No entanto, consi­derava-o não razoável, pelas razões que explicitei. Mas para além ser uma grave omissão tender a tratar todos os suicídios do mesmo modo, a ques­tão é que não há apenas uma forma de razoabilidade, embora essa ideia nos pudesse tornar o mundo menos problemático, assim como a nossa vivência nele. O facto é que, habitando nós em sociedades democráticas em que, como afirma Rawls, o facto do pluralismo razoável é a feliz rea­lidade em que nos movemos, pois é assim que a razão prática funciona quando se move dentro de instituições tendencialmente livres, a razoa­bilidade implica, como o mesmo Rawls escreve, estar-se disposto «a dis­cutir os justos termos que as outras pessoas propõem» (Rawls, 1993: 49). Ora, não é esta sensação que tenho ao ler Callahan e outros opositores do suicídio medicamente assistido. Nalguns casos, dir-se-ia entenderem que, dos defensores do suicídio medicamente assistido, se apoderou uma von­tade louca de matar «compassivamente» todos/as os/as cidadãos/ãs que se possa pensar estarem em sofrimento irreversível. Embora se deva reco­nhecer que Callahan não vai tão longe nas suas afirmações, vemos Kass dizer que «Eles/as vêem a encosta resvaladiça [slippery slope] e abraçam avi­damente o princípio que justificará descer inteiramente toda a encosta» (cf. The case against: 26).

Por outro lado, já se viu quanto o sentido da razoabilidade está ligado a formas diversas de perspectivar a organização social. Quanto mais dis­posto se estiver a reconhecer o «facto» do pluralismo razoável, mais formas aceitáveis de razoabilidade se poderão reconhecer, embora não tenha­mos que as assumir como nossas. Como escreve Rawls, «É irrealista − ou pior, levanta suspeição e hostilidade mútuas − supor que todas as nossas diferenças estão enraizadas apenas na ignorância e na perversidade [...]» (Rawls, 1993: 58).

Finalmente, e numa apreciação forçosamente breve, parece-me dever ser dito que a conjugação das considerações de Cassell sobre o sofrimento, enfatizando o seu carácter altamente particular, e as considerações de Rawls sobre «os fardos do juízo» (the burdens of the judgment), remetendo para tudo aquilo que condiciona a nossa experiência pessoal e os nossos juízos, tornando-os também por vezes muito pessoais sem que daí decorra qualquer insinuação de desrazoabilidade (cf. ibid.: 54-58), reforça a ideia de que, para se fazer justiça a esta diversidade humana de valores, convicções, sensibilidades e, consequentemente, modos diferentes de experimentar o sofrimento, não se pode enveredar pela imposição de regras sociais que obrigam algumas pessoas a morrerem de acordo com as convicções dos outros e não de acordo com as suas próprias convicções.

 

Fora das supostas tradições milenares sobre os deveres da profissão médica, não há apenas a possibilidade do caos, da desumanidade ou do assassinato. Há também lugar para uma humanidade maior

 

Pequeno excerto do Cap. IX (pp. 178-181) «“Dêem-me a liberdade e, se eu quiser, dêem-me a morte”. Pensar o suicídio medicamente assistido a partir de duas posições antagónicas» pertencente ao livro “A morte assistida e outras questões de fim-de-vida” de Laura Ferreira dos Santos, Edições Almedina S. A. 2015. ISBN 978-972-40-6106-1.

 

 

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La foi ce lourd fardeau…?!

 

«Ceci nous mène à expliciter le concept de foi.

«La tradition chrétienne l'a toujours souligné avec force: la foi n'est pas adhésion intellectuelle à un corps de doctrines, mais présence réelle de l'Esprit de Dieu dans les croyants. Recevoir la foi ne signifie pas, dès lors, qu'on adhère à une «vérité», mais bien plutôt implique un changement profond dans la manière de vivre.

«L'expérience de la foi est de celles qui font découvrir à une personne qu'elle n'est pas contrainte - tel le chameau dont parlait Nietzsche - à traîner ou à porter ce lourd fardeau: faire ce qui est bien et croire ce qui est vrai.

«Elle devient capable d'être simplement elle-même, parce qu'elle réalise qu'elle a été créée ‘pour son propre compte’. Non! Une telle expérience n'est pas d'ordre rationnel: elle est liée en profondeur à la découverte et à la reconnaissance du fait qu'on est aimé.

«Il n'est aucune raison qui rende compte du fait d'avoir été simplement créé par amour. C'est un don gratuit, qui rend la personne capable d'être elle-même. Dans le chapitre suivant, nous essaierons de caractériser le changement de perspective, faute duquel il est impossible de comprendre la Bonne Nouvelle qui libère

 

Gérard Fourez, “Pour libérer la foi”, Éditions J. Duculot  S.A. 1975, B-5800 GEMBLOUX, p. 20, ISBN 2-8011-0059-5.

 

 

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«Fora das supostas tradições milenares sobre ‘os deveres da profissão médica’, não há apenas a possibilidade do caos, da desumanidade ou do assassinato.

Há também lugar para uma humanidade maior

Laura Ferreira dos Santos

 

É com o depoimento de um dedicadíssimo cirurgião norte-americano ‒ Sherwin B. Nuland que decidi pôr fim às «entradas» (nesta biblioteca “A Sala de Cima”) sobre “A Morte Assistida”, tema que dá mais um passo, no seu processo parlamentar, com a votação de ontem na Assembleia da República (23 de Outubro de 2020), com a qual foi rejeitada a proposta de Referendo Nacional sobre a Despenalização da Eutanásia.

“A proposta de referendo sobre a despenalização da eutanásia foi chumbada com os votos contra do PS, BE, PCP, PEV e PAN, e de nove deputados do PSD e das duas deputadas não inscritas (Cristina Rodrigues e Joacine Katar Moreira). Na bancada social-democrata, os restantes deputados votaram a favor ao lado do CDS e do deputado único da Iniciativa Liberal. Maioria de deputados do PSD votou a favor [do Referendo], Rui Rio votou contra. André Ventura, do ‘Chega’, não votou por se encontrar em campanha eleitoral nos Açores. Não foram registadas abstenções.” (jornal PÚBLICO, 23/10/2020)

A “Humanidade Maior”, de que fala Laura Ferreira dos Santos ‒ mais um nome de Mulher que ficará para sempre associado a um (este) grande momento civilizacional em Portugal ‒ está bem patente no depoimento que se segue «Las lecciones de la experiencia» de Sherwin B. Nuland. Para mim que sou médico, para além do imenso prazer que tive em o ir saboreando enquanto o traduzia, o testemunho tocou-me profundamente. Por isso, sinto que devo dar graças a Deus por me ter proporcionado ter vindo a esta vida! Espero que este testemunho de S. B. Nuland não só contribua para a meditação espiritual dos que o vierem a ler, como também ajude a humanizar ainda mais a nossa Humanidade pelos relances e ramificações existenciais que ele suscita, com os quais nos surpreende e desafia. De nada valem as ideias e as opiniões se sempre virarmos a cara às nassas em que a vida humana é fértil.

 

 

 

 

 

 

AS LIÇÕES DA EXPERIÊNCIA

 

É muito frequente os rabinos terminarem a cerimónia fúnebre com esta frase: «Que a sua memória sirva de bênção». Trata-se de uma fórmula desconhecida para não judeus que também nunca ouvi nas igrejas cristãs. Ainda que ela exprima algo que é um desejo obviamente universal, este pensamento muito simples merece que reflictamos mais sobre ele, e não somente nos lugares consagrados ao culto.

A esperança que conferiu alguma paz a Robert DeMatteis [advogado de quarenta e nove anos, líder político de uma pequena cidade do Connecticut, de temperamento próprio de quem nunca aceitava ordens de ninguém, superobeso que entrava em pânico diante de batas brancas… e que S B Nuland teve de tratar de um cancro gigantesco, super-invasor e disseminado com origem na válvula ileocecal], a esperança para DeMatteis era poder deixar memória de si mesmo; ela também residia no significado que a sua vida poderia vir a ter para os que lhe sobreviessem. Bob teve sempre bem claro que a sua existência era evidentemente não apenas finita, como também podia terminar inesperadamente. Era nisso que residia a origem daquela horrível ansiedade que lhe causava tudo o que tivesse a ver com medicina, mas também a sua aceitação quando se deparou com a definitiva enfermidade.

Na morte, não há maior dignidade do que a da vida que a precedeu. Este é o tipo de esperança de que todos podemos vir a usufruir e é a mais duradoura esperança: ela reside no significado que teve a vida do indivíduo.

Existem fontes de esperança mais imediatas, mas algumas delas são inacessíveis. Como médico, sempre prometi aos meus doentes moribundos que faria todo o possível para lhe dar uma morte fácil, mas frequentemente vi essa esperança desvanecer-se, apesar dos meus esforços. Igualmente, num Centro de assistência a doentes terminais, onde o único objectivo é o alívio, a tranquilidade e a paz, muitas vezes esse objectivo falha. Tal como muitos dos meus colegas, mais de uma vez eu infringi a lei a fim de facilitar a ‘passagem’ de um doente, já que de outro modo eu nunca teria podido cumprir com a minha promessa, explícita ou implícita.

Uma promessa que podemos cumprir e uma esperança que podemos dar é que nunca deixaremos ninguém morrer só. De entre as múltiplas formas de morte solitária, seguramente, a mais desoladora produz-se quando (…).

 

Segue-se o texto integral:

AS LIÇÕES DA EXPERIÊNCIA de Sherwin B. Nuland