teologia para leigos

2 de outubro de 2016

DEVOLVER JESUS AO POVO 3/5





VI. O MOVIMENTO DE JESUS


1 – A caracterização do movimento

Faz parte da nossa cultura cristã interpretar a prática e o projecto de Jesus como acções viradas essencialmente para a fundação da Igreja. Refiro-me à prática e ao projecto, mas, na leitura que as igrejas fazem, fala-se frequentemente de "ministério" de Jesus, "pregação" de Jesus, como se Jesus fosse à partida o "sacerdote" da Igreja Católica ou o "pastor" das Igrejas protestantes.

Hoje em dia, não existe nenhuma exegese séria que dê suporte a tal ponto de vista. No horizonte histórico-cultural do povo hebreu em que Jesus desenvolveu toda a sua actividade, o tema «Igreja», tal como é concebida na cultura católica, na protestante, na ortodoxa ou na arménia, era absolutamente impensável. Tal enfoque nasce no mundo helenista, após a morte de Jesus.

A imensa maioria dos inúmeros estudos que se realizaram sobre Jesus, a sua actividade, a sua mensagem, provêm de teólogos que têm por trás deles uma instituição, uma igreja. A epistemologia deles está enquadrada pelo contexto dessa instituição. Isso faz com que os pressupostos prévios estreitem as possibilidades que as fontes que consultam lhes abrem.

A abertura dos estudos teológicos às ferramentas hermenêuticas e críticas provenientes de distintas disciplinas sociais é recente e choca necessariamente com dogmas estabelecidos há muitos séculos. Como poderá, por exemplo, um teólogo católico que dirige uma cátedra de teologia numa universidade católica aceitar que Jesus não tenha fundado nenhuma igreja? Poderá, ele, admitir que a célebre afirmação que Mateus coloca nos lábios de Jesus, sobre o poder de atar e desatar, não corresponde ao Jesus histórico?

Quanto a isso, os teólogos provenientes da tradição protestante gozam de maior liberdade, mas até esses possuem os mesmos constrangimentos provenientes, quer das igrejas a que pertencem, quer do quadro epistemológico da própria teologia que, em geral, não inclui ou não parte de uma análise histórica, económica, política e social prévia.[1]

Isso não quer dizer que possamos fazer exegese e hermenêutica desprovidas de qualquer resquício de preconceito. Impossível: todos o temos. Quanto a isso, o pior que nos pode acontecer é pensar que estamos livres deles e, dessa maneira, sermos capazes de um conhecimento objectivo, porque, então, não só não nos libertamos de todo o preconceito como perdemos a oportunidade de manter sobre eles a necessária vigilância epistemológica.

Do meu ponto de vista, é esta a falha fundamental dos trabalhos de Gonzalo Puente Ojea, no que diz respeito a esta questão. Ojea pretende realizar a hermenêutica com «uma postura de plena independência intelectual» (FIP, p. XVII), e reflectir «sem preconceitos» (idem, p. 26), mas, ao mesmo tempo, vê em todos os outros autores neotestamentário má-fé, intenções enganosas, adulterações e todo o tipo de maldades.

Depois dos brilhantes e profundos estudos weberianos sobre as estreitas relações entre o religioso e a sua expressão conceptual, entre o teológico e o económico-social, não é possível fazer teologia sem ter em conta o contexto sociopolítico. O teológico tem que ver com o simbólico, com o significado. A teologia não descobre factos novos, mas significados novos.

Lendo os evangelhos sinópticos, e em particular o de Marcos, nunca tropeçamos numa igreja. Apenas nos encontramos com Jesus que anda sempre a caminho, que passa a vida daqui para acolá, que faz curas numa casa, numa sinagoga ou no campo, que fala ao povo no campo ou na margem dum lago. Atravessa o lago em todas as direcções e até arrisca ir à Sirofenícia.[2]

No entanto, para lá desta actividade contínua e incansável, Jesus organiza algo e não reduz a sua acção apenas a comover consciências sem cuidar o mínimo do futuro desse impacto espiritual. A resposta de Jesus está na construção dum «movimento». Jesus não funda uma Igreja, mas um movimento. Devemos, então e antes de mais nada, perceber em que consiste um movimento.

O primeiro problema que nos surge é que, por princípio ou em essência, não podemos definir um movimento. E não se consegue, porque definir alguma coisa é delimitá-lo, e um movimento que o seja a sério arrasa com todo o tipo de limites, ultrapassa todo o tipo de institucionalização. É semelhante a um rio que salta fora das margens, que rompe todos os diques e taludes.

A lógica do movimento é heraclítica.[3] É como um rio no qual é impossível banhar-se duas vezes na mesma água, porque flui constantemente. O movimento é como a seiva de uma árvore, como um «impulso vital» ao qual se refere Henri Bergson. A seiva é incompatível com estruturas. A árvore bem tenta aprisioná-la através do tronco, dos ramos e das folhas. Inutilmente, pois a seiva segue sempre o seu caminho: quer sempre mais e, por isso, a árvore vê-se na obrigação de fazer brotar novos ramos, novas folhas.

O movimento é o impulso vital dum povo. Neste sentido, pode-se-lhe aplicar a categoria de «carismático», formulada por Max Weber. Para Rafael Aguirre o movimento é «um grupo carismático que surge ao lado das instituições estabelecidas, frequentemente em contraposição a elas, que defende comportamentos não habituais, sobretudo no campo económico, e que se encontra polarizado por objectivos imediatos» (Mjic, p. 34). Isto não é uma tentativa de definição de "movimento" – porque, como ele o dizia, é coisa impossível – mas uma tentativa de aproximação. É incorrecto querer colocar um «grupo» como o sujeito-cabeça do movimento, porque isso faz com que se valorize a parcialidade. O impulso vital e a força que configura o núcleo do movimento são constituídos pela conjunção de diversos sectores sociais cujos contornos são indefinidos.

Não é por acaso que, nas sociedades não capitalistas nas quais propriamente não existem classes sociais, as respostas sociais que surgem sejam de tipo ꞋmovimentistaꞋ. O mesmo acontece, hoje e dia, nos países terceiro-mundistas. Os movimentos da época moderna surgem nestes países do terceiro-mundo e não naqueles em que o capitalismo atingiu um certo grau de desenvolvimento.

Os movimentos são constituídos por vastos sectores sociais populares, aquilo que na nossa prática política sempre denominamos por "campo popular". Falamos mais de «sectores populares» que de classes sociais, porque, nas sociedades nas quais se desenvolvem os movimentos populares, os grupos sociais não existem com os contornos específicos que são próprios das classes sociais.

Assim, na nossa sociedade, é muito difícil atribuir essa categoria de «movimento» a uma classe social propriamente dita (p. ex., aos que trabalham por conta própria, aos tendeiros, aos que fazem trabalho temporário, aos desempregados, etc.), que sempre constituiu uma percentagem significativa da população, e que a partir da imposição do neoliberalismo conservador passou a ser a imensa maioria. Não se pretende negar a existência de classes sociais, mas deixar claro que elas se encontram socialmente mal desenhadas e com contornos confusos.

Os sectores que estão incluídos num movimento vão desde a classe operária até aos desempregados, aos bairros de lata, passando por mesclados e por vastos sectores intermédios até aos pequenos e médios empresários. Se existe algo ambíguo e sumamente complexo é aquilo que se designa por «classe média».

O «movimento» surge à margem das instituições estabelecidas. Mais: é alérgico a todo o tipo de institucionalização, porque isso implicaria a imposição de limites e freios ao impulso vital, ou seja, à essência do movimento. Contudo, o movimento deve institucionalizar-se, caso não queira diluir-se e desaparecer como uma nuvem de vapor ou ser manipulado a bel-prazer por alguém.

Assim se produz uma contradição intrínseca no movimento: recusa todo o tipo de institucionalização ao mesmo tempo que a exige sob pena de desaparecer. Se se procura institucionalizar o movimento, ele desaparecerá, congelando-se. A solução será: a instituição e as instituições em que o movimento se exprime não o devem abarcar totalmente, mas servi-lo dentro de objectivos determinados. As instituições são instrumentos que se oferecem ao movimento a fim de que ele realize as missões que lhe são exigidas.

Não serve qualquer tipo de instituição, mas apenas aquela ou aquelas que respondam aos objectivos que deram origem ao movimento. Em primeiro lugar, muitos movimentos acabam por morrer traídos pelas instituições ou pela instituição que o deveria encarnar. É o caso do Partido Justicialista, sobretudo a partir da década de 90, mas também antes, quando o seu surgimento significou a morte do movimento peronista, e o do Partido Radical aquando da época alvearista, na década de 30 (Marcelo Torcuato de Alvear, 1868-1942), o que significou a morte do movimento yrigoyenista (Hipólito Yrigoyen, 1852-1933).

Em segundo lugar, para construir um movimento, os diversos sectores sociais unem-se à volta de grandes eixos que exprimam os seus problemas fundamentais e os problemas de toda a nação. Assim, quando se formou o peronismo da década de 40, alguns desses eixos foi a criação de organizações laborais (grémios/sindicatos), de obras sociais, a questão da industrialização, a nacionalização de sectores fundamentais para a economia, o voto das mulheres, etc.

Em terceiro lugar, os movimentos surgem a partir de baixo segundo um processo de gestação lenta, à volta das necessidades comuns dos sectores populares, que se exprimem nos grandes eixos que acabo de citar. O peronismo surge, à luz do dia, a 17 de Outubro de 1945. De um certo ponto de vista, pode dizer-se que não foi preparado por ninguém. O «17 de Outubro» foi uma reacção espontânea de sectores populares diante da agressão das classes dominantes. Segundo um outro ângulo de visão, deve dizer-se que teve um longo processo de preparação. Desde a crise do movimento yrigoyenista, que foi ultrapassado, que se vinha gerando o peronismo nas entranhas do povo.

É assim que acontece com todas as revoluções: com o surgimento de movimentos sociais e políticos que se constituem em protagonistas de grandes mudanças. Isto está conforme com o que dizia Hegel, «o espírito que se vai constituindo amadurece lenta e silenciosamente rumo a uma nova configuração; ligado ao mundo anterior, o espírito vai-se soltando dele partícula a partícula, sendo os estremecimentos desse mundo novo apenas anunciado por meio de sintomas isolados» até que surge «a aurora que, subitamente como um raio ilumina totalmente a imagem do mundo novo» (FE, p. 12).

A vitalidade do movimento exige que a instituição ou as instituições não o fagocitem. A instituição ou as instituições são instrumentos do movimento ou da vida. Existirá sempre o perigo que o instrumento – a instituição – suplante o movimento. Este, na medida em que mantenha a sua vitalidade, ultrapassará o instrumento por todos os lados.

Neste sentido, as assembleias que surgiram a partir da aurora que iluminou o rosto nas jornadas de 19-20 de Dezembro de 2001 constituíram um movimento formado por uma multidão de movimentos. Todos aqueles que não sejam capazes de formar uma organização no sentido amplo diluem-se. Se se mantiverem apenas como rizomas, desaparecerão.


1.1.     O movimento de Jesus é um movimento popular profético

Na verdade, todo movimento profético é popular. Nunca é demais dizê-lo por causa das interpretações «religiosas» daquilo que é profético, as quais costumam desligá-lo do seu profundo enraizamento popular. Para além disso, a partir de tudo aquilo que estamos a analisar neste trabalho, referirmo-nos à prática e ao projecto de Jesus e prescindir do povo – o óklos – é impossível.

Trata-se de um movimento profético no sentido dos movimentos proféticos aos quais pertenceram os grandes e radicais profetas de Israel. Com efeito, e tal como já vimos, o povo reconhece-o como tal (Mc 8, 27-29). Os sectores populares, ao falar de Jesus, referiam-se aos grandes profetas da sua história. Para eles era evidente que Jesus era um representante dessa estirpe de profetas populares que marcaram a sua história.

Jesus fora discípulo de João Baptista, fez parte do seu movimento, do qual se afasta por achar que o movimento deve ter características diferentes daquelas que o Baptista havia traçado. Mas é por de mais evidente que, apesar das contradições entre os dois movimentos, eles têm uma característica comum: o serem proféticos. A prova de que é assim é que parte do movimento do Baptista passa-se para o grupo dos primeiros cristãos pós-pascais.[4]

Quando Jesus vai à sua aldeia – Nazaré – para aí anunciar também a sua mensagem do Reino, os seus camponeses, que o conheciam como um deles, com a mesma formação deles, não podiam aceitar que ele agora pretendesse anunciar-lhes a salvação. E rechaçaram-no. Então, Jesus exclama: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» (Mc 6, 4) Ou seja, Jesus reconhece-se como um profeta.

No período intermédio entre a formação do movimento na Galileia e o enfrentamento dos poderes estabelecidos, Marcos intercala o texto teológico apocalíptico conhecido como «Transfiguração». Nesse texto apresenta-se Jesus dialogando com Moisés e Elias. Estes dois, segundo a opinião popular, são as figuras máximas do profetismo. Moisés[5] é o profeta que guiou o povo[6] aquando do seu Êxodo do Egipto e Elias é o profeta que enfrenta, sem concessões, o casal real Acab e Jezabel (1Rs 18, 13; ler todos os 3 capítulos deste livro: cap. 17, cap. 18 e cap. 19).

A atitude de Jesus diante dos sacerdotes e do Templo – o símbolo máximo do poder sacerdotal – é a mesma atitude dos profetas. De facto, o conflito entre o sacerdócio e o profetismo popular atravessa todos os séculos da monarquia hebraica, sobretudo desde o século VIII ao século IV, altura em que começa a sobressair a literatura apocalíptica.

Amós, o grande profeta das denúncias sociais mais radicais, enfrenta o sacerdote de Bethel, Amacias, funcionário da realeza do Reino do Norte. Amós é convidado pelo sacerdote a abandonar aquele território: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando. Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e o templo do reino.» (Am 7, 12-13) O profeta indigna-se e formula ameaças terríveis contra o sacerdote (Am 7, 17).

O sacerdote e o poder, o sacerdote e o rei constituíam dois polos contraditórios do poder, contudo, sempre negociando entre si, sempre estabelecendo pactos. Eram uma associação de interesses mútuos, facto que se repetia em todas as monarquias e impérios: no acádico, no babilónio, no assírio, no egípcio. Desde que se operou a unificação do poder régio-sacerdotal numa única pessoa, a anterior e clássica negociação entre rei e sacerdote passa a ser substituída pela maneira como se combina o poder real com o poder sacerdotal.

O conflito entre Amós e Amacias repete-se com Jeremias, um século mais tarde, no Reino do Sul, em Judá. Diante dos poderes político e religioso, que haviam convencido o povo a depositar uma confiança cega no Templo pois aí estava Deus para o defender de todos os inimigos, o profeta Jeremias tenta convencer o povo a não confiar no Templo enquanto aí se cometerem crimes (o Templo havia-se convertido num covil de ladrões: v. 11; Jer 7, 4-15; Marcos 11, 17 par.). Ressoa, então, a recriminação que Marcos coloca na boca de Jesus, quando este enfrenta o Templo de Jerusalém: "Vocês pensam que a minha casa é um refúgio de assassinos?" (Jer 7, 11) A Bíblia de Jerusalém em vez de «assassinos» traduz por «ladrões», «bandoleiros», para ficar mais perto da expressão de Jesus, o qual diz "covil de ladrões" (spélaion lestón) (Mc 11, 17).

Desta maneira, Jeremias enfrenta os poderes real e sacerdotal. Tal como aconteceu a Amós, é precisamente o sacerdote quem enfrenta Jeremias: «O sacerdote Pachiur, filho de Émer, superintendente do templo do Senhor, ouviu o profeta Jeremias pronunciar este oráculo. Pachiur mandou espancar o profeta e pô-lo no cepo da prisão, que estava na porta superior de Benjamim, junto do templo do Yahvé.» (Jer 20, 1-2)

Contudo, o profeta Miqueias é quem será o mais radical de todos os profetas, em matéria de enfrentamento do poder real e sacerdotal: «Por isso, por vossa causa, Sião será lavrada como um campo, Jerusalém será reduzida a um monte de pedras, e o monte do templo será um outeiro na floresta.» (Mq 3, 12)

É a esta corrente profética – que enfrenta os poderes real e sacerdotal – que Jesus pertence, cujo acto supremo, nesta luta contra estes poderes, será a irrupção no Templo de Jerusalém, o qual, nas palavras de Jesus, é como uma figueira que não dá figos e, por isso, deve ser cortada e lançada à fogueira. (…)

Rubén Dri
Professor e Investigador de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.


[pp. 56]






[1] Obviamente que existem excepções, e muitas delas notáveis, tais como John Dominic Crossan, Gerd Theissen, Rafael Aguirre, Florencio Mezzacasa e Ched Myers Binding the Strong Man: A Political Reading of Mark's Story of Jesus» – Deluxe Edition), para falar apenas de alguns trabalhos que me guiaram inúmeras vezes e cujas posições às vezes ponho em causa.

[2] Não concordo em nada com Puente Ojea que defende que «o Evangelho marquiano já é um evangelho eclesiástico, que apenas precisaria de uns quantos complementos por parte de Mateus e de Lucas. É um relato dogmático que, ainda que transido de grande emoção escatológica, tem os olhos postos no passado» (EM, p. 13). Ainda que nas Cartas Pastorais, dos finais do século I ou princípios do século II, já exista nelas uma certa inclinação para a ortodoxia, os dogmas são inaugurados no Concílio de Niceia no ano 325. Falar de dogmas ante-parto é um anacronismo: é o mesmo que pressupor a existência de uma Igreja, no sentido institucional, na comunidade de Marcos.
[3] Heráclito [500 aC] de Éfeso, o pai da dialéctica. [NdE]
[4] Acerca do tema da incorporação de membros do movimento Baptista na "comunidade do discípulo amado", cfr. Raymond Brown, «La comunidad del discípulo amado».
[5] A figura de Moisés é central na história do povo hebreu. Para a história yahvista, ele é um monarca. Para a história sacerdotal ele é apresentado subordinado ao sacerdote Aarão. E para a história elohista, tal como para a deuteronomista, é o maior dos profetas. Esta última é a concepção popular da figura de Moisés.
[6] Do Egipto não saiu nenhum "povo", apenas um grupo heterogéneo, um movimento. Na imaginação popular calou fundo, quanto à origem do povo, a gesta de libertação protagonizada por este grupo, que foi interpretado como o povo das Doze tribos. De facto, são os relatos yahvista e sacerdotal os que fazem esta interpretação, ao passo que a narrativa elohista mantém-se mais próxima dos aspectos históricos, na medida em que fala apenas de um grupo heterogéneo.


26 de setembro de 2016

DEVOLVER JESUS AO POVO 2/5




(cont.)

«Na continuação da Parábola do Semeador vem a célebre parábola do grão de mostarda:

«Dizia também: "Com que havemos de comparar o Reino de Deus? Ou com qual parábola o representaremos? É como um grão de mostarda que, ao ser deitado à terra, é a mais pequena de todas as sementes que existem; mas, uma vez semeado, cresce, transforma-se na maior de todas as plantas do horto e estende tanto os ramos, que as aves do céu se podem abrigar à sua sombra".» (Mc 4, 30-32)

O texto faz questão de sublinhar que se trata da «mais pequena das sementes» que se transforma na «maior das hortaliças». É um tema com longa tradição na história do povo hebreu: fora simbolizado pela luta do pastor David e a sua fisga contra o gigante Golias e a sua pesada armadura. Ezequiel tinha-o exprimido muito graficamente: «Eu próprio tomarei do cimo do cedro, do alto dos seus ramos colherei um broto, e plantá-la-ei num monte bastante alto. Plantá-la-ei na montanha elevada de Israel: deitará ramos, produzirá frutos e tornar-se-á um cedro magnífico». (Ez 17, 22-23)

O Reino de Deus surge da acção dos mais pequenos, ou seja, dos mais pobres, dos mais miseráveis, dos deserdados, dos sem poder. A princípio, a sua prática passará desapercebida, não dará nas vistas, será sem importância: fará o seu trabalho silenciosamente, debaixo da terra, até que romperá à flor da terra e então crescerá sem parar até se transformar na acção mais poderosa. Tudo transformará.

O Reino vem de baixo, não de cima. A prática da libertação é a prática do oprimido e não do opressor, do servo e não do senhor, do escravo e não do amo. Jesus confia na semeadura que ele realiza nos sectores marginalizados, entre os camponeses, entre os deserdados. É de aí que sairá o impulso imparável da libertação. Trata-se da construção do poder popular que é o poder de Deus, porque Deus está no povo.

A planta tem algumas propriedades especiais, pois é a mostarda, a qual, como diz Plínio o Velho, "com o seu gosto picante e seu efeito fogoso é extremamente benéfica para a saúde. Cresce em estado totalmente selvagem, ainda que melhore se for transplantada. Porém, depois de semeada, só se for destruída, pois, quando cai, imediatamente a semente começa a germinar" (cit. em Jbr, p. 96).

Primeiro, a planta tem qualidades terapêuticas pelas quais é apta para simbolizar o projecto do Reino de Deus. Uma das acções mais frequentes de Jesus é a cura de doenças, é sarar, é restabelecer a saúde corporal e espiritual. Com a realização da nova sociedade que o Reino simboliza, os seres humanos estarão livres de deformidades, de enfermidades, como acontece numa sociedade submetida ao domínio imperial e sacerdotal.

A planta cresce sob dois tipos de estado: silvestre e doméstico. Ela cresce, quer nos terrenos onde pasta o gado, quer nas hortas, nos campos de lavradio. Isto significa que não adianta impor-lhe grilhetas, limites, pois facilmente ela os quebrará, saltará por cima da cerca da horta e irá pelos baldios dos potros. Não existe organização que possa ter um perfeito controlo sobre ela: dará sempre a volta aos jardineiros. O Reino é assim: supera todas as fronteiras, os empecilhos, os dogmas que lhe queiram impor.

Mas a característica mais inquietante é a de ser invasora, pelo que "a única solução possível é livrarem-se dela". É comparável à graminheira, uma verdadeira praga para os semeadores, o terror dos agricultores. Estende as raízes por todo o lado, secando as sementeiras, reproduzindo-se sem cessar. Mesmo que arrancada, desde que fique uma pequena raiz, propaga-se infinitamente. O agricultor deve arrancá-la e deixar-lhe a raiz ao sol até que seque: é a única maneira de se ver livre dela.

Assim é o Reino. Cresce a partir de baixo, por baixo, em rizoma, imperceptivelmente, no oculto e propaga-se sem cessar. Grupos e grupos, comunidades e comunidades continuamente se formam; formam redes que a partir de baixo vão minando o poder opressor, os grandes monstros, como os descreverá a literatura apocalíptica. Assim se estendem as comunidades cristãs na geografia do vasto Império romano. (…)»

Rubén Dri
Professor e Investigador de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

[pp. 54]




22 de setembro de 2016

DEVOLVER JESUS AO POVO 1/5



O MOVIMENTO ANTI-IMPERIAL DE JESUS
Jesus perante os conflitos do seu tempo

Jesus de Nazaré é uma personagem apaixonante. Regressamos sempre a ele, e de cada vez que o fazemos encontramo-nos com uma dificuldade insanável: não existe acesso directo a Jesus de Nazaré. Refiro-me a documentos históricos indiscutíveis, relatos em primeira mão ou inscrições da época. Os textos que possuímos são em si interpretações escritas influenciadas pelo ambiente da fé, pelo que tal facto nos obriga a uma tarefa interpretativa, obriga-nos ao trabalho exegético no sentido mais rigoroso do termo.

Isto não quer dizer que estejamos completamente descalços. Talvez não exista livro que tenha sido submetido a tanta crítica, a tantas interpretações, resenhas, comentários, pesquisas como a Bíblia o foi e ainda é, e, dentro desta, os evangelhos. Sem dúvida que não existe personagem que tenha sido tão submetida a mais análises críticas quanto Jesus de Nazaré.

Por isso, se recorreu aos métodos os mais variados: a crítica das formas, a crítica literária, a crítica dos géneros, a crítica da redacção, a crítica das fontes, a crítica da tradição. História, sociologia, arqueologia, antropologia, hermenêutica confluem na busca do Jesus histórico e da sua prática.

Vale a pena indicar em que consiste cada um dos métodos assinalados. A crítica das formas tenta individualizar as diferentes unidades de narrativas orais, que mais tarde foram acopladas pelo redactor. A crítica literária procura esclarecer se determinado texto procede de uma só fonte ou de várias, se existem acrescentos posteriores ao original ou não. A crítica dos géneros separa os diferentes géneros literários por tipos específicos; trata-se de maneiras de expressão das diferentes culturas e grupos sociais: é assim que se distingue uma lenda de uma saga e uma saga de uma etiologia; as parábolas e os relatos de cura são géneros literários diferentes, cujo significado é fundamental trazer à luz. A crítica da redacção centra-se no redactor do texto em causa e procura dilucidar aquilo que o caracteriza como redactor, ou seja, quais são os acrescentos às fontes com que ele trabalha. Os estudos de Willi Marxsen sobre o evangelho de Marcos são um exemplo clássico deste método. A crítica das fontes procura determinar as fontes da narração e pretende distinguir as fontes em primeira mão das de segunda ou de terceira mão. Existem textos que com muita probabilidade poderão ter sido do próprio Jesus histórico e outros que evidentemente pertencem à comunidade na qual o texto foi elaborado. A crítica da tradição estuda as tradições que estão por trás do texto que se investiga. Um desses exemplos é a saga de Moisés como antecedente da saga do nascimento de Jesus narrada em Mateus ou as acções e as mensagens proféticas como antecedentes da prática e da mensagem de Jesus de Nazaré ou de João Baptista.

Depois dos monumentais estudos sociológicos de Max Weber acerca das religiões mundiais, ou seja, sobre o confucionismo, o taoismo, o budismo, o hinduísmo, o judaísmo, o cristianismo – quanto ao islão quedou-se apenas por um projecto de estudo – deixou de ser possível qualquer estudo de âmbito religioso sério que não deva focalizar-se também na vertente sociológica.

Jesus encontra-se rodeado de determinados conflitos que envolvem diversos sectores sociais: conflitos com os sacerdotes, com os escribas, com os fariseus, com os herodianos. Importa penetrar nos diversos interesses que estão na génese desses conflitos. Após a fundação do Reino (Mc 3,13-19), Marcos passa a apresentar os principais inimigos desse projecto que é o Reino (Mc 3,20-25).

Previamente a qualquer tipo de análise teológica sobre o Reino ou sobre os inimigos do Reino requer-se uma análise sociológica e política disso mesmo. Há que desenterrar que tipo de interesses esses sectores sociais viam ser ameaçados ou prejudicados pelo tal projecto de Reino que Jesus anunciava. Só depois de analisarmos a proposta económica desse proposto Reino é que as coisas começam a fazer sentido.

Por outro lado, Jesus é uma personagem histórica: pertenceu a uma determinada época, viveu num determinado país, mais rigorosamente, numa determinada região desse país. Também, não é possível interpretar as acções de Jesus sem conhecer o contexto nacional e internacional daquele momento histórico, ou seja, a Palestina, mais especificamente a Galileia, bem como o contexto do Império Romano, o primeiro Império globalizado da História.

Uma outra ciência à qual regularmente se recorre é a arqueologia. Numa região como é o caso do Médio Oriente, que é onde se encontra a Palestina, as formações rochosas são abundantes, de maneira que as construções e as diversas obras que se realizaram conservaram-se por muito tempo.

A intenção original da investigação que este livro apresenta foi desenterrar e revelar o enfrentamento do projecto de Jesus com o Império romano. Sentia-me profundamente atraído, ao mesmo tempo que produzia em mim um profundo mal-estar, saber, por um lado, que quem havia assassinado Jesus fora o Império romano e, por outro, ler nos evangelhos que havia como que uma tendência a desculpar o dito Império, fazendo com que as culpas recaíssem sobre as autoridades do povo judaico.

Pressentia que nas acções e na mensagem de Jesus houvesse motivos suficientes para que o representante do poder romano na Judeia – Pilatos – o sentenciasse à morte e não a qualquer tipo de morte, mas precisamente à crucifixão, modo de condenação reservado especialmente para quem atentasse contra a majestade do império. Mas por outro lado, eu não encontrava nos comentadores dos evangelhos em geral um interesse particular em investigar tal tema.

Para mim, este era, e naturalmente é, um tema central. No prólogo de "La utopía de Jesús" eu dizia que uma das razões pelas quais o continente latino-americano fosse, talvez, o «lugar mais privilegiado para compreender a utopia, o projecto e a praxis de Jesus de Nazaré» era por este ser «uma região dominada pelo imperialismo» (UJ, p. 9). Na altura, referia-me ao contexto em que ainda ressoavam as lutas das décadas de 60 e de 70 no Cone Sul, e que desaguavam na América Central.

Hoje a situação é diferente. Os movimentos sociais, políticos e revolucionários sofreram severas e sangrentas derrotas. Implantaram-se ditaduras militares que destruíram as organizações populares e preparou-se o terreno para que se impusesse o arrasador plano neoliberal. O império continuava a engordar, ao mesmo tempo que conseguia impor a ideologia do fim da História, do fim das ideologias, do fim das utopias, numa palavra, o império do pensamento único, o eterno vencedor para todo o sempre.

Parecia que o que havíamos conhecido como imperialismo já não existia mais ou talvez nunca tivesse existido, e nós nos tivéssemos enganado a seu respeito, inventando um fantasma por necessidade de inventar alguém a quem atirar a culpa dos nossos males. Impunha-se, pois, despertar, voltar a recuperar a consciência da nossa situação como país e como continente dependentes do império.

Tínhamos uma enorme responsabilidade, e, como cristãos, temo-las, sobretudo aqueles que acreditam que Jesus de Nazaré nos deu as armas necessárias para lutar pela nossa libertação, a libertação de cada um e a dos nossos irmãos. O outro motivo pelo qual o continente latino-americano é o lugar privilegiado para compreender Jesus consiste em que a religião cristã constitui «a religião da maioria das suas populações oprimidas» (UJ, p. 9).

Lamentavelmente, a mensagem oficial que, a partir das Igrejas, se transmite não é uma mensagem que ajude a clarificar as consciências sobre esta questão. Sobre a actuação, o projecto e a mensagem de libertação de Jesus de Nazaré construíram-se organizações religiosas que pouco ou nada tinham que ver com aquela mensagem. Regra geral, trata-se de organizações que procuram ter poder, que exerceram o poder, que negociaram com o poder político e, quando convinha, negociavam com o poder militar.

No nosso país, o comportamento da hierarquia eclesiástica para com a ditadura militar genocida (1976-1983), – e isso equivale a dizer o comportamento da Igreja hierárquica ou Igreja institucional – foi vergonhoso e duma cumplicidade escandalosa. Em grande parte, a "doutrina da segurança nacional" foi legitimada com argumentos teológicos. Jesus de Nazaré – que calcorreou as aldeias, os campos, os montes e os caminhos poeirentos da Galileia anunciando uma sociedade libertada denominada "Reino de Deus", e promovendo a formação de um movimento que haveria de levar até ao fim – acabou por ser usado como apoio a militares assassinos.

Temos o dever de devolver aos nossos povos o Jesus que as nossas igrejas lhes escamotearam. Não é possível que o profundo sentido religioso, cristão, pertencente ao senso comum dos nossos povos, seja distorcido e usado para os dominar. O projecto libertador de Jesus pertence-lhes. Esta investigação [em livro] esforça-se por lho devolver.

O enfrentamento do Império romano pertence ao próprio coração da actuação e da mensagem de Jesus. O livro de Ched Myers, "Binding the Strong Man" («Atando o homem forte»), permitiu-me avançar no tema, quando ele diz que o homem forte que era preciso amarrar a fim de se lhe poder saquear a casa não era outro senão o Império romano. Nesta linha, prossegui a investigação e depois comecei a apresentar comunicações em alguns congressos.

Aos poucos, foi-se-me figurando com uma certa clareza que Jesus não tinha anunciado apenas o Reino de Deus, mas também tinha organizado um movimento para fazer dele uma realidade. Na verdade, aquando da redacção de «La utopía de Jesús» era para mim bem claro que Jesus não apenas curava, ensinava e anunciava (a chegada do Reino), mas que também organizava (ainda que Jesus não chegasse a ver concluída a formação desse movimento em acto).

Apesar de hoje em dia esse tema ser tratado por diversos exegetas, em 2001, aquando das manifestações de 19 e 20 de Dezembro[1], eu achei que o devia tratar com uma certa profundidade: havia chegado o tempo de ajudar à reconstrução do movimento popular. É por isso que, nesta obra, se encontram dois eixos fundamentais: o anti-imperialismo de Jesus e a formação de um movimento que levasse à construção do Reino de Deus.

Tal como o disse no começo este prólogo, temos diante de nós um problema: o problema das fontes. Jesus é assassinado nos começos do ano 30 por ordem do prefeito romano, Pôncio Pilatos. Os primeiros escritos que possuímos acerca de Jesus e da sua actuação pertencem à década de 50. Trata-se de uma colecção de cerca de 230 "ditos" de Jesus interligados por breves narrações que são conhecidos pelo nome de fonte Q[2] ou evangelho Q.

Nem sequer possuímos essa colecção no seu original, porque ela está integrada nos evangelhos de Mateus (que data dos anos 80) e no de Lucas (já da década de 90). Em 1861, H. J. Holtzmann chega à conclusão que tanto Mateus como Lucas utilizaram duas fontes para escrever os respectivos evangelhos: o evangelho de Marcos e uma colecção de "ditos" de Jesus. Os alemães denominaram esta colecção de «Quelle», o que quer dizer «fonte». Em 1890, J. Weiss designou-a simplesmente com a letra «Q», ainda que seja melhor chamar-lhe «evangelho Q».

John D. Crossan propõe-se distinguir três estratos exegéticos. O primeiro estrato desse evangelho corresponde ao Jesus histórico, ou seja, à década de 30, estrato que requer um fino trabalho exegético até que seja possível descobri-lo por baixo dos outros estratos. O segundo estrato estaria situado entre a década de 40 e a de 50. Finalmente, o terceiro estrato é aquele que corresponde à redacção dos evangelhos, e que vai da década de 70 à de 90. No terceiro nível há, por sua vez, três subníveis: o primeiro correspondendo ao evangelho de João. No evangelho Q, por seu lado, também se podem distinguir diversos estratos, no mínimo dois. Graham Stanton acha que são três.

Mas existem outras fontes, genericamente denominadas «apócrifas», hoje em dia conhecidas como extra-canónicas. Entre essas outras fontes existe o evangelho de Tomé, o evangelho Egerton, o evangelho secreto de Marcos e o evangelho de Pedro. Hoje em dia, estas fontes são estudadas lado-a-lado com as fontes canónicas.

Tendo em atenção todas estas fontes, tomei a decisão de optar pelo Evangelho de Marcos como referência geral da minha exposição. De entre os evangelhos canónicos, Marcos é aquele que se encontra cronologicamente mais próximo do Jesus histórico. Para além disso, é aquele que foi menos "trabalhado" teologicamente [por "Marcos"], pelo que é-nos relativamente fácil chegar mais perto do Jesus histórico. É sempre a partir deste evangelho que recorremos a outras fontes, sempre que tal seja necessário.

Porém, o objectivo fundamental desta obra não é apenas dilucidar o Jesus histórico. Mesmo que seja bom progredir e conseguir novas descobertas acerca do Jesus histórico, aquilo que já possuímos chega para que tenhamos uma ideia muito aproximada daquilo que foi esse Jesus que viveu na Galileia, nas três primeiras décadas do primeiro século da nossa era. A mim interessa-me chegar a ele como fundador e constructor dum movimento. O meu propósito é desenterrar e trazer à luz esse movimento.

Apesar de existirem muitos estudos sobre o Jesus histórico, a meu ver eles são insuficientes na medida em que não se inserem, de maneira convincente, na história profética do povo hebreu e deixam de lado a organização dessa história, pelo que acontece existirem aspectos que são ignorados ou até negados. É o que acontece, por exemplo, com o tema da violência e o da clandestinidade. Quanto às questões ligadas à estratégia, aos componentes sociais desse movimento e aos aspectos organizativos, nem uma palavra.

Rubén Dri, Buenos Aires, 1 de Dezembro de 2004.



[pp. 60]






[1] Refiro-me à insurreição durante a qual o povo argentino derrubou o governo encabeçado por Fernando De la Rúa. O «19 e 20 de Dezembro de 2001» proporcionou uma "pueblada", ou seja, um levantamento popular que, matraqueando tachos e outros instrumentos, tomou conta da rua. Tomou a Plaza de Mayo exigindo uma mudança radical de política governamental. Foram selvaticamente reprimidos, mas o certo é que o governo caiu.
[2] Cf. Santiago Guijarro Oporto, «Los dichos de Jesús – Introducción al Documento Q», Sígueme 2014; Senén Vidal, «El documento Q – Los primeros dichos de Jesús», Sal Terræ 2011; César Vidal, «El Documento Q», Editorial PLANETA 2007, Divulgación Enigmas y Misterios (Avinguda Diagonal, 662, 6ª planta. 08034 Barcelona), ISBN 978-84-08-07196-9.  [NdE]



14 de setembro de 2016

O SEGUIMENTO DE JESUS COMO PRINCÍPIO EPISTEMOLÓGICO [J.SOBRINO]



O SEGUIMENTO DE JESUS COMO PRINCÍPIO EPISTEMOLÓGICO


[…] Analisemos agora a fórmula de Calcedónia como fórmula doxológica, ou seja, como uma fórmula que fala de Jesus Cristo propriamente Deus.


Uma epistemologia específica

Já dissemos, no capítulo anterior[1], que as afirmações sobre Deus-em-si só são possíveis através dum processo de conhecimento. Este processo começa assim: (1) tomar consciência de actuações históricas (2) as quais, na fé, são referidas a Deus como sendo acções de Deus, e, (3) assim, aquelas acções permitem que se façam afirmações sobre Deus-em-si.

A partir do ponto de vista epistemológico, segundo este processo, a razão controla o primeiro passo e, de alguma maneira, compreende – ainda que nele já esteja a actuar a fé – o segundo passo. Porém, para captar a realidade de Deus-em-si-mesmo isso só é possível pela entrega da razão ao mistério de Deus (tendo como símile a adoração que ocorre no culto). No caso do Êxodo: (1) ocorre (ou é narrada como historicamente acontecida) uma libertação a partir do Egipto; (2) tal facto, é atribuído a Deus, de modo que Deus, a partir da sua acção libertadora, fica conhecido como «o Deus que libertou Israel do Egipto; e (3) a partir de aí confessa-se a realidade de Deus-em-si; diríamos que, na sua essência, é possível afirmar: «Deus é libertador».

Este processo de conhecimento de Deus pode ajudar – ainda que apenas analogicamente – a compreender como funciona aquela razão que procura produzir formulações cristológicas. Nessas formulações, também se diz que Jesus Cristo é Deus (a sua natureza última é ser pessoa divina), e esta realidade tem de ser formulada em afirmações-limite que necessitam de um processo de conhecimento e de uma entrega final.

(1)        O processo começa com a realidade humana de Jesus, em princípio, historicamente constatável. Em que consiste essa realidade humana, já o vimos no livro anterior a este («Jesucristo Liberador»). A isso apenas queremos acrescentar que a história de Jesus podia – e deveria – ser lida «calcedonicamente», de maneira que aquilo que tem de humano nunca o deixasse de ser (sem mudanças), nem fosse absorvido pelo divino (sem confusão), nem se apartasse do divino (sem divisão) e sempre assim até ao fim sem marcha atrás (sem separação). Programaticamente, pode dizer-se que, durante a sua vida, se refere a Deus sem que Deus o «des-humanize» e isso ocorre até ao fim, apesar das crises, do horto, da cruz…[2]
(2)        Essa realidade humana, agora a partir da fé, é colocada em relação com Deus. É isto que a reflexão cristológica do Novo Testamento e da Patrística fizeram (como já vimos em capítulos anteriores) servindo-se de títulos e de interpretações teológicas da vida de Jesus, concluindo por uma relação muito especial estabelecida entre Jesus e Deus.
(3)        O processo termina com a confissão da divindade do próprio Jesus Cristo, o qual, insipidamente no Novo Testamento e explicitamente a partir de Niceia, ocorre na entrega da razão ao mistério.[3]

Para a epistemologia, o importante é a conclusão: conhecer a realidade de Jesus Cristo em si só será possível através de uma afirmação doxológica. Neste exacto sentido, as fórmulas conciliares são «pontos de chegada», que recolhem e guardam o início do processo e o seu desenvolvimento. São significativas na medida em que são o ponto final (ainda que sempre provisório) do processo do conhecer que começa no Novo Testamento e, dentro dele, nos textos que se referem à vida e destino reais de Jesus, aos que se acrescentam – posteriormente – as interpretações teológicas que deles fazem o Novo Testamento e a Patrística; terminam na entrega da razão ao mistério.

Esta epistemologia inclui, pois, dois elementos essenciais: o caminho do conhecimento que começa com uma certa realidade de tipo histórico, e a entrega da razão no final desse processo. Estes dois elementos – caminho e entrega – é aquilo que queremos analisar de seguida, não apenas quanto à sua dimensão teórica cognoscitiva, mas quanto à sua realidade histórica práxica. Queremos analisar o "caminho" rumo à doxologia como seguimento de Jesus e a "entrega da razão" como entrega da totalidade da pessoa. (…)

Jon Sobrino
«La Fe en Jesucristo – ensayo desde las víctimas»

[pp. 27]






[1] Veja-se o subcapítulo «Un Dios misterioso» no capítulo 6. Neste subcapítulo aplicamos, com as devidas modificações que o caso exige, a análise das fórmulas doxológicas às fórmulas conciliares.
[2] O que é que acontece com a divindade de Jesus nesse momento não é visível, mas pode ser inferido e acreditado. Mas, uma vez isso aceite posteriormente ao nível da fé, podia e devia dizer-se que, em Jesus de Nazaré, Deus abeira-se do humano sem que esse humano o «des-divinize», ainda que isso aconteça de maneira escandalosa.
[3] No caso da divindade de Jesus Cristo, a necessidade da entrega da razão pode ser vista de um outro ponto de vista, caso nos demos conta de como funciona a cópula é nas fórmulas dogmáticas conciliares. Quando falamos da divindade em geral e dizemos «Deus é libertador», o é poderia ser compreendido a partir da analogia do ser (ainda que também na analogia o último passo pressupõe a entrega da inteligência, já que se prega algo de Deus por via da afirmação, da negação e da elevação). Porém, na cristologia nem sequer esta analogia do ser é via de solução, na medida em que o é, da fórmula, opera de uma maneira absolutamente incontrolável pela razão. A partícula é não opera aqui como noutras afirmações da linguagem. A afirmação Deus é homem «não pode identificar a realidade expressada no sujeito da frase, "Deus", com a aludida no predicado (ser humano, nascer, etc.), da mesma maneira que o faz em enunciados correntes» (K. Rahner, ¿Que debemos crer todavia?, Santander, 1980, p. 110; cf. K. Rahner e W. Thüsing, «Cristología», Madrid, 1975, pp. 58-62; «Curso Fundamental sobre la Fe», Barcelona, 31984, p. 340).