teologia para leigos

12 de janeiro de 2011

REZAR & ORAR

Ad-orar em tempos de crise

Diante das catástrofes, regra geral, o ser humano reza, mas não ora!
As «rezas» são o modo mais elementar que o ser humano tem para lidar com a impotência: o ser humano possui, em si, ‘naturalmente’, uma dilatação sobrenatural, mas diante dela reconhece-se limitado, temporal. Ou, usando uma célebre expressão de S. João da Cruz: «fora de Deus é tudo tão estreito».
Diante de catástrofes como incêndios, inundações, terramotos, matanças, falências, fome, secas, etc. o ser humano «reza» a(os) deus(es). Pede o oposto daquilo que o atormenta. Implora. Reclama novamente o regresso da harmonia prévia. Dirige-se a um deus ‘conservador’ para que restitua, tal como era, aquilo que ‘alguém’ roubou ou despenteou.
A prece de petição é, em todas as civilizações, universal, eterna, ‘natural’.
G Bush Jr, sabe-se que rezou [a sua ‘reza’ circulou na Internet e escandalizou] e, a 25 de Novembro passado, antes de o sol raiar, os rabinos Menashe Malka e Reuven Deri embarcaram num balão e chegaram aos 300 metros de altitude para, com as suas preces, fazerem vir chuva. Responsáveis locais acompanharam-nos, juntamente com Miss Israel 2010, Shavit Wiesel, e outros fiéis. O balão descolou do deserto do Negueve. A primeira reza fora redigida pelo eloquente rabino Mordechai Eliyahu.
A seca que aflige o Norte de Israel é uma grande preocupação para os agricultores, que receiam perder as colheitas e sofrer prejuízos que podem ascender aos 10 mil milhões de euros, este ano. «Esta prece comum, com um vista magnífica sobre o deserto do Negueve, talvez nos abra as portas do céu e devolva a coragem aos agricultores de todo o país», afirmou entusiasmado o piloto do balão, Moran Itzkovitz, antes de se elevar no ar.
Nesse mesmo dia tinha havido uma reunião de fiéis em Hatzor HaGlilit, no norte do país, na campa de Honi HáM’agel, um sábio de Israel com fama de ver cumpridas as suas preces à chuva. Por iniciativa dos rabinos Yona Metzger e Shlomo Amar, esta prece comum reuniu outros rabinos e estudantes de uma yeshiva dos arredores (instituições para estudo da Tora e do Talmude no judaísmo). Depois de fazerem soar o shofar (instrumento musical usado pelos judeus), rezaram uma prece especial à chuva, escrita pelo rabino Metzger. No dia seguinte, juntaram-se dezenas de pessoas, rabinos e fiéis, a bordo de um barco de turismo no lago de Tiberíades para rezarem pelo fim da seca. O vice-ministro das Finanças, Ytzhak Cohen, participou nesta prece, que foi organizada pelos rabinos dos conselhos regionais e do kibbutz Ayelet HaShahar.[1]
A relação com a divindade pode configurar-se segundo três modelos.
O primeiro é inspirado na relação mestre-escravo: «Senhor, Senhor, tende piedade».
O segundo é muito próximo da ‘amizade’, duma amizade que se manipula, eixo centrado na própria pessoa que reza: «eu trato por tu a deus», «vou a despacho directamente com deus», não necessito de intermediários, «eu cá tenho a minha fé».
O terceiro modelo assenta numa relação de amor total, de confiança total, de intimidade total para com deus.
No primeiro impera a submissão humilhante do ser humano a deus; no segundo, a submissão humilhante de deus aos apetites humanos; no terceiro, a gestão livre e íntima duma relação de amor recíproco assente na única alavanca possível: a confiança.

A «prece de petição» é sempre um insulto a Deus: pressupõe que Ele «é capaz, mas não quer», pressupõe que Ele «permitiu» que as coisas chegassem ao que chegaram, e que só com o pagamento de uma promessa Ele se disporia a agendar a questão e a desencavilhar o seu poder criador e transformador.
«Batei e abrir-se-vos-à» ou «Fazei, Senhor, que eu veja» são expressões usualmente citadas para fundamentar teologicamente a prece de petição. Mas é, de igual modo, usual verificar que os Evangelhos referem a expressão atribuída a Jesus: «A tua fé te salvou», mesmo que a pessoa em causa não seja, nem cristã (o que, aliás, seria exigir demais), nem judia, ou seja, mesmo que se trate de um interlocutor «sem fé institucional alguma».

Que pensa Jesus, afinal, da «petição»?
Antes de mais, Jesus dizia: «Pai, não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do Maligno.» [Oração Sacerdotal, Jo 17:15] No restante Evangelho de João, sublinha-se repetidamente a única coisa que Jesus acha relevante: viver em estreita união com o Pai, segundo o Espírito de Jesus. A expressão que resume muitas outras é: «(…) para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste» [Jo 17:21] «Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim» [v.22b.23] «(…)guarda-os em ti, para serem um só, como Nós somos.» [v.11]

Esta ideia central encosta-se a uma outra expressão que é quase absoluta, no Evangelho de João: «permanecei»!, expressão quase obsessiva na Alegoria da Videira e dos Ramos, [Jo 15], obsessão à razão de mais de uma por versículo! Ou seja, em 5 versículos, surge 8 vezes o verbo ‘permanecer’ [Jo 15:4-8].
A última expressão, que é charneira para a questão da prece de petição, é a classificação que Cristo reserva para os seus discípulos: «chamei-vos amigos»! [Jo 15:15] e não apenas ‘discípulos’, ‘núncios’, ‘enviados’, ‘representantes’, ‘autoridades-minhas’, ‘embaixadores’, ‘diplomatas’.

São três expressões para falar do mesmo: essa super-união num amor mútuo super-confiante! Tudo se condensa nesta expressão final: «Permanecei no meu amor» [Jo 15:9], já que Jesus só soube amar como o Deus Misericordioso só sabe amar [ver: Jo 15:9]: «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor» (v.9) Podemos concluir dizendo que quem se sente assim, amigo muito íntimo de Jesus Cristo, só pode sentir-se em casa! E quem está em Jesus Cristo como se a sua própria casa e Ele se com-fundissem numa realidade só, só se for louco é que se põe a pedir que lhe cheguem coisas. Pedir a si próprio? - isso não faz sentido. Ou seja, não faz sentido «pedir» ao dono da casa, pois ele é, ao mesmo tempo, o que pede e o que dá… Estar «ligado ao tronco» é condição para receber a seiva, a essência vital; desligar-se do tronco é secar. (cap. 15, v.5). Estar ligado fisicamente ao tronco pode ser condição até para «fazerdes obras maiores do que estas» [Jo 14:12] «Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim; crede, ao menos, por causa dessas mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai, e o que pedirdes em meu nome Eu o farei, de modo que, no Filho, se manifeste a glória do Pai. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, Eu o farei.» [Jo 14:11-14]

Portanto, a prece de petição nunca poderá ser uma usurpação humana duma qualidade divina, ou seja, algo que aconteça pela nossa autoridade mundana: «Eu o farei» significa que tudo o que possa acontecer apenas é «Jesus Cristo acontecendo» e não a mudança da história ou a cura física simplesmente por que rezamos muito a Cristo e Ele nos concedeu essa graça porque rezamos muito a Cristo… Em resumo, «pedir» a Deus que intervenha ou opere mudanças neste nosso mundo só pode ser ofender Deus, pois, em última análise, é contratar Deus e  «pô-lo ao nosso serviço».

A prece, para aquela e aquele que vive já em Cristo, deverá ser ad-miração, ou seja, a contemplação da Glória do Pai, que é Jesus Cristo. «Rezar» tenderá, então, para «orar». «Tender para», em latim, diz-se «ad». «Tender para… a admiração» diz-se «ad-orar», na medida em que, quando ficamos estupefactos, ficamos com a boca aberta, em Ó! Rezar será, então, «ficar enfeitiçado», «ficar de boca aberta», como diz o povo, é «não ter palavras», deixar-se agarrar por dentro. Se «rezar» costuma ser ‘pronunciar palavras’ (às vezes, pode ser «falar muito», o que chega a ser um verdadeiro falatório, um insuportável ruído!), «orar» será «permanecer n’Ele», na medida em que Ele «permanece no Pai». Tudo menos «pedir coisas»… Como se disse acima [Jo 14:11-14], a melhor forma de «rezar» é «realizar» a vontade do Pai, pois é «por causa das obras» que Ele realizou entre nós que nós acreditamos n’Ele. «Rezar» terá que ser «operar proximidade física», «fazer adopção», «trabalhar o amor» e ficar enfeitiçado, encantado, admirado, alegre com aquilo que vier a acontecer… E, tudo o que venha a acontecer, é Cristo!!!, essa super-união num amor mútuo super-confiante!

Orar é permanecer unido!
Unidos ao «Programa de Acção» de Jesus, unidos no ‘jeito (Espírito) de Jesus’! Aí está o «Deus-Pai-de-Jesus»!
«Permanecei em Mim»!

«Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, Eu o farei», ou seja, ‘Eu sê-lo-ei em vós…’ e os vossos gestos são Eu (Jo 14:14)

É na união carnal mais íntima que se nos despertam os sentidos todos do Amor! É assim que Deus-Pai se quer dar a conhecer a nós: através do Amor e só do Amor! Ao invés, «pedir do alto da burra» é não ter amor, porque é «exigir amar».

«Ainda um pouco e o mundo já não me verá; vós é que me vereis, pois Eu vivo e vós também haveis de viver. Nesse dia, compreendereis que Eu estou no meu Pai, e vós em mim, e Eu em vós. Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que me tem amor; e quem me tiver amor será amado por meu Pai, e Eu o amarei e hei-de manifestar-me a ele.» [Jo 14:18-21]

Moral da história: quem faz a vontade do Pai («observa» os mandamentos de Jesus e sintoniza com Jesus) verá a Deus-Pai («hei-de manifestar-me a ele», estareis vivos-em-Mim).

Em tempos de crise (v. 25 – a hora adiantada), como entender o Evangelho (S. Marcos 6:34-44) de sábado passado?

Jesus alimenta cinco mil pessoas (8,1-9; Mt 14,13-21; 15,32-38; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15) –«Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas. A hora já ia muito adiantada, quando os discípulos se aproximaram e disseram: «O lugar é deserto e a hora vai adiantada. Manda-os embora, para irem aos campos e aldeias comprar de comer.» Jesus respondeu: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» Eles disseram-lhe: «Vamos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?» Mas Ele perguntou: «Quantos pães tendes? Ide ver.» Depois de se informarem, responderam: «Cinco pães e dois peixes.» Ordenou-lhes que os mandassem sentar por grupos na erva verde. E sentaram-se, por grupos de cem e cinquenta. Jesus tomou, então, os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e dava-os aos seus discípulos, para que eles os repartissem. Dividiu também os dois peixes por todos. Comeram até ficarem saciados. E havia ainda doze cestos com os bocados de pão e os restos de peixe. Ora os que tinham comido daqueles pães eram cinco mil homens.»

Em tempos de crise, há quem veja neste relato uma indicação para, por exemplo, «ajuntamentos» em Fátima para rezarmos pelo fim da crise. Também há quem veja uma advertência a mais e mais solidariedade material, a mais e mais partilha de bens urgentes para o corpo, a mais e mais solidariedade para com os povos do 3º mundo ou ao endurecimento do discurso anti-capitalista, anti-globalização, etc. Mas, na verdade, antes de tudo

Estamos no «coração dum gesto»!

O gesto fundante da Eucaristia, que nos ensina que a única coisa que podemos (e devemos) fazer, em tempos de crise, é acercarmo-nos dos que se sentem sós, partilhar o pão das lágrimas, abraçarmo-nos, igualizar-nos num único sentimento que conte (‘aconteça o que acontecer estamos aqui…lado a lado, habitando a mesma a casa’, «somos INEM’s mudos uns dos outros…»). Em tempos de crise, é frequente a atitude de trocar a presença-proximidade por duas coisas: «o discurso politicamente correcto» (‘nunca te esqueças que não estás só…’, ‘olha que muita gente te ama…’, ‘vê lá: não te deixes ir a baixo…’) ou a dádiva de dinheiro e bens. Só há um gesto que é gesta: dar-se para que se dêem! (v. 41) Estas duas tentações estão, aliás, tambem presentes neste relato do evangelho: «discurso politicamente correcto» tem como consequência “mandá-los embora de mãos vazias” (v. 36); «trocar a proximidade e substituir-se por dinheiro e por bens» é não permitir um «protagonismo mínimo» a quem está só. (v. 41: «para que eles repartam») Em tempos de crise, super-abundam os sós, os que perderam a «proximidade do fundante da dignidade humana»: o direito à palavra compartida! Só a proximidade física permite o acesso à palavra compartida (v. 41: «pronunciou», «partilhou» «e todos repartiram» o que subitamente se tornara também de todos). «Eu desconfio sempre de projectos impessoais», dizia Teresa de Calcutá. «Para amar alguém é preciso estar perto.» [‘Um caminho simples’]

Mais uma vez, a questão da ‘união íntima’ não platónica, nem espiritualizante, mas carnal, física – ‘dormir ao lado’. Permanecer! Ser de permeio. Orar é Parar: o activismo, o palavreado, o discurso correcto, todo formigueiro.

Orar, em tempos de crise, é partilhar o pão das lágrimas, é um dar-se em lágrima, gritar a dor e recolhê-la. Permanecer próximo. Ad-orar quem sofre, abrir a boca diante ‘desse Cristo que sofre’ (Paulo VI), morrer na sua boca até que ele descanse sua solidão no nosso peito, sacie dor e cansaço e regresse à palavra-pão com-partida.

Orar, em tempos de crise, é comer o pão das lágrimas até ficarem saciados. (v. 42) Veremos, então, que, assim, no fim da catástrofe, há-de ficar de pé um ‘Povo-Inteiro’, um povo que recobrou a fala porque matou a solidão (os «doze cestos» são as Doze Tribos de Israel, são o Povo-Inteiro-Abraçado, o ‘povo-falante-acompanhado-e-nunca-mais-só’ tão desejado por Deus-Pai)

«a vontade do Pai é que
sejamos UM!»


[1] Notícia retirada de Courrier International, ed. em português, Janeiro de 2011, p. 97

11 de janeiro de 2011

WikiLeaks - SEGREDOS E SEGREDOS

às voltas ainda com a Wikileaks

O segredo e as fugas

 

 




Em Outubro de 1962, o mundo esteve perto de uma guerra nuclear. O presidente John Kennedy, pouco antes das eleições de meio de mandado, ia repetindo que não seria aceite nem iria ocorrer qualquer implantação de mísseis ofensivos soviéticos em Cuba. Moscovo ignorou a situação, mas não podia saber se as declarações norte-americanas se destinavam a apaziguar o eleitorado ou constituíam um verdadeiro ultimato. Várias mensagens − secretas − iriam esclarecer as intenções dos protagonistas e permitir-lhes resolver a crise. Os americanos sugeriram que iriam sem dúvida aceitar, mas mais tarde e discretamente, uma das contrapartidas reclamadas por Moscovo: a retirada de mísseis da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que estavam colocados na Turquia. Do lado soviético, uma carta confidencial de Nikita Kruchtchev informou Kennedy de que o compromisso americano de não mais invadir Cuba lhe permitiria ordenar a retirada dos mísseis da ilha sem perder a face [1] .
Será que as revelações da WikiLeaks perturbam a diplomacia que, tal como em 1962, evita as guerras ou antes a que as prepara? É que nem todas as fugas são avaliadas com a mesma severidade. Quando o plano «Potkova» sérvio foi inventado por militares alemães para justificar a guerra do Kosovo, quando o The New York Times propagou as mentiras do Pentágono sobre as armas de destruição em massa no Iraque, a Casa Branca não exigiu quaisquer sanções particulares…
Alguns entendem que a revelação desta ou daquela visita à embaixada dos Estados Unidos terá posto em perigo a vida de alguns dos visitantes. Contudo, se o perigo da divulgação era real (ainda não foi identificada qualquer vítima deste tipo), como explicar que o segredo estivesse tão mal guardado (ler o artigo de Felix Stalder, neste mesmo Jornal)? Os riscos seriam, então, políticos? O dirigente do Partido socialista francês que, em 2006, confidenciou a uma emissária de George W. Bush que a oposição de Paris à guerra do Iraque tinha sido «demasiado aberta» (François Hollande) ou o que insinuou que as relações entre os dois países «sempre foram melhores quando a esquerda estava no poder» (Pierre Moscovici) teriam certamente preferido que estas conversas apenas fossem divulgadas daqui a algumas dezenas de anos.
Um embaixador não é, contudo, um mensageiro comum. Para fazer valer a sua eficácia, pode exagerar a adesão às posições do seu país das personalidades com que contacta. Ora, as palavras atribuídas aos interlocutores dos diplomatas americanos não foram autentificadas junto dos que as teriam proferido. Para serem publicadas, aparentemente bastou que parecessem evidenciar a verdade, isto é, que correspondessem… ao que já se suspeitava.
Quanto ao facto de a segurança da América poder estar em causa, Robert Gates, que chefia o Pentágono, mostra-se sereno: «Os governos que se relacionam com os Estados Unidos fazem-no porque é do seu interesse. Não é por gostarem de nós, não é por confiarem em nós, nem por acreditarem que sabemos guardar um segredo» [2].

Quinta-feira 6 de Janeiro de 2011

 

 

Notas

 

[1] Ver Graham T. Allison, Essence of Decision: Explaining the Cuban Missile Crisis, Little Brown, Boston, 1971.
[2] Durante uma conferência de imprensa no Pentágono, quarta-feira, 30 de Novembro de 2010
Retirado de:

WIKILEAKS - Julian Assange


«Goste-se ou não, o Ocidente não pode querer fazer ao Wikileaks o que a China tentou fazer ao Google»


SEGREDOS EM LIBERDADE


Que interesse tem saber-se que a Embaixada do EUA em Madrid pensa que Miguel Ángel Moratinos, ministro dos Negócios Estrangeiros de Zapatero, «tem tendência para gritar com os embaixadores estrangeiros»? Que importância tem saber-se qual o comportamento do Governo de Lisboa na questão dos voos da CIA? A relevância das informações tem comparação?
Quando visitamos o Wikileaks, lemos o quê? E que páginas deste sítio visitamos? A que despachos de embaixadas damos atenção? São todos dignos de atenção? Quando um governo classifica um documento como confidencial, pode alguém revelá-lo? Finalmente ainda é possível haver segredos?
Todas estas perguntas estão a ter as mais diversas respostas. Há quem diga que vale tudo e há quem sustente que Julian Assange, fundador do Wikileaks, deveria estar a contas com a Justiça por outras razões que não acusações de ordem sexual. Estranho seria se, uma vez mais, a virtude não estivesse a meio caminho.
Impor a censura à Internet é um precedente inaceitável. Desde logo, porque a censura o é. Depois, porque não há instituição estimável que possa definir, a priori, o que pode, ou não, ser divulgado. Os critérios sobre o que é ilegal tornar público têm de estar claramente definidos, devem constar de leis que os tribunais aplicam depois de os ilícitos terem sido cometidos. Ninguém prende um violador ou um assassino antes de o ser.
A liberdade é, também ela, um valor inquestionável. Mas traz responsabilidade.
O que o mundo moderno cada vez mais nos ensina é que não é possível viver com segredos. Tudo o que é feito à porta fechada tem de ser realizado no pressuposto de que, um dia, alguém vai abrir a janela e entrar.
A responsabilidade de guardar segredos é, em primeira linha, de quem os cria. Se há quem sinta necessidade de proteger a informação, também há quem saiba que a transparência é fundamental para a vida em democracia. Para convivermos bem com a nossa sociedade, é importante sabermos como atuou o Governo na questão dos voos da CIA. Mas para que a denúncia de eventuais irregularidades seja relevante, é fundamental conhecer a credibilidade de quem manipula, confunde, injuria.
Há cada vez mais meios de obter informação e cada vez mais facilidade em a divulgar de imediato e à escala mundial. O que é bom quando serve os nossos interesses e terrível quando nos desagrada. Há muito que sítios electrónicos e páginas avulsas divulgam informação impertinente ou criminosa, mas nunca ninguém tinha incomodado o poder como a Wikileaks.
Quem tem acesso à informação que circula na Internet tem de saber que muito do que lá está não foi sujeito a qualquer filtro. Pode ter sido lá posto por um irresponsável. Pode não ter respeitado qualquer código de honra.
Tudo isto deveria tornar os órgãos de comunicação tradicionais mais criteriosos na selecção do que vão buscar à Internet. O que nem sempre tem acontecido. Não é por ter sido o «El País», inegavelmente um jornal de referência, a dar destaque às opiniões da embaixada dos EUA em Madrid sobre membros do Governo Zapatero que passa a ser relevante saber que um funcionário diplomático (pode nem ser o embaixador, pode haver outros que pensam o contrário) considera Carme Chacón, ministra da Defesa, «imatura» e demasiada agarrada a «pequenos detalhes».
Mas é bom não tomar o todo pela parte. Quando se vive em democracia é importante aprofundar muito do que consta do Wikileaks. Ou será que não queremos saber (à escala nacional e a título de exemplo) se houve ou não corrupção em Cahora Bassa, qual a ética dos nossos bancos e tudo quanto se passou com os voos da CIA. Não é por acaso que cinco dos principais jornais e revistas do mundo («El País», «The Guardian», «Der Spiegel», «Le Monde», «NYT») trabalham a informação em conjunto com o sítio. Goste-se ou não, o Ocidente não pode querer fazer ao Wikileaks o que a China tentou com o Google.

João Garcia, diretor do Courrier international
Courrier international, em português, Editorial, edição Nº 179, Janeiro de 2011, p 7.


10 de janeiro de 2011

ALBERTO CAEIRO [NATAL VÍDEO]



«outra vez menino
a correr e a rolar-se pela terra...»
NATAL de Alberto Caeiro

UM DEUS DOS ÚLTIMOS [ANSELMO BORGES]

de um lado o deus dos «primeiros», do outro «o Deus dos últimos»…

«O que diria Jesus hoje?»

Os dias de Natal são especiais. Há uma atmosfera diferente, o melhor de nós pode revelar-se: mais proximidade, mais intimidade, mais amor, mais solidariedade. Directa ou indirectamente, há uma presença inegável: o nascimento de um Menino, com "a mensagem mais bela e revolucionária da história mundial", no dizer de Heiner Geissler, que foi ministro do Governo Federal da Alemanha e que escreveu um livro admirável precisamente com o título: "O que diria Jesus hoje?"
Mesmo se muitas vezes os que se reclamam de Jesus fizeram da sua mensagem um Disangelho, como disse Nietzsche, ela é real e verdadeiro Evangelho, notícia boa e felicitante.
Essa mensagem tem na sua base a afirmação de que é o ser humano, com a sua dignidade inviolável e fundamentada em Deus, que ocupa o centro de toda a actividade política e económica. Essa dignidade e os direitos que dela derivam constituem o critério de todas as leis, mesmo das leis "divinas", e o fundamento para a convivência em igualdade de todos os seres humanos, independentemente do sexo, cultura, etnia, religião, classe, nação, estatuto social ou jurídico.
O amor a Deus sem amor ao próximo é uma ilusão, e este amor ao próximo não é platónico, pois tem de ter tradução prática concreta - dar de comer, de beber, de vestir, visitar o doente e o preso -, e supera as barreiras culturais, nacionais, religiosas. Próximo é o próprio inimigo em dificuldade.
Os seres humanos e os seus interesses estão antes dos interesses do capital. O capitalismo neoliberal não está de acordo com o Evangelho e "constitui um crime contra milhares de milhões de pessoas que têm de viver na pobreza, na doença e na ignorância". "Quem transforma o valor na bolsa e a cotação das acções de uma empresa em algo absoluto e quem atribui importância, em termos económicos, apenas aos interesses do capital faz parte das pessoas que, como diz Jesus, possuem muito dinheiro e para as quais será difícil entrar no Reino de Deus." Os mais de dois mil milhões de cristãos têm, pois, de formar uma força impulsionadora de uma nova ordem económica mundial com base na justiça.
A mulher tem de ser tratada na plenitude da sua dignidade humana em igualdade com o homem. Qualquer discriminação, na sociedade ou na Igreja, está em contradição com o Evangelho. "A proibição da ordenação das mulheres e o celibato obrigatório não têm fundamentam evangélico."
Jesus não excluiu os estrangeiros - curou o servo do centurião romano e a filha da mulher sírio-fenícia. Portanto, a xenofobia não é compatível com o Evangelho. Os romanos enquanto potência ocupante podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano comece a conversar, e quem sabe se não acabarão por beber um copo juntos? Aí está: "A reconciliação, o desanuviamento e a solução pacífica dos conflitos são preferíveis à violência e à guerra."
Quando se olha para o comportamento de Jesus, por palavras e obras, com as mulheres, os estranhos, os samaritanos (hereges), os pobres, os doentes, os leprosos, os inimigos (romanos e cobradores de impostos), entende-se como a nova imagem do ser humano constituía um acto revolucionário, com significado político-religioso explosivo.
O conflito foi mortal por causa de duas imagens de Deus. De um lado, o deus do sistema do Templo e do Império de Roma, em cujo nome as autoridades sacerdotais e o prefeito romano oprimiam e exploravam o povo. Do outro, o Deus dos últimos. Jesus acaba por ser crucificado, porque a sua mensagem e a sua acção abalavam, na sua raiz, um sistema organizado ao serviço dos poderosos da religião do Templo e do Império.
E hoje? Jesus é o modelo da credibilidade, na harmonia entre ideias e actos. "Hoje, seria o deputado e o porta-voz ideal do povo, uma vez que, no seu tempo, defendeu as pessoas - de forma independente, aberta e corajosa - contra os detentores do poder."

Anselmo Borges
«Diário de Notícias», OPINIÃO, 8 Jan 2011
«O QUE DIRIA JESUS HOJE?», Ed. CASA DAS LETRAS, ISBN 972-46-1596-0

MAR MANSO [POESIA]

Mar manso, ó quanto invejo tuas veias…
[trocos de um Diário líquido]


ﺶ

enquanto esperares por mim,
espero,
e valerá a pena


ﺶ



Mergulhei em todas as filosofias.
Cansado, só um grande amor me satisfaz agora.
Caminho na narrativa da Tua mão, apaixonado no Teu segredo.
Em Ti procuro um oculto que brilhe e não prenda.
Só Tu desapareces a cada entrega.
A um grande amor assim me devo confiar.
Cansei-me de ter ideias.


ﺶ


Como estas pedras mitologicamente postas sobre a linha das águas − assim se dispõe minha esperança,
a fabricação hierática da dignidade na perene declinação do humilde som dum ouvido.

Ao longe a língua de areia, a lisura, nenhuma arrebentação…


ﺶ

Olho a linha do horizonte, o ponto nevrálgico
onde o mar se ergue e tomba.
Aí começa a tua inquebrável abertura à liberdade e à culpa.
Nenhum vinco tem em ti contornos de senda
ou rasga impune a vaga.
As ferramentas com que te constróis
são apenas urgências levantadas num olhar.
Atrás de mim, só o Mensageiro dorme
na aparência dum equilíbrio que age por dentro.
O Mensageiro é a água em terra retirada,
um atrevimento sadio,
um sinal de paz algures.

Olho a linha do horizonte. Finco o dorso
a uma pedra.
Como és belo, ó mistério…
Urge morrer em ti, ó mistério.

[poema à escultura de Irene Vilar, ‘O Mensageiro’, na foz do rio Douro, olhando a barra do mar]


ﺶ

mar manso, ó quanto invejo tuas veias…


 pb\

«ANO NOVO» SEMPRE IGUAL [cartoon]



miragens... e milagres...
miragens