teologia para leigos

31 de agosto de 2014

EUCARISTIA E ECONOMIA [E.DUSSEL]

O pão da celebração,
sinal comunitário da justiça





«Passou um ano sobre a morte trágica do arcebispo monsenhor Romero,
o zeloso pastor morto a 24 de Março de 1980, enquanto celebrava a santa missa.
Coroava, assim, com o sangue o seu ministério,
ministério particularmente preocupado com os pobres e os marginalizados.
Foi um testemunho sublime,
que acabou por constituir o símbolo da opressão dum povo,
mas também um motivo de esperança
num futuro melhor» (João Paulo II, 24.3.81).


Vamos procurar compreender a relação entre o pão, fruto do trabalho comunitário dos homens que se troca entre produtores e o pão, matéria de oferenda eucarística. Numa segunda fase de aprofundamento, tentaremos articular o pão do sacrifício com o próprio corpo do profeta que se oferece na História através das lutas pela justiça, pela construção do Reino. Pão do trabalho, pão oferenda, corpo mártir como pão eucarístico! Ou seja, procuraremos articular economia e eucaristia, o que constitui a essência do cristianismo.

Tal como já fizemos em outras ocasiões[1], vamos tomar como referência um facto histórico da vida da Igreja. Trata-se da conversão profética de Bartolomeu de las Casas [nascido em 1484], que aconteceu por volta do Pentecostes, em Cuba, em Abril de 1514 [aos 30 anos de idade], acontecimento que ele relata na História das Índias, livro III, capítulo 79[2]. Bartolomeu tinha chegado à América a 15 de Abril de 1502 [com 18 anos de idade], nove anos depois da descoberta do continente por Cristóvão Colombo, e tinha participado com Nicolás Ovando na violenta conquista dos índios Arawacos (índios tainos). Como sacerdote, foi o primeiro sacerdote americano e foi quem rezou pela primeira vez a primeira missa, em 1511, sendo o seu padrinho o próprio Diego de Colombo, filho do descobridor. Conheceu os dominicanos Pedro de Córdoba e Antón de Montesinos na ilha Hispañola. Com Pánfilo de Narváez, participou, a partir de Janeiro de 1513, na conquista da ilha de Cuba, onde o domínio europeu por parte dos cristãos se impôs «a sangue e fogo». Bartolomeu recebeu, como recompensa monetária pelos seus serviços, um grupo de índios, que para ele trabalharam (sistema de repartimiento[3]). Durante doze anos fora cúmplice da violência no Caribe: «O clérigo Bartolomeu de las Casas – escreve ele autobiograficamente – andava muito ocupado e muito solícito com as suas quintas, tal como os outros, enviando os índios (do seu repartimiento) às minas, a explorar o ouro e a fazer sementeiras, e usando-os tanto quanto podia».

Chegando Diego Velázquez à vila do Espírito Santo, e como «não havia em toda a ilha nem clérigo nem frade», pediu a Bartolomeu que celebrasse a eucaristia e lhes pregasse o evangelho. Por isso, Bartolomeu decidiu-se «a sair da sua casa que tinha no rio Arimao» e «começou a entabular diálogo consigo próprio acerca de algumas entidades da Sagrada Escritura». É importante lembrar o texto bíblico que serviu de ponto de apoio para a conversão profética do grande lutador do século XVI: «Foi aquele principal e primeiro do Eclesiástico (Ben Sira) cap. 34: "Sacrifícios com base em bens injustos são impuros, não serão aceites as oferendas dos ímpios. O Altíssimo não aceita as oferendas dos ímpios e nem por muitos sacrifícios lhes perdoa o pecado. É sacrificar o filho na presença do pai, roubar aos pobres para oferecer sacrifício. O pão é a vida do pobre, aquele que o defrauda é homicida. Mata o seu próximo quem lhe rouba o salário, quem não paga o justo salário derrama sangue." Começou – continua Bartolomeu a descrever o seu processo pessoal de conversão – a considerar a miséria e a escravidão de que padeciam aquelas gentes (os índios). Aplicando um (o texto bíblico) ao outro (a realidade económica caribenha), concluiu, por si próprio, convencido da sua verdade, ser injusto e tirânico tudo quanto acerca dos índios nesta Índia se cometia».

Bartolomeu não conseguiu celebrar a missa, o culto eucarístico. Primeiro, libertou os índios («acordou totalmente libertá-los») e começou a sua acção profética, primeiro em Cuba, depois em Santo Domingo, posteriormente em Espanha e depois em todos os reinos das Índias, «ficando todos admirados e até espantados com o que lhes dizia»[4]. «Tratando-se da vida contemplativa e activa, que era a matéria daquele domingo, e tendo a ver com as obras de caridade, fora necessário mostrar-lhes a obrigação que tinham de as cumprir e exercitar naquelas gentes, de quem tão cruelmente se serviam». Acontece que o texto de Eclo [Sir] 34:18-22 possui uma estrutura surpreendente.

I.           O «PÃO»

O texto lido em Cuba dizia: «O pão[5] é a vida do pobre». No Mediterrâneo, terra de cultura de trigo, o «pão» é a realidade e o símbolo do produto do trabalho do homem. Ou seja, é o fruto primordial da relação homem-natureza, fruto do trabalho. Esta relação estabelece-se no âmbito do produtivo (é do ordo dos factibilia)[6], ao qual se refere a oração do ofertório da missa católica: oferecemos-te este «pão fruto da terra e do trabalho do homem». Vejamos, então, estes três termos: terra, trabalho, pão.

Esta relação sujeito-natureza através do trabalho é uma relação material. A terra torna-se «matéria» (in quo e com o que) de trabalho. Sem trabalho há terra, há cosmos, mas não há «matéria». A «matéria» (o materialismo sacramental) acontece, é um a posteriori do a priori humano e subjectivo que é o trabalho. O materialismo cosmológico («tudo é matéria») é ingénuo e facilmente refutável. O materialismo produtivo é irrefutável e sacramental: a terra é matéria do trabalho. Sem terra e sem trabalho não há pão. Sem pão não há eucaristia. Porém, o que é o pão?

O pão é um pró-ducto, é aquele que vai à frente (pró-) da vista como um fenómeno no mundo. É criação humana; é continuação da criação divina. É exteriorização, ex-tranhamento, objectivação da subjectividade humana. É culturalização da terra. É cultura, técnica, tecnologia. O pão são os produtos que nos rodeiam como sistema, como civilização. Seja como for, esse «pão» é fruto do que há de mais digno: o trabalho. Na Bíblia, habodah[7], corresponde a trabalho manual (mas é igualmente, como mais adiante veremos no cap. VII, o trabalho do templo, o «serviço» divino)[8]. O «Servo» (hebed) de Yahvé é o «trabalhador» do Senhor. Trabalham os profetas, os fariseus, os apóstolos e o próprio Jesus trabalha. O trabalho é a acção humana, digna por excelência, que objectiva, na natureza, a dignidade do homem. Sem trabalho, o homem seria pura subjectividade infecunda sem «pão» para o sacrifício: as suas mãos estariam vazias.[9]


II.        O PÃO É «VIDA»

O texto da conversão profética de Bartolomeu diz que «o pão é vida».[10] Vive aquele que é um «outro» distinto de todos os outros, aquele que é livre, que se auto-determina, que na sua existência é autónomo, cuja carnalidade se mobiliza a fim de cumprir os seus fins, (…)

Enrique Dussel, teólogo e filósofo





Felipe Berríos, sj
27 Junho 2014
ENTREVISTA NA TV CHILENA








[1] Cf. Arte Cristiano del oprimido en América Latina: «Concilium» 152 (1980): «Estatuto económico de la eucaristía» (pp. 215-218); Puebla: relaciones entre ética cristiana y economía: «Concilium» 169 (1980) 576-588; sobre Bartolomé de las Casas, cf. o capítulo I da obra colectiva de CEHILA: Historia general de la Iglesia en América Latina I (1982).
[2] BAE (Madrid 1961) II, 356ss.
[4] BAE (Madrid 1961) II, 358ss.
[5] Cf. o artigo ártos, em Kittel TWNT-I, 475-476 (bibliografia actualizada no t. X/2, p. 993), Behm.
[6] «Ordo quem ratio considerando facti in rebus exterioribus constituit per rationem humanam, pertinet ad artes mechanicas» (S. Tomás de Aquino, In Ethic. Expos., I. 1, lect. 1 [Marietti; 1949], p. 3).
[7] Cf. artigo érgon, em TWNT II, 631-653 (bibl. X/2, 1084-1085), Bertam, e o art. paîs, V, 636-712, de vários autores. É importante o art. latreúo, IV, 58-68, Bornkamm, onde se demonstra que em grego latreía e latreúein correspondem ao hebraico habodah e habad (p. 59, linha 45; p. 61, linhas 27-28).
[8] Veja o meu artigo Dominación-Liberación: «Concilium» 96 (1974): «Praxis liberadora» (pp. 338ss). Vem a propósito recordar que látris (donde vem, em grego, a palavra «culto») significa «salário do operário»: render culto é pagar o salário ao trabalhador (cf. Kittel TWNT IV, 59).
[9] Diz o povo: «O trabalho dá saúde»… [NdT]
[10] Cf. artigo záo, zoé, em TWNT II, 834-874, e thánatos, III, 7-21, ambos de Bultmann (bibl. recente em X/2, 1094-1095). A vida (jaiim) é o bem supremo (Prov 3,16; Mc 8,36).



29 de julho de 2014

PARA ENTRAR NOS SACRAMENTOS [BOFF]

Quando as coisas começam a falar…





Há uma caneca de alumínio. Daquele antigo, bom e brilhante! O cabo está roto, mas confere-lhe um ar de antiguidade. Nela beberam os 11 filhos, de pequenos a grandes. Ela acompanhou a família nas muitas mudanças: da roça para a vila, da vila para a cidade, da cidade para a metrópole. Houve nascimentos, houve mortes. Ela participou de tudo. Veio sempre junto. Ela é a continuidade do mistério da vida na diferença de situações vitais e mortais. Ela permanece. Sempre brilhante e antiga. Creio que quando entrou em casa já devia ser velha, dessa velhice que é mocidade, porque gera e dá vida. Peça central da cozinha.

Sempre que se bebe nela, não se bebe água, mas o frescor, a doçura, a familiaridade, a história familiar, a reminiscência da criança sôfrega que se sacia da sede. Pode ser qualquer água: nesta caneca ela é sempre fresca e boa. Na casa, todos os que matam a sede bebem desta caneca. Como num rito, todos exclamam: − "Como é bom beber desta caneca! Como a água aqui é boa!" E, no entanto, trata-se da mesma água que, segundo dizem os jornais, vem mal tratada… Vem do rio imundo da cidade… Cheia de cloro… Mas, por causa da caneca, a água torna-se boa, saudável, fresca e doce.

Um filho regressa. Percorreu o mundo. Estudou. Chega. Beija a mãe. Abraça os irmãos. Matam-se saudades sofridas. As palavras são poucas. Os olhares longos e minuciosos. É preciso, antes, beber o outro para amá-lo. Os olhos que bebem falam a linguagem do coração. Só depois do olhar, a boca fala das superficialidades: − Como você ficou gordo! – Você ainda é bonito! – Como ficou adulto! O olhar não diz nada disso. Ele diz o inefável do amor. Só a luz entende. − "Mãe, estou com sede! Quero beber da velha caneca!"

E, no entanto, o filho tomou tantas águas: a Acqua de San Pellegrino. As águas da Alemanha, da Inglaterra, da França, a boa água da Grécia. Águas das fontes cristalinas dos Alpes, do Tirol, das fontes romanas, a água de S. Francisco. Água de Ouro-Fino, de Teresópolis, de Petrópolis. Tantas águas… Mas nenhuma é como essa. Bebe uma caneca. Não para matar a sede do corpo. Esta, aquelas tantas águas matam. Mas, a sede do arquétipo familiar, a sede dos penates paternos, a sede fraternal, arqueológica, das raízes donde vem a seiva da vida humana, esta sede, só a caneca pode matar. Bebe uma primeira caneca. Sofregamente. Terminou com um sorriso longo, como quem mergulhou e veio à tona. Depois, bebe outra. Lentamente. É para degustar o mistério que a caneca contém e significa.

Por que é que a água da caneca é boa e doce, saudável e fresca? Porque a caneca é um sacramento. A caneca-sacramento confere à água bondade, doçura, frescor e saúde.


1.   O que é um sacramento?

Hoje muita gente já não sabe o que é um sacramento. Os antigos sabiam. A mim custou-me a aprender. Durante cinco anos estudei muitas horas por dia tudo o que se escreveu sobre o sacramento. Nas línguas cristãs, desde os dias da Bíblia até hoje. Foi uma batalha do espírito. Daí resultou 552 páginas impressas e publicadas em livro. Mas esse não foi o principal resultado. Depois de tanto esforço, raiva, alegria, maldição e bênção descobri aquilo que esteve sempre a descoberto. Provei o óbvio ululante. O sacramento era aquilo que eu sempre vivia e todos vivem, mas que não sabia e poucos sabem. Tornei a contemplar a paisagem que está sempre diante do nariz. O dia-a-dia é cheio de sacramentos. Na arqueologia do quotidiano medram os sacramentos vivos, vividos e verdadeiros. É a caneca da minha família; a moamba da minha mãe; o último toco de cigarro de palha deixado por meu pai e guardado com todo o carinho; a velha mesa de trabalho; uma grossa vela de Natal; o vaso de flores em cima da mesa; aquele pedaço de montanha; o velho caminho pedregoso; a velha casa paterna, etc… Estas coisas deixaram de ser coisas: elas ficaram gente. Falam. Podemos ouvir a sua voz e a sua mensagem. Elas possuem um interior e um coração. Um íntimo. Tornaram-se sacramentos. Por outras palavras: são sinais que contêm, exibem, rememoram, visualizam e comunicam uma outra realidade diferente desses sinais, mas presente neles. […]

Leonardo Boff, ofm

[pp. 16]






22 de julho de 2014

SACRAMENTOS & ÉTICA [TAMAYO]

ÉTICA e CULTO






Culto e existência cristã

A dissociação entre ética e sacramentos não é conatural nem à ética nem aos sacramentos. Por isso, mesmo que tal dissociação seja real, ela é superável. Donde, não seja necessário renunciar a nenhuma das duas dimensões da experiência religiosa. Uma religião sem culto seria pouco expressiva e seria carente de dinamismo. Uma religião sem referência ética cairia no formalismo. Ética e sacramentos são dois momentos necessários à experiência religiosa, também à religião cristã. Ética e sacramentos encontram-se em permanente tensão, remetendo-se um aos outros e vice-versa. Contudo, a referência entre si não é de mera complacência mútua, mas de correcção e vigilância.

A memória cultual do Êxodo tem que estar em sintonia com uma experiência de libertação histórica, se não, fica-se apenas por uma ritualidade vazia. A memória sacramental da morte e ressurreição de Cristo requer, além da sua celebração festiva, a sua verificação na prática. A experiência sacramental tem de articular o culto com a vida, conformando uma unidade diferenciada com base nas seguintes características, ou semelhante a elas:

− estar solidamente enraizada na interioridade da pessoa;

− viver o encontro pessoal com Deus;

celebrar comunitariamente e de forma visível o mistério da salvação;

− ser subversiva diante da injustiça;

− mostrar-se solidária com o sofrimento alheio;

− e defender a vida dos pobres.


Nos sacramentos, atitude interior e prática exterior têm que se corresponder. As loas verbais tornam-se vazias quando o coração está longe de Deus (Is 29:13, citado por Mc 7:6-7; Mt 15:8-9). O amor a Deus é retórica quando não vai acompanhado do amor ao próximo.


OBJECTIVOS DESTE TRABALHO DE GRUPO


1.   Analisar os dois pólos das diferentes religiões: sacerdócio e profetismo;
2.   Mostrar o carácter ético e histórico da religião judaico-cristã e situar o culto de tal religião não na perspectiva da natureza, mas no horizonte da história;
3.   Considerar o culto como memorial histórico-profético, reabilitando, assim, a sua memória subversiva;
4.   Aprofundar a crítica severa dos profetas à religião e às suas principais manifestações: lugares sagrados (templos), tempos sagrados (festividades), acções sagradas (sacrifícios), pessoas sagradas (sacerdotes);
5.   Descobrir a originalidade da experiência religiosa de Jesus, centrada na relação filial com Deus;
6.   Descobrir, por conseguinte, a originalidade do culto cristão, que se caracteriza pelo perdão, pela misericórdia e pela mesa partilhada com os pobres, tudo isto inseparável da ética.


Juan José Tamayo-Acosta
«Hacia la comunidad – 3. Los sacramentos, liturgia del prójimo», Trotta 22003.


[pp. 19]