teologia para leigos

22 de fevereiro de 2014

FELICIDADE & SENTIDO DA VIDA [pb]


«Espelho meu, espelho meu…»





É pouco comum encontrar pessoas preocupadas com a meditação: não está na moda (alguma vez esteve?). Na melhor das hipóteses, as pessoas falam de sonhos, de projectos, de serem felizes. E, no entanto, andem por onde andarem as suas preocupações pessoais, elas têm sempre que ver com o sentido da existência, ou seja, com o sentido que a(s) sua(s) vida(s) te(ê)m. É certo que, regra geral, as pessoas dizem que o sentido da vida é a felicidade: isso não deixa de ser verdade. Porém, à medida que a conversa progride começam as disjunções, ou seja, começam as questões. Sempre que não desistimos, sempre que queremos especificar e perceber melhor, então, aí começam as dificuldades: a felicidade será verdadeiramente aquilo que define a nossa essência? Dito mais correctamente: a felicidade constitui o fim último da nossa existência? Esta pergunta é, em si, um tanto estúpida.

Vejamos. Quando se pergunta a alguém para que é que vives, qual o sentido da tua vida, que gostarias de ser, que andas aqui a fazer? julgamos que estamos a falar do sentido da existência, do sentido da vida. Mas quem ouve a nossa pergunta pensa em moldes que têm mais a ver com o objectivo da sua vida pessoal. É usual responder que gostaria de ser feliz, gostaria de poder realizar certos sonhos (conhecer outros povos, viajar, ser professora, ser cientista, realizar filmes, ser cantor ou actor, ser médica, ser uma estrela de futebol, etc. etc. etc.). E, sem dar conta, mistura várias realidades numa só resposta.

É muito frequente misturarmos (confundirmos) duas realidades: a felicidade e o sentido da vida. (…)

[…]

Para Jesus, a felicidade é somente doação, sobretudo aos mais débeis e marginais[1]: «tomai e comei todos, isto é o meu corpo» (Mt 26:26; Mc 14: 22-25; Lc 22:14-20; Jo 6:51-59; 1 Cor 11:23-27). Para Jesus é possível ser-se feliz, realizar um grande sonho, passando pelos outros (Vergílio Ferreira), pelos mais débeis, antes de chegar à casa de si, à casa do ego. A antropologia de Jesus caracteriza-se pelo «excesso de dom»! Quando a nossa felicidade está centrada no mais débil, ou seja, quando ela tem o seu centro no marginal (fora de mim e fora do meu clã, e não em nós nem no nosso ego ou no ego do nosso clã) é, então, que ela encontra o seu ponto de equilíbrio estável final saudável[2]. A felicidade centrada no clã (“os da mesma raça que eu”, “os do meu clube”) é uma felicidade onde a Tradição se encarrega de policiar os desvios à lei da sobrevivência (à custa dos outros clãs). Àquela outra felicidade pessoal existência centrada no mais débil (alter-ego), e para lá do clã denominamos espiritualidade cristã. Nela, a sobrevivência é, antes de tudo, a sobrevivência do Outro (não a sobrevivência duma Religião ou de Deus como ente abstracto): trata-se duma “sobrevivência-boomerang”, em que a minha sobrevivência, antes de chegar a mim, deve passar, em primeiro lugar, pelo outro/débil (que funciona como instância de validação). É esse o sentido último da nossa vida![3], e não Deus, como explica Adolphe Gesché[4].

Às outras modalidades de felicidade chamamos projectos de felicidade, hipóteses, sonhos. Nelas está já contida como uma espécie de «sombra de um sonho» (Píndaro) a espiritualidade cristã, a qual, pelo contrário, não é uma sombra, mas um projecto bem palpável, visualizável. Um ser humano débil é demasiado concreto e ostensivo; não pode ser substituível por uma análise, um poema, um filme, um êxtase estético, uma contemplação, uma mesa-redonda ou um suspiro caritativo acerca da pobreza: um pobre fragiliza totalmente a minha espiritualidade.[5] Nas felicidades pessoais do ego também está (enterrada) em potência a doação total, a qual aí geme, tal como geme o tesouro (Mt 13:44), a pérola (Mt 13:45) e o grão de trigo (Jo 12:24), que aí estiveram enterrados e gemeram sabe-se lá quanto tempo até serem encontrados, adquiridos, arrebatados e se tornarem num apelo à conversão que só sabe multiplicar gratuitidade e dom[6].

No extremo mais extremo da felicidade está a entrega total aos marginalizados, aos mais diferentes de entre todos os outros diferentes; nesse extremo está um aflitivo pedido - «Tenho fome» (Mt 25:35) (abertura ao mais alto inesperado, a um Deus revelado na debilidade, à mais alta surpresa da alteridade).[7]


[…]

Jesus ainda pode ser uma proposta de felicidade para nós, hoje, na medida em que percebermos que o seu sonho é possível ser concretizado numa comunidade de pobres/iguais porque partilham (débeis e esfomeados, que recusam disputar o maná; Ex 16:9; Act 5:1-11). Foi essa proposta que Jesus fez quando, diante duma multidão de marginalizados, proclamou as Bem-aventuranças, caminho que nos garante que podemos ser felizes, indo além do nosso ego, sempre mais além (cf. a distribuição que multiplica e faz igualdades várias: Jo 6; Mt 14:13; 15:32; Mc 6:34; 8:1; Lc 9:10).

Para lá do nosso ego (felicidade pessoal consumista centrípeta), meditemos no sentido da nossa existência (felicidade comunitária serviçal centrífuga). É certo que ela pode trazer consequências muito sérias ao nosso ego. Algumas consequências serão, garanto-vos, muito felizes (“partilhavam tudo; em todos, uma só alma”; Act 2:46). De vez em quando, paremos um pouco para meditar seriamente no sentido que estamos a dar à nossa vida: viemos para ser servidos (por Deus, pela Natureza, pelos outros) ou para servir? Jesus veio para ser Filho[8], Jesus veio para servir e fazer a vontade do Pai (Mt 20:28; Mc 10:45; Lc 22:27b; Jo 13:11-17): construir uma humanidade fraterna. Para grandes solidões, grandes espelhos: viremos isso do avesso e busquemos um sentido para as nossas vidas que vá além da auto-estima do nosso ego.

A felicidade ao incorporar em si uma ética de compaixão ultrapassa a Moral e cria um dinamismo de Vida que, pela sua potência, terá de se alimentar dum “Amor Maior”, do amor de Deus, que é doação gratuita e fidelidade plena.

«Mal o sol nasce, Senhor,
exponho diante de ti o meu pedido
e fico à espera confiante (Salmo 5:4)



[pb]




«O MAIS IMPORTANTE É QUE EU SEJA FELIZ?»
- aquilo em que Hans Küng acredita







A comunidade

«Que bom e agradável os irmãos viverem juntos e em harmonia» (Sl 133,1)

Contrariamente ao que poderia parecer à primeira vista, não se deduz que o cristão tenha que viver necessariamente entre os cristãos. O próprio Jesus Cristo viveu no meio de inimigos e, por fim, foi abandonado por todos os seus discípulos. Na Cruz ficou completamente sozinho, rodeado de malfeitores e blasfemos. Veio para trazer a paz aos inimigos de Deus. É por isso que o lugar da vida do cristão não é a solidão dos claustros dos conventos, mas o território onde o inimigo acampa. Aí a sua missão e a sua tarefa.

«O reino de Jesus Cristo deve ser edificado entre inimigos. Quem recusa isto renuncia a fazer parte deste reino e prefere viver rodeado de amigos, entre rosas e lírios, longe dos malvados, envolto de gente piedosa. Não estais vendo que, assim, blasfemais e traís Cristo? Se Jesus se tivesse comportado como vocês, quem se teria salvo?» (Lutero)

“Dispersá-los-ei entre os povos, contudo, mesmo que bem longe, lembrar-se-ão de mim” (Zac 10:9) É da vontade de Deus que a cristandade seja um povo disperso, lançado como a semente «entre todos os reinos da terra» (Dt 4:27). Esta é a Sua promessa e a Sua condenação. O povo de Deus deve viver longe, entre infiéis, mas será a semente do reino espalhada pelo mundo inteiro.

“Reuni-los-ei porque os resgatei … e eles regressarão” (Zac 10:8-9). Quando acontecerá isso? (…)

Seja como for, a presença sensível dos irmãos é para o cristão fonte incomparável de alegria e consolo. Preso e já perto do final dos seus dias de vida, o apóstolo Paulo apenas pode chamar Timóteo «seu muito amado filho na fé» para que regresse a vê-lo e a tê-lo a seu lado. Não esqueceu as lágrimas de Timóteo aquando da última despedida (2Tm 1:4). Outra vez, pensando na Igreja de Tessalónica, Paulo ora a Deus «noite e dia com grande ânsia para voltar a vê-los» (1Ts 3:10), e o apóstolo João, já velho, sabe que o seu gozo não ficará completo até que esteja junto dos seus a fim de falar-lhes de viva voz em vez de por escrito com papel e tinta (2Jo 12).

O crente não se envergonha nem se considera demasiado carnal por desejar ver o rosto dos seus crentes. O homem foi criado com corpo, num corpo surgiu a nós o Filho de Deus sobre a terra, num corpo foi ressuscitado; no corpo o crente recebe Cristo no sacramento e a ressurreição dos mortos dará lugar à plena comunidade dos filhos de Deus, formado de corpo e espírito. (…)

A medida na qual Deus concede o dom da comunhão, varia. Uma visita, uma oração, um gesto de bênção, uma simples carta é suficiente para dar ao cristão isolado a certeza de que nunca está só. (…)

Os cristãos de hoje descobrem, novamente, que a vida comunitária é verdadeiramente a graça que sempre foi, algo extraordinário, «o momento de descanso entre os lírios e as rosas» a que se referia Lutero.

Dietrich Bonhoeffer
Vida en comunidad’, Sígueme 2009 (excertos p. 9-13)











[1] O Evangelho de Jesus é um apelo à Conversão, ele exige conversão, metanóia, inversão, mudança de paradigma, “mudança de lugar social”, opção por uma outra visão ou ponto de vista. Essa Metanóia implica “olhar com os óculos do pobre”. É Jesus quem dá o exemplo e demonstra como isto se realiza: Ele próprio «pára o processo social e muda de lugar social» (Lucas 18:39-40; Jo 9:41). Jesus nunca fez uma pregação humanitária em abstracto, com base em “princípios universais”. Jesus era um «ser social» consciente da realidade social concreta.
[2] Jesus não é apenas um “gajo porreiro”, amigo do seu amigo, simpático, mas alguém com um Projecto para a Vida. Jesus vive eticamente o projecto de Deus para o seu Povo, e vivi-o de forma activa, criativa, dinâmica segundo uma «Ética da Compaixão pelo Pobre». É a partir daí – de baixo – que Jesus começa a construir a sua Casa. Jesus fez uma «opção de vida»: superou a ’norma’, a ‘lei’, colocando a Compaixão pelo espoliado no centro da sua vida de doação. Foi assim que ele entendeu o Projecto de Deus para a Humanidade: a construção duma Humanidade Fraterna e Serviçal! A vida de Jesus tinha um sentido e esse sentido, esse «destino» descobriu-o ao responder às mil interrogações que o assaltavam em jovem: «Por que caminhos da vida hei-de seguir?» [Heráclito, Fragmento 138]. Aos poucos foi ficando claro, para Jesus, que esse caminho era o «Caminho das Bem-aventuranças» (Mt 5:1-12; Lc 6:20-23): viver com os olhos postos no povo que sofre e os ouvidos na palavra do Pai (digamos: um caminho às avessas). Ir pelo mundo fazendo o bem, libertando e dando graças (Act 10:38). É sobre essa «ética desconcertante» de Jesus (JM Castillo), baseada na revelação dum «Deus que se funde e se confunde com o humano débil», que Jesus ergue o seu projecto de Vida: ser a presença do Deus da debilidade entre os mais débeis. Em suma, não é possível encontrarmos a felicidade sem antes construirmos um projecto para a vida com um sentido sério, em que a minha sede de me dar de graça é a melhor garantia de receber de graça (Mt 10:8b); melhor: de receber mais do que aquilo que se dá… (Mt 25:19-21) Apesar de tudo, este insight de Jesus resultou: quando tudo parecia uma leviandade adolescente e irresponsável, um verdadeiro fracasso absoluto (Emaús; Lc 24:13), Deus ressuscitou-o! Dizendo: Estive sempre contigo, agora repousa em Mim para sempre. (Jo 17:18-23)
[3] Adolphe Gesché fala de «Deus entre parêntesis», Marcel Gauchet fala do cristianismo como «a religião da saída da religião» e José Comblin diz: «Nas memórias dos evangelhos, Deus permanece muito discreto; não ocupa quase nenhum lugar».
[4] «A nossa intenção com este livro não é fazer de Deus o “funcionário do sentido”, como se só Deus fosse a última e a única chave do sentido.» (…) «Deus não é o sentido das coisas, como se tudo aquilo que pudéssemos dizer acerca do sentido se encontrasse apenas em Deus. Mas o sentido, também não é Deus, como se a procura do sentido equivalesse à procura de Deus. O sentido não substitui Deus e Deus, muito menos, substitui o sentido. Tanto num caso como no outro, prejudicar-se-ia o sentido e corria-se o risco de o alienarmos, e prejudicar-se-ia Deus reduzindo-o a uma função. Ao mesmo tempo, e em ambos os casos, ferir-se-ia o Homem.» [«El Sentido», Sígueme 2004, Introdución, p. 19]
[5]  Sl 146 - «Não ponhais a vossa confiança nos poderosos, (...) Feliz de quem tem por auxílio o Deus de Jacob, (…) Ele salva os oprimidos, dá pão aos que têm fome (…) e ampara o órfão e a viúva [o pobre]». Mc 12:33 - «e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios». Mt 5:43 - «Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.» Três variantes do destino do nosso amor: o outro (‘o próximo’, em abstracto), o outro-meu-inimigo (o que me rejeita totalmente) e o pobre (o que eu, sem querer, fabrico e rejeito). Perante todas as possíveis hipóteses, Jesus pede que purifiquemos o nosso modo de amar. Que ele passe dum amor narcisista desculpabilizado a um amor purificado, verdadeiro, incondicional. De todas elas, a proposta de fazer do pobre o centro do amor introduz e clarifica uma dimensão nova (social) que não estava claramente contida nas outras. Isso constitui  uma dupla purificação do amor.
[6] Ver Frère Éric: «Mais tout gémissement appelle, toute clameur interpelle. Appelle une présence, interpelle pour une conversion.». Fonte : «A SALA DE CIMA», 14 de Agosto 2013 ; Cf. http://asaladecima.blogspot.pt/2013/08/leve-toi-et-marche-frere-eric.html
[7] «Passar do dever à necessidade», in A ÉTICA DE CRISTO, JM Castillo, Edições Loyola, p.59. «O pensamento da Modernidade foi tomado de obsessão pelo problema da “identidade”, que é o problema da auto-consciência, o problema do eu. (…) Acontece, no entanto, que essa pergunta, por mais importante que seja, termina por fechar o sujeito em si mesmo, bloqueando-o na bolha do próprio eu. Daí a necessidade de passar a outro delineamento: da pergunta pela “identidade” à pergunta pela “diferença”. Daí que, em autores como Lévinas e Derrida, a ideia da diferença é pensada começando pelo Outro e não por ele Mesmo, de maneira que o Outro “é o novo centro de atenção na filosofia e na ética” [Miroslac Milovic]. Produz-se, assim, a grande viragem de que necessitamos neste momento para sair de nós próprios e dedicar a devida atenção aos mil problemas que afectam o outro, os outros.» Podemos dizer que o que mais se assemelha ao ser do homem é o desejo e não o dever. Então, há que descobrir a proposta existencial que faça passar do dever ao desejo, à necessidade de desejar «metas excessivas e totalmente distintas» (M. Horkheimer). «Kant estabeleceu-o de modo luminoso. Se o homem que combate pela liberdade – diz ele – não crê que a liberdade é possível, se nem sequer está convencido disso a partir de algo de dentro de si próprio ainda que longínquo, se não está convencido de que a liberdade existe, se nem tiver uma espécie de consciência de que existe um «reino de Deus» (a expressão é de Kant), onde a liberdade se desfralde em todo o seu esplendor, esse homem nunca encontrará forças para travar os seus combates pela liberdade e não encontrará o seu destino» (A. Gesché, «El Sentido», Sígueme, 2004, 112). «Só as palavras excessivas [liturgia, onde a liberdade se desfralda em todo o seu esplendor] serão capazes de fazer de um homem um ser desejante (o que significa algo mais que um ser mobilizado, confrontado com os seus deveres ou movido por um imperativo)» (ibidem, p. 111)
[8] «Ser Filho do Pai é receber dele uma missão e conformar toda a vida a essa missão, colocar todos os momentos da existência, as decisões, as opções sob a direcção das suas palavras» (José Comblin, «JESÚS DE NAZARET», Ed. Sal Terrae, Santander ‘El Pozo de Siquem’, 1977, p. 70-71).


13 de fevereiro de 2014

SEXUALIDADE [JD WERDT]

POLIVALÊNCIA DA SEXUALIDADE





O conteúdo do número 100 desta revista Concilium [Dez. 1974], apresenta o tema da sexualidade sob um ponto de vista crítico, e, por isso, opõe-se à monovalência da sexualidade ensinada pela doutrina oficial da Igreja católica, que se baseia na equação «sexualidade=procriação» (dentro do quadro do matrimónio). Não incluo, nessa doutrina oficial, os textos conciliares que se exprimem de modo bem distinto. Aquela equação [«sexualidade=procriação»] não resiste a uma análise crítica por parte do método indutivo das ciências naturais e das ciências do Homem, na medida em que os dados que estas disciplinas abarcam excedem, em muito, a equação sexualidade=procriação. Mesmo assim, este nosso texto não tem como finalidade indicar o caminho para a verdade, baseado nos contributos orientadores dessas ciências. Cingir-nos-emos, estritamente, ao tema proposto e situá-lo-emos, fenomenologicamente, como uma descrição sistemática daquelas dimensões semióticas da sexualidade, que se podem descobrir na experiência humana e no conhecimento científico da mesma.

[…]


II – Estudo estratigráfico da sexualidade

A partir destes princípios que acabamos de enunciar devem deduzir-se diferentes dimensões semióticas da sexualidade, sem que nos detenhamos a valorizá-las.

1. A partir da conduta e da experiência pessoal é possível descrever, a sexualidade, segundo três direcções:

a)   Como uma vivência interior possuidora dum conteúdo bem definido. É o que acontece com os desejos, fantasias, sonhos, sensações e excitações sexuais, bem como o prazer, o medo, a alegria ou a repugnância sexuais. Neste sentido, o processo sexual ou é voluntário ou é provocado por pessoas ou objectos (reais ou imaginários). Aquilo que cada coisa representa para cada indivíduo depende de muitas razões: da sua história pessoal, do momento e da situação presente, de condições internas e externas.
b)  Como um comportamento do indivíduo para consigo próprio, com conteúdo bem concreto (aceitação ou rejeição da sua corporeidade e sexualidade) com que se autoexcita mediante estímulos imaginários ou manuais (auto sexualidade sem parelha real), etc.
c)   Como um comportamento do indivíduo, de conteúdo bem definido, com pessoas e / ou objectos.

Mesmo uma pessoa sob continência sexual tem vivências e comportamentos deste tipo, pois só seria assexual o homem não sexuado, e isso não existe.

2. Através dessas dimensões, podemos traçar um outro corte segundo as funções da sexualidade, nas quais, pelo menos parcialmente se actualizam as três dimensões atrás resumidas, com o seu valor específico. Enumeremos as mais importantes:

a)   O prazer, graças ao contacto, a estímulos ópticos ou acústicos, graças a jogos amorosos, o orgasmo, etc.
b)  O relaxamento, na medida em que deixa o indivíduo satisfeito durante experiências prazenteiras genitais ou extra-genitais.
c)   A relação, no sentido geral e até certo ponto não especificado, que vai desde a atracção ao amor e até à agressividade. Esta função «social» da sexualidade apresenta muitíssimas variantes e múltiplos níveis de intensidade (desde a união extática até à radical separação entre sexualidade e amor), de acordo com todos as formas de entendimento ou oposição e desavença entre os seres humanos (aversão aos homens e às mulheres, discriminações de minorias sexuais, etc.).
d)  A reprodução: quer nos atenhamos à biografia geral de cada indivíduo quer ao período de «capacidade reprodutiva» da pessoa, esta função é temporalmente limitada, ao passo qua as mencionadas anteriormente persistem durante toda a vida. Por conseguinte, durante a fase procriativa, a sexualidade significa algo mais que apenas reprodução: a reprodução não é uma forma mais de experiência sexual, mas, somente, uma consequência possível da sexualidade, caso aconteçam determinadas condições biológicas. Não tem nada a ver com a qualidade da relação inter-humana nem com a forma como o indivíduo vive a experiência sexual. De facto, nem todas as crianças são «fruto» do amor. Além disso, até pode dar-se o caso que se deseje ter um filho, mas não é a intenção em si que faz com que a reprodução aconteça. Em resumo, o plano a que ela pertence é diferente das outras funções da sexualidade anteriormente mencionadas.

Esta enunciação não pretende, de modo algum, hierarquizar, ainda que, num simples relance, ela denuncie uma certa ordenação enraizada na tradição católica (mas não apenas nela). O prazer, regra geral, ou nunca aparece ou é citado como função última, no fim, coisa que se compreende, e até é lógica, caso se persista e insista no primado da função reprodutiva, se tivermos em conta a insignificância do orgasmo da mulher para efeitos da procriação. Para tal finalidade, o orgasmo do homem é obrigatório, ao passo que o da mulher é supérfluo. Isto define uma concepção discriminatória da mulher, que fica condenada a uma sexualidade passiva. Do ponto de vista etnológico, isto significa uma humilhação, por exemplo, do inimigo (cf. as cenas…).

[…]


VII – Polivalência e cristianismo

Caso nos decidamos a volver o olhar para as fontes genuínas do cristianismo, não encontraremos nelas nenhum argumento sólido para uma concepção monovalente da sexualidade. Na verdade, deveríamos dizer que aquelas fontes não nos proporcionam nenhuma concepção particular da sexualidade, mas, sim, uma visão global do homem todo.

O Homem é concebido como uma realidade criada, no que está incluída a sua sexualidade, uma obra em cujo conjunto se pode contemplar uma dupla dimensão: a

a)   Horizontal – como pessoa em relação com os outros homens, e a
b)  Vertical – como pessoa diante de Deus.

É a partir deste conceito central que devemos entender as valências da sexualidade humana. Dito por outras palavras: é da pessoa humana que a sexualidade recebe o seu significado e o seu sentido. O Homem, ao enfrentar-se com a sua sexualidade, sente-se responsável não por algo que seja pré-pessoal ou sub-pessoal, mas perante uma realidade que ficou para sempre radicalmente integrada na sua categoria como pessoa.

A norma da sexualidade é o Homem criado na sua dupla dimensão: enquanto aquele que vive diante de Deus e, ao mesmo tempo, se relaciona com todos os demais.

Josef Duss-von Werdt

Revista Internacional de Teología, Concilium, nº 100, Madrid Dez. 1974, pp. 488-496.





12 de fevereiro de 2014

MATRIMÓNIO - SACRAMENTO

MATRIMÓNIO





Todas as culturas conhecem alguma forma de instituição do matrimónio. Na maioria delas, o homem e a mulher só são considerados plenamente homem e mulher depois de atingir a maturidade com um parceiro. Assim, também muitas religiões consideram o matrimónio como acto sagrado com origem numa divindade ou como a união de almas ou espíritos com o reino do sagrado.

Seja como for, em todas as culturas existem três categorias principais de crenças acerca dos propósitos do matrimónio: a perpetuação da família e da sociedade através da procriação; uma aliança que levará a sociedade à sua integração estabelecendo vínculos de parentesco; e, finalmente, a união da noiva com o seu noivo, aspecto que poderá ser entendido como sistema complexo de intercâmbios entre grupos e/ou indivíduos. Todas estas categorias deverão ser validadas através das crenças religiosas da sociedade, que as coloca em prática.

[…]


V – Pistas para uma teologia do matrimónio

 Da riqueza dos dados da Bíblia e dos documentos da Igreja que acabamos de ver, impõem-se algumas pistas teológicas para a compreensão cristã do matrimónio de hoje:

1.   Embora pensado dentro de um horizonte cultural, o matrimónio cristão tem dentro de si uma novidade radical que é o Evangelho de Jesus. E, apesar de Ele ainda se estar a revestir daquilo que forma a identidade das diferentes culturas, isso faz com que o núcleo da mensagem esteja sempre pujante de valor e de verdade. É preciso saber identificar aquilo que é a roupagem cultural para chegar ao cerne daquilo que é a revelação da vontade criadora e salvífica de Deus quanto ao mistério do amor entre um homem e uma mulher.
2.   A relação entre Jesus Cristo e a comunidade eclesial é o fundamento mesmo do matrimónio, sendo, portanto, o lugar onde se torna visível o diálogo salvífico. Na palpabilidade do matrimónio torna-se visível e real – manifesto – o que existe do mistério inefável entre Jesus Cristo e a sua Igreja. Por isso, vendo o matrimónio a partir do mistério de Jesus Cristo e da Igreja, pode-se acreditar que se é chamado a cumprir todas as exigências do amor cristão de modo a que se seja, no mundo, figura do Reino de Deus.
3.   Segundo a lógica do Evangelho, o matrimónio não existe para si mesmo ou para se comprazer na sua própria excelência afectivo-comunitária. Embora os laços afectivos e relacionais sejam fundamentais para o crescimento dos cônjuges, o matrimónio cristão fracassará quanto à sua vocação se sucumbir à tentação do modelo burguês, fechado em si mesmo, confinado à esfera do privado, instaurando uma dicotomia não sadia entre o privado do lar e a dimensão pública do mundo e da sociedade. Se o matrimónio é figura da Aliança e do Reino, isso é consequência directa do facto de ele existir no mundo e para o mundo. Atento às necessidades e prioridades deste mundo, deve desenvolver a sua identidade e as suas prioridades.
4.   A redescoberta da proposta de Jesus Cristo e do seu Evangelho, naquilo que tem de mais nodal e constitutivo – o amor e o serviço aos outros como motivação e sentido central da vida – é o meio mais eficaz para interagir sobre os matrimónios no sentido de eles procurarem um exercício afectivo e efectivo do seu amor. Amor que, diante das mais variadas situações, poderá tomar diversos nomes: fidelidade, dedicação, solidariedade, partilha, luta pela justiça, testemunho e todas as outras formas inventadas por aquilo que Paulo afirmou ser «um caminho que ultrapassa a todos» (1Cor 12:31) e contra o qual não existe Lei (Gl 5:23).



María Clara L. Bingemer






Na próxima "entrada" explorar-se-á a sexualidade e o cristianismo (sexo, prazer, orgasmo, pornografia, publicidade, sexualidade fora do matrimónio, sentido e finalidade, fetichismo, homotropia e heterotropia, etc.), em suma, a realidade da sexualidade e as suas várias dimensões.