teologia para leigos

18 de setembro de 2013

ORAÇÃO [L. BOFF]

Mística e Política:
Contemplativo na Libertação





(…) A experiência da fé viva e verdadeira constrói a unidade oração-libertação. Porém, é preciso entender correctamente o que é a experiência da fé. Como temos dito muitas vezes, a fé, em primeiro lugar, é uma forma de viver todas as coisas à luz de Deus. A fé define o de onde e o para onde da nossa existência, e isso é Deus e o seu desígnio de amor comunicado e realizado em todas as coisas. Para o homem de fé, a realidade é, originalmente, não profana ou sagrada, mas simplesmente sacramental: revela Deus, evoca Deus, vem embebida da divina realidade.

Por isso, a experiência de fé unifica a vida, na medida em que contempla a realidade unificada por Deus, Deus como origem e destino de tudo.

Como forma de vida, a fé viva implica a postura contemplativa do mundo: vê e encontra as pegadas de Deus por todo o lado. Mas não basta que a fé seja viva: importa que seja verdadeira. A fé só é verdadeira quando se transforma em amor, em verdade e em justiça. A Deus agradam-lhe não apenas os que O aceitam, mas os que constroem o Seu Reino, que é Reino de verdade, Reino de amor e Reino de justiça. Só essa fé comprometida é fé salvífica, e por isso verdadeira. «A fé sem obras é inútil» (Tg 2:21). «Uma fé pura, mas sem obras, também a têm os demónios» (Tg 2:20).

A fé cristã sabe que Cristo tem uma densidade sacramental especial nos pobres. Eles não têm apenas necessidades que devem ser socorridas; possuem uma riqueza única e própria: são portadores privilegiados do Senhor, destinatários primeiros do Reino, com um potencial evangelizador de todos os homens e da Igreja (Puebla 1147). O crente não tem apenas uma visão sócio-analítica do pobre, identificando a sua paixão e as causas que geram os mecanismos do seu empobrecimento. Supondo tudo isto, o crente olha a classe dos empobrecidos com os olhos da fé e descobre, neles, o rosto sofredor do Servo de Yahvé. E esse olhar não se detém no contemplar, como que «usando» o pobre [«servindo-se» do pobre] para se unir ao Senhor.

Cristo encontra-se identificado com os pobres e quer ser aí servido e acolhido: «Eu estava com fome…» (Mt 25:35). Alguém está deveras com o Senhor nos pobres quando se compromete a lutar contra a pobreza que humilha o homem e contra tudo o que vai contra a vontade de Deus, tudo o que é fruto de relações de pecado e de exploração. A mesma fé verdadeira implica e exige um compromisso libertador: «… e deste-me de comer» (Mt 25:35). Se não empreende uma acção libertadora, não somente não ama o irmão, como também não ama a Deus (1Jo 3:17). O Amor não pode ser apenas «com palavras e de boca, mas com obras e de verdade» (1Jo 3:18).

Esta experiência espiritual confere unidade à relação fé-vida, mística-política. O problema que se coloca aqui é: como manter esta unidade? Como alimentá-la diante de tantas forças de desagregação? Esta visão, contemplativa e ao mesmo tempo libertadora, não emerge espontaneamente: é a expressão mais significativa da fé viva e verdadeira. Porém, como dar consistência a esta fé?

Aqui emergem os dois pólos: a oração e a prática.

Sem dúvida, a questão não é ficarmos na polarização ou na justaposição. Cairíamos assim, de novo, em algum daqueles «monofisismos» que já criticamos. Impõe-se articular dialecticamente os dois pólos. É necessário considerá-los como dois espaços abertos um ao outro, que se implicam mutuamente. Deve-se, porém, privilegiar um dos pólos da relação: o da oração.

(…)

Frei Leonardo Boff, ofm

[9 pp.]










10 de setembro de 2013

VIDA DE ORAÇÃO ENTRE OS POBRES [GZ. BUELTA]



Características da experiência de Deus entre os oprimidos


“Galileus, que fazeis aí, especados, a olhar para o céu?” [Act 1:11]

Tende entre vós os mesmos sentimentos,
que estão em Cristo Jesus:
Ele, que é de condição divina,
não considerou como uma usurpação ser igual a Deus;
no entanto, esvaziou-se a si mesmo,
tomando a condição de escravo.
Tornando-se semelhante a muitos
e sendo, ao manifestar-se,
identificado como homem” [Fl 2:5-7]




1. «Subir» ou «baixar»?

É usual falarmos de «subir» ao encontro de Deus. Contudo, Paulo fala de «baixar» ao encontro dum escravo de nome Jesus.

Quando a Igreja latino-americana começou a olhar para baixo [anos 60], isso coincidiu com um tempo em que o imperialismo nos começou a invadir com seitas que nos convidavam a que olhássemos para cima. «Pobres da América Latina, que fazeis aí, especados, olhando uma terra cheia de problemas? Olhai, antes, para o céu limpo, onde está Deus e donde nos chegará a única salvação que existe!» São estes os novos «anjos» que trazem uma mensagem que não tem nada a ver com a mensagem que os apóstolos receberam no Monte da Ascensão.

Diante de qualquer tentação para ficarmos parados olhando o céu paralisados pela nostalgia, somos convidados a olhar a terra e o futuro, onde Deus se manifestará. Então, os discípulos voltaram atrás e regressaram a Jerusalém, precisamente a Jerusalém, aí onde haviam assassinado Jesus, e onde eles – como discípulos – não passavam de meia dúzia de gatos-pingados, assustados, ameaçados. Os discípulos foram devolvidos à História, onde tinham de construir o Reino a partir da sua pequenez, da sua ninharia, na senda de Jesus até que Ele voltasse.

Jesus surgiu de baixo, brotou a partir da sociedade. A gruta, a cova de Belém, o seu casebre de camponês galileu, as prisões do Sinédrio e as de Pilatos estavam cá em baixo, e não no céu. É desta experiência deste Jesus humano, «semelhante a muitos», que nascerá um futuro radicalmente novo.

“Quando dizemos que Jesus subiu ao alto, esse ‘subiu’ pressupõe que antes ‘baixou’ às profundezas da terra” (Ef 4:9). Jesus movimentou-se com predilecção por entre os marginalizados da terra, convidou a fazer caminho com ele os que se sentiam paralisados pelo mundo da sinagoga: os seus amigos mais próximos sentiam, como Ele, todo o peso social e religioso que pesava sobre o povo e que vinha de cima.

Quando se tornou «um homem igual a tantos outros» foi quando experimentou Deus como Pai de bondade e de proximidade. Comprovou com alegria como o Pai revelava o seu projecto aos simples e o ocultava aos sábios e instruídos (Lc 10:21). Esse ‘ocultamento’ e essa ‘revelação’ fizeram com que ele desse graças exclamando em voz alta. Ao longo desta sua descida, Jesus foi-se entregando à obra do Pai, que se lhe revelava e que o chamava a partir da Cruz.

Os deuses idolátricos deste mundo estão em cima e procuram adoradores, cegos seguidores das suas ideias, consumidores drogados dependentes dos seus produtos, fanáticos seduzidos pelo seu espectáculo, mão-de-obra barata dos seus palácios de luxo, multiplicadores submissos do seu Capital.

O Senhor da História não pressiona a partir de cima. Nem que seja a partir da fragilidade das primeiras comunidades dentro do Império Romano, os cristãos experimentam que algo novo está a nascer. Passaram, assim, de escravos a mártires, testemunhas da libertação de Deus.

Hoje, para nos encontrarmos com Deus temos que olhar para baixo e dirigir para aí os nossos passos e o nosso compromisso.


2. Deus morre fora dos muros da cidade

Por isso, também Jesus, para santificar o povo com o seu próprio sangue, padeceu fora das portas. Saiamos, então, ao seu encontro fora do acampamento, suportando a sua humilhação, porque não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura.” [Hb 13:12-14]


A Carta aos Hebreus convida-nos a sair da cidade, e ir aí onde Jesus foi assassinado, a fim de O encontrar. Devemos procurar a pessoa que, segundo a mentalidade dos dirigentes desta sociedade, não tinha sítio certo dentro da cidade, a fim de nos encontrarmos com Deus.

Outrora, a vida religiosa, dirigiu-se, em primeiro lugar, para os desertos geográficos, para longe da corrupção urbana. Depois, foi para os desertos dos mosteiros e conventos. Aí, solitários diante de Deus, enfrentando o combate espiritual, iluminados no seu despojamento pela proximidade de Deus, eles eram o grito do absoluto para todo o povo.

A vida religiosa, hoje, saiu para o deserto da marginalização dos bairros e dos campos. Aí se encontram aqueles que a sociedade excluiu, seres de «categoria inferior», cascalho com o qual se constrói o «progresso». Ao encontrá-los, ficamos em silêncio e começamos a olhar de uma outra maneira a cidade, a Igreja, a palavra de Deus, a nossa própria história pessoal. Dentro deste silêncio inicia-se, então, um combate interior contra a cumplicidade pessoal e, também, uma luta contra os demónios exteriores encarnados em leis, em instituições e em pessoas.

Na marginalização compreendemos que não (…)

Benjamín González Buelta, sj

[6 pp.]





8 de setembro de 2013

ORAÇÃO - DESAGRADÁVEL SURPRESA [G.-RUIZ]

A ORAÇÃO FOI ENCAIXOTADA, RECONVERTIDA
(um testemunho pessoal)


Cónego González Ruiz (Málaga)



[…] Há a possibilidade de surgir em cada um de nós duas personalidades: uma pseudo-espiritualidade força-nos a tornarmo-nos esquizofrénicos. Isto aparece dito nas prédicas dos exercícios espirituais: “vem repousar com Deus, deixa na pia da água benta todas as tuas preocupações e, agora, falemos com Deus”. Devo confessar que aquele Deus me repugnava. Por isso, no fim da minha adolescência, procurei avidamente a Bíblia, sobretudo o Novo Testamento. Quando fui capaz de ler bem o grego, pedi a uma livraria de Barcelona (que dista 1200 km de Málaga) uma cópia do Novo Testamento grego, da edição crítica das edições Vogels, porque no seminário, naquele tempo, não havia sequer uma cópia do Novo Testamento na sua língua original. Era o tempo do grande subdesenvolvimento teológico.

Nesse tempo, eu era feliz e levava à Igreja o meu Novo Testamento grego para alimentar a minha meditação religiosa, mas o superior repreendeu-me, dizendo que eu, um ávido intelectual, transformava a oração em estudo. Mas eu pensava: qual é a diferença entre o estudo e a oração? Agradeço a Deus ter superado aquela grande tentação de esquizofrenia. Ainda hoje, muitos amigos me censuram por ter abandonado a mesa das investigações bíblicas (que, apesar de tudo, nunca deixei) para «me sujar» com uma praxis comprometida, revolucionária, não conveniente à dignidade de um padre, sobretudo, se se é um cónego.

Pelo contrário, outros censuram-me uma pretensa manipulação dos textos bíblicos a favor de uma discutível opção revolucionária. Quero dizer a estes senhores duas coisas: primeiro, que não chega dizer que eu tenha manipulado os textos; é preciso demonstrá-lo. Posso dizer que tenho calos causados por tantos anos de estudo paciente na obscuridade das bibliotecas, sobretudo, na do Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Em segundo lugar, a minha praxis comprometida não é anterior ao meu estudo e meditação da Bíblia, mas posterior e, por isso, dela derivada. Foi a Bíblia, aquele Deus incómodo de Abraão, de Isaac, de Jacob, de Jesus, de Pedro, de Paulo, que me empurrou para aquela praxis. Nas minhas orações, quantas vezes me recordei das angustiantes orações de Jesus em Getsemani. Eu via que a vontade de Deus era (…)

J. M. González Ruiz

[pp. 7]



LINKS:








4 de setembro de 2013

ORAÇÃO - LUGAR DE ESCOLHAS [D. ATTINGER]

A ORAÇÃO COMO VERIFICAÇÃO DA AUTENTICIDADE DAS NOSSAS ESCOLHAS


 
Daniel Attinger, Comunidade de Bose


Nesta minha intervenção, procurarei falar-vos brevemente da nossa oração comum. Mas é necessário ter presente alguns elementos característicos da comunidade em que vivo. É uma comunidade monástica que pretende propor o monaquismo ao mundo e à Igreja de hoje. Não quisemos copiar os monges; procuramos um caminho próprio, todavia, na continuidade da tradição monacal. São, essencialmente, dois os elementos novos: antes de tudo, a Comunidade de Bose é ecuménica vivem em conjunto evangélicos e católicos. Nós estamos comprometidos nesta direcção ecuménica, não obstante o ecumenismo ter hoje passado de moda (sobretudo depois da descoberta de outras divisões graves que existem na Igreja). Mas, entretanto, a divisão entre católicos, evangélicos e ortodoxos permanece tranquilamente, escandalosamente; de qualquer modo, esta unidade é necessária. A Comunidade de Bose é, pois, uma comunidade na qual vivem, em conjunto, no celibato, homens e mulheres.

O que é que caracteriza o monge? Os primeiros monges viviam no deserto. Não tanto para procurar um Deus fora da realidade, mas, pelo contrário, para combater Satanás. Hoje, felizmente, o demónio foi desmitificado; perguntámo-nos se permaneceria ainda alguma coisa de válido no tema da chamada fuga mundi.

Partindo de uma análise linguística para a qual o «diabo» significa literalmente o «divisor», concebemos o nosso papel de monges como o de homens e mulheres chamados a lutar contra a divisão, onde quer que ela esteja: divisão social ou política, divisão confessional ou eclesial, mas também divisão de tipo psicológico – a que eu sinto no interior de mim mesmo (a crise, que está hoje, 1973, na moda![1]). Estes são alguns lugares de tensão e de luta nos quais podemos ser homens, ministros da reconciliação.

Mas a reconciliação não está, por exemplo, em dizer aos patrões e aos operários: «Sejam bons! Estejam tranquilos!». A reconciliação não significa descompromisso. Trata-se, pelo contrário, de levar a justiça a todos os homens, a justiça na qual cada homem pode ser realmente e plenamente ele próprio. A nossa «fuga mundi» tornou-se, assim, o nosso serviço para uma plena humanização dos homens, o nosso serviço pela sua libertação.

Neste contexto é que quisemos redescobrir uma oração para hoje. Apercebemo-nos logo que não se tratava apenas de renovar a oração: não bastava mudar as palavras e criar novas orações embora isso também possa ser necessário. Tratava-se, pelo contrário, de restituir um conteúdo àquilo que se chama oração.

Um primeiro significado foi-nos dado pela vocação que recebemos: pudemos verificar que a oração se tornava o lugar por excelência no qual a nossa comunidade (que vive a comunhão de bens, de pensamentos, de acção, de vida, da divisão do pão por todos) exprime a sua unidade não tanto numa oração particular, mas perante Deus. Noutros termos, a oração conduz-nos diante daquele que julgamos estar na origem da nossa comunidade. É então um repetir a verdadeira razão da nossa existência: nós queremos andar à frente na construção do mundo que corresponda ao projecto da criação de Deus. Descobrimos, pois, a gratuitidade da oração: não se trata, na oração, de pedir alguma coisa a Deus, mas sobretudo de dizer a Deus: «Estamos aqui, acreditamos em ti, não sabemos por que acreditamos, acreditamos por que acreditamos que tu te deste a nós para acreditarmos em ti… Estamos, pois, aqui, diante de ti». Neste acto gratuito da oração, exprimimos a nossa unidade de comunidade, também ela gratuita. A oração tornou-se o lugar no qual, diante de Deus, repetimos a nossa escolha de vida comunitária.

Descobrimos, depois, que, de facto, a oração não é um luxo de burgueses: não são eles que oram…, por isso, pouco importa contestar a oração dos burgueses. Pelo contrário, são os pobres que oram, são eles que têm necessidade da oração, porque não têm nada, porque os pobres esperam tudo de Deus. É verdade que Deus não nos ouve: foi por isso que os burgueses deixaram de orar. Pelo contrário, os pobres persistiram na oração, porque não têm outra esperança senão na intervenção de Deus… mesmo que Deus não aja.

O pobre não pode contar com o seu dinheiro, nem com o progresso técnico, porque a técnica moderna não se preocupa com eles. Não pode contar com o seu poder – não o tem – e ainda menos com o poder dos outros, porque os outros nunca pensaram neles: os assim chamados ‘revolucionários’, que fazem eles pelos doentes mentais, por aqueles que todos os dias têm fome, tremem de frio, pelos leprosos, pelos cegos, pelos coxos, pelas prostitutas que pecam apenas por excesso de amor, que fazem eles dessa gente que existe e com a qual Jesus viveu? São estes os verdadeiros pobres, aqueles que têm necessidade da oração! A oração não é um luxo burguês. Pelo contrário, a oração é a esperança dos pobres!

Mas, para nós, que não somos pobres, para nós que somos burgueses – porque, mais ou menos, todos o somos – o que pode significar a oração? Parece-me ser antes de tudo um lugar de maturação. Dou um exemplo: na minha juventude, orei muito pela unidade da Igreja. Orei, até que compreendi que, nessa oração, Deus me dizia: «Fazes bem em orar pela unidade, que eu também desejo. Então, constrói e faz essa unidade pela qual oras!» A oração tornou-se momento de maturação…

É sempre perigoso orar, porque corre-se o risco que Deus nos escolha para nos tornarmos o instrumento da realização da nossa oração! A oração tornou-se o lugar do meu compromisso, mas também do compromisso do próprio Deus: na minha oração pela unidade dos cristãos. Deus comprometeu-se, foi Ele que me deu estes irmãos com os quais construímos a nossa comunidade.



Comunidade de Bose



Com este exemplo se mostra que a oração é o lugar das escolhas que fazemos: na oração procuramos saber qual é a vontade de Deus. É uma luta com Deus que acontece no jogo e na oposição entre Palavra de Deus (que a cada passo descobrimos na leitura assídua da Escritura) e a nossa palavra (que quer ser uma resposta à Palavra de Deus). Por exemplo, é quando oro que descubro o famoso texto de Isaías, no qual Deus diz: «Não sei o que hei-de fazer dos teus holocaustos, das tuas liturgias, estou cansado de suportar as tuas celebrações. O que eu quero é que vós vos ameis, que pratiqueis a justiça, que deixeis de oprimir os pobres, os órfãos, a viúva» (cf. Is 1:10-20).

É da minha oração que nasce a minha decisão positiva, construtiva, determinada: «Amarei, lutarei pela justiça, viverei ao serviço dos homens».

A oração é, pois, o lugar ou o momento em que escolho o meu caminho!

Mas a oração, em seguida, torna-se momento de julgamento: agi segundo a minha decisão ou não? Na minha oração sinto o «Vinde, benditos de meu Pai, porque tive fome e sede, estava nu e assististe-me…» ou «afastai-vos de mim malditos…» (Mt 25:31-46)? A oração não é, então, a bela alienação de que tanto se fala. A oração é, antes, o momento de verificação da minha autenticidade. A oração é o momento em que se prova a coerência da minha fé cristã.

Concluo com uma imagem. A vida cristã parece-se com uma sanduíche. Por baixo, está uma fatia de pão. Esta fatia de pão é a “oração-luta-com-Deus”, que me leva a uma decisão. Há, depois, a carne: é a minha vida, em que procuro viver coerentemente a minha escolha, em que tento ser verdadeiramente o sinal do Reino de Deus que se aproxima. Finalmente, existe a fatia de pão de cima: o juízo que Deus lança sobre a minha existência.

Não há oposição entre oração e vida, assim como, na sanduíche, não há oposição entre pão e carne. Tal como acontece na sanduíche, em que a carne dá gosto ao pão, enquanto o pão sustenta a carne, o mesmo acontece na minha vida: o meu agir, o meu construir o mundo, o meu ser homem no meio dos outros homens dá gosto à minha oração, enquanto a oração sustenta a minha vida para a frente… para Deus.

Daniel Attinger, pastor evangélico
Monge da Comunidade de Bose


Links:









[1] Texto de 1973…