teologia para leigos

3 de setembro de 2013

LIBERTEMOS A ORAÇÃO [B. BESRET]

Libertemos a Oração
(um testemunho pessoal)


Abadia de Boquen



Pelo título desta conferência[1] podem desde já prever que a nossa matéria é muito complexa. Fala-se em libertar a oração e isto supõe imediatamente que se saiba o que é a Oração. Supõe-se também que se saiba exactamente quem sou eu, e quem é Deus, e qual o tipo de relação que se pode estabelecer entre os dois, além de que, se se começar de repente a falar de Oração, receio que o nosso discurso se torne muito artificial em comparação com o discurso de Roger Garaudy [Marselha, 1913 - Paris, 2012] e de José María González Ruiz [Málaga, 1915-2005].

Penso que o que está no centro é o homem, a sua própria vida, e, presentemente, não se pode introduzir um discurso sobre a Oração que seja completamente estranho à problemática dos homens de hoje. Se, de repente, se começasse a falar de Oração, e se saltasse por cima desta problemática, parece-me que se cairia num discurso absolutamente alheio à nossa vida quotidiana. Um exemplo: se se partir de uma concepção da Oração como diálogo com Deus, é-se introduzido de imediato numa terminologia que não corresponde à nossa experiência quotidiana.

 Suponho que a vossa experiência será um pouco como a minha. Quando começo uma Oração, não faço outra experiência senão a de um monólogo ou, se estamos em comunidade para celebrar em conjunto, as palavras que são ditas são palavras que vão de um para outro, de uns para os outros membros da comunidade, mas, uma vez mais, trata-se dum discurso entre homens. E, quando se trata da Escritura, se se fala da Palavra de Deus, eu não vejo, não sinto senão as palavras dos homens, isto é, dos profetas, dos outros e não as palavras de Deus directamente. Assim, todo o discurso que habitualmente se faz sobre a Oração coloca-nos no mundo dum pensamento diferente daquele no qual se desenvolve a nossa existência.

Por outro lado, quando se fala de libertação da oração, a expressão «libertação» pode ser compreendida de modos diferentes. «Libertar a oração» pode significar «libertar a oração de todas as fórmulas falsas» nas quais a verdadeira Oração pode estar aprisionada. Não quer dizer, directamente, libertar-se da Oração, mas sim «libertar-se destas formas falsas da oração». E, num terceiro sentido, a libertação da oração pode também querer dizer «atingir um tipo de oração que seja para nós fonte de libertação», que seja obtenção duma libertação através da Oração.

Portanto, já pelo título «libertemos a oração» vemos quanto é difícil defrontar os diversos problemas paralelos a este. Assim, preferi, em primeiro lugar, apresentar-vos a minha própria experiência de Oração, e, em segundo lugar, ver como através desta experiência nos podemos, efectivamente, libertar de tantas fórmulas falsas ou difíceis de Oração.

Partindo de uma experiência pessoal, que é muito limitada é preciso que se tome consciência destas limitações tem-se a vantagem de estar no plano da nossa existência concreta.

Para mim, o problema da Oração não é o essencial na minha vida, porque o problema que é essencial na minha vida é o sentido da minha vida, o problema de crescer, o problema de me construir, o problema de construir o mundo com os outros, de construir a sociedade na qual estamos inseridos. E, quando todos os dias faço a experiência desta vida, deste esforço para crescer, faço ao mesmo tempo, na minha vida, a experiência de tantas dificuldades para ser aquilo que, com um certo pressentimento, penso ser justo.

. Queria ser uma fonte, uma luz, embora existam em mim tantas trevas.

. Queria ser uma liberdade em acto embora existam em mim tantos determinismos que fazem de mim uma espécie de máquina que funciona sem que haja no seu interior esta presença, esta liberdade, esta consciência desperta para dar um sentido à minha vida.

. Queria ser uma fonte de unidade entre os homens e, no entanto, encontro em mim tantas forças que me dividem e tantos esforços que me opõem aos outros; talvez, os outros também se oponham a mim.

Portanto, no construir a minha própria vida, no construir a sociedade à qual pertenço encontro tanta obscuridade, tanta dificuldade!

Relacionado com esta problemática, houve um momento em que entrei em contacto com a história de Israel e com a história deste homem, Jesus de Nazaré.

 Relacionado com esta experiência de busca dum sentido vivo para a minha existência e para a minha existência com os outros, quando encontro os outros estabelece-se uma espécie de dialéctica. Quando nós encontramos os outros há sempre uma espécie de dialéctica que se estabelece entre nós e os outros; estabelece-se um confronto que procura descobrir um pouco do sentido da vida do homem, porque todo o homem é para os outros homens um sinal a ler, um sinal para ser lido e do qual se deve descobrir o significado, caso ele nos ajude a compreender melhor o que é decisivo na nossa vida.

Nesta dialéctica, e não de modo diverso, deste confronto com os outros homens encontro o povo de Israel, encontro a figura muito excepcional de Jesus de Nazaré. E na leitura que faço destes acontecimentos, desta história, desta vida, aprofunda-se a dimensão da minha experiência humana.

Quando Jesus diz, no Evangelho, «compreenda quem tiver ouvidos para compreender» (Mt 11:15), penso que queria dizer: só quem fez a experiência da prisão, da escravidão pessoal compreende a mensagem da libertação que existe nesta vida, nesta história do povo de Israel, nesta vida do homem Jesus. Sinto que, para compreender o que está no interior destas histórias, os meus ouvidos são muito mais perspicazes, quando, através da minha vida, tive experiências dolorosas, difíceis, na construção do mundo, na construção da minha vida. Confrontando a minha experiência com o que se diz da de Jesus e do seu ensinamento da sua vida e do seu ensinamento, os quais devem ser sempre inseridos na história de Israel ─, sinto que nestas histórias existem elementos absolutamente determinantes para a minha vida, ainda que não consiga prová-lo aos outros, ainda que não possa impô-los aos outros nem provar aos outros com argumentos científicos ou matemáticos que tenho razão para acreditar neles.

(…)

 [9 pp.]

Bernard Besret, monge de Cister [entre 1953-1974].
Doutor em Teologia, prior da Abadia Cisterciense de Boquen entre 1964 e 1969, teólogo influente no Concílio Ecuménico Vaticano II, cuja Biografia merece uma atenção muito particular. Converte-se ao Taoismo em 1997 [cf. FONTE Wikipedia].







[1] Esta é uma entre várias participações numa mesa-redonda sobre Oração. É frequentemente evidente o estilo coloquial deste texto e doutras intervenções, que se produziram no 25º “Simpósio de Jovens”, em Itália, no início dos anos 70, editado pela “Livraria TELOS” – Porto sob o título «UM RISCO CHAMADO ORAÇÃO» em 1973.

31 de agosto de 2013

ORAÇÃO - MODELO, SIGNIFICADO E FUNÇÃO [J LAGUNA]

E se Deus não fosse perfeito?
por uma espiritualidade simpática





1.   Diz-me com que Deus andas e dir-te-ei como rezas e vives

«Põe-te numa posição cómoda. Relaxa-te. Esvazia a tua mente. Desliga as tensões e, lentamente, enche-te de paz interior. Deixa-te inundar da paz de Deus. Sente-te acolhido por Deus, descansa no Seu colo…».

Frequentemente, os métodos de oração, que enchem as prateleiras das livrarias religiosas, limitam-se ao ensino de técnicas corporais e psicológicas de pacificação e de unificação interiores, evitando a mais pequena reflexão teológica sobre o Absoluto, a quem se dirige dita oração.

Por trás desta redução da espiritualidade a um mero problema “técnico” está a convicção de que os que oram dentro da mesma tradição religiosa partilham uma única compreensão de Deus: acaso não o nomeiam, todos, do mesmo modo?

A intuição que anima estas linhas parte da suspeita de que, ainda que coincidamos no mesmo vocabulário quando nos referimos à divindade, pode acontecer que no sótão das nossas crenças mais profundas estejamos a nomear e a adorar deuses diferentes. Este interrogar a qualidade da nossa linguagem teológica não passaria duma questão supérflua se não estivéssemos convencidos de que uma errada compreensão de Deus n’Aquele em quem cremos tem consequências desastrosas, não apenas para o nosso modo de orar, mas também para a nossa maneira de viver e, em última análise, para o nosso compromisso cristão com a sorte ou com o infortúnio dos mais desfavorecidos: diz-me com que Deus andas…

Os métodos de oração não são neutros: todos pressupõem uma pré-compreensão da divindade. Pior: não raro, o deus a que se reza corresponde a uma projecção inconsciente do próprio modo de orar. Por exemplo, os sistemas de inspiração oriental não apenas nos oferecem valiosas técnicas de relaxamento profundo, de silêncio do coração, de harmonia, de desprendimento face à realidade, etc., mas também toda uma cosmovisão religiosa que inclui a afirmação de um Deus desligado da realidade, garante da harmonia, silencioso e situado para lá de qualquer sensibilidade.

Não pomos em questão os benefícios com que a sabedoria oriental enriquece a nossa stressada cultura nem a sua inegável revalorização dos aspectos passivos e receptivos da experiência espiritual, os quais, ainda que presentes nas nossas grandes escolas místicas, foram sepultados sob o gelo de uma religião excessivamente doutrinal e moralista. Pois bem, admitindo todos estes aspectos positivos, devemos perguntar-nos pelo «rosto do deus oriental» para que não caiamos em espiritualidades perversas que podem consagrar, para sempre, estruturas sociais injustas. Nada temos contra a procura da harmonia interior como meio para nos relacionarmos com um Absoluto “harmonioso”: a espiritualidade cristã admite, sem problemas de maior, a “harmonia” como um atributo de Deus. No entanto, quando, nas culturas como a hindu, essa harmonia cósmico-social pressupõe a imutabilidade, quer da ordem natural, quer da ordem social, então, ela pode acabar por legitimar o sanguinário sistema de castas como se fosse a concretização terrena da harmonia divina. É em situações como esta que a reflexão teológica, como “discurso sobre Deus”, adquire a sua verdadeira dimensão.

A teologia num mundo onde são cada vez mais os homens e as mulheres que se preocupam em alimentar a dimensão espiritual das suas vidas não é um jogo especulativo para espíritos ociosos, mas uma responsabilidade exigida por milhões de “intocáveis”, os quais, por todo o planeta, se interrogam por que é que a sua sorte de deserdados parece não sofrer mudança alguma, apesar de tanto exercício de espiritualidade.

Só perguntando-nos pelos fundamentos teológicos da nossa espiritualidade é que poderemos evitar os perigos de místicas desencarnadas que alienam as pessoas e as introduzem em paraísos de papel, que convertem as nossas orações numa ofensa àqueles irmãos para quem sobreviver dia após dia constitui a sua maior aventura.


2.   Sede perfeitos como Deus é perfeito?

O evangelista Mateus di-lo claramente: «Sede perfeitos como o vosso Pai do céu é perfeito» (Mt 5:48). Nesta frase condensa-se a meta de qualquer espiritualidade que não busca mais nada que não seja tornar-nos íntimos do Absoluto a quem oramos.

Porém, em que consiste a Perfeição divina? E porquê o nosso empenho em questionar tal perfeição? Vamos por partes.

Ao rodear o imperativo mateano […]


José Laguna, músico e teólogo
CiJBarcelona

[25 pp.]






27 de agosto de 2013

A IGREJA QUE JESUS QUERIA [X. ALEGRE]

UTOPIA
- a Igreja tal como Jesus a queria






1.   Preâmbulo

Quando vemos figuras como a daquele Papa bom que foi João XXIII [Bérgamo (Itália) 1881- Vaticano 1963] ou como a de monsenhor Romero [El Salvador, 1917-1980] ou monsenhor Casaldáliga [Barcelona/S. Félix do Araguaia (Brasil), 1928-], sentimo-nos orgulhosos por pertencer a esta Igreja, que amamos, por nela termos conhecido Jesus vivo. E Jesus vivo, sobretudo, naqueles homens e mulheres que, na maior parte dos casos, de modo muito simples e anónimo, se deixaram apanhar pela figura de Jesus de Nazaré e foram capazes de cravar o Seu projecto bem fundo dentro das suas vidas, vivendo totalmente para os outros, de modo que esses outros possam ter vida e vida em abundância (Jo 10:10). E quando lemos o poema de monsenhor Casaldáliga «Deixa a Cúria, Pedro» sentimos que o vigor profético continua vivo na Igreja e que ele reaviva em nós a esperança de que, como comunidade eclesial, tenhamos algo de importante para dizer ao mundo em nome de Jesus de Nazaré, precisamente num momento em que o mundo parece carecer de utopias e sente dificuldade em viver esperançadamente.

Porém, naquilo que diz respeito à realidade eclesial, isto que acabamos de dizer é apenas uma das faces da moeda. A involução eclesial pós-conciliar, cada vez mais patente em muitas das atitudes recentes   sobretudo ao nível das «altas instâncias» da Igreja carrega consigo a tentação do desânimo. Este perigo é real, sobretudo para aquelas pessoas que procuraram viver a sua fé de modo muito comprometido com a Igreja. É cada vez mais usual ouvir, sobretudo entre os jovens, o slogan «Jesus sim, Igreja não». E nós, os adultos, não podemos deixar de nos recordar daquela frase de Loisy «Jesus anunciou o reino de Deus e acabou por nascer a Igreja»[1]. Como respondermos, a partir da nossa identidade cristã, a esta objecção? Antes de mais, a fim de podermos dar razões da nossa esperança (1Pe 3:15), temos de nos interrogar se a nossa Igreja, tal como ela surge aos olhos dos crentes e dos não crentes, é efectivamente a Igreja que Jesus queria. Como comunidade cristã, somos fiéis ao Espírito de Jesus de Nazaré?

Como responder a essa pergunta? Se formos capazes de nos libertarmos de preconceitos e se aceitamos como dado de fé que a Sagrada Escritura foi inspirada por Deus (2Tm 3:16) e é Palavra de Deus dirigida a nós, então o Novo Testamento a nossa raiz cristã mais funda pode ajudar, e quer ajudar-nos, a ser construtivamente críticos face às nossas igrejas e face à nossa maneira de ser Igreja.

Porém, antes de desenvolvermos o tema, devemos ter presente uma possível objecção. No tempo crítico em que estamos a viver, tempo que conhece bem a dificuldade em chegar à realidade histórica de Jesus de Nazaré[2], será que poderemos algum dia vir a saber se Jesus quis uma Igreja? E, no caso de podermos ter uma resposta afirmativa, como teria sido a Igreja que Jesus quis? Apesar de não me ser possível desenvolver este tema no âmbito deste artigo, creio que a pluralidade de dados que o Novo Testamento nos proporciona, lidos à luz da Tradição cristã, permite dar uma resposta positiva àquela pergunta[3]. A pergunta à qual vou tentar responder é em que sentido quis Jesus a Igreja actual, ou em que sentido colocou os fundamentos que levariam às Igrejas actuais, grandes ou pequenas, tal como elas são a católica incluída. Na verdade, são elas que se consideram igrejas fundadas por Ele e são elas que procuram ser fiéis ao Seu Espírito…


2.   O esquema católico clássico pré-conciliar

Todos conhecemos o esquema clássico pré-conciliar dominante antes do desenvolvimento e aceitação dos métodos modernos de interpretação do Novo Testamento, os quais se deveram, fundamentalmente, à encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII [1943][4] e à constituição conciliar Dei Verbum do concílio ecuménico Vaticano II [1965][5]. Tal esquema pré-conciliar dizia assim:

Na Quinta-Feira Santa, Jesus celebrou a sua primeira Missa no Cenáculo com os seus Apóstolos. Foi assim que instituiu a Eucaristia e fundou o sacerdócio ministerial hierárquico, o qual, rapidamente, se estruturou tal como o conhecemos hoje em dia na Igreja católica, segundo uma linha hierárquica vertical, que se transmite pela imposição das mãos dos bispos, os quais, por sua vez, receberam esse poder dos Apóstolos e estes de Jesus.

Segundo esta concepção, a estrutura vertical Papa-Bispos-Presbíteros-Diáconos e povo-de-fiéis é uma estrutura intocável, pois fora desejada assim por Jesus.[6]

Desta concepção também se deduz que as mulheres não podem ser ordenadas sacerdotes pelo facto de Jesus só ter escolhido homens para os Doze. Segundo essa perspectiva, as diaconisas que encontramos na Igreja primitiva não faziam parte do ministério hierárquico, desempenhando apenas funções assistenciais.

É claro que esta concepção é anacrónica. E é-o, não porque esta forma de conceber seja falsa, mas por ser parcial e imprecisa: ela não interpreta adequadamente os dados que o Novo Testamento nos proporciona. Segundo este, Jesus não instituiu directamente o sacerdócio ministerial hierárquico[7], mas escolheu os Doze discípulos para os enviar a pregar o Reinado de Deus e que fossem o sinal escatológico da chegada deste Reino na pessoa de Jesus de Nazaré.

O desenvolvimento posterior das comunidades eclesiais foi (…)

Xavier Alegre
Professor de Teologia

[30 páginas]







[1] «L’évangile et l’Église», Paris, 1902, p. 111.
[2] Fizeram-se, contudo, notáveis progressos neste campo. Ver P. M. Beaude, Jesús de Nazareth, Estella, 1988.
[3] Para exposição deste tema, servi-me fundamentalmente da obra de G. Lohfink La Iglesia que Jesús queria, Bilbao, 1986 (a tradução literal do título seria: «Que tipo de comunidade teria querido Jesus?»).
[6] Cf. G. Fourez, «Penser des Églises chrétiennes aujourd’hui» : La Foi et le Temps 18 (1988), p. 295.
[7] Cf. G. Lohfink, «Weibliche Diakone im Neuen Testament»: Diakonia 11 (1980), pp. 385-400 (trabalho resumido sob o título «Diáconos femininos en el Nuevo Testamento»: SelTeol 21 (1982) pp 303-310), que trata também do papel da mulher na Igreja primitiva (sobre este assunto, cf. também aquilo que já dissemos em «Junia, una mujer “Apóstol”?» [cf. infra pp. 335-351]).




14 de agosto de 2013

«Lève toi et marche» [Frère Éric]

Pèlerin dans la souffrance de l’humanité


«Les joies et les espoirs, les tristesses et les angoisses des hommes d’aujourd’hui, surtout des pauvres et de tous ceux qui souffrent, sont aussi les joies et les espoirs, les tristesses et les angoisses des disciples du Christ» [Gaudium et Spes, 1]


Une plainte monte des entrailles de la mère Terre : la plainte de l’humanité.

Cette plainte s’élève pour chaque blessure ouverte, par chaque plaie non soigné, par chaque corps humain blessé dans sa dignité, violenté dans sa beauté.

Clameur silencieuse… Pourtant, celui qui l’a écoutée, ne serait-ce qu’une fois, qui a entendu en  lui la douleur et la souffrance de l’humanité, n'aura pas de repos jusqu’à ce qu’il ait fait de sa vie offrande et oblation, réponse silencieuse à ce gémissement silencieux…

Un gémissement de douleur, un cri de souffrance, n’attend pas de rendez-vous, de théorie ou de thèse, et encore moins de conférence ou de congrès.

Mais tout gémissement appelle, toute clameur interpelle. Appelle une présence, interpelle pour une conversion.

Pour marcher sans rien emporter avec lui, pour être et rester nu et sans protection, aussi passionné que vulnérable, le pèlerin chemine dans la nuit de l’humanité souffrante. Ses pérégrinations se perdent dans l’océan de la souffrance humaine.

 Ouvrir le florilège de ces lettres par ces récits, peut-être est-ce rappeler qu’il n’existe pas de vocation chrétienne authentique qui ne mène au pauvre, au souffrante, au blessé. Si toute vocation naît de la tendresse infinie de la douce Trinité et retourne en son sein, toute vocation est aussi inspiration, imitation de Jésus le pauvre, de Jésus le Serviteur de Dieu, de Jésus le Crucifié, de Jésus le Ressuscité.

Frère Éric


«Cartas da rua e da estrada», por Henrique, Peregrino da Trindade
Edição em português:
Pia Sociedade Filhas de São Paulo - São Paulo, Brasil - 1997

Edição em francês:
Nouvelle Cité 2000, ISBN 2-85313-356-7



«Mais tout gémissement appelle, toute clameur interpelle.»

«(…) uma sociedade que ainda considera que frágil é quem sofre e demonstra o seu sentir. Anestesia-se então o sentir, calam-se lágrimas com anti-depressivos, drogas, álcool ou consumismo desenfreado, dança-se freneticamente não ao sabor da música, mas como se da expulsão de demónios internos se tratasse. Não é possível saborear a vida, os sentidos estão entorpecidos e treinados para se redimirem ao cognitivo, ao racional. (…) A liberdade do Eu é confundida com a liberdade face a sentimentos dolorosos, vive-se uma vida inebriante, numa projecção maciça de elementos beta (Bion, 1961) que não tendo encontrado um meio contentor não se puderam transformar em pensamentos, tendo, portanto, de ser evacuados. Vive-se, mas em superficialidade, em estado maníaco artificialmente provocado, num divórcio constante face ao íntimo e genuíno, ao afectuoso e ao realmente humano. Esta alienação do Eu e do humano conduz precisamente à desumanização, determinando a impossibilidade de ajudar o mais fraco, porque esse nos coloca em confronto com as fragilidades pessoais – fragilidades essas odiadas e mantidas à distância da mente e do sentir.» [Isabel Mesquita, "Os disfarces de amor", CLIMEPSI_2013]