teologia para leigos

18 de junho de 2013

CAPITALISMO E FÉ [G. FAUS]

Depois destas três décadas e meia de divinização Papal [1978-2013], que arrastaram consigo demasiado “lixo” e, com ele e para os católicos, humilhação e vergonha suficientes, bem como o colapso dum Papa (Bento XVI). Depois do fim dos regimes ditos ‘comunistas’ ou ‘socialistas’ (Muro de Berlim, 1961-1989) a que se seguiu a «dominação global» (sem contraditório) por parte do único sistema ideológico, militar, burocrático e económico que é o Capitalismo Neo-liberal, eis que a Igreja católica se volta a questionar sobre o seu papel no mundo, seu espaço e sua missão. Se lhe juntarmos a irrupção (2007-2008) duma das maiores Crises financeiras mundiais de todos os tempos… bem que podemos dizer: que terríveis 35 anos!

Após a eleição do Papa Francisco, subitamente arrefeceram a divinização papal e aquela Fé perfomance-teatral feita duma espiritualidade de multidões embriagadas para quem Jesus de Nazaré não dizia nada, mas Deus e o restauracionismo das “vias-sacras”, “missas do pôr-do-sol na praia”, grandes multidões e “procissões de velas” diziam tudo.

Mergulhados na Crise financeira e na Crise económica, o discurso oficial das Igrejas católicas foi “recolhamos aos quartéis da Caridadezinha”!, incapaz de, por si só, questionar as fontes bíblicas da sua identidade, incapaz duma profunda ‘revisão de vida’ e, por isso, incapaz dum anúncio profético libertador que separasse as águas e descobrisse onde mora o crucificado, o Cristo que sofre hoje, ali onde «a morte ataca à luz da legalidade» (Elsa Tamez).

Estaremos (por um lado) condenados para sempre à ideologia norte-americana dos «mercados» e à Caridadezinha Cristã
(CLICAR AQUI: um País de engraxadores e vendedores ambulantes, o «empreendedorismo perverso», a «economia social moralizante e culpabilizante»; CLICAR TAMBÉM AQUI)? Estaremos (por outro) condenados a uma fézinha órfã, desvitalizada, ferida, subitamente desamparada e resignada à ‘prata da casa’ e às vistas curtas?

Julgo que este texto de J. I. G. Faus relança a esperança sobre o tempo que estamos a viver. Ele aponta o caminho à Igreja de Cristo: Jesus, um Jesus intolerante para os hipócritas, mas cheio de misericórdia para os desesperados.

Jesus é a nossa bem-aventurança! Assim fica mais clara a missão dos cristãos neste mundo tão contraditório e injusto, quanto desafiador.
 

A heresia capitalista




O capitalismo é um sistema que «não ama» e, por isso, «não conhece Deus». Para lá de tudo mais, o seu fundamento e ponto de partida é esse não-amor. O seu primeiro mandamento é a obtenção do máximo lucro. Caso fale de Deus, necessariamente, falará dum deus falso, na medida em que o sistema é intrinsecamente negador do Deus de Jesus Cristo. J. M. Keynes deixou bem claros os dois maiores venenos do sistema capitalista: é absolutamente incapaz de criar emprego digno para todos e é absolutamente incapaz de criar igualdade entre os seres humanos.[1] É por isso que o sistema capitalista fere gravemente a dignidade do ser humano.

A frase de Karl Marx escrita em «A Questão Judaica» («o seu culto é a ganância e o seu deus o dinheiro») ultrapassa o judaísmo, a quem o autor a quis circunscrever: hoje deve ser aplicada à «civilização» e à economia ocidentais. O novo fenómeno do ateísmo de direita, a que noutro sítio me referi, é a consequência lógica dum Capital que se libertou da necessidade de recorrer à religião como a sua única forma de protecção e de camuflagem da injustiça. Hoje, a secularização e a maioridade da sociedade tornaram desnecessária essa falsa protecção: o capitalismo autojustifica-se, agora, porque o egoísmo e a inveja se converteram nos pontos de partida da nossa visão da realidade.

No entanto, e a partir desse ateísmo, rapidamente começou a surgir uma religião que nasce do medo (último) diante do vazio da secularidade e que preenche o mundo de ídolos. As igrejas deveriam evitar aproveitar-se, de modo muito equívoco, desses brotos religiosos, desses gamões religiosos, convencidos que constituem um novo caminho para Deus, mas ancorarem-se (e ancorando as próprias igrejas) na necessária conversão que o anúncio jesuano do Reino pede.

E, caso estas palavras escandalizem, leia-se, para concluir, estas outras do homem intelectualmente tão honesto que Paulo VI foi, apesar do seu carácter hamletiano e agudamente dubitativo, vítima dos esbirros da Cúria. A maior parte dos católicos de hoje não aceitam estas palavras do Papa Montini (caso contrário o mundo estaria totalmente diferente daquilo que ele efectivamente é), e nem sequer têm consciência de que essa rejeição incorpora em si uma inegável heresia:


«[…] a Bíblia, desde as suas primeiras páginas, ensina-nos que a criação inteira está destinada ao homem, o qual terá que aplicar a força da sua inteligência para a valorizar e, mediante o seu trabalho, aperfeiçoá-la… Se a terra existe para que todos nela encontrem os seus meios de subsistência e os instrumentos do seu progresso, todos os homens têm o direito de nela encontrar aquilo de que necessitam [a seguir, Montini cita o Vaticano II: GS 68, 1]. Todos os restantes direitos, sejam eles quais forem, (incluindo o direito à propriedade e ao livre comércio) estão destinados a todos: não devem ser obstáculo mas facilitação à sua realização. É um grave e urgente dever social fazer com que esses direitos regressem à sua finalidade originária (Populorum progressio, 22; sublinhado meu).»


Há, nestas palavras, três coisas muito sérias:

- qual é a vontade de Deus para a sua criação e, portanto, qual é o sentido do cristianismo, na medida em que ele é o cumprimento da vontade de Deus;

- que essa vontade relativiza, de modo absoluto, todos os outros direitos humanos, que, assim, face àqueles, são secundários;

- que é um dever grave e urgente recuperar esta perspectiva. Foi por isso que, com a mesma radicalidade e clareza, este Papa disse, poucos anos antes, que o sistema capitalista «tem que possuir em si um profundo vício, uma radical insuficiência».[2] E que profundo vício e que radical insuficiência!

Os católicos que beneficiam deste sistema pecaminoso gostam de mandar tocar as trompetes quando os discursos papais falam de temas como Família e Sexualidade, e tudo leva a crer que o fazem não propriamente por obediência à Igreja, mas porque esses temas são temas esgrimidos pela esquerda que deles faz a sua bandeira e, assim, ao os desautorizar, desautorizam ao mesmo tempo as outras reivindicações sociais dessa mesma esquerda. Esses católicos dão muito eco a esses discursos papais que vêem como anti-esquerda, ao mesmo tempo que silenciam, sigilosa e sistematicamente, o ensino social que em nada é menos palavra do Papa que os anteriores. É evidente que as Encíclicas não são infalíveis, mas a única atitude honesta seria discutir pública e argumentativamente as próprias Encíclicas sempre que se esteja convencido que elas estão erradas. Silenciar a sua opinião e ignorá-las é hipocrisia e interesseirismo.


[N.B. Gostaria de terminar este capítulo com um texto, que é mais longo do que os anteriores, e que é de uma das maiores autoridades teológicas do momento, o qual, com mais de noventa anos, nem por isso perdeu a lucidez nem a esperança nem a audácia que são necessárias para se dedicar aos problemas actuais do cristianismo. Porém, como o texto é comprido e denso, permiti-me subdividi-lo e subintitulá-lo eu próprio de modo a facilitar, ao leitor, o acesso ao seu conteúdo]




1.   A Igreja

1.a. Uma visão errada, da Igreja, acerca do mundo

A Igreja tem tendência a considerar o mundo secularizado e laicizado – trata-se, sobretudo, do mundo ocidental – como território seu, como população por si baptizada, por si instruída, por si modelada, por si amplamente governada e que se revoltou contra ela e, injustamente, a rejeitou: por isso, a Igreja concebe o seu futuro natural como reconquista do que fora seu e que seu deverá voltar a ser. Assim, a Igreja reserva a palavra missão à exploração de territórios novos, desconhecidos, e prefere falar de segunda evangelização ou de re-evangelização sempre que se trata de pregar a fé a um mundo sobre o qual perdeu influência ou do qual foi desapossada.


1.b. Razões para mudar esta visão

Esta visão tem que mudar, não apenas porque este mundo já não é o mesmo e por ser pouco conveniente designá-lo de uma maneira negativa ou reivindicativa a partir daquilo que ele já não é ou a partir da rotura da sua ligação ao cristianismo, mas também porque já não tem nada a ver com o mundo do passado e porque um outro mundo sucedeu ao mundo cristão. Provavelmente, este mundo conserva muitas coisas do passado, mas até dessas se apropriou de uma maneira diferente fazendo delas coisas diferentes. Por exemplo, a Igreja passa a vida a atirar-lhe à cara que foi da Igreja que este mundo recebeu as sementes dos Direitos Humanos, dos quais o mundo é muito orgulhoso, mas o próprio mundo retribui-lhe que essas sementes só deram fruto nele, no mundo, e não na Igreja, a qual, aliás, os combateu durante muito tempo. Por outro lado, o mundo, sozinho, constituiu-se em terreno de numerosos projectos: ciência, economia, tecnologia, etc., os quais determinam muito mais a sua existência, quer a presente quer a futura, do que o seu passado religioso, pelo que o mundo se concebe a si próprio como um novo ser virado para o futuro procurando encontrar-se nele, e virado para o universo que tenta incorporar no seu devir.


1.c. Outro modo de ver

Portanto, a Igreja está condenada a reconhecer o mundo tal como ele se vê a si mesmo, com a sua independência, a sua novidade, a sua alteridade. Trata-se dum mundo que nasceu da religião, que perdeu a fé em Deus ao tentar libertar-se da religião: não se trata dum mundo que abandonou a religião porque se rebelou contra Deus. Pelo facto das tradições religiosas terem, desde sempre, moldado o modo de se estar em sociedade e do ser-mundo da humanidade, os seres humanos, que haviam sonhado com e procurado, ao longo dos tempos, outro tipo de sociabilidade e de mundanidade, sentiram-se obrigados a cortar com os vínculos destas tradições para delas se emanciparem. Eis a novidade constitutiva do homem moderno. A Igreja deve reconhecer a legitimidade e a irreversibilidade desta emancipação que ela própria obstaculizou e cujas consequências teve que pagar bem caro, e não ver nessa emancipação, ou nela denunciar, uma rejeição formal de Deus: esta mudança é a primeira condição para um novo tipo de relacionamento com o mundo.


2. O mundo

2.a. A sua situação

É verdade que os homens da Modernidade, ao perderem a crença em Deus ou ao desalojá-la do plano das suas preocupações mais importantes, deixaram de se ver polarizados para o infinito das suas existências e viram-se desorientados, prisioneiros dos seus apetites de poder e de prazer, ao ponto de, para os satisfazer, viraram-se uns contra os outros podendo chegar até a exterminar-se uns aos outros ou a destruir o universo donde lhes vem o crescimento do seu próprio poder e do seu bem-estar. Esta humanidade está doente e isso é algo que não pode escapar ao olhar da Igreja. Porém, a Igreja não deve cair na tentação de tirar partido disso, a fim de reconquistar o lugar que ela, anteriormente, ocupava na sociedade.


2.b. A verdadeira atitude da Igreja

A primeira preocupação da Igreja há-de ser curar os males de que padece a humanidade, contemplá-la com o mesmo olhar compassivo que Jesus projectava sobre a multidão de enfermos, de inválidos e de possessos que o assediavam ao longo dos seus dias, e dedicar-se a curá-los como Jesus fazia e como ele ordenou que se fizesse aos que ele enviou em missão evangélica. A Igreja servir-se-á dos remédios que o Evangelho tem, pois, como é evidente, ela não possui a ciência das coisas deste mundo. Em vez de denunciar neste males que fazem doente a humanidade as justas consequências da irreligião da humanidade [visão acusadora, culpabilizante e punitiva; Nota do tradutor], abordá-los-á como factos humanitários ou, melhor, como consequências da desumanização que a uns faz sofrimento (os vencidos) e a outros faz carência (os vencedores), e que requerem, prioritariamente, tratamento ao nível da humanidade e com a ajuda dos actores da história juntamente com as suas vítimas


2.c. Evangelizar neste contexto

Na medida em que, no fim de contas, se trata de transmitir uma mensagem a alguém por esse mundo fora, este discurso deverá ser multiplicado, deverá deixar de ser património de um reduzido grupo de dirigentes da Igreja e terá que ser da responsabilidade de todo o povo cristão e, em primeiro lugar, daqueles que estão mais directamente em contacto com os assuntos deste mundo…

A missão cristã, re-alimentada no mistério da encarnação através do qual Deus esconde a sua transcendência na carne duma criancinha muito pequenina, não irá ao mundo expressamente para procurar adoradores a fim de os carrear para templos onde Deus se exibe para ser venerado. A missão cristã dirige-se aos lugares onde a humanidade se encontra entregue ao desespero ou em decadência, pois sabe que é aí que Deus está em sofrimento e que é aí que Deus reconhece os que aí vão para o visitar (Mt 25:40) e, assim, a missão cristã dedicar-se-á a carrear a esta via (Act 9:2) o maior número possível de pessoas, inclusivamente não crentes, persuadida que assim os leva ao encontro de Deus.

Esta tarefa da missão cristã não é uma questão de religião, mas de fé e, inclusivamente, de uma intensa fé, na medida em que se baseia no mistério da gratuitidade de Deus, não se reduzindo a um simples humanitarismo, ainda que esteja ancorada no terreno profano e não no religioso.

J. Moingt, “Dios que viene al hombre”, Sígueme, Salamanca, 2011, II-2, pp. 476-477, 505 (sublinhados do autor).


[1] Veja a sua famosa “Teoría general de la ocupación, el interés y el dinero” (edição castelhana, Edicions 62, Barcelona, 1987, p. 308).
[2] Discurso aos empresários católicos em Maio de 1964.



17 de junho de 2013

A MERCADORIZAÇÃO DA VIDA

Combater a corrupção à esquerda:
para uma reinvenção necessária

Se entendermos que a corrupção tem origens estruturais e não comportamentais ou culturais, ela só poderá ser erradicada combatendo as características estruturais que a geram. A crescente mercadorização das relações sociais, o programa de privatizações e demais formas de reduzir os cidadãos a clientes, bem como todas as medidas que aprofundam as desigualdades sociais, são dinâmicas estruturalmente vocacionadas para perpetuar a corrupção, independentemente dos discursos (prevenção, moralização…) que contra ela possam ser feitos.


Ed. GRADIVA



Introdução

(…) Em Portugal (e na Europa), a esquerda, enquanto tradição política, não tem sido capaz de fornecer pistas para um discurso anti-corrupção que recuse os predicados da antropologia neo-liberal e de uma organização política pós-liberal, funcionando como pilar de uma crítica verdadeiramente (anti-) sistémica. Essa é a pré-condição de qualquer discurso anti-corrupção operativo e viável. Defendo, aqui, que os discursos e as práticas de combate à corrupção de base neo-liberal, tal como o quadro conceptual do «bom governo» propugnado pelo Banco Mundial e implícito no Memorando de Entendimento ou a análise económica (neoclássica) da corrupção, não podem ser eficazes porque ignoram as causas estruturais do fenómeno. Atentando nestas causas estruturais, torna-se claro que uma parcela importante do sistema político português não pode gerar discursos e práticas anti-corrupção eficazes, porque não dispõe dos instrumentos analíticos adequados e porque essa restrição auto-imposta determina a incapacidade institucionalizada de proceder à erradicação da corrupção.

Para os efeitos deste texto, entendo «esquerda» como projecto igualitário e rectificativo, recuperando a perspectiva de Steven Lukes[1], sem atender às suas variantes reformistas, revolucionárias, autonomistas, estatistas ou libertárias. A esquerda, neste contexto, é uma tradição política que elege a desigualdade como fenómeno sociopolítico evitável e indesejável, oferecendo uma visão emancipatória da humanidade e questionando as estruturas de poder que subjazem a qualquer expressão de autoridade[2]. (…)


Padrões de desigualdade sociopolítica

(…) um desafio complexo à esquerda portuguesa (enquanto caso representativo de um universo mais vasto): a impossibilidade de conceber um discurso e uma estratégia de combate à corrupção que não questione o capitalismo enquanto sistema de organização das relações socioeconómicas e a presença conspícua do mercado nas relações sociais contemporâneas. É importante enfatizar que as opções tendencialmente reformistas não são necessariamente menos eficazes neste processo: os níveis de corrupção em sociedades de bem-estar com economias mistas são suficientemente baixos para podermos debater a ligação entre desmercadorização[3], corrupção e desigualdade sem que estreitemos esse debate a variantes anti-sistémicas. Tendo isso em conta, apenas a esquerda tem condições para propor uma «erradicação», em contraponto às medidas paliativas e, no limite, intensificadoras da corrupção sistémica e meta-sistémica, que parecem ameaçar as democracias ocidentais.

A existência e acção do Conselho de Prevenção da Corrupção, em Portugal, ilustra este problema: a «prevenção» inscrita na sua designação institucional é impossível mediante os instrumentos de que dispõe, os actores que o compõem e o quadro conceptual em que opera. Essa impossibilidade tem ficado amplamente demonstrada ao longo dos últimos anos, com a eclosão mediática de transacções económicas e financeiras que só podem ser entendidas como corrupção se se mantiver uma visão negligente da economia política portuguesa. O caso Banco Português de Negócios (BPN) é especialmente claro a este respeito: longe de tratar-se de um desvio, é apenas o corolário lógico das estruturas de poder que suportam essa economia política. E apesar da acção meritória de alguns representantes da esquerda institucional, existiu (e existe) um consenso relativamente amplo e tácito acerca da inevitabilidade da sua repetição.

Verifica-se o mesmo a respeito do recente caso dos contratos swap no Sector Empresarial do Estado. Quando se expressa uma visão comportamental (o documentário Inside the Job ilustra esta visão, bem visível na redução dos presidentes-executivos e outros responsáveis - veja-se o caso de Oliveira e Costa ou Bernie Madoff - à condição de psicopatas ou pacientes de outros distúrbios anti-sociais) ou culturalista (a ideia conservadora de que a corrupção está imbricada num qualquer «ADN cultural» que, não sendo removível, deve ser mitigada - decorrem daí os acrónimos xenófobos PIIGS e GIPSI), incorre-se num erro analítico que determina a percepção da corrupção como facto social inerradicável. A desconstrução dessa percepção é um desafio directo à ficção do Estado de Direito republicano e ao regime democrático, cujas ruínas continuam a sustentar uma adesão maioritária à ordem política dominante. Se a esquerda portuguesa pretende a reprodução de uma ordem republicana e democrática esse desafio é uma prioridade.

Neste sentido, a origem da corrupção é estrutural e não comportamental ou cultural; os modos da sua erradicação também serão, necessariamente, estruturais. A submissão de direitos humanos, sociais, económicos e culturais ao direito à propriedade privada e à remuneração do capital (a taxa de crescimento a 3% que continua a ser entendida como necessária à manutenção do modo de produção capitalista) transformam a corrupção num fenómeno trivializável e, mantendo uma leitura crítica da economia política capitalista, parcialmente necessário à emergência de oligopólios e monopólios, cuja solidez passa a reforçar. A ineficácia da legislação pós-concorrência de origem comunitária - a emergência de monopólios em sectores como o retalho (Pingo Doce) e a distribuição de electricidade (EDP) são exemplos dessa ineficácia – mostra que a injecção de competitividade, resposta-padrão do neoliberalismo à corrupção, está longe de constituir uma solução. (…)

Luís Bernardo, historiador
Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, Junho 2013, p. 6-7.

[6 pp.]




A NARRATIVA 'COMPORTAMENTAL'...
GESTORES PÚBLICOS “SWAP’s”


«O deputado social-democrata Luís Campos Ferreira, que falava aos jornalistas à margem de um evento da EDP em São Paulo, Brasil, disse que os gestores públicos “deveriam sair pelo próprio pé” e que “deviam ter vergonha na cara”, porque “do ponto de vista da gestão falharam redondamente”, pelo que “o caminho é a porta da rua”.»


PENA MÁXIMA PARA B. MADOFF – 150 ANOS DE PRISÃO


«"Como se pode desculpar enganar uma esposa durante 50 anos? Como se pode desculpar ter defraudado uma indústria que se ajudou a construir? Deixo um legado de vergonha", afirmou Bernard Madoff, que não tinha qualquer membro da sua família presente em Tribunal.»


OLIVEIRA E COSTA e Cia.






[1] Steven Lukes, «Epilogue: The Grand Dichotomy of the Twentieth Century», The Cambridge History of Twentieth Century Political Thought, Terrence Ball, Cambridge University Press, Cambridge, 2003.
[2] Uma perspectiva que transcende a abordagem relacional de Norberto Bobbio.
[3] Gosta Esping-Andersen, The Three Worlds of Welfare Capitalism, Princeton University Press, Princeton, 1990.

10 de junho de 2013

«A CARNE DA POBREZA» [PAPA FRANCISCO]

O ''discurso-diálogo'' do Papa
aos estudantes de escolas jesuítas


Papa Francisco



Às 11h45min do dia 7 de junho, na Sala Paulo VI, o Santo Padre Francisco recebeu em audiência os estudantes das escolas geridas pelos jesuítas na Itália e na Albânia, com os seus professores e seus pais. Também estavam presentes no encontro inúmeros ex-alunos, representantes dos movimentos juvenis inacianos e de paróquias ligadas aos jesuítas. Depois dos discursos de alguns educadores e alunos, o papa tomou a palavra e, no início da sua intervenção, ele disse que dava por lido o discurso por ele preparado e que o entregaria para a publicação; de sua parte, faria espontaneamente uma breve síntese dele e, depois, ouviria as perguntas dos jovens e dos educadores, de modo a tecer um diálogo com eles.

Publicamos a seguir o discurso preparado pelo Santo Padre, a síntese por ele feito de improviso durante o encontro e o diálogo, que se seguiu, mantendo a linguagem informal do momento. [O texto foi publicado no blog Cyberteologia, 08-06-2013.]

EIS O DISCURSO:





DIÁLOGO-IMPROVISO:


(…)

Santo Padre: Acima de tudo, gostaria de dizer uma coisa a todos vocês, jovens: não deixem que roubem a esperança de vocês! Por favor, não deixem que a roubem! E quem te rouba a esperança? O espírito do mundo, as riquezas, o espírito da vaidade, a soberba, o orgulho. Todas essas coisas te roubam a esperança. Onde eu encontro a esperança? Em Jesus pobre, Jesus que se fez pobre por nós.

E tu falaste em pobreza. A pobreza nos chama a semear esperança, para que eu também tenha mais esperança. Isso parece um pouco difícil de entender, mas eu lembro que o padre Arrupe, uma vez, escreveu uma carta boa aos Centros de pesquisas sociais, aos Centros sociais da Companhia. Ele falava de como se deve estudar o problema social. Mas, no fim, ele nos dizia, dizia a todos nós:

"- Vejam, não se pode falar de pobreza sem ter a experiência com os pobres". Tu falaste do convénio com o Quénia: a experiência com os pobres. Não se pode falar de pobreza, de pobreza abstracta, ela não existe! A pobreza é a carne de Jesus pobre, naquela criança que tem fome, naquela que está doente, naquelas estruturas sociais que são injustas. Ir, olhar lá a carne de Jesus. Mas não deixe que roubem a sua esperança pelo bem-estar, pelo espírito do bem-estar que, no fim, te leva a se tornar um nada na vida! Os jovens devem apostar nos altos ideais: esse é o conselho. Mas a esperança, onde a encontro? Na carne de Jesus sofredor e na verdadeira pobreza. Há uma ligação entre as duas. Obrigado.




- Agora dou a todos, a todos vocês, às suas famílias, a todos, a Bênção do Senhor.»




PAPA FRANCISCO
SALA PAULO VI, VATICANO, ROMA
7:JUNHO:2013


[pp. 8]

3 de junho de 2013

O ESPÍRITO DE JESUS [PAGOLA]

O Espírito de Jesus

 
«Pentecostes»

Jesus surge na Galileia quando o povo judeu vivia uma profunda crise religiosa. Há muito que Deus se afastara do seu povo. Os céus «trancaram-se por dentro». Uma espécie de muro invisível parecia impedir a comunicação entre Deus e o seu povo. Ninguém ouvia já a sua voz. Já não havia profetas. O Espírito de Deus desaparecera.

Pior que tudo era a sensação de que Deus os esquecera [Lm 5:20-22]. Os problemas de Israel já nada diziam a Deus. Porque é que Deus se mantinha oculto? Porque é que se mantinha tão longínquo? Seguramente que muita gente ainda se lembrava da ardente oração dum profeta antigo que rezava assim a Deus: «Oxalá o céu se rasgue e Tu desças».

Os primeiros ouvintes do evangelho de Marcos seguramente que ficaram surpreendidos. Segundo o relato de Marcos, ao sair das águas do rio Jordão, depois de ter sido baptizado, Jesus «viu rasgar-se o céu» e sentiu que «o Espírito de Deus descia sobre ele». Finalmente era possível o encontro com Deus. Sobre a terra caminhava agora um homem cheio do Espírito de Deus. Chamava-se Jesus e vinha de Nazaré.

Este Espírito que desce sobre ele é o sopro de Deus que cria a vida, a força que renova e que cura os viventes, o amor que tudo transforma. Por isso, Jesus dedica-se a libertar a vida, a curar e a fazer a vida mais humana. Os primeiros cristãos não quiseram ser confundidos com os discípulos do Baptista. Eles sentiram-se baptizados por Jesus através do seu Espírito.

. Sem esse Espírito tudo se apaga no cristianismo, a confiança em Deus desaparece, a fé debilita-se, Jesus fica reduzido a uma personagem do passado, o Evangelho converte-se em letra morta. O amor arrefece e a Igreja não passa de mais uma instituição religiosa.

. Sem o Espírito de Jesus, a liberdade afoga-se, a alegria apaga-se, a celebração converte-se em hábito, a comunicação fractura-se. Sem o Espírito, a missão é esquecida, a esperança morre, os medos crescem, o seguimento de Jesus acaba em mediocridade religiosa.

O nosso maior problema é esquecermo-nos de Jesus e é o descurarmos o seu Espírito. É errado, com organização, com trabalho, com devoções ou estratégias diversas, pretendermos conseguir aquilo que só pode nascer do Espírito. Temos que voltar à raiz, recuperar o Evangelho em toda a sua frescura e verdade, baptizarmo-nos com o Espírito de Jesus.

Que ninguém se iluda. Se nós os cristãos não nos deixarmos reavivar e recriar por esse Espírito nada teremos para oferecer à sociedade actual, tão vazia de interioridade, tão incapacitada de amor solidário e tão necessitada de esperança.

J A PAGOLA
2 de Janeiro de 2012.
O baptismo do Senhor
Marcos 1:7-11