teologia para leigos

12 de maio de 2013

«SÓ A JUSTIÇA É DIGNA» [ABBÉ PIERRE]

«A luta pelo meu pão, só pode ser materialismo; a luta pelo pão dos outros, isso já é espiritualidade.» [Abbé Pierre]



«Abbé Pierre - Queria ser marinheiro, missionário ou vagabundo»



Respeitar o homem infeliz, inspirar-lhe confiança, merecê-la.
Respeitar o seu segredo e o seu pudor, pois o seu passado não nos pertence.
Respeitar a sua liberdade religiosa: não o obrigues a cantar salmos, oferecendo-lhe sopa em troca. Seria degradá-lo.
Restituir ao homem a sua dignidade: é esse o grande segredo, sem o qual nenhum desses trapeiros faria o que faz, nem viveria em condições pré-históricas, em campos enlameados. Assim Deus estará no seu trabalho e, mais cedo ou mais tarde, sem que nós intervenhamos de fora, entrará no seu coração reconciliado.

Deus não está no Céu, está no pobre que te fala neste momento. Cristo encarna este rufião, este ladrão, este aldrabão. A glória de Deus encarnou em ti, que me lês, em mim, que te falo.

O homem tem uma alma; mas, antes de lhe falarmos dela, coloquemos uma camisa e um tecto por cima dessa alma. Depois disso, explicar-lhe-emos o que está lá dentro.
Não se trata apenas de dar algo de que viver, mas de dar aos infelizes razões para viver.

Eis um dos princípios de Emaús: a mesma sopa para toda a gente, crente ou não crente.
A luta pelo meu pão, só pode ser materialismo; a luta pelo pão dos outros, isso já é espiritualidade.

O valor que um pobre associa a esta palavra − um valor absoluto, sagrado: «é um tipo sincero». Será no mesmo tom com que estes homens, na sua miséria extrema, pronunciam esta palavra, que o Senhor falará de cada um no Juízo Final: «Tive fome e deste-me de comer, foste sincero.» Tudo o resto não passa de um meio, o fim é esse.

A primeira regra antes de agir é colocar-se no lugar do outro.

Guardemos no coração a impaciência de fazer. E a indignação na acção.

Não devemos esperar ser perfeitos para começar a fazer o bem.
Não é puxando a erva que se consegue fazer crescer o trigo mais depressa. Saber ter paciência com amor, olhar dia após dia o pequeno esforço, a lenta subida de cada um.

Numa árvore há um tronco, apenas um, mas reparem nas raízes: não há duas iguais, e são essas raízes invisíveis, enterradas na imundície, no esterco, na lama, com a sua diversidade, que constituem a fonte da sua vitalidade. Reparem nos ramos: não há dois iguais; eles procedem de um tronco único, com a sua diversidade. É necessário que sejamos capazes de nos estimarmos uns aos outros, nas nossas diversidades.

Aquilo que fizemos de mais importante talvez tenha sido ter tido essa indolência de fazer coisas que não se fazem, de dizer coisas que não se dizem, de desafiar essa hipocrisia inconsciente das pessoas felizes e de lhes atirar à cara o desagradável espectáculo da desgraça e do sofrimento injustos daqueles que são infelizes.

Que ninguém me peça para ser prudente ou para reflectir ponderadamente antes de tomar uma decisão. Que ninguém me peça para ser ajuizado, como se diz a uma criança: «Porta-te bem. Fica quietinha.» Não vale a pena. Eu nunca terei esse tipo de juízo. É assim, eu fui feito assim.


Oxalá viesse o fim do mundo

Anjos da guarda,
Onde estais afinal, que fazeis?
Anjos de ricos
Anjos de desolados
Anjos de todos os filhos do homem,
Olhai!
Dói demasiado,
Já não conseguimos dormir
Anjos, ralhai,
Clamai, batei
Há demasiadas lágrimas
E barrigas famintas
E costas febris
E mãos vazias
No meio de barrigas demasiado cheias
De risos animais
Do suor de bestas demasiado vestidas
Ou do requinte
Dourado de gente que não presta para nada.
Anjos, soai
As vossas trombetas sonoras
Que a partilha se faça.
Ah! Oxalá viesse o fim do mundo,
A justiça, por fim.
Há demasiada infelicidade
Demasiada maledicência
No meio de demasiados
Patifes distintos.

(2 de Agosto de 1955)


Em primeiro lugar esta evidência: quem quer que sejamos, minúsculos, ultrapassados ou falhados, todos nós podemos ser chamados a servir. E isso não tem muito a ver com o mérito. Basta dizer sim a um apelo e regressar a esse sim apesar dos momentos de falhanço total.

E, ao mesmo tempo, isso ensinou-me o que é ser horrivelmente humilhado no próprio interior, ao descobrir, cruamente, que não sou admirável nem capaz, ao passo que, à nossa volta, todos reivindicam aquele que é assim transformado em vedeta.

E isso também me ensinou a ter muita paciência, pois foi necessário continuar. E continua a sê-lo. Embora sabendo-me, em cada dia, tão insuficiente.

Finalmente, não é o trabalho que confere dignidade ao homem. É o homem que confere a sua dignidade ao trabalho, consoante o objectivo que lhe dá. O trabalho não passa do cumprimento do dever, para cada um, de utilizar as próprias capacidades ao serviço dos outros, e, de modo especial, dos mais sofredores.

O trabalho não basta; podemos trabalhar para nós próprios e fecharmo-nos no nosso egoísmo. Mas o serviço é um meio de nos endireitarmos de novo. É o que dá todo o seu sentido ao trabalho e à nossa vida. É o que faz de um ser uma pessoa, ou seja, uma relação de amor.

A pior afronta que se pode fazer a um companheiro de quem não se gosta é desejar-lhe que se torne célebre.

Gargareja-se com o «formidável Abbé Pierre» e contentam-se com isso. Quanto ao resto? Não se faz nada… Cria-se um culto e, com a desculpa desse culto, esquece-se o mais importante: as famílias e os miúdos das tendas.

Fazer a caridade é a lei da construção do mundo. A verdadeira caridade não consiste em chorar nem, simplesmente, em dar, mas em agir contra a injustiça.

A piedade não é um fim. Só a justiça é um fim digno do homem.

Abbé Pierre
Excertos de “Abbé Pierre – Queria ser marinheiro, missionário ou vagabundo.” Ed. Paulinas, Abril 2013, ISBN (em português) 978-989-673-306-3. “L’Abbé Pierre – Je voulais être marin, missionaire ou brigand”, Le Cherche Midi, Paris 2002, ISBN (edição original em francês) 2-74910-015-1. (Excertos de: pp. 115.117.118-122, na edição portuguesa; tem 247 páginas e custa cerca de 15 euros)



9 de maio de 2013

REINO DE DEUS OU MEDIAÇÕES HISTÓRICAS? [JON SOBRINO]

JESUS E O REINO DE DEUS





(…) O que de positivo deve a Igreja fazer é colocar-se naquele lugar a partir do qual se ilumine a tarefa concreta que tem de realizar numa determinada época: o seguimento de Jesus.

E, a partir daí, aprender a valorizar a sua missão, sem apelar apressadamente à apocalíptica (isto é, à plenitude ainda não conhecida) a fim de ignorar ou desvalorizar o presente histórico, mas seguindo, isso sim, o caminho profético de Jesus. A apocalíptica deve ser, hoje, igualmente o horizonte último para a igreja, mas não – como foi e é tentação frequente − à custa de ignorar o último da história.

A missão da Igreja tem que ser pensada e levada a cabo não só a partir do reino de Deus, mas a partir da aproximação desse reino. Por isso, hoje como no tempo de Jesus, a apocalíptica adquire formas concretas e verificáveis.

E porque a existência escatológica que se oferece à Igreja é o seguimento de Jesus, e não uma mera imitação mecânica de Jesus, a Igreja terá que aprender como é que, historicamente, se põe ao serviço da aproximação do reino.

De Jesus aprenderá o rumo fundamental:

. que Deus é maior do que qualquer configuração histórica da própria Igreja;

. que Deus é também e paradoxalmente menor, posto que o seu rosto surge nos mais pequenos e oprimidos;

. que o pecado tem nomes concretos na história e que ele encarna não só no indivíduo, mas na sociedade;

. que a praxis do amor é o último que pode realizar;

. que esse amor tem que ser eficaz e realmente transformador e, por isso, deve chegar não apenas à pessoa como indivíduo, cônjuge, familiar ou amigo, mas à sociedade como tal, às maiorias oprimidas, isto é, deve ser justiça;

. que o seguimento de Jesus é parcial para com os pobres e oprimidos;

. que há que estar disposto, tal como Jesus, a mudar, a converter-se, a passar por roturas, a deixar Deus ser Deus;

. que há que estar dispostos à entrega, ao sacrifício, à perseguição, a dar a própria vida e não a preservá-la para si.

Dentro deste rumo do seguimento, a Igreja irá aprendendo, a partir de dentro, correndo riscos e equívocos:

. quais são as mediações concretas que hoje mais se aproximam do reino de Deus;

. quais serão os sistemas sociais, económicos e políticos que melhor iluminam a aproximação do reino;

. onde adeja o Espírito de Jesus, se nos centros do poder ou se nos rostos dos oprimidos;

. como deve ser concebida e organizada a Igreja: a partir das alturas institucionais ou a partir da base do povo;

. que pecados concretos devem, iniludivelmente, ser denunciados, etc., etc.[1]

Colocar a questão da escatologia do reino de Deus, torna-se, então, mais simples. Trata-se de aprender, de Jesus, como viver, como ser Igreja na fé do reino que se aproxima. É neste processo de aproximação que o homem e a mulher se devem transformar. Esta aproximação do reino sem nenhum tipo de falsa piedade é entendida a partir da aproximação de Jesus, a qual acontece no seu seguimento. É isto que cremos ser decisivo para a Igreja, pois é a partir daí que melhor se entende o último de Jesus. (…)


Jon Sobrino, sj

[pp. 19]


[1] Como, após a ressurreição de Jesus, elaborar esse discernimento, na história, já o dissemos em «O seguimento de Jesus como discernimento cristão», em Concilium, Novembro 1978, pp. 521-529.

27 de abril de 2013

ÉTICA - O NOVO DECÁLOGO

Mercadodiceia, ética e utopia




Primeiro, foi a Providência divina. Deus, na sua omnipotência e infinita bondade, acompanha a humanidade no combate contra o mal - Deus é o anti-Mal -, de tal modo que tem fundamento a esperança do triunfo final do bem.

Depois, pela secularização da Providência, a própria história aparece como justificando-se a si própria, no quadro de uma historiodiceia: "A história do mundo é o julgamento do mundo."

Finalmente, os mercados são a nova presença do divino, de tal modo que através do seu jogo, mediante uma "mão invisível", tudo se conjuga para que, embora cada um lute pelos seus próprios interesses, dessa luta resulta o maior bem para todos.

Sequência: teodiceia (justificação de Deus frente ao mal), historiodiceia (justificação da história), mercadodiceia (justificação dos mercados) - Adriano Moreira utiliza a expressão: "Teologia do Mercado".

No quadro do neoliberalismo, o economista Riccardo Petrella resumiu as novas Tábuas da Lei (sigo a síntese do teólogo Juan J. Tamayo): não podes resistir à globalização dos mercados e das finanças - deves adaptar-te a isso.

.Deverás liberalizar completamente os mercados, renunciando à protecção das economias nacionais. Todo o poder pertence aos mercados: as autoridades políticas transformar-se-ão em meras executoras das suas ordens.

.Tenderás a eliminar qualquer forma de propriedade pública, ficando o governo da sociedade nas mãos de empresas privadas.

.Tens de ser o mais forte, se quiseres sobreviver no meio da competitividade actual.

.Renunciarás à defesa da justiça social, superstição estéril, e à prática do altruísmo, igualmente estéril.

.Defenderás a liberdade individual como valor absoluto, sem qualquer referência ou dimensão social.

.Defenderás o primado da economia e da finança sobre a ética e a política.

.Praticarás a religião do mercado com todos os seus rituais, sacramentos, pessoas, livros e tempos sagrados.

.Não terás em conta as necessidades dos pobres e excluídos, gente a mais, pois não gera riqueza.

.Porás a Terra ao serviço do capital, que é quem maior rendimento pode tirar dela, sem atender a considerações ecológicas, que só atrasam o progresso.

Perante esta situação que leva à catástrofe, impõe-se uma alternativa, que Tamayo sintetiza nalguns mandamentos, "orientados para a construção da utopia de uma sociedade alternativa".

.Ética da libertação, com o imperativo moral: "Liberta o pobre, o oprimido."

.Ética da justiça: "Age com justiça nas relações com os teus semelhantes e trabalha na construção de uma ordem internacional justa."

.Num mundo onde impera o cálculo, o interesse próprio, ética da gratuitidade: "Sê generoso. Tudo o que tens recebeste-o de graça. Não faças negócio com o gratuito."

.Ética da compaixão: "Sê compassivo. Colabora no alívio do sofrimento."

.Ética da alteridade e da hospitalidade: "Reconhece, respeita e acolhe o outro como outro, como diferente. A diferença enriquece-te."

.Ética da solidariedade: "Sê cidadão do mundo. Trabalha por um mundo onde caibam todos." Num mundo patriarcal, de discriminação de género, ética comunitária fraterno-sororal: "Colabora na construção de uma comunidade de homens e mulheres iguais, não clónicos."

.Ética da paz, inseparável da justiça: "Se queres a paz, trabalha pela paz e pela justiça através da não-violência activa."

.Ética da vida: "Defende a vida de todos os viventes. Vive e ajuda a viver."

.Ética da incompatibilidade entre Deus e o dinheiro, adorado como ídolo: "Partilha os bens. A tua acumulação desregrada gera o empobrecimento dos que vivem à tua volta."

.Num mundo onde impera a lei do mais forte, ética da debilidade: "Trabalha pela integração dos excluídos, são teus irmãos."

.Ética do cuidado da natureza: "A natureza é o teu lar, não a maltrates, não a destruas, trata-a com respeito."

Utopia?

Não é a função da utopia criticar o presente e transformá-lo? Para evitar a tragédia daquela estória: "Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada." (Ana Hatherly)

Anselmo Borges
DN, 27 Abril 2013