teologia para leigos

15 de abril de 2013

CEP - PROFECIA MENOR


Os salmos do poder e da austeridade
ou de como é ópio rezar sem a História e as Ciências Sociais



«Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder

[Mateus 20:25]



«Porque se estendem ao pé de cada altar sobre as roupas recebidas em penhor, e bebem no templo do seu Deus o vinho dos que foram confiscados. Fui Eu que, diante deles, exterminei os amorreus, que eram altos como cedros e fortes como os carvalhos. Destruí-lhes por cima os frutos e por baixo as raízes. Eu é que vos tirei da terra do Egipto, e vos conduzi, através do deserto, durante quarenta anos, a fim de vos dar a posse da terra dos amorreus. Suscitei profetas entre os vossos filhos, e nazireus entre os vossos jovens. Não é assim, filhos de Israel? - oráculo do Senhor. Mas vós obrigastes os nazireus a beber vinho e proibistes os profetas de profetizarem. Pois bem! Eis que vos vou esmagar contra o solo como esmaga um carro bem carregado de feno. O homem ágil não poderá fugir, o forte em vão recorrerá à sua força, o valente não salvará a sua vida. O que maneja o arco não resistirá, nem o homem de pés ligeiros escapará, nem o cavaleiro salvará a sua vida. E o mais corajoso entre os valentes fugirá nu, naquele dia - oráculo do Senhor.»

[Amós 2:8-16]



«A 10 de Dezembro de 1993, sem qualquer pressão internacional e sem nenhum exército inimigo às portas de Lisboa, a Assembleia da República aprovava, para posterior ratificação pelo Presidente da República, o Tratado de União Europeia ou Tratado de Maastricht. Esse documento instituía o caminho para a moeda única, da qual, ao contrário de outros países que recusaram fazer parte da união monetária, não se exceptuava Portugal.

«Do meu ponto de vista, a Assembleia da República, ao fazê-lo, sem ouvir o povo em referendo e violando claramente os deveres de representação decorrentes do pacto estabelecido entre eleitores e eleitos, decidiu que Portugal abdicava de um instrumento essencial da sua autonomia política: a emissão monetária. Foi a maior capitulação do País desde as Cortes de Tomar de Abril de 1581, que consagraram o domínio de Filipe II de Espanha sobre Portugal.

«Vinte anos depois, a economia portuguesa está destroçada, o Estado em bancarrota, o País nas mãos de credores e sujeito a políticas ditas de ajustamento que reforçam esse domínio; os jovens portugueses desesperam e vêem-se obrigados a emigrar em massa; o desemprego ultrapassa todos os máximos anteriores; a própria sobrevivência de Portugal está em risco. (…)

O neoliberalismo é mais do que uma visão económica: é uma verdadeira doutrina filosófica.

Partindo de um individualismo extremo («só o indivíduo existe, a sociedade é uma ficção», como dizia a antiga primeira-ministra, a Srª Thatcher), defende que o Estado só deve intervir de forma minimalista na sociedade e na economia, limitando-se a tarefas como a defesa e a justiça.

Do ponto de vista económico, o neoliberalismo considera que não faz sentido o Estado intervir na economia a não ser quando haja falhas patentes do mercado. Objectivos como uma mais justa repartição dos rendimentos não devem ser prosseguidos pelo Estado e o combate ao desemprego deve fazer-se fundamentalmente através da melhoria de funcionamento do mercado de trabalho, aumentando a sua flexibilidade e reduzindo os salários − e não por medidas activas de emprego, seja a nível macroeconómico seja a nível microeconómico. Tanto mais que existe uma taxa natural de desemprego, abaixo da qual não se pode ir sem acelerar a inflação. O que significa que não se pode ter como objectivo o pleno emprego. (…)

Todos estes aspectos nucleares do neoliberalismo têm consagração no Tratado de Maastricht, em grande parte devido à pressão alemã para que a moeda europeia fosse tão forte como tinha sido o marco alemão nas duas décadas anteriores.

No Tratado de Maastricht, a inflação é um fenómeno apenas monetário (uma das afirmações do monetarismo, que é uma componente importante do neoliberalismo) e a política monetária tem como objectivo único a estabilidade dos preços. O combate ao desemprego não emerge como objectivo da política macroeconómica, o equilíbrio orçamental surge (na realidade, este objectivo será tornado mais estrito já depois de Maastricht) como objectivo em si mesmo, é proibida a emissão monetária destinada a financiar estados, de forma a enfraquecer o poder desses mesmos estados (grande desígnio do neoliberalismo) e colocá-los sob a tutela dos mercados financeiros, e o banco central torna-se independente do poder político.

O Tratado de Maastricht fez assim as delícias dos neoliberais, uma vez que praticamente todo o seu programa de gestão económica se encontra plasmado no tratado. (…)

Na verdade é difícil imaginar projecto mais pernicioso para o modelo social europeu (…).

«Este livro é sobre o grande drama europeu actual e, dentro dele, sobre a imensa tragédia portuguesa[João Ferreira do Amaral, Porque devemos sair do euro – o divórcio necessário para tirar Portugal da crise, Lua de Papel, Abril 20131, excertos de pp. 15.81-83; ISBN 978-989-23-2314-5; 126 páginas, 14 euros]



Um deus que só sabe apontar o dedo e não ouça o clamor dos aflitos não pode ser o Deus bíblico… [Dt 26:7-8; Pr 21:13]
Uma Igreja que não saiba «ler» a dimensão estrutural da realidade onde está é «ópio do povo».

É por isso que é triste termos representantes da Igreja católica que não sejam capazes de compreender a realidade em que estamos mergulhados e pensem que o sistema está apenas a precisar de correcções ou melhoramentos (que se vai lá com IPSS's, solidariedade de vizinhança, Banco Alimentar, empreendedorismo, economia social, distribuição nocturna de refeições, aproveitamento de medicamentos quase fora de prazo, peditórios e leilões, 'solidariedade social', etc.). Não: o sistema está a precisar de ser denunciado e virado do avesso, porque não tem ponta por onde se pegue.

Na Nota Pastoral da CEP − «A força da família em tempos de crise»− custa a compreender que o primeiro ponto que é referido como de valor relevante «no actual contexto da sociedade portuguesa, atravessada por uma crise social e económica de particular gravidade», sejam «as alterações legislativas» que abrem as portas às «uniões de pessoas do mesmo sexo». [ponto 1.] Este ponto 1., que constitui a abertura da Nota da CEP, é denominado «A família, um bem social»… Soa a artificial esta sanduiche: que tem a ver as uniões de pessoas do mesmo sexo com a crise?

O mesmo acontece no ponto 4., onde se fala da «crise da instituição familiar», («A família e a abertura à vida»), e dá-se a entender que a «crise da instituição familiar» pode acarretar «malefícios sociais» (ex.: «crise demográfica», «baixa taxa de natalidade»). Quantas afirmações confusas e conceitos mal articulados, neste parágrafo! Exemplos: «A diminuição dos nascimentos põe em crise também os sistemas de assistência social»; «a crise que atravessamos também é reflexo da crise demográfica. Numa sociedade em envelhecimento, as despesas públicas serão cada vez maiores em pensões, saúde, etc., e as receitas cada vez menores. Assim, o financiamento do Estado há-de ser cada vez mais problemático.»[1]


Não faria mais sentido, primeiro, explicar porque é que a instituição familiar está em crise?

Porém, a lógica desta Nota da CEP é clara:

- tudo (o que existe na sociedade) parte e depende da Família («a saúde e coesão da sociedade dependem da saúde e coesão da família»; «a família como fonte e o fermento de onde parte a renovação da sociedade);

mas - constata-se - a Família está em crise;

- Há, então, que encontrar dentro da família, ou nos movimentos (cristãos?) que a ela se dedicam, a cura («os movimentos e instituições que se preocupam e dedicam à família»; «Experiências de entreajuda entre famílias»);

- a partir da família curada, por um automatismo miraculoso extensível, ficaria a sociedade curada (dos seus males).

Não faria mais sentido articular dialecticamente as variáveis todas aqui envolvidas - crise económica, crise social, crise civilizacional, crise religiosa, crise do modelo de família, etc. - antes de extrair conclusões? Haverá um lugar eclesial, evangélico, celestial para onde mandar «a instituição familiar doente» a banhos? E que 'coisa' é essa a que chamam «família doente»? São pessoas doentes vivendo em família, são grupos sociais doentes constituídos em famílias doentes, são o quê? Existirá, a «família doente», como conceito operativo ou trata-se apenas de mais uma abstracção tipicamente católica?

Marcada por laivos de voluntarismo, esta Nota da CEP tem arrumos de ingenuidade que fazem sorrir: «as famílias de pequena e, às vezes, pequeníssima dimensão correm o risco de empobrecer as relações sociais e de não garantir formas eficazes de solidariedade. São situações que apresentam sintomas de escassa confiança no futuro e de cansaço moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo económica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família e do matrimónio (…)». [Ponto 4.]

Igualmente ingénuas são afirmações como esta:

«Nesta perspectiva, os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família, fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade, preocupando-se também com os seus problemas económicos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional» [Bento XVI na encíclica Caritas in veritate (n. 44)].»

Moral da história: se a família foi definida como «micro-sociedade» (espreitando para dentro da família poderíamos observar todas as realidades, dimensões e contradições da macro-sociedade), agora, nada de misturas: família é família e sociedade é sociedade (entidades separadas passíveis de políticas individualizadas, entidades estanques com políticas estanques; conceito novo, este, o da CEP: a família - "um homem, uma mulher e as crias" - como factor de alavancagem da sociedade económica);

(e continua a NOTA dos bispos portugueses)

«Ajudam a combater a crise da natalidade medidas fiscais, que promovam o emprego juvenil, (…)».


Se já nos choca este perspectiva aplicada a vacas, porcos, galinhas mais me choca esta perspectiva de chocadeira ou de aviário aplicada a seres humanos: dinheiro para fomentar casamentos e partos? Filhos fiscais? Fecundação in money? [Ponto 4.] Claro que eu exagero: o decisivo para os bispos está, não nos corpos que se amam e se dão em amor, nem só nas medidas fiscais, mas... na mente e na cultura! Sobretudo, na «mente»: se fores capaz de superar o teu cansaço («moral», «cultural», «mental») vais conseguir ter/fazer filhos... e resolver este insolúvel problema tão português que é a infertilidade.

«O contributo decisivo para vencer a crise demográfica situa-se no plano da cultura e da mentalidade. Há que superar o “cansaço moral” e a “falta de confiança no futuro” a que alude a encíclica Caritas in veritate. Saber que a vida é sempre um dom que compensa todos os sacrifícios – só com esta consciência pode ser vencida a crise da natalidade.» Compensa sempre? E até que sacrifícios compensa? E que tipo de sacrifícios? Sobrevive o bebé, mas morre a mãe do bebé - tudo bem? compensa? Está, assim, salva a natalidade e a Pátria (que é o que parece ser decisivo para os bispos católicos portugueses?)? E o resto, e tudo o resto, santo Deus...?

Moral da história: molhada de grelos, grande confusão mental! (Cf. os trabalhos abaixo da Profª Clara Murteira da FEC) Os nossos bispos têm que descer à (nossa) terra para ver e tocar a realidade... Não tenho dúvidas nenhumas que, se os nossos bispos vivessem no meio dos pobres, rapidamente perceberiam que a família não está doente: «o sistema» neoliberal é que é doentio e faz adoecer (seja lá que tipo social de família for). Do ponto de vista social, a realidade está mesmo muito feia, o que, só por si, acarreta disfuncionalidades/dependências relacionais, morais, psicológicas, culturais, alimentares, sanitárias, etc. Partir de uma concepção abstracta de «família» só pode resultar em conclusões abstractas (genéricas, independentes da realidade social concreta) e, também, em propostas de solução (estratégias eclesiais) igualmente abstractas / teóricas. Duma leitura enviezada da realidade resultará sempre uma Pastoral ineficaz e moralizante.




CONCLUSÃO

Os nossos Bispos, quando falam de risco de falência da segurança social e quejandos!,  não só não sabem do que falam (são incompetentes, porém não deixam de fazer propostas políticas concretas) [2]...

(PF: aprendam, Srs Bispos,  e não funcionem apenas como caixa de ressonância da intoxicação política e ideológica dominantes. A realidade é APENAS esta: para os neoliberais, «o combate ao desemprego deve fazer-se fundamentalmente através da melhoria de funcionamento do mercado de trabalho, aumentando a sua flexibilidade e reduzindo os salários»; «o combate ao desemprego não emerge como objectivo da política macroeconómica»; dentro deste sistema, «não se pode ter como objectivo o pleno emprego»; estudem, meditem e rezem este pequeno livrinho do Prof. J. Ferreira do Amaral)



VÍDEO:
«NÃO ACREDITE EM TUDO O QUE PENSA»



 …como estão a anos-luz de Jesus Cristo, que nunca se enganou quanto ao «sistema que governa o mundo», ao dizer: «Chegou a hora! Virai este mundo do avesso [não vos contenteis com remendos…]. Acreditai nesta Boa Notícia!» (Mc 1:15)

Aprendam com Jesus Cristo:
«A prática de Jesus não consiste apenas em proclamar a sua [dos grupos sociais pobres] dignidade diante de Deus, de modo a que possam recuperar subjectivamente a sua dignidade, mas pretende atacar a raiz das causas que geram a sua indignidade social, ou seja, as condições materiais da sua existência e a concepção religiosa do seu tempo. A importância desta observação para a ética fundamental consiste, então, em dizer que a simples declaração da dignidade dos sem dignidade ante Deus não são suficientes se não se vai mais longe e se não se desmascara e transforma as raízes da sua indignidade.» (Jon Sobrino, sj)

Após o «chumbo de parte do Orçamento de Estado para 2013» por parte do Tribunal Constitucional, e numa altura em que o Governo prepara o mais escandaloso dos «cortes sociais» (mais redução do subsídio de doença e mais reduções do subsídio de desemprego), é aquela NOTA a mensagem de alento que os Bispos católicos portugueses querem deixar às Famílias que estão a ser as vítimas inocentes dum neoliberalismo obstinado e voraz: uma NOTA que é um verdadeiro tiro fora do alvo a que ninguém, aliás, na sociedade presta (já) um pingo de atenção.

pb\

9 de abril de 2013

O REINO DE DEUS, COMO SE FAZ? [JON SOBRINO]

A relação de Jesus com os pobres

e com os desprezados

«Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça,
e tudo o mais vos será dado por acréscimo»
(Mt 6:33; Lc 12:31)



Os «milagres», em Jesus, são «opção de classe»... e anúncio do Reino!




«(…) Jesus anuncia o reino como boa notícia para os pobres (Lc 4:18; cf. Lc 7:22; Mt 11:5) e declara que o reino é dos pobres (Lc 6:20; cf. Mt 5:3). Assim, se estabelece uma fundamental co-relação entre a boa notícia e os seus destinatários privilegiados (privilegiados ou únicos[1]), facto que indirectamente permite compreender de que trata a boa notícia.

Se esse reino é para os pobres; se a salvação vem não para os justos, mas para os pecadores; se os publicanos e as prostitutas chegam ao reino antes dos piedosos, então, é na situação concreta que esses destinatários estão a viver que teremos que encontrar ainda que, num primeiro momento, sub specie contrarii aquilo que é o nuclear dessa boa notícia.

Sendo assim, o reino de Deus não poderá ser um símbolo universal de esperança utópica, intermutável com outra utopia qualquer, mas terá que ser, muito em concreto, a esperança dos colectivos humanos que estejam a viver em sofrimento debaixo da opressão material e social.[2] A boa notícia será, em primeiro lugar e em directo, aquilo que hoje se denomina libertação, e que encontra o seu paralelismo bíblico mais na linha profética do que na concepção apocalíptica da história universal.

E, antes de espiritualizar precipitadamente os pobres e extrapolar universalmente a noção do reino, convém lembrar que os destinatários do reino são aqueles que mais privados estão de vida, e privados daquilo que é mais básico. Naquela passagem em que Jesus responde aos enviados de João Baptista, nela os pobres são equiparados aos cegos, aos coxos, aos surdos, etc. Segundo J. Jeremias, esta passagem não deve ser interpretada espiritualmente, porque «à situação de tais pessoas, e segundo o pensamento da época, já não se lhe pode mais chamar vida».[3] A boa notícia consiste, então, em trazer para a vida aqueles que viram secularmente ameaçada e negada a vida.

O reino de Deus, precisamente aquilo que importa erguer, está, portanto, em estreita relação com aqueles que mais privados estão de vida. Por isso, para conseguir uma noção operativa do conteúdo do Reino de Deus, haverá que adoptar a óptica[4] dos sem vida, dos sem poder, dos sem dignidade e não pretender que fora dessa óptica seja possível saber-se, mais e melhor, o que é o reino de Deus. Assim, a noção de reino de Deus não ficará paralisada pelo universalismo abstracto do seu conteúdo ou pela imposição precipitada da reserva escatológica sobre ele.[5] Os pobres, os pecadores, os desprezados representam o lugar necessário, ainda que sob muitos aspectos não suficiente[6], para saber do que trata a boa notícia do reino. Acresce uma última razão de natureza teológica: Deus chama-os, Deus defende-os e Deus quer que tenham vida.[7]

Para além desta primeira correlação entre reino de Deus e pobres, consegue-se (…)».

Jon Sobrino, sj

[pp. 10]




[1] Cf. J. Jeremias, Teologia del Nuevo Testamento I, Sígueme, Salamanca 1974, p. 142.
[2] Acerca desta dualidade do significado de pobre, cf. J. Jeremias, ibid., pp. 134-138. 
[3] Ibid., p.128.
[4] «Dentro da óptica» implica mudança de campo social, vizinhança, partilha/ajuda, intimidade comensal, gestualidade e proximidade corporal, compreensão analítica dos “códigos sociais” específicos. [Nota do Editor]
[5] Isto não significa reduzir o reino de Deus aos níveis primários da vida, mas tê-los presentes para que, quando se fale, de acordo com o Evangelho, de vida plena e de plenitude escatológica não se esqueça o seu pressuposto fundamental.
[6] O simples facto da pobreza é importante para a determinação daquilo que é o reino de Deus, mas a pobreza em si não possui eficácia automática com vistas à salvação histórica; cf. I. Ellacuría, «Las bienaventuranzas como Carta Fundacional de la Iglesia de los pobres», VV.AA., Iglesia de los pobres y organizaciones populares. S. Salvador 1979, p. 118.
[7] Foi assim que o Documento de Puebla, no nº 1142, o reconheceu: «Por apenas essa razão, os pobres merecem uma atenção preferencial, seja lá qual for a situação moral ou pessoal em que eles se encontrem… Deus toma a sua defesa e ama-os». Cf. G. Gutiérrez, «Pobres y liberación en Puebla», Páginas, Abril 1979, pp. 11ss.



6 de abril de 2013

A VONTADE DE DEUS? [JON SOBRINO]

O seguimento de Jesus
como discernimento cristão

«Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça,
e tudo o mais se vos dará por acréscimo»
(Mt 6:33; Lc 12:31)

 
 
O Cristianismo não é uma ética...



Entendemos por discernimento cristão a busca da vontade de Deus, não apenas para ser entendida, mas para ser realizada. Entendemos, portanto, o discernimento, não só de um modo pontual, mas como processo, durante o qual a vontade de Deus realizada testa a vontade de Deus pensada. (..)

O que esta postura significa é a superação de uma compreensão simplesmente ética do cristianismo (com base em fazer o bem e em evitar o mal), mas avançar numa via seriamente teológica do que quer dizer o agir cristão. (…)

Mas, se nos demorarmos um pouco mais no título, o título deste artigo não será tão evidente assim, caso nele se insinue uma imitação mecânica do processo de Jesus, pois, para além de isso não ser possível, significaria o negar da necessidade do nosso discernimento, hoje. Este é o momento para apelar ao Espírito de Jesus, no qual devemos nunca parar de discernir. A única coisa que se deve procurar definir com rigor é se esse Espírito é, de veras, o de Jesus, e não pressupormos que ele já existe institucionalizado nas estruturas eclesiais ou que ele viva espontâneo nas diversas versões pentecostalistas ou carismáticas. Tudo terá que ser confrontado a partir de Jesus e nunca declarado a priori como propriedade de uma instituição ou como dom outorgado a determinados grupos. Se colocarmos o problema do discernimento cristão na tensão entre a história de Jesus e a história desencadeada pelo seu Espírito, então, não será possível oferecer receitas fáceis, nem mesmo a partir de Jesus. Aquilo que, com este trabalho, procuramos oferecer é a estrutura do discernimento de Jesus, a qual deve ser re-inventada / re-criada ao longo da história, na linha do Espírito de Jesus. Isto não se conseguirá senão a partir da realidade [histórica], e nunca a partir duma conceptualização trinitária. (…)

Jon Sobrino, sj (1982)
[pp. 11]


3 de abril de 2013

A ÚLTIMA CEIA DE CRISTO, HOJE...

A QUINTA-FEIRA SANTA E A SOLIDARIEDADE

 
«Última» ... para os ricos!


O que tem a ver a celebração da Quinta-Feira Santa (a última ceia de Jesus) com os famintos, os miseráveis, os desempregados, e os marginalizados da terra? Tudo. Inclusive, poderíamos dizer, citando Paulo, que a celebração da Eucaristia é inválida se é feita numa comunidade cujos membros são responsáveis por injustiças que causam a fome e a marginalização neste mundo.

Na segunda leitura da missa da Quinta-Feira Santa (Primeira Carta aos Coríntios, 11, 23-26), Paulo narra o que Jesus disse na última ceia:

"Irmãos: O que eu recebi do Senhor foi isso que eu vos transmiti: Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória’. Todas as vezes, de facto, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha”.

Imediatamente, antes desta passagem, Paulo havia criticado duramente os Coríntios porque, nas ceias comunitárias ao redor da sua celebração eucarística, os ricos comiam bem e muito, sem igualmente o partilhar com os pobres da comunidade:

"Dito isso, não vos posso elogiar, porque as vossas assembleias, em vez de ajudá-los a progredir, os prejudicam. Antes de tudo, ouço dizer que, quando estão reunidos em assembleia, há divisões entre vocês. E, em parte, eu acredito nisso. É preciso mesmo que haja divisões entre vocês, a fim de que se veja quem de entre vocês resiste a essa prova. De fato, quando se reúnem, o que vocês fazem não é comer a Ceia do Senhor, porque cada um se apressa em comer a sua própria ceia. E, enquanto um passa fome, outro fica embriagado. Será que vocês não têm as vossas casas para comer e beber? Ou desprezam a Igreja de Deus e querem envergonhar aqueles que nada têm? O que vos devo dizer? Devo elogiar-vos? Não! Nesse ponto não vos elogio”.

Segundo a Nueva Biblia Española, "na mesma celebração da eucaristia ressalta-se a diferença de classe, humilhando os mais pobres”. Referindo-se a esta falta de partilha na igreja primitiva, João Paulo II na sua encíclica "Ecclesia de Eucharistia” (17 de Abril, Quinta-Feira Santa, 2003), comentou: "O Apóstolo Paulo qualifica de “indigno” de uma comunidade cristã que se participe na Ceia do Senhor em contexto de divisão e de indiferença para com os pobres (cf.1 Cor 11, 17.22.27.34)”. Neste ponto, João Paulo II acrescenta uma nota-de-pé-de-página preciosa, citando textualmente S. João Crisóstomo:

“Quereis honrar o corpo de Cristo? Não o menosprezai quando o encontrardes nu nos pobres, e não o honrais aqui no templo com vossos lenços de seda e se, ao sairdes, os abandonais ao seu frio e à sua nudez. Porque, o mesmo que diz “Isto é o meu corpo” e com a sua palavra o levou à prática, foi o mesmo que disse “Tive fome e não me destes de comer”, e mais adiante “Sempre que o não fizeste a um destes pequeninos não mo fizeste a mim” […] De que serviria enfeitar a mesa de Cristo com taças de ouro se o próprio Cristo morre de fome? Dá, primeiro, de comer ao faminto e, depois, com aquilo que te sobejar, enfeita a mesa de Cristo” (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50, 3-4:PG58, 508-509).

No número 20 da sua encíclica, o Papa relacionou tudo isto com a vida de hoje: a Eucaristia “dá um impulso ao nosso caminho histórico ao semear uma semente de esperança viva por cada dedicação quotidiana às tarefas a que nos dediquemos. Com efeito, ainda que o horizonte cristão fixe o seu olhar num “novo céu” (Ap 21:1), isso não diminui, bem pelo contrário estimula o nosso sentido de responsabilidade para com a terra presente (cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo actual, 39)”.

Sublinhou isto, dizendo: “para que os cristãos se sintam mais do que nunca comprometidos a não descurar os deveres da cidadania terrena. É sua obrigação contribuir com a luz do evangelho para a construção de um mundo habitável e plenamente conforme ao desígnio de Deus.”

“Muitos são os problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo. Basta pensar na urgência de trabalhar pela paz, de colocar bases sólidas de justiça e de solidariedade nas relações entre os povos, de defender a vida humana desde a concepção até à morte natural. E que dizer de tantas contradições deste mundo ‘globalizado’, do qual os mais débeis, os mais pequenos e os mais pobres pouco têm a esperar?
É neste mundo que tem de brilhar a esperança cristã”.

João Paulo II volta à Eucaristia: “Por isso, também, o Senhor quis permanecer entre nós na Eucaristia, gravando com esta presença sacrificial e convivial a promessa de uma humanidade renovada no seu amor. É significativo que o Evangelho de João, precisamente ali onde os Sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) narram a instituição da Eucaristia, ilustrando o seu sentido mais fundo, proponha o relato do «Lava-Pés», no qual Jesus se converte em mestre de comunhão e de serviço (cf.Jn13, 1-20)”.

Este texto de S. João, ao qual o Papa se refere e que é a Leitura de Quinta-Feira Santa de 2013, descreve como Jesus, pouco antes da sua execução por ser profeta, se pôs a lavar os pés aos discípulos: «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo. (…) levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. (…) Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.» Pouco depois, Jesus deu-lhes um «mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.» (Jo 13:34-35)

Os verdadeiros discípulos são os que seguem o exemplo de Jesus: serviço e solidariedade humildes. Na igreja primitiva, durante as ceias relacionadas com as celebrações eucarísticas, os verdadeiros discípulos partilhavam igualmente a comida. Este mesmo espírito de partilha caracterizava tanto a vida familiar quanto a vida da igreja: «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um conforme a necessidade que tivesse.» (Act 4:32-35)

O cardeal Jorge Bergoglio, actualmente Papa Francisco, quando era presidente da Conferência Episcopal Argentina, criticou a injusta distribuição dos recursos da terra, dizendo, numa conferência a 30 de Setembro de 2009: «Os direitos humanos, tal como dizem os bispos da América Latina no documento de Santo Domingo [IV Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano – Santo Domingo, 1992], são violados não apenas pelo terrorismo, a repressão, os assassinatos, mas também pela existência de condições de extrema pobreza e de estruturas económicas injustas que originam grandes desigualdades».

Dois anos antes, tinha tocado no mesmo problema: «Vivemos na zona mais desigual do mundo…», disse Bergoglio durante a reunião dos bispos latino-americanos em 2007. «A distribuição injusta dos bens continua, criando uma situação de pecado social que clama ao céu e limita as possibilidades de uma vida mais plena para muitos dos nossos irmãos».

Hoje devemos lutar por um mundo em que os recursos se partilhem para bem de todos(as). Foi esta a mensagem profética do padre Héctor Gallegos, desaparecido no Panamá em 1971: «Quando falamos em comunidades de mudança, damos de caras com a situação actual do nosso mundo que é essencialmente individualista. O capitalismo é intrinsecamente individualista. Por isso, a comunidade de mudança terá que lutar contra o individualismo e tornar-se comunitária».

Portanto, a celebração de Quinta-Feira Santa deve encorajar-nos a lutar ao lado dos famintos, dos miseráveis, dos desempregados e dos marginalizados da terra, a fim de criar uma sociedade mais justa.


José Mulligan, S.J
Jesuíta norte-americano, trabalha desde 1986 com as CEB’s em Nicarágua.

27:III:2013


2 de abril de 2013

PÁSCOA: MEMORIAL, APENAS?

A subversiva Páscoa cristã




A Páscoa é uma festa típica do hemisfério norte do nosso planeta. As suas origens remontam a antigas culturas agrárias e pastoris que celebravam a chegada da primavera, a estação das flores. Com a chegada da primavera ao hemisfério norte, o ambiente muda: o frio aos poucos vai diminuindo, os dias tornam-se mais longos, o calor aumenta, a terra começa a brotar, produzindo flores e alimentos.

Neste contexto o movimento de povos nómadas, que deu origem ao Israel bíblico, associou a festa da Páscoa a uma experiência de libertação. Tribos houve que atravessaram o rio Jordão e se instalaram na região de Canaã, a "terra prometida” a Abraão (Ex 13,3-10). A chegada até tão sonhada terra onde "corria leite e mel” (Ex 3,8) foi precedida de muitas lutas contra poderes opressores, representados pelo Egipto, que pretendiam escravizar esses povos. Nesta luta as pessoas fizeram a experiência profunda de um Deus libertador que ouviu seus clamores, desceu, se compadeceu, tomou conhecimento dos seus sofrimentos, tomou partido e decidiu tirá-los da opressão, dando a estes "sem-terra” um terreno fértil e espaçoso (Ex 3,7-10).

Assim a festa da chegada da primavera tornou-se para estas tribos o memorial da intervenção divina, que deveria ser celebrado "como um rito permanente, de geração em geração” (Ex 12,14).

De acordo com o cristianismo, há cerca de dois mil anos atrás a Páscoa foi enriquecida e plenificada. Jesus, o Filho de Deus Pai, é enviado ao mundo para trazer a boa notícia de que a libertação dos pobres e oprimidos finalmente ia tornar-se uma realidade definitiva (Lc 4,18-19). Porém, esta sua ousadia de anunciar uma boa notícia para os pobres e oprimidos, de anunciar a chegada definitiva do reinado de Deus, não foi bem acolhida pelo poder religioso e político.

Por esta razão Jesus foi acusado de ser subversivo (Lc 23,2), perseguido, torturado, assassinado e colocado num túmulo. Mas, para surpresa geral de todos, inclusive dos membros do seu grupo de discípulos e de discípulas, o profeta Jesus não permaneceu na tumba: ressuscitou e venceu a morte. Os seus seguidores, aos poucos, foram convertendo-se e convencendo-se de que ele continuava vivo no meio deles. Passaram a senti-lo bem presente e actuante na pequena comunidade. Tal experiência deu-lhes força para perder todo e qualquer medo e retomar a missão do Mestre, continuando a anunciar a Boa Notícia da libertação "até os extremos da terra” (At 1,8). Aos poucos esta experiência fantástica foi sendo associada à celebração da Páscoa, de modo que, já no tempo das comunidades cristãs do Novo Testamento, a Páscoa passou a ser o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Esta rápida memória histórica da Páscoa permite-nos perceber que por trás deste grande evento estão alguns elementos significativos.

. Em primeiro lugar a primavera, com a chegada das flores, da luz, do calor e com o preanuncio de uma possível boa colheita.

. Em segundo lugar, a experiência da libertação realizada por Yahvé e vivida pelas tribos que se uniram para caminhar na direcção de uma terra prometida. Nesta experiência é significativa a decisão de um deus que decide ficar do lado de escravos e de sem-terra, coisa impensável no contexto de então, uma vez que naquela época os deuses sempre estavam do lado dos grandes e poderosos.

. Por fim, na plenificação da Páscoa, Jesus apresenta-se como o libertador definitivo que anuncia o projecto de Deus, voltado de modo particular para os pobres, os oprimidos, os excluídos e os rejeitados pela sociedade. Por esse motivo é assassinado, mas, pelo poder de Deus Pai, rompe os laços da morte e permanece vivo, animando seus discípulos e discípulas e convidando-os a continuarem a sua missão (Mt 28,16-20).

A Carta aos Colossenses afirma que a pessoa cristã já vive como ressuscitada e, como tal, é convidada a comprometer-se com acções que expressem o essencial dessa condição que é a prática do amor ao próximo (Cl 3:1-17). Isso autoriza-nos a dizer que a celebração da Páscoa cristã, enquanto memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, precisa de ser traduzida em actos e gestos concretos de amor ao próximo, distintivo único e fundamental da identidade do discípulo e da discípula de Jesus (Jo 13,15).

Assim sendo, a celebração da Páscoa deve ser uma verdadeira primavera que expulse todo e qualquer mofo e frieza da Igreja e a faça pulsar de vitalidade e de acolhida da vida.

Não cabe celebrar a Páscoa num contexto de rigidez e de falta de misericórdia, num ambiente em que as leis e as normas estão acima da vida das pessoas (Mc 3,1-5). Não haverá Páscoa de Jesus numa Igreja que condena e discrimina certos filhos e certas filhas de Deus; que reserva os bancos de seus templos para aqueles que se autoproclamam perfeitos e merecedores do céu.

Além disso, a Páscoa deve ser a festa da libertação dos pobres e dos oprimidos. E não se trata apenas de uma falsa libertação "espiritual”, cuja recompensa é uma vida futura, programada para depois da morte. Trata-se, como nos mostra a experiência do Êxodo, de uma libertação a ser realizada aqui nesta terra. Uma libertação que inclui terra, casa, comida, emprego, saúde, escola etc.

E para celebrar esta Páscoa os cristãos e as cristãs precisam de ver, tal como Yahvé, a opressão, descer até o submundo dos pobres, sentir o cheiro da pobreza, tocar com os pés e as mãos os sofrimentos dos injustiçados e excluídos e permanecer comprometidos com as suas lutas por dias melhores (Ex 3,7-10).

Celebrar a Páscoa cristã é trilhar o caminho perigoso de Jesus, tornar-se subversivo com ele e como ele, aceitando pagar o preço da perseguição, da calúnia e até mesmo da morte para ficar do lado dos pobres e dos excluídos.

Para celebrar a Páscoa verdadeira de Jesus não é suficiente ficar repetindo a doutrina abstracta do Catecismo da Igreja Católica. É preciso que o ensinamento dessa doutrina crie "a revolta entre o povo” (Lc 23,5), ou seja, incomode tanto o poder religioso como o poder civil, devolvendo às pessoas a consciência crítica para enxergar as coisas como elas realmente são.

Não pode ser cristã uma Páscoa celebrada por quem se omitiu e fechou os olhos diante de ditaduras, de torturadores, de injustiçados, com medo de sofrer e de morrer como Jesus morreu.

Não celebra a Páscoa cristã quem se tornou insensível aos sofrimentos humanos e nada fez para denunciar a exploração dos mais pobres pelos ricos e poderosos deste mundo (Tg 5,1-6).

Para os cristãos e as cristãs a Páscoa é a festa da vida, a celebração da vitória de Jesus sobre o sofrimento e a morte. Por isso é a festa por excelência da alegria e da esperança.

Mas toda alegria, toda festa, toda aleluia, toda exultação é mentirosa e falsa se primeiro não for purificação do mofo eclesiástico, compromisso com a libertação dos pobres, subversão da ordem estabelecida, tomada de partido em favor dos pequenos e simples. Neste momento em que ainda pairam muitas nuvens carregadas sobre a Igreja Católica, em que faltam respostas para tantas perguntas inquietantes, torna-se urgentíssimo celebrar a Páscoa nos moldes verdadeiramente cristãos.

Se não seguirmos o trilho da Páscoa bíblica teremos apenas a páscoa consumista, mesmo que ela seja celebrada em templos religiosos e regada de muito incenso, de muitos gritos de aleluias e de glórias. "Já que vocês aceitaram Jesus Cristo como Senhor, vivam como cristãos”, ou seja, "vistam-se com o amor, que é o laço da perfeição” (Cl 2,6; 3,14).

José Lisboa Moreira de Oliveira. Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Sector Vocações e Ministérios/Conf. Nacional dos Bispos Brasileiros; Ex-Presidente do Inst. de Pastoral Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília

ADITAL
27:III:2013