teologia para leigos

2 de abril de 2013

PÁSCOA: MEMORIAL, APENAS?

A subversiva Páscoa cristã




A Páscoa é uma festa típica do hemisfério norte do nosso planeta. As suas origens remontam a antigas culturas agrárias e pastoris que celebravam a chegada da primavera, a estação das flores. Com a chegada da primavera ao hemisfério norte, o ambiente muda: o frio aos poucos vai diminuindo, os dias tornam-se mais longos, o calor aumenta, a terra começa a brotar, produzindo flores e alimentos.

Neste contexto o movimento de povos nómadas, que deu origem ao Israel bíblico, associou a festa da Páscoa a uma experiência de libertação. Tribos houve que atravessaram o rio Jordão e se instalaram na região de Canaã, a "terra prometida” a Abraão (Ex 13,3-10). A chegada até tão sonhada terra onde "corria leite e mel” (Ex 3,8) foi precedida de muitas lutas contra poderes opressores, representados pelo Egipto, que pretendiam escravizar esses povos. Nesta luta as pessoas fizeram a experiência profunda de um Deus libertador que ouviu seus clamores, desceu, se compadeceu, tomou conhecimento dos seus sofrimentos, tomou partido e decidiu tirá-los da opressão, dando a estes "sem-terra” um terreno fértil e espaçoso (Ex 3,7-10).

Assim a festa da chegada da primavera tornou-se para estas tribos o memorial da intervenção divina, que deveria ser celebrado "como um rito permanente, de geração em geração” (Ex 12,14).

De acordo com o cristianismo, há cerca de dois mil anos atrás a Páscoa foi enriquecida e plenificada. Jesus, o Filho de Deus Pai, é enviado ao mundo para trazer a boa notícia de que a libertação dos pobres e oprimidos finalmente ia tornar-se uma realidade definitiva (Lc 4,18-19). Porém, esta sua ousadia de anunciar uma boa notícia para os pobres e oprimidos, de anunciar a chegada definitiva do reinado de Deus, não foi bem acolhida pelo poder religioso e político.

Por esta razão Jesus foi acusado de ser subversivo (Lc 23,2), perseguido, torturado, assassinado e colocado num túmulo. Mas, para surpresa geral de todos, inclusive dos membros do seu grupo de discípulos e de discípulas, o profeta Jesus não permaneceu na tumba: ressuscitou e venceu a morte. Os seus seguidores, aos poucos, foram convertendo-se e convencendo-se de que ele continuava vivo no meio deles. Passaram a senti-lo bem presente e actuante na pequena comunidade. Tal experiência deu-lhes força para perder todo e qualquer medo e retomar a missão do Mestre, continuando a anunciar a Boa Notícia da libertação "até os extremos da terra” (At 1,8). Aos poucos esta experiência fantástica foi sendo associada à celebração da Páscoa, de modo que, já no tempo das comunidades cristãs do Novo Testamento, a Páscoa passou a ser o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Esta rápida memória histórica da Páscoa permite-nos perceber que por trás deste grande evento estão alguns elementos significativos.

. Em primeiro lugar a primavera, com a chegada das flores, da luz, do calor e com o preanuncio de uma possível boa colheita.

. Em segundo lugar, a experiência da libertação realizada por Yahvé e vivida pelas tribos que se uniram para caminhar na direcção de uma terra prometida. Nesta experiência é significativa a decisão de um deus que decide ficar do lado de escravos e de sem-terra, coisa impensável no contexto de então, uma vez que naquela época os deuses sempre estavam do lado dos grandes e poderosos.

. Por fim, na plenificação da Páscoa, Jesus apresenta-se como o libertador definitivo que anuncia o projecto de Deus, voltado de modo particular para os pobres, os oprimidos, os excluídos e os rejeitados pela sociedade. Por esse motivo é assassinado, mas, pelo poder de Deus Pai, rompe os laços da morte e permanece vivo, animando seus discípulos e discípulas e convidando-os a continuarem a sua missão (Mt 28,16-20).

A Carta aos Colossenses afirma que a pessoa cristã já vive como ressuscitada e, como tal, é convidada a comprometer-se com acções que expressem o essencial dessa condição que é a prática do amor ao próximo (Cl 3:1-17). Isso autoriza-nos a dizer que a celebração da Páscoa cristã, enquanto memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, precisa de ser traduzida em actos e gestos concretos de amor ao próximo, distintivo único e fundamental da identidade do discípulo e da discípula de Jesus (Jo 13,15).

Assim sendo, a celebração da Páscoa deve ser uma verdadeira primavera que expulse todo e qualquer mofo e frieza da Igreja e a faça pulsar de vitalidade e de acolhida da vida.

Não cabe celebrar a Páscoa num contexto de rigidez e de falta de misericórdia, num ambiente em que as leis e as normas estão acima da vida das pessoas (Mc 3,1-5). Não haverá Páscoa de Jesus numa Igreja que condena e discrimina certos filhos e certas filhas de Deus; que reserva os bancos de seus templos para aqueles que se autoproclamam perfeitos e merecedores do céu.

Além disso, a Páscoa deve ser a festa da libertação dos pobres e dos oprimidos. E não se trata apenas de uma falsa libertação "espiritual”, cuja recompensa é uma vida futura, programada para depois da morte. Trata-se, como nos mostra a experiência do Êxodo, de uma libertação a ser realizada aqui nesta terra. Uma libertação que inclui terra, casa, comida, emprego, saúde, escola etc.

E para celebrar esta Páscoa os cristãos e as cristãs precisam de ver, tal como Yahvé, a opressão, descer até o submundo dos pobres, sentir o cheiro da pobreza, tocar com os pés e as mãos os sofrimentos dos injustiçados e excluídos e permanecer comprometidos com as suas lutas por dias melhores (Ex 3,7-10).

Celebrar a Páscoa cristã é trilhar o caminho perigoso de Jesus, tornar-se subversivo com ele e como ele, aceitando pagar o preço da perseguição, da calúnia e até mesmo da morte para ficar do lado dos pobres e dos excluídos.

Para celebrar a Páscoa verdadeira de Jesus não é suficiente ficar repetindo a doutrina abstracta do Catecismo da Igreja Católica. É preciso que o ensinamento dessa doutrina crie "a revolta entre o povo” (Lc 23,5), ou seja, incomode tanto o poder religioso como o poder civil, devolvendo às pessoas a consciência crítica para enxergar as coisas como elas realmente são.

Não pode ser cristã uma Páscoa celebrada por quem se omitiu e fechou os olhos diante de ditaduras, de torturadores, de injustiçados, com medo de sofrer e de morrer como Jesus morreu.

Não celebra a Páscoa cristã quem se tornou insensível aos sofrimentos humanos e nada fez para denunciar a exploração dos mais pobres pelos ricos e poderosos deste mundo (Tg 5,1-6).

Para os cristãos e as cristãs a Páscoa é a festa da vida, a celebração da vitória de Jesus sobre o sofrimento e a morte. Por isso é a festa por excelência da alegria e da esperança.

Mas toda alegria, toda festa, toda aleluia, toda exultação é mentirosa e falsa se primeiro não for purificação do mofo eclesiástico, compromisso com a libertação dos pobres, subversão da ordem estabelecida, tomada de partido em favor dos pequenos e simples. Neste momento em que ainda pairam muitas nuvens carregadas sobre a Igreja Católica, em que faltam respostas para tantas perguntas inquietantes, torna-se urgentíssimo celebrar a Páscoa nos moldes verdadeiramente cristãos.

Se não seguirmos o trilho da Páscoa bíblica teremos apenas a páscoa consumista, mesmo que ela seja celebrada em templos religiosos e regada de muito incenso, de muitos gritos de aleluias e de glórias. "Já que vocês aceitaram Jesus Cristo como Senhor, vivam como cristãos”, ou seja, "vistam-se com o amor, que é o laço da perfeição” (Cl 2,6; 3,14).

José Lisboa Moreira de Oliveira. Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Sector Vocações e Ministérios/Conf. Nacional dos Bispos Brasileiros; Ex-Presidente do Inst. de Pastoral Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília

ADITAL
27:III:2013




1 de abril de 2013

OUTRA TEOLOGIA [J.M. CASTILLO]

“Teologia Popular”
outra forma de fazer teologia

«Há que ser muito cuidadoso quando nos referimos às “noções que Jesus tinha de Deus”, pois Jesus não tem noções de Deus formuláveis e ensináveis. Bem pelo contrário, actua de tal maneira que as decisões concretas e práticas que assume são distintas do seu meio envolvente. Fala deste seu modo de actuar através de uma parábola ou de uma imagem, de maneira que podemos intuir [a sua noção de Deus] a partir do seu modo de agir juntamente com a sua proclamação que narra um acontecimento a partir desta mútua interacção.Deus… assim e assim…”, melhor: “Deus comporta-se assim e assim…”» [H. Kessler, Erlosüng als Befreiung, Dusseldorf 1972, pp.77s]

 




Introdução

Há duas formas de fazer teologia: a teologia “especulativa” e a teologia “narrativa”. Estas duas formas de fazer teologia já estão presentes no Novo Testamento. Um exemplo claro de teologia marcadamente especulativa é a teologia de S. Paulo. Como exemplo mais evidente de teologia narrativa temos os evangelhos. Estas duas formas de fazer teologia não se excluem entre si.

A diferença mais evidente entre esses dois tipos de fazer teologia está no facto de a teologia especulativa ser feita à base de ideias, de doutrinas, de verdades, de dogmas, etc. A teologia narrativa consiste em relatos que apresentam factos, presumivelmente históricos ainda que necessitem da respectiva hermenêutica conforme o “género literário” em que foram redigidos. Não se pode ler a narrativa dum milagre como se lê a duma parábola.

Entre a teologia especulativa e a teologia narrativa existem diferenças ainda mais fundas. Antes de mais, a teologia narrativa, pelo facto de ser constituída por uma série de relatos, obviamente possui uma “estrutura histórica”, ao passo que a teologia especulativa, pelo facto de ser elaborada com base em ensinamentos, doutrinas e especulações, tem uma “estrutura filosófica”. Como muito acertadamente chamou a atenção Bernahrd Welte, no caso da teologia narrativa (histórica), a pergunta que fazemos é “o que é que está a acontecer” (ou o que é que aconteceu) (was geschah), ao passo que, no caso da teologia especulativa (filosófica), focalizamo-nos em “o que é” (was ist). Os verbos “ser” e “suceder” (acontecer) determinam e configuram ambas as teologias. As pessoas perguntam: Jesus é Deus? (teologia especulativa) Também há aqueles (menos) que fazem a outra pergunta: o que acontece quando Deus se torna presente? (teologia narrativa). Assim se vê como a teologia especulativa presta atenção ao “ser” e a teologia narrativa se interessa, sobretudo, pelo “acontecer”. À teologia especulativa interessa-lhe, antes de mais nada, o “dogma”. À teologia narrativa interessa-lhe sobretudo a “ética” (o comportamento, a moral, o modo de vida).

Chegamos, assim, à questão de fundo. A teologia narrativa (a dos evangelhos), pelo facto de estar situada no âmbito da história, não tem outro remédio senão começar pelo “humano”, por aquilo que acontece na história, no espaço e no tempo. É, portanto, uma teologia que se faz “a partir de baixo”. Pelo contrário, a teologia especulativa (a de Paulo), pelo facto de começar por se situar fora da história, toma, como ponto de partida, “o divino”, aquilo que não conseguimos pensar a não ser como “o transcendente”, o que está para lá do espaço e do tempo, “a partir de cima”. Foi precisamente isso que Paulo fez. Na medida em que ele não conheceu o Jesus terreno, iniciou o seu percurso crente e o seu apostolado a partir do Ressuscitado, o Senhor da Glória (Rm 1:4). É por isso que Paulo explica os acontecimentos históricos mais violentos (como por exemplo, a morte de Jesus) não a partir do que aconteceu na Galileia ou em Jerusalém, mas a partir do aterrador decreto divino segundo o qual Deus fez o seu filho tornar-se «pecado» (2Cor 5:21) e «maldição» (Gl 3:13) por causa dos nossos pecados e para nossa salvação. E tudo isto porque tal como se diz na Carta aos Hebreus “sem derramamento de sangue não pode haver perdão” (Hb 9:22).

A grande questão é que, logo à entrada da teologia especulativa, tropeçamos imediatamente com um conjunto de realidades que nos transcendem, e com um conjunto de realidades, de ideias, de problemas e de hipotéticas soluções que não só não entendemos como para as quais não seremos capazes de encontrar explicações. E, tudo isto apenas e tão só, porque nos transcendem. Assim se explica que a teologia, a religião e a catequese constituam um conjunto de saberes que, para a grande maioria das pessoas, não lhes diz nada, não lhes interessa, nem sequer lhes resolve os seus verdadeiros problemas; sobretudo, não desperta interesse nos jovens. Não é de estranhar que muito boa gente ouça falar de Deus, da Religião e da Igreja como “elementos estranhos à vida”, que uns quantos (ou alguém) pretendem introduzir nas suas vidas, apenas acrescentando mais complicações (e menos soluções) a uma vida já de si bastante complicada.







A “Teologia Popular”

A proposta que a “Teologia Popular” faz não se limita a uma tentativa desesperada de explicar a eterna teologia, a teologia dominante da Igreja tal como ela ficou estabelecida e estruturada a partir dos séculos XI e XII. Não pretende apenas tornar essa teologia simples e acessível, numa linguagem popular e ao alcance de toda a gente, essa teologia que já tem cerca de 800 anos. Claro que tudo o que se faça com essa intenção é de louvar. Porém, se a Teologia Popular se limitar a simplificar a linguagem mantendo basicamente a mesma estrutura e os mesmos conteúdos, não só nunca iremos a lado nenhum, como nunca resolveremos a grande maioria dos problemas que as pessoas têm em matéria de Religião ou de Teologia. Que fazer, então?

A proposta da Teologia Popular consiste em optar decididamente pela “teologia narrativa”. O Evangelho de João diz: “A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer” (Jo 1:18). Isto quer dizer que o Deus transcendente, que jamais o vimos nem poderemos vir a ver, que não conhecemos nem iremos nunca conhecer, manifestou-se em Jesus, manifestou-se no homem Jesus, que é Deus “feito carne” (Jo 1:14), ou seja, Deus feito humanidade e, por conseguinte, ao alcance da nossa limitada condição humana. Por isso, Jesus pode dizer ao apóstolo Filipe: “quem me vê a mim, vê o Pai” (Jo 14:9). Ou seja, Deus vemo-lo, ouvimo-lo, palpamo-lo em Jesus, no modo de vida de Jesus, nos seus hábitos, naquilo que lhe interessava ou agradava, bem como naquilo que ele detestava ou lhe desagradava. Em resumo, é através do grande relato dos evangelhos que conhecemos Deus, apercebemo-nos do que Deus nos diz e daquilo que Deus quer de nós.

Porém, convém fazer algumas clarificações. Antes de mais, convém dizer que a Teologia Popular não pretende apenas (ou não deve limitar-se a) explicar cada texto, cada relato, tal como sempre se fez nas aulas de exegese bíblica. É claro que é importante conhecer a fundo o que dizem (e não dizem) os textos dos evangelhos, mas isso não é tudo. O importante é captar como Deus se “apresenta” nas narrativas que nos relatam o modo como Jesus viveu e o modo como Jesus quis que nós vivamos. O que se aplica a Deus aplica-se igualmente à fé, à salvação, à esperança, etc., que, em Jesus, Deus nos quis dizer ou nele descobrimos.

Posto isto, eis a questão central da Teologia Popular: aquilo que a teologia narrativa nos apresenta e que encontramos nos evangelhos é o grande relato dum conflito: o conflito de Jesus com a religião estabelecida do seu tempo e com a cultura do seu povo. Jesus enfrentou-se com os Sumos-sacerdotes, os Doutores da Lei, os Senadores do povo, o Templo, as normas e as tradições, etc. Jesus foi um homem profundamente religioso, tal como comprova a sua frequente e intensa relação com o Pai do Céu, a sua original intimidade com o Pai (Mt 11:27; Lc 10:22). Mas sabemos, através dos relatos evangélicos, que a intensa religiosidade de Jesus foi uma “religiosidade alternativa”, ou seja, o decisivo da religiosidade de Jesus não foi a fiel observância dos ritos. Para Jesus, mais importante que a submissão aos ritos era a felicidade, a bondade e a sua proximidade face a todos os que se sentiam maltratados pela vida e pela sociedade.

É muito importante perceber a distância que Jesus manteve face à observância rigorosa dos ritos religiosos. Nunca esqueçamos que “os ritos condensam em si todo o sistema de signos de uma religião” (G. Theissen). Donde, há que questionar o problema do comportamento das pessoas religiosas. Que problema é esse?

O universo do comportamento do “homo religiosus” é o “rito”, não é o “ethos”. Ou seja, as pessoas muito religiosas costumam fazer incidir a sua atenção e interesse mais sobre a exacta observância dos ritos do que sobre as exigências que derivam do Evangelho, as quais se traduzem por bondade, respeito, tolerância e ternura para com todos.





Poquê esta prioridade do rito sobre o ethos, no homo religiosus?

Porque os ritos são acções que, por causa do rigor da observância das normas, constituem um fim em si (G. Theissen). A partir daqui, o interesse do sujeito centra-se na observância, nas normas básicas que a todos vincula e que constituem como que o kosmos, a “ordem” que oferece segurança e liberta do medo do kaos, da “desordem”, os quais são violência. Esta é a razão pelo qual a Religião é “ordem”, ao passo que o Evangelho é “desordem”. Jesus, de facto, foi condenado e executado como um subversivo e um agitador (Jo 18:30; 19:12; Lc 23:2.5). Eis o motivo pelo qual a pessoa muito religiosa   e não só os “profissionais” da Religião produz e reproduz normas de conduta de uma violência reprimida, inimaginável; uma violência da qual quase nunca nos damos conta. Contudo, uma violência que transportamos dentro de nós, do modo menos consciente e mais insuspeito. O Evangelho é uma boa chave de leitura para este fenómeno tão singular quanto desconcertante.


A Teologia Popular em tempos de um papado para o povo

A eleição do ex-jesuíta argentino Jorge Bergoglio (o Papa Francisco) para sucessor de Bento XVI no papado foi uma notícia inesperada, que está a dar muito que falar e pensar[1]. Aquilo que mais chama a atenção é o novo Papa, a sua desconcertante simplicidade, a sua bondade, a sua proximidade para com todos e, sobretudo, a sua insistente e declarada preocupação em recuperar uma Igreja pobre, uma Igreja ao serviço do povo, especialmente dos povos mais necessitados da terra.

Ora, em tempos de um papado para o povo, o mais lógico é que tenhamos uma Igreja para o povo. A ser certo isto, é razoável pensar que a teologia que melhor poderá justificar e sustentar uma Igreja assim será a Teologia Popular, a teologia que nos faça lembrar constantemente Jesus. Uma lembrança que nos empurre para o kaos do Evangelho, força profética que nos liberte do kosmos da violência, o qual é, de facto, uma incessante e criminosa agressão contra os mais débeis deste mundo.

É claro e muito verdadeiro que, ao colocarmos assim a questão da teologia e a sua razão de ser, somos invadidos pelo receio de nos desviarmos da (ou nos perdermos da) “ortodoxia dogmática”. Por isso, importa terminar esta apresentação da Teologia Popular lembrando um texto de J. B. Metz:

“A fé dogmática ou a fé confessional é o compromisso com determinadas doutrinas que podem e devem entender-se como fórmulas re-memorativas de uma reprimida, endemoninhada, subversiva e perigosa memória da humanidade. O critério do seu genuíno carácter cristão é a perigosa e libertadora crítica, perigosa e libertadora mas ao mesmo tempo redentora, com que a mensagem recordada é actualizada, em que “os homens se assustam mas, no entanto, saem avassalados pela sua força” (D. Bonhoeffer).

“As profissões de fé e os dogmas são fórmulas “mortas”, “vazias”, isto é, inadequadas para a tarefa de salvar a identidade e a tradição cristãs como memória colectiva, quando os conteúdos, que essa memória traz, não manifestam a sua perigosidade para a sociedade e para a Igreja!

“As profissões de fé e os dogmas são fórmulas “mortas”, “vazias”, quando essa perigosidade se esfuma sob o mecanismo da mediação institucional e quando, como consequência disso, as fórmulas apenas servem para a auto-reprodução da religião que as transmite e para a auto-regulação de uma instituição eclesial autoritária que, como transmissora pública da memória cristã, deixou de encarar a perigosa exigência da dita memória”.

Em tempos de um papado em que o Papa dá sinais evidentes de estar disposto a enfrentar essa “perigosa exigência”, a Teologia Popular produz a reconfortante impressão de recuperar a sua actualidade.

José M. Castillo
27:III:2013
Teologia Popular (1) La buena notícia de Jesus.
Edit. Desclée de Brouwer, 2012, 113 pgs.


«A RENOVAÇÃO NA IGREJA : TAREFA DE TODOS»




30 de março de 2013

«ENFRENTA O TIRANO», diz o Cordeiro Pascal [Ex 6:11]

Páscoa
«Eu faço de ti um deus contra a tirania»,
diz o Senhor a Moisés [Ex 7:1-2]



«Eu te envio: Liberta o meu Povo!» [Êxodo 3:10]





(…) II

Mirando el sufrimiento de su pueblo en Egipto dijo Yahvé: "Siempre estaré con ustedes”.
Viendo el sufrimiento de los salvadoreños dijo Monseñor: "No abandonaré a mi pueblo”.

Y no fueron palabras vanas. Solía decir: "Con ustedes correré todos los riesgos”. Y al presidente del país que le ofrecía protección le contestó solemnemente: "Quiero decirle que, antes que mi seguridad personal yo quisiera seguridad y tranquilidad para 108 familias y desaparecidos. Un bienestar personal, una seguridad de mi vida no me interesa mientras mire en mi pueblo un sistema económico que tiende cada vez más a abrir esas diferencias sociales”.

De su dolor habló Monseñor en las homilías. "Hermanos, ya me duele mucho el alma de saber cómo se tortura a nuestra gente”. Y las homilías las preparaba así. "Le pido al señor durante toda la semana, mientras voy recogiendo el clamor del pueblo y el dolor de tanto crimen, la ignonimia de tanta violencia, que me dé la palabra oportuna para consolar, para denunciar, para llamar al arrepentimiento”.

Creaba, estrujaba el lenguaje, para que aflorase su dolor. "Esta semana se me horrorizó el corazón cuando vi a la esposa con sus nueve niñitos pequeños que venía a informarme. Según ella lo encontraron con señales de tortura y muerto. Ahí está esa esposa y esos niños desamparados”.

Arremetió contra los criminales, y más allá de la justicia legal y restaurativa conminó a hacerse cargo de la vida de esos nueve niños: "Yo creo que el que comete un crimen de esa categoría está obligado a la restitución. Es necesario que tantos hogares que han quedado desamparados como este reciban ayuda. El criminal que desampara un hogar tiene obligación en conciencia de ayudar a sostener ese hogar”.

Y la buena noticia de ese pueblo. En ese pueblo sufrido Monseñor Romero encontró luz, cariño y amor. "Siento que el pueblo es mi profeta”. "El obispo siempre tiene mucho que aprender de su pueblo”. "Entre ustedes y yo hacemos esta homilía”. "Con este pueblo no cuesta ser buen pastor”. "Me glorío de estar en medio de este pueblo”.

Razón tenía el padre Ellacuría cuando dijo: "Con Monseñor Romero Dios pasó por El Salvador”.



«Adoptem pobres, tragam-nos para vossas casas...», tal como fez a Filha do Faraó [Ex 2:5]



III

Digámoslo ahora brevemente en el lenguaje que en 1979 usaron los obispos en Puebla.

Puebla es conocida por la opción por los pobres. Pero habló sobre todo del Dios de los pobres y de los pobres de Dios. Dios es el primero que ha hecho la opción por los pobres. La Iglesia no ha inventado nada nuevo -y Dios cumple mejor que la iglesia con esa opción.

Y en esa opción de Dios hay dos cosas fundamentales que ojalá las tengamos siempre presentes, y ojalá las reproduzcamos nosotros aunque sea en pequeño.

La primera es la gratuidad. "Por el mero hecho de ser pobres, independientemente de su condición personal y moral, Dios los defiende y los ama” (1143). El amor de Dios a los pobres es absoluto, sin condiciones. Como decíamos antes "en Dios el huérfano encuentra compasión”. Dios no reacciona a la bondad de los pobres ni a sus méritos. Dios reacciona a su pobreza. Eso es lo que mueve el corazón.

La segunda es salir en defensa del pobre, y quiero insistir en este punto. Dios no solo ama y ayuda al pobre, sino que antes lo defiende - lo cual no suele ser tenido en cuenta. Y es importante ver la lógica profunda en esa actuación de Dios. Lo que hace que el pobre sea pobre – muy fundamentalmente en nuestro mundo − es que tiene enemigos, adversarios. Optar por el pobre es entonces enfrentarse con quienes les hacen pobres, y es, por ello, entrar en conflicto con sus opresores. Optar por el pobre es, no solo pero sí muy principalmente, luchar contra los victimarios para que dejen de producir víctimas.


No hay opción por los pobres sin decisión a defenderlos. (Ex 1:15-2:9)

Y por lo tanto, sin una decisión a introducirse en el conflicto histórico. (Ex 3:11-12) Esto no suele ser muy tenido en cuenta. Ni siquiera teóricamente. Tampoco en Aparecida. Pero, digámoslo una vez más: no hay opción por los pobres sin arriesgar.


IV

Este año el aniversario de Monseñor Romero coincide con la elección de un nuevo papa, Francisco. Para terminar quiero decir brevemente dos cosas:

La primera es mi deseo de que en él los pobres encuentren siempre compasión. Que el papa nos ayude a nosotros a ser compasivos con los pobres. Y que nosotros ayudemos al papa a ser compasivo con ellos.

La segunda es presentarle algunos deseos. Menciono cuatro que me parecen importantes, y que espero sean de su agrado:

1. Que proclame que la Iglesia es Iglesia de los pobres, y que escuche con alegría el aplauso de Juan XXIII, quien descansa en paz en una tumba cercana a su aposento papal.

2. Que de una vez por todas enaltezca a la mujer y resuelva valientemente el problema de la mujer en la iglesia. Y que con las mujeres dentro la Iglesia sea mejor partera de humanidad.

3. Que no abandone la modesta cruz que lleva al pecho. Y que comience a dar pasos para dejar de ser jefe de Estado. Y así, que haga de la iglesia un pueblo que camina, con tanteos, hacia Dios.

4. Que canonice sin necesidad de repetir fórmulas y sin quedar aprisionado en normas, a todos los mártires y a todas las mártires de la justicia en el seguimiento de Jesús. Y si busca un nombre para que todos ellos y ellas tengan nombre, desde aquí le ofrecemos muy humildemente el nombre de Monseñor Romero y el nombre de los mártires de El Mozote. Y que él añada muchos otros nombres de hombres y mujeres -y de pueblos crucificados- que han dado su vida por amor como Jesús crucificado y como el siervo sufriente de Yahvé. Con todos ellos y con todas ellas Dios ha pasado por este mundo. Que Monseñor Romero le ayude al papa Francisco. Y que nos ayude a todos nosotros a parecernos a Jesús de Nazaret.


[Extracto da homilia de Jon Sobrino, padre jesuíta]

FONTE:
ADITAL

33º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE D. ÓSCAR ROMERO






28 de março de 2013

PÁSCOA, A GRANDE ESPERANÇA [C. MESTERS]

Páscoa que passas…




Quando, pela primeira vez, o Povo hebreu, na sua já longa caminhada por terras desconfortáveis (Gn 12:10; Ex 1:11) ergueu a cabeça ao alto e clamou por Deus, o Deus que lhe saiu ao caminho dirigiu-lhe uma Palavra de compaixão, condoído (Ex 3:7; Sl 107:20), palavra paternal, cuidadosa, sinalizando os perigos (Dt 30:15-19). Pela primeira vez, na história da humanidade, um Deus falava condoído aos humanos e desejava ser (co)respondido em amor.

Nesse instante comunicacional, o Povo hebreu colocou Deus no seu estandarte: Deus tornou-se um ser colectivo (Dt 6:10; Dt 7:6; Dt 27:9; Gn 17:7). O povo puxou Deus para baixo ('mundanizou-o e infantilizou-o': Ex 1:8-2:10), apeou-o das alturas (dos deuses babilónios): «Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob.» (Ex 3:6). Doravante, Deus canalizou o seu “infinito” (‘milésimo’) amor para aquele redil que lhe respondera ‘que sim’ (Dt 5:9-10; veja a desproporção entre ‘terceira e quarta’ e ‘milésima’ geração…). Deus não deixou fugir aquela oportunidade: agarrou-a com afinco e ousadia; agarrou-a como a Grande Oportunidade da sua Vida Divina na terra (Dt 10:15ss).

Aparentemente, isto pode parecer muito injusto. Então, não existiam mais povos à face da terra? Eleger alguns poucos seres humanos e virar as costas à imensa humanidade? Ao desejar entrar na História, Deus fez aquilo que deve ser feito: esperar que as oportunidades surjam e nunca as forçar. Na verdade, Deus não abandonou nunca o resto da Humanidade, tal como a história de Caim o comprova (Gn 4:15-16). Os hebreus (e nós, os cristãos, também) é que acharam que sim, que eram os proprietários do registo da patente…

Mas, por mais de uma vez, Deus foi avisando: cuidado com essa coisa de ‘povo preferencial’, de Povo Eleito de Deus, terra só a vós prometida, nação santa, etc. (Dt 6:3-4; Moisés − e era Moisés − por castigo de Deus, não haveria de entrar na Terra prometida; cf. Dt 34:4-5) Cuidado… porque, é certo, «Tu és um Povo consagrado ao Senhor… Deus escolheu-te… [mas] Não foi por serdes mais numerosos que outros povos que o Senhor se agradou de vós e vos escolheu; vós até éreis o mais pequeno de todos os povos» (Dt 7:6-7; cf. Jo 8:53 e a bazófia da herança; temos como Pai Abraão; porventura serás tu maior que ele?). Cuidado, pois! Foi tudo por «amor» e «fidelidade». (Dt 7:8) Impossível maior humanidade… nesta divindade!

Um dia, envolto em ira e castigos, Deus fartou-se mesmo da religião que os homens inventaram para O «enquadrar» e rasgou a Aliança de amor (Ex 32:1-19; Ex 33:3; Sl 106:6.19-21; 1Rs 18-21; Ez 6:1-5; 7:4; 8:6; 9:5-7; 10:18; Gn 6:5-6; Mt 21:12; Mc 11:15; Lc 19:45; Jo 2:13-16). «Deus abandona o Povo e o Templo!», pois o Povo corrompera-se e o Templo fora transformado na sede do saque austeritário, numa «casa de ladrões» …

Mas, tal como acontece nas nossas vidas, quando alguém entra em nós, verdadeiramente, nunca mais sai, mesmo que fisicamente morra. «Na verdade, como se pode repudiar a esposa da juventude? (…) Por um curto momento Eu te abandonei, mas, com grande amor, volto a unir-me contigo. Num acesso de ira, e por um instante, escondi de ti a minha face, mas Eu tenho por ti um amor eterno. (…) Vou agir como no tempo de Noé» (Is 54:6-10). Na verdade, Deus nunca mais se retiraria para as nuvens nem viraria as costas à História, como «o Grande e Poderoso Soberano que domina o Céu e a Terra» (Hino a Enlil, deus sumério, finais do 3º milénio). E Deus, não só regressou à Aliança («Deus recordou-se»: Gn 8:1.21-22.9:1-17; cf. renovação da Aliança pós-Dilúvio), como não foi apenas ficando, não: ficou mesmo, para sempre incrustado na história dos homens! Quero dizer, «montou a sua tenda entre nós» (Jo 1:14) e, até… arregaçou as mangas (Ex 34:10; cf. Sinagoga de Nazaré, Lucas 4:16.30).

Deus fez-se Povo. Ou seja, Deus passou a ser uma personalidade colectiva com currículo em Ciências de Educação Popular: Deus é pedagogo do Seu povo! (Dt 8:11-20) Deus deixou de ser uma realidade enigmática existente ou contemplável a partir de fora (Sarça Ardente; Ex 3:2.5). Deus passa a pertencer à História, Deus entra na História, é Deus dos Pais (patriarcas), caminha com o Povo, o seu Ser é lado-a-lado com a história do Povo, apenas existe se asa-com-a-asa-do-Povo (Ex 3:6; «EU SOU»=’estarei lado a lado convosco, sempre’). Os "pecados" são "pecados históricos" e passam a estar sujeitos a "julgamentos históricos" (Ex 32:1-35;  - "um grande povo acode em massa" -v.1- e comete "um tão grande pecado" - v.21). Acabaram-se as pequenas e individuais vias-sacras culpabilizantes... porque o Mal – o único que conta! – é histórico! O Senhor é o Deus da História (humana), o Deus do Universo (cósmico)! Os julgamentos do Senhor Deus de Israel têm dimensão colectiva (v.34 - "pedir-lhes-ei - no plural! - contas"), não por banal bestialidade, mas porque a correcção (Salvação) do Senhor não é indivíduo a indivíduo, mas é para toda a Humanidade, sem excepção, é colectiva: "Vai agora e conduz o meu povo". (v.34) O Senhor Deus exige solidariedade popular, consciência histórica ("memória universal e perseverança histórica", v.1b) e não mera espiritualidade de pequenas obras piedosas... (bezerro de ouro) «Quando amanhã os teus filhos te perguntarem... dirás... "Éramos escravos do faraó, no Egipto, e o Senhor tirou-nos do Egipto com o seu braço poderoso... contra o faraó e o seu império"» (Dt 6:20ss).

Deus exige do Povo a grandeza que o seu plano comporta: Deus não se contenta com pouco. Exige audácia, mas sobretudo fidelidade à magnitude da Hora e da Obra! Com Deus não há lugar a "saldos" ou a "descontos" espirituais... apenas a exigente dignidade de quem caminha lado a lado com o seu Deus libertador! (Ex 33:14 - "Eu em pessoa caminharei convosco até vos dar o repouso") Diante do «plano dos tiranos» (Ex 1:10), Deus, astuciosamente, põe em marcha um «plano libertador» (Ex 1:17). Deus não é um pietista despersonalizado ou um castrado complexado. Deus não faz por menos: para esperto esperto e meio... Deus vai à luta!

Deus é uma realidade existencial, arado (força) que lavra a História Humana (1 Cor 3:9b) como o faz um filho da humanidade: Deus mexe na terra (que somos nós), mete as mãos nos torrões, semeia a batata pela Páscoa, suja-se, trabalha, cava e planta, rega, e tanto faz crescer como, ao mesmo tempo, sabe esperar o descanso (Gn 2:2-3), sentado sobre o mistério do Reino da Vida que se ergue por si (Mc 4:26-29). «As minhas delícias é estar junto dos seres humanos» (Pr 8:31).

A aventura bíblica ensina-nos: não é cada hebreu, individualmente, que adora Deus, o venera e o louva - o Povo é que é de Deus e Deus tem um Povo (Ex 1:6 - de "família de José" o relato passa a "israelitas"). Povo e Deus encontram-se, agora, num Templo que, doravante, se chama História da Humanidade, pois todos os véus - que extasiavam, cobriam, sagravam, atraíam, consagravam mas separavam Deus da humanidade - foram «rasgados de alto a baixo» (Mt 27:51; Mc 15:38-39; Lc 23:44-49), abrindo um caminho transversal de universalidade na comunhão em si e com Deus (cf. centurião, multidão, mulheres), sabor que viajara dos confins da memória (1 Cr 17:4-8).

Maravilhosa aventura: o Povo de Deus abre caminho ao longo da História da humanidade com a ajuda do Deus das origens (Génesis), com a ajuda do Deus dos começos (Patriarcas: Abraão, Isaac e Jacob). Deus original (criador / criação), que se quis dar a conhecer no começo da história (revelação), que tomou a iniciativa de se apresentar (apenas!) como Deus-Amor que se dá (dom e graça) na gratuitidade dum compromisso que bebe na Liberdade mais radical e gratuita. «Atenção! Todos vós que tendes sede, vinde beber desta água. Mesmo os que não tendes dinheiro, vinde, comprai trigo para comer sem pagar nada. Levai vinho e leite, que é de graça» (Isaías 55:1; cf. Jo 2 – ‘água’ e ‘vinho’ nas Bodas de Caná). «Quem o diz é o Senhor que tanto te ama» (Is 54:10b)

Na hora de pôr o preto no branco, na hora de assinar a definitiva versão do contrato, a única factura que Deus apresentou foi a conta da liberdade radical e da solidariedade extrema: mais nada («Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine»; Gn 1:26 – relato da Criação; «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai [de morrer], Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo»; cf. Jo 13:1 - Última Ceia). Deus passou a ser – Deus quis ser!a Humanidade elevada ao extremo da radical liberdade solidária!

Ou seja, Deus revelou-se como liberdade absoluta e dom total, pleno e radical, não fora mas DENTRO da história da humanidade (cf. «ao entrar no mundo», Heb 10:5; e tão dentro da História Ele entrou que até age servindo-se dos deuses babilónios e dos reis persas, pagãos, 2Cr 36:22-23; ex. Ciro, a quem Isaías denomina «o ungido do Senhor», cf. Is 45:1; cf. «uns Magos vindos do Oriente», cf. Mt 1:2).

E tanta importância deu à História que chegou a exigir prioridade à libertação histórica ("deixa partir o meu Povo"; Ex 5:1b) e só depois, então, a "religião" ("para que ele celebre para mim uma festa no deserto")!

Este Deus-Amor podia sê-lo de cima, do alto ou à margem (versão babilónica revista e aumentada[1]): mas não quis! Podia ter enviado uma sonda espacial e, nela, um CD carregado de imagens curriculares suas, com tudo o que Ele é e faz, com tudo o que o rodeia, com um documentário sobre o Seu Reino esplendoroso (que alguns insistem em dizer que não é deste nosso mundo!). Teria sido mais confortável: nós, diante dum leitor de DVD, ora horrorizados com tanta miséria e injustiça inter-estelar (imediatamente fazendo chamadas telefónicas e alimentando a tele-caridade); ora, em êxtases suspirosos face a tanto Belo, a tanta Bondade e a tanta Verdade derramada. Deus podia, mas não quis que fosse assim. Podia ter descido de helicóptero sobre uma passadeira vermelha ao som de mil fanfarras. Podia ter contratado uma empresa multi-média ou inaugurado uma coisa tipo-FIL com tantos stands quantos os seus «atributos divinos», onde a humanidade pudesse tirar dúvidas a Seu respeito, comprar catálogos de recordação, adquirir tratados especializados sobre os mais variados temas teológicos. Podia ter organizado colóquios, concertos de canto gregoriano, congressos, grandes jornadas mundiais da juventude ao ar livre, podia ter soltado todo o seu foguetório, podia ter impressionado o Povo basbaque (Mt 4:6; Lc 17:20-23), podia ter nomeado uma comissão de honra, tipo Ecce Hommo, que pensasse a questão «Deus num universo laicizado», podia ter sonhado com a «reconstrução do mundo», tão fragmentário, à luz de Si, escrevendo Conferências… Podia, mas não era a mesma coisa.

Preferiu escolher este pequeno planeta e, dele, um pequeno colectivo de homens e mulheres sem eira nem beira, ainda por cima com crianças piolhosas e gado e sementes, alfaias, muita tralha e confusão, com berreiro e cheiro a sovaco, gente vulgar… nómada, errante, meio aparvalhada! Deus viu aí, provavelmente, alguma coisa de si, a sua própria itinerância talvez (característica muito sua!, supunha). Deus viu aí a sua própria fragilidade amorosa, Deus viu aí a sua necessidade de perdão, fome de perdoar e de costurar relações (mergulha nas águas do Baptista como um filho de homem rente à sua condição, «ele que era divinamente rico, fez-se pobre»; cf. Fl 2:6; 2Cor 8:9). Deus sentia que, em si, sofria de obstipação: sofria, por que nada nele fluía. Amava, mas o seu amor não era correspondido: vivia apaixonado, mas de uma forma ‘constipated’… Era um amor egoísta, a dois: «de Mim para Mim». Deus bocejava... Um Deus sentado no sofá, embevecido é certo, diante da sua criação de cristal, porcelana finíssima, porém, porcelana sob a redoma dos sustos da securitas… Deus contemplando a sua caríssima obra da criação como um coleccionador de ametistas, ícones eslavos, velinhas cool e rolexes de toda a forma e feitio. Deus fora da História: sempre mais do mesmo Só os filósofos de quando em vez lhe ligavam porque necessitavam de se entreter - crianças diante de peças de legos. Mas, até esses, os filósofos, ligavam-lhe apenas à distância como quem faz palavras-cruzadas em suas pinças de razão tacteando no escuro da imensidão boreal das suas inquirições a chá e torradas.







Para aquele humilde e pacífico galileu perdido nos confins do Império romano - pacífico mas ingente galileu – a vida de relação entre o seu Povo e o seu Deus entrara num beco sem cancelo. A História dos homens havia esgotado o seu potencial e arrefecera: o tempo perro rodava agora sobre si próprio e os ponteiros ferrugentos, rangiam. O sonho dos começos, a alegria das grandes aventuras, os originalíssimos contos acerca dos Patriarcas, tudo tinha sido invadido pelo sal. Tudo em vão. O amor morrera, só faltava devolver alguns poucos objectos pessoais, retirar as alianças do dedo e assinar, displicentemente, a última versão do clausulado da carta do divórcio. Os raríssimos que ainda sonhavam, sonhavam apenas com memórias, coisas giras que o passado dos pais lhes deixara, algum folclore, certos hábitos interessantes como comidas e festas, uns quantos enfeites nos cabelos, prendas que se trocam, alguns rituais órfãos, viagens à província, trajes, gente que brinca às casinhas monta tendas no jardim e mete-se lá dentro por umas horas como se fossem veros peregrinos dum deserto qualquer (Lv 23:33; Festa das Tendas); outros, que vestem paramentos coloridos e saem às ruas, de sinetas nas mãos a tilintar e a gritar ‘Vitória! Vitória!’ sem que se perceba quem venceu quem e quem derrotou o quê, se é que houve, de facto, vencedores e derrotados (o Compasso). Mas, quanto ao resto, a vida ia sobrevivendo debaixo da maior escravidão dum fatídico quotidiano de ferro (Max Weber). Deus ausentara-se definitivamente e, com ele, a memória actuante e inquiridora dos começos, esmagada pela bota do Império.
 
Jesus, o galileu, sentiu «bater» o Sonho, sentiu de novo a utopia de Deus a tocar à sua porta. As velhas palavras de sua mãe não paravam de o incomodar nas têmporas: «Não está no céu… nem tão pouco do outro lado do mar… está muito perto de ti, na tua boca, no teu coração… é como uma brisa, um murmúrio de brisa… escolhe a vida» (Dt 30:12-14; 1Rs 19:12; Dt 30:19b).

Tinha trinta anos − muita idade − velho para casar. Por um instante, resolveu retirar-se para um lugar sossegado, não muito longe da sua aldeia – a cabeça estalava. E, à vista do vale, olhando-o de longe e condoendo-se do estado do seu Povo, começou a orar. Mais tarde, os mais chegados a ele, interpelaram-no: - Que dizias quando foste rezar? Jesus respondeu: - Se quereis saber, orai comigo. E começaram: «Pai-Nosso,…».

A Grande Esperança regressava e anichava-se. A Grande Aventura com Deus estava de volta a casa! Um caminho novo, uma vez mais, era aberto. Contra todas as expectativas e ao arrepio do sistema vigente, desta vez era encetado um novo caminho por um anónimo galileu, de nome Jesus, o filho de Maria de Nazaré, nenhum deles letrado, ambos habitantes duma terra repelente (Jo 7:49.52). A pachorrenta roda da vida iniciava então o seu agudo chiar.

Em qualquer recôndito lugarejo da terra, alguém pode tropeçar na voz de Deus que passa (Jo 1:36.9:1) e que, sem cessar, repete: “Eu bem vejo a opressão e os gemidos do meu Povo… Eu bem ouço seus gritos de aflição… Condói-me o seu desânimo…” (Ex 3:7; Mt 9:36).

Também tu podes começar já a abrir um caminho novo no chão duro deste «sistema de ferro», ordoliberal & merkeliano, de que nos querem convencer e aceitar ser sem alternativa. Queres saber como, de que jeito? Se sim, entra por esta porta aqui.

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[1] Cf. os trabalhos de J Bottéro sobre as religiões da Mesopotâmia (La idea de «divindad» y «naturaleza divina»).