teologia para leigos

24 de março de 2013

O 'JEITO' DE JESUS [C. MESTERS]

JESUS ENCONTRA NA BÍBLIA
A LUZ PARA A SUA MISSÃO



São, sobretudo, três os nomes ou títulos com que Jesus mais se identificou e que ele mais usou para expressar a sua missão: Filho do Homem, Servo de Yahvé e Resgatador [go’el]. Os três vêm do Antigo Testamento. Ele mesmo juntou os três numa única frase: O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10:45). Os três são, por assim dizer, as três fotografias mais antigas que os primeiros cristãos conservaram para nos dizerem o que Jesus significava para eles e qual o caminho que ele abriu para nós podermos chegar até Deus.

Eis o significado de cada um destes três nomes ou títulos do Antigo Testamento. Eles ocupam o centro de todo o processo de formação de Jesus.


Filho do Homem: ser humano, humanizar

Filho do Homem é o nome ou título que Jesus usava constantemente para si mesmo e que os outros nunca usaram para ele. Este título aparece com grande frequência nos evangelhos: 30 vezes em Mateus; 28 vezes em Lucas; 13 vezes em Marcos. No Evangelho de Marcos, Jesus usa este nome quase sempre para falar da sua paixão, morte e ressurreição: “O Filho do Homem vai ser entregue!” (cf. Mc 8:31; 9:9.12.31; 10:33.45; 14:21.41). Usa-o três vezes para indicar a ‘glória’ que Ele vai ter como Messias junto de Deus: “Vocês vão ver o Filho do Homem vir sobre as nuvens” (Mc 14:62; cf. 8:31; 13:26); duas vezes para indicar o poder: “O Filho do Homem tem o poder de perdoar os pecados” (Mc 2:12). “O Filho do Homem é dono do sábado!” (Mc 2:28).

O título “Filho do Homem” vem do Antigo Testamento. No livro de Ezequiel, ele aparece 93 vezes para indicar a condição muito humana do profeta e é traduzido por Criatura Humana na Bíblia Pastoral (Ez 3:1.4.10.17; 4:1 etc.). No livro de Daniel, o mesmo título aparece numa das visões apocalípticas, em que Daniel descreve os impérios dos babilónios, dos medos, dos persas e dos gregos (Dn 7:1-28). Na visão do profeta, esses quatro impérios têm a aparência de “animais monstruosos”: leão com asas de águia, urso com três costelas entre os dentes, leopardo com quatro cabeças e, ainda, uma fera medonha e terrível (cf. Dn 7:3-8). Isso significa que se trata de impérios animalescos, brutais, desumanos, que perseguem e matam (Dn 7:21.25). O mesmo é válido para o actual império neoliberal que massifica e desumaniza tanta gente. Depois destes reinos anti-humanos, surge o Reino de Deus que tem a aparência, não de um animal, mas de um Filho do Homem, ou seja, é um reino com aparência de gente, reino humano, que promove a vida. Humaniza. Eis o texto:

«Sob a forma de imagens nocturnas, vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que nunca lhe será tirado, e o seu reino jamais será destruído.» [Dn 7:13-14]

Na visão de Daniel, a figura do Filho do Homem representa não um indivíduo mas o próprio Povo de Deus, como diz a explicação do próprio Daniel: O reino, o império e a grandeza de todos os reinos que existem debaixo do céu serão entregues ao Povo dos Santos do Altíssimo (Dn 7:27; cf. Dn 7:18). Na visão de Daniel, este Povo dos Santos do Altíssimo já se encontra na Glória de Deus e recebe dele o poder. Mas antes de chegar à Glória o povo foi colocado à prova e recebeu muitos insultos (cf. Dn 7:21-25). Trata-se da perseguição na época dos Macabeus (166-164 a.C.). Temos aqui os mesmos três elementos: sofrimento, glória e poder. É o povo de Deus que, mesmo perseguido, resiste e não se deixa desumanizar nem enganar ou manipular pela ideologia dominante dos impérios animalescos. A missão do Filho do Homem, isto é, do povo de Deus, consiste em realizar o Reino de Deus como um reino humano. Reino que não persegue a vida, mas a promove. Humaniza as pessoas. “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10:10).

Apresentando-se aos discípulos como Filho do Homem, Jesus assume esta missão do Povo de Deus, dos “Santos do Altíssimo”. É como se dissesse a eles e a todos nós:

“Venham comigo! Esta missão não é só minha, mas é de todos nós. Vamos juntos realizar a missão que Deus nos entregou e realizar o Reino humano que ele sonhou!”

Reino humano e humanizador. E foi o que ele fez e viveu toda a sua vida, sobretudo nos últimos três anos. “Jesus foi tão humano, mas tão humano como só Deus pode ser humano”. Quanto mais humano, tanto mais divino. Quanto mais “filho do Homem” tanto mais “filho de Deus”! Tudo o que desumaniza as pessoas afasta de Deus. Religião que desumaniza não vem de Deus.

Na hora de ser condenado pelo tribunal religioso do Sinédrio, Jesus assumiu este título. Interrogado pelo Sumo-Sacerdote se ele era o “Messias, o filho de Deus Bendito” (Mc 14:61), ele disse: “Eu sou. E vocês verão o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso” (Mc 14:62). Por causa desta afirmação Jesus foi declarado réu de morte pelas autoridades (Mc 14:61-64). Ele mesmo sabia disso, pois tinha dito: O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10:45).


Servo de Deus: não dominar, mas servir.

Para Jesus, o Filho do Homem é aquele que realiza a missão do Servo de Yahvé. Nas três vezes em que ele prediz a sua paixão e morte, Jesus orienta-se pela profecia do Servo de Deus, tal como está descrita nos cinco cânticos do Servo de Yahvé, no livro do profeta Isaías (Is 42:1-9; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-15.53:1-12; 61:1-3), e aplica-a ao Filho do Homem: “O Filho do Homem vai ser entregue” (cf. Mc 8:31; 9:31; 10:33; cf. Is 50:4-9; 53:2-10).

Naquele tempo, havia entre os judeus uma grande variedade de expectativas messiânicas. De acordo com as diferentes interpretações das profecias, havia gente que esperava um Messias Rei (Mc 15:9.32). Outros esperavam um Messias Santo ou Sumo-Sacerdote (Mc 1:24). Outros ainda, um Messias Guerrilheiro subversivo (Lc 23:5; Mc 15:6; 13:6-8); um Messias Doutor[1] (Jo 4:25; Mc 1:22.27); um Messias Juiz (Lc 3:5-9; Mc 1:8); um Messias Profeta (Mc 6:4; 14:65). Conforme os seus interesses próprios ou de classe social, cada um aguardava o Messias encaixando-o nos seus próprios desejos e expectativas. Porém, apesar das diferenças, todos eles esperavam um messias glorioso[2] e soberano. Ao que parece, ninguém (a não ser os anawim, os pobres de Yahvé), esperava o Messias humilde e Servidor anunciado pelo profeta Isaías. Somente os pobres (anawim) se lembravam de valorizar a esperança messiânica como um serviço ecuménico do povo de Deus à humanidade. Maria, a pobre de Yahvé, disse ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor!” Foi por ela que Jesus foi iniciado no caminho do serviço.

A origem dos cinco Cânticos do Servo de Yahvé (Is 42:1-9; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-15.53:1-12; 61:1-2) remonta a um grupo de discípulos e discípulas de Isaías que viviam no cativeiro da Babilónia por volta do ano 550 a.C. Tal como o Filho do Homem, também o Servo de Yahvé era uma figura colectiva referida ao povo cativo (cf. Is 41:8-9; 42:18-20; 43:10; 44:1-2; 44:21; 45:4; 48:20; 54.17) descrito por Isaías como um “povo oprimido, sofredor, desfigurado, sem aparência de gente e sem um mínimo de condição humana, povo explorado, maltratado e silenciado, sem graça nem beleza, cheio de sofrimento, evitado pelos outros como se fosse um leproso, condenado como um criminoso, sem julgamento nem defesa” (cf. Is 53:2-8). Eis um retrato perfeito de uma terça parte da humanidade de hoje!

Este povo-servo é descrito como aquele que “não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, nem quebra a planta ferida, nem apaga o pavio da vela que ainda fumega” (Is 42:2). Ou seja, perseguido, não persegue; oprimido, não oprime; ferido, não fere. Nele, o vírus da violência opressora do Império não consegue penetrar, seja o vírus do império de Nabucodonosor, seja do império neo-liberal. Esta atitude resistente do Servo de Yahvé é a raiz da Justiça que Deus quer ver implantada no mundo todo. Por isso, ele chama este povo para ser o seu Servo com a missão de irradiar a sua justiça pelo mundo inteiro (Is 42:2.6; 49:6). Os cinco Cânticos do Servo são uma espécie de cartilha para ajudar o povo oprimido, tanto de ontem, como de hoje, a descobrir e a assumir a sua missão. [cf. Ulrich Berges, p.120; N. d. E]

Jesus conhecia estes cânticos e orientava-se por eles. Na hora do baptismo no rio Jordão, o Pai escolheu-lhe a missão de Servo (Mc 1:11). Na sinagoga de Nazaré, ao expor o seu programa ao povo, Jesus assumiu esta missão publicamente, citando o 5º Cântico do Servo (Lc 4:18-18 e Is 61:1-2). Depois da leitura ele disse: “Hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura que vocês acabaram de ouvir”. (Lc 4:21) A partir daquele momento, Jesus percorreu a Galileia para ajudar o povo a descobrir e a assumir, conjuntamente com ele, a missão de Servo de Deus (Mt 8:17). Foi esta dimensão de serviço que mais marcou a formação que ele dava aos discípulos (Mc 10:42-43; 9:33-35).

Jesus foi o Servo de Deus que percorreu o caminho dos Cânticos de Isaías até ao fim. A sua vida e o seu testemunho são o melhor comentário destes Cânticos. É nesta sua atitude de serviço que ele nos revela a face de Deus que nos atrai para si e nos indica o caminho de regresso à Casa do Pai.






Parente próximo (go’el)[3], irmão mais velho: resgatar e acolher os excluídos

Uma das expressões mais antigas usadas pelos primeiros cristãos para exprimir o significado de Jesus para as suas vidas é a do resgate (go’el). No Antigo Testamento, caso alguém, por motivo de pobreza ou de dívidas, perdesse a sua terra ou fosse vendido como escravo, o irmão mais velho ou o parente mais próximo devia entregar, do que tivesse de seu, o preciso para o resgatar e assim restaurar a convivência fraterna no seio do clã ou da comunidade (Lv 25:23-55; Dt 15:7-11).

Para os primeiros cristãos, Jesus era o parente próximo (go’el), o irmão mais velho, que entregou tudo de si, esvaziou-se a si mesmo para resgatar os seus irmãos e as suas irmãs, vítimas da escravidão da Lei, do racismo, da ideologia do império e da religião opressora, para que, novamente, pudessem viver em fraternidade (cf. Gl 2:20; Fl 2:6-11).

No tempo de Jesus, em nome da lei de Deus, muita gente era excluída e marginalizada. Jesus, a partir da sua experiência de Deus como Pai, denunciou esta situação, a qual escondia o rosto de Deus para os pequenos (Mt 23:13-36). Como parente próximo (go’el), ele ofereceu um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Acolheu os que não eram acolhidos e recebeu como irmão e irmã os que a religião e o governo desprezavam e excluíam (Mc 3:34). Resumindo o que já dissemos no Capítulo 3 sobre a posição social da Comunidade Formadora, Jesus acolheu:


1.   Os imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21:31-32; Mc 2:2-15; Lc 7:37-50; Jo 8:2-11);
2.   Os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7:2-10; 17:16; Mc 7:24-30; Jo 4:7-42);
3.   Os impuros: leprosos e possessos (Mt 8:2-4; Lc 11:14-22; 17:12-14; Mc 1:25-26);
4.   Os marginalizados: mulheres, crianças e doentes (Mc 1:32; Mt 8:17; 19:13-15; Lc 8:2ss);
5.   Os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18:9-14; 19:1-10);
6.   Os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5:3; Lc 6:20-24; Mt 11:25-26);


Todas estas pessoas, inclusivamente Paulo o perseguidor, fizeram a experiência de terem sido resgatados para Deus por Jesus, o irmão mais velho, o primogénito (Cl 1:15; Ap 1:5), que cumpriu para com elas o seu dever de go’el. Jesus não tinha dinheiro, mas deu o que tinha: entregou-se a si mesmo ‘Ele amou-me e entregou-se por mim’, diz o apóstolo Paulo (Gal 2:20). Jesus fez-se escravo, esvaziou-se a fim de nos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8:9) para que nós pudéssemos recuperar a liberdade e retomar a vida em fraternidade.

O termo hebraico go’el é tão rico que não tem tradução unívoca. No Novo Testamento, ocorrem os termos libertador, redentor, salvador, consolador, advogado, paráclito, defensor, parente próximo, irmão mais velho, primogénito. Todos esses termos, usados para designar Jesus, referem-se, de uma ou de outra maneira, a este costume antigo do go’el aplicado a Jesus, nosso irmão mais velho. Apresentando-se como go’el, redentor, dos irmãos e irmãs excluídas da convivência comunitária, Jesus revela a face de Deus como Pai, como Mãe que acolhe a todos e vai atrás dos abandonados. [Is 43:1-7; 66:19-24; N.E.]

Resumindo. Foi através da janela destes três nomes Filho do Homem, Servo de Deus e Redentor, todos os três tirados do Antigo Testamento, que os primeiros cristãos olhavam para Jesus e transmitiam aos outros o significado de Jesus para as suas vidas: o Filho do Homem caracteriza-se pela humildade; o Servo de Deus, pelo serviço; o Redentor, pelo acolhimento aos excluídos.

Humanizar, Servir, Acolher − os três traços principais por onde Deus nos revela o seu rosto em Jesus e nos atrai para si. Eles indicam o caminho mais antigo e mais tradicional para nós regressarmos à nossa origem e para vivermos o essencial da boa-nova de Deus que Jesus nos trouxe. Eles ajudam-nos a entender como Jesus é Filho de Deus e a perceber o eixo central da formação que ele dava dos discípulos e discípulas.

Carlos Mesters, OCD
Jesus formando e formador
CEBI 2012, 73-80.




DOMINGO DE RAMOS
Glória ao FILHO por quem acedemos ao ESPÍRITO do PAI
«PASSO A OUVIR»:





[1]Doutor’ no sentido de professor universitário que tudo sabe. [Nota do Editor]
[2] A ‘Glória’, ou honra, pertence apenas a Deus e é sinónimo de Deus. A ‘Glória’ expressou-se na vitória sobre o Faraó (cf. Ex 14:4.17) e, de modo particular, no monte Sinai (cf. Ex 33:18-22). Igualmente, no Tabernáculo, o qual Deus cobre com a nuvem (Ex 40:34-35; 1Rs 8:11). A ‘Glória’ é a «Vida de Deus em plenitude». A ‘Glória’ é o oposto a desonra, a humilhação, a vergonha, a abatimento, a  ausência de esperança, a derrota. ‘Majestade’ ou ‘Glória’ podem ser sinónimos de Deus. A ‘Glória’ de Deus simboliza a Vitória igualizadora, efectiva e definitiva. [Nota do Editor]
[3] R. de Vaux, Les Institutions de l’Ancien Testament, Vol. I, Cerf 19604, 40-41 [nesta obra, completar com a leitura do tópico anterior, ‘Le type de la famille israélite’]; Gonzalo Flor Serrano (Luis Alonso Schökel - col.), Diccionario de la Ciencia Bíblica, Verbo Divino 20052, 54; Xabier Pikaza, Diccionario de la Biblia – Historia y Palabra, Verbo Divino 20071, 410. [Nota do Editor]




22 de março de 2013

NÃO AOS SENTIDOS OU AO ÍNTIMO [Padre J. ALVES CORREIA]

 Como Deus veio ao encontro da Consciência

“Não o espereis em adventos espectaculosos. «O Reino de Deus é dentro de vós»”


O Mundo tenta entrar [«está à porta»], mas a espiritualidade não lhe liga



O Criador, urgido pela sua ternura a fazer-se Pai dos homens, para vir ao encontro das consciências, deu-nos o Seu próprio Filho para que este no-Lo revelasse como Pai. E aos que aceitaram o Filho e a sua revelação «deu-lhes, o Filho, o poder de se tornarem filhos de Deus não por força da cega natureza, não por surda energia da carne, mas pela vontade de Deus» (aceita pelo homem)[1].

Sem a convicção desta lei da graça, sem a consciência desta lei amorosa de Deus e sem o amor consciente e livre, que vai ao encontro daquela vontade divina, não há «baptismo no Espírito Santo», há apenas «o baptismo de João», um acto de humildade e penitência, que dispõe para a graça, não a infunde. Até nas próprias crianças que baptizamos em Cristo, supomos ou interpretamos a aceitação da Graça, da qual a sociedade em que nasceram vive e é feliz, e em que a criança desabrochará à luz racional.

Todos os sacramentos, para desencadearem nas almas a torrente da Graça, para nos trazerem à alma o Espírito multiforme de Deus, prevêem, na alma, a intenção, a vontade decidida de receber a Graça, de acolher o Espírito.

É impossível, na vida espiritual, na vida sobrenatural, uma atitude inconsciente. Se é inconsciente, não é espiritual e, por conseguinte, não será sobrenatural.

A maior tarefa, a mais urgente, para preparar as almas à vida divina, para tornar activa esta vida naquelas que já a possuem, é despertar nas almas a vida consciente. «Desolada anda a terra de uma desolação ingente, porque não há quem pense no seu coração!...»

«Eu estou à porta a bater» − diz o Espírito de Jesus (que é o Espírito Santo) – diz Jesus no Apocalipse de S. João. Dai-lhe atenção, se não quereis que o seu amor fique baldo.

«Não contristeis o Espírito Santo em vós» − suplica por sua vez S. Paulo. E contristar o Espírito é pecar, sem dúvida, mas é também fazer inútil a sua ternura salvadora, pelo atordoamento da vida sensitiva e vegetativa, pela inconsciência de um viver mecânico e instintivo, que não dá lugar à razão, que fecha, por isso mesmo, todas as portas ao divino, ou ao sobrenatural.

É preciso que saibamos que a razão é o espelho, baço e pequenino, mas enfim espelho, da Lei eterna de Deus. Dar-lhe atenção é dar atenção ao Senhor. Só depois de darmos atenção ao Senhor é que Ele terá lugar para convidar-nos à convenção amorosa, que nos oferece o Seu Espírito a assimilar, que nos oferece a sua paternidade e o seu convívio connosco.

Nada menos propício para a orientação das vidas na direcção sobrenatural do que levar as almas ao pavor, à inquietação, ao tremor diante dum tumba aberta, ao terror da morte ou do inferno.

A paz, o domínio calmo de si próprio, o bom humor e a alegria serena, são as disposições em que se ouve o Senhor. «Non in commotione Dominus»: os perturbados não O ouvem. A paixão túrbida é nuvem que O empena.

Vamos para a solidão, onde nos ouçamos a nós mesmos, e o Esposo, o Enamorado divino, virá falar-nos ao coração.

Não é pelos sentidos, não é «pela vontade da carne» (para repetir as palavras do Prólogo de S. João Evangelista), não é por ruídos interiores, mas só na liberdade de exercício do que essencialmente caracteriza o homem − o racional – que eu posso realizar as condições para que Deus me adopte e eu receba a adopção.

Por isso insistiu Cristo no carácter essencialmente íntimo do Reino de Deus. Não o espereis em adventos espectaculosos. «O Reino de Deus é dentro de vós».[2]

Tudo o que nele houver de voz ou de gesto exterior só tem valia, se fôr a representação de uma consciência.

A autoridade e a hierarquia, a disciplina e a ordem, serão seu quadro exterior e indispensável; mas a hipertrofia do quadro, que impusesse disciplina à custa da liberdade e da consciência, seria calamidade para ele de ruína e de morte.

Ninguém concluirá, da espiritualidade do Reino de Deus, da sua intimidade, do facto de ele ser uma Vida, que o Reino deva permanecer inconstatável entre homens, seres racionais, com corpo e sentidos. O Reino de Deus cresce e aparece, é a Igreja visível, orgânica e hierarquizada. Mas não cessará por isso de ser espiritual, sob pena de deixar de ser do Reino de Deus.

Padre Joaquim Alves Correia [Aguiar de Sousa, Paredes 1886 – (exílio) Pittsburgh, USA 1951]
Missionário do Espírito Santo

in “Vida mais alta – perene Espírito novo”
Editorial L.I.A.M., Rua de Sto. Amaro, 47 (à Estrela), Imprimatur de 23 de Março de 1957, 2ª edição, pp. 15-18.

[Manteve-se toda a grafia e acentuação]]

BIOGRAFIA:






[1] S. João cap.1
[2] Luc XVII – 21
S. Jerónimo traduz intra vos - o advérbio grego «entos» - dentro de vós «Figueiredo». Mesmo quem disser que se deve traduzir, como Ferreira de Almeida, «no meio de vós», não deixa por isso o Reino de Deus de ser de almas, essencialmente interior.

19 de março de 2013

NO HUMANO O DIVINO [P. J. ALVES CORREIA]

Caridade em toda a linha


«VIDA MAIS ALTA», Padre Joaquim Alves Correia



É inútil pretender vida espiritual, piedosa, cristã, sem a impregnar de caridade. E enganar-se-ia quem se julgasse quite do preceito do Senhor, pagando simplesmente o imposto da esmola, que ajuda a matar ao pobre a fome ou a tirar-lhe o frio. Esmola, também a davam os fariseus, e a toque de trombeta!...

Mostra Cristo, na parábola do rico e do Lázaro, que o mísero ávaro era pior do que os cães, porque nem as migalhas dava ao pobre e os cães, pelo menos, lambiam-lhe as úlceras; mas quem fosse julgar-se cristão, porque dava migalhas, em vez de as dar aos cães, teria uma ideia bem pícara da fraternidade entre os homens.

O capitalismo bem-pensante, às vezes religioso e devoto, que dá esmolas e subsidia creches e asilos, mas que reserva o lucro para automóveis e salões, deixando ao operário apenas um salário que escassamente chega para não morrer de fome, não é sequer justo, quanto mais cristão! A «miséria imerecida» do trabalhador, que não pode sustentar família em nível de vida que sequer de longe se possa chamar de humano e decente com casa, aceio, repouso, tempo para educação e para vida do espírito é o escândalo, já muita vez denunciado, que faz perder a fé aos pobres, aos naturais amigos de Cristo[1].

Mas a caridade cristã não se contenta com dar confôrto aos corpos: abraça os espíritos. E, para os abraçar, passa a luz de uns aos outros, sem arrogância nem sobranceria, sem aquele ar de mestre e de doutor, que irrita, pretendendo humilhar; antes com simplicidade e alegria de irmão, que acende a outro a candeia; não amimalha nem lisonjea, avisa do perigo e exorta à aceitação das responsabilidades. É isto a obra de misericórdia (de misericórdia, não de dominação) que o catecismo nomeia, quando diz: ensinar os ignorantes, castigar os que erram…

São fariseus, não são cristãos, os que ensinam e castigam para mostrar superioridade, não para levantar irmãos deprimidos e humilhados à altura de um abraço fraterno. A esmola do orgulhoso, que seja dar pão a um faminto, como quem o atira a um cão vadio, ou que seja dar luz ao menos culto, para o deslumbrar e confundir, é esmola profana. Por isso Jesus, naquela mesma prègração em que nos exortava a sermos «misericordiosos», dizia assim aos lamentáveis mestres e mentores, que julgam poder ensinar e representar sem terem humildade nem modéstia: «Hipócrita, tira primeiro a tranca da tua vista e depois poderás ir tirar o argueiro da vista do teu irmão!»[2]

Santiago, que, na sua Epístola, tanto exortou à caridade caridade de esmola, que se não contenta com palavras doces, caridade de língua, que respeita a honra e a tranquilidade alheia, caridade de justiça, que dá ao trabalhador o fruto do seu trabalho mostra-nos bem que nenhuma caridade é possível onde haja orgulho e se não der ao próximo o seu lugar e dignidade de irmão: «Se entrar na vossa reunião algum varão de aneis de oiro e de vestido fino e entrar também qualquer pobre de veste roçada, e vós disserdes àquele: Vem aqui, senta-te bem! e, voltados para o pobre: Deixa-te estar para aí mesmo em pé ou então encolhe-te debaixo do meu escabelo! não é certo que fazeis distinções cruéis e sois juízes de pensamentos iníquos?!»[3].

A caridade cristã é, acima de tudo, espiritual. Por isso é, para principiar, tolerante e boa: não tolerante dos erros ou da iniquidade que não têm direitos, pois não são pessoas mas das vítimas do erro e dos desgraçados iníquos, que são bem mais desgraçados até do que as vítimas que perseguem.

Um cristão de zelo amargo, um cristão que odeie ou mesmo só despreze os inimigos de Cristo, nem serve a Cristo, nem sabe de que espírito é.

Sem mêdo de ninguém, sem ser «cão mudo» diante da injustiça, sobretudo sem bajulação dos poderosos que seria traição aos humildes não pode o Cristão consentir tão pouco no rancor, na vingança, na contraposição do seu próprio orgulho ao orgulho dos iníquos. Seria combater o ódio com o ódio; e o ódio só pode ser combatido com o amor.

A caridade, a que o cristão deve aspirar, sem descansar enquanto lá não chegue, será a do Pai Celeste, que «manda sol a bons e a maus e envia a sua chuva ao campo do justo como ao do pecador… Sede pois vós perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito»[4].

Se a caridade é essencialmente espiritual, para ser cristã, a esmola material não pode ser, é claro, a única expressão, nem é a sua expressão essencial. A alma da caridade é a mentalidade fraterna. Um irmão não pode tolerar que outro irmão se considere vil, nem pode deixá-lo na abjecção, como filho de segunda ordem entre os filhos de Deus. «Que todo o vale se levante, prègava S. João Baptista, percursor do reino do Espírito, e que todo o monte soberbo se arrase! E então verá toda a carne a salvação do Senhor».







A salvação é esta nivelação dos homens pela santa caridade. A esmola seguirá como consequência inelutável: porque será indecente haver irmãos fartos e confortados e, ao pé, irmãos com fome: a indecência que S. Paulo notava nos ágapes dos Coríntios e lhes atirava à cara como um aleijão na Família Cristã.

Se alguém quere ver contradição entre este ponto de vista e a hierarquia na Igreja, nem entende a natureza da hierarquia eclesiástica, nem entendeu nunca o sacerdócio cristão. Sacerdotes demiurgos, sacerdotes familiares de Deus e dominadores dos homens do vulgo simples servos seriam sacerdotes bons para os judeus, que diziam a Moisés: «Não nos fale Deus, porque morreríamos!».

Deus quere que se eleve à consciência de filho todo o homem que aceitou a salvação do Filho Unigénito. Quem distingue entre amigos de Cristo (os sacerdotes) e servos de Cristo (os fiéis) deturpa o sagrado contexto do Evangelho. Todos amigos e todos irmãos.

A verdadeira grandeza dos sacerdotes de Cristo, a única primazia, é serem mais servos (por amor) dos seus irmãos, porque aceitaram, além da obrigação cristã de servir, a delegação da Igreja e a consagração do Espírito Santo, para que o seu modo de vida, sua única profissão na terra, fosse o ministério de Cristo, o do amor, dedicação total aos irmãos, para lhes cultivar a consciência da nossa comum grandeza de «real sacerdócio, de gente santa»[5], a consciência de filhos e amigos do Pai, que os criou para a alegria inefável do mesmo Lar de eterno e divino amor.
Padre Joaquim Alves Correia [Aguiar de Sousa, Paredes 1886 – (exílio) Pittsburgh, USA 1951]
Missionário do Espírito Santo

in “Vida mais alta – perene Espírito novo”
Editorial L.I.A.M., Rua de Sto. Amaro, 47 (à Estrela), Imprimatur de 23 de Março de 1957, 2ª edição, pp. 87-91.

[Manteve-se toda a grafia e acentuação; reproduziu-se capa e página de rosto]
BIOGRAFIA:




[1] Vide Encíclica «Quadragésimo Anno»…
[2] S. Lucas, VI, 36-42.
[3] Santiago, II, 2-4
[4] S. Mateus, V, 45-48.
[5] I Ep. de S. Pedro, II, 9.