teologia para leigos

19 de março de 2013

NO HUMANO O DIVINO [P. J. ALVES CORREIA]

Caridade em toda a linha


«VIDA MAIS ALTA», Padre Joaquim Alves Correia



É inútil pretender vida espiritual, piedosa, cristã, sem a impregnar de caridade. E enganar-se-ia quem se julgasse quite do preceito do Senhor, pagando simplesmente o imposto da esmola, que ajuda a matar ao pobre a fome ou a tirar-lhe o frio. Esmola, também a davam os fariseus, e a toque de trombeta!...

Mostra Cristo, na parábola do rico e do Lázaro, que o mísero ávaro era pior do que os cães, porque nem as migalhas dava ao pobre e os cães, pelo menos, lambiam-lhe as úlceras; mas quem fosse julgar-se cristão, porque dava migalhas, em vez de as dar aos cães, teria uma ideia bem pícara da fraternidade entre os homens.

O capitalismo bem-pensante, às vezes religioso e devoto, que dá esmolas e subsidia creches e asilos, mas que reserva o lucro para automóveis e salões, deixando ao operário apenas um salário que escassamente chega para não morrer de fome, não é sequer justo, quanto mais cristão! A «miséria imerecida» do trabalhador, que não pode sustentar família em nível de vida que sequer de longe se possa chamar de humano e decente com casa, aceio, repouso, tempo para educação e para vida do espírito é o escândalo, já muita vez denunciado, que faz perder a fé aos pobres, aos naturais amigos de Cristo[1].

Mas a caridade cristã não se contenta com dar confôrto aos corpos: abraça os espíritos. E, para os abraçar, passa a luz de uns aos outros, sem arrogância nem sobranceria, sem aquele ar de mestre e de doutor, que irrita, pretendendo humilhar; antes com simplicidade e alegria de irmão, que acende a outro a candeia; não amimalha nem lisonjea, avisa do perigo e exorta à aceitação das responsabilidades. É isto a obra de misericórdia (de misericórdia, não de dominação) que o catecismo nomeia, quando diz: ensinar os ignorantes, castigar os que erram…

São fariseus, não são cristãos, os que ensinam e castigam para mostrar superioridade, não para levantar irmãos deprimidos e humilhados à altura de um abraço fraterno. A esmola do orgulhoso, que seja dar pão a um faminto, como quem o atira a um cão vadio, ou que seja dar luz ao menos culto, para o deslumbrar e confundir, é esmola profana. Por isso Jesus, naquela mesma prègração em que nos exortava a sermos «misericordiosos», dizia assim aos lamentáveis mestres e mentores, que julgam poder ensinar e representar sem terem humildade nem modéstia: «Hipócrita, tira primeiro a tranca da tua vista e depois poderás ir tirar o argueiro da vista do teu irmão!»[2]

Santiago, que, na sua Epístola, tanto exortou à caridade caridade de esmola, que se não contenta com palavras doces, caridade de língua, que respeita a honra e a tranquilidade alheia, caridade de justiça, que dá ao trabalhador o fruto do seu trabalho mostra-nos bem que nenhuma caridade é possível onde haja orgulho e se não der ao próximo o seu lugar e dignidade de irmão: «Se entrar na vossa reunião algum varão de aneis de oiro e de vestido fino e entrar também qualquer pobre de veste roçada, e vós disserdes àquele: Vem aqui, senta-te bem! e, voltados para o pobre: Deixa-te estar para aí mesmo em pé ou então encolhe-te debaixo do meu escabelo! não é certo que fazeis distinções cruéis e sois juízes de pensamentos iníquos?!»[3].

A caridade cristã é, acima de tudo, espiritual. Por isso é, para principiar, tolerante e boa: não tolerante dos erros ou da iniquidade que não têm direitos, pois não são pessoas mas das vítimas do erro e dos desgraçados iníquos, que são bem mais desgraçados até do que as vítimas que perseguem.

Um cristão de zelo amargo, um cristão que odeie ou mesmo só despreze os inimigos de Cristo, nem serve a Cristo, nem sabe de que espírito é.

Sem mêdo de ninguém, sem ser «cão mudo» diante da injustiça, sobretudo sem bajulação dos poderosos que seria traição aos humildes não pode o Cristão consentir tão pouco no rancor, na vingança, na contraposição do seu próprio orgulho ao orgulho dos iníquos. Seria combater o ódio com o ódio; e o ódio só pode ser combatido com o amor.

A caridade, a que o cristão deve aspirar, sem descansar enquanto lá não chegue, será a do Pai Celeste, que «manda sol a bons e a maus e envia a sua chuva ao campo do justo como ao do pecador… Sede pois vós perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito»[4].

Se a caridade é essencialmente espiritual, para ser cristã, a esmola material não pode ser, é claro, a única expressão, nem é a sua expressão essencial. A alma da caridade é a mentalidade fraterna. Um irmão não pode tolerar que outro irmão se considere vil, nem pode deixá-lo na abjecção, como filho de segunda ordem entre os filhos de Deus. «Que todo o vale se levante, prègava S. João Baptista, percursor do reino do Espírito, e que todo o monte soberbo se arrase! E então verá toda a carne a salvação do Senhor».







A salvação é esta nivelação dos homens pela santa caridade. A esmola seguirá como consequência inelutável: porque será indecente haver irmãos fartos e confortados e, ao pé, irmãos com fome: a indecência que S. Paulo notava nos ágapes dos Coríntios e lhes atirava à cara como um aleijão na Família Cristã.

Se alguém quere ver contradição entre este ponto de vista e a hierarquia na Igreja, nem entende a natureza da hierarquia eclesiástica, nem entendeu nunca o sacerdócio cristão. Sacerdotes demiurgos, sacerdotes familiares de Deus e dominadores dos homens do vulgo simples servos seriam sacerdotes bons para os judeus, que diziam a Moisés: «Não nos fale Deus, porque morreríamos!».

Deus quere que se eleve à consciência de filho todo o homem que aceitou a salvação do Filho Unigénito. Quem distingue entre amigos de Cristo (os sacerdotes) e servos de Cristo (os fiéis) deturpa o sagrado contexto do Evangelho. Todos amigos e todos irmãos.

A verdadeira grandeza dos sacerdotes de Cristo, a única primazia, é serem mais servos (por amor) dos seus irmãos, porque aceitaram, além da obrigação cristã de servir, a delegação da Igreja e a consagração do Espírito Santo, para que o seu modo de vida, sua única profissão na terra, fosse o ministério de Cristo, o do amor, dedicação total aos irmãos, para lhes cultivar a consciência da nossa comum grandeza de «real sacerdócio, de gente santa»[5], a consciência de filhos e amigos do Pai, que os criou para a alegria inefável do mesmo Lar de eterno e divino amor.
Padre Joaquim Alves Correia [Aguiar de Sousa, Paredes 1886 – (exílio) Pittsburgh, USA 1951]
Missionário do Espírito Santo

in “Vida mais alta – perene Espírito novo”
Editorial L.I.A.M., Rua de Sto. Amaro, 47 (à Estrela), Imprimatur de 23 de Março de 1957, 2ª edição, pp. 87-91.

[Manteve-se toda a grafia e acentuação; reproduziu-se capa e página de rosto]
BIOGRAFIA:




[1] Vide Encíclica «Quadragésimo Anno»…
[2] S. Lucas, VI, 36-42.
[3] Santiago, II, 2-4
[4] S. Mateus, V, 45-48.
[5] I Ep. de S. Pedro, II, 9.

2 de março de 2013

FÉ E POLÍTICA [Padre J. ALVES CORREIA]


A «pequenice dum país realmente pequeno …»

Para aqueles que acham que a Fé e o cristianismo começam onde acaba a política, para aqueles que acham que há uma linha que separa o sentido da vida (a dimensão religiosa) e a análise (económica, sociológica, etc.) política, para aqueles que julgam que ser cristão é «uma certa forma de dialogar com o mundo» ergue-se a figura do Padre Joaquim Alves Correia, sacerdote dos Missionários do Espírito Santo, em cujo movimento de jovens − L.I.A.M.[1] − «militei» (aos 18 anos de idade).

«O Mal e a Caramunha», artigo publicado no jornal República (23/10/1945) é um libelo acusatório contra o regime ditatorial de Salazar. Quantos padres da Igreja Católica, hoje, seriam capazes da mesma clareza de linguagem, da mesma acutilância de análise social e de coragem teológica diante do governo que nos (des)governa, com a TROIKA a cavalo?

A Igreja Oficial Católica portuguesa foi sempre mais ou menos como hoje é: feita de representantes mais ou menos calculistas / calculadores dos riscos que correm, sempre em busca da melhor «acomodação», da negociação concordatária possível . É por isso que, nela, os profetas que falam e «caminham sempre a direito como os raios do sol» (D. António Ferreira Gomes, bispo[2]) nunca cabem. E, não cabem, pela sua «pequenice» (ibidem). Ontem como hoje, o Êxodo está-lhes destinado. A Igreja Oficial católica portuguesa, na prática, dispensa o estudo dos textos bíblicos e refugia-se, cada vez mais, numa espiritualidade «descafeinada» para elites cultas, gelatinosas, literatas. A determinação de Jesus [Mt 20:18] é-lhe desconhecida! O fulgor messiânico dos seus milagres é remetido. A humanidade curadora da sua presença é escatologizada. Soft é a fé.

«É triste saber o papel e a tinta que o catolicismo português gastou em jornais, revistas e livros de estupidificação»… (Frei Bento Domingues, op).

O padre Joaquim Alves Correia é, hoje, um tão ilustre quanto raro representante duma Fé assente numa elaboração teológica que tem dimensão política e que deixa falar o Evangelho a partir duma opção pela justiça para os pobres. As Igrejas oficiais costumam ter a dimensão dos países oficiais… O Nazareno costuma “passar ao largo”: aventura-se em águas mais profundas [Lc 5:4]. Na linha dum frei Bento Domingues de hoje, no século passado, com o padre Joaquim Alves Correia regressámos ao Evangelho para «seguir Jesus». De olhos bem postos no trilho do Jesus dos evangelhos...

(Reparem na linguagem: diante do Dinheiro, Cristo como um incompetente (gestor); o Dinheiro não é arma com que o Reino de Deus possa contar; ricos, réus do sangue de Cristo; plutocracia feroz; Capital interesseiro e frio, verdadeiro crime; excomungados pelo Evangelho, etc.)






Exploração do trabalho e do pobre

“não amemos com palavras e de língua, mas por obras e verdade!”



(CLICAR P/ AMPLIAR)
 

pobres escandalizadiços e exploradores políticos desse escândalo dos pobres, que lançam em rosto à Igreja e ao Cristianismo o não terem ainda acabado com a exploração do trabalho proletário, em vinte séculos de acção no mundo! Pois Jesus Cristo já contava com esse fracasso “Pobres tereis vós sempre convosco”.

É que a função do Cristianismo é anunciar a verdade e a moral do amor; não é forçar o mundo nem os corações livres. Amor forçado… já não seria amor.

Se alguns sociólogos cristãos sonharam com a utopia de ver solucionada pela acção da Igreja a questão social e imposto por Ela fim ás injustiças sociais, seria porque se esqueceram da palavra do Mestre: “O meu Reino não é dêste mundo. Se fosse dêste mundo o meu Reino, teria ministros que viessem combater e nunca eu te seria entregue; mas o meu Reino não é isso”. (Joan. XVIII, 36).

Se a Igreja pudesse arrogar-se algum dia a capacidade de distribuir os bens dêste mundo, para acabar com a injustiça, a Igreja teria suplantado o próprio Mestre! Um dia, veio ter com Jesus um queixoso e rogou-lhe: “Senhor, dize a meu irmão que reparta comigo a herança”. E o Senhor respondeu-lhe:
“Homem, quem é que me constituiu juiz nessas coisas?!”

Diante do dinheiro, Cristo quis sempre aparecer como estranho, como um incompetente. [Giovanni] Papini observa que, diante dêsse “excremento do Diabo”, o Filho de Deus só mostrou nojo: foi impureza em que não quis tocassem suas mãos divinas, que aliás tocaram até leprosos.

Quando os pretendentes ao Reino de Deus recusassem desapegar-se primeiro da imunda “mammona”, declarava-se impotente. Ao jovenzinho, para quem olhou e a quem amou, mas que viu retirar triste, porque tinha muita tristeza e não se atrevia a separar-se dela, prenunciou destinos escuros: “Quão dificilmente os que têm riquezas entrarão no Reino de Deus!”.

Não! O dinheiro não é arma com que o Reino de Deus possa contar, nem se deixará nunca manobrar e dirigir pela Igreja, Reino de Deus organizado, para o bem do mundo.

Nas lutas do Dinheiro e das suas vítimas, a Igreja não poderá nunca presidir, senão de fora, proclamando imparcialmente a verdade e o dever a pobres e a ricos: aos primeiros, condenando a vingança, a violência, os ódios sanguinários; aos segundos, increpando a exploração, o orgulho insolente, o luxo e os desperdícios da orgia gozadora, que são um insulto aos irmãos pobres.

“Uns com fome, enquanto outros retoiçam na embriaguez! Poderia eu louvar essa desordem? Não, não a louvo!” (1Cor. 20 22).

Não pode a Igreja sofrer calada uma tal desigualdade. Não a louva, sobretudo, quando os ricos, que assim abusam da sorte, são cristãos e comungantes do Corpo do Senhor! Comungantes e réus do sangue de Cristo, símbolo de amor até à imolação, de sacrifício e de activa caridade fraterna.

A Igreja não precisa de excomungar os que, em nome dos interesses do Capital que servem, exploram o sangue e o suor dos operários. Já estão excomungados pelo Evangelho, que até condena os que comem e bebem, sem exploração nenhuma, mas simplesmente fechando o coraçãos aos sofrimentos e privações de irmãos:

“Ide, malditos, para o eterno fogo, porque tive fome e não me destes de comer, porque tive sêde e não me destes de beber, porque estava nu, enfêrmo e preso, e nem me vestistes nem me visitastes.”
“E quando te vimos, Senhor, faminto, cheio de sêde, enfêrmo ou nu, e te não socorremos?”
“Quando assim estavam os meus irmãos pequeninos e não lhes valestes.” ( Vidè Mat. XXV, 34…).

E S. João, na sua primeira Epístola, (cap. III, 17) é de uma clareza irrespondível:
“Se alguém tem riquezas dêste mundo, vê seu irmão a definhar em necessidade e lhe fecha as entranhas da compaixão, como é que vai pensar que tem a caridade de Deus em si?! Filhinhos, não amemos com palavras e de língua, mas por obras e verdade!”

Se é uma verdadeira impiedade, aos olhos de Cristo, retoiçar egoisticamente no supérfluo, quando outros definham na miséria, quanto mais horrível pecado, quanto maior crime verdadeiro crime! não será engrossar o supérfluo à custa do trabalhador que nos enriquece!

O Evangelho e os Apóstolos vão repetindo que digno é do seu salário (evidentemente salário completo, para a vida familial do operário que nos dá tôda a sua actividade grangeadora) todo aquele que trabalha. Mas S. Tiago, mais claro do que todos, diz-nos que o ratinhar o fruto do trabalho ao operário é crime que brada aos Céus: maldição que a Igreja arquivou nos catecismos do povo. Ouçamos S. Tiago:
“Eis que o salário do trabalho dos que ceifaram as vossas searas, e em que vós cometestes fraude, clama contra vós: e êste clamor entra pelos ouvidos do Senhor Sabaot. Banqueteastes-vos sôbre a terra e no luxo e na orgia cevastes vosso coração: mas foi para o dia da matança!” (Tiago, cap. V, vers. 4 e 5).

(CLICAR P/ AMPLIAR)


Para defenderem o seu direito sagrado ao salário condigno, começaram por tôda a parte os operários a associar-se, a sindicar-se, para se impor.
Querer opor-se a essa fôrça nova que surge, seria maldade e amor da tirania, a não ser que fosse ingenuidade e esperança pueril de ver o capital deixar de ser feroz e interesseiro, duro, frio como o metal das suas libras, e vir por si mesmo levantar a miséria que o serve, tocado pela voz doce de Jesus ou pelos anátemas que Êle fulminou contra os ricos.

A Igreja de Jesus prega deveres aos ricos; mas vai dizendo aos pobres que contem antes consigo próprios. É o que Ela quere dizer com as bênçãos e o interêsse maternal com que acompanha, por tôda a parte, o sindicalismo cristão, a organização ordeira, sem ódios, sem ameaças, do trabalho e dos trabalhadores.

Os pequenos, na união que faz a fôrça, querem defender os seus interesses; mas defendem também os do mundo; porque a Plutocracia feroz, ou é trazida à razão pela fôrça ordeira da organização dos que trabalham, ou rebentará estrondosamente, fulminada pela vingança dos miseráveis, levados ao desespêro por um longo cativeiro e congregados entre si pela fôrça maior que há no mundo depois do amor: o ódio, ódio cego à sociedade que sancionou dureza e injustiças.

Padre Joaquim Alves Correia [Aguiar de Sousa, Paredes 1886 – Pittsburgh, USA 1951]
Missionário do Espírito Santo

in “A largueza do Reino de Deus – ou de como a intolerância e o despotismo são apenas variações do Anticristo proteiforme”
Imprensa da Portugal-Brasil, Rua da Alegria 100, Lisboa, 1931, pp. 90-93.

[Manteve-se toda a grafia; acentuação e gralhas, inclusivamente; reproduziu-se capa e página de rosto]


Fazer «o mal e a caramunha»: fazer o mal e querer passar por vítima, lamuriar-se (com lágrimas de crocodilo) sobre a vítima por si esmagada...





[1] L.I.A.M. – Liga Intensificadora de Acção Missionária, à data, dirigida pelo padre Lapa (Porto).
[2] Cf. «Cristianismo e Revolução», selecção de textos (de P. J. Alves Correia) de Anselmo Borges; prefácio de D. António Ferreira Gomes; Livraria Sá da Costa, 19771.

26 de fevereiro de 2013

OS MILAGRES EM JESUS [PIKAZA]

Profeta carismático

a vida dos homens

Crucifixão Branca, Marc Chagall


Apresentámos, no primeiro capítulo, Jesus como profeta escatológico, destacando dez características da Sua mensagem: do anúncio do Reino e das Bem-aventuranças até ao sinal da destruição do Templo e a promessa da chegada do Reino. A mensagem de Jesus manifestou-se em gestos carismáticos ou milagres de vida (‘graça’) a favor dos homens, nos quais Deus se torna transparente.


(Para melhor os entender, esbocemos uma distinção prévia: 1. MAGIA – Algumas pessoas viram Jesus como mago, homem vindo de tempos longínquos numa altura em que não eram conhecidos ainda os métodos e as formas do conhecimento racional e da actuação científica. Como um mago bom (ainda que, por vezes, perigosamente próximo da bruxaria e do demonismo), Jesus rapidamente se tornou famoso; no entanto, foi condenado pela autoridade oficial (esta, mais racional) feita de sacerdotes e soldados. No fundo, os seus juízes tinham razão: a magia de Jesus continuaria a manter-nos atados ao mundo do irracional, mundo cheio de caprichos sacrais. 2. CARISMA – significa dom gratuito. É a expressão duma presença de Deus, a qual supera o plano dos comportamentos mais racionais de uma sociedade organizada (tradicionais, burocráticos). Supera-os sem os negar, tal como Paulo, em 1Cor 12-14, o desenvolveu tematicamente. Jesus teria sido um carismático, um criador, que soube trazer a todos a sua própria capacidade transformadora, iniciando uma mutação (no sentido de Reino), isto é, reconciliação humana e esperança futura em gratuitidade, para lá do sistema. Outras palavras e símbolos se empregaram e se podem empregar para falar da acção criadora de Jesus: muitos chamaram-lhe taumaturgo, homem capaz de realizar prodígios inexplicáveis; outros, curador ou terapeuta, já que tinha poderes curativos que ajudavam os enfermos a viver; outros, médico de corpos e de almas. Estes termos irão aparecer ao longo deste meu texto.)


Dividiremos o tema em dois capítulos, conformes aos símbolos centrais (de mago e de carismático). 1. Muitos viram Jesus como um mago, em sentido geral. 2. Nós vê-lo-emos como carismático; para isso, evocaremos alguns elementos da sua prática de pura gratuitidade (Reino) ao serviço dos excluídos do sistema; terminaremos com algumas conclusões breves.


1.    Pano de fundo mágico – o milagre da comunicação

Alguns exegetas tomaram Jesus como mago: alguém que quebrou as normas convencionais da sociedade e, por isso, os que defendiam a ordem estabelecida sentiram-se ameaçados por Jesus. Em vez de Se apoiar no poder de Deus e nas leis racionais bem estabelecidas da sociedade sagrada do Seu tempo, apelou a forças aparentemente boas, mas que, ao cabo e ao resto, conduziam (ou podiam conduzir) à dissolução dessa mesma ordem estabelecida. Por isso, muitos o consideraram perigoso e preferiram matá-lo. É neste contexto que proporei três níveis de acção e de compreensão da realidade.

1. A magia queria, e quer, dominar o mundo servindo-se de certas forças ocultas, forças de tipo sagrado, que apenas alguns privilegiados sabem e podem manejar. Muitas vezes a não ser que o próprio sistema os ponha ao seu serviço e desse modo os controle (assim sucedeu da China a Roma, onde alguns acabaram por ser funcionários do próprio Estado)   os magos costumam ser perigosos para a ordem social quando esta não consegue controlá-los. Israel formulou a condenação mais extrema que se conhece da magia, em Dt 18:9-22. Foi essa a explicação que, alguns exegetas, como Klausner e Vermes, deram para a rejeição e a condenação de Jesus como mago, por parte dos sacerdotes israelitas.

2. O racionalismo pretende igualmente tomar conta da realidade, mas segundo o espírito do sistema, e, para isso, serve-se da ordem legal estabelecendo meios e fins religiosos (sacrais), filosóficos (racionais) ou científicos (técnicos) organizando, assim, o modo como o homem pretende dominar o mundo e o tipo de relação social que pretende. Neste quadro, a religião estruturada, o pensamento filosófico e a própria ciência surgem como momentos ou graus dum contínuo racional, estreitamente relacionados entre si e determinados pela vontade do sistema.

3. Existe um nível de gratuitidade ou de acção carismática que, sem o negar, supera a ordem da racionalidade e dalgum modo justifica o objectivo mais fundo da magia, ainda que num sentido muito distinto, no sentido do dom e da gratuitidade, contra qualquer forma de manipulação sagrada. Situada neste nível, a religião não pode ser interpretada como sistema legal: não pretende dominar o divino, nem organizar em bloco os diversos elementos da vida humana, mas apenas venerar o mistério da realidade. Pertence ao plano da oferta ou do milagre, ao plano da experiência de admiração face à vida que nasce como algo maior do que nós, sem outra justificação que ela própria, em cada nascimento superando todo o tipo de morte.

A distinção entre magia, racionalismo e gratuitidade é positiva e pode ajudar-nos a compreender, de um modo básico, o contributo de Jesus, profeta carismático. Digamos que o homem primitivo habitava um jardim mágico, vital ou animista, onde os acontecimentos se sucediam impulsionados por almas ou forças (deuses ou demónios) que habitavam nas coisas; porém, simultaneamente, existia nisso algum tipo de experiência religiosa do foro da gratuitidade. As grandes religiões, que surgiram durante o tempo axial (budismo, cristianismo, islão, etc.), parecem mais relacionadas com a ordem racional, aparentemente organizadas em moldes de sistema sagrado, ainda que, no fundo, possuam também um certo tipo de gratuitidade superior.[1]

Como se poderá ver, coloquei o racionalismo propriamente dito na área intermédia, ocupando uma extensa franja da realidade e estabelecendo um tipo de organização «legal» da experiência humana, utilizando meios (sacrais, filosóficos e técnicos) para a consecução de certos fins, suscitando um todo ou um sistema bem estabelecido, com ramificações ou aplicações de tipo económico, social, ideológico ou militar. Este racionalismo permitiu que a vida se expandisse através das grandes culturas (religiosas, filosóficas, científicas), mas, em si mesmo, ele é insuficiente para compreender a realidade, na medida em que existem níveis da experiência anterior ou pré-racional (magia-mística) e também posterior ou supra-racional (religião da gratuitidade), que definem o homem na sua máxima fundura. (…)


2. Aplicando e alargando. O testemunho de Marcos

O evangelho de Marcos, mais do que as palavras de Jesus, descreve os factos, mais do que os seus discursos, descreve os seus gestos carismáticos libertadores. É provável que isso tenha sido uma reacção de Marcos contra uma certa tendência gnóstica da fonte Q, a qual se centra quase exclusivamente nas revelações da sabedoria de Jesus. Contudo, também constituiu uma oposição contra milagres todo-poderosos próprios dos “homens do divino” (theioi andres), [dos ‘funcionários do sagrado’]. Terá sido por isso que apresentou os milagres de Jesus como sinal de debilidade criadora e como entrega amorosa, expressando o sentido da Sua morte pelos outros a fim de instaurar o Reino. Morrer para oferecer um caminho de diálogo e de comunicação a todos, oferecendo a vida aos pobres e excluídos: eis o seu mais alto carisma, a expressão da sua mística pessoal, o do seu encontro amoroso com os outros.

Segundo Marcos, Jesus não pretendeu criar um sistema religioso mais perfeito, nem expor uma filosofia universal a partir dos princípios da realidade, nem uma certa ciência mais exacta ou mais misteriosa. A quem o procurava ou o veio a procurar, apenas ofereceu uma experiência imediata com Deus, pondo Deus em contacto directo com eles. Este foi o Seu carisma, essa a sua tarefa: comunicar-se de modo imediato e sem imposição, dum modo poderoso e amante, para marginalizados e enfermos da sua proximidade, oferecendo-lhes a possibilidade de viver - abriu-lhes uma porta de esperança. É o que vamos tentar demonstrar evocando cinco milagres ou conjuntos de milagres. (...)

Xabier Pikaza [2003]

[19 pp.]




[1] Sendo assim, podemos acrescentar que apenas o racionalismo ocidental moderno, que surgiu com a Ilustração, superou, de modo organizado, a magia (rejeitando, assim, o nível da gratuitidade), e dirigindo os seus processos cognitivos e operativos numa linha de acção instrumental bem programada e avalizada por ideias muito claras e experiências técnicas. A interpretação histórica mais conhecida dos três estádios que se vão sucedendo segundo um esquema diacrónico de A. Comte (religião, filosofia e ciência), de algum modo, está por trás da minha divisão e oferece, sem dúvida, alguns contributos. Contudo, tende a esquecer um elemento essencial: a experiência da mística e da graça propriamente dita, que dalgum modo se pode relacionar com a magia, mas que eu fiz deslocar sobretudo para o terceiro momento (gratuitidade e carisma). Tal experiência não se pode transformar em sistema e, portanto, não pode entrar em nenhum dos três estádios de A. Comte, nem mesmo no racionalismo da área intermédia do meu esquema.