teologia para leigos

2 de março de 2013

FÉ E POLÍTICA [Padre J. ALVES CORREIA]


A «pequenice dum país realmente pequeno …»

Para aqueles que acham que a Fé e o cristianismo começam onde acaba a política, para aqueles que acham que há uma linha que separa o sentido da vida (a dimensão religiosa) e a análise (económica, sociológica, etc.) política, para aqueles que julgam que ser cristão é «uma certa forma de dialogar com o mundo» ergue-se a figura do Padre Joaquim Alves Correia, sacerdote dos Missionários do Espírito Santo, em cujo movimento de jovens − L.I.A.M.[1] − «militei» (aos 18 anos de idade).

«O Mal e a Caramunha», artigo publicado no jornal República (23/10/1945) é um libelo acusatório contra o regime ditatorial de Salazar. Quantos padres da Igreja Católica, hoje, seriam capazes da mesma clareza de linguagem, da mesma acutilância de análise social e de coragem teológica diante do governo que nos (des)governa, com a TROIKA a cavalo?

A Igreja Oficial Católica portuguesa foi sempre mais ou menos como hoje é: feita de representantes mais ou menos calculistas / calculadores dos riscos que correm, sempre em busca da melhor «acomodação», da negociação concordatária possível . É por isso que, nela, os profetas que falam e «caminham sempre a direito como os raios do sol» (D. António Ferreira Gomes, bispo[2]) nunca cabem. E, não cabem, pela sua «pequenice» (ibidem). Ontem como hoje, o Êxodo está-lhes destinado. A Igreja Oficial católica portuguesa, na prática, dispensa o estudo dos textos bíblicos e refugia-se, cada vez mais, numa espiritualidade «descafeinada» para elites cultas, gelatinosas, literatas. A determinação de Jesus [Mt 20:18] é-lhe desconhecida! O fulgor messiânico dos seus milagres é remetido. A humanidade curadora da sua presença é escatologizada. Soft é a fé.

«É triste saber o papel e a tinta que o catolicismo português gastou em jornais, revistas e livros de estupidificação»… (Frei Bento Domingues, op).

O padre Joaquim Alves Correia é, hoje, um tão ilustre quanto raro representante duma Fé assente numa elaboração teológica que tem dimensão política e que deixa falar o Evangelho a partir duma opção pela justiça para os pobres. As Igrejas oficiais costumam ter a dimensão dos países oficiais… O Nazareno costuma “passar ao largo”: aventura-se em águas mais profundas [Lc 5:4]. Na linha dum frei Bento Domingues de hoje, no século passado, com o padre Joaquim Alves Correia regressámos ao Evangelho para «seguir Jesus». De olhos bem postos no trilho do Jesus dos evangelhos...

(Reparem na linguagem: diante do Dinheiro, Cristo como um incompetente (gestor); o Dinheiro não é arma com que o Reino de Deus possa contar; ricos, réus do sangue de Cristo; plutocracia feroz; Capital interesseiro e frio, verdadeiro crime; excomungados pelo Evangelho, etc.)






Exploração do trabalho e do pobre

“não amemos com palavras e de língua, mas por obras e verdade!”



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pobres escandalizadiços e exploradores políticos desse escândalo dos pobres, que lançam em rosto à Igreja e ao Cristianismo o não terem ainda acabado com a exploração do trabalho proletário, em vinte séculos de acção no mundo! Pois Jesus Cristo já contava com esse fracasso “Pobres tereis vós sempre convosco”.

É que a função do Cristianismo é anunciar a verdade e a moral do amor; não é forçar o mundo nem os corações livres. Amor forçado… já não seria amor.

Se alguns sociólogos cristãos sonharam com a utopia de ver solucionada pela acção da Igreja a questão social e imposto por Ela fim ás injustiças sociais, seria porque se esqueceram da palavra do Mestre: “O meu Reino não é dêste mundo. Se fosse dêste mundo o meu Reino, teria ministros que viessem combater e nunca eu te seria entregue; mas o meu Reino não é isso”. (Joan. XVIII, 36).

Se a Igreja pudesse arrogar-se algum dia a capacidade de distribuir os bens dêste mundo, para acabar com a injustiça, a Igreja teria suplantado o próprio Mestre! Um dia, veio ter com Jesus um queixoso e rogou-lhe: “Senhor, dize a meu irmão que reparta comigo a herança”. E o Senhor respondeu-lhe:
“Homem, quem é que me constituiu juiz nessas coisas?!”

Diante do dinheiro, Cristo quis sempre aparecer como estranho, como um incompetente. [Giovanni] Papini observa que, diante dêsse “excremento do Diabo”, o Filho de Deus só mostrou nojo: foi impureza em que não quis tocassem suas mãos divinas, que aliás tocaram até leprosos.

Quando os pretendentes ao Reino de Deus recusassem desapegar-se primeiro da imunda “mammona”, declarava-se impotente. Ao jovenzinho, para quem olhou e a quem amou, mas que viu retirar triste, porque tinha muita tristeza e não se atrevia a separar-se dela, prenunciou destinos escuros: “Quão dificilmente os que têm riquezas entrarão no Reino de Deus!”.

Não! O dinheiro não é arma com que o Reino de Deus possa contar, nem se deixará nunca manobrar e dirigir pela Igreja, Reino de Deus organizado, para o bem do mundo.

Nas lutas do Dinheiro e das suas vítimas, a Igreja não poderá nunca presidir, senão de fora, proclamando imparcialmente a verdade e o dever a pobres e a ricos: aos primeiros, condenando a vingança, a violência, os ódios sanguinários; aos segundos, increpando a exploração, o orgulho insolente, o luxo e os desperdícios da orgia gozadora, que são um insulto aos irmãos pobres.

“Uns com fome, enquanto outros retoiçam na embriaguez! Poderia eu louvar essa desordem? Não, não a louvo!” (1Cor. 20 22).

Não pode a Igreja sofrer calada uma tal desigualdade. Não a louva, sobretudo, quando os ricos, que assim abusam da sorte, são cristãos e comungantes do Corpo do Senhor! Comungantes e réus do sangue de Cristo, símbolo de amor até à imolação, de sacrifício e de activa caridade fraterna.

A Igreja não precisa de excomungar os que, em nome dos interesses do Capital que servem, exploram o sangue e o suor dos operários. Já estão excomungados pelo Evangelho, que até condena os que comem e bebem, sem exploração nenhuma, mas simplesmente fechando o coraçãos aos sofrimentos e privações de irmãos:

“Ide, malditos, para o eterno fogo, porque tive fome e não me destes de comer, porque tive sêde e não me destes de beber, porque estava nu, enfêrmo e preso, e nem me vestistes nem me visitastes.”
“E quando te vimos, Senhor, faminto, cheio de sêde, enfêrmo ou nu, e te não socorremos?”
“Quando assim estavam os meus irmãos pequeninos e não lhes valestes.” ( Vidè Mat. XXV, 34…).

E S. João, na sua primeira Epístola, (cap. III, 17) é de uma clareza irrespondível:
“Se alguém tem riquezas dêste mundo, vê seu irmão a definhar em necessidade e lhe fecha as entranhas da compaixão, como é que vai pensar que tem a caridade de Deus em si?! Filhinhos, não amemos com palavras e de língua, mas por obras e verdade!”

Se é uma verdadeira impiedade, aos olhos de Cristo, retoiçar egoisticamente no supérfluo, quando outros definham na miséria, quanto mais horrível pecado, quanto maior crime verdadeiro crime! não será engrossar o supérfluo à custa do trabalhador que nos enriquece!

O Evangelho e os Apóstolos vão repetindo que digno é do seu salário (evidentemente salário completo, para a vida familial do operário que nos dá tôda a sua actividade grangeadora) todo aquele que trabalha. Mas S. Tiago, mais claro do que todos, diz-nos que o ratinhar o fruto do trabalho ao operário é crime que brada aos Céus: maldição que a Igreja arquivou nos catecismos do povo. Ouçamos S. Tiago:
“Eis que o salário do trabalho dos que ceifaram as vossas searas, e em que vós cometestes fraude, clama contra vós: e êste clamor entra pelos ouvidos do Senhor Sabaot. Banqueteastes-vos sôbre a terra e no luxo e na orgia cevastes vosso coração: mas foi para o dia da matança!” (Tiago, cap. V, vers. 4 e 5).

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Para defenderem o seu direito sagrado ao salário condigno, começaram por tôda a parte os operários a associar-se, a sindicar-se, para se impor.
Querer opor-se a essa fôrça nova que surge, seria maldade e amor da tirania, a não ser que fosse ingenuidade e esperança pueril de ver o capital deixar de ser feroz e interesseiro, duro, frio como o metal das suas libras, e vir por si mesmo levantar a miséria que o serve, tocado pela voz doce de Jesus ou pelos anátemas que Êle fulminou contra os ricos.

A Igreja de Jesus prega deveres aos ricos; mas vai dizendo aos pobres que contem antes consigo próprios. É o que Ela quere dizer com as bênçãos e o interêsse maternal com que acompanha, por tôda a parte, o sindicalismo cristão, a organização ordeira, sem ódios, sem ameaças, do trabalho e dos trabalhadores.

Os pequenos, na união que faz a fôrça, querem defender os seus interesses; mas defendem também os do mundo; porque a Plutocracia feroz, ou é trazida à razão pela fôrça ordeira da organização dos que trabalham, ou rebentará estrondosamente, fulminada pela vingança dos miseráveis, levados ao desespêro por um longo cativeiro e congregados entre si pela fôrça maior que há no mundo depois do amor: o ódio, ódio cego à sociedade que sancionou dureza e injustiças.

Padre Joaquim Alves Correia [Aguiar de Sousa, Paredes 1886 – Pittsburgh, USA 1951]
Missionário do Espírito Santo

in “A largueza do Reino de Deus – ou de como a intolerância e o despotismo são apenas variações do Anticristo proteiforme”
Imprensa da Portugal-Brasil, Rua da Alegria 100, Lisboa, 1931, pp. 90-93.

[Manteve-se toda a grafia; acentuação e gralhas, inclusivamente; reproduziu-se capa e página de rosto]


Fazer «o mal e a caramunha»: fazer o mal e querer passar por vítima, lamuriar-se (com lágrimas de crocodilo) sobre a vítima por si esmagada...





[1] L.I.A.M. – Liga Intensificadora de Acção Missionária, à data, dirigida pelo padre Lapa (Porto).
[2] Cf. «Cristianismo e Revolução», selecção de textos (de P. J. Alves Correia) de Anselmo Borges; prefácio de D. António Ferreira Gomes; Livraria Sá da Costa, 19771.

26 de fevereiro de 2013

OS MILAGRES EM JESUS [PIKAZA]

Profeta carismático

a vida dos homens

Crucifixão Branca, Marc Chagall


Apresentámos, no primeiro capítulo, Jesus como profeta escatológico, destacando dez características da Sua mensagem: do anúncio do Reino e das Bem-aventuranças até ao sinal da destruição do Templo e a promessa da chegada do Reino. A mensagem de Jesus manifestou-se em gestos carismáticos ou milagres de vida (‘graça’) a favor dos homens, nos quais Deus se torna transparente.


(Para melhor os entender, esbocemos uma distinção prévia: 1. MAGIA – Algumas pessoas viram Jesus como mago, homem vindo de tempos longínquos numa altura em que não eram conhecidos ainda os métodos e as formas do conhecimento racional e da actuação científica. Como um mago bom (ainda que, por vezes, perigosamente próximo da bruxaria e do demonismo), Jesus rapidamente se tornou famoso; no entanto, foi condenado pela autoridade oficial (esta, mais racional) feita de sacerdotes e soldados. No fundo, os seus juízes tinham razão: a magia de Jesus continuaria a manter-nos atados ao mundo do irracional, mundo cheio de caprichos sacrais. 2. CARISMA – significa dom gratuito. É a expressão duma presença de Deus, a qual supera o plano dos comportamentos mais racionais de uma sociedade organizada (tradicionais, burocráticos). Supera-os sem os negar, tal como Paulo, em 1Cor 12-14, o desenvolveu tematicamente. Jesus teria sido um carismático, um criador, que soube trazer a todos a sua própria capacidade transformadora, iniciando uma mutação (no sentido de Reino), isto é, reconciliação humana e esperança futura em gratuitidade, para lá do sistema. Outras palavras e símbolos se empregaram e se podem empregar para falar da acção criadora de Jesus: muitos chamaram-lhe taumaturgo, homem capaz de realizar prodígios inexplicáveis; outros, curador ou terapeuta, já que tinha poderes curativos que ajudavam os enfermos a viver; outros, médico de corpos e de almas. Estes termos irão aparecer ao longo deste meu texto.)


Dividiremos o tema em dois capítulos, conformes aos símbolos centrais (de mago e de carismático). 1. Muitos viram Jesus como um mago, em sentido geral. 2. Nós vê-lo-emos como carismático; para isso, evocaremos alguns elementos da sua prática de pura gratuitidade (Reino) ao serviço dos excluídos do sistema; terminaremos com algumas conclusões breves.


1.    Pano de fundo mágico – o milagre da comunicação

Alguns exegetas tomaram Jesus como mago: alguém que quebrou as normas convencionais da sociedade e, por isso, os que defendiam a ordem estabelecida sentiram-se ameaçados por Jesus. Em vez de Se apoiar no poder de Deus e nas leis racionais bem estabelecidas da sociedade sagrada do Seu tempo, apelou a forças aparentemente boas, mas que, ao cabo e ao resto, conduziam (ou podiam conduzir) à dissolução dessa mesma ordem estabelecida. Por isso, muitos o consideraram perigoso e preferiram matá-lo. É neste contexto que proporei três níveis de acção e de compreensão da realidade.

1. A magia queria, e quer, dominar o mundo servindo-se de certas forças ocultas, forças de tipo sagrado, que apenas alguns privilegiados sabem e podem manejar. Muitas vezes a não ser que o próprio sistema os ponha ao seu serviço e desse modo os controle (assim sucedeu da China a Roma, onde alguns acabaram por ser funcionários do próprio Estado)   os magos costumam ser perigosos para a ordem social quando esta não consegue controlá-los. Israel formulou a condenação mais extrema que se conhece da magia, em Dt 18:9-22. Foi essa a explicação que, alguns exegetas, como Klausner e Vermes, deram para a rejeição e a condenação de Jesus como mago, por parte dos sacerdotes israelitas.

2. O racionalismo pretende igualmente tomar conta da realidade, mas segundo o espírito do sistema, e, para isso, serve-se da ordem legal estabelecendo meios e fins religiosos (sacrais), filosóficos (racionais) ou científicos (técnicos) organizando, assim, o modo como o homem pretende dominar o mundo e o tipo de relação social que pretende. Neste quadro, a religião estruturada, o pensamento filosófico e a própria ciência surgem como momentos ou graus dum contínuo racional, estreitamente relacionados entre si e determinados pela vontade do sistema.

3. Existe um nível de gratuitidade ou de acção carismática que, sem o negar, supera a ordem da racionalidade e dalgum modo justifica o objectivo mais fundo da magia, ainda que num sentido muito distinto, no sentido do dom e da gratuitidade, contra qualquer forma de manipulação sagrada. Situada neste nível, a religião não pode ser interpretada como sistema legal: não pretende dominar o divino, nem organizar em bloco os diversos elementos da vida humana, mas apenas venerar o mistério da realidade. Pertence ao plano da oferta ou do milagre, ao plano da experiência de admiração face à vida que nasce como algo maior do que nós, sem outra justificação que ela própria, em cada nascimento superando todo o tipo de morte.

A distinção entre magia, racionalismo e gratuitidade é positiva e pode ajudar-nos a compreender, de um modo básico, o contributo de Jesus, profeta carismático. Digamos que o homem primitivo habitava um jardim mágico, vital ou animista, onde os acontecimentos se sucediam impulsionados por almas ou forças (deuses ou demónios) que habitavam nas coisas; porém, simultaneamente, existia nisso algum tipo de experiência religiosa do foro da gratuitidade. As grandes religiões, que surgiram durante o tempo axial (budismo, cristianismo, islão, etc.), parecem mais relacionadas com a ordem racional, aparentemente organizadas em moldes de sistema sagrado, ainda que, no fundo, possuam também um certo tipo de gratuitidade superior.[1]

Como se poderá ver, coloquei o racionalismo propriamente dito na área intermédia, ocupando uma extensa franja da realidade e estabelecendo um tipo de organização «legal» da experiência humana, utilizando meios (sacrais, filosóficos e técnicos) para a consecução de certos fins, suscitando um todo ou um sistema bem estabelecido, com ramificações ou aplicações de tipo económico, social, ideológico ou militar. Este racionalismo permitiu que a vida se expandisse através das grandes culturas (religiosas, filosóficas, científicas), mas, em si mesmo, ele é insuficiente para compreender a realidade, na medida em que existem níveis da experiência anterior ou pré-racional (magia-mística) e também posterior ou supra-racional (religião da gratuitidade), que definem o homem na sua máxima fundura. (…)


2. Aplicando e alargando. O testemunho de Marcos

O evangelho de Marcos, mais do que as palavras de Jesus, descreve os factos, mais do que os seus discursos, descreve os seus gestos carismáticos libertadores. É provável que isso tenha sido uma reacção de Marcos contra uma certa tendência gnóstica da fonte Q, a qual se centra quase exclusivamente nas revelações da sabedoria de Jesus. Contudo, também constituiu uma oposição contra milagres todo-poderosos próprios dos “homens do divino” (theioi andres), [dos ‘funcionários do sagrado’]. Terá sido por isso que apresentou os milagres de Jesus como sinal de debilidade criadora e como entrega amorosa, expressando o sentido da Sua morte pelos outros a fim de instaurar o Reino. Morrer para oferecer um caminho de diálogo e de comunicação a todos, oferecendo a vida aos pobres e excluídos: eis o seu mais alto carisma, a expressão da sua mística pessoal, o do seu encontro amoroso com os outros.

Segundo Marcos, Jesus não pretendeu criar um sistema religioso mais perfeito, nem expor uma filosofia universal a partir dos princípios da realidade, nem uma certa ciência mais exacta ou mais misteriosa. A quem o procurava ou o veio a procurar, apenas ofereceu uma experiência imediata com Deus, pondo Deus em contacto directo com eles. Este foi o Seu carisma, essa a sua tarefa: comunicar-se de modo imediato e sem imposição, dum modo poderoso e amante, para marginalizados e enfermos da sua proximidade, oferecendo-lhes a possibilidade de viver - abriu-lhes uma porta de esperança. É o que vamos tentar demonstrar evocando cinco milagres ou conjuntos de milagres. (...)

Xabier Pikaza [2003]

[19 pp.]




[1] Sendo assim, podemos acrescentar que apenas o racionalismo ocidental moderno, que surgiu com a Ilustração, superou, de modo organizado, a magia (rejeitando, assim, o nível da gratuitidade), e dirigindo os seus processos cognitivos e operativos numa linha de acção instrumental bem programada e avalizada por ideias muito claras e experiências técnicas. A interpretação histórica mais conhecida dos três estádios que se vão sucedendo segundo um esquema diacrónico de A. Comte (religião, filosofia e ciência), de algum modo, está por trás da minha divisão e oferece, sem dúvida, alguns contributos. Contudo, tende a esquecer um elemento essencial: a experiência da mística e da graça propriamente dita, que dalgum modo se pode relacionar com a magia, mas que eu fiz deslocar sobretudo para o terceiro momento (gratuitidade e carisma). Tal experiência não se pode transformar em sistema e, portanto, não pode entrar em nenhum dos três estádios de A. Comte, nem mesmo no racionalismo da área intermédia do meu esquema.


19 de fevereiro de 2013

POBRES: OBJECTO OU SUJEITO? [CASTILLO]

Os pobres e a Igreja






Introdução

Ninguém pode pôr em questão o interesse, a preocupação e o trabalho que a Igreja sempre teve com a causa dos pobres. Portanto, ignorá-lo, colocar isso em questão, não lhe conferir importância ou marginalizá-lo seria, antes de tudo, uma falsidade e, em segundo lugar, uma injustiça. A Igreja, desde os tempos dos primeiros cristãos, desde os Padres da Igreja, desde os grandes autores e os grandes crentes ao longo de toda a história do cristianismo nunca cessou de clamar a favor dos pobres, de rogar por caridade, inclusivamente de pedir que se faça justiça aos pobres. Isto é um facto que se impõe por si; existe abundante literatura. Ocorre-me neste momento um livro que muitos de vós conheceis: o livro de José Ignacio González Faus “Vigários de Cristo”, publicado pela editorial Trotta.[1] Aí tendes uma magnífica selecção de textos sobre o que os pobres significam para a Igreja selecção de textos desde os Padres da Igreja até à actualidade. Este livro remete para toda a abundante bibliografia que sobre este tema existe. Portanto: que este ponto fique, desde já, bem claro. Se o esquecemos, cometemos um erro muito grave. Dito isto, acrescentemos o seguinte, que é o que mais importa.

Se é indiscutível que a Igreja nunca cessou de clamar por caridade a favor dos pobres, se é verdade que não faltam santas e santos canonizados que se distinguiram pela sua entrega e generosidade para com os pobres, mesmo assim falar d’Os pobres e a Igreja é falar dum problema muito grave e que permanece por resolver. Porquê?

Enquanto os pobres foram objecto sublinho a palavra objecto   objecto da atenção da Igreja, objecto do interesse da Igreja para lhes fazer caridade, objecto para defender a justiça a favor dos pobres, enquanto eles foram objecto de tudo isso, eles não constituíram problema algum. Pelo contrário, esses, que tudo isso fizeram pelos pobres, foram elogiados e elevados aos altares. Um exemplo muito recente é o de Madre Teresa de Calcutá: a sua morte foi acontecimento mundial e já vai a caminho dos altares.


Os pobres como sujeito

Mas quando os pobres não se resignaram a ser simplesmente objecto do interesse da Igreja, mas quando pretenderam ser sujeito do pensamento da Igreja e das decisões da Igreja, então, surgiu um grande problema e uma grande preocupação. Enquanto os pobres foram meros objectos-receptáculo das atenções da Igreja, não se passou nada. No momento em que os pobres quiseram ser sujeito da Igreja (repito, sujeito do pensamento e sujeito das decisões na Igreja), as coisas complicaram-se.

Tudo isto aconteceu neste século XX, porque, tal como nos ensina a história da Igreja e da teologia, nos séculos XII e XIII, os movimentos anti-eclesiásticos   cátaros, albigenses, valdenses, pobres de livre arbítrio, todas aquelas pessoas que, na maioria dos casos, eram pobres que protestavam contra a corrupção do clero e que pretendiam dizer algo sobre a Igreja sabemos bem como eles terminaram: literalmente, na fogueira.

Como sabem, o Papa Inocêncio III iniciou a sangrenta perseguição desses grupos e conseguiu exterminá-los no sentido mais literal da palavra. O único resto que deles sobrou são grupos valdenses que em Roma têm umas quantas magníficas igrejas e que, hoje em dia, estão agregadas ao Conselho Mundial das Igrejas. A seguir, os pobres calaram-se, limitaram-se a receber esmolas e atenções. Sabemos que a seguir ao século XVIII surge o movimento operário. Mas isso é um acontecimento que não pertence à história do cristianismo, mas à história da sociedade. Logo de seguida veio a condenação, à labúrdia, de todos esses movimentos sociais por parte do Papa e dos Bispos.

Dentro da Igreja, a questão só se colocou a partir do concílio Vaticano II. A partir da conferência de Medellín, surge a Teologia da Libertação, na qual os pobres tomam a palavra e pretendem tomar decisões; depois sugiram outros grupos, concretamente, o vosso caso: os CPS – cristãos pelo socialismo. Conhecemos todos a sua origem e desenvolvimento. Todos sabemos qual foi a atitude das autoridades centrais da Igreja face à teologia da libertação e face a grupos como o vosso. A reacção foi colocar entraves, foi rejeitar e elaborar condenações mais ou menos dissimuladas para que não tivésseis audiência pública. Isto quer dizer que a Igreja (custa dizê-lo, mas há que dizê-lo), isto quer dizer que a Igreja tem medo dos pobres. Trata-se dum medo profundo, do qual muitos dos que ocupam cargos de representatividade da Igreja não têm consciência. Atenho-me a factos, para dizer que há medo e um medo muito profundo, por vezes inconsciente, outras inconfessado e inconfessável.

Na Igreja há medo que os pobres pensem, que falem e, sobretudo, que tomem decisões. Na parte final desta minha comunicação explicarei onde reside a raiz mais funda deste medo. Entretanto, a modo de exemplificação e para, dalguma forma, desenterrar este medo aos pobres, e em geral às vítimas do sistema dominante, causador de tanto sofrimento e de tanto derramamento de sangue no século que agora finda, limito-me a três comportamentos eclesiásticos que, só por si, são eloquentes.

Em primeiro lugar, o silêncio, em segundo a legitimação e em terceiro a colaboração.


Primeiro: o silêncio

Com demasiada frequência, diante de situações de sofrimento dos mais desamparados, a Igreja oficial optou pelo silêncio. No dia em que se fizer a história deste século e a história do comportamento da Igreja durante este século haveremos de deparar com realidades inimagináveis. Pensem, por exemplo, no que consistiu o silêncio da Hierarquia espanhola durante a ditadura de Franco: silêncio diante da tanto assassinato, de tanta tortura, de tanto atropelo aos direitos humanos, de tanta agressão a pessoas que pediam justiça e liberdade. Somente para os tempos derradeiros, quando era já evidente o fim do ditador, alguns bispos começaram a tomar atitudes mais críticas; surgiu, então, o grito “Tarancón al paredón”[2]; mas isto já foi bem em cima do fim da ditadura. A ditadura durou 40 anos e a atitude inicial da Igreja foi a de dizer que a ditadura era uma cruzada e que o ditador era o Messias salvador da pátria.

Recordemos o silêncio da Igreja diante das atrocidades de Hitler e do nazismo. Em Roma sabia-se o que se estava a passar nos campos de concentração. Acabou de sair, em Londres, um livro sobre Pio XII, que irá dar muito que falar. O seu autor quis escrever uma biografia de Pio XII numa linha elogiosa desse Papa. Dirigiu-se para Roma e, aí, um jesuíta, o padre Gumpel, que é o delegado para as causas da beatificação e canonização de jesuítas, estava também encarregado da causa de Pio XII, a quem a Igreja queria canonizar. O padre Gumpel tinha em seu poder o arquivo secreto de Pio XII. O autor inglês apresentou-se ao padre Gumpel e disse-lhe: “Por favor, eu gostaria de escrever um livro, uma biografia elogiosa de Pio XII.” Não o disse com má intenção, ou seja, de modo a ludibriar, a enganar o padre Gumpel. Fê-lo com a melhor das intenções – ele de facto queria escrever uma biografia elogiosa do Papa Pio XII. Gumpel colocou à sua disposição todo o arquivo: o autor fotocopiou cerca de 600 documentos. O título do livro é “Hitler’s Pope’, O Papa de Hitler, já que na documentação descobrira factos que ninguém conhecia nem esperaria encontrar. Em primeiro lugar, descobriu o anti-semitismo de Pio XII. Em segundo lugar, a estreita relação com o nazismo, por antes o Cardeal Giovanni Pacelli (depois, Pio XII) ter sido núncio na Alemanha.

A mim custa-se muito aceitar que Pio XII não estivesse ao corrente do que estava a acontecer na Alemanha. No entanto, aconteceu toda a barbárie que sabemos que aconteceu e Roma … nem uma palavra sobre o genocídio! Houve silêncio. Há silêncios mais eloquentes que discursos. Refiro o silêncio do Vaticano sobre os crimes de genocídio de Hitler. Mencionemos, também, o silêncio dos núncios e do Vaticano diante das atrocidades que as ditaduras de direita cometeram por todo o mundo, concretamente na América Latina. Sabe-se, por exemplo, que o Cardeal Laghi era amigo dos generais da Argentina ao ponto de jogar ténis com eles…


Segundo: a legitimação

Hoje temos a sorte de ter entre nós François Houtart, um dos primeiros nomes da sociologia das religiões. Todos vocês sabem que a função da religião é legitimar as instituições públicas, concretamente suas actuações e suas narrativas. Isso acarreta um reconhecimento do poder constituído e, naturalmente, realiza a legitimação desse mesmo poder diante da opinião pública e diante da sociedade. Não vou apresentar nenhuma novidade. Apenas sumariar a (…)

José Maria Castillo, sj

[11 pp.]






[1] Edição castelhana esgotada. Ainda existe, no Brasil, em alfarrábios– em sêbos – alguns exemplares em português do Brasil.

17 de fevereiro de 2013

OPÇÃO NÃO-PREFERENCIAL PELOS POBRES [VIGIL]

A Opção pelos Pobres é «Opção pela Justiça»,
(e não é Preferencial)

Para um reenquadramento teológico-sistemático
da
«Opção pelos Pobres»


Os pais da «Teologia da Libertação»



Situação da questão

Sempre dissemos que a Opção pelos Pobres se fundamenta em Deus mesmo, no ser de Deus, e tem, portanto, natureza “teocêntrica”.[1] De alguma maneira, podemos dizer que o próprio Deus é quem faz a opção pelos pobres - Deus “é” opção pelos pobres. Era um consenso universalmente sentido que esta Opção pelos Pobres se baseava, precisamente, no Amor-Justiça do Deus bíblico e cristão.[2]

Entretanto, com o advento da “crise da Teologia da Libertação”, alguns autores suavizaram o seu discurso sobre a “Opção pelos Pobres”, preferindo abandonar a perspectiva do Amor-Justiça,[3] substituindo-a quase completamente pela da “gratuitidade” de Deus como fundamento da Opção pelos Pobres. Neste novo posicionamento, Deus, simplesmente “prefere” os pobres, tem uma “fraqueza” misericordiosa, uma “ternura” incontida para com eles, e não é preciso procurar muitas razões para esse facto, precisamente porque é “gratuito”.

A Opção pelos Pobres resultaria numa espécie de “capricho” de Deus para com os “pequenos”, os “fracos”, os “insignificantes”. É destes que hoje se deveria falar, e já não mais dos “pobres” no sentido forte[4] do discurso clássico, o qual hoje estaria já ultrapassado. A própria teologia da Opção pelos Pobres deveria desvincular-se do tema forte da justiça e ser adjudicada ao tema suave da gratuitidade.

A minha tese é (…)


José María Vigil

[14 pp.]






[1] “Digamo-lo com clareza: a razão última dessa opção está no Deus em quem cremos. (...) Trata-se, para o crente, de uma opção teocêntrica, baseada em Deus”. G. GUTIÉRREZ, “El Dios de la Vida”, Christus 47(1982)53-54, G. GUTIÉRREZ, La fuerza histórica de los pobres, Lima, 1980, pp 261-262.

[2] Apesar de ser uma obviedade, ver a tese doutoral de J. LOIS, Teología de la Liberación: opción por los pobres. Madrid: IEPALA 1986. Aí se estuda a Opção pelos Pobres em vários dos principais teólogos da libertção do período clássico.

[3] Um caso claro pode ser o de Gustavo GUTIÉRREZ. Numa palestra pronunciada diante de Ratzinger, afirma: “A temática da pobreza e da marginalização convida-nos a falar de justiça e a ter presentes os deveres do cristão a respeito. Na verdade é assim, e esse enfoque é sem dúvida fecundo. Mas não se deve perder de vista o que faz que a opção preferencial pelos pobres seja uma perspectiva tão central. Na raiz dessa opção está a gratuidade do amor de Deus. Este é o fundamento último da preferência”. A partir desse momento, já não volta a aparecer a palavra “justiça” na sua dissertação e toda a Opção pelos Pobres gira em torno à “gratuidade”. Cf. G. GUTIÉRREZ, Una teología da liberación en el contexto del tercer milenio, in VÁRIOS, El futuro de la reflexión teológica en América Latina. Bogotá: CELAM, 1996, p. 111. Não se trata de um texto isolado, mas sim, na minha modesta opinião, de uma perspectiva suavizada comum na teologia da Opção pelos Pobres de G. Gutiérrez já há mais de uma década; cfr. G. GUTIÉRREZ, Pobres y opción fundamental, in  Mysterium Liberationis, San Salvador, UCA Editores, 1991, pp. 303ss, 310.

[4] Pobres que eram uma realidade “coletiva, conflitiva e socialmente alternativa”: C. BOFF, ¿Quiénes son hoy los pobres, y por qué?, in J. PIXLEY / C.BOFF, Opción por los pobres, Madrid: Paulinas, 1986, pp. 17ss.