teologia para leigos

25 de janeiro de 2013

MINHA VIDA: BOA-NOVA P/ OS POBRES? [VIGIL]

A BOA NOTÍCIA



Chegamos a Nazaré, ao povoado onde Jesus havia sido criado. Eu fiz a viagem com ele desde Cafarnaum. Era sábado, dia de descanso. Na primeira hora da manhã os nazarenos apertavam-se na pequena e dividida sinagoga. Os homens vinham envoltos nos seus mantos de listas negras e brancas. Alguns entravam mascando tâmaras para matar a fome, embora isso fosse proibido. As mulheres ficavam à parte, segundo o costume, atrás da grade trançada. Ali, entre as demais aldeãs, estava também Maria, a mãe de Jesus.

Todos: “Escuta Israel / o Senhor é nosso Deus / só ele é o Senhor. / Amarás o Senhor teu Deus / com todo o teu coração / com toda a tua alma e com toda a tua força. / Fiquem gravadas estas palavras que eu te mando hoje...”

Começávamos a cerimónia rezando em coro a oração da manhã. Depois vinham as dezoito preces rituais. Quando chegou o momento da leitura, o velho rabino fez um sinal para Jesus, que estava ao meu lado. Jesus abriu passagem entre os seus vizinhos e aproximou-se do estrado onde estavam guardados os livros santos... Um jovem abriu a caixa de madeira de sândalo e tirou os pergaminhos. Naqueles rolos estava escrita, em letras vermelhas e pretas, a Lei de Deus. Era a Santa Escritura onde os sábios de Israel, ao longo de mil anos, haviam esquadrinhado cada palavra, detrás de cada sílaba, a vontade do Senhor. Jesus tomou o livro do profeta Isaías. Desenrolou o pergaminho, levantou-o ao alto com as mãos e começou a ler aos tropeções, como lêem os camponeses que não tiveram muita escola...

Jesus: “O espírito do Senhor está sobre mim. O Espírito do Senhor me chamou e me envia aos pobres para dar-lhes a boa notícia que tanto esperam: a sua libertação! Os corações feridos serão curados, os escravos sairão livres, os presos verão a luz do sol. Venho apregoar o Ano da Graça do Senhor, o Dia da Justiça do nosso Deus: para consolar a todos os que choram, para pôr sobre suas cabeças humilhadas uma coroa de triunfo, vestidos de festa em vez de roupa de luto, cantos de vitória em vez de lamentações.”

Jesus acabou de ler. Enrolou o pergaminho, devolveu-o ao ajudante da sinagoga e sentou-se em silêncio. Todos tínhamos os olhos cravados nele, esperando o comentário daquelas palavras. Jesus também parecia esperar alguma coisa. Com a cabeça entre as mãos, notava-se que estava muito nervoso. Ficou assim alguns momentos. Depois pôs-se em pé e começou a falar...

Jesus: “Vizinhos ... eu ... eu ... na verdade, eu não sei falar diante de tanta gente... Perdoem-me se... se não sei falar como os sacerdotes ou os doutores da Lei... Bem, eu sou um camponês como vocês e não tenho muitas palavras... De qualquer modo, eu agradeço ao rabino por me convidar para comentar a Escritura...”

Rabino: “Não fiques nervoso, rapaz! Diz qualquer coisa que te ocorra. E depois, conta-nos um pouco o que aconteceu em Cafarnaum, aquela história do leproso... as pessoas andam a dizer muitas coisas estranhas...”

Jesus: “Bem, vizinhos, eu queria dizer-lhes que... que estas palavras do profeta Isaías são... são algo muito grande. Estas mesmas palavras eu ouvi-as do profeta João lá no deserto. João dizia: «Isto vai mudar. O Reino de Deus aproxima-se». E eu pensava: sim, Deus traz algo entre as mãos, mas... mas o quê? O que é que tem de mudar...? Por onde começa o Reino de Deus?... Não sei, mas agora, quando acabo de ler estas palavras da Escritura, parece-me que compreendi do que se trata.”

O cheiro de suor dos nazarenos misturava-se com o incenso queimado e quase não se podia respirar. O ar quente da sinagoga começou a tomar conta de tudo. Jesus também suava muitíssimo...

Jesus: “Vizinhos... escutem-me... eu... eu... anuncio-vos uma alegria muito grande: a nossa libertação. Nós os pobres, temos passado a vida dobrados sobre a terra, como animais. Os grandes puseram-nos um jugo muito pesado sobre os ombros. Os ricos têm-nos roubado o fruto do nosso trabalho. Os estrangeiros apoderaram-se do país e até os sacerdotes se passaram para o lado deles e ameaçam-nos com uma religião feita de leis e de medo. E assim estamos, como nossos avós no Egipto, nos tempos do Faraó. Temos comido um pão amargo, temos bebido já muitas lágrimas. E tantas pancadas nos deram que chegamos a pensar que Deus já se esqueceu de nós. Não, vizinhos, o tempo cumpriu-se e o Reino de Deus está perto, pertíssimo.”

O velho Ananias, dono do lagar e do moinho de azeite, dono das terras que marginavam a colina de Nazaré e se estendiam até Caná, levantou o seu bastão como se fosse um longo dedo acusador:

Ananias: “Escuta aqui, rapaz, filho da Maria, que loucura é essa que estás a dizer? Queres explicar-me o que é que tem de mudar? A quem te estás a referir?”

Jesus: “Tudo tem que mudar, Ananias. Deus é um pai e não quer ver os seus filhos tratados como escravos, nem mortos de fome. Deus pega o nível, como o pedreiro, para nivelar o muro: nem ricos, nem pobres, todos iguais; nem faraós nem escravos, todos irmãos; Deus desce do andaime do céu e põe-se do nosso lado, os espezinhados deste mundo. Não ouvimos sempre dizer que Deus ordenou o Ano da Graça? Não acabamos de escutar isso?... Deus quer que a cada cinquenta anos haja um ano de trégua. Que a cada cinquenta anos se rasguem todos os títulos de propriedade, todos os papéis de dívidas, todos os contratos de compra e venda. E que a terra seja dividida em partes iguais entre todos. Porque a terra é de Deus, e de Deus também tudo o que existe nela. Que não haja diferenças entre nós. Que a ninguém sobre e a ninguém falte. Isso foi o que Deus ordenou a Moisés há mil anos, e no entanto está à espera porque ninguém o cumpriu. Nem os governantes, nem os proprietários de terra, nem os usurários quiseram cumprir o Ano da Graça. E já é hora de que ele se cumpra!”

Todos estávamos em silêncio, com a boca aberta, assombrados de quão bem se expressava o filho do operário José, o filho da camponesa Maria...

Um vizinho: “Essas palavras soam bonitas, Jesus. Mas com palavras não se come. «Libertação, libertação...!» Mas, para quando, diga-me, para a outra vida, para depois da morte...?

Jesus: “Não, Esaú. Na outra vida seria muito tarde. O Ano da Graça é para esta vida. O Reino de Deus começa nesta terra.”

Outro vizinho: “Quando então? Quando os ricos amolecerem o coração e repartirem connosco o dinheiro que têm acumulado?”

Jesus: “As pedras não se amolecem por dentro, Simeão. Faz falta um martelo.”

Suzana: “Quando então, Jesus, quando é que se vai cumprir essa profecia que você acaba de ler?”

Jesus: “Hoje, Suzana. Hoje mesmo. Hoje vamos começar. Claro que não é luta apenas para um dia. Uma rocha não se rompe com uma martelada só. Talvez passemos outros mil anos como Moisés. Ou dois mil. Mas nós também cruzaremos o Mar Vermelho e seremos livres. Hoje pomo-nos em marcha!”

Jesus já não tremia. Com as suas duas mãos, grandes e calejadas, agarrou-se fortemente à borda do estrado e respirou fundo como quem toma impulso para dar um salto... Ia dizer algo importante.

Jesus: “Eu queria dizer-lhes... Eu sinto na minha garganta, apertadas como flechas na mão de um guerreiro, as vozes de todos os profetas que falaram antes de mim, desde Elias, aquele valente do Carmelo, até ao último profeta que temos visto entre nós: João, filho de Zacarias, a quem aquela raposa do Herodes mantém preso em Maqueronte. Vizinhos, a paciência de Deus esgotou-se! Esta Escritura que vos acabo de ler não é para amanhã: é para hoje. Vocês não percebem? Está-se a cumprir diante de vocês.”





O velho rabino coçou o cocuruto com ar preocupado...

Rabino: “O que é que tu queres dizer com isso de que se está a cumprir diante dos nossos olhos? Diante dos meus olhos eu tenho o Livro Santo da Lei, bendito seja o Altíssimo. E junto do Livro estás tu, a comentar o que leste nele.”

Jesus: “Eu faço minhas as palavras que estão escritas neste Livro... Perdoem se lhes falo assim, vizinhos, mas...”

Jesus deteve-se. Olhou-os a todos lentamente como que pedindo permissão para dizer o que ia dizer...

Jesus: “Quando o profeta João me baptizou no Jordão, eu senti que Deus me chamava para proclamar esta boa notícia. E por isso, eu quero hoje...”

Um vizinho: “Toma cuidado com o que dizes, Jesus! Quem pensas que és? Do modo como falas parece que te estás a comparar com o profeta Elias e com João o baptizador!”

Jesus: “Eu não me comparo com ninguém. Eu só anuncio a libertação para nós, os pobres.”

Um ancião, com uma dupla corcunda como os camelos soltou uma gargalhada!

Um velho: “Médico, cura-te a ti mesmo!”

Jesus: “Por que me diz isso de médico cura-te a ti mesmo?”

Velho: “Como por quê? Porque se nós estamos mal, tu estás pior!... De que miséria é que nos vai tirar, se tu és o maior esfarrapado de Nazaré? Olha a tua mãe aí, atrás da grade... Vamos, dona Maria, não se esconda, que todos a conhecemos aqui. E teu pai José, que descanse em paz, quem foi? Um pobre diabo como todos nós. E olha aqui teus primos e tuas primas... Pelos cabelos de Abraão, de que é que tu vai livrar-nos se não tens nem um tostão no bolso?”

Uma vizinha: “Eu acho que a droga subiu à cabeça desse moreno!”
Rabino: “Esperem, irmãos, deixem-no falar. Deixem-no falar!”
Vizinho: “Chega de palavreado! Faz um milagre!”
Vizinha: “Isso mesmo, um milagre!”
Vizinho: “Conta-nos o que aconteceu em Cafarnaum! Se é que aprendeste alguma bruxaria para limpar leprosos e curar as viúvas com febres ruins!”
Vizinha: “Foi você, dona Maria quem ensinou seu filho a fazer esses truques?”
Rabino: “Um momento, um momento!... Jesus, tu estás a ouvir o que eles dizem? Eles têm razão, filho! Tu vens falar-nos de libertação? Começa aqui no teu lugarejo, pois uma boa caridade começa em casa.”
Vizinho: “Se tu curaste os leprosos de Cafarnaum, cura os daqui!”
Vizinha: “Vamos, de que estás à espera?... Olha como tenho as pernas cheias de feridas!...”
Jesus: “A história repete-se, vizinhos. A história repete-se. Nos tempos do profeta Elias havia muitas viúvas necessitadas, mas Elias foi enviado à cidade de Sarepta, uma terra estrangeira. E nos tempos de Eliseu havia muitos leprosos em Israel e o profeta curou a Naaman o sírio, que também era um estrangeiro.”

Vizinho: “Ei, espera: o que estás a querer dizer com isso?”
Jesus: “Nada, somente que o mesmo sempre se repete. Que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Está bem, eu vou de volta para Cafarnaum.”

Os nazarenos começaram a vaiar e a assobiar Jesus...

Vizinho: “É melhor que tu te voltes mesmo para Cafarnaum... Nunca se viu charlatão maior que tu...”

Todos: “Charlatão!... Embusteiro!... Tirem-no daí!... Fora, fora!...”

Os homens com os punhos fechados, lançaram-se sobre o estrado onde estava Jesus, enquanto as mulheres gritavam por trás da grade. A barafunda tinha começado e as velhas pedras da Sinagoga estremeceram com a gritaria dos Nazarenos.


Comentários

Em Nazaré, na aldeia onde tinha sido criado, Jesus faz a primeira proclamação pública da boa notícia que Deus anuncia aos pobres. Neste texto aparece, sobre a base duma promessa feita setecentos anos antes pelo profeta Isaías, um resumo do que será a vida de Jesus e do que é, em essência, o Evangelho: Libertação para os oprimidos.

Esta é uma passagem básica e central para a compreensão da fé cristã. Na actual Nazaré, conserva-se uma pequena sinagoga construída sobre os restos da do tempo de Jesus. Aquela deve ter sido uma construção ainda menor da que vemos hoje, pelo fato de a aldeia ter tão poucos habitantes. Como todas as sinagogas, estava orientada de tal forma que, ao rezar, o povo olhava para o Templo de Jerusalém, centro religioso do país.

Na sinagoga, as mulheres não se misturavam com os homens. A elas estava destinado um lugar separado por uma grade. Tampouco na sinagoga as mulheres podiam ler em público as Escrituras nem fazer seu comentário.

Quando o povo se reunia aos sábados na sinagoga começava a oração sempre com a recitação da “Shemá” (“Escuta, Israel...”, Dt 6,4-9), uma das preces preferidas da piedade judaica. Depois vinham outras 18 preces rituais que precediam a leitura das Escrituras. O lugar mais sagrado da sinagoga encontrava-se na parede que se orientava para Jerusalém. Ali se guardavam os pergaminhos da Thora (Lei), onde estavam escritos os livros que hoje lemos na Bíblia (Antigo Testamento). Não eram livros como os actuais, mas pergaminhos enrolados. Eram guardados em caixas de madeira lavradas artisticamente. Jesus, como todos os israelitas de seu tempo, falava em aramaico. O aramaico é uma língua do mesmo tronco linguístico que o hebraico, e ainda é falado em algumas aldeias da Síria. Era utilizado em todo o país de Israel como língua familiar e popular desde uns cinco séculos antes do nascimento de Jesus. A partir daquela época, o hebraico limitou-se a ser a língua dos doutores da Lei.

Em hebraico também se escreviam as Escrituras. O rolo em que Jesus leu na sinagoga era escrito em hebraico. Daí a dificuldade de Jesus, nada familiarizado com essa língua culta e, como camponês, homem de pouca leitura. O costume era que qualquer dos homens presentes na sinagoga lesse um fragmento da Escritura e depois o comentasse segundo a sua inspiração, diante dos conterrâneos. Essa era uma missão dos leigos, não exclusiva dos rabinos.

O texto que Jesus lê e comenta é Isaías 61,1-3. A decisão com que Jesus fala do Reino de Deus, da libertação, incomoda os seus vizinhos, que nem aceitam nem podem acreditar que um pobre coitado saído de entre eles possa vir libertá-los de alguma coisa. É muito frequente que tenhamos resistência em admitir como “salvador” alguém próximo, simples e busquemos sinais grandiosos, salvadores que venham de fora, que sejam extraordinários, superiores, diante de quem rendamos admiração.

Mas o plano de Deus é o contrário. Ele revela-se no mais pobre, no mais humilde. O ano da Graça era uma instituição legal muito antiga que remontava aos tempos de Moisés. Chamava-se também Ano do Jubileu, porque era anunciado pelo toque de um instrumento chamado, em hebraico, “yobel”.

Esse Ano da Graça devia cumprir-se a cada cinquenta anos. Ao chegar essa data, as dívidas deviam ser anuladas, as propriedades adquiridas deviam voltar aos seus antigos donos (com a finalidade de evitar acumulações excessivas), os escravos deviam ser postos em liberdade. Essa lei era uma forma de proclamar que o único dono da terra é Deus. E do ponto de vista social essa lei ajudava a manter unidas as famílias com um património suficiente para uma vida digna.

Era também um memorial da igualdade original que havia quando os filhos de Israel chegaram à Terra Prometida, quando nada era de ninguém e tudo era de todos (Lv 25, 8-18). No mesmo sentido ia também o Ano Sabático, que devia ser celebrado a cada sete anos.

Estas instituições legais eram entendidas como leis de libertação. Assim o proclama Jesus. E, fiel à tradição de seu povo, Jesus refere-se ao Ano da Graça como ponto de partida para iniciar uma mudança urgente no país, dada a grande diferença que existia entre pobres e ricos. Em Nazaré, na sinagoga do seu povoado, Jesus dá um passo importante na maturação da sua consciência. Ao aplicar a si mesmo a frase de Isaías “O espírito do Senhor está sobre mim” era uma forma de reconhecer-se profeta na linha de todos os profetas que o haviam precedido.

Depois da ressurreição, a Igreja Primitiva acumulou sobre Jesus títulos para descrever a sua missão: “Senhor”, “Filho de Deus”, “Cristo”... A história a que recorrem os evangelhos deixa ver, no entanto, que o título com que foi aclamado unanimemente pelo povo, e por seus discípulos, foi o de profeta.

O profeta define-se em oposição à instituição. Jesus não deve ser considerado como um teólogo ou mestre profissional. Mesmo que Ele fosse um mestre mais radical do que os demais, estaria enquadrado pela instituição. Não podia sê-lo. Faltava-lhe o que os mestres do seu tempo tinham - os estudos teológicos. A formação dos mestres era rigorosa, durava muitos anos, começava desde a infância.

Quando denominaram Jesus de “rabi” (mestre, senhor) estavam a aplicar a ele um tratamento que no seu tempo era familiar e corrente e que não deve ser traduzido como mestre no sentido de teólogo. Pelo contrário: Jesus foi acusado de ensinar sem ter autoridade (Mc 6,2). Quando fala na sinagoga não o faz tampouco como teólogo ou como mestre, mas como profeta leigo.


Jose Ignacio, Maria Lopez VIGIL

(cf. Mateus 13, 53-58; Marcos 6,1-6; Lucas 4,16-28)
 




clicar:«HOJE CUMPRIRAM-SE AS ESCRITURAS», por J A Pagola

24 de janeiro de 2013

ORAÇÃO-TESTEMUNHO: O EVANGELHO DOS POBRES [ARRUPE]

Padre Arrupe sj
no Brasil de D. Hélder


Rio de Janeiro



Não sendo a Europa a principal preocupação do padre Arrupe (…), este empreendeu em Abril de 1968 mais uma viagem importante à América Latina, desta vez ao Brasil, onde esteve um mês.

No meio da pobreza e das lacerantes injustiças sociais do Noroeste, movimentava-se um pequeno bispo de olhar doce e batina puída, a quem várias vezes tinham assaltado a casa e cujo secretário fora assassinado. Era D. Hélder Câmara, o Bispo Vermelho, uma pessoa cuja mentalidade não diferia muito da do padre Arrupe. No Brasil, país quase tão grande como a Europa, preparava-se o terreno para as famosas comunidades de base [CEB’s] e a corrente que seria conhecida como teologia da libertação.

À chegada ao Brasil, ainda no aeroporto, Arrupe falou do imenso potencial do país. Aqui passou uma semana reunido com os provinciais da América Latina, para estudo e reflexão. Depois, Arrupe e os provinciais dirigiram uma importante Carta aos Jesuítas latino-americanos em que voltava a exprimir com clareza o seu pensamento.

A carta começava por constatar a situação de injustiça que assolava o continente americano. «As populações urbanas e rurais crescem em ritmo acelerado e as indígenas são alvo de discriminação racial. Tanto os que se opõem às transformações inovadoras, necessárias, como os que desesperam de soluções pacíficas, alimentam uma dialéctica de violência». A seguir referiam-se à época em que viviam como sendo um momento da história da salvação, e acrescentavam: «Por isso, queremos dar prioridade a este problema da nossa actividade apostólica; mais ainda, queremos conceber a totalidade do nosso apostolado em função dele.» Para isso, diziam-se dispostos a trabalhar com quem quer que fosse, independentemente de ideologias e de regimes políticos, para uma sociedade mais justa, mais livre e mais pacífica. Conscientes da profunda renovação que isto pressupunha, reconheciam que era preciso romper com algumas atitudes do passado e confessavam querer evitar qualquer atitude de isolacionismo ou de dominação. «Queremos adoptar na sociedade uma atitude de serviço à Igreja, rejeitando a imagem de autoridade que frequentemente nos é atribuída».

Aparecia depois a palavra-chave: libertação. «As nossas acções devem ter por objectivo a libertação dos indivíduos de qualquer forma de servidão ou opressão. Queremos que os nossos esforços convirjam para a construção de uma sociedade em que as pessoas estejam integradas e na posse de todos os seus direitos de igualdade e liberdade, não apenas políticos, mas também culturais e religiosos.»

Na Carta referia-se ainda a renúncia a atitudes típicas das classes privilegiadas e às relações preferenciais dos jesuítas com as mesmas. Os provinciais, conscientes da inevitabilidade das reacções que esta prática suscitaria, diziam: «Não as provocaremos com atitudes sectárias, mas continuaremos a pregar o evangelho dos pobres, qualquer que sejam as reacções», e comprometiam-se a promover transformações arrojadas que renovassem radicalmente as estruturas, rejeitando atitudes violentas, que não são legítimas se se inspiram na utopia, na frustração e no ódio e não na reflexão e no amor cristão. O documento continuava propondo medidas concretas, como, orientar o apostolado para a massa enorme e crescente de desamparados, animar e aperfeiçoar as acções educativas em favor da promoção dos mais desfavorecidos, dar testemunho de pobreza e empenhar os alunos nas questões sociais, despojando-os de objectivos individualistas com que desejassem ser educados.

No fim, os Provinciais diziam estar conscientes de que esta renovação não podia ser concluída a curto prazo.

A Carta dos Provinciais jesuítas da América Latina correu como um rastilho de pólvora pelos telexes e foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação. (…) Arrupe aproveitou a ida ao Brasil para visitar vinte cidades. (…)



favela... a Betânia de Jesus!



Mas nas viagens, Arrupe nunca se ficava pelos contactos oficiais e pelos contactos com os jesuítas. Da sua experiência no Brasil há este eloquente testemunho:

«Há alguns anos, quando visitava uma província de jesuítas na América Latina, fui convidado a celebrar missa num dos lugares mais pobres da zona, uma favela em que viviam cerca de cem mil pessoas. Viviam no meio da lama, já que a favela ficava num vale que alagava sempre que chovia…

«A missa foi celebrada numa espécie de abrigo em mau estado e sem porta, com cães e gatos a entrar e a sair. A eucaristia começou com cânticos, acompanhados por um guitarrista que não era exactamente um virtuoso. Mas o resultado era maravilhoso. O cântico repetia: “Amar é dar-se… Como é belo viver para amar e como é grande ter para dar”. À medida que o cântico progredia eu sentia um nó a crescer-me na garganta. Tive de fazer um grande esforço para continuar a missa. Aquela gente, que parecia não ter nada, estava disposta a dar-se, a transmitir a alegria e a felicidade. Quando ergui a hóstia para a consagração, percebi, no meio de um imenso silêncio, a alegria do Senhor quando está entre os que ama. Jesus disse: “Fui enviado para pregar a boa nova aos pobres” e “felizes os pobres”…

«Enquanto dava a comunhão, ia observando aqueles rostos secos, duros, queimados pelo sol, em que havia lágrimas a rolar como pérolas. Acabavam de se encontrar com Jesus, o seu único consolo. As minhas mãos tremiam.

«A homilia foi curta e consistiu sobretudo num diálogo. Contaram-me coisas que não seriam ditas em discursos importantes, coisas simples, mas profundas e sublimes, coisas humanas. Uma velhinha disse-me: “O senhor é o superior destes padres, não é? Pois então, mil vezes obrigada. Vocês, jesuítas, deram-nos este grande bem que tanta falta nos fazia, a missa.” Um miúdo disse: “Padre, saiba que estamos muito agradecidos a estes padres por nos terem ensinado a amar os inimigos. Há uma semana arranjei uma faca para matar um rapaz que detestava. Mas, depois de ouvir o padre a pregar o evangelho, em vez de o matar ofereci-lhe um gelado.”

«No fim, um tipo corpulento, com ar de delinquente e que quase metia medo, disse-me: “Venha a minha casa, tenho um presente para si.” Fiquei indeciso, mas, o jesuíta que estava comigo, disse: “Vá, padre, é gente muito boa”. Então, fomos a casa dele, uma barraca estragada, onde me convidou a sentar numa cadeira desengonçada. Aí sentado, eu podia ver o pôr-do-sol. O matulão disse-me: “Veja, senhor, que bonito!” Ficamos em silêncio alguns minutos. O Sol desapareceu. Então, o homem disse: “Não sabia como havia de agradecer tudo o que fazem por nós, não tenho nada para dar, mas pensei que gostaria de ver o pôr-do-sol. Gostou, não gostou? Adeus”. E estendeu-me a mão. Na ida, pensei: “Não é fácil encontrar um coração assim." Já ia a sair da viela quando uma mulher, muito pobremente vestida, se aproximou e me beijou a mão. Olhou para mim, emocionada, e disse: “Padre, reze por mim e pelos meus filhos. Também assisti à missa tão bonita que o senhor celebrou. Devo voltar para casa, mas não tenho nada para dar aos meus filhos… Reze por mim, que ele há-de ajudar-nos.” E correu para casa.

«As coisas que aprendi naquela missa com os pobres! Que diferença das grandes recepções dadas pelos poderosos!»[1]


A viagem [ao Brasil] foi um sucesso. Na volta, Arrupe fez escala em Porto Rico, e esteve hora e meia no aeroporto em Barajas, que serve Madrid. Aqui, em conversa com os jornalistas, falou da falta de fé e da necessidade de pessoas, de verdadeiros intelectuais, que reflectissem sobre a época que se vivia e principalmente sobre o Terceiro Mundo. Recordando uma pergunta que lhe tinham feito em Porto Rico, disse que a promoção humana bem entendida, naturalmente enformada pela caridade, tem um valor apostólico de primeira categoria e é um aperfeiçoamento da obra da redenção.[2] (…)








Arrupe confessa que, por volta de 1973, viu uma nova luz na sua vida. “Naquele ano vi claramente que uma coisa completamente nova estava a começar. Estava intimamente seguro, não tinha dúvidas de que ia enveredar por um caminho novo. Que experiência tão bonita!” Quando disse isto, levou a mão ao peito. (…)


[porém…]


(…) o cardeal Villot[3] dirigiu outra carta ao padre Arrupe, na qual afirmava: “Na ordem das coisas temporais, a promoção humana e o progresso social não devem ser exaltados acima do razoável, o que prejudicaria o significado essencial que a Igreja dá à evangelização ou o anúncio do Evangelho”.[4]

[in ‘PEDRO ARRUPE’, por Pedro Miguel Lamet, Tenacitas 2003, ISBN 978-972-8758-77-6, pp. 310-314.369-370. Preço: cerca de 28 euros]






[1] Itinéraire, p. 45. Para as declarações no Brasil, ver, por exemplo, as edições de 16, de 17 e de 28 de Abril de 1968 do diário bilbaíno La Gaceta del Norte.
[2] Ver Jornal ABC, de 21 de Maio de 1968.
[3] Jean-Marie, Cardeal Villot (Saint-Amant-Tallende, 11 de outubro de 1905Roma, 9 de março de 1979) foi um cardeal francês da Igreja Católica Romana. Nasceu em 11 de Outubro de 1905. Nomeado Cardeal Secretário de Estado da Santa Sé durante o papado de Paulo VI, em 1969, manteve-se até à morte dele e permaneceu no início da curtíssima era de João Paulo I, apesar da sua substituição se efectivar no dia 29 de setembro de 1978. A morte perene deste último permitiu que se mantivesse em funções durante os primeiros meses do papado de João Paulo II até à sua morte em 9 de março de 1979.
[4] Carta de 2 de Maio de 1975.