teologia para leigos

6 de fevereiro de 2013

OS POBRES - LUGAR TEOLÓGICO [FAUS]

A pergunta pelas vítimas
e pelo horizonte das vítimas

o «Anti-Reino» e o eclipse de Deus





[…] De tudo isto, as primeiras testemunhas da fé tiraram duas conclusões, as quais também nós procuramos não recordar:

A primeira é que «Deus nunca ninguém o viu», nem o poderá ver ou conhecer. O único modo de nos aproximarmos d’Ele é sob a forma dum «relato» (Jo 1:18)… e apenas na medida em que as nossas vidas sejam reflexo esse relato. Esse relato é o relato da vida de Jesus: o relato da trajectória do anonimato, da ultimidade e do desprezo que acabamos de referir. Nós, os cristãos, com frequência esquecemos que um bom relato faz pensar muito mais que uma esplêndida arquitectura conceptual.

Porque a Deus nunca ninguém o viu, a segunda conclusão foi que, todo aquele que pretenda amá-lo e conhecê-lo e que pretenda falar d’Ele à margem daquele relato, é um mentiroso. E mais: a única coisa que nos cabe fazer para o compreender melhor e nos aproximarmos um pouco d’Ele é dar de comer a quem tem fome, é de dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, visitar os enfermos e aliviar os presos, acolher os forasteiros… (Mt 25:31ss). Na hora da verdade, não nos será dito «estive no sacrário e vieste comungar», mas «tive fome e deste-Me de comer»…

Que nada disto sirva para nos sentirmos melhores que os demais ou superiores aos outros, mas para que, ao nos abeirarmos dessa multidão de pobres da terra, possa nascer nos seus lábios um sorriso e se abra para eles um caminho onde o melhor deles flua. Porque foi para isso - e por que esse é o único modo de temperar o que as primeiras testemunhas nos disseram – que se nos revelou «a ternura de Deus e o seu amor pelos seres humanos» (Tito 3:4).

«Vós sois um Deus dos pobres» - cantava a Missa nicaraguense. «Senhor de toda a história, que acompanha o nosso povo, que vive na nossa luta» - entoa o Sanctus da Missa salvadorenha… Nós fazemos tudo por afastar da nossa vista isso e damos-lhe outro culto: oferecemos incenso e ouro e roupas bordadas e catedrais luxuosas… Tudo isso será útil se em algum momento nos ajudar a compreender o que expusemos antes. Doutra forma será ridículo se com isso pretendermos conquistar Deus. Então, Deus repetirá aquilo que nunca se cansou de repetir ao longo da sua revelação bíblica: não me fazem falta as vossas oferendas, rio-me delas; a única coisa que vos peço é um coração suficientemente puro capaz de estremecer diante da minha Palavra e que trate de levá-la à prática no modesto relato das vossas vidas.

Tudo isto pode ser explicado em muitas páginas, mas só se chega a apreender através duma proximidade temporalmente longa e paciente junto daqueles a quem a primeira tradição chamou «Vigários de Cristo» e que foram os pobres (muito antes de serem os Papas). Trata-se dum processo obscuro e fatigante igual à noite dos místicos. Porém, tal como essas noites, é «amável, mais que a alvorada» dos nossos esplendores cúlticos. Só no fim de um processo assim é que se começa a entender isso que se diz: «os pobres evangelizam-nos». Evangelizam-nos, sim, não porque sejam mais santos e melhores (são, aliás, os únicos que têm direito a ser malandros e mal-educados), mas porque o servi-los é praticamente a única coisa que pode fazer mudar o nosso coração de pedra em coração de carne. A evangelização, em grande parte, é o anúncio dessa mudança.





Queiram ou não queiram todos esses que julgam estar com Deus sem estar com os últimos - os pobres são o primeiro lugar teológico. E, se a Igreja de Deus necessita de algo urgentíssimo, não é de doutores em direito canónico (que não fazem falta alguma), nem sequer de doutores em teologia (por muita falta que façam), mas de aqueles que poderíamos denominar de «doutores em pauperologia», doutoramento que não concedem as universidades romanas ou as estrangeiras. Mas, como já disse, ao longo do século XX, Deus prendou-nos com uma legião de doutores encartados nessa escola de vítimas e de últimos. Muitos deles, aliás, mártires; talvez, mártires não «canónicos», mas sem sombra de dúvida mártires «cristológicos». Pouco reconhecidos até à data; tal como Jesus. […]

José Ignaceo González Faus, sj

[13 pp.]


3 de fevereiro de 2013

BÍBLIA, «PALAVRA» DE DEUS? [QUEIRUGA]

Que significa afirmar que Deus fala?





O conceito “vulgar” de Revelação

A cada domingo, milhões de cristãos em todo o mundo escutam a leitura de uns quantos textos. No fim, o leitor diz: «Palavra de Deus». Trata-se de textos sagrados que remontam a dois ou três mil anos. Outrora, Deus falou. A teologia ensina que essa fala de Deus «terminou com os Apóstolos» e deu, como resultado, aquilo que designamos por BÍBLIA.

Quando estudamos mais de perto a Bíblia, apercebemo-nos que Deus falou em condições concretas, de modo extraordinário, a quem quis (a quem elegeu) e a quem transmitiu o que quis. Deus é livre de revelar quando, quanto e como bem quer.

Até há pouco, supunha-se que tal facto − a revelação de Deus − só ocorrera em Israel. Os restantes povos viviam num estado de «religião natural», produto da sua razão, procurando tactear esse Deus que havia falado noutro tempo e em outro lugar, esperando naturalmente que um dia também a eles lhes tocasse algo.

Não se pode dizer que tudo isto seja falso nem que não haja um pingo de verdade nesta afirmação. No entanto, ditas assim as coisas, de modo esquemático mas não deformado, é chocante e inaceitável.


Urgência de uma mudança da ideia de Deus

Mesmo para Deus, isto é inaceitável. Se purificarmos a Sua imagem, é incompreensível um Deus assim estranhamente particularista, para não dizer arbitrário. Criar toda a humanidade, mas revelar o Seu amor apenas a uma pequeníssima minoria é como um homem que tivesse muitos filhos, mas só cuidasse dum e deitasse os restantes ao lixo.

Ø  Porquê só a uns quantos e não a todos os outros?

Ø  Porquê não dizer tudo duma vez só e de imediato?

Ø  Como explicar que até ao séc. III aC tivesse mantido o seu Povo imerso na ignorância sobre a vida eterna provocando crises terríveis como a que o livro de Job relata?

Ø  Pior: como é possível que Deus diga que, em certas circunstâncias, tem que ‘passar a fio de espada’ cidades inteiras − o herem ou anátema[1] −, ou, que iria mandar descer a peste sobre o Povo (2 Sm 24) porque o Rei havia pecado (ainda por cima, instigado a pecar por Deus: cf. 2Sm 24:1-17), ou, que castiga a culpa dos pais sobre os filhos até à quarta geração (Ex 34:7; Nm 14:18)?

É doloroso ouvir tais afirmações. No entanto, a simples consulta de qualquer dicionário bíblico permite alongar ainda mais a lista. Importa deixar fluir a irritação e orientá-la na direcção correcta como uma espécie de convite à reflexão radical e honesta sobre um tema que importa enfrentar com urgência.

A manter-se a reflexão ”tradicional”, não se pode negar a evidência das consequências que ela acarreta. Lida assim a Bíblia, os cardeais romanos, em consciência, não podiam permitir que Galileu continuasse a afirmar que a terra se movia, quando é mais que evidente que o livro de Josué diz que «o sol se deteve» (Js 10:13); ora, isso equivalia a presumir que o Sol é que girava (e não a Terra). A única saída é reavaliar a nossa concepção da Revelação e interrogar-nos sobre o que queremos dizer quando proclamamos que um determinado texto é «palavra de Deus».


Necessidade de coerência radical

Não é só a ideia de Deus que exige mudança, mas é a própria vivência da fé que o exige e que o pressupõe a cada instante, porque a experiência religiosa implica que Deus se nos comunique AQUI e AGORA, a TODOS e a CADA UM, e de maneira SEMPRE renovada.

De cada vez que oramos damos por adquirido que “falamos” com Deus e que Ele nos responde, e, por isso, procuramos saber dos movimentos da Sua graça no nosso ser. Todos desejamos saber o que Deus nos quer dizer, que caminhos deseja Ele para a nossa realização plena, que quer que façamos para que com isso possamos ajudar os outros.

Não estamos acostumados a chamar a isto “revelação”, mas que o é, é. Não o conceber assim é fruto duma visão deformada que faz da «palavra de Deus» algo longínquo, algo acontecido in illo tempore. Como consequência, opera-se na nossa vida um dualismo: por um lado está aquilo a que chamam «palavra de Deus» e, por outro, caminha a vida da oração, a experiência da graça. E tudo reforçado pela mentalidade deísta: separação entre o «natural» e o «sobrenatural».

Como resultado, surge a “má consciência”, que ‘fala’ umas coisas mas ‘faz’ outras, que vive dividida entre a teoria e a prática:

Ø  A Revelação (teoria) acabou outrora, mas Deus está presente na nossa vida (prática);
Ø  Deus falou apenas a alguns, poucos (teoria), mas vela por todos (prática);
Ø  Deus só fala através das Escrituras (teoria), mas comunica-se-nos na oração (prática), etc.

É um conflito muito grave, que afecta bastante a nossa vida e que faz parte desse tal síndroma que, para muitos, tornou incompatível e Cultura Moderna. Hegel viu aí o cume da «consciência desgraçada», da consciência dividida entre a fé em Deus e a afirmação do humano. E indicou as falsas saídas: fideísmo («iluminismo / ilustração insatisfeita»), que se recusa a pensar a fé nesta situação que é a nossa, e racionalismo ilustrado, que abandona a Fé deixando-nos apenas com o pensamento / Razão.


Um novo paradigma

Tudo o que é novo desconcerta. A secularização e o ateísmo são os sinais maiores duma crise que tudo atingiu. Porém, a novidade costuma também ‘trazer o seu pão debaixo do braço’… As grandes mudanças costumam ser a resposta a uma necessidade do seu tempo, o que quer dizer que, debaixo dessas grandes mudanças, há forças que trabalham a história procurando reorganizá-la de uma maneira nova, de uma maneira mais de acordo com o estado actual da humanidade. Quando a organização nova alastra pelo conjunto todo, então, fala-se em «mudança de paradigma».

Não se trata de ajustamentos pontuais, mas dum todo que se move e estrutura à procura duma nova compreensão global. Essa mudança não anula a situação anterior: procura compreendê-la e vivê-la doutro modo. No que diz respeito às experiências profundas que têm a ver com as raízes permanentes do humano, exigem ser traduzidas em novas circunstâncias. Tratando-se da fé, isso é mais que óbvio.

Há sempre a tentação da inércia: negar a mudança ou defender-se dela com meras adaptações pontuais. Como o demonstrou Thomas Kuhn em relação à ciência, isto chega a acontecer em espaços onde, (…)

Andrés Torres Queiruga






[1] Cf. VOCABULÁRIO DE TEOLOGIA BÍBLICA, org. Xavier Léon-Dufour, Vozes, Petrópolis, 20058, pp. 51-52.

31 de janeiro de 2013

MÍSTICA DA FELICIDADE E MARGEM [CASTILLO]

A Fé cristã
numa teologia de fronteira




I - Introdução

Há uns anos atrás, um romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, levou ao conhecimento de muita gente a importância desmesurada e até criminosa que se atribuía, nos conventos cristãos do século XII, ao tema do riso. Penso que muitos leitores devem ter julgado que aquilo era um exagero do escritor e que nada se poderia ter passado assim. (...) Por mais lamentável que seja, de facto, as coisas passaram-se mesmo assim. (…) Por exemplo, já no século IV, a primeira regra monástica que conhecemos – a Regra de Pacómio – diz que se um monge se rir durante o tempo de oração ou de leitura espiritual, deve ser repreendido severamente pelo prior do convento. Por outro lado, a Regra de Basílio dedica um capítulo inteiro a demonstrar que Cristo nunca se riu durante toda a sua vida. A razão que o próprio Basílio dá para semelhante doutrina é que o riso é expressão da intemperança, a qual faz parte do «prazer» (hedoné). (…) [o Autor cita muitos outros exemplos: Regra de S. Bento, jansenismo, etc.]

Uma Igreja que soe a sacrifício, resignação, pena e morte é uma Igreja condenada à marginalidade e a que só gente muito esquisita lhe ligue e possa aceitar a sua mensagem. Não é exagerado assegurar que o futuro do cristianismo está ligado à sua mensagem de felicidade e de bem-aventurança. A Europa é o continente menos religioso do mundo, porque é o continente no qual a religião se dissociou, de modo muito radical, dos anseios de uma vida vivida em paz e em felicidade. O abandono massivo dos jovens, que não querem saber da Igreja para nada (por mais que as concentrações em torno do Papa possam dar a entender o contrário), é a prova de que, quem procura com afinco a felicidade na vida, prescinde da religião e da Igreja para o conseguir.

Que fazer de modo a recuperar a alegria das primeiras gerações de cristãos?

Não será, certamente, procurar recuperar a cultura do passado. Parece-me que as decisões mais urgentes passarão por três coisas:

1) Abandonar definitivamente o Deus violento e ameaçador do Antigo Testamento. Colocar, no seu lugar, o Deus que se nos revelou no homem Jesus de Nazaré.

2) Abandonar para sempre a ética do dever e das obrigações. E colocar no seu lugar a ética da necessidade ou, mais exactamente, a ética das necessidades básicas que as pessoas sentem.

3) Abandonar para sempre a espiritualidade da dor e do sacrifício. E colocar no seu lugar a espiritualidade da felicidade, ou seja, uma espiritualidade como projecto felicitante para as pessoas que vivem perto de nós.

O mais urgente de que necessitamos, como cristãos, é assumir e fazer nossa a mística da felicidade.

Até agora pregaram-nos a mística da renúncia e do sacrifício, a mística da dor e da obrigação, a mística do heroísmo e da entrega. Tudo isso contém parte da verdade, conquanto esses conceitos sejam entendidos correctamente. O que agrada a Deus é que, na medida do possível, os seus filhos e filhas sejam felizes e vivam gozosamente a vida. O que acontece é que a felicidade somos nós que a temos de proporcionar uns aos outros. Somos nós que nos temos de fazer felizes. Não será Deus a dar-nos a felicidade como uma espécie de maná que virá do céu. A felicidade é a grande tarefa dos cristãos e, portanto, de todos os seres humanos. Acontece, porém, que é muito menos exigente e custoso dar a felicidade aos outros do que superar e vencer os nossos próprios vícios e paixões. Até porque, para dar felicidade aos outros, temos que começar por organizar a felicidade em nós próprios, e isso só acontece quando somos sensíveis àquilo que agrada aos outros, levando-nos a renunciar a muitas coisas que nos agradam a nós para que os outros se sintam bem.

A estonteante expectativa e o grande sonho dos primeiros que acreditaram em Jesus teria que coincidir com um mundo em que todas as pessoas vivessem atentas àquilo que faz felizes os outros, sensíveis ao que dá alegria, ao que cria bom ambiente, ao que produz bem-estar e faz sorrir as pessoas. É um facto que Jesus só podia ser uma pessoa assim – Jesus foi assim. Quando, nas Bodas de Canã, converteu a água em vinho, não sabemos se fez um milagre para mostrar que era Deus. E não o sabemos porque não é claro para nós se isso estava na sua mente na altura em que o fez ou se tudo apenas não passou de posterior especulação teológica. O que, com toda a certeza, sabemos é que ele converteu muitos litros de água, que ali estavam destinados às purificações rituais dos judeus, no melhor vinho que ali alguma vez se bebera. Ou seja, o que Jesus realmente fez foi converter obrigações religiosas em gozo e alegria, que é o que o melhor vinho realiza.

É por isso que, muitas vezes, eu me ponho a sonhar.

Sonho com o dia em que os cristãos vivam a mística da felicidade.

Sonho com o dia em que a Igreja converta a água dos seus rituais em vinho de festa de casamento, em festa da vida até ao excesso e ao limite do gozo.

Sonho com a religião dos que alargam o sorriso, mesmo que os que assim riem por dentro chorem.

Sonho com um mundo mais suportável e uma vida mais leve, mundo e vida que acontece sempre que alguns conseguem que a vida de uns tantos seja, dia-a-dia, melhor.

Para terminar, uma observação importante: a felicidade não se impõe por mandato nem se ensina na doutrina. A felicidade contagia-se, isto é, aquele que é feliz faz feliz os que o rodeiam e que com ele convivem. A capacidade de contagiar felicidade é determinante para quem quiser falar de Deus.


II - A fé cristã numa teologia de fronteira

Começo por recordar algo que se nos impõe com demasiada evidência: tal como nos é apresentada oficialmente nos discursos da instituição eclesiástica, a fé cristã interessa a cada vez menos pessoas, e, àqueles a quem interessa, a cada dia que passa, ela coloca cada vez mais dificuldades.

É por isso que, nos ambientes religiosos, tão frequentemente se fala de crise da fé em Deus, de crise da prática religiosa, de crise da Igreja, de crise do sacerdócio, de crise da vida religiosa, de crise de vocações e de tantas outras crises que seria penoso enumerá-las todas.

Falar de crise é o mesmo que falar de uma mutação importante no desenvolvimento dum processo (…) neste caso, da fé cristã. (…) Diante de nós temos muito claramente os indicadores que nos falam duma mudança, de uma transformação muito profunda no que diz respeito à fé, à nossa maneira de a entender e viver. (…) Os indicadores não apontam apenas para indivíduos que atravessam situações críticas, mas (…) um processo que afecta a sociedade, a cultura, a nossa maneira conatural de nos pensarmos a nós mesmos e de pensar aquilo que nos rodeia, desde o mais humano ao mais divino. (…)

Tendo isto como um facto, somos forçados a viver a fé numa situação de fronteira, de uma forma que, em não poucas situações, se poderia denominar de situação marginal. Três questões. Vejamos.


1. O problema hermenêutico

(…) Como toda a gente sabe, existe uma hermenêutica bíblica, ou seja, uma teoria genérica acerca da compreensão e da interpretação dos textos da sagrada Escritura. Tal esforço de compreensão e de interpretação é, a nosso ver, mais do que indispensável, dada a distância temporal que nos separa desses textos, escritos há muitas centenas de anos e, portanto, em contextos históricos e culturais muito distintos do nosso. (…)

Quer o símbolo de Niceia, quer o de Constantinopla foram elaborados no séc. IV, ou seja, há mais de mil e seiscentos anos. Também sabemos que esses textos foram escritos numa cultura que já não é a nossa, numa linguagem que não é a nossa e como resposta a problemas que, em boa medida, não são nossos. Por outro lado, não podemos esquecer que no «Credo» se expressa o conteúdo essencial da nossa fé. Ou seja, no Credo afirma-se aquilo que pensamos sobre Deus e a origem do mundo, sobre Jesus Cristo e o significado da nossa salvação e da nossa esperança, sobre a acção do Espírito Santo e sobre a presença da Igreja nas nossas vidas. Isto é de tal importância que nos devemos sentir obrigados a pensá-lo e a dizê-lo segundo as formulações que nos digam algo a nós, e não segundo o modo como o disseram os homens da Igreja do século IV, inevitavelmente condicionados pela sua situação cultural, religiosa e política. (…)

Importa recordar que, segundo o concílio Vaticano II, a fé é (…)

José Maria Castillo



25 de janeiro de 2013

MINHA VIDA: BOA-NOVA P/ OS POBRES? [VIGIL]

A BOA NOTÍCIA



Chegamos a Nazaré, ao povoado onde Jesus havia sido criado. Eu fiz a viagem com ele desde Cafarnaum. Era sábado, dia de descanso. Na primeira hora da manhã os nazarenos apertavam-se na pequena e dividida sinagoga. Os homens vinham envoltos nos seus mantos de listas negras e brancas. Alguns entravam mascando tâmaras para matar a fome, embora isso fosse proibido. As mulheres ficavam à parte, segundo o costume, atrás da grade trançada. Ali, entre as demais aldeãs, estava também Maria, a mãe de Jesus.

Todos: “Escuta Israel / o Senhor é nosso Deus / só ele é o Senhor. / Amarás o Senhor teu Deus / com todo o teu coração / com toda a tua alma e com toda a tua força. / Fiquem gravadas estas palavras que eu te mando hoje...”

Começávamos a cerimónia rezando em coro a oração da manhã. Depois vinham as dezoito preces rituais. Quando chegou o momento da leitura, o velho rabino fez um sinal para Jesus, que estava ao meu lado. Jesus abriu passagem entre os seus vizinhos e aproximou-se do estrado onde estavam guardados os livros santos... Um jovem abriu a caixa de madeira de sândalo e tirou os pergaminhos. Naqueles rolos estava escrita, em letras vermelhas e pretas, a Lei de Deus. Era a Santa Escritura onde os sábios de Israel, ao longo de mil anos, haviam esquadrinhado cada palavra, detrás de cada sílaba, a vontade do Senhor. Jesus tomou o livro do profeta Isaías. Desenrolou o pergaminho, levantou-o ao alto com as mãos e começou a ler aos tropeções, como lêem os camponeses que não tiveram muita escola...

Jesus: “O espírito do Senhor está sobre mim. O Espírito do Senhor me chamou e me envia aos pobres para dar-lhes a boa notícia que tanto esperam: a sua libertação! Os corações feridos serão curados, os escravos sairão livres, os presos verão a luz do sol. Venho apregoar o Ano da Graça do Senhor, o Dia da Justiça do nosso Deus: para consolar a todos os que choram, para pôr sobre suas cabeças humilhadas uma coroa de triunfo, vestidos de festa em vez de roupa de luto, cantos de vitória em vez de lamentações.”

Jesus acabou de ler. Enrolou o pergaminho, devolveu-o ao ajudante da sinagoga e sentou-se em silêncio. Todos tínhamos os olhos cravados nele, esperando o comentário daquelas palavras. Jesus também parecia esperar alguma coisa. Com a cabeça entre as mãos, notava-se que estava muito nervoso. Ficou assim alguns momentos. Depois pôs-se em pé e começou a falar...

Jesus: “Vizinhos ... eu ... eu ... na verdade, eu não sei falar diante de tanta gente... Perdoem-me se... se não sei falar como os sacerdotes ou os doutores da Lei... Bem, eu sou um camponês como vocês e não tenho muitas palavras... De qualquer modo, eu agradeço ao rabino por me convidar para comentar a Escritura...”

Rabino: “Não fiques nervoso, rapaz! Diz qualquer coisa que te ocorra. E depois, conta-nos um pouco o que aconteceu em Cafarnaum, aquela história do leproso... as pessoas andam a dizer muitas coisas estranhas...”

Jesus: “Bem, vizinhos, eu queria dizer-lhes que... que estas palavras do profeta Isaías são... são algo muito grande. Estas mesmas palavras eu ouvi-as do profeta João lá no deserto. João dizia: «Isto vai mudar. O Reino de Deus aproxima-se». E eu pensava: sim, Deus traz algo entre as mãos, mas... mas o quê? O que é que tem de mudar...? Por onde começa o Reino de Deus?... Não sei, mas agora, quando acabo de ler estas palavras da Escritura, parece-me que compreendi do que se trata.”

O cheiro de suor dos nazarenos misturava-se com o incenso queimado e quase não se podia respirar. O ar quente da sinagoga começou a tomar conta de tudo. Jesus também suava muitíssimo...

Jesus: “Vizinhos... escutem-me... eu... eu... anuncio-vos uma alegria muito grande: a nossa libertação. Nós os pobres, temos passado a vida dobrados sobre a terra, como animais. Os grandes puseram-nos um jugo muito pesado sobre os ombros. Os ricos têm-nos roubado o fruto do nosso trabalho. Os estrangeiros apoderaram-se do país e até os sacerdotes se passaram para o lado deles e ameaçam-nos com uma religião feita de leis e de medo. E assim estamos, como nossos avós no Egipto, nos tempos do Faraó. Temos comido um pão amargo, temos bebido já muitas lágrimas. E tantas pancadas nos deram que chegamos a pensar que Deus já se esqueceu de nós. Não, vizinhos, o tempo cumpriu-se e o Reino de Deus está perto, pertíssimo.”

O velho Ananias, dono do lagar e do moinho de azeite, dono das terras que marginavam a colina de Nazaré e se estendiam até Caná, levantou o seu bastão como se fosse um longo dedo acusador:

Ananias: “Escuta aqui, rapaz, filho da Maria, que loucura é essa que estás a dizer? Queres explicar-me o que é que tem de mudar? A quem te estás a referir?”

Jesus: “Tudo tem que mudar, Ananias. Deus é um pai e não quer ver os seus filhos tratados como escravos, nem mortos de fome. Deus pega o nível, como o pedreiro, para nivelar o muro: nem ricos, nem pobres, todos iguais; nem faraós nem escravos, todos irmãos; Deus desce do andaime do céu e põe-se do nosso lado, os espezinhados deste mundo. Não ouvimos sempre dizer que Deus ordenou o Ano da Graça? Não acabamos de escutar isso?... Deus quer que a cada cinquenta anos haja um ano de trégua. Que a cada cinquenta anos se rasguem todos os títulos de propriedade, todos os papéis de dívidas, todos os contratos de compra e venda. E que a terra seja dividida em partes iguais entre todos. Porque a terra é de Deus, e de Deus também tudo o que existe nela. Que não haja diferenças entre nós. Que a ninguém sobre e a ninguém falte. Isso foi o que Deus ordenou a Moisés há mil anos, e no entanto está à espera porque ninguém o cumpriu. Nem os governantes, nem os proprietários de terra, nem os usurários quiseram cumprir o Ano da Graça. E já é hora de que ele se cumpra!”

Todos estávamos em silêncio, com a boca aberta, assombrados de quão bem se expressava o filho do operário José, o filho da camponesa Maria...

Um vizinho: “Essas palavras soam bonitas, Jesus. Mas com palavras não se come. «Libertação, libertação...!» Mas, para quando, diga-me, para a outra vida, para depois da morte...?

Jesus: “Não, Esaú. Na outra vida seria muito tarde. O Ano da Graça é para esta vida. O Reino de Deus começa nesta terra.”

Outro vizinho: “Quando então? Quando os ricos amolecerem o coração e repartirem connosco o dinheiro que têm acumulado?”

Jesus: “As pedras não se amolecem por dentro, Simeão. Faz falta um martelo.”

Suzana: “Quando então, Jesus, quando é que se vai cumprir essa profecia que você acaba de ler?”

Jesus: “Hoje, Suzana. Hoje mesmo. Hoje vamos começar. Claro que não é luta apenas para um dia. Uma rocha não se rompe com uma martelada só. Talvez passemos outros mil anos como Moisés. Ou dois mil. Mas nós também cruzaremos o Mar Vermelho e seremos livres. Hoje pomo-nos em marcha!”

Jesus já não tremia. Com as suas duas mãos, grandes e calejadas, agarrou-se fortemente à borda do estrado e respirou fundo como quem toma impulso para dar um salto... Ia dizer algo importante.

Jesus: “Eu queria dizer-lhes... Eu sinto na minha garganta, apertadas como flechas na mão de um guerreiro, as vozes de todos os profetas que falaram antes de mim, desde Elias, aquele valente do Carmelo, até ao último profeta que temos visto entre nós: João, filho de Zacarias, a quem aquela raposa do Herodes mantém preso em Maqueronte. Vizinhos, a paciência de Deus esgotou-se! Esta Escritura que vos acabo de ler não é para amanhã: é para hoje. Vocês não percebem? Está-se a cumprir diante de vocês.”





O velho rabino coçou o cocuruto com ar preocupado...

Rabino: “O que é que tu queres dizer com isso de que se está a cumprir diante dos nossos olhos? Diante dos meus olhos eu tenho o Livro Santo da Lei, bendito seja o Altíssimo. E junto do Livro estás tu, a comentar o que leste nele.”

Jesus: “Eu faço minhas as palavras que estão escritas neste Livro... Perdoem se lhes falo assim, vizinhos, mas...”

Jesus deteve-se. Olhou-os a todos lentamente como que pedindo permissão para dizer o que ia dizer...

Jesus: “Quando o profeta João me baptizou no Jordão, eu senti que Deus me chamava para proclamar esta boa notícia. E por isso, eu quero hoje...”

Um vizinho: “Toma cuidado com o que dizes, Jesus! Quem pensas que és? Do modo como falas parece que te estás a comparar com o profeta Elias e com João o baptizador!”

Jesus: “Eu não me comparo com ninguém. Eu só anuncio a libertação para nós, os pobres.”

Um ancião, com uma dupla corcunda como os camelos soltou uma gargalhada!

Um velho: “Médico, cura-te a ti mesmo!”

Jesus: “Por que me diz isso de médico cura-te a ti mesmo?”

Velho: “Como por quê? Porque se nós estamos mal, tu estás pior!... De que miséria é que nos vai tirar, se tu és o maior esfarrapado de Nazaré? Olha a tua mãe aí, atrás da grade... Vamos, dona Maria, não se esconda, que todos a conhecemos aqui. E teu pai José, que descanse em paz, quem foi? Um pobre diabo como todos nós. E olha aqui teus primos e tuas primas... Pelos cabelos de Abraão, de que é que tu vai livrar-nos se não tens nem um tostão no bolso?”

Uma vizinha: “Eu acho que a droga subiu à cabeça desse moreno!”
Rabino: “Esperem, irmãos, deixem-no falar. Deixem-no falar!”
Vizinho: “Chega de palavreado! Faz um milagre!”
Vizinha: “Isso mesmo, um milagre!”
Vizinho: “Conta-nos o que aconteceu em Cafarnaum! Se é que aprendeste alguma bruxaria para limpar leprosos e curar as viúvas com febres ruins!”
Vizinha: “Foi você, dona Maria quem ensinou seu filho a fazer esses truques?”
Rabino: “Um momento, um momento!... Jesus, tu estás a ouvir o que eles dizem? Eles têm razão, filho! Tu vens falar-nos de libertação? Começa aqui no teu lugarejo, pois uma boa caridade começa em casa.”
Vizinho: “Se tu curaste os leprosos de Cafarnaum, cura os daqui!”
Vizinha: “Vamos, de que estás à espera?... Olha como tenho as pernas cheias de feridas!...”
Jesus: “A história repete-se, vizinhos. A história repete-se. Nos tempos do profeta Elias havia muitas viúvas necessitadas, mas Elias foi enviado à cidade de Sarepta, uma terra estrangeira. E nos tempos de Eliseu havia muitos leprosos em Israel e o profeta curou a Naaman o sírio, que também era um estrangeiro.”

Vizinho: “Ei, espera: o que estás a querer dizer com isso?”
Jesus: “Nada, somente que o mesmo sempre se repete. Que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Está bem, eu vou de volta para Cafarnaum.”

Os nazarenos começaram a vaiar e a assobiar Jesus...

Vizinho: “É melhor que tu te voltes mesmo para Cafarnaum... Nunca se viu charlatão maior que tu...”

Todos: “Charlatão!... Embusteiro!... Tirem-no daí!... Fora, fora!...”

Os homens com os punhos fechados, lançaram-se sobre o estrado onde estava Jesus, enquanto as mulheres gritavam por trás da grade. A barafunda tinha começado e as velhas pedras da Sinagoga estremeceram com a gritaria dos Nazarenos.


Comentários

Em Nazaré, na aldeia onde tinha sido criado, Jesus faz a primeira proclamação pública da boa notícia que Deus anuncia aos pobres. Neste texto aparece, sobre a base duma promessa feita setecentos anos antes pelo profeta Isaías, um resumo do que será a vida de Jesus e do que é, em essência, o Evangelho: Libertação para os oprimidos.

Esta é uma passagem básica e central para a compreensão da fé cristã. Na actual Nazaré, conserva-se uma pequena sinagoga construída sobre os restos da do tempo de Jesus. Aquela deve ter sido uma construção ainda menor da que vemos hoje, pelo fato de a aldeia ter tão poucos habitantes. Como todas as sinagogas, estava orientada de tal forma que, ao rezar, o povo olhava para o Templo de Jerusalém, centro religioso do país.

Na sinagoga, as mulheres não se misturavam com os homens. A elas estava destinado um lugar separado por uma grade. Tampouco na sinagoga as mulheres podiam ler em público as Escrituras nem fazer seu comentário.

Quando o povo se reunia aos sábados na sinagoga começava a oração sempre com a recitação da “Shemá” (“Escuta, Israel...”, Dt 6,4-9), uma das preces preferidas da piedade judaica. Depois vinham outras 18 preces rituais que precediam a leitura das Escrituras. O lugar mais sagrado da sinagoga encontrava-se na parede que se orientava para Jerusalém. Ali se guardavam os pergaminhos da Thora (Lei), onde estavam escritos os livros que hoje lemos na Bíblia (Antigo Testamento). Não eram livros como os actuais, mas pergaminhos enrolados. Eram guardados em caixas de madeira lavradas artisticamente. Jesus, como todos os israelitas de seu tempo, falava em aramaico. O aramaico é uma língua do mesmo tronco linguístico que o hebraico, e ainda é falado em algumas aldeias da Síria. Era utilizado em todo o país de Israel como língua familiar e popular desde uns cinco séculos antes do nascimento de Jesus. A partir daquela época, o hebraico limitou-se a ser a língua dos doutores da Lei.

Em hebraico também se escreviam as Escrituras. O rolo em que Jesus leu na sinagoga era escrito em hebraico. Daí a dificuldade de Jesus, nada familiarizado com essa língua culta e, como camponês, homem de pouca leitura. O costume era que qualquer dos homens presentes na sinagoga lesse um fragmento da Escritura e depois o comentasse segundo a sua inspiração, diante dos conterrâneos. Essa era uma missão dos leigos, não exclusiva dos rabinos.

O texto que Jesus lê e comenta é Isaías 61,1-3. A decisão com que Jesus fala do Reino de Deus, da libertação, incomoda os seus vizinhos, que nem aceitam nem podem acreditar que um pobre coitado saído de entre eles possa vir libertá-los de alguma coisa. É muito frequente que tenhamos resistência em admitir como “salvador” alguém próximo, simples e busquemos sinais grandiosos, salvadores que venham de fora, que sejam extraordinários, superiores, diante de quem rendamos admiração.

Mas o plano de Deus é o contrário. Ele revela-se no mais pobre, no mais humilde. O ano da Graça era uma instituição legal muito antiga que remontava aos tempos de Moisés. Chamava-se também Ano do Jubileu, porque era anunciado pelo toque de um instrumento chamado, em hebraico, “yobel”.

Esse Ano da Graça devia cumprir-se a cada cinquenta anos. Ao chegar essa data, as dívidas deviam ser anuladas, as propriedades adquiridas deviam voltar aos seus antigos donos (com a finalidade de evitar acumulações excessivas), os escravos deviam ser postos em liberdade. Essa lei era uma forma de proclamar que o único dono da terra é Deus. E do ponto de vista social essa lei ajudava a manter unidas as famílias com um património suficiente para uma vida digna.

Era também um memorial da igualdade original que havia quando os filhos de Israel chegaram à Terra Prometida, quando nada era de ninguém e tudo era de todos (Lv 25, 8-18). No mesmo sentido ia também o Ano Sabático, que devia ser celebrado a cada sete anos.

Estas instituições legais eram entendidas como leis de libertação. Assim o proclama Jesus. E, fiel à tradição de seu povo, Jesus refere-se ao Ano da Graça como ponto de partida para iniciar uma mudança urgente no país, dada a grande diferença que existia entre pobres e ricos. Em Nazaré, na sinagoga do seu povoado, Jesus dá um passo importante na maturação da sua consciência. Ao aplicar a si mesmo a frase de Isaías “O espírito do Senhor está sobre mim” era uma forma de reconhecer-se profeta na linha de todos os profetas que o haviam precedido.

Depois da ressurreição, a Igreja Primitiva acumulou sobre Jesus títulos para descrever a sua missão: “Senhor”, “Filho de Deus”, “Cristo”... A história a que recorrem os evangelhos deixa ver, no entanto, que o título com que foi aclamado unanimemente pelo povo, e por seus discípulos, foi o de profeta.

O profeta define-se em oposição à instituição. Jesus não deve ser considerado como um teólogo ou mestre profissional. Mesmo que Ele fosse um mestre mais radical do que os demais, estaria enquadrado pela instituição. Não podia sê-lo. Faltava-lhe o que os mestres do seu tempo tinham - os estudos teológicos. A formação dos mestres era rigorosa, durava muitos anos, começava desde a infância.

Quando denominaram Jesus de “rabi” (mestre, senhor) estavam a aplicar a ele um tratamento que no seu tempo era familiar e corrente e que não deve ser traduzido como mestre no sentido de teólogo. Pelo contrário: Jesus foi acusado de ensinar sem ter autoridade (Mc 6,2). Quando fala na sinagoga não o faz tampouco como teólogo ou como mestre, mas como profeta leigo.


Jose Ignacio, Maria Lopez VIGIL

(cf. Mateus 13, 53-58; Marcos 6,1-6; Lucas 4,16-28)
 




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